
Parte três
A PREMONIÇÃO
Suas pernas para o ar, tal mulher luxuriosa, Suando venenos e clarões, Abriam de feição cínica e preguiçosa, O ventre todo exalações. Uma cadela atrás do rochedo tão preto Nos olhava de olhar irado Para logo depois apanhar do esqueleto O naco que havia deixado. Isso mesmo serás, rainha das graciosas, Aos derradeiros sacramentos Quando fores sob a erva e as florações carnosas Mofar só entre os ossamentos.
(A Carniça, in 'As Flores do Mal', de Charles Baudelaire)
É a minha cabeça, compreendem? Os meus sentidos - principalmente o olfato e a audição (sentidos lupinos) - estão muito mais aguçados, é claro. Mas as minhas idéias... às vezes penso numas coisas indevidas, coisas proibidas. Coisas que poderiam ser classificadas como novos tipos de crueldade. Deixa pra lá. Assim seja. Foram as circunstâncias, as coisas que me envolveram. Como se, de repente, e contra minha vontade, eles tivessem me envolvido com um casaco velho e poeirento - e eu não conseguisse mais despi-lo. Quem são eles? 'Os Pretorianos, os Lobos Maus, as Rodas da Fortuna', diz o general Lee Wozek, no meu capítulo preferido de O Caminhante. É brincadeira. Sinceramente, eu não sei quem são eles. Insisto neste ponto: Não sou, não era, uma pessoa extraordinária. Na verdade, eu não me considero nem mesmo uma garota criativa. E nem poderia ser muito diferente, devido à minha tenra idade e, sobretudo, à época em que vivemos. 'A Literatura está morta; o Cinema está doente', diria Dédalo Vandalbrain em suas famosas resenhas do site Oblivion. 'Aussatz Zeitgeist', diria meu tio-avô Mycrosoft Holmes: Tempos leprosos. (Lembrem-se que estes fatos aconteceram a cerca de 400 anos, no ano em que um camponês de El Graniones trouxe um lagarto que gritava como se fosse uma mulher). Sou apenas uma menina solitária. Minha bisavó paterna, Desmonda 'Diacuí' Daoukro Hoyte, a Flor de Campo, dizia que homens e mulheres sozinhos no escuro são como portas abertas. Quando isto acontece, os cadeados caíam da gaiola que prendia a imaginação, e qualquer coisa - qualquer coisa - podia entrar. Bem, as alucinações começaram e tornaram-se cada vez mais frequentes. Logo, eu deixei até de pintar, porque até algumas de minhas cerâmicas estavam me apavorando. A primeira alucinação aconteceu, creio, no primeiro ano da faculdade, na véspera do Dia de Todos os Santos. Eu voltava sozinha (para variar) de uma festa de halloween (ou simplesmente mais uma noite de esbórnia). Nada de mais nisto, também. Por enquanto. A lua cheia era como uma lanterna gigante iluminando o meu caminho. Um riso mofado num céu completamente negro, esquizóide. Olhei em direção a minha casa. Não sei porque, lembrei da célebre casa de Albert Qace, o Terrível Qasar de Guerra, em Barbital-Hoyo. A cadeira fora aos poucos se enterrando no gramado maltratado, o mesmo acontecendo com a casa que se via atrás, com sua tinta cinzenta descascando e o telhado decrépito. As janelas estavam desengonçadas. A chaminé incrinava-se num ângulo ébrio. As telhas, feitas de lascas de madeira, tinham sido arancadas no último temporal e ainda estavam penduradas num olmo moribundo. Não era nenhum Taj-Mahal. Pela primeira vez, notei que, a casa parecia uma grande caveira sob o luar. O portão é a boca. As janelas são os olhos. As sombras dos olmeiros, os cabelos. Mas havia alguma coisa errada. Ergui os olhos para andar de cima e detive-me, aturdida. Meu coração deu um pulo. Do lado de dentro da vidraça do meu quarto, no segundo andar, alguma coisa olhava para mim. 'Meu Deus!'clamei em voz alta. Eu não acredito em Deus. Mas: 'Não há ateus nas trincheiras, e poucos agnósticos na seção de cuidados intensivos', dizia Lester Silvius, meu mestre, com um silvo aveludado, piscando para mim aqueles sedutores olhos de velho, cheios de reuma. Por trás das vidraça embaçada como um diamante sujo, assustadoramente nítida, via-se a cabeça de um porco. Eu tinha certeza de que podia ver os dois horríveis olhinhos vermelhos e arregalados olhando para mim.
Também não sou uma garota medrosa. Corri para dentro de casa e subi a escadaria. Quando segurei a maçaneta da porta do meu quarto, banhada pela luz baça do luar, que entrava por uma janela do patamar do andar de cima, foi que, pela primeira vez, tive um indizível mal estar que - hoje sei - foi uma espécie de mau pressentimento. Sim, fui atingida fui atingida por tal premonição de horror - aquele horror terrível e atávico - e desgraça que tive que parar, com uma súbita impressão de frio. Olhei em volta, espantada, não entendendo as sensações que tomavam conta de mim. Os meus braços e costas estavam totalmente arrepiados. 'O que está havendo?', perguntei-me, confusa e assustada. Agora, o coração disparava, o couro cabeludo parecia gélido e subitamente pequeno demais para cobrir o crânio; podia sentir a onda repentina de adrenalina avançando por trás dos olhos. Os olhos realmente se arregalam quando o medo é extremo, eu sabia; não apenas se dilatam, mas se tornam salientes (pois a pressão sanguínea sobe e a pressão hisdrostática dos fluidos cranianos aumenta). O fedor do medo, o fedor ozônico da adrenalina, era o meu cheiro. Senti a urina fumegar e a cabeça prestes a explodir. `Que diabos é isso? - pensei - 'Fantasmas? Meus Deus, parece que, nesta escadaria, alguma coisa relamente roçou em mim, quase me atravessou; uma coisa que eu quase vi'. Prometo que falarei sobre isto no próximo capítulo.
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