Capítulo Quatorze (Continuação) - A vingança de Malfoy
Harry observava a neve cair nos jardins de Hogwarts sentado no parapeito da janela de seu dormitório na manhã seguinte. Estava sozinho, como preferia estar habitualmente. Acordara bem mais tarde do que os colegas de quarto, e a causa disso foi sua terrível noite de sono. Dormir foi o que ele menos fez naquela madrugada. A cicatriz não deixara de atormentá-lo por um segundo sequer, e a preocupação com a frase que escutara não o deixava dormir. E quando conseguia, seu sono era interrompido por sonhos malucos, em que ele via o próprio Voldemort rindo dele e dizendo que o rapaz seria obrigado a cumprir detenções com Snape para sempre. Harry acordava assustado, suando, a cicatriz ainda ardendo, e não conseguia mais dormir depois disso.
Foi só quando já estava amanhecendo que Harry conseguiu pegar no sono vencido pela exaustão e dormir um pouco. Quando acordou, não havia mais ninguém no quarto, e ele não teve vontade de sair. A cicatriz já tinha parado de doer, mas ele ainda se sentia extremamente cansado. Parecia que ficava mais exausto quando tentava relembrar o que tinha ouvido em sua cabeça na noite anterior, mas os detalhes escapavam dos seus dedos como água, e ele não poderia dizer com certeza todas as palavras que ouvira. Era exatamente por isso que ainda estava relutando em ir até a sala de Dumbledore e contar o que acontecera. Lembrou que o diretor lhe passou a senha exatamente para essas emergências, mas também lembrou o quanto Dumbledore estava parecendo mais ocupado e cansado a cada dia, sem contar a decepção que Harry lhe causou quando vomitou todas aquelas verdades bem na cara de Snape.
Harry tentou se concentrar em observar a neve fina que caía nos jardins. Havia alguns poucos alunos com malas entrando em carruagens e se despedindo dos colegas. Isso fez Harry se lembrar de que era o dia em que os alunos voltavam para casa nas férias, o que poucos faziam naquele ano devido ao baile. Foi exatamente no momento em que se lembrou que Gina também iria para casa nas férias, que a porta do dormitório se abriu abruptamente, e Harry se virou para ver um rapaz sardento de cabelos vermelhos adentrar o quarto.
- Ah, você tá aí, Harry?
- Não, na verdade eu sou o Neville e tomei uma Poção Polissuco para me transformar no Harry... o rapaz disse sarcasticamente. É claro que eu tô aqui, Rony!
- Há. Há. Há. Rony falou emburrado, fechando a porta atrás de si. Muito engraçado, Harry.
- Obrigado.
Rony atravessou o quarto, pulando as vestes que Simas tinha largado no chão no dia anterior, e se aproximou de Harry.
- Você não vai sair daqui?
- Não tô a fim.
- Er... Rony parecia um pouco indeciso do que iria falar. Harry o olhou como se o encorajasse. Anh, bem... Gina já está indo embora, você não quer se despedir dela?
- Não.
Harry se virou para olhar os jardins, mas na verdade não queria mesmo era olhar para Rony.
- Você tem certeza?
- Absoluta.
- Ah... Ok, então eu vou indo. Vou carregar as malas dela e me despedir. Rony se afastou, chegando perto da porta e parando. Saia daqui, eu e Mione estaremos no salão comunal.
Harry se limitou a um leve aceno de cabeça. Rony abriu a porta e, já ia embora, quando voltou e disse:
- E... Gina lhe mandou um Feliz Natal.
- Pra ela também. Harry respondeu sem emoção.
- Tá.
Harry só olhou para a porta quando ouviu o som dela ao se fechar. Pensou em ir até ela e trancá-la com um feitiço, mas desistiu. Voltou à sua distração de olhar os jardins. Depois de alguns minutos, viu três pessoas caminhando sobre a neve: Rony, Hermione e Gina. Rony carregava as malas da irmã, enquanto Hermione e Gina o acompanhavam. Harry virou o rosto e seu olhar bateu com o seu malão aberto, e ele pôde ver, escondida entre várias roupas, um pedaço de sua Capa de Invisibilidade. Olhou novamente para a janela, e viu Gina subindo em uma carruagem, Rony e Hermione falando com ela. Saiu do peitoral da janela, abaixou-se, tirando as roupas de cima da capa, deixando-a totalmente à mostra: a capa antiga e tão útil herdada de seu pai...
*******
O vento estava muito forte na estação de Hogsmeade. Harry se dividia entre ajeitar a Capa de Invisibilidade ao redor de si para que não ficasse à mostra, e olhar o Mapa do Maroto de vez em quando para se certificar de que ninguém estava muito perto dele para lhe causar problemas se o visse ali.
O Expresso de Hogwarts soltava grandes sopros de fumaça, e Harry já estava se cansando daquela espera. Tinha saído correndo da torre da Grifinória, pensando que quando chegasse ali o trem já teria ido embora, mas quando chegou esbaforido no lugar, ninguém ainda estava ali.
Foi um pouco complicado chegar tão rápido, tendo que passar pela passagem secreta que levava ao porão da Dedosdemel, atravessar a loja sem ninguém o perceber, cruzar o povoado de Hogsmeade, e chegar até a estação. Pelo caminho, Harry viu de relance Fred Weasley entrando em uma loja pequena, que Harry supôs ser a loja dele e de Jorge, que tanto era comentada em Hogwarts. Mas não teria tempo para parar e cumprimentá-los, mesmo que isso fosse permitido, já que, supostamente, Harry deveria estar no castelo e não andando por Hogsmeade. Teve que correr o máximo que pôde para não se atrasar e, no entanto, ainda estava ali, esperando pelos alunos que embarcariam, o frio fazendo-o tremer por baixo da capa.
Não saberia dizer por que estava ali. Quando viu Gina indo embora pela janela do dormitório, sentiu uma vontade imensa de vê-la mais de perto pela última vez. Era um sentimento quase insano, uma necessidade de vê-la antes que partisse, tanto que ele não conseguiu se conter, mesmo que uma vozinha em sua cabeça repetisse: "Ela te tratou como lixo ontem, e você aí, querendo vê-la... Se enxerga, Harry, ainda não notou que ela realmente não gosta de você?" Porém, ele não atendeu à voz, nem ao seu orgulho, e teve que ir até a estação para vê-la. Mesmo que fosse arriscado, que tivesse que passar frio, e que sua espera parecesse interminável no meio daquele vento idiota.
Foi quando suas pernas doloridas estavam quase fazendo-o desistir que ele viu um pequeno grupo de alunos, uns vinte no máximo, andando juntos e falando alto. Harry se encostou mais na parede, um pouco temeroso de que algum deles esbarrasse nele enquanto passava. Mas isso não aconteceu, por mais que o gato preto de um primeiranista tivesse vindo cheirá-lo e quase tenha-o descoberto.
- Eu queria ficar para o baile, mas minha mãe quase me obrigou a voltar para casa... o primeiranista do gato, um garoto gordinho que lembrava muito Duda, comentou quando veio pegar o gato que ainda cheirava Harry.
- É, eu também queria ficar, mas meus pais também insistiram para que eu passasse as férias em casa... um outro garoto baixinho, que parecia amigo do primeiro, falou chateado.
Harry suspirou aliviado quando os dois se afastaram. Não estava nem ligando para os problemas de dois primeiranistas frustados, mas não podia sair dali enquanto estivessem tão perto de descobri-lo. Procurou com os olhos por Gina, mas não a viu em lugar nenhum. Quando estava achando que tinha perdido-a de vista, viu-a sozinha, no final do grupo de alunos. O coração de Harry primeiro deu um salto, mas depois ele sossegou quando o rapaz se forçou a pensar no jeito indiferente da menina. Estava sendo idiota agindo daquele jeito! Devia mesmo era ter ficado no castelo, de que adiantava ter vindo só para vê-la passar? Tolice...
Ainda se amaldiçoando e se xingando por dentro, Harry viu a menina entrar no vagão, desaparecer por um tempo, e depois reaparecer na janela, um olhar vago no rosto. Harry teve o ímpeto de se aproximar dela, mas novamente se repreendeu por isso e permaneceu onde estava. O trem começou a se mover e, nesse momento, uma grande rajada de vento atingiu Harry, e ele não conseguiu segurar a capa, que se desarrumou, descobrindo sua cabeça e parte do ombro. Gina olhou boquiaberta para ele, Harry devolveu o olhar assustado e, por um segundo, eles cruzaram os olhares; mas foi só por um segundo. Rapidamente, Harry se cobriu com a capa e desapareceu. Viu quando Gina esfregou os olhos, provavelmente pensando que teve uma alucinação.
Harry agora segurava firmemente a capa ao redor de si, e viu quando o trem começou a se afastar, Gina ainda olhando para o local onde ele estava, mas um olhar vago, provavelmente por não o ver. Conforme o trem se afastava, Harry o acompanhava com o olhar. Viu Gina desistir de olhar e colocar a cabeça para dentro. Harry, ao contrário, continuou a olhar o trem se afastando. Um vazio no seu peito, como se uma parte de sua vida estivesse indo embora junto com aqueles vagões.
Quando o Expresso de Hogwarts sumiu no horizonte enevoado, e Harry se virou para ir embora, caminhando lentamente, ele sentiu como se tivesse acabado de virar uma página no livro de sua vida.
No próximo capítulo: E chega o dia do grande baile! Se bem que Harry não esteja nem um pouco animado com isso... Na verdade, ele só vai mesmo a esse baile porque Hermione praticamente o obrigou, e mesmo assim, vai sozinho. Porém, ele não fica sem par para dançar quando chega lá, e esse par é a última pessoa que ele imaginou... E essa dança coloca dúvidas em Harry, e enche sua cabeça de estranhos pensamentos...
Leia também: A songfic desse capítulo, O fim de um amor, que narra o término do namoro de Harry e Gina pelo ponto dela.