Capítulo Treze (Continuação) - Diga que não é verdade
Pela janela do dormitório era possível ver a paisagem lá fora. Uma tarde nublada, fria e triste. Os jardins ainda estavam molhados pela chuva do dia anterior, e Hogwarts parecia praticamente deserta, muito pelo fato de todos os alunos da escola do terceiro ano para cima terem ido a Hogsmeade. O silêncio só era quebrado pelo pio de algumas corujas que sobrevoavam o castelo de vez em quando.
Harry ainda estava sozinho no dormitório. Mesmo depois de Hermione ter-lhe pedido para sair e dar uma volta, ele ainda assim não tivera ânimo de fazê-lo. Sua vontade era ficar ali, sentado no parapeito da janela, observando o jardim da escola pelo vidro que separava o seu mundo do mundo real de lá de fora.
Havia cartas e fotos espalhadas pela sua cama, e a sua "caixa de lembranças" ainda estava aberta sobre ela. Ainda não tinha se preocupado em fechá-la e guardá-la. Aliás, estava adiando esse momento, pois saberia que seria difícil olhar novamente aquelas recordações.
Foi quando observava Hagrid arrastar um enorme pinheiro para o Natal pelo gramado que bateram à porta. Harry virou levemente a cabeça, e viu quando a maçaneta girou em falso. Fosse quem fosse, não conseguiria entrar; mesmo aquele quarto não sendo somente dele, Harry o trancara com um feitiço que nem o Alorromora conseguiria desfazer.
Mais batidas à porta, agora mais fortes e insistentes. Uma voz grossa gritou do outro lado, abafada pela madeira:
- Abra, Harry! Eu sei que está aí dentro!
O rapaz reconhecera aquela voz. Realmente a pessoa que estava do outro lado não iria desistir facilmente se ele não abrisse a bendita porta. Levantou-se de um salto e ainda deixou a pessoa esperando até que guardasse as coisas espalhadas na cama de qualquer jeito na caixa, e a enfiasse no malão por entre as roupas.
- Harry! Pare de ser teimoso e abra essa porta! Eu sei que você sabe quem eu sou!
Harry se aproximou da porta, mas hesitou em abri-la. Uma luz ultrapassou o buraco da fechadura no mesmo momento que a voz abafada do outro lado da porta gritava: "Alorromora!". O rapaz riu baixinho e, finalmente abriu a porta.
- Oi, Sirius.
O padrinho ainda estava com a varinha apontada e, no rosto, uma expressão muito aborrecida. Ele cruzou os braços e perguntou:
- Se sabia que era eu, por que não abriu a porta antes?
- Porque eu queria ver você com essa cara de tacho quando abrisse.
Sirius arreganhou os dentes e deu um sorrisinho muito debochado.
- Muito engraçado você, Harry. ele disse, entrando no quarto. Harry deu de ombros e encostou a porta.
Olhando o quarto ao redor, Sirius perguntou abruptamente depois de algum tempo:
- Onde aprendeu a trancar portas desse jeito? Eu tentei abrir, mas não consegui.
- Quando eu ainda estava na casa dos Dursleys e não tinha o que fazer... Harry começou, cruzando o quarto e indo novamente se sentar no parapeito da janela. - ...eu lia uns livros antigos de Feitiços e ficava tentando aprender alguns avançados, que o Prof. Flitwick não ensinava na aula. Esse de trancar portas é bem útil.
- E com quem você aprendeu essa mania? Sirius perguntou, encostando-se na parede próxima à janela, de modo que podia olhar de frente para o afilhado. Com a Hermione? Que eu saiba isso é mania dela, não sua.
- Não era porque eu estive me esforçando mais nos estudos... o rapaz explicou, ainda observando o jardim pela janela. Hagrid não estava mais lá. Era só falta do que fazer mesmo.
- Ah... Sirius disse vagamente, voltando a observar o quarto ao seu redor. Eu me lembro desse quarto na minha época... ele apontou a cama de Harry. Seu pai dormia ali, e eu na outra cama. e apontou a cama de Rony.
Harry se virou bruscamente, para depois encarar Sirius, que entendeu.
- É a sua cama agora, não é?
- É sim...
Sirius sorriu.
- É, eu me lembro que era a mesma quando eu entrei aqui escondido, naquela época que eu ainda era fugitivo de Azkaban...
- Por falar nisso... Harry começou. Como você entrou aqui? Você tem a senha?
- Hermione me deu a senha. ele respondeu banalmente.
- Hermione?
- Sim. Ela e o Rony me mandaram uma carta pela sua coruja, pedindo que eu fosse falar com eles. Então, eles me contaram a seu respeito e me pediram que eu viesse aqui tentar colocar algum juízo na sua cabeça oca! ele bateu na cabeça de Harry com os punhos fechados. Hermione me deu a senha e disse que você estaria aqui. Você tem bons amigos, Harry. Eles realmente estavam preocupados com você.
- Eu sei. o rapaz respondeu vagamente, e debochou: Mas você vindo colocar juízo na minha cabeça? Você nunca teve juízo...
Sirius novamente arreganhou os dentes.
- Tenho mais juízo que você.
- Tá bom...
O padrinho suspirou.
- Como você está?
- Por que todo mundo me pergunta a mesma coisa?
- Porque estão preocupados com você, bobão!
Harry revirou os olhos. Sirius bufou.
- Você quer conversar sobre o que aconteceu?
- Não.
- Curto e grosso...
- É.
- Tá bom, tá bom... Não vou ficar perdendo meu tempo...
- É bom mesmo.
Sirius o olhou aborrecido.
- Onde está o Mapa do Maroto?
Harry levantou as sobrancelhas, sem entender.
- O que você quer com ele?
- Somente pegue-o.
O rapaz o olhou enviesado, mas mesmo assim levantou, revirou o malão e pegou o mapa do fundo dele, passando-o ao padrinho, que o pegou e ficou olhando para o pergaminho por um tempo, sorrindo meio abobado. Harry se postou ao lado dele e ficou observando palavras surgirem na superfície lisa do mapa, como se uma mão invisível estivesse escrevendo nele:
"O Sr. Almofadinhas apresenta seus mais digníssimos respeitos ao Sr. Sirius Black, atual portador desse objeto, e aproveita para enaltecer as grandiosíssimas qualidades do maior garanhão de Hogwarts."
Sirius riu baixinho, e Harry não pôde deixar de rir também, discretamente. O padrinho explicou:
- Toda vez que um dos fabricantes do mapa o segura, ele o reconhece automaticamente e o cumprimenta.
Mais frases começaram a aparecer, e Harry prestou uma atenção especial nesta:
"O Sr. Pontas aproveita para frisar que esse folgado referido anteriormente não passa de um bobão que se acha demais. Ele só fala, mas não faz. O garoto mais cobiçado de Hogwarts sou eu, e ninguém duvida disso, obviamente."
Harry sorriu. Sirius mostrou a língua para o mapa e falou:
- Bobão é você, Pontas.
Mais palavras se formaram no mapa:
"O Sr. Aluado gostaria de deixar seu adendo para avisar aos digníssimos leitores de que não acreditem nesses dois mentirosos de marca maior. A verdade é que os dois estão encalhados há dois meses e não tem o que fazer, por isso ficam tentando agradar seus próprios egos para esquecerem que estão sozinhos."
Sirius novamente mostrou a língua para o mapa. Harry não conseguiu deixar de rir da cara do padrinho. As últimas palavras que o mapa proferiu foram estas:
"O Sr. Rabicho gostaria de lembrar que ele e o Sr. Aluado são os únicos a terem pares para o Baile de Natal e que, por serem ótimos amigos dos Srs. Almofadinhas e Pontas, não podem deixar de rir da cara dos dois que, provavelmente, só terão como última alternativa encher a cara de cerveja amanteigada e curtirem seus momentos de encalhamento juntos."
Sirius revirou os olhos e falou para o mapa:
- Mas não fui eu que fui chutado depois de duas semanas de namoro... Bestalhão!
- Que história é essa, Sirius? Harry perguntou curioso.
- Uma longa história... ele respondeu, apontando a varinha para o mapa e dizendo: - "Juro solenemente não fazer nada de bom."
Instantaneamente, as linhas começaram a se juntar e formar o mapa de Hogwarts. Sirius correu o dedo indicador pelo mapa, parecendo estar procurando algum lugar. Harry pôde ver que os pontinhos denominados "Harry Potter" e "Sirius Black" estavam lado a lado no dormitório do sétimo andar. O pontinho "Alvo Dumbledore" andava de um lado para outro na sua sala, sendo acompanhado pelos pontinhos "Minerva McGonnagal", "Remo Lupin" e "Severo Snape". O ponto "Samantha Stevens" se movia pelo corredor do quinto andar, não muito longe de onde Sirius pousou seu dedo.
- Como eu sei que não adianta ficar aqui insistindo para que você converse comigo, Harry, eu vou embora e esperar que você faça isso por sua própria vontade. o padrinho disse. Está vendo esse lugar que estou indicando? Harry assentiu. É o meu quarto, onde estou hospedado. Eu vou ficar lá o resto da tarde, arrumando minhas malas. Se você quiser aparecer lá para conversar, estarei esperando.
Ele disse isso e entregou o mapa para o afilhado, afastando-se em seguida.
- "Arrumando as malas"? Harry repetiu.
- Eu vou embora amanhã, parece que minha "folga" terminou. Sirius disse, enquanto abria a porta. Se você quiser aparecer, Harry, já disse que estarei lá. ele sorriu. Parece que funcionou te mostrar as frases dos Marotos. Sua cara parece bem melhor. Até mais. e saiu, fechando a porta atrás de si.
Harry ainda ficou olhando para a porta por algum tempo depois que Sirius saiu. Realmente não podia negar que o padrinho o conhecia bem; mostrar aquelas frases para ele principalmente a de seu pai o fez se sentir melhor. Abaixou os olhos para o mapa, pensando se deveria ou não visitar o padrinho mais tarde. O pontinho "Samantha Stevens" ainda caminhava pelo corredor do quinto andar...
*******
A tarde estava começando a cair quando Harry decidiu sair do quarto. Estava começando a ficar neurótico de tanto olhar para aquelas mesmas paredes. Além do mais, estava se sentindo um pouco idiota ficando ali; vários pensamentos correram pela sua cabeça e ele ficou imaginando se Gina não estaria, naquele momento, se divertindo com os amigos, enquanto ele estava ali, esquecido por ela e curtindo sua dor. Um desejo doentio de mostrar a ela que ele não se importava (por mais que se importasse e muito), e que poderia continuar vivendo sem ela, começou a florescer dentro dele. E o primeiro passo para isso seria sair daquele quarto e... comer alguma coisa. Depois de algum tempo seu estômago começou a dar sinais de vida e reclamar por comida. Talvez fosse um bom sinal; pelo menos ele estava se preocupando com outras coisas que não fossem Gina, nem que essas coisas fossem comida.
Ao descer para o salão comunal, viu os alunos do primeiro e segundo ano, que ainda não podiam visitar Hogsmeade. A maioria deles estava se divertindo ou conversando, e alguns olharam intrigados quando viram Harry, um aluno do sexto ano, ali no castelo, podendo estar se divertindo em Hogsmeade. O rapaz nem ligou e passou direto por eles, não se importando com os comentários que surgiram. Depois de perder a conta de quantas vezes comentavam qualquer coisa sobre ele na escola, Harry passou a se importar bem menos com isso. Era como se estivesse quase se acostumando. Quase. Sempre achava que nunca se acostumaria com isso por completo.
Enquanto andava pelos corredores do castelo, não encontrou ninguém e agradeceu por isto. Foi direto para a cozinha pegar algo para enganar o estômago. Obviamente que Dobby fez mais do que "enganar o estômago do senhor Harry Potter"; o elfo doméstico praticamente empanturrou o rapaz de comida, falando muito durante todo o tempo. Durante sua visita à cozinha de Hogwarts, Harry pôde descobrir muitas coisas através do elfo: Dobby falou muito entusiasmado sobre o Baile de Inverno e, principalmente, sobre o cardápio da festa; além do baile, Dobby contou a Harry sobre seu namoro com Winky e, muito ruborizado, sobre uma idéia que estava tendo de pedi-la em casamento. Elfos domésticos não tinham costume de casar e fazerem cerimônias, mas Dobby, sendo o elfo mais diferente que Harry conhecia, resolveu que queria uma festa para celebrar a união. Harry incentivou o elfo e o aconselhou a conversar com Dumbledore sobre isso, porém seria desnecessário dizer todas as palavras de alegria e gratidão que Dobby proferiu depois do que Harry falou a ele.
Depois de sair da cozinha de barriga cheia, Harry começou a andar pelo castelo, pensando se deveria ou não ir falar com Sirius. Resolveu que iria sim, mesmo que não fosse para falar sobre "aquele assunto". De qualquer jeito teria que ir se despedir do padrinho antes que ele fosse embora novamente. Deu meia volta e mudou seu caminho na direção do quinto andar. Mesmo sem estar com o Mapa do Maroto consigo, ainda lembrava como chegar ao quarto do padrinho. Porém, no caminho, um vento arrepiou sua nuca e uma voz irritante gritou aos quatro ventos:
- "Potter abobado, tá sozinho e encalhado nesse feriado!"
A risada de Pirraça, o poltergeist, ecoou pelo chão e teto do corredor. Harry, muito aborrecido, parou de andar e levantou os olhos por cima das lentes dos óculos para ver Pirraça dando cambalhotas no ar e repetindo a mesma frase, rindo em seguida. Cruzando os braços de irritação, Harry debochou:
- Nem é feriado, seu cabeça de abóbora! As suas rimas já foram melhores, sabia?
Pirraça parou de dar cambalhotas e mostrou a língua para Harry, que riu cinicamente. O poltergeist começou a flutuar bem à frente de Harry e perguntou, seu rosto largo e malicioso cheio de curiosidade:
- É verdade que você está sozinho, Potter?
- Eu estava sozinho até você aparecer, se é que se pode contar você por gente... Harry disse sarcástico.
Pirraça bufou e novamente mostrou a língua para Harry, dando mais uma cambalhota no ar. Harry aproveitou para voltar a andar e continuar em seu caminho para o quarto de Sirius. Pirraça não desistiu e começou a descrever voltas em torno dele:
- Eu fiquei sabendo que a sua namoradinha ridícula o abandonou... Harry rolou os olhos e não respondeu. É verdade? Quer dizer que ela não agüentou a sua chatice, Potter?
Harry olhou pelo canto dos olhos para o poltergeist, que ria e girava ao seu redor. Seria possível que essa história já tivesse chegado aos ouvidos das pessoas? Será que não se podia esconder absolutamente nada das paredes com ouvidos do castelo?
- As fofocas correm rápido aqui em Hogwarts... Pirraça continuou. Harry deu de ombros. Mas pode deixar que eu vou me encarregar de espalhar esse boato pelo castelo, Potter fedido e encardido!
E ele saiu rindo e flutuando, dando cambalhotas no ar. Harry continuou no seu caminho. Que todas as pessoas descobrissem, então! Dane-se! Ele não estava nem aí... Afinal, o que ao seu respeito que não virava assunto nas bocas dos alunos? Ou manchete de jornal? Estava chegando em tal ponto que queria mesmo era mandar o mundo e quem quer que fosse para o espaço, ou para aquele lugar, falando o inglês claro. Estava de saco cheio, e se Pirraça quisesse espalhar que ele estava sozinho, melhor! Quem sabe não aparecesse uma garota legal que se interessasse por ele, sabendo que ele estava livre e desimpedido novamente?
A quem estava tentando enganar, ele não queria mais ninguém... queria mesmo era Gina, mas quem não o queria mais era ela...
Finalmente chegou ao final do corredor do quinto andar. Porém, não havia nada ali. O corredor acabava e não havia nenhuma porta. Será que tinha se enganado e entrado no andar errado? Não, já estava na escola há quase seis anos, e não tinha como se enganar de andar... Talvez Sirius tivesse se enganado, no final das contas... Encostou a mão na parede para pensar, e ela brilhou intensamente onde ele tinha tocado e, antes que tivesse tempo de se desencostar, ela sumiu, e ele caiu de cara no chão por ter perdido o apoio, produzindo um grande estrondo.
Xingando alto de dor, ele se sentou, um pouco descadeirado, e alisou o traseiro para ver se não tinha nada quebrado. Suas mãos estavam vermelhas e ardidas por tê-las usado para amparar o impacto. Olhou ao redor para se certificar de que ninguém tinha visto o vexame. Quando já estava suspirando de alívio, ouviu uma risada alta e debochada:
- "Potter burro, caiu de maduro!"
"Ah, não... Agora não... Estou sonhando, o Pirraça não viu isso... É um pesadelo..."
Pior que não era. Pirraça apareceu atrás dele, e deu voltas ao seu redor, segurando a barriga de tanto rir. Dava a impressão de que ele iria ter um ataque se não parasse de dar risada. Falando um palavrão muito feio, Harry se levantou ainda um pouco dolorido, olhando emburrado para o poltergeist, que não parava de rir.
- "Olha a boca, Potter boboca!"
Harry mandou Pirraça ir tomar em um lugar que não mandaria se Hermione estivesse presente à cena. O poltergeist estirou a língua, mas parou de rir quando viu a passagem que tinha sido aberta na parede por Harry. O rapaz olhou para trás também e viu o mesmo que Pirraça: uma espécie de túnel fora aberto na parede, e, olhando mais atentamente, dava para ver que ele continuava até muito longe e não dava para enxergar o fim.
- O que é isso? Pirraça perguntou curioso, aproximando-se do túnel com os olhos arregalados e a boca aberta. Harry, percebendo que era uma passagem secreta para os dormitórios dos hóspedes, respondeu seco:
- Nada que seja da sua conta! Agora dá o fora, vai!
- Eu, não! Não vou perder essa chance! ele falou, passando zunindo por Harry e entrando no túnel rápido como o vento.
- Ah, não! Harry praguejou e saiu correndo atrás do poltergeist fugitivo.
O rapaz ainda pôde ver a passagem se fechando atrás dele depois que entrou, mas não se importou com isso e começou a correr atrás de Pirraça, que ia dando cambalhotas pelo túnel. Não era um túnel muito grande, por isso Harry tinha que tomar cuidado para não bater nas paredes enquanto corria. As paredes eram decoradas com cores quentes, dispostas em círculos, o que o estava deixando ligeiramente tonto. Concentrando seu pensamento em não perder Pirraça de vista, ele continuou a correr.
Quando Harry estava começando a pensar que o túnel não tinha mais fim, ele acabou sem mais nem menos. A passagem dava numa grande sala circular de teto alto, ricamente decorada, cheia de quadros de bruxos famosos e de objetos antigos de valor. Havia tapetes decorados com pinturas exóticas tanto no chão como nas paredes, e um lustre de cristal pendia do teto alto. Mas o estranho era que não havia portas na sala. Pirraça assobiou alto.
- Uau... Não conhecia esse lugar... ele disse abobalhado. Harry o olhou feio e disse:
- Tá bom, Pirraça, ficou feliz? Agora que você já viu, pode ir embora?
- Não, Potter bobão! ele gritou, rindo, e flutuou até um vaso de porcelana. Harry tremeu ao pensar no que ele estava prestes a fazer.
- Não... Pirraça, não!
Mas já era tarde. O poltergeist tinha levantado o vaso e jogado bem nas fuças de Harry, que rapidamente sacou a varinha, esquecendo da regra que dizia ser proibido magia fora das salas de aula.
- Wingardium Leviosa!
Harry conseguiu parar o vaso no ar e fazê-lo flutuar até o chão, em segurança. Mas Pirraça, rindo descontroladamente, já tinha arrancado da parede um quadro de uma bruxa gorducha, que gritava desesperada, e jogado-o na direção do quadro de um outro bruxo montado num cavalo, que arregalou os olhos e desmontou do animal. Harry novamente usou o feitiço de levitação e conseguiu parar o quadro voador antes que se chocasse na parede. A bruxa suspirou de alívio.
- Pare com isso, Pirraça! Harry pediu aflito. Se alguém descobrisse, certamente Pirraça iria desaparecer no ar e quem levaria a culpa seria ele. E mais uma detenção para sua pequena coleção era o que ele menos queria naquele momento.
Pirraça riu ainda mais e pegou um outro vaso, maior e mais antigo do que o outro, de cima de uma aparadora de canto. Harry sentiu um frio na barriga ao ver que o poltergeist contorcia a cara maliciosa fazendo mira nele e, por isso, começou a andar de um lado para outro, desviando-se da mira do homenzinho. Porém, Pirraça o encurralou em um canto e, antes que Harry lançasse um feitiço nele, produziu um vento forte que arrepiou os cabelos do rapaz e fez sua varinha voar de suas mãos em um rodamoinho. Pirraça parecia ter realmente aprendido alguns bons truques nesses anos, mas Harry não podia perder seu tempo pensando nisso e sim em alguma saída, e rápido. O poltergeist fez novamente mira e, antes que Harry pensasse em algo, ele jogou o vaso bem na direção dele. A única coisa que Harry pôde fazer foi se abaixar e esperar pelo pior, mas, por um milagre, o vaso não se estatelou na parede. Pirraça parou de rir, e Harry, olhando para cima, viu o vaso flutuando sobre sua cabeça. Ao virar a cabeça para trás viu Remo Lupin empunhando sua varinha na direção do artefato.
- Que bagunça é essa? Remo perguntou ligeiramente irritado.
- Foi ele! Harry e Pirraça gritaram ao mesmo tempo, um apontando para o outro. Remo suspirou cansado e fez o vaso flutuar até seu devido lugar. Harry ainda não entendia de onde o ex-professor tinha surgido.
Remo olhou para Harry e depois para Pirraça. Cruzou os braços e disse para o poltergeist:
- Tenta enganar outro, Pirraça! Tá na cara que foi você, o Harry não faria isso!
O rapaz suspirou aliviado. Pirraça emburrou a cara e debochou:
- Só porque ele é o Potter não faz nada de errado? Pois eu vi que ele entrou aqui sem permissão!
Remo olhou intrigado para Harry, que devolveu o olhar, só que de inocência.
- Pirraça, vá embora... Remo mandou. Se você for bonzinho, eu prometo que não conto isso para o Filch.
- Lupin louco, lobo bobo! Pirraça caçoou e foi embora pelo mesmo túnel que entrou. Remo olhou ainda intrigado para Harry.
- Mas o que ele disse tem sentido... O que você tá fazendo aqui, Harry?
- Vim visitar o Sirius. o rapaz respondeu. Ele falou que eu podia vir.
- E o Pirraça, por que estava aqui?
- Ele me seguiu.
- Ah...
Harry olhou curioso para trás de Remo e perguntou:
- De onde você apareceu?
- Ah, isso... Remo riu. Os quartos não têm portas aqui. Para entrar precisa saber a passagem secreta e a senha. O meu quarto é aqui atrás. ele indicou com o polegar para as próprias costas.
- E o do Sirius?
- Ali, atrás daquele... Remo indicou o lugar onde estava o quadro da bruxa gorducha que Pirraça atirou na parede. Onde está o quadro da Lady Rockfort?
Harry apontou para um quadro caído no chão, perto dali.
- Ah... Remo disse vagamente, fazendo o quadro flutuar com um feitiço e colocando-o no seu devido lugar. Enquanto isso, Harry cruzou a sala para pegar sua varinha.
- Então... o ex-professor continuou, depois que colocou o quadro da bruxa no lugar. Ela ainda parecia pálida do susto e dizia palavras incompreensíveis. O quarto do Sirius é atrás desse quadro, você só precisa dizer a senha "Criquet-wicket" que ela vai abrir a passagem.
- "Criquet-o-quê"? Harry perguntou sem entender, mas não foi preciso Remo responder; a bruxa do quadro, de tão aflita, abriu a passagem na mesma hora que o ex-professor tinha dito a senha.
- Esquece... ele disse.
Harry olhou para a passagem aberta; pelo que ele via, ela parecia dar em um outro cômodo menor. Olhou para o ex-professor.
- Mas eu entro assim? Sem mais nem menos? E se eu atrapalhar alguma coisa?
Remo deu de ombros.
- Você não disse que ele deixou você vir? Então! ele guardou a varinha entre as vestes, e começou a caminhar na direção do túnel que dava no corredor do quinto andar. Além do mais, eu sempre entro aí e ele não liga, vai ser o mesmo com você. Até mais, Harry.
- Até... o rapaz disse vagamente, enquanto o bruxo ia embora. Virou-se para a passagem e entrou.
O que havia ali dentro era um cômodo menor, que se assemelhava a um hall de entrada. Era decorado no mesmo estilo da sala circular de fora. Havia uma única porta, que Harry supôs ser a do quarto do seu padrinho. O rapaz se aproximou e bateu nela. Não houve resposta. Nenhum barulho lá dentro, também. Hesitando um pouco antes, Harry girou a maçaneta e percebeu que a porta não estava trancada. Empurrou-a ligeiramente, abrindo uma pequena fresta, por onde colocou os olhos, e chamou:
- Sirius? Sou eu, o...
Mas ele não conseguiu terminar a frase. O que viu o fez perder as palavras, e sentir seu rosto imediatamente quente, seu queixo caindo de surpresa. Aquilo era, no mínimo, imensamente constrangedor. Harry quase engasgou.
Sirius estava no meio de um intenso beijo com ninguém menos que Samantha Stevens. Os dois se beijavam com tanto ardor e intensidade, e seus corpos estavam tão próximos, que pareciam um só. Definitivamente, eles não eram mais aquela dupla que desferia insultos a cada encontro; no momento, eles pareciam muito mais com um casal apaixonado.
Harry engoliu em seco quando os dois pararam de se beijar e olharam para ele. O rapaz rapidamente se virou e encostou na parede ao lado da porta. Não precisou de muito tempo ou observação para entender o que tinha acontecido. Ouviu a voz de Sirius o chamando, mas não voltou a olhar para o quarto. Estava em um dilema entre sair correndo e fingir que nada aconteceu, ou esperar a reação dos dois. Deveria ter batido mais vezes na porta, droga! Ou então deveria ter avisado que viria! Mas o próprio Sirius lhe disse que poderia vir, e Remo o encorajou a entrar. Droga, não devia ter confiado em nenhum dos dois, mas como poderia prever isso?
- Harry...
Era Sirius. Ele tinha aparecido na porta e olhava para Harry tão constrangido quanto o afilhado. O bruxo estava com os cabelos desarrumados, a camisa aberta e sem sapatos. Harry se virou para o padrinho, mas não olhou em seus olhos.
- Sirius... Eu sinto muito, não era minha intenção... Eu vou embora!
- Não! ele o segurou pelo ombro. Eu mesmo falei para você vir... Ah... ele soltou um longo suspiro e, olhando para dentro do quarto, disse: - Samantha! É melhor você ir embora!
Harry pôde escutar ela xingando alto e soltando um som abafado de irritação. Depois de poucos segundos, a professora apareceu na porta. Seus cabelos estavam mais desalinhados do que os de Sirius, e seu vestido negro mal colocado sobre o corpo, parecendo muito amassado. Ela carregava os sapatos de saltos altos nas mãos, e de longe não era aquela mulher bem composta de sempre. Seu olhar era extremamente aborrecido quando encarou Harry, sem cumprimentá-lo, mas mais aborrecida ainda ela ficou quando olhou para Sirius.
- Antes eu era "Sam" e podia ficar! Agora eu sou "Samantha" e tenho que ir! Você é mesmo um cafajeste, Sirius! Só quis se aproveitar de mim!
- Eu? ele perguntou abismado, rindo cinicamente em seguida. Sinto muito, mas eu não me lembro de ter ido procurá-la no seu quarto.
Ela bufou irritada, e saiu batendo os pés. Sirius a acompanhou com os olhos, mas não tinha aquele brilho raivoso no olhar, e sim uma expressão um tanto desapontada. Harry se culpou mais ainda por seu descuido. Sua vontade era ir embora para bem longe, mas sabia que o padrinho não permitiria. Enquanto caminhava para a passagem, Samantha ia colocando os sapatos nos pés. Harry não conseguia entender como ela conseguia fazer aquilo com tanta desenvoltura e sem ao menos se desequilibrar. Quando ela estava bem na passagem, parou e soltou um grito:
- PIRRAÇA!
Sirius e Harry se entreolharam, este último já sabendo do que se tratava: Pirraça não tinha ido embora, somente se escondido. Em dois passos, Sirius alcançou a porta e ficou atrás de Samantha. Harry se aproximou também, mas manteve uma distância dos dois adultos. Porém, ainda podia ver Pirraça dando cambalhotas no ar e rindo. A professora dirigiu um olhar bastante assassino para o poltergeist quando ele caçoou:
- Cobra dissimulada, se não tomar jeito vai entrar numa enrascada!
Sirius ia dizer alguma coisa, mas não teve tempo. A mulher sacou a varinha e apontou para o poltergeist, dizendo algumas palavras mágicas complicadas, que Harry não conseguiu entender. No mesmo instante ouviu-se um "ploc", e Pirraça desapareceu. Harry ficou boquiaberto, enquanto Sirius soltou um som parecido com "tsk, tsk", enquanto girava a cabeça de um lado para outro. Como se nada tivesse acontecido, a mulher saiu caminhando altiva e pisando duro no chão.
- Ela nunca vai mudar... Sirius suspirou, cruzando os braços, quando a mulher estava longe de suas vistas.
- O que foi isso? Harry perguntou, referindo-se ao desaparecimento de Pirraça.
- Ela mandou Pirraça para uma outra dimensão.
- O quê?
- Uma dimensão paralela à nossa... Ele provavelmente não vai dar as caras em Hogwarts por umas três semanas ou mais. Uma vez ela me mandou para esse lugar também.
- Como?
- Ah, ela sabe uns feitiços bastante adiantados, sempre soube, desde a época da escola... Ela me mandou para esse lugar, mas eu tive sorte e consegui realizar um contra-feitiço e sair.
Harry não disse mais nada depois disso. Um silêncio caiu sobre os dois e, rapidamente, ambos voltaram a se constranger com a situação. Sirius descruzou os braços e disse, caminhando em direção ao seu quarto:
- Vamos, Harry... Venha, vamos conversar.
- Anh... Sirius... Você não acha melhor eu... voltar outra hora?
- Tudo bem. o padrinho respondeu, entrando no quarto e segurando a porta, fazendo um sinal para que o afilhado entrasse. Vamos, entre.
Meio sem jeito, Harry entrou, e Sirius fechou a porta atrás dele. O quarto era ricamente decorado, como os outros ambientes, mas estava incrivelmente bagunçado. Havia roupas jogadas no chão, e malas abertas com roupas espalhadas sobre elas. A cama estava totalmente desfeita, comprovando a teoria que Harry formulou ao chegar e ver aquela cena. Não era preciso ser muito esperto para imaginar o que teria acontecido antes daquele beijo.
Sirius atravessou o quarto e sentou na ponta da cama, colocando a cabeça entre as mãos, parecendo muito desanimado. Harry nunca tinha visto o padrinho assim, ele parecia até mesmo... desesperado. O rapaz se sentiu muito mal ao ver isso, já que a culpa era sua! Se não tivesse entrado na hora errada, nada disso teria acontecido... Começou a se culpar por não ter ficado no dormitório o dia todo, como era sua vontade antes.
- Sirius... anh... me desculpe, eu...
- Você não me deve desculpas, Harry. o outro disse rapidamente. Eu é que lhe devo explicações.
- Não! Harry disse se sentando ao lado do padrinho, que continuava com a cabeça entre as mãos. Sirius, eu não tenho nada a ver com o que você faz... Você é adulto e sabe o que é melhor para você. Não precisa explicar nada!
- Mas eu quero! ele insistiu, virando-se para olhar o afilhado com um brilho quase suplicante nos olhos castanhos escuros. Eu preciso... Senão vou sufocar...
- Tudo bem, então... Se falar for te ajudar, eu tô aqui.
- Ah, Harry... Eu não devia ter feito o que fiz hoje! Eu não queria!
- Então por que fez?
- Porque eu queria!
- Queria ou não queria?
- Queria, mas também não queria!
- Assim você vai me deixar maluco, Sirius...
- Ah... ele manteve o olhar focado no nada. Eu sabia que estava errado, que não devia, mas... eu não consigo! Não consigo resistir a ela, não consigo me controlar! ele suspirou. É como uma doença... o que eu sinto por ela não é amor, nem paixão... é uma doença, e eu não consigo me curar!
Harry não respondeu de imediato. Sabia que era egoísmo pensar em seus próprios problemas quando o padrinho precisava dele, mas não se conteve. Lembrou de Gina. Será que ela estaria certa, afinal? Será que o que ele sentia por ela não era amor? Nem paixão? Será que era uma doença, como Sirius definia? Não... não poderia ser... ele tinha certeza que não.
- É como se ela fosse uma droga, Harry... Sirius continuou. E eu sou viciado nessa droga, e não consigo deixá-la, não consigo esquecê-la... Eu sei que é errado, mas é só ela chegar perto de mim que eu não me controlo... Eu perco o controle sobre minhas ações e, quando dou por mim, já aconteceu...
- Sirius... e se você tentasse ficar com ela? Realmente? Se lhe desse uma chance?
- Não! ele disse categórico, olhando bem fundo nos olhos de Harry. Não, Harry! Não posso perdoá-la! Não posso aceitá-la!
- Mas o que ela fez de tão errado que te magoou tanto?
Ele suspirou, virando-se novamente para olhar o nada.
- Não... eu... não quero te contar isso ainda, Harry... Não consigo te contar ainda... me desculpe...
- Tudo bem... Harry, um pouco desajeitado, colocou a mão sobre o ombro do padrinho, tentando confortá-lo. Era estranho fazer isso, porque geralmente não era ele que confortava as pessoas, e sim elas que faziam isso. Você é quem sabe... mas... se quiser, pode contar comigo...
Sirius se virou para olhá-lo e sorriu.
- Obrigado. ele riu chateado. Você veio aqui para que eu te ajudasse e no final você acabou me ajudando...
- Ah... Harry tirou a mão do ombro do padrinho, virando-se e apoiando as mãos nos joelhos. Não tem problema, acho que foi melhor assim...
Harry não estava mentindo. Realmente se sentiu melhor com essa tentativa de ajudar Sirius. Por um momento esqueceu seus próprios problemas pensando nos dele. Era estranho, mas parecia que se sentia melhor do que se voltasse a falar das suas complicações com Gina para o padrinho. Era melhor ajudá-lo do que voltar a pensar no que tinha acontecido.
- Você ainda quer conversar sobre...
- Não. Harry sorriu ligeiramente. É sério. Não precisa. Você me ajudou muito mais dividindo seus problemas comigo do que se tivesse me ouvido por horas e horas a respeito dos meus problemas...
Dessa vez foi Sirius que colocou a mão no ombro de Harry. O rapaz se virou e olhou para ele. O padrinho sorria. Harry conseguiu sorrir também, o primeiro sorriso realmente sincero que dava depois de muito tempo.
No próximo capítulo: Como tudo em Hogwarts, a história do término do namoro de Harry e Gina se espalhou pelo castelo. Além do seu já humor ruim, seus péssimos dias, a dor de ter perdido sua namorada, Harry ainda tem que ouvir comentários muito "agradáveis" sobre o assunto. Gina nem ao menos olha na cara de Harry, e ele tenta enganar a si mesmo fingindo que não se importa para os outros. Para completar, o rapaz tem sua detenção com Draco Malfoy e Katherine Willians, e, obviamente, os três juntos resulta em uma mistura explosiva. O único bom disso (se é que se pode chamar de bom) é que finalmente Harry entende por completo tudo que levou Gina a terminar com ele.
Leia também: A songfic desse capítulo, Disease, que conta tudo o que o Harry não viu sobre Sirius e Samantha.