Capítulo Vinte e Cinco – A cicatriz que desapareceu

 

O sol se punha pelas janelas envidraçadas do Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos. Lá fora, o mundo mágico comemorava a partida definitiva de Lord Voldemort; mesmo que ainda existissem alguns Comensais da Morte fugitivos, perseguidos pelos aurores, a ameaça de Voldemort se fora para sempre. Porém, aqui dentro, existiam bruxos muito mais preocupados com outra coisa.

Sentados, em uma mesa afastada a um canto, no Salão de Chá dos Visitantes, no 5º andar do hospital, estavam Gina, Rony, Hermione, Luna e Neville. Este último estava relatando aos outros quatro tudo o que tinha visto dentro da sala trancada, junto de Harry e Voldemort. Ele já tinha contado para tantas pessoas, que às vezes até se confundia e pensava já ter contado para alguém que ainda não sabia. Porém, mesmo contando tantas vezes a mesma história, Neville sempre a relatava com a mesma dedicação e admiração da primeira vez; era como se ele sentisse que passar aquela história adiante era seu grande dever.

- Mas... Voldemort simplesmente sumiu... assim? – Hermione perguntou intrigada. – E depois, não sobrou nada dele? Quer dizer, pra onde ele foi parar?

Neville deu de ombros.

- Eu não faço a mínima idéia, Hermione. – ele respondeu no mesmo tom de incompreensão da garota. – Isso eu sei tanto quanto vocês. Acho que só o próprio Harry sabe pra onde ele foi de verdade...

Gina, que estava ao lado de Rony, sentiu-o se remexer, como se tivesse passado um vento gelado por ali, mas logo ele voltou ao normal.

- Mas eu não entendo por que você teve que assistir tudo isso, Neville. – o próprio Rony comentou.

- Porque só ele conseguiu abrir a sala. – Luna retrucou como se fosse óbvio. Rony bufou; parecia que ele realmente jamais teria muita paciência com Luna.

- E por que só você conseguiu abrir a sala, Neville?

- Hum... eu não tenho certeza... – o rapaz começou incerto. – Mas acho que tem a ver com aquela profecia, sobre eu e Harry. – Gina ergueu os olhos. – Pelo menos, foi o que ele disse. Que mesmo que... Voldemort o tenha escolhido, ainda não tinha acabado o que eu tinha a fazer...

“Então, Harry não tinha contado a ele?”, Gina divagou sozinha com seus pensamentos. Pelo que Neville dizia, parecia que Harry ainda não lhe tinha contado sobre aquela profecia que ela tinha visto rolar na Sala das Profecias, com os nomes de Lord Voldemort, Harry Potter e Neville Longbottom. Será que ele jamais contaria? Será que ela deveria contar...?

- Aonde você vai, Gina? – Hermione perguntou quando a garota se levantou.

- Vou buscar um copo d’água. – Gina inventou qualquer desculpa. Na realidade, apenas queria parar de ficar ouvindo aquela história. – Estou com a garganta seca. Já volto.

Como tinha dito isso, ela acabou se dirigindo ao bebedouro, mesmo sem vontade. Enquanto o copinho de água enchia sozinho, ela ficou observando a sala, mas seus pensamentos estavam longe. Fazia muitas horas que eles não tinham nenhuma notícia do estado de saúde de Harry. Será que ele estava bem? Vê-lo daquela maneira, a cicatriz sangrando... tinha sido horrível.

Ela bateu os olhos em outro grupo de pessoas, um pouco mais além. Sua mãe estava sentada numa cadeira, os olhos vermelhos de tanto chorar. Com as mãos em seus ombros, estava seu pai. Ao redor deles, o Prof. Lupin, parecendo pensativo; Tonks, tentando dizer algo a Lupin; Hagrid, fungando em um lenço do tamanho de uma toalha de mesa, e Olho-Tonto Moody, resmungando alguma coisa. Nem eles tinham alguma notícia de Harry, pelo que Gina soubesse.

Quando ela estava voltando para a mesa, reparou que uma curandeira estava se aproximando dos outros. Imediatamente, ela parou, estática, e ouviu atrás de si movimentação de cadeiras se arrastando; Rony, Hermione, Luna e Neville também tinham notado. Gina caminhou até a mesa dos mais velhos, sem raciocinar direito.

- Mas como ele está? – a sua mãe, Molly, perguntava aflita.

- Estável. – a curandeira respondeu imperturbável. – Mas eu vim aqui porque ele me pediu que chamasse quatro pessoas ao seu quarto.

- Que pessoas? – Tonks perguntou confusa. Lupin pareceu sair de seu transe e observou a curandeira com atenção.

- Gina e Rony Weasley, Hermione Granger e... – ela pareceu buscar os nomes na cabeça. – Remo Lupin.

- Eu?! – Lupin exclamou surpreso.

- Se o senhor é Remo Lupin, então sim. – a curandeira retrucou impaciente. – Ele pediu que os chamasse com urgência, nem seriam recomendáveis visitas agora, porém...

- Nós vamos agora. – Gina se pronunciou depressa, largando o seu copo d’água na mesa onde estava sentada sua mãe, que a fitava confusa. – Vamos? – ela se virou para Rony e Hermione, que assentiram.

Assim, os quatro acompanharam a curandeira, que parecia muito contrariada por ter que levar visitantes à sala de um paciente que, ao seu ver, deveria era estar descansando. Lupin ainda parecia atônito por Harry tê-lo chamado. Rony parecia tenso e preocupado, enquanto Hermione o observava atenta. Gina, por sua vez, estava dividida entre a ansiedade por checar se Harry estava bem, e a dúvida sobre como se sentiria ao revê-lo novamente, depois de tudo que descobriu a seu respeito.

Quando chegaram ao quarto de Harry, a curandeira parou com a mão em cima da maçaneta, e fitou-os irritada, como se eles estivessem atrapalhando seu trabalho.

- Não o cansem demais! – ela recomendou enérgica, e então se virou para Lupin. – Ele pediu que o senhor entrasse primeiro, sozinho.

Lupin deixou o queixo cair novamente, e então lançou um olhar perdido para os garotos, parecendo mais confuso do que qualquer um. Ele assentiu lentamente com a cabeça, e a curandeira abriu a porta para ele passar. Gina tentou ver alguma coisa lá dentro, porém sem sucesso. A porta se fechou após Lupin entrar, e a curandeira se voltou para os garotos:

- Depois, vocês entram... mas não fiquem muito tempo!

Em seguida, ela foi embora, batendo os pés. Rony bufou, encostando-se à parede.

- Mulherzinha arrogante!

- Ela só está fazendo o trabalho dela, Rony... – Hermione suspirou, observando a porta fechada. – Por que será que ele chamou o Prof. Lupin antes de nós?

- Deve estar com vergonha de olhar na nossa cara. – Gina comentou com rancor.

Rony e Hermione a fitaram quase piedosos.

- Não fale assim, Gina... – Rony pediu cansado, fechando os olhos.

- Por quê, Rony? – ela retrucou impulsiva. – É claro que eu estou preocupada com ele, mas isso não apaga o que ele fez com a gente!

Houve uma pausa. Hermione teve vontade de perguntar algo a Rony, porém se deteve.

- Porque você pode se arrepender mais tarde... – ele respondeu à pergunta de Gina sem se abalar, parecendo conformado com algo inevitável. Hermione sentiu um aperto inexplicável no peito.

Gina escorregou pela parede, emburrada, até se sentar ao chão, abraçando as próprias pernas. Seus olhos estavam fundos e melancólicos.

- Eu só queria que ele não tivesse mentido tanto para nós...

Rony suspirou profundamente, abriu os olhos e fitou a irmã, chateado. Mas não disse mais nada. Hermione observou os dois e, depois de muito tempo, comentou:

- Eu gostaria de saber o que Harry e o Prof. Lupin estão conversando agora...

Nem Rony ou Gina responderam ao seu comentário; pareciam ambos completamente perdidos em seus próprios pensamentos. Hermione, impaciente, começou a andar de um lado para outro, pensando em tudo que tinha acontecido em uma única noite.

Era quase impossível conceber que, àquela mesma hora no dia anterior, ela ainda tivesse dúvidas quanto a Harry fingir ter perdido a memória, que estivesse às voltas com aquela maldita poção que, no final, não serviu para nada, e que Voldemort ainda existisse... Bem, talvez o mais inacreditável fosse a idéia de que, agora, ele não passava de um enorme capítulo tenebroso nos livros de história...

Os próximos longos minutos eles passaram em silêncio, apenas ouvindo o som de seus próprios pensamentos. Falavam apenas para perguntar as horas e comentar como Lupin estava demorando lá dentro. Houve um momento em que Gina comentou que desejava ter uma Orelha Extensível com ela, mas Rony – e nenhuma das duas o entendeu, pois geralmente seria ele quem daria uma idéia dessas – disse que, mesmo que tivessem uma, não seria certo usá-la.

- Você virou mesmo a cabeça dele, Hermione. – Gina comentou depois disso.

Porém, Hermione, ao contrário de Gina, não estava assim tão convicta que aquela atitude fosse por influência sua. Não, tinha acontecido alguma coisa que Rony não lhe contara... E era a respeito de Harry.

Assim que Gina terminou a frase, a porta do quarto se abriu, e Lupin saiu abatido por ela, encostando-a atrás de si. Gina se ergueu no mesmo instante, atenta. Rony se virou para Lupin, quase como se adivinhasse porque ele estava daquele jeito. Hermione se adiantou e perguntou:

- Como ele está, professor?

Lupin estudou os três atentamente antes de responder, com uma expressão derrotada e esquiva:

- Vocês verão. Entrem, ele pediu para chamá-los.

Rony, Hermione e Gina se entreolharam preocupados, enquanto Lupin caminhava no sentido oposto, os ombros ligeiramente caídos. Gina colocou a mão na maçaneta, porém, antes de girá-la, percebeu que não sabia se estava realmente preparada para ver Harry – estivesse ele bem ou não. Não estava preparada para ouvir o que ele tinha a dizer, nem para dizer tudo o que queria a ele.

Não estava preparada para olhar em seus olhos...

E havia algo que dizia a ela que, se entrasse naquela sala, não haveria como voltar atrás...

- O que foi, Gina? – Hermione perguntou.

Gina largou a maçaneta, como se tivesse levado um choque, e recuou dois passos.

- Entrem vocês primeiro.

- Mas você não vai...? – Rony perguntou incrédulo.

- Eu vou em seguida, entrem na frente.

Rony abriu a porta. Gina recuou mais um pouco, com medo de ver Harry sem querer. Rony, ainda com mão na maçaneta, disse lentamente:

- Olá, Harry.

E entrou. Hermione fitou Gina por um instante, antes de entrar logo atrás do namorado. Gina respirou fundo e esperou alguns minutos. A porta ainda estava aberta. Ela caminhou até ela devagar, ainda hesitante, e entrou, encostando a porta atrás de si, virando o rosto para não olhar para Harry. Fez-se silêncio quando ela entrou, e a garota percebeu que seria obrigada a olhá-lo. Virou-se.

Ele estava sentado numa cama, encostado a muitos travesseiros, pálido como papel e muito abatido. Parecia ter envelhecido dez anos desde a noite anterior. Seus olhos estavam fundos, com olheiras escuras, mas tão verdes e vivos como antes. A franja dele cobria toda a testa, e não era possível enxergar sua cicatriz. Rony e Hermione estavam sentados um de cada lado de sua cama. Harry, por sua vez, observava Gina com um sorriso terno e cansado.

- Pensei que não fosse entrar, Gina. – ele comentou num tom descontraído. Ela sentiu um frio na barriga ao ouvir sua voz dirigindo-se a ela e um torpor incontrolável.

- Por um momento, eu também pensei isso. – ela respondeu secamente, caminhando até a janela, onde se encostou de braços cruzados, fitando a cidade lá fora distraidamente. Por um segundo, veio à sua cabeça tudo o que tinha vivido com ele, como num filme que passa em quadros muito rápidos; no segundo seguinte, lembrou de como ele mentiu para ela, e sua raiva a fez voltar a si. Sua voz ainda estava seca quando falou novamente. – Como você está?

Harry trocou um olhar cúmplice com Rony e Hermione que Gina não viu.

- Eu estou ótimo. – ele respondeu animado, o que contrariava totalmente o que se via ao olhá-lo. Gina ainda não conseguia compreender se sentia alegria por estar perto dele ou raiva por ouvir sua voz cínica.

- Que bom.

Gina não disse mais nada, nem poderia; estava envolvida em um dilema: um lado seu queria correr até Harry e abraçá-lo, tocá-lo, senti-lo... ver se realmente estava bem – o que não parecia. Porém, por outro lado – o que estava a dominando no momento –, Gina estava muito zangada por tudo que ele tinha feito, por ter sido tão enganada, e seu orgulho ferido a impedia até mesmo de olhar para Harry.

- Quando o Prof. Lupin saiu daqui tão desanimado... – Hermione dizia. – ...por um momento, eu fiquei com medo que...

- Eu estou muito bem, Mione. – Harry fez questão de afirmar novamente. Então se virou para Rony, que o fitava descrente, torcendo as mãos com nervosismo. – Estou ótimo.

Rony sossegou as mãos no mesmo instante, como se Harry o tivesse repreendido.

- O que tanto você e ele conversavam? – Hermione insistiu.

- Eu precisava resolver uns assuntos com ele. – Harry respondeu misterioso. – Se Dumbledore... – ele respirou fundo. – ...estivesse aqui, eu conversaria com ele, mas... bem, de qualquer maneira, logo vocês irão saber o que nós conversamos.

Gina se virou para olhá-los; Harry puxava os fios soltos do lençol, sem fitar os amigos por um segundo. Hermione parecia que ia perguntar alguma coisa, mas Rony a interrompeu:

- McGonagall e Snape estão cuidando de tudo a respeito de Dumbledore... Parece que haverá uma cerimônia em sua homenagem em Hogwarts... Ouvi Moody comentando com meu pai.

- Dumbledore não precisava ter feito o que fez. – Harry comentou distraído, como se não tivesse escutado. – Ele sabia que não adiantava.

Houve uma pausa breve.

- Acho que ele fez isso... – Hermione começou incerta. – ...porque te amava muito mais do que como um aluno qualquer...

Harry abaixou os olhos, escorregando um pouco nos travesseiros.

- Eu deveria ter contado tudo a ele antes... talvez ele ainda estivesse aqui se soubesse...

- O que você não contou a ele? Pensei que não houvesse segredos entre vocês dois... – Gina disparou maliciosa, sem conseguir se conter. Havia um lado perverso seu, comandado por sua dignidade machucada, que queria ferir Harry, bem onde não haveria poção que o curaria.

Harry a fitou. Não parecia magoado com o jeito que ela tinha dito aquilo a ele, mas havia uma dor por outra coisa bem no fundo de seus olhos.

- Existem coisas que não se conta a ninguém, Gina. Ninguém.

Doeu ouvir seu nome dito nos lábios dele daquele jeito ferido. O tiro tinha saído pela culatra, e fora ela quem acabara se machucando.

Gina não soube o que responder depois disso, e novamente virou o rosto para não o ver. Era horrível ter que fitar seus olhos... de longe. Por um momento, ela pensou no que teria feito se estivesse no lugar de Harry, porém, ao mesmo tempo, veio em sua cabeça que nada justificava ter mentido daquela maneira, por tanto tempo.

- Eu sei o que você está pensando, Gina. – a voz de Harry interrompeu seus pensamentos. Ela se virou rapidamente para olhá-lo, o coração batendo rápido sem que permitisse. Ele respirou fundo. O que estaria se passando na cabeça dele, naquele instante? – Nada justifica minha atitude...

- Você estava lendo...?

- Não, eu adivinhei. – o olhar de Harry abrangeu Rony e Hermione. – Isso é óbvio, vocês não precisam me dizer que gostariam de uma boa explicação para o que eu fiz... acontece que nenhuma explicação que eu dê a vocês será boa o suficiente.

- Harry, você não precisa...

- Eu preciso sim, Hermione. E eu quero.

Gina encostou-se à parede, cruzando os braços com uma expressão desafiadora no rosto.

- E o que você vai dizer, Harry? Que fez isso para nos proteger? – ela perguntou com desdém. – Que se arrepende? Que tudo isso foi pelo bem da...

- Gina, dá um tempo! – Rony se virou para a irmã aborrecido. – Sem ironias, tá?

- Ah, mas você é mesmo muito engraçado, não, é, Rony? – a garota se virou indignada para o irmão. – Eu não me lembro de tê-lo visto assim tão calminho quando descobriu que Harry estava armando pra gente!

Rony abriu a boca para retrucar, mas Harry exclamou enérgico:

- Chega! – ele suspirou. Parecia muito cansado. – Será que vocês vão me deixar falar? Eu sei que talvez não queiram ouvir... – ele fitou Gina. – ...mas eu realmente preciso falar. Agora.

Rony e Gina se calaram, meio a contragosto. Gina olhava feio para o irmão e, depois, para Harry:

- Então fala logo, Harry. Fala tudo o que você quiser.

Seu tom ainda era sarcástico e cheio de mágoa; Harry pareceu notar, desviou o olhar do dela e escorregou um pouco nos travesseiros, as pálpebras de seus olhos ligeiramente caídas.

- Muita coisa eu já contei para vocês ontem... – ele começou devagar. – Eu entendo que estejam aborrecidos comigo, eu sabia que ficariam. Muitas vezes eu pensei em contar... mas eu tinha feito um juramento, a Dumbledore e a Ordem, e então, de qualquer maneira, eu estaria traindo alguém... ou eles, ou vocês...

- E aí você escolheu nos trair? – Gina o pressionou.

Ele novamente suspirou e pareceu ignorar a pergunta de Gina, mesmo que a tivesse respondido depois, indiretamente.

- De qualquer maneira... no final, eu acabei me traindo. Eu traí... tudo aquilo que acreditava ser o certo, para poder fazer o certo... Mas... acabou dando tudo errado...

Dessa vez, Gina não o interrompeu. Ela o observou enquanto tomava fôlego para continuar, assim como Rony e Hermione faziam, dizendo a si mesma que só estava mesmo era querendo ver até onde ele iria com aquela história patética.

No fundo, ela queria que ele lhe pedisse desculpas, dissesse que se arrependia, e que não era mentira que a amava, mesmo que todo o resto fosse...

Ele ergueu a cabeça e recomeçou a falar, observando o teto como se as cenas passassem por sua mente.

- Quando Dumbledore falou comigo... nessa mesma sala... quando ele me propôs o que íamos fazer... eu recusei imediatamente, eu disse que não poderia mentir assim, que não conseguiria... Eu discuti com ele, disse coisas... que não deveria ter dito. Eu só tinha dito coisas assim a ele na noite em que Sirius morreu...

Harry fechou os olhos, cansado.

- Ele não discutiu. Não insistiu no assunto. Ele fez muito pior. Ele disse que eu estava certo, e que ele estava sendo cruel ao me fazer um pedido desses. Disse que acharíamos outra maneira, que conseguiríamos vencer Voldemort de outro jeito... E foi embora depois de me pedir desculpas.

Harry fez uma nova pausa e abriu os olhos. Respirava com uma certa dificuldade.

- Naquela noite... eu pensei muito. Desejei que Dumbledore não tivesse recuperado minhas memórias, assim eu não precisaria pensar em tudo, mas... Eu pensei... nos meus pais... em Sirius... naquela maldita profecia... em vocês... – nova pausa, bem mais longa que a anterior. – Eu pensei no que tinha acontecido aquele dia em Hogsmeade... – Harry riu baixinho. – Eu pensei na nossa aventura, Gina, e em como eu me senti feliz naqueles momentos... sem saber... sem pensar... Mas eu tinha voltado a ser eu mesmo, e tinha que decidir...

“No dia seguinte, quando Dumbledore veio falar comigo logo cedo para ver como eu estava, ele se surpreendeu ao descobrir o que eu tinha decidido. E eu não permiti que ele dissesse mais nada, pois eu sabia que se o escutasse dizer que eu não precisava fazer aquilo – mesmo que eu precisasse – eu desistiria.”

Silêncio. Rony pareceu que ia dizer alguma coisa, mas olhou para Hermione e Gina antes e, por algum motivo, desistiu. Hermione teve a impressão de que ele diria algo a Harry se estivessem a sós. Por sua vez, Harry ergueu os olhos e fitou os três, bem no fundo dos olhos, um a um. Parecia estar sendo terrível para ele ter que encará-los, mas ele se forçou a isso:

- Eu sei o quanto magoei vocês. No seu lugar... – e ele disse isso olhando para Gina – ...eu também não perdoaria. Toda vez que eu mentia, eu lembrava que jamais poderia ter a amizade de vocês de volta quando descobrissem, e dizia para mim mesmo que aquilo tinha que parar, que eu estava indo longe demais, mas chega uma hora que você vê que não há mais volta. Chega uma hora que você vê que mentiu demais, e dizer a verdade parece impossível. A partir do momento que eu comecei, eu não poderia mais desistir. A partir do momento que eu menti uma vez, nunca mais poderia voltar a ser a mesma coisa...

“Acontece que...” – ele disse isso ainda olhando para Gina, que permanecia impassível, mesmo que por dentro estivesse arrasada. Ela viu os olhos de Harry cheios de lágrimas, e tentou lembrar quando ele tinha chorado antes desse jeito. – “...mesmo que eu entenda que não possam me perdoar, eu ainda preciso dizer...”

- Harry... – Hermione o interrompeu, sabendo o que ele ia dizer. E sabia que ninguém ali precisava de verdade ouvir todas as palavras saindo por seus lábios. Nem mesmo Gina, pois ela também já tinha feito – mesmo que achasse que não –  o que ele estava pedindo. – Você não precisa dizer... não...

- Eu preciso sim, Hermione. – ele disse com energia, o ar lhe faltando. Ele, novamente, fitou um por um até parar em Gina. – Eu preciso... pedir perdão a cada um de vocês... e dizer que eu sinto muito por tê-los magoado... e...

- Olha, Harry... – todos olharam para Rony, que foi quem interrompeu dessa vez. Ele fitava o amigo com um sorriso de compreensão. – De coração, você não precisa dizer mais nada. Nós sabemos. Todos nós.

Houve uma nova pausa. Gina sabia que seu irmão se referia a ela, mas preferiu não dizer nada. Não sabia o que dizer e, mesmo que soubesse, sua garganta estava enrolada demais para que conseguisse dizer alguma coisa.

Harry abaixou a cabeça, parecendo constrangido. Hermione olhou dele para Gina, que fitava novamente os jardins pela janela, e se levantou, virando-se para Rony:

- Vamos, Rony? Acho que nós dois já ouvimos tudo que o Harry tinha a nos dizer...

Harry ergueu os olhos depressa, assustado. Rony e ele trocaram um olhar cúmplice – Harry parecia terrificado, e Rony, um pouco apreensivo. Porém, o segundo abriu um sorriso, acenou com a cabeça, como se indicasse que estava tudo bem, e depois estendeu a mão. Harry a apertou, puxou o amigo e eles se abraçaram como dois irmãos. Quando os dois se separaram, o olhar de Harry cruzou com o de Hermione; ela se virou para Rony, e depois voltou a Harry, que sorriu suavemente. Foi só então que ela finalmente entendeu.

Hermione fechou os olhos por um momento, tentando digerir aquilo, mas sentiu que suas mãos começaram a tremer incontrolavelmente. Estava difícil ficar de pé. Ela abriu os olhos e viu que Gina ainda estava de costas, observando a janela, perdida em pensamentos. Virou-se para Harry, que a observava apreensivo. Caminhou até a beirada de sua cama, puxou sua mão e segurou-a com força. Harry devolveu o aperto, fitando-a com os seus olhos verdes expressivos, sem nada dizer.

- Então, Harry... – ela começou, tentando com o máximo de seu autocontrole fazer sua voz parecer normal. Ela não conseguia tirar os olhos dele, e parecia que conseguia entender, naquele momento, o que ele estava lhe dizendo pelo olhar. Sentiu-os úmidos, porém conteve como pôde as lágrimas. – Ah... A gente vai indo... Cuide-se, viu? E... e... a gente se vê depois, não é?

Como ela queria que ele dissesse... dissesse que...

- A gente se vê, Mione... – ele abaixou o rosto e beijou suavemente a mão da amiga. – Até mais.

Hermione não queria soltar a mão dele. Ficou segurando-a ainda por algum tempo, até que sentiu as mãos de Rony em cima de seus ombros, e ele sussurrou em seu ouvido:

- Vamos, Mione... vamos...

Lentamente, Hermione soltou a mão do amigo, mas não conseguia deixar de olhar para ele. Rony a puxou e praticamente a conduziu para fora do quarto; Gina continuou lá, e não disse nada nem quando eles saíram. Hermione ainda olhava para Harry lá dentro, enquanto Rony foi fechando a porta, até que tudo que a garota conseguia ver era a madeira opaca e o número do quarto gravado com magia.

Ela continuou observando a porta fechada, sentindo o peso daquela descoberta cair sobre seus ombros. As lágrimas que ela segurara até aquele momento por causa de Gina começaram a escorrer livremente por seu rosto.

- Hermione... você entendeu, não é?

Ela assentiu. Mas ainda não acreditava que pudesse ser verdade.

- Foi a última vez?

Rony fez uma longa pausa antes de responder.

- Foi...

Era como se ela estivesse caindo em um abismo, e um vazio enorme dentro do peito não a deixava respirar. Ela sentiu os braços de Rony ao redor de seu corpo em um abraço apertado e, então, chorou como nunca tinha chorado na vida.

 

*******

 

Gina ouviu a porta fechar com um ruído seco quando Rony e Hermione deixaram a sala. No entanto, continuou onde estava, de costas para Harry. Agora tinha ficado ainda mais difícil, pois eles estavam sozinhos pela primeira vez desde aqueles momentos em que ele a encontrou na sala das profecias. Havia aquele silêncio incômodo no ar, de quem tem muito a dizer, mas não sabe por onde começar.

Harry respirou mais forte.

- Gina?

Ela não respondeu.

- Gina... Você não quer olhar pra mim?

Ela sentiu o coração saltar. Como ele podia saber tudo sobre ela? Porém, continuou sem responder. Foi quando ouviu o som dos lençóis se arrastando e se virou depressa. Harry estava se esforçando para se levantar da cama e chegar até ela.

- Não, não precisa! – ela exclamou preocupada. Ele parecia sentir muita dor pela expressão em seu rosto. Gina correu até ele e, sem pensar, colocou as mãos em seus ombros para impedi-lo de se levantar. – Eu estou aqui. Eu estou aqui com você, Harry...

Ele ergueu os olhos lentamente para encará-la. Parecia tão... desamparado. Até mesmo frágil. Gina sentiu algo ruim ao vê-lo daquela maneira. Sempre que olhava para Harry via uma força inexplicável, mas agora... ele parecia apenas um menino desprotegido. Sua face demonstrava o quanto estava cansado. Ele levou as próprias mãos aos ombros e tocou suavemente as mãos de Gina que ainda estavam ali. Por um instante, ela quis recuar rapidamente; um arrepio passou por sua espinha, e ela sentiu a mesma sensação de medo que sentira da última vez que Harry a tocara, logo após Malfoy... Gina respirou fundo, mas Harry, notando, segurou mais forte suas mãos, com o pouco de força que ainda possuía, como se quisesse que ela estivesse próxima a ele, com ele.

“É apenas o Harry, Gina... o seu Harry... ele não vai lhe machucar...”

Gina relaxou com aquele pensamento, sentindo uma paz que não conseguia explicar. Sentiu-se, como antes, protegida ao lado dele.

- Deite-se, Harry. Não precisa se levantar por minha causa. – ela sussurrou para ele, que acabou obedecendo e voltou a se encostar aos travesseiros.

As mãos de Gina ainda estavam em seus ombros, e foi só então que ela se deu conta de quão próximos estavam um do outro. A garota recuou, dessa vez, não por medo, mas sim porque estivesse sem graça tão perto assim dele novamente. Ela se sentou na beirada da cama dele, observando-o enquanto terminava de se ajeitar na cama.

- Então... você não queria me olhar, não é? – ele repetiu a pergunta, porém, dessa vez, Gina não desviou o rosto.

- Você sabe, Harry. É difícil para mim vê-lo.

- Simplesmente me ver?

- Sim... – ela sussurrou. – E também... vê-lo assim.

Harry sorriu dolorido, e olhou para si mesmo.

- Estou tão horrível assim?

Gina riu.

- Não é isso...

Houve uma pausa.

- Tudo bem, eu sei o que é. – ele não continuou o assunto. Sabia que ela se referia ao estado que ele se encontrava. – Também é difícil para mim olhá-la e ver o quanto você está magoada comigo...

- Você queria que eu me sentisse como, Harry?

Novamente silêncio. Gina não o quebrou, era Harry quem deveria falar naquele momento. Estranho como estava sendo mais fácil ser sincera com ele agora que tinha começado a falar.

- Você tem raiva de mim, Gina?

Ela demorou a responder. Ele parecia apreensivo.

- Não. Eu não tenho raiva de você, Harry. Não consigo.

Tinha sido sincera. Ele pareceu acreditar.

- Pois deveria... Eu não fui nada bom para você... E você sempre foi incrível comigo, Gina. Não merecia que eu tratasse dessa maneira... Você não deveria mesmo me perdoar...

Ele realmente estava arrependido, Gina sabia disso.

- Meu irmão e Hermione estavam certos. – ela disse, e Harry ergueu os olhos. – É tarde demais, Harry, sem que me desse conta, eu já o perdoei.

- Gina...

Mas agora que ela tinha começado, tinha que terminar. E não tinha vergonha de dizer o que sentia.

- Você sabe, Harry... Eu te amo... E por mais que eu saiba tudo o que você fez, por mais que eu saiba que o certo seria estar zangada e não querer mais te ver... não dá. Tudo isso fica pequeno perto do que eu sinto. E mesmo que eu não queira, eu passo por cima de tudo isso. Não consigo te odiar, pois eu te amo.

Harry suspirou e fechou os olhos, cobrindo o rosto com as mãos. Por um momento, Gina não disse nada, até que finalmente se deu conta de que ele estava chorando, silenciosamente.

- Harry?

- Eu não mereço que você me ame assim, Gina... – ele disse com a voz abafada. – Eu fui tão horrível, eu a tratei tão mal... Como você ainda pode me amar? Você cuidou de mim esse tempo todo, e eu sabia tudo, fingia e continuava fingindo, sabendo que estava fazendo você infeliz, sabendo que poderia tirar todo o peso de suas costas se falasse a verdade, mas eu continuei mentindo, enganando-a, como eu fui capaz de magoar tanto as pessoas que são mais importantes pra mim?

- Harry... – ela puxou as mãos dele, retirando-as de frente de seu rosto para que pudesse vê-lo. Eles se fitaram por alguns instantes. Os olhos de Harry ainda estavam molhados. – Pensando bem... apenas estar ao seu lado foi o suficiente. E de um jeito ou de outro, eu sempre estive ao seu lado.

Ele tocou o rosto dela, e sussurrou com a voz embargada:

- Eu não poderia ter ninguém mais ao meu lado além de você, Gina... Eu amo você há mais tempo do que qualquer um possa imaginar... Nem eu mesmo sei quando começou, só sei que quando eu me dei conta, não tinha mais volta. E eu sei que foi egoísmo, mas eu não consegui ficar longe de você todo esse tempo, mesmo que soubesse que iria magoá-la. Eu não consegui não te amar, então eu tive que trazer você para mim, o máximo de tempo que pude, mesmo que estivesse mentindo para conseguir isso...

- Se você tivesse contado a verdade, Harry, ainda assim eu estaria ao seu lado...

- ...mas eu não menti, Gina, a respeito do que eu te disse naquele dia, lembra? Quando a gente dançou e eu te beijei pela primeira vez... – agora era Gina quem estava chorando. Sentia um aperto inexplicável no coração. – Dizer que te amava foi a única verdade que eu poderia dizer a você naquele momento... Amar você era a única coisa real na minha vida.

Harry fez uma longa pausa. Gina tinha tantas coisas para dizer, mas não conseguia dizer uma única palavra.

- ...e não importa o que aconteça, Gina... eu não vou esquecer o nosso amor...

Foi então que Gina teve um estalo. Ela se lembrou daquele dia – parecia que já fazia tanto tempo – em que ela pediu isso: para que ele não esquecesse o amor deles... E agora, agora ele estava dizendo que não esqueceria, acontecesse o que acontecesse. E ela percebeu, finalmente, o que ele estava tentando dizer. E não queria que aquilo acontecesse, não suportaria. Era demais para ela... Harry não poderia exigir tanto assim dela; poderia tudo, menos aquilo.

- Não, Harry... – ela pediu com a voz trêmula. – Não faça isso... Eu poderia lidar com qualquer coisa, pra sempre, menos com isso... Não, por favor...

Harry respirou com dificuldade e levou a mão ao peito, apertando-o forte, sem deixar de fitar Gina. Com a voz mais baixa que um sussurro, ele disse:

- Eu sabia que seria egoísmo fazê-la me amar, porque eu sabia que isso iria acontecer no final... E seria mais fácil se você achasse pra sempre que eu não te amava, mas eu simplesmente não pude ficar longe de você, mesmo que soubesse que seria assim... Ele ainda está aqui, Gina. Ninguém sabe para onde Ele foi, mas eu sei. Porque Ele está aqui, comigo, e só vai morrer se eu...

- Não diga isso! – Gina gritou histérica. – Eu não quero ouvir, Harry, eu não quero, eu não consigo! Por que você tinha que fazer isso, por que você tinha que fazer isso comigo?

- Era o único jeito, Gina! – Harry disse mais alto, tentando fazê-la compreender algo que era impossível de entender. – Eu não tinha escolha!

- É claro que tinha, Harry! – as lágrimas escorriam pelo rosto de Gina sem parar. – Você tinha que escolher viver, por você, por mim, por nós dois!

Ele meneou a cabeça.

- Eu não espero que você entenda, mas você tem que saber. Eu fiz o que eu tinha que fazer, Gina, e disso eu não me arrependo.

- Tinha que haver outro jeito, Harry... não é possível...

- É assim que era para ser, Gina, e foi assim que aconteceu. – ele respirou fundo, e agora ela entendia porque doía. – Ele está aqui, posso sentir. Ele fala comigo, Ele quer sair, mas eu não vou permitir. É aqui que acaba, é assim que eu e Ele vamos terminar o que começamos dezessete anos atrás.

Gina estava tão arrasada que não conseguia forças nem para protestar. Queria fazer alguma coisa, qualquer coisa, porque não poderia terminar assim, mas ao mesmo tempo, sentia-se tão impotente... Sentiu-se fraca, como poderia permitir que acabasse daquele jeito sem lutar? Porém, ao mesmo tempo, tudo aquilo parecia tão inevitável. Era como se soubesse, bem lá no fundo, desde o começo, que terminaria assim...

Harry segurou o rosto dela com as mãos, delicadamente, fazendo-a olhá-lo bem dentro de seus olhos.

- Você é forte, Gina. – ele disse com convicção. – Eu sei que você vai ter força para continuar. – ela negou, meneando a cabeça, mas ele fez com que ela voltasse a olhá-lo. – Você vai sim, Gina. Você é a garota mais forte que eu já conheci, e foi por isso também que eu me apaixonei por você. Você vai viver... e eu... eu serei uma das suas boas lembranças.

Ela não suportava mais. Abraçou Harry forte, chorando em seus braços, soluçando como uma criança desprotegida. Porque, só ali, com Harry, ela se sentia completa, e jamais conseguiria viver sem o seu calor a envolvê-la. Não tinha porque sentir vergonha de chorar daquela maneira e, por isso, deixou todas as lágrimas caírem. Ele a abraçou de volta, com a mesma intensidade que ela o abraçava, como se quisessem que aquele momento fosse para sempre, que eles nunca tivessem que se separar.

- Gina... – ela o ouviu dizer de muito, muito longe. – Por favor, chore até a última lágrima, mas depois disso... não chore mais. Eu vou me sentir horrível se você for infeliz por minha causa. Por favor, eu quero ser a sua melhor lembrança, e não o seu pior sofrimento...

- Mas... Harry...

Ele a ergueu, segurando seu rosto para olhá-la, tirando da frente dos olhos da garota os cabelos embaraçados que insistiam em cobrir sua face molhada.

- Você vai me prometer, Gina, não vai? Vai me prometer... que vai ser muito feliz e vai viver todos os seus dias tão intensamente quanto fez até agora, não vai?

- Eu não posso, Harry... – ela soluçou. – Eu não consigo...

- Consegue sim! – ele insistiu. – Eu preciso que prometa! Você entende isso? Prometa, Gina! Prometa!

Houve uma pausa muito longa. Harry esperou.

- Eu... eu... eu prometo, Harry.

Gina não via como iria suportar aquilo; porém, sabia que tinha que prometer aquilo a ele. Sabia que ele precisava ouvir aquilo. Ela continuou fitando os lençóis da cama, estática, sentindo que o chão tinha se aberto abaixo dela, e ela jamais conseguiria sair daquele abismo em que se encontrava.

Ouviu, muito longe, o barulho de uma gaveta sendo aberta. Harry estava mexendo em alguma coisa na mesa de cabeceira. Um pouco depois, ela sentiu algo quente sendo colocado em sua mão. Suavemente, Harry estava juntando as suas mãos e lhe dando algo. As mãos dele estavam geladas sobre as suas, mas ele as apertava com ainda mais vivacidade que antes, se isso era possível. Gina ergueu os olhos e viu que Harry a observava.

- Eu preciso de um último favor, Gina. – ela não conseguiu responder, mas ele entendeu como um sim. – Entregue isso a Neville. Diga a ele que isso o fará compreender tudo.

Gina abaixou os olhos e abriu as mãos. Harry tinha colocado o globo daquela profecia que ela tinha visto no Departamento de Mistérios em suas mãos. Haviam três nomes ali, mas ela prestou atenção apenas no nomes de Harry e Neville inscritos no globo.

- Mas, Harry, isso é a...

- Exatamente, Gina. Sibila Trelawney fez três profecias, e essa é a última. Eu estou confiando-a a você.

Gina fitou Harry bem no fundo de seus olhos verdes. A franja negra quase os cobria. Ela a afastou delicadamente com os dedos e, então, seus olhos se arregalaram. Ela viu a cicatriz em forma de raio de Harry. Porém, ela jamais esteve daquele jeito, tão... clara. Quase imperceptível. Ela quis dizer algo, mas Harry falou antes que ela começasse:

- Eu sei, está desaparecendo. Eu pensei que ela fizesse parte de mim, mas ela também vai embora quando isso tudo acabar, definitivamente.

Ela respirou fundo. Seu peito doía.

- Gina... você se lembra de quando nós fomos àquela cachoeira? – ela assentiu. Como poderia esquecer? – Então... você teve medo de se afogar... e eu disse que todos nós temíamos alguma coisa...

- E do que você tem medo, Harry?

Ele suspirou.

- Eu tenho muito medo, Gina... Medo de... deixar aqui as pessoas que eu mais amo, a família que eu conheci... – ele disse com emoção. – ...e quando eu chegar lá, não encontrar ninguém, e ficar sozinho...

- Oh, Harry... – ela acariciou o rosto dele. – Você não vai ficar sozinho, eu juro...

Ele aproximou o rosto do dela, encostando a testa na sua. Por muito tempo, eles ficaram assim, até que Harry a puxou para si e, ternamente, beijou-a. E, apesar de suas mãos geladas tocando o rosto de Gina, ela sentiu os lábios dele ainda tão quentes como se lembrava, e sentiu-se, por um único instante, aquecida por eles, como se a eternidade se resumisse àqueles segundos. Pareceu que tudo que eles tinham vivido passou por aquele momento, e Gina queria que nunca acabasse.

Mas aquilo era uma despedida. E finalmente acabou.

- Vá embora, Gina. – Harry murmurou. – Não há mais nada que você precise ver aqui...

 

*******

 

Notas da autora: Ufa! Aqui estou eu de volta. Eu até me perdi em quanto tempo faz que eu não atualizo, acho que foram o quê, nove meses? Acho que posso dizer que esse capítulo foi quase um filho, não? rs =p

Bem, agora, quanto a esse capítulo... talvez não tenha ficado tão longo quanto vocês esperavam ou queriam, mas há muito tempo eu sabia que ele seria assim, o próximo deve ser maior, pois tem mais explicações. Aliás, explicações que vocês TANTO esperam. O.k., se vocês AINDA (hehehehe) não descobriram o que o Rony sabe... eu prometo que no próximo capítulo vou contar, mostrar e explicar tudo nos mínimos detalhes sobre isso. E muitas outras coisas!

Hum... e eu acho que quem chegou até aqui deve estar querendo me matar por esse final, não? Ai, ai, ai... estou até vendo a cara de vocês... Mas eu tinha que terminar assim, era como tinha que ser! (desviando das pedras e dos tomates) Eu juro, não tinha outro jeito, eu sabia que iria fazer isso desde do começo! (faz as malas e foge para o Havaí) E sobre o que o Harry falou sobre o Voldemort ali no final, eu explico totalmente no próximo capítulo... =)

Enfim... OBRIGADA MESMO POR TUDO! Pelos comentários, pela compreensão, por aqueles que persistiram, tiveram paciência e não desistiram da fic! Beijos!!!

AHHHHHH!!! Três capítulos para o final agora!!! (choque)

E no próximo capítulo... É hora de explicações. E Harry deixou tudo pronto para fazer Gina, Rony e Hermione compreenderem suas atitudes e tudo que tinha acontecido, todo esse tempo, de uma vez por todas. É hora de revelações. E Rony vai contar porque escondeu de todos – até mesmo do melhor amigo – o que sabia de tão importante a respeito de Harry. É hora de encarar a verdade. E Neville terá que ser corajoso novamente para ouvir o que a Terceira Profecia dizia sobre ele. É hora de cumprir uma promessa. E Gina terá que ser forte o suficiente para fazer o que Harry lhe pediu.


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