
Parte doze
A IMORTALIDADE
Houve uma outra corrida, outras palmas se ouviram. Graças ao coração humano segundo o qual vivemos, Graças a sua ternura, suas alegrias, seus medos, Para Keira, a mais ínfima das flores que surge pode trazer Pensamentos que muitas vezes ficam fundos demais para lágrimas
(William Wordsworth in 'Intimations of Immortality'
Ou a 'Nova-Vida de Uma Não-Morta'. Minha vida fora calma e comum. Do passado, eu trouxe apenas o necessário. Mas fragmentos felizes de humanidade estão alojados no meu cérebro, machucando como estilhaços de bala. Recordações que despedaçam meu coração e fazem minha boca ficar seca. Viajamos muito. Eu queria conhecer o Nosferatu do Velho Continente. Lester queria novas formas de depravações. Estivemos em muitas festas, Milhares delas. Ou uma única, enfinita. As grinaldas que enfeitavam os cornos do Minotauro pareciam coágulos de sangue. nossa vida foi uma festa por algum tempo. Certa vez, imitando o Drácula de Copolla, Lester vestia uma armadura que lembrava o sangrento sistema muscular; Eu vestia uma árvore de louros. Noutra ocasião, nos vestimos como Marylin Manson e Rose McGowan na MTV Awards: ele como um coveiro transformista; eu, praticamente nua. Uma túnica telada expondo os seios, uma tanga de veludo entre as nádegas. Estou alcançando a Beleza. Fico irresitível quando uso meu peplo azul manchado de sangue purpurino dos répteis - cor que os pintores chamam de Rosa-Garança (Rose Madder, em inglês). Homens como o sátrapa Zygmunt Pawlus 'Turek' já tentaram me conquistar. Mas não é uma beleza angelical. É uma beleza fria, desligada. Uma beleza macabra. Tenho olheiras permanentes e sou mais pálida (clara como um pequeno sino de prata, prefere Lester). Isto é um eufemismo - a quem quem desejo enganar? Minha pele é agora branca como uma lápide sob a lua. Branca como um sepulcro caiado, com exceção dos lábios cor de mirtilo. Progride rapidamente algo que me parece um sutil variedade de decomposição E aroma da decomposição me fez lembrar de papai e mamãe queridos, que estão debaixo da terra por minha causa. Como eles deviam estar a transformar-se. decomposição que cozinha minha carne como uma doença exótica que só poderia ser contraída de um morto. Minha bisavó morreu com aquela terrível moléstia que começava com 'C', como certa vez disse eu a Patty Diphusa. A propósito, mais um pouco do Diário de Keila Youngblood: "Meu rosto antigo desliza sob as sombras macabras de uma enfermidade pior do que a lepra, que vai nos consumindo, enquanto nos enlouquece". Assim, no próximo verão poderei exibir uma bela tonalidade acinzentada de massa de vidraceiro (entre uma e outra aula de latim episcopal, Lester me ensinará também a ocultar esta nova cor com os seus cosméticos antigos; disfarces sempre foram a sua maior especialidade). Meus olhos são baços, como passas enfiadas num pão, os olhos de uma sibila cega. Mas, quando saio para caçar, tornam-se vermelhos, congestionados, animalescos. 'A animalidade da noite surge em asas tenebrosas', sentencia Lester. Meus novos dentes estão nascendo bem. Devo ter paciência é o que Diz o meu Mestre. É fácil para ele dizer isso. Ele, que tem aqueles dentes manchados, feios e completamente funcionais de um animal selvagem. E, às vezes, meu cérebro fica cheio de grasnidos de grandes corvos negros. Nestas horas, eu fico cheia de uma fome alucinada...!
Mudando de assunto, recentemente, eu comecei a dar aulas noturnas (é claro). Como os livros, o cinema e a música, é outra destas coisas que ainda me fazem sentir viva. Sempre me interessei por Política, devido à curiosidade de entender suas peculiaridades, e na escola uma das matérias que mais gostava era História. Depois que entrei na faculdade, tive a grata surpresa de me deparar com uma matéria de História Política, do qual gostei muito e tornei-me monitora. Permita-me exibir um trecho da minha tese:"Como já pregava o renascimento: O homem é fruto de suas ações e não de predestinação. Será? A História Política de uma nação é o que faz ela entender o presente e o que fazer para melhorar o futuro - e eliminar a miséria, desemprego, doenças incuráveis, terrorismo. E os regimes totalitários, conservadorismos, fascismos e nazismos, que sempre trazem conseqüências insidiosas. Um único humano sozinho - Hitler, por exemplo - é capaz de causar maior mal do que todos nós juntos. Aqui, no distante Brazil, temos um exemplo claro das conseqüências de um alicerce precário para a construção de uma Pátria auto-suficiente. Com a independência, a República mal constituída foi dominada por uma elite coronelista; depois, subiu ao poder Getúlio Vargas, com seu paternalismo populista e falacioso; enfim, um ditador, quase igual aos generais pós-1964, que também inseriu um uma total repressão social, cultural e educacional no país. A partir dos anos 80, tem estado na moda o desnudamento, pela mídia, das corrupções do poder. A internet, o neoliberalismo e a globalização são questões atuais. Dívida Externa, meio-ambiente, fome, ONGs, lei suprema, burguesia, transformações sócio-econômicas, novas forças no poder, choques entre a direita e esquerda, neoimperialismo e limitações de poder. Os políticos em geral são verdadeiros artistas da falsidade, e dependendo das circunstâncias que desconfio serem de certa forma casuais, recebem aplausos imerecidos um belo saldo de vaias merecidas. Tenho total aversão a políticos como Maluf e uma certa simpatia pelo Lula, apesar do seu governo pífio, até o momento. Enfim, tenho uma "simpatia" por partidos que tem uma ideologia socialista. A bandeira comunista já tem uma das cores que mais adoro, que é o vermelho... você podem imaginar porquê. Eu já gostava de vestir roupas de cores quentes ('Keira, a Laranjinha', ou 'o Moranguinho', dizia o obscuro Dédalo Vandalbrain). Mas, agora, só me visto da cor da noite. Afinal, ao que tudo indica, o futuro será negro". Não, isto é um tanto frio, mesmo para uma não-morta. Vou terminar estes momentos que passamos juntos falando de coisas mais agradáveis: Curtindo com a Keira. Continuo sendo solitária, obviamente ainda mais do que antes. Mas também continuo tendo aqueles poucos amigos muito especiais (embora agora sejam também um tanto 'excepcionais'). Uma destas amigas é Patrícia (Trícia) Pointers, uma das moderadoras do site www.cadaumcomseusproblemas.com.br. Ou Patty, a Estranha (Qualquer semelhança com Carrie, a Estranha, uma telecinética e piromaníaca de Chamberlain, Nova Inglaterra, é mera coincidência. Talvez por ser uma trekker e Exxer (X-Filemaníaca), Patty acredita ter sido abduzida por alíenígenas malévolos(´Pô, fim de carreira!', como diria a própria Patty), como naquele conto de H. P. Lovecraft, 'A Cor que Veio do Céu' . Juntamente com sua amiga Eqqa Riobamba Bambuí ,a sinuosa, Patty está envolvida no polêmico Projeto Bikini (não me refiro à detonação de artefatos nucleares no atol homônimo) e inspirou a protagonista de Patty Diphusa e Outros Textos', de Pedro Almodovar, que inclui um conto sobre outra amiga minha, Fadia Flo Floyd Ford, uma escandalosa e subestimada atriz do cinema artístico-alternativo-cabeça-pornô. Outra amiga sui generis é a performer e vagabunda Kátia Silene, sobrinha-enteada do próprio 'mestre' de Patty, o oblíquo e ubíquo Dédalo Vandalbrain (O que quer que seja 'ubíquo'; ele mesmo inventou este epíteto, ao descobrir a obra Ubik, de Philip K. Dick, o autor de Bladerunner, e outro escritor que recomendo). Outras amigas muitos especiais são a bruxa wicca Sianna e 'Baboseira sentiamentalóide da Era de Aquário!' - graceja Lester, ciumento. Connie Jo Wolf, um travesti dark que promove festas dignas de Gatsby, na Costa Leste. Há também Cerilla Torqatta, de quem falarei noutra ocasião - ela se considera uma espécie de 'Baobhan Sith' (buh-van she), ou seja, uma fada-demônio escocêsa (embora ela tenha nascido num plantação de batatas na Bélgica), que aparece como uma jovem mulher e dançará com o homem que achar até que o mesmo se esgote, para depois se alimentar dele. Pode ser morta por ferro frio. Ou mesmo do lacaio de Cerilla, o repelente e submisso e traiçoeiro Balthasar Klossowskyi de Rolla, o conde Balthus. Este, por sua vez, considera-se um druídico Dearg-Due, seres que têm que ser mortos sendo construído um monte de pedras sobre suas sepulturas. O Mestre de Cerilla (e, talvez de Lester - somos uma organização hierárquica) é o Senhor des Beringeux, que muitos acreditam ser uma pré-encarnação de Dédalo Vandalbrain - outro discípulo de Androscogin, o lado escuro, escuso, do Demiurgo de Interzone. Já tenho até mesmo um servo, o pobre e repelente desembargador Duplyssey Goldmann, uma espécie de rato-homem magritteano de meia idade. Está sempre ao meu redor, ou jazendo por ali, como algo extraído de um pesadelo escabroso. A língua encolhida a um canto, como uma coisa morta. Os intestinos quentes e cheios, o estômago em cãimbras terríveis. Mas também temos inimigos, como o exterminador Diclórvos Clorpyrifós, ou Zoltrix Szoltrixzollfurdö, uma ovelha negra entre os Cavaleiros Templares. Ele tem dedicado sua vida - e suas não desprezíveis habilidades - a exterminar nossa raça. É um nobre propósito? Não cabe a mim avaliar. Sei apenas que sua esposa e sua filha foram estripadas por Springheel Hallyburlingame, um de nossos colegas da Europa Central, vítima de um acesso incontrolável da fome que conheço bem. Nem todos de nós temos a mesma classe, aquela invejável fineza aristocrática dos Grandes Mestres. Quanto a acabar conosco... tenho minhas dúvidas. Nós somos mais antigos que o homem. Já cita um verso do poema bíblico 'Tarot', épico da mitologia interzonense: "O rei é um nosferatu, vamos capturá-lo! Pasto de nosferatus, seita imunda e feudal! ". "O monstro não morre nunca", dizia Lester, para quem foram inventadas as palavras sórdido, sinistro e solitário, plagiando uma frase de Stephen King's Cujo"
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