
Parte oito
AS MÃOS SUJAS
"Um reino asséptico e metálico. Rainhas punidoras governarão os últimos milênios. De decadência e aberrações O rei é pasto de nosferatos, vamos capturá-lo! Seita imunda e feudal!"
(Versos iniciais de 'O Tarot', poema de Dédalo Vandalbrain atribuído a Albert Qace)
Talvez o íncubo já fosse o próprio Lester, visitando-me disfarçado (em se tratando de Lester, poderia usar a palavra travestido). Quem sabe? Estas transsubstanciações (metempsicose, ibbur) de um deus em criatura já podem ser encontradas na mitologia cristã, mas sua origem é clássica. Basta lembrar meu episódio preferido da mitologia grega, quando Zeus transformando-se em chuva de ouro para cortejar Danaë (fecundada pela chuva, Danaë pariu Perseu. O pai de Danae, Acrísio, rei de Argos, lançou mãe e o filho no mar, em uma barca frágil, que as ondas para as costas da ilha de Serifos - não lembra a estória de Moisés? O que veio primeiro, o ovo ou a galinha?). Zeus também se tranforma em Touro para seduzir Europa, a filha do rei Agenor, e se transforma em Cisne para seduzir Leda, uma princesa da Etólia (minha pintura preferida do factotum dedaliano Leonardo da Vinci). Mas divago, divago... Enfim, até hoje não sei o que é o meu íncubo de estimação: o fatos nunca são tão claros, quando se trata da nossa espécie. E, mesmo quando eu ainda estava viva, uma das coisas que eu curtia era sair à noite: A lua me inspira e o escuro me fascina. Como eu disse antes, qualquer lugar é bom para ir quando o sol já se pôs. E, assim, eu ficava fora de casa até altas horas. Inevitavelmente, associei-me aos poucos a companhias pouco aconselháveis. Conhecem a estórias dos sapos? Um sapo que seja jogado num recipiente com água já fervendo, salta imediatamente para fora, meio chamuscado. No entanto, outro sapo, colocado no mesmo recipiente, com água de sua lagoa, na temperatura ambiente, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. Ele morre inchado e feliz. Às vezes, somos sapos fervidos. Não percebemos as mudanças. Achamos que está tudo muito bom, ou que o Mal vai passar - é só questão de tempo. Creio que foi isso que aconteceu comigo. Baladas, carraspanas, orgias pagãs. De repente, eu estava levando uma vida dissipada e meus maiores companheiros eram mesmo os vícios e as ações inomináveis. Assim, eu era uma presa fácil para qualquer Mal maior. Poderia ter sido qualquer um - euzinha era um convite para marinheiros, ladrões, maníacos, estupradores, loucos, cães raivosos... vroloks (vulgarmente conhecidos como lobisomens), morcegões, assombrações, lâmias e outras criaturas indescritíveis das trevas... A lâmia não deve ser confundida com o lêmure, que é algo totalmente diferente. A lâmia, para quem não sabe, é uma criatura originária da Roma e Grécia antiga. São exclusivamente fêmeas, sendo geralmente metade humana, metade animal (quase sempre uma cobra, e sempre na parte inferior do corpo). Elas comem a carne de suas vítimas assim como bebem seu... vocês sabem, aquele líquido parecido com Slivovitz, o aguardente de ameixa dos Montes Urais. Podem, no entanto, ser atacadas e destruídas com armas normais. Talvez por isso, preferem atacar em bando e, às vezes, são acompanhadas pelos cretas Kathakanos, que só podem ser mortos se forem decaptados e a cabeça fervida em vinagre, ou pelos romanos Strigoiuls, que só podem ser destruídos se for posto alho em sua boca - ou removendo-se o coração. Como podem ver, o Mal tem muitas formas. A criatura que me atacou não foi uma lâmia, nem um psicopata. Mas foi a pior de todas as criaturas da noite. Por ironia, na Grande Noite em qua fui convertida, eu não estava farreando como sempre, mas retornando do cinema (sentia que, entre as latas de lixo, olhos sinistros me espiavam. Embora vestida, sentia que minha nudez era cuidadosamente avaliada por um olhar malévolo. Um olhar pensativo, memorizando cada curva e linha dos membros, cada movimento dos músculos sob a pele húmida, lustrosa. Toquei no mamilo esquerdo e, com surpresa, senti que era como tocar num pedacinho de pedra. Tolice, claro, mas a idéia era poderosíssima).
Eu tinha assistido O Pacto dos Lobos, estrelado pela bela Monica Bellabunda (Monica Bellucci, no Resto do Mundo). Ainda hoje penso que é como se eu tivesse ficado cativa da floresta retratada no filme. "Uma floresta misteriosa, úmida e ardente. Aquelas matas eram ermas, e ainda eram consideradas assombradas. Há cerca de cem anos, por ali escondia-se um monstro que mutilava crianças e mocinhas. Era conhecido como A Besta. Um enviando de Paris, junto com seu amigo índio, descobriu que tratava-se apenas de um exótico animal africano, com uma armadura, e treinado por uma seita de fanáticos fundamentalistas cristãos. A Besta era uma mensagem ao Rei, contra os avanços do iluminismo: A Besta era um símbolo da Fé". O Cinema é outro dos meus interesses inusitados (e que ainda hoje me fazem sentir viva novamente) e percebo quer tem me acompanhado desde o início, como testemunha este outro trecho do Diário da Época da Inocência da Keira: "O cinema é ótimo não só pelo filme, mas também pelo clima. Há algo de religioso em estar numa sala de projeção silenciosa e escura. Sim, lá estará sempre escuro - como uma noite incubada dentro do dia. Gosto mais do gênero terror e ação com romance. Meus filmes prediletos, entre tantos, são: Pânico, Velocidade Máxima, Missão Impossível, Entrevista com o Nosferatu, Onze homens e um Segredo, Dracula 200, entre outros. Destaque para a Halloween e A Volta dos Mortos-Vivos. Aliás, uma cena ótima do filme é quando várias pessoas que chegaram no lugarejo (lembro que há um cemitério afastado, de impressionante beleza plástica, onde as pessoas vão velar como se fossem a uma festa) já estão presas no porão, pois os mortos ambulantes estão soltos (eles sempre estão soltos, não é mesmo, Keira?). Quando um destes consegue derrubar a porta, é um desespero total, uma suruba do terror. Eu me identifico com esse filme. Mas claro que ainda não saio atacando ninguém por aí. De certa forma, sou uma pessoa comum como outra qualquer. Pelo menos, gosto de acreditar que sim. Outro filme ótimo e que já teve várias seqüências ótimas, e acho que logo terá mais algumas, é o Halloween. É a estória do terrível e temido Marcos Myer. Ele pretende matar sua irmã (afinal, no passado, ele já matou toda a família e só falta ela). Usa uma máscara engraçada e sempre volta no dia das bruxas". Mas voltemos à estória, ora bolas! Naquela noite chuvosa, após uma primavera quente e radiosa, eu assiti ao meu último pôr- de-sol. Eu ainda não podia saber que era o último, é claro, mas, curiosamente, por algum motivo, lembro-me daquele último crepúsculo como se o contemplasse todas as noites que se seguiram desde então. Lembro-me do disco redondo e vermelho como se fosse uma bola de basquete mergulhada num poço de sangue. Lembro-me dos tons furibundos de vermelho, como a sobrepeliz do Papa Inocêncio X, no célebre retrato de Velasquez: 'Uma onda de renda e de pintura' (Eu gosto da releitura do pintor homossexual Francis Bacon, em que o rosto do papa funde-se com o da enfermeira de O Encouraçado Potemkin, de Einsenstein, num grito agudo e dentado que ecoa por toda a eternidade. Pouca gente sabe, aliás, que foi um monstrinho que Bacon que inspirou as criaturas de H. R. Giger em RH+ - hummm - as quais, por sua vez, inspiraram o Alien de Ridley Scott. 'Modernices!', exaspera-se Lester; como se pode imaginar, ele prefere mesmo Velasquez, em especial 'Las Meninas': 'Uma teologia da pintura!'). Divago, divago. O vermelho menstrual do crepúsculo dissolveu-se e lembro-me como as sombras começaram a se coagular e se assenhorar do skyline da cidade como uma oleosa tinta maligna. É isso aí, amigos. Eu morri num beco sujo, espremido entre a Carolina Street e a Beaundry Place. 'Só carne proveniente de Kansas City', dizia o néon vermelho-sangue na montra de um açougue. Sobre as pedras do calçamento, impunemente, tranquilamente, passeavam ratazanas tão grandes como cockers spaniels - só que sem o registro de pedigree. Uma capa de peles acossada pelo vento. Latas de lixo escancaradas como os maxilares de um velhote que tivesse morrido com a boca cheia de comida podre. Pelo chão, escuros pedaços de carne vomitada. Ele me esperou oculto numa moita de eloendros.
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