Capítulo Dezesseis (Continuação) - Tão claro quanto água
O mar estava de ressaca.
As ondas quebravam na praia furiosamente, bem como a tempestade, que ia se tornando cada vez pior. Os raios faziam o céu noturno ofuscar por um segundo, como se fosse dia, e então o chão estremecia com os trovões raivosos que ecoavam pelo espaço. Godric´s Hollow, a "casa mal assombrada" da Praia das Andorinhas, parecia imponente e sinistra recostada contra o céu chuvoso da noite.
Harry estava encharcado dos pés à cabeça, mas não se importava nem um pouco. Sentado sobre a areia dura por causa da chuva, abraçado às pernas, ele não conseguia parar de pensar nas barbaridades que tinha dito a Duda antes de deixar a Rua dos Alfeneiros.
Tinha passado dos limites daquela vez. Aquele não era ele. Ele não era assim! Ele não era cruel com as pessoas daquele jeito... ou era? Não! Definitivamente ele não era! Duda poderia ser uma pessoa horrível e ter feito um monte de coisas ruins para Harry quando eles eram meninos, mas isso não lhe dava o direito de dizer tudo aquilo. Ele tinha se vingado, e Harry sabia que atitudes cruéis como aquela eram características de outra pessoa... eram características dele...
Mas eu não sou como ele! Eu não sou como Voldemort!
Mas tem o sangue dele...
Harry abaixou a cabeça, sentindo as gotas pesadas da chuva fustigarem sua nuca. Tirou os óculos e cobriu o rosto com as mãos, desolado. O seu corpo começou a ser perturbado por espasmos ocasionais e, tarde demais para se conter, Harry percebeu que estava chorando.
Sentia uma solidão imensa. Mas, ao mesmo tempo, tinha medo e não queria ficar perto de ninguém. Não era seguro. As outras pessoas eram boas, limpas. Ele não.
Era sujo, contaminado por um sangue imundo que não podia remover. Tinha os mesmo genes daquele bruxo horrível que matava tanta gente e destruía tantas vidas, e agora tinha descoberto que era tão perverso quanto julgava ser Voldemort.
E o pior é que era algo que não podia controlar. Simplesmente era daquele jeito, e não sabia se mudaria algum dia. Pensava ser uma pessoa diferente e descobria que não conhecia a si mesmo. Era um estranho e tinha nojo de a pessoa que estava conhecendo. A pessoa que estava se tornando. Ou que sempre fora.
Harry levantou a cabeça, tentando controlar os soluços, e limpou o rosto na manga da camisa, só percebendo o quanto estava sendo estúpido quando sentiu a água gelada que encharcava o tecido. As suas lágrimas quentes misturavam-se à chuva fria. Harry sentia-se como se tivesse acabado de morrer, como se fosse uma casca oca e sem vida.
Ele abaixou os olhos e viu a caixa velha de madeira de sua mãe. Teria ela imaginado que seu filho se tornaria aquele trapo de gente, tão horrível quanto seu pai biológico era?
Harry não teve coragem de abrir a caixa. Nem tentou. Não conseguiria olhar as coisas de sua mãe que tinha sido uma pessoa boa a ponto de sacrificar a própria vida por ele sem sentir-se ainda mais deprimido. Sentia vergonha. A vergonha que sua mãe sentiria dele se estivesse viva.
Será que seu pai sabia também? Será que sabia que o filho tinha o sangue daquele que, um dia, seria seu assassino? Harry não tinha como saber, mas também achava que o pai sentiria vergonha do filho se soubesse quem ele era.
Era quase uma da manhã quando Harry chegou em casa. Ela estava completamente imersa em sombras quando ele passou pela porta e a encostou bem devagar para não produzir qualquer ruído. Tinha medo de chamar a atenção de Sirius, estivesse ele onde estivesse. Estava apavorado somente com a hipótese de encará-lo. Não conseguiria fitar seus olhos. Não conseguiria contar onde esteve ou o que fizera, porque isso implicaria em contar tudo para ele, inclusive sobre Voldemort. E Harry não queria ver a vergonha real estampada em seus olhos. A vergonha, o asco e o temor que certamente iriam pintar os olhos castanhos do seu padrinho.
Mas Harry não conseguiu nem chegar às escadas.
As luzes se acenderam. Sirius estava sentado em uma poltrona, os braços cruzados sobre o peito. Harry encarou-o de volta, terrificado. Os únicos sons eram da tempestade lá fora e do pinga-pinga constante das roupas encharcadas de Harry sobre o tapete da sala.
- Pelo amor de Deus, Harry, onde você estava?
Sirius tinha exclamado tudo aquilo com a voz cheia de um alívio morno, e Harry viu a sincera preocupação nos olhos do padrinho, o que o fez sentir-se mil vezes mais miserável.
- Eu não acredito que você estava lá fora com essa tempestade, você é maluco? É perigoso ficar na praia com essa chuva, trovejando como está, será que você não pensa? Sirius tinha se levantado e estava apalpando as roupas encharcadas de Harry, dividido entre a incredulidade e a preocupação. Havia outro tom na sua voz agora, e Harry percebeu que ele estava muito zangado. Mas não estava conseguindo mais olhar para o padrinho, e apenas fitava um ponto fixo no tapete. Olha só, as roupas todas molhadas... você vai acabar ficando doente... Eu cheguei cedo, você não estava, as horas foram passando, você não chegava, fui perguntar à Sra. Prescott se você estava com a filha dela... fiquei desesperado, pensando mil coisas, cada uma mais horrível do que a outra... sabe por acaso que horas são? RESPONDE, HARRY!
Ele sacudiu Harry, tentando inutilmente tirá-lo daquele transe. Mas o rapaz tinha fechado os olhos dolorosamente, alheio à tudo aquilo e prestando atenção apenas ao profundo abismo de desespero no qual ele estava mergulhado. Não conseguia olhar para Sirius. Sentia-se cada vez pior ao ver a preocupação dele. O padrinho gostava dele, e ele era uma pessoa horrível, que não merecia ser amada daquele jeito. Mas ao mesmo tempo não podia contar a verdade a Sirius, porque ele poderia deixar de amá-lo, e Harry tinha pavor só de pensar nessa possibilidade.
- O QUE ACONTECEU COM VOCÊ, HARRY? FALA ALGUMA COISA!
- ME DEIXA EM PAZ, SIRIUS! Harry gritou, sentindo-se em pedaços quando empurrou o padrinho, que acabou caindo para trás no chão, fitando o afilhado em choque. Harry recuou, com nojo de si mesmo, arrependido pelo que tinha acabado de fazer, mas consciente de que não tinha alternativa; ele era perigoso, e Sirius era um homem bom, que não podia ficar perto de alguém tão horrendo quanto Harry. Só me deixa sozinho, Sirius... por favor...
- Mas, Harry...
Ele não ouviu mais nada. Subiu as escadas desabalado, desesperado, sem ver as coisas ao seu redor, querendo apenas fugir, fugir de Sirius, fugir dali, fugir de si mesmo...
Precipitou-se para dentro do próprio quarto, batendo a porta com estrondo ao passar, então parou no meio dele, sem rumo. Os trovões ecoavam lá fora, e Harry via a cortina da sacada movimentar-se com fúria por causa do vento. O quarto estava gelado e escuro.
Vagamente percebeu que ainda estava segurando a velha caixa de madeira. Num impulso, levantou parte do colchão e escondeu-a ali, sob ele, sem saber porque estava com tamanho medo que alguém fosse vê-la ou roubá-la dele. Abaixou o colchão e forçou-o a voltar para seu lugar, e então percebeu que havia um envelope pardo sobre sua cama.
A porta do quarto se abriu quando Harry apanhou o envelope.
Era Sirius.
Ele também parecia imponente ali, recortado contra a escuridão. Havia sombras em seus rosto e nos olhos, e ele subitamente pareceu mais velho e cansado, mesmo se comparado com rosto cadavérico que Harry conheceu logo após o padrinho deixar Azkaban.
- O que está acontecendo, Harry? ele perguntou, quase num tom de quem está implorando algo. Harry ficou ali, parado, sentindo o envelope nas mãos e fitando o padrinho com um peso cada vez maior dentro de si por não revelar a verdade e fazê-lo se preocupar tanto. Por que você não me conta? Por favor, Harry...
Sirius começou a se aproximar, cautelosamente, e Harry instintivamente recuou, apertando o papel entre os dedos trêmulos pelo nervoso. Uma parte sua queria falar, acabar com aquela agonia do padrinho e a sua própria, desabafar tudo aquilo que lhe sufocava, mas a outra parte tinha medo, medo do que veria nos olhos de Sirius quando ele soubesse a verdade.
- Por que não confia em mim, Harry? Sirius perguntou, deixando os braços caírem desconsoladamente.
- Eu confio em você... Harry disse baixinho. Eu não confio mesmo é em mim...
Sirius não disse nada por alguns instantes, parecendo incrivelmente confuso e desanimado. Harry apenas o encarou de volta, sentindo-se a última pessoa da face da Terra.
- O que é isso na sua mão?
Foi então que Harry se deu conta de que ainda segurava o envelope pardo entre os dedos. Levantou-o na altura dos olhos, mas quando estava prestes a identificar o que estava escrito no seu verso, Sirius o arrebatou de suas mãos sem pedir licença.
- Ei! exclamou ainda surpreso, mas Sirius já estava lendo o verso do envelope e o desconsolo em seus olhos gradualmente tornou-se fúria.
Sirius levantou o rosto para Harry, e foi fácil perceber o quanto o padrinho estava zangado pelo olhar gelado que este lhe lançou.
- Katherine Willians?! Você está se correspondendo com essa garota, Harry?
Demorou algum tempo para que Harry assimilasse a situação. Ele estava tão atordoado, que foi difícil até se lembrar quem era Katherine Willians. Mas, mesmo quando ele fez a ligação do nome à pessoa e irremediavelmente se lembrou daquela garota pentelha, ainda assim era complicado entender o que estava acontecendo.
- Mas que di... Harry engasgou, aproximando-se de Sirius e tentando pegar a carta de volta. Me deixa ver isso!
Mas Sirius tirou o envelope do seu alcance, cada vez mais aborrecido.
- Katherine Willians é uma sonserina, não? ele insistiu, e Harry não estava entendendo por que ele estava tão zangado. Ela é prima do filho de Lúcio Malfoy, não é?
- O quê? Ah, é, ela é sim! Harry respondeu confuso, ainda demorando para assimilar tanta informação. Sua cabeça doía, e ele estava mais preocupado com todas as aflições pelas quais tinha passado do que com uma carta boba. Mas que diferen...?
- FAZ TODA A DIFERENÇA DO MUNDO, HARRY! Sirius gritou, e Harry recuou, tendo certeza de que o padrinho estava enfurecido naquele momento. Ele agitava o envelope nas mãos como se fosse a prova irrefutável dos crimes hediondos de Harry. VOCÊ ESTÁ SE CORRESPONDENDO COM ELA!
- Ela é minha dupla de Defesa Contra...
Mas Harry não teve chance de se explicar.
- UMA SONSERINA, HARRY! VOCÊ ESTÁ SE ENVOLVENDO COM UMA SONSERINA!
Foi aí que a ficha de Harry finalmente caiu, e ele se sentiu invadido pela indignação. O que Sirius sabia a respeito disso? Nada! Absolutamente nada, e já estava ali, colocando palavras e sentimentos na boca de Harry!
- Você não tem idéia do que está falando, eu não tenho nada com...
- MALDIÇÃO, HARRY! Sirius exclamou desalentado novamente, atirando o envelope no chão. Ele começou a caminhar pelo quarto, desesperado. Quando voltou a falar, parecia mais triste e decepcionado do que zangado. Uma sonserina... uma sonserina... ele ficou repetindo. Ela vai te machucar, ela vai acabar com você...
- Do que você está falando, Sirius? Harry disse, mas o padrinho não parecia ouvi-lo. Eu não tenho nada com essa garota, eu já disse, ela é só minha dupla de...
Foi então que Sirius se virou e encarou Harry de frente, profundamente, dentro de seus olhos, e foi como se o padrinho pudesse até ler seus pensamentos naquele momento.
- Então me diz, Harry... era quase uma súplica. Me diz... me diz que você não sente nada por ela... diz olhando nos meus olhos... diz sinceramente...
Silêncio. Os dois continuaram se encarando. As últimas palavras de Sirius pairaram sinistramente no ar.
Sinceramente.
E Harry não conseguiu dizer mais nada.
Sirius fechou os olhos, como que derrotado, e murmurou:
- Você se apaixonou.
- NÃO! Harry negou aflito, mas tinha a impressão de que estava tentando convencer a si mesmo e não ao padrinho, pois quando ouviu as palavras saindo de sua boca, tudo se tornara desesperadamente real. Não, Sirius! Não é verdade, eu...
- Pára, Harry! Pára de negar pra si mesmo! Está tão claro quanto água! Sirius exclamou cansado, e Harry ficou quieto, calado, impotente. Eu já tinha notado que você estava diferente... imaginei que pudesse realmente ser uma garota, e estava até contente que você estivesse se interessando por outra pessoa depois da Gina, mas... Não uma sonserina, Harry, por favor, não uma sonserina!
Harry engoliu em seco, sentindo a respiração difícil.
- Mas, Sirius... se você está dizendo isso por causa de Samantha Stevens...
Foi como se Harry tivesse despertado um animal selvagem. Os olhos de Sirius se tornaram mais fundos e furiosos, e ele pareceu subitamente maior do que era na realidade.
- JÁ DISSE PRA NÃO TOCAR NO NOME DESSA MULHER!
A voz faltou a Harry, mas foi aí que ele finalmente entendeu. Mas Sirius estava errado, Katherine não era como Samantha, era completamente diferente...
- Mas ela não é assim, Sirius... ele ainda tentou argumentar, mas suas palavras só pareciam piorar a situação. Você não precisa se preocupar com isso, ela não é como...
- Você está percebendo o que está dizendo, Harry? Está notando? Você está defendendo essa garota, e ainda vem me dizer que não existe nada?
Foi só aí que Harry se deu conta do que tinha dito, e as palavras subitamente se tornaram irreais, como se não fosse ele quem as proferira. Mas, ao mesmo tempo, Harry sabia o que tinha falado, e isso o desesperava cada vez mais...
- Mas.. mas... mesmo que... não é, mas mesmo... que fosse... as palavras lhe faltavam, e ele evitou olhar para Sirius. Ela.. ela não é como Samantha, Sirius... não é... não...
Quando Harry levantou um pouco os olhos, viu que o padrinho tinha sido arrebatado por uma luz totalmente nova, como se tivesse acabado de se dar conta de algo muito importante, que tinha negligenciado por muito tempo.
- Quantos anos tem essa garota, Harry?
- Mas o que isso importa?
- Quantos anos tem essa garota? Sirius perguntou de novo, impaciente.
- Ah... Harry pigarreou, embasbacado. Sei lá, Sirius... quase a mesma idade que eu, acho, ela está no sétimo ano também...
Sirius não disse mais nada. Apenas deu as costas a Harry e saiu praticamente correndo do quarto.
- Sirius! Harry gritou sem entender o que estava acontecendo e saiu atrás dele, mas quando principiou pelo corredor, ouviu um craque e viu o padrinho desaparecer.
Harry ficou parado, os ombros caídos, fitando o corredor vazio sentindo aquele enorme buraco dentro de si. Voltou para o quarto alguns minutos depois, com uma sensação de frustração tão grande que era quase como tivesse acabado de deixar o pomo de ouro escapar de dentro de seus dedos; mas era incomensuravelmente pior. Harry encostou a porta do quarto, mergulhando novamente na escuridão. Sirius tinha desaparatado sem que Harry pudesse se explicar, sem que pudesse fazê-lo entender que...
Mas o que Harry poderia fazê-lo entender?
Harry se sentou na beirada da cama, finalmente aceitando a verdade. Sirius estava certo. Tudo estava tão claro quanto água, e ele, Harry, o tapado, é que estava fechando os olhos para não enxergar a verdade. Tinha enveredado por um caminho pelo qual a volta era quase impossível, e ainda assim, difícil e tortuosa. Tinha se apaixonado, mesmo jurando que nunca mais iria fazê-lo.
O envelope pardo ainda estava jogado no chão. Harry se abaixou e o apanhou. Reconheceu a letra rápida e corrida, e sentiu aquele frio agradável no estômago, misturado à toda sua frustração e tristeza. No envelope, estava escrito apenas:
Para Harry
Potter
Da "pentelhinha",
Katherine Willians
No próximo capítulo: Após uma nova discussão violenta com Sirius, Harry acaba indo passar o resto das férias de Natal na Toca. Lá, reencontra Gina Weasley, que está mais estranha do que nunca, e acabam ocorrendo atritos entre os dois, confundindo Harry ainda mais. No Natal, Rony o surpreende lendo a carta de Katherine e, ainda, Harry tem uma conversa de "mãe para filho" com alguém muito especial, que lhe alivia as aflições.
Leia também:"Todo amor que houver nessa vida", songfic Sirius/Samantha que continua esse capítulo - no ar!!!