
Parte onze
A MUTAÇÃO
Agora a Keira não tem olhos de verdade. E as serpentes que antes segurava, Devoram suas mãos.
('The Keira's Hunger', de George Seferis)
Entretanto, o alho, ou melhor, o ácido nicotídico presente em abundância no alho, realmente causa uma estranha alergia na pele da nossa gente. Não só o alho; há também os ácidos fólico, pantotênico e até a inocente Piridoxina. Uma amiga de infortúnio, Janete 'Rathbum' Eastwick, uma luterana gordinha, foi encontrada boiando no Rio Chappaquiddick. Janete deixou muitas saudades. Era uma Rakshasa, uma destas poderosas nosferati e feiticeiras indianas. Geralmente aparentam um ser humano com características animais (garras, presas, olhos em fenda, etc...) ou animais com características humanas (pés, mãos, nariz chato, etc...). O lado animal é muito comumente um tigre e elas comem a carne de suas vítimas além de beber o seu sangue (preferência de Janete, pois estava sempre de regime, a coitada). As Rakshasas podem ser destruídas por fogo extremo, luz do sol, ou exorcismo - mas os lábios de Janete estavam grosseiramente costurados e sua boca, entupida de tomilho silvestre. Minha estória é terrível? A de Janete tem detalhes tão ediondos que chegam a ser radioativos Outra substância nociva para nós é a warfarina (C6H11O7CaH2O; Peso molecular: 448,20; Aspecto: Pó cristalino ou granuloso), um poderoso anticoagulante, que costuma ser misturado à vaselina. E não sei se é assim para quem está vivo, mas para nós a aspirina tem uma composição semelhante à do LSD. A cada dia, tenho novas surpresas com minha nova condição: Aerofobia, Hidrofobia (apenas os sinais patognomônicos) por espasmos dos músculos de deglutição e respiração, já no sengundo ano da Transformação, e, recentemente, estou aprensentando os sintomas da Paralisia ascendente do tipo Landry. Talvez isto sej passageiro. Por outro lado, sinto-me mais forte e, como também já disse, com os sentidos mais aguçados. Como qualquer animal caçador. Aliás, como os cães, podemos transpirar pela língua, e o equilíbrio PH da saliva altera-se (torna-se mais ácida). Os dentes caninos não se desenvolvem e ficam pontudos, isto é besteira. Eles simplemente caem e são substituídos por outros, digamos, mais eficientes. Uma vez eu estava me despindo para o sono, quando meus dedos subitamente se congelaram sobre os botões. Minha língua encontrou uma flaha na fileira dos últimos dentes. Havia uma dor fosca e distante naquele local e um gosto desagradável em toda a boca. O dente estava entre os lençóis da noite passada. Paralelamente, aumenta a a intensidade parafuncional dos masseteres (os músculos nos lados da mandíbula, primariamente envolvidos em mastigação, não mordição), e num certo grau, dos pterigóides laterais (pequenos músculos nas juntas da mandíbula que a fazem abrir), mas ainda permitem contato canino para tensionamento excessivo das têmpora. Alguns de nós usam um aparelho NTI-tss para reduzir a intensidade da mordição ao explorar os mecanismos dos dentes incisores e evitar o contato dos dentes caninos e molares quando a mandíbula está centralizada, ou quando está em posições excursivas. Parece complicado? Você precisava ouvir Lester dissertando, afundado em sua poltrona, numa mansão do Faubourg St.-Marie, a ler a obra de Aristóteles ou Boethius, ou algum novo romance que atravessara o Atlântico pertencente a uma mulher que colecionava livros como se fossem pedras ou borboletas. A Literatura também não fala do processo de envenenamento urêmico. Como doeu aquilo! Por outro lado, a Literatura está correta quanto à nossa predileção pela noite. Mas não há nada de romântico nisto e, por favor!, nunca vi ninguém dormir num caixão! Nossa pele tem deficiência grave na síntese de grânulos de melanina e realmente 'queima' sob as irradiações ultravioleta do odioso Sol. O sol que pulsa venenoso. Hematomas fedorentos e queimaduras escuras. Desagradável! E nosso fluido vital (podese-se chamar assim aquela linfa asquerosa, putrefata - quase um formol - que corre nas nossas veias?) tem uma deficiência crítica em produzir hemoglobina. Daí nossa ´fome´ por determinados compostos protéicos... como aquela coisa Ah, deliciosa linfa, de gosto quente, acre e acobreado! que corre nas veias de quem ainda é humano. Chouriço, morcela, sangue coagulado, espesso de cortar à faca.
Mas tampouco isto não é sobrenatural. Compartilhamos este tipo de fome com criaturas perfeitamente naturais, como os morcegos hematófagos (Uroderma bilobatum?) - a propósito, sou colaboradora de uma ONG, o 'Projeto Morcego Livre', www.morcegolivre.vet.br. Não há estacas mágicas para transpassar o coração de monstros reais Aliás, ainda gosto muito de animais, embora agora seja um pouco diferente. Gosto principalmente cachorros, de todos os tipos e raças, mas prefiro os mais domésticos, esse é um tipo de animal que demonstra sentimentos por eles sempre se tornam amigos. Sim, nós costumamos atacar animais domésticos, como aves e mamíferos, para obter o único alimento que utilizamos. E dizem que alguns de nós têm a habilidade de se metamorfosear em animais, morcegos, ratos, lobo, gatos, ou outros menos nobres. E, por falar nisto, quem deixou todas esta gente esquisita entrar na minha cabeça? Enfim, os humanos parecem pensar em nós como se fossemos algo como funcionários da Receita Federal, mas insisto que, embora também não sejamos humanos, de certa forma somos criaturas tão naturais quanto lampréias ou doninhas raivosas. Aliás, alguns de nós são ricos como Lester e tem cheque especial, cartão de crédito, micro ondas, DVD, estas coisas que estão no centro da alma das pessoas de hoje. Outros são dipsomaníacos como Crockette Broo, o servo de Lester. Não importa: nossa moeda corrente sempre foi aquela saborosa groselha natural. 'Como todo mundo, preferimos ver alguem morrer do que suportar uma indelicadeza em nossa propria casa', dizia Lester, uma ruína cada vez mais enrugada e elegante. Pessoalmente, considero que o que eu tenho é apenas uma espécie de doença (para muitos de nós, é uma benção), uma ´hórrida infecção' não muito diferente de uma AIDs ou qualquer outra destas DSTs obsoletas como a sifilis ou a vulgar gonorréia. Talvez seja esta a maior ironia de todas: Eu era uma virgem quando Lester me contaminou. Assim como mantive meus traços adolescentes, permanecerei virgem por toda a eternidade. Jamais conhecerei os tão alardeados prazeres do amor físico. - Diga-me - perguntei eu a Lester, certa vez - Como é fazer amor? - Era algo apressado. - disse ele, como seus olhos perteitamente, friamente, encobertos pelo fino véu do enfado. Como pareciam sinceros! - E...algo intenso que rapidamente se perde. Acho que era uma sombra pálida do ato de matar.
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