Havia uma padaria em frente a um templo
budista. O monge do templo precisou viajar e
pediu que o dono da padaria cuidasse do
templo, atendesse as visitas etc. Ocorre que
chegou um monge viajante à aldeia.
Antigamente, os monges viajavam, num espécie
de treinamento monástico, visitando outros
monges, mestres e mosteiros. Desafiavam os
mais fortes no Dharma e mantinham-se
treinando. O recém chegado também praticava
assim. Nessas batalhas do Dharma, com
perguntas e respostas, quem perdia era
obrigado a deixar o templo; quem ganhava
podia ficar como responsável. Uma batalha do
Dharma era algo muito sério. Não era uma
batalha de luta, mas de conhecimento, de
experiências, de linguagem.
O monge visitante estava chegando e o dono
da padaria, preocupadíssimo, ouvia a sugestão
do chefe da aldeia: "Raspe a cabeça,
coloque o manto e apenas sente-se diante da
parede como se estivesse meditando. Faça
como se estivesse em treinamento de silêncio,
nada fale, nem escute e nem responda." O
dono da padaria se animou: "Ah, é fácil,
isso eu posso fazer." Raspou a cabeça,
colocou o manto e sentou-se voltado para a
parede.
Nisso chegou o monge visitante e começou
a fazer perguntas sobre o Dharma. O dono da
padaria assumiu um tom grave e fez "Shhh".
O monge entendeu, "Ah, ele está fazendo
muitos dias de treinamento em silêncio, mas
já que estou aqui depois de tão longa
caminhada nas montanhas, vou aproveitar e
perguntar com gestos, assim ele também pode
responder com gestos, sem quebrar o voto de
silêncio."
Gesticulando, o monge perguntou, "Como
é o seu coração, seu espírito?" O
dono da padaria respondeu com um grande gesto
para as dez direções, ou seja os quatro
pontos cardeais, os quatro pontos médios
entre eles, para cima e para baixo: "Meu
coração é como o oceano". Veio a
segunda pergunta, "Como viver neste
mundo?", e o dono da padaria mostrou os
cinco dedos da mão, os cinco preceitos: não
matar, não roubar, não cometer adultério,
não conduzir os outros a erros, não usar
intoxicantes. O monge sentiu-se tocado,
"Ah, que bonito!" E mostrou três
dedos da mão, perguntando, "Onde estão
as três jóias, o Buddha, o Dharma, a
Sangha?" Ao que o dono da padaria
respondeu com o punho, "Não procure
longe, está aqui muito perto, perto do olho,
está aqui." Impressionado, o monge
viajante foi embora.
Vendo isso, o chefe da aldeia correu até
o padeiro, "O que aconteceu? Ele foi
embora muito impressionado, me conta!" E
o dono da padaria explicou, "Aquele
monge é muito estúpido. Primeiro, fez um
gesto com as mãos, perguntando quanto
custava o pão, se o pão da loja era muito
pequeno, e eu abri bem os braços, mostrando
que meu pão é bem grande. Ele perguntou
quanto custam dez pães e eu mostrei-lhe
cinco dedos, dizendo cinco moedas, mas ele me
mostrou três dedos, pedindo que vendesse por
três, e eu pensei, que sem vergonha, e por
pouco não lhe acertei um soco no olho!"
Esta é uma história muito engraçada que
mostra cada um vendo o que está pensando em
sua própria mente, interpretando à sua
maneira. (...) O que você vê depende de seu
interesse. Aquilo que não lhe interessa,
ainda que esteja lá, você não vê. Muitas
vezes ocorre o oposto, você vê o que não
existe, você cria. Por isso, não confie
muito naquilo que esteja vendo. Como podemos
ver as coisas verdadeiramente? (...) Aqui há
uma mesa, mas mesa, o que é? Madeira, árvore,
pregos, e o que mais? Afinal de contas, nada,
vazio. Tudo é vazio.