O DIÁRIO DE KEIRA YOUNGBLOOD





"As trevas estão por toda parte,
não há como ignorar,
fingir que não é nada.
O espírito sabe;
procura esquecer,
mas Aquilo pode estar ali.
Desesperadamente."


(Claude Kalú)







Parte um
A CARTA




Banho-me de suor, e tremo toda, Logo fico verde como as ervas, Pouco falta para que eu não morra ou enlouqueça.
(Sapho, poetiza grega da Ilha de Lesbos)


Recentemente, tive que reunir minhas coisas para uma fuga apressada, cujos motivos não cabem aqui. É impressionante a quantidade de lixo que vamos acumulando pela vida!: fauteuils, uma luminárias de Nebrask, um par de galochas femininas com as orlas recortadas, um aparador de sândalo-vermelho das Antilhas... Entre tantos cacarecos, encontrei um velho diário que eu mantinha nos meus primeiros anos de faculdade. Ao apanhá-lo, dele caiu uma folha de carta, numa letra que não me é estranha. Lembrei do início de Viagem ao Centro da Terra, de Julio Verne. Tudo começa exatamente assim: Com uma velha carta encontrada no meio de um livro. O livro fora comprado pelo geógrafo alemão Otto Liddenbrook e a carta, dando as cordenadas de uma viagem fantástica, fora escrita pelo aventureiro islandês Arne Saksseen. Mas deixemos de devaneios literários! Logo vi, pela letra, que é a carta fora escrita por Rosana Rosenkreutz, a minha antiga professora de inglês e estudiosa dos esoterismos da egrégora indiana. Apesar da inevitável sensação de urgência, de tempo que se esgotava (causa do stress em tantos trabalhadores das grandes cidades dos tempos modernos), sentei-me e pus a ler a carta:


	"Quem é você, Keira Youngblood?"
	"Em que momento e lugar azarado os seus pais te conceberam?"
	"Por acaso você esqueceu este seu medonho Diário na carteira. Não resisti a dar uma 
espiada, mas já não lhe pedirei perdão por isso. Logo ao ler as primeiras linhas, senti uma grande 
tentação de queimar esta infâmia. 
	Mas resisti, e amanhã você o encontrará esta maldita coisa no mesmo lugar. Igual a 
quando o deixou, a não ser por esta carta que agora escrevo-lhe enojada! Como parapsicóloga já 
tive que pesquisar muitas coisas complicadas e pessoas estranhas, mas nunca tinha lido palavras 
tão podres em toda minha vida! 
	És tão jovem, Keira, e com uma cabeça tão suja!  Isso não é gente, não é mulher. Eu já 
tinha percebido algo muito negativo envolvendo você , mas não achei que fosse tão sério assim. 
Você mergulhou em seu poço de imundícia, tem seríssimos problemas mentais, já está mais morta 
do que pensa... numa escuridão total. 
	Seus pais estão certos: Escritores bebem gambás. De que adianta ler tantos livros e ter 
tantos talentos... se um dia eu disse que tenho nojo de vocês interzonenses, nem sei que dizer 
agora. Eu não tenho nojo de pessoas por mais sujas fisicamente estejam. Um banho resolve. Mas, 
e o que está na cabeça de criaturas como você? Nada limpa criaturas tão imundas. 
	Como fui ingênua, após nossas aulas, falando-lhe em boa companhia, espiritualidade, 
amor .... Você me parecia uma boa menina. Dei pérolas as porcos. 
	Esclareço que não tenho medo de você, sou diplomada em bruxaria, mas é melhor você 
continuar bem trancada sozinha no seu mundo podre. Mas acho que você está querendo brincar 
com a humanidade. Não mexa com fogo. Cuidado com o que faz!!! Vai acabar se dando mal. 
	Tudo indica que o seu passado foi e o seu futuro será pior do que imagina. Ou são suas 
idéias? Suas brincadeirinhas de garotinha tímida? 
	Nunca imaginei entrar em contato com criaturas assim. Pensava que mentes tão imundas 
só existiam em livros e filmes. Assim, de certa forma, eu agradeço por ter me dado a oportunidade 
de ler este Diário fedido, imundo. Foi proposital? Foi para me provocar? Palmas e risos para você 
e seu mestre! Você e este Lester se merecem...! 
	Aliás, não sei se este tal de Lester Silvius é um homem, um animal ou um monstro. Talvez 
nem exista ainda uma palavra para o que ele é. Para o que vocês dois são".
	"Nada disto importa. Escrevo só para dizer que vocês nem ousem se aproximar do meu 
sobrinho. Nunca brinquem com a imagem de uma criança: O castigo vem a cavalo! Se eu 
desconfiar de alguma coisa, se eu apenas sentir algo errado, eu te juro eu acho vocês em 
Interzone ou em qualquer lugar do mundo".



	Amigos, porque transcrevo estas tão doces palavras de minha antiga mestra? (Ah, ia 
esquecendo de dizer que ela deixou a cidade no dia seguinte) Apenas para que vocês possam ter 
uma referência (o que engenheiros como Dédalo chamam de 'Controle da Caldeira'). Porque, 
quando a senhorita Rosenkreutz as escreveu, os anos de mutação e mutilação ainda nem tinham 
começado de fato.
	"Quem é você, Keira Youngblood?"










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