Capítulo Nove – A pior dupla

 

- Credo. Até parece que vocês dois engoliram palha-fede. – Hermione comentou pouco depois de ter cruzado o retrato da Mulher Gorda junto a Harry e Rony, que se arrastavam pelos corredores, com expressões de horror bastante idênticas nos rostos.

- Você diz isso porque não pegou duas carnes de pescoço como nós! – Rony retrucou irritado. Suas orelhas ficaram novamente vermelhas. – Está muito feliz por fazer dupla com seu amiguinho monitor perfeito, não é?

Era a vez de Hermione adquirir um tom vermelho arroxeado no rosto, fazer uma careta de indignação e começar a desfiar desaforos para Rony, que retrucou mais irritado ainda, e assim os dois permaneceram brigando enquanto desciam pelo menos uns dois ou três andares, sem nem ao menos notar os atalhos que Harry pegava pelo castelo.

Por sua vez, Harry estava ocupado demais com sua própria desgraça para se preocupar com mais uma briga banal de seus amigos. Sentia-se tão miserável com a perspectiva dos próximos meses que nem conseguia proferir alguma palavra de desconsolo ou desgosto. Ele não suportava simplesmente a idéia de se imaginar estudando um ano inteiro junto àquela sonserinazinha pentelha, quanto mais se não fosse uma simples idéia, mas sim a realidade.

Definitivamente, ele deveria ter ficado na cama o dia inteiro.

Talvez tivesse sido um engano. Talvez ele acordasse no dia seguinte e percebesse que era apenas um sonho idiota, daqueles pesadelos que se tem quando as pessoas comem demais antes de dormir. Isso, claro, era apenas um pesadelo indigesto. E se ele se beliscasse, acordaria na sua cama, na Torre da Grifinória, e perceberia que o sol ainda não tinha raiado. Com sorte, acordaria até na manhã de domingo, só para não ser segunda-feira.

- AI!

Rony e Hermione até pararam de brigar depois do grito de Harry, intrigados. Eles abaixaram seus olhos para uma grande marca vermelha no braço esquerdo dele, onde Harry tinha acabado de se beliscar.

- O que houve, Harry? – Hermione perguntou.

- Nada... – ele respondeu desanimado; por um momento realmente tinha achado que estivesse sonhando. – Voltem a brigar.

Mas parecia que eles tinham perdido o fio da meada e a briga já não tinha mais sentido (como se tivesse algum desde o começo). Rony, então, começou a lamentar as desgraças de sua vida.

- Como isso é possível? Vocês têm noção do quanto isso é horrível? Eu vou fazer dupla com Malfoy! Malfoy! – ele repetia como se estivesse vomitando. – Malfoy, aquele idiota, filho da mãe, desgraçado, estúpido, ridículo, mimado e babaca do Malfoy!

- Eu poderia dizer mais alguns bons adjetivos sobre ele... – Harry divagou e, como se algo estalasse dentro de seu cérebro, ele teve uma idéia brilhante, magnífica, genial!

- Por que essa cara de feliz? – Hermione perguntou achando graça.

- Você está achando divertida a minha infelicidade? – foi a vez de Rony perguntar, ofendido.

- Vocês não perceberam? – Harry parou de andar, virando-se para os dois amigos. – Há algo que podemos fazer!

- Como o quê?

- Como pedir pelo amor de Deus para o Prof. Lupin mudar nossas duplas, Rony! Ele não negaria!

O rosto de Rony também se iluminou. Hermione fez uma cara de "Hã? Que idéia estúpida é essa?".

- É claro, Harry! Nós o conhecemos há anos, ele foi amigo de seus pais, do Sirius! É claro que ele não vai negar se nós...

Hermione pigarreou. Os dois garotos se viraram para vê-la.

- É óbvio que vocês dois estão se esquecendo de um pequeno detalhe. – ela disse com sua voz de sabe-tudo arrogante. Rony ergueu uma única sobrancelha e parecia ter acabado de engolir lesmas.

- E qual é esse pequeno detalhe que estamos esquecendo, Srta. Esperteza em pessoa?

- Vocês estão esquecendo... – ela prosseguiu, ignorando a provocação de Rony. - ...que o Prof. Lupin disse que ele e o Prof. Snape escolheriam duplas de Casas diferentes, até mesmo rivais, com o intuito de nos unirmos e nos fortalecermos contra o mal que nos ronda. – finalizou, referindo-se a Voldemort.

- E-da-í? – Rony perguntou lentamente. – Não quer dizer que o Prof. Lupin não vá...

- Você é tão cego que não consegue enxergar um palmo na frente do nariz, Rony? A intenção de Dumbledore ao inventar esse Clube dos Duelos, além de nos ensinar os feitiços mais complexos, foi de estreitar as relações entre os alunos das Casas... especialmente Grifinória e Sonserina. Se vocês não perceberam, a maioria das duplas é composta por alunos dessas duas Casas.

- A única relação estreita que eu consigo imaginar com um sonserino seria estarmos próximos o bastante para que eu pudesse azarar algum deles... – Harry disse em meio à devaneios. – Mas eu poderia pensar em formas de fazer isso o mais longe possível também.

Rony soltou uma risadinha, mas Hermione permaneceu séria.

- Eu sei que deve ser horrível para vocês, eu mesma ficaria possessa se pegasse alguma dupla como Draco Malfoy ou... – ela soltou um ruído de nojo. - ...aquela esquisita da Katherine Willians. Mas eu duvido muito que haja alguma maneira de reverter isso.

- O fato é que eu sou o cara mais azarado da face da Terra. – Rony praguejou, desviando de Harry e batendo os pés, voltando a caminhar. Hermione e Harry o acompanharam rapidamente. – De todas as pessoas, até mesmo sonserinos, que poderiam ter caído para minha dupla, é justamente Malfoy o escolhido!

- E você preferiria alguém como os trasgos do Crabbe ou do Goyle? – Hermione riu, claramente tentando desanuviar a tensão, mas Harry achou que ela não estava indo muito bem. – Ou quem sabe Pansy Parkinson?

Rony lançou um olhar tão feio para a garota, que ela se calou.

- Bem, Rony... acho que você não analisou todas as possibilidades... – Harry falou sonhadoramente, sem conseguir reprimir um sorrisinho maléfico. Os seus dois amigos o encararam confusos. – Veja bem, há coisas que você pode fazer... – ele disse maliciosamente, mas com o mesmo tom de quem explica que um mais um são dois.

- Que possibilidades?

- Você pode transformar Malfoy em uma barata nojenta e gosmenta, se bem que ele já é isso... – Harry riu, tentando fazer uma cara de inteligente, como se analisasse a situação. – Ou então algum verme bastante asqueroso... Mas o mais divertido é que você não poderá perder pontos por amaldiçoá-lo! Você sempre poderá dizer que estava estudando Defesa Contra as Artes das Trevas...

Hermione caiu na gargalhada, obviamente achando que tudo aquilo que o amigo tinha dito era alguma piada. Rony, no entanto, estava sorrindo alegremente.

- Por que eu não pensei nisso antes? – perguntou mais para si mesmo do que para os outros.

- Ah, essa é fácil... é porque você é um tapado!

Rony perseguiu Harry com seus livros pelo próximo lance de escadas, xingando-o de todos os nomes possíveis. Hermione apenas se divertia, rindo de se acabar.

- Mas é óbvio que você está brincando, Harry. – ela disse mais tarde, quando os dois tinham parado de brigar. – Não é?

- É claro que não, é o que eu faria. – ele retrucou com ar sério. – E eu tenho certeza que, no momento que Malfoy viu que sua dupla seria o Rony, ele pensou algo parecido. Ou pior.

Hermione ficou tensa.

- Você... acha que Malfoy... tentará fazer mal ao Rony?

- Ora, nós conhecemos Malfoy desde que temos onze anos. – Harry observou seriamente a amiga por cima das lentes dos óculos. – Ainda não deu para notar que tipo de pessoa ele é?

A garota parecia preocupada diante dessa visão dos acontecimentos. Ela e Harry voltaram-se para Rony, que tinha um sorriso maroto no rosto.

- Ele que tente. – disse com simplicidade. – Eu estarei pronto. Esse vai ser o único ano em que eu vou realmente me dedicar a Defesa Contra as Artes das Trevas.

 

*******

 

Foi um dia esquisito. Todos os grifinórios do sétimo ano passaram-no esperando (ansiosamente ou não) pela aula de Defesa Contra as Artes das Trevas no final da tarde, afinal, esta seria a primeira aula em que estariam com as novas duplas. Harry e Rony passaram toda a aula de História da Magia conversando com Simas, Dino e Neville sobre as duplas, enquanto o asmático Prof. Binns lia monotonamente um assunto que até poderia ficar interessante nas mãos de outro professor: uma batalha de gigantes que ocorrera no início do século. Olhando emburrada para os garotos de dois em dois minutos, uma aborrecida Hermione fez, como sempre, suas anotações da aula.

Como a garota mesma dissera pela manhã, a maior parte das duplas era constituída por grifinórios e sonserinos. Foi Simas que teve o desprazer de ter como dupla Gregory Goyle; o grifinório não parava de reclamar do tamanho do cérebro (ou melhor, da falta dele) que tinha o capanga de Malfoy. Rony se esquecera um pouco de sua própria desgraça, imitando a voz lenta e enrolada de Goyle, numa representação do sonserino forçando os seus poucos neurônios a funcionar. Por outro lado, Neville e Simas tiveram mais sorte; suas duplas eram uma simpática morena da Lufa-lufa e Ernie Macmillan, respectivamente.

No entanto, nem as brincadeiras dos amigos puderam fazer com que Harry deixasse de amargar sua imensa falta de sorte. Era claro que ele não era o único; Rony e Simas também tinham se dado muito mal, mas mesmo eles tinham uma vantagem, como Harry mesmo lembrara a Rony mais cedo: ao menos poderiam amaldiçoar as suas duplas. Já Harry achava que não conseguiria fazer isso; apesar de Willians ser uma pentelha, chata e irritante, ainda assim era uma garota. Ele não poderia transformá-la em algo asqueroso, como provavelmente faria com alguém como Malfoy, não é? Se bem que ele não achasse que ela fosse ter tantos escrúpulos.

Na aula de Trato de Criaturas Mágicas, logo após dividir entre os alunos aqueles mesmos "urubus-lagartos", Hagrid se aproximou de Harry, Rony e Hermione, para conversarem um pouco.

- Vocês não têm aparecido na minha cabana. – ele reclamou, mas mantinha um sorriso animado no rosto. Assim que Hermione abriu a boca para dizer algo, ele prosseguiu: - Não precisam se desculpar, sei que devem estar muito ocupados por causa dos N.I.E.M.s e tudo mais...

- Era exatamente o que eu ia dizer... – Hermione se explicou, ao mesmo tempo em que um irritado Rony tentava enfiar carne podre goela abaixo do "urubu-lagarto" deles. – Você sabe, Hagrid, os N.I.E.M.s são muito...

- Eu juro que vou gritar se mais alguém repetir essa maldita palavra! – o garoto ameaçou, colocando tanta carne na boca do bicho que ele cuspiu a maioria em sua camisa e depois ainda mordeu seu dedo. – AH, SEU DESGRAÇADO!!!

Harry se afastou um pouco do amigo; aquela carne podre realmente fedia. Hermione arregalou os olhos, assustada, mas Hagrid, diferente dos outros, soltou uma risada sonora.

- Cuidado para não enlouquecerem, meninos... – disse em tom de brincadeira. – Em todos esses anos, já vi muita gente gritando pelos corredores. Lembro-me muito bem de que, na época de seus pais, Harry, Sirius vivia xingando os fantasmas só para descarregar o nervosismo do sétimo ano.

- Mas Sirius nunca foi muito preocupado com a escola, ou foi, Hagrid? – Harry perguntou intrigado.

- Ninguém escapa do sétimo ano...

Hermione estremeceu após o tom sombrio de Hagrid, mas dois segundos depois ele já estava rindo e brincando novamente. Parecia realmente de bom humor naquele dia.

- Soube que o Prof. Lupin está fazendo aulas diferentes.

- É, a primeira mudança que ele fez foi colocar Snape como seu "assistente". – Rony resmungou rabugento, fazendo um feitiço para limpar sua camisa da carne podre.

- Ah, mas o Prof. Snape será de grande ajuda... – Hagrid considerou. – Ele sabe muito sobre as Artes das Trevas e...

- E como usá-las? – Harry arriscou.

- E como se defender delas. – Hagrid emendou, com um olhar repreensivo por cima de sua barba enorme. – E quais foram as duplas de vocês nos duelos? Elas já saíram, não é?

Hermione contou sobre o tal monitor. Como sempre, Rony adquiriu um tom vermelho-arroxeado nas orelhas e quase esmagou o "urubu-lagarto" deles. Harry arrancou-o das mãos do amigo antes que este fizesse com o pobre animal inocente o mesmo que gostaria de fazer com o pescoço de Brendon Summerfield.

- E você, Harry?

- Katherine Willians. – o rapaz resmungou azedo. – Tem alguém pior?

Rony levantou a mão.

- Ei, ei, estamos esquecendo quem é o mais azarado aqui, obviamente! – disse, referindo-se a Malfoy. Até mesmo Hagrid fez uma careta quando Rony contou sua dupla.

- Realmente, é um páreo duro. – Hermione comentou. – Eu acho que não suportaria passar um ano estudando com aquela descerebrada da Willians.

Hagrid suspirou desanimado.

- Vocês são exagerados. – ele disse em tom de lamúria. – Aquela menina não é burra, Hermione. Eu sei que muita gente não gosta dela, mas eu não a acho ruim.

- Ela já colocou musgos nas suas roupas, Hagrid?

- Hm... não.

- Que bom para você. – Hermione falou com sarcasmo. – Porque ela já colocou nas minhas. Demorei uma semana para recuperar três peças, sendo que a última ficou imprestável.

Harry e Rony se entreolharam assustados. Meninas eram brutais quando queriam. Hagrid fez um gesto espaçoso com a mão, displicentemente.

- Eu só acho que essa menina é amargurada. – o meio gigante especulou sombriamente. – E diria que tem seus motivos; eu conheço sua...

- Sua...

- Acho que já conversamos demais, isso sim. – Hagrid mudou de assunto como quem troca de roupa. – Vou dar uma volta pela sala, para ver como andam os trabalhos.

E ele, estranhamente, não chegou mais perto dos garotos. Harry, Rony e Hermione se entreolharam, confusos.

- Vocês acham que ele pode saber algo que não sabemos? – Hermione perguntou intrigada.

- E se souber? – Rony deu de ombros. – O que nos importa qualquer coisa sobre aquela garota maluca? É Harry quem deve se preocupar com isso, afinal, você vai passar grande parte dos próximos meses com ela, amigo.

- Nem me lembre...

E Harry enfiou, desolado, mais uma grande quantidade de carne na boca do bicho que cuidava, tentando esquecer sua imensa falta de sorte. Por que tudo tinha que dar errado para ele?

 

*******

 

Quando se quer que algo demore para chegar, aí sim que chega bem mais rápido...

O resto do dia passou como um sopro. Antes que se desse conta, Harry já estava dentro do grande Salão Principal, novamente com as mesas das Casas encostadas nos cantos. Poucas eram as duplas que estavam juntas; a maioria dos alunos estavam perto de seus amigos, observando de longe, com apreensão ou raiva, o seu parceiro de duelos. Rony e Malfoy não paravam de lançar olhares de fúria um para outro, e o sonserino parecia mais malicioso do que de costume. Hermione estava tão preocupada, que nem se importava com as provocações constantes de Rony sobre a dupla dela.

Harry olhou uma ou duas vezes para Katherine Willians; ela parecia extremamente aborrecida. Na terceira vez que ele olhou, a garota percebeu e o encarou de volta com uma cara de "tá olhando o quê?", postando as mãos na cintura. Harry fez uma cara de nojo para ela e não voltou mais a olhá-la.

O grande número de alunos silenciou quando o temido Prof. Severo Snape entrou por uma porta lateral, sozinho. Muitos alunos ficaram aterrados com a mesma idéia – por algum motivo, Snape daria aquela aula sozinho? Harry olhou para seus amigos com um ponto de interrogação na cara, mas os dois pareciam tão confusos quanto ele.

Snape dirigiu um olhar de desprezo para a maioria dos alunos, suas sobrancelhas erguidas ao observá-los separados, como da outra vez, por Casas. Com sua voz fria, ele sentenciou:

- Não vou tolerar insubordinação durante as aulas. – ele observou Harry como se olha para uma barata particularmente irritante no canto da sala. – Devo avisá-los de que não sou tão tolerante quanto Lupin.

Hermione ergueu rapidamente sua mão, obviamente para fazer a pergunta que pipocava na cabeça de todos: onde estava Lupin? Harry teve uma súbita inspiração e, com desagrado, começou a fazer as contas na sua cabeça; não, não poderiam estar na lua cheia...

- Se não estou enganado, vocês já foram informados de suas duplas nesta aula. – Snape continuou, contorcendo seu rosto macilento. – Ou são tão estúpidos que não tiveram nem a curiosidade de verificar esse detalhe?

Draco Malfoy levantou a mão.

- Nós já fomos informados, professor. – explicou com sua voz arrastada, lançando um olhar malicioso para Rony. – Infelizmente.

- Então porque permanecem dispostos dessa maneira? – Snape perguntou, com seus olhos miúdos correndo de um aluno para outro, como se fosse cozinhá-los a vapor no caldeirão. – MEXAM-SE!

Não foi preciso que dissesse pela segunda vez. Houve uma súbita movimentação, o mais silenciosa possível, na qual cada aluno procurou sua dupla. No meio de toda aquela bagunça, Harry perdeu de vista a longa juba encaracolada de Katherine Willians. Neville esbarrou nele umas três vezes à procura de sua parceira. Depois de uns dois minutos, quando quase todos já estavam com suas duplas, alguém cutucou o ombro de Harry e exclamou atrás dele:

- BU!

Harry deu um sobressalto e se virou com um olhar mortal para Willians. Ela o encarava quase pretensiosamente, várias mechas cacheadas de seu cabelo desengonçado caindo sobre os olhos. Um sorriso torto pairava nos seus lábios, talvez porque tivesse conseguido aplicar-lhe um susto. Ela cruzou os braços, observando-o com arrogância.

- Assustei você, Potter?

- Eu só me assustei com a sua cara feia, Willians.

Ela não pareceu se abalar.

- É bom que se acostume, ou sempre vou te pregar sustos daqui pra frente, garotinho.

Ele não gostou nem um pouco do tom irônico que ela utilizara, e menos ainda da colocação da palavra "garotinho" na frase. Harry gostaria que aqueles duelos começassem logo.

Snape chamou a atenção para si com um pigarro seco da garganta. O burburinho que se formara devido à movimentação para encontrar as duplas silenciou no mesmo instante. Harry observou seus amigos; Hermione conversava animadamente com Brendon Summerfield, enquanto Rony e Malfoy trocavam olhares furiosos e xingamentos variados pelos cantos da boca.

- Hoje, nós iremos...

- Professor Snape? – Hermione levantou a mão novamente. Não podendo mais ignorá-la, o professor se virou para ela, com uma única sobrancelha erguida. – O professor Lupin não virá para a aula hoje? – ela perguntou, mantendo o autocontrole, apesar do olhar de desprezo que Snape lhe lançava.

- O professor Lupin está impossibilitado de dar aulas hoje. – Snape explicou, e seus músculos faciais tremiam, como se reprimisse um risinho de escárnio.

O estômago de Harry afundou e ele voltou a fazer contas; não, tinha certeza de que ainda estavam na lua crescente, no final dela, mas ainda era crescente! Não era possível que estivesse equivocado... Ele deu uma cotovelada em Willians, que o encarou como se ele tivesse sérios problemas mentais.

- Qual é o seu problema, garoto? – ela sussurrou.

- Em que lua estamos?

Ela pensou por alguns instantes.

- Crescente.

- Eu sabia!

- Creio que deva ser muito enfadonho me ouvir, Potter. – Snape disparou, e Harry levou outro susto; não tinha notado que Snape o observava. – Dez pontos a menos para a Grifinória por sua falta de bom senso.

Willians abafou um risinho. Harry bufou.

- Como eu dizia antes de ser brutalmente interrompido pela falta de educação de Potter... – Snape sibilou. – Lupin não está em condições...

- Eu não lembro de ter-lhe dito isso, Severo.

Todos se viraram para a porta. Remo Lupin estava parado, de braços cruzados, com um ar adoentado, mas ainda de pé. Ele observava Snape pacientemente, como se olhasse para uma criança mimada. Por sua vez, parecia que tinham roubado o pirulito do mestre de Poções. Harry teve vontade de rir, mas se conteve bravamente.

- Você me disse que...

- Eu disse que estava cansado, Severo. – Remo cortou-o, atravessando o Salão Principal. – Mas em momento algum afirmei que deixaria as aulas de hoje. Principalmente as do sétimo ano. – ele parou ao lado de Snape. – Você sabe tanto quanto eu que essas aulas precisam ser ministradas por dois professores, e tanto quanto eu puder, evitarei ao máximo que um de nós seja obrigado a dá-las sozinho.

Snape adquirira uma coloração muito parecida à de Rony quanto este soubera que teria que fazer dupla com Draco Malfoy. Ao seu lado, Remo parecia extremamente abatido e aborrecido com o colega de trabalho. No entanto, quando se virou para os alunos, retomou aquele mesmo sorriso amável.

- Sinto muito pelo atraso. – ele observou os alunos com curiosidade. – Vejo que já estão separados em duplas, que bom terem aceitado isso com facilidade.

Draco Malfoy teve um acesso súbito de tosse.

- O senhor precisa ver Madame Pomfrey, Sr. Malfoy. – Remo disse gentilmente, virando-se para o sonserino.

- Aposto que não será necessário. – Rony, ao lado de Malfoy, disse, dando praticamente um soco nas costas do colega. – Ele deve ter-se engasgado.

Malfoy se virou para Rony com um olhar assassino, mas o ruivo apenas sorriu maliciosamente. Remo continuou a falar:

- Se já estão todos arrumados, poderemos começar logo.

- Era o que estava prestes a fazer, Lupin. – Snape cuspiu as palavras com raiva.

- Ah, mas eu não lhe contei isso, Severo... – Remo retrucou alegremente. – As aulas não serão aqui, eu encontrei um lugar muito melhor!

Um músculo tremeu involuntariamente no canto da boca de Snape e sua sobrancelha se ergueu. Como uma serpente, um burburinho excitado e ansioso deslizou entre os alunos. Um lugar melhor? Hogwarts era grande, mas ninguém sabia de um lugar maior que o Salão Principal dentro do castelo. Aquilo era bastante diferente e o mais intrigante era que Snape parecia tão informado sobre o tal lugar quanto seus alunos.

Enquanto isso, Remo sorria quase marotamente. Ele juntou suas mãos com os olhos brilhando de contentamento e pediu aos alunos que o seguissem. Snape parecia ao mesmo tempo confuso e perigosamente irritado justamente por estar confuso; ele seguiu Lupin com um olhar furioso no rosto macilento e, pelo que Harry conseguia enxergar, disparou cochichos aborrecidos para o colega, que apenas respondia com alegres sorrisos.

- Uh... – Willians vibrou ao lado de Harry, enquanto os dois se juntavam à massa de alunos que deixava o Salão Principal apressadamente, seguindo os professores. – Isso vai ser interessante.

Quando Harry se virou para olhá-la, a garota tinha um sorriso divertido no rosto.

- E por quê? – perguntou só por perguntar.

- Porque isso vai feder. – ela disse com simplicidade, ao mesmo tempo que um grupo barulhento passava por eles aos solavancos.

- Você gosta de ver o circo pegar fogo, hein?

- Oras, deixe de ser tedioso, Potter. – ela retrucou aborrecida, enquanto eles ganhavam os jardins. – Olhe para o Snape e me diga: quantos tons roxos você vê no rosto dele?

Harry quase riu; ele observou Snape por cima das cabeças dos alunos mais à frente, e ele parecia prestar a soltar fogo pelas ventas, como um Rabo-Córneo húngaro.

- Aproximadamente quinze. – respondeu, fazendo uma expressão de quem analisa o caso.

- Só isso? – Willians fez pouco caso e, depois, olhou para Snape franzindo as sobrancelhas, como se fizesse força para pensar. – Pois eu vejo dezenove. No mínimo.

- Você tem um parafuso solto, não?

- Dezenove. No mínimo. – ela repetiu. – O que será que ele está pensando?

- Snape?

- Não, minha avó.

Harry revirou os olhos e a ignorou. No entanto, ela não parecia disposta a terminar a brincadeira.

- Pois eu acho... – ela prosseguiu. - ...que Snape provavelmente está pensando em vinte formas diferentes de afogar Lupin num caldeirão.

Harry preferiu não responder, mas conteve um sorriso. Definitivamente aquela garota era maluca. Enquanto ela parecia continuar a imaginar os pensamentos de Snape, ele observou o caminho que faziam. Remo e Snape iam à frente, sendo seguidos por um enorme grupo de alunos dispersos e curiosos. Remo parecia saber muito bem para onde ir; ele contornou a ala oeste do castelo, seguindo no sentido contrário ao campo de quadribol. Harry não fazia a mínima idéia para onde estavam indo, muito menos os outros; ninguém ia muito para aqueles lados dos terrenos. Contudo, pela expressão de Snape, ele finalmente parecia estar entendendo; e, ao menos naquele momento, ele não parecia estar pensando em afogar Remo num caldeirão.

- Já sabe o que Snape está pensando, Willians?

A garota olhou de esguelha para Harry, intrigada.

- Pensei que fosse me xingar pela brincadeira, Potter. Não sabia que tinha espírito esportivo.

Ele bufou, revirando os olhos.

- Eu não acho que Snape ainda esteja pensando nos caldeirões... – ela continuou. – Ele está com uma cara estranha.

- Eu também estava pensando isso. – Harry disse lentamente. – Será que ele sabe para onde estamos indo?

- Pode ser... E deve ser algum lugar bem sinistro. – a garota especulou e, dois segundos depois, ela deixou sua boca abrir-se em espanto. – Oh, nós estamos conversando, Potter! Até dá pra conversar com você!

- É claro que dá pra conversar comigo, sua estúpida! – ele disparou aborrecido. – Não dá é pra conversar com você!

- Uhu, voltamos ao normal!

Eles agora tinham entrado num enorme campo aberto, com árvores esparsas; o castelo tinha ficado para trás. Harry se perguntou qual seria o tamanho do terreno onde estava o castelo; já sabia que era enorme, devido à Floresta Proibida, mas agora percebia que era ainda maior do que imaginava. O grupo começava, agora, a fazer uma subida ligeiramente íngreme. Estranhamente, a expressão de Snape se tornava cada vez mais sombria.

– Ei, você já parou para pensar no porquê de terem nos escolhido para dupla? – Willians perguntou abruptamente, enquanto começavam a subida. Ela e Harry estavam um pouco atrás no enorme grupo de alunos que fazia a "expedição".

- Falta de sorte? – Harry arriscou distraído. – Ou então eu sou uma péssima pessoa e tenho que pagar amargamente pelos meus erros.

- Também. – a garota arfou; a subida era realmente íngreme. – Mas deve haver alguma outra razão, não é? Afinal, que eu saiba, as duplas foram escolhidas a dedo pelo Prof. Lupin.

- Foi ele que escolheu? E Snape?

- Estão dizendo por aí que foi Lupin... Parece que Snape não tem muito poder de decisão, afinal, o professor de Defesa é Lupin, não é?

- Como você sabe tudo isso? – Harry perguntou desconfiado, arfando de cansaço também.

- Sei sabendo. – ela desviou do assunto. – Mas eu gostaria mesmo de saber por que as duplas foram disposta desse modo. Por exemplo: o seu amigo Weasley e Draco; não parece uma decisão muito sensata colocá-los juntos.

- Eu sinto pena do Rony... – Harry lamentou. – Ah, mas espera aí, eu tenho que sentir dó de mim mesmo primeiro.

Willians o ignorou solenemente. Parecia muito mais interessada em continuar seu raciocínio, e como Harry era a única pessoa por perto, ela parecia conformada em estar dividindo seu pensamento com ele.

- É quase certo que os dois vão tentar se amaldiçoar no primeiro confronto. – ela continuou. – Mas mesmo assim, Lupin os colocou juntos... Muito estranho.

- Hermione diz que isso é para estreitar os laços de amizade entre as Casas. – Harry comentou.

- Ela disse, é? Bem, deve-se confiar no que a CDF da Granger diz, afinal, ela é uma sabe-tudo irritante.

Harry lançou um olhar mortal para a garota e lhe diria alguns insultos se não estivesse com tão pouco fôlego. Aparentemente, Willians também estava, pois não voltou ao assunto.

Finalmente, eles chegaram ao topo, e Harry pôde perceber porque os alunos que já tinham subido há muito tempo estavam boquiabertos. Descendo aquele pequeno morro, havia um enorme jardim, a perder de vista; Harry viu árvores dos mais variados tipos, algumas das quais ele nem conhecia, e também diversos tipos de flores e plantas. O terreno era tão vasto, que ele não sabia onde terminava. Era impressionante.

Remo, mais à frente do enorme grupo, virou-se para os alunos abobalhados. Ao lado dele, Snape parecia deveras apreensivo, o que era muito estranho.

- Sinto muito tê-los cansado com a caminhada, mas não se aborreçam comigo, agora falta pouco, estamos quase chegando lá. Acho que não vão se arrepender depois que virem o lugar, mas acho que já estão impressionados apenas com essa vista.

Não muito distante, Harry ouviu Malfoy comentar irritado:

- Que idiota, não acredito que nos fez andar tudo isso... Poderíamos ter aparatado ou coisa parecida. Andar é coisa de trouxas.

- Ah, claro, você gostaria de aparatar e perder os cabelos que lhe restam, não é? – Rony retrucou sarcástico, lembrando Malfoy do dia do teste de aparatação. – E não se pode aparatar em Hogwarts, seu burro.

Harry sorriu; só faltava Rony perguntar "você não leu ‘Hogwarts, uma história’?". Mas o amigo não faria isso; seria "Hermione" demais.

Descendo o morro, havia dois caminhos a seguir; Remo conduziu os alunos pelo da esquerda. No entanto, Willians não desviava o olhar do da direita.

- O que tanto você olha, hein? – Harry perguntou. – Vamos ficar pra trás.

- Olha pra lá, Potter.

Ela apontou o caminho da direita, que descia em curvas e dava numa parte bem mais afastada do jardim lá embaixo, onde haviam árvores escuras e retorcidas. A outra parte do imenso jardim era tão mais magnífica, que ninguém tinha notado aquele lado. Harry achava que já tinha visto aquele tipo de árvores em algum lugar.

- Que árvores são aquelas?

- Você não as reconhece, Potter? – Willians perguntou num tom sombrio. – São ciprestes.

Algo estalou dentro da cabeça de Harry e ele imediatamente soube porque reconhecia aquelas árvores. Já as tinha visto anos atrás, quando visitara o cemitério onde estava enterrado Tom Riddle, o pai de Voldemort.

- Ciprestes são árvores comuns em cemitérios. – Willians explicou desnecessariamente, cruzando os braços, pensativa. – Não é possível que...

- ...haja um cemitério em Hogwarts? – Harry continuou, sentindo uma contração esquisita no fundo do estômago.

- Aqui é bem grande... pode ser isso mesmo. – Willians ponderou. – Que interessante.

Ela deu meia volta, seguindo na direção que o grupo tinha ido. Harry, no entanto, permaneceu onde estava. Se havia mesmo um cemitério em Hogwarts, quem poderia estar enterrado naquelas terras? Ele não sabia por quê, mas teve uma enorme vontade sinistra de seguir pelo caminho da direita e saber a resposta.

- Ei, Potter, vai continuar aí sonhando? – ele ouviu a voz de Willians.

Obedecendo apenas a seus instintos, Harry deu alguns passos, na direção do caminho da direita. Ele tinha que ver o que tinha naquele lugar...

- Você ficou doido? Aonde você vai? Espera aí!

Willians correu e se colocou a frente dele. Harry parou de andar enfurecido.

- O que foi?

- Você ficou biruta, é? – ela perguntou. – Não está pensando em ir lá conferir se é um cemitério mesmo, não é?

- Se eu quiser não vai ser uma grande idiota como você que vai me impedir.

Ele se desviou e deu um passo, mas ela se colocou novamente à sua frente.

- Qual é o seu problema, garota?

- "Qual é o seu problema, garoto?", seria a pergunta mais correta, Potter. Você não pode ir lá.

- Diga um motivo.

- Porque você é minha dupla e se eu chegar sozinha na aula vou levar uma bronca.

- Não é um bom motivo.

- Muito bem, pare de dar chilique, o.k.? Você não pode ir lá agora. Vá mais tarde, quando tiver anoitecido, e aí você pode encontrar um monte de fantasmas amiguinhos do Barão Sangrento, mas agora você vai para a aula, como um bom menino da Casa dos santinhos.

Harry a encarou como se ela tivesse algum sério problema de insanidade.

- Como você vai me obrigar a isso?

- Bem, eu posso fazer um bom feitiço que resolveria isso rapidinho.

Ele cruzou os braços indolentemente.

- Eu gostaria de ver isso.

- Ah, vamos lá, Potter, deixe de ser criança! – ela levantou os braços. – Você quer um motivo para ir, o.k.? Eu vou te dar um motivo; o seu querido professor Lupin vai ficar muito zangado se você trocar a aula dele por um cemitério velho que você nem sabe se existe.

Harry considerou a idéia. Não daria o braço a torcer, mas realmente era uma idéia meio idiota bolar aula para visitar um lugar que ele nem sabia se existia. Além disso, sentiriam sua falta e daria um confusão dos diabos. Bufando, ele deu meia volta e tomou o outro caminho.

- Bom menino! – Willians exclamou, parecendo sinceramente aliviada, mas ainda irritante. Harry se virou para ela com um sorriso sarcástico.

- Eu posso voltar.

- Não, não, não! Está bom assim. – ela o apressou. – Precisamos ir logo para alcançar os outros. – ela lançou um olhar irritado a ele. – Graças a sua teimosia...

A descida era ainda mais íngreme do que a subida. Dava para enxergar o grupo bem mais à frente, já lá embaixo. Willians escorregou e caiu de bunda no chão, sujando toda sua saia com terra.

- Uma única palavra e você nem saberá o que lhe atingiu, Potter. – ela ameaçou, após se levantar.

- Eu disse alguma coisa? – ele perguntou em meio a gargalhadas.

Depois de muito correrem, eles conseguiram alcançar o final do grupo e ninguém tinha notado sua ausência. Como Willians, muitos estavam também sujos de terra. Harry deveria ter perdido várias oportunidades de dar mais gargalhadas com os tombos.

Após mais cinco minutos de caminhada, Remo parou em frente ao nada. Havia um grande espaço vazio entre as árvores. Os alunos, cansados pela extensa caminhada, olharam desanimados para o enorme vazio. Até mesmo Harry chegou a pensar que a proximidade da lua cheia tinha causado algum efeito na sanidade de Remo.

- Chegamos! – ele disse animado.

- Chegamos ao lugar nenhum, o senhor quer dizer. – Draco Malfoy comentou furioso.

Ele não era o único. Quase todos estavam cansados e furiosos também. Snape, o mais irritado de todos, virou-se para Lupin com um olhar de dar medo em qualquer um.

- Não acredito no que está fazendo, Lupin.

- Ah, então você já percebeu onde estamos, Severo?

- Eu notei desde o começo.

- Duvido que tenha sido desde o começo.

Willians deu um cutucão em Harry com o braço.

- Eu não disse que seria interessante?

Harry observou os professores discutindo como duas velhas. Estava tão abasbacado como qualquer outro aluno. Muitos decidiram sentar nas pedras para aliviar o cansaço. Harry viu Neville, muito sujo de terra, sentar-se numa grande pedra branca polida, totalmente diferente das outras.

- Dumbledore disse que eu poderia usar este lugar. – Remo estava dizendo.

- Acho que você não notou o quão longe é esse lugar, Lupin! – Snape retrucou descontrolado, prestes a afogar Remo no caldeirão, se houvesse algum disponível. – Quanto tempo vamos perder vindo até aqui todas as aulas?

- Eu disse que seria todas as aulas, Severo?

Snape se calou, mas seu rosto se retorcia horrivelmente.

- Espero que o diretor também tenha lhe dito o truque para entrar. – Snape completou secamente.

- Ah, não se preocupe, ele me con...

Não foi possível que ninguém dissesse mais nada. A pedra branca onde Neville estava sentado afundou, e ele se levantou num sobressalto, com uma cara assustada.

- Não foi minha culpa! – ele exclamou. – Eu só sentei ali, eu juro!

Remo olhou vitoriosamente para Snape, que parecia ter acabado de descobrir que o Natal fora adiado.

- Nem precisamos dizer o truque a eles, hein, Severo? Neville descobriu sozinho.

Todos assistiram, boquiabertos, uma enorme construção em estilo gótico aparecer do nada naquele imenso espaço vazio trinta segundos antes. Obviamente, era muito menor que o castelo de Hogwarts, mas ainda assim era uma construção imponente; todas as paredes eram detalhadas, com desenhos talhados nas colunas. Uma enorme porta de mármore branco estava bem atrás dos professores. Nem mesmo Malfoy teve do que reclamar ao ver aquilo.

- Bem, eu os trouxe aqui para lhes mostrar onde farão os exames de duelos no final do ano. – Remo explicou à turma. – Não vamos vir todas as aulas aqui, obviamente, pois é muito longe. – ele lançou um olhar significativo a Snape, que bufou. – Mas eu gostaria que a primeira aula fosse aqui, ao menos.

Ele fez um gesto amplo com os braços, abrangendo a enorme construção.

- Este lugar... – explicou. – ...foi construído por Godric Gryffindor e Salazar Slytherin, especialmente para seus duelos. E eles faziam muito isso. Dizem que, no início, eles eram amigos e duelavam apenas pelo prazer da disputa. Alguns anos depois da fundação da escola, cresceu uma certa animosidade entre os dois, e eles passaram a se enfrentar por rivalidade. Mas não vamos ficar aqui fora; vamos entrar para que vocês possam praticar um pouco lá dentro.

Com um gesto da varinha de Remo, as grandes portas de mármore branco se abriram com estrondo. Snape ainda lançava um olhar estreito ao colega, claramente com o desejo de amaldiçoá-lo ali mesmo se fosse possível. Os alunos assistiram abobalhados às portas se abrirem para, depois, entrarem bem atrás dos professores.

Se a construção era magnífica por fora, isso nada se comparava ao interior. Harry achou que ficaria com dor no pescoço, de tanto que o virava para ver tudo que havia lá dentro. Vários lustres enormes de cristal pendiam do teto, mudando de cor dependendo da luz que incidia neles; nas paredes adornadas com fios de ouro e prata, tochas de fogo colorido e dançante faziam a iluminação. Nos espaços entre as tochas, espadas reluzentes faiscavam à luz bruxeleante das chamas difusas. O teto era adornado com pinturas antigas de bruxos e bruxas, que se moviam em duelos e batalhas. O chão de um mármore escuro era tão polido, que Harry conseguia ver seu próprio reflexo nele. Havia um enorme vão na sala, e era impressionante imaginar que eles duelariam ali entre si, bem como Gryffindor e Slytherin faziam há mil anos. Willians não conteve uma exclamação de admiração.

Remo parecia bastante contente com a reação dos alunos. Depois da euforia inicial, ele mandou que todos se separassem em suas duplas e se afastassem uns dos outros, para que pudessem praticar os feitiços mais básicos, como o de desarme. Harry teve a sensação de que aquilo não daria certo e muitos sairiam machucados, mas se os professores estavam de acordo, ele ficou contente em finalmente poder duelar. Willians também mantinha um olhar maroto no rosto quando ela e Harry se dirigiram para um dos cantos da enorme sala, para poderem treinar. Eles deram um espaço entre si e, quando Remo avisou que poderiam começar, sua voz ecoando pelo salão, Willians rapidamente disparou um feitiço de desarme.

Harry foi pego de surpresa, mas nem tanto; conseguiu conjurar uma barreira às pressas e sentiu somente uma parte do impacto, deslizando sobre o piso polido apenas alguns passos. A garota sorriu vitoriosa, mas não por muito tempo; Harry rapidamente lançou um feitiço das pernas presas, que fez com que a menina se atrapalhasse e caísse de bunda, novamente, no chão. Harry aproveitou para rir mais um pouco da cara dela.

Ao redor, varinhas voavam e alunos deslizavam pelo mármore do piso. Enquanto Willians se livrava do feitiço, ele procurou seus amigos pela sala; Hermione estava do outro lado e, pelo que Harry conseguira enxergar, o tal Brendon estava apanhando, mas não parecia com muita vontade de enfeitiçar a garota de volta. Por outro lado, Rony e Malfoy se embrenhavam em um duelo bastante rápido e violento. Harry fez uma careta ao ver Rony ser atingido por um feitiço.

- Impedimenta!

Dessa vez, Willians realmente tinha pego Harry distraído; ele sentiu um impacto grande no peito e seu corpo foi arremessado alguns metros para trás, e ele também deslizou pelo chão de mármore. Ao contrário do que imaginou, nem doera, pois parecia que o chão tinha sido feito especialmente para isso. No entanto, Harry teve uma estranha sensação de dèjá vu ao deslizar por aquele chão. Mas ele não tinha tempo para isso; ainda no chão, lançou um "Tarantallegra" em Willians. Ela, numa manobra incrível, deu uma estrela e se desviou do feitiço.

- Ei, isso é permitido? – Harry gritou.

- Vale tudo no amor e na guerra, meu bem. – ela retrucou ironicamente, já apontando a varinha para Harry no chão; antes que o feitiço o atingisse, ele rolou pelo chão e o jato de luz ricocheteou no piso, indo atingir uma garota baixinha da Corvinal em cheio; jorraram furúnculos no seu rosto e ela levou suas mãos às bochechas, gritando e chorando.

- Isso foi horrível... – Harry se levantou, fazendo uma careta. Willians examinava a garota ao longe, seus músculos faciais se retorcendo.

- Dê graças a Deus que não aconteceu com você, Potter.

Enquanto eles conversavam, Draco Malfoy voou e caiu no chão, próximo a eles, com um baque surdo. Harry reconheceu a gargalhada de Rony, mesmo sem estar vendo-o.

- Wow! – Willians exclamou. – O bumbum tá dolorido, Draco?

Malfoy se levantou com o máximo de dignidade que conseguiu e lançou um olhar maldoso para sua prima, que se calou, ainda mantendo um meio sorriso no rosto. O sonserino ainda dirigiu um olhar de desprezo para Harry antes de voltar ao duelo com Rony.

Harry e Willians voltaram a duelar, e o rapaz mal conseguia acreditar na velocidade da garota, apesar de seus feitiços não serem muito eficazes. Ele não tinha dificuldade para bloqueá-los, o problema era conseguir acertá-la na volta; em um instante ela estava à sua frente, e no outro já estava pelas suas costas, quase como se aparatasse, o que era impossível naquele lugar.

Passados alguns minutos, Harry viu pelo canto dos olhos que Remo tinha se aproximado para observar o duelo dos dois. Pelo olhar astuto com que o professor os observava, ele tinha notado a mesma coisa que Harry.

- Muito rápida, Srta. Willians.

A garota não respondeu, mas um leve sorriso nos seus lábios fez Harry acreditar que ela tinha apreciado o elogio do professor. Arfando, Harry se virou para Remo quando ele chamou sua atenção:

- Mantenha seus olhos abertos, Harry. Essa menina irá te pegar desprevenido na primeira oportunidade.

Ele estava certo; foi só Harry se voltar novamente para o duelo que um feitiço o atingiu sem que ele pudesse escapar. O rapaz sentiu um pequeno impacto, mas nada muito grande; no entanto, foi como se sua cabeça ficasse estranhamente pesada de repente. Ele não entendeu porque Willians estava rindo e Remo tinha um largo sorriso cômico no rosto.

- Eu avisei, Harry...

Foi quando ele se deu conta de o seu cabelo estava caindo sobre os olhos; boquiaberto, Harry percebeu que seu cabelo estava crescendo sozinho e muito rápido! Ele rapidamente fez um "Finite Incantatem" que paralisou o crescimento desordenado dos seus cabelos. A essas alturas, Willians já gargalhava. Ele lançou um olhar emburrado para ela.

- Isso não tem graça.

Mas ele sabia que, para quem visse de fora, deveria ter; sabia muito bem que seu cabelo simplesmente crescia... para todos os lados. E comprido como estava, Harry deveria estar bem parecido com algum daqueles metaleiros trouxas que balançam os cabelos desengonçados. Com um largo sorriso, Remo falou:

- Há um feitiço simples para reverter isso, Harry. Depois da aula eu te explico, a menos que você queira esse cabelo, não é?

E antes que Harry pudesse lhe lançar um olhar estreito pela piadinha, o professor seguiu por entre os outros alunos para supervisioná-los. Harry encarou Willians, que ainda ria, e se aproveitando da distração, ele lançou um feitiço nela. A garota parou de rir no mesmo instante.

- O que você fez?

Harry deu um meio sorriso. Se aquela garota achava que iria rir sozinha dele, estava muito enganada. Ela tinha ficado realmente engraçada com aquele monte de pintinhas a mais no rosto, ele pensou, passando a mão no seu cabelo, agora enorme. Talvez conseguisse se divertir com aqueles duelos, afinal.

 

*******

 

Harry se olhou no espelho do seu quarto. Não, ainda não estava certo. Ele apontou novamente a varinha para a cabeça, diminuindo mais um pouco o comprimento dos seus cabelos com o feitiço que Remo tinha lhe ensinado. Riu de si mesmo; realmente tinha ficado engraçado com aquele cabelão.

Dos males, o dele não fora o pior. Se Remo não tivesse ficado tão animado com os resultados, Harry teria a certeza de que a primeira aula de duelos tinha sido um verdadeiro desastre. Pelo menos, era o que Snape também parecia achar, e ai de quem cruzasse seu caminho naquele dia, de tão enfurecido que ele estava.

Não houve danos graves, mas alguns alunos foram parar na ala hospitalar para fazerem alguns "remendos". De longe, o duelo entre Rony e Malfoy tinha sido o mais violento, mas os dois acabaram saindo apenas com um nariz meio torto e ensangüentado e um dedo machucado, respectivamente. A maior confusão mesmo aconteceu quando Simas desarmou Goyle, e o sonserino partiu para o duelo no braço. Felizmente, Snape separou os dois, apesar de ter culpado Simas e lhe tirado quinze pontos. Mais tarde, Remo recuperou esses pontos concedendo-lhes a Hermione por um excelente feitiço de estuporamento.

Harry continuou o seu trabalho lento de diminuir seus cabelos, que agora já estavam na altura do pescoço. Estava sozinho no quarto; Dino e Neville provavelmente estavam jantando, Simas deveria estar na ala hospitalar e Rony estava zanzando pelo castelo com Hermione. Harry preferiu diminuir seus cabelos a ficar muito próximo dos amigos depois da aula; eles não pareciam muito alegres um com o outro, e Harry sabia muito bem a hora certa de se afastar deles.

Quando estava pensando justamente nos amigos, a porta se abriu com violência, e Rony entrou esbaforido por ela. Seu nariz ainda estava ligeiramente vermelho, mas não torto como antes. Ele se jogou na sua cama de dossel, parecendo ao mesmo tempo irritado e desolado.

- Se eu te perguntar o que aconteceu minha saúde estará em risco?

- Não. – o amigo respondeu desanimado. – Estou muito cansado para retrucar qualquer coisa.

Harry olhou para Rony, jogado na cama. Alguma coisa séria deveria ter ocorrido entre ele e Hermione. O amigo olhou de esguelha para Harry e deu um ligeiro sorriso desanimado.

- Você ficou engraçado com esse cabelo, sabia?

- É, deu pra notar. – Harry replicou emburrado. – Pelo menos umas dez pessoas riram da minha cara enquanto eu fazia o caminho para cá. Minha felicidade é que outras dez pessoas devem ter rido da cara da Willians cheia de pintas.

Rony se sentou na cama, mais desanimado do que nunca. Harry voltou ao seu trabalho com o cabelo, mas podia observá-lo pelo espelho.

- O que aconteceu, hein?

- Hermione está furiosa comigo... – ele desabafou. – Diz que ela não merece o jeito como eu a estou tratando.

Harry preferiu ficar em silêncio, mas não tirava toda a razão de Hermione; Rony estava realmente implicante com aquela história do monitor-chefe.

- Eu só estou... tentando protegê-la. Não é só ciúme bobo, eu não vou mesmo com a cara daquele carinha da Corvinal...

- Você nem o conhece, Rony.

- Ah, Harry, mas você percebe quando alguém não é legal, e o jeito que ele olha pra ela... Eu não suporto isso.

- Você deve estar vendo coisas que não existem. – Harry arriscou, ao mesmo tempo em que diminuía mais um pouco a franja.

- É claro que eu não estou! Ela é que não vê, porque é ingênua!

- Definitivamente, a Hermione não é ingênua, Rony.

- Ainda assim... eu não gosto daquele cara. – o amigo insistiu. – E Hermione está zangada, diz que eu não tenho motivos para desconfiar dela.

- E não tem mesmo, não é? – Harry falou. – Eu só vejo a Mione com você, estudando ou trabalhando na monitoria dela.

- Esse é o problema! – Rony exclamou, batendo as mãos. – Ela e essa monitoria-chefe idiota.

- Ela não tem culpa se você não foi nomeado monitor-chefe como ela, Rony.

- Joga na cara.

- Qual é a vergonha disso? Não era você que sempre dizia que não queria ser como o Percy? – Rony bufou, mas não disse nada. Harry continuou a falar, apesar de saber que estava tocando num ponto fraco do amigo. – Eu nunca fui nomeado monitor e nem ligo.

- Você arranja muita encrenca, Harry.

- Corrija-me se estiver errado, mas eu acho que você também arranja encrenca junto comigo, Weasley.

Rony jogou um travesseiro em Harry, que se abaixou; aquele duelo com Willians ao menos servira para melhorar um pouco mais seus reflexos.

- A Mione disse... – Rony murmurou. - ...que se eu não melhorar... ela não vai querer mais ficar comigo.

Harry se sentou em sua cama, olhando para o seu amigo, que parecia desolado.

- Então pare de implicar com ela, Rony. Vai ver esse carinha nem está interessado na Mione, como você pensa.

- Pode ser... – ele disse vagamente e se virou distraído para Harry. – Ei, o que você fez com seu cabelo?

- Eu não diminuí até voltar ao normal. – Harry respondeu alegremente. – Deixei ele um pouco mais comprido do que de costume... – ele assoprou pra cima, agitando os cabelos da franja que lhe caía sobre os olhos. – Eu pareço mais velho, não acha?

Rony virou a cabeça de um lado para outro, com uma expressão de pena.

- Você precisa arranjar uma namorada, Harry.

Harry jogou um travesseiro nele, aborrecido.

- Pelo menos sozinho eu tenho menos um problema. – resmungou, voltando a se levantar e indo se observar no espelho; seus cabelos caíam-lhe sobre os olhos e, atrás, eles estavam mais cheios.

- A Gina te magoou tanto assim, Harry?

- Cuide da sua vida com a Hermione, o.k., Rony?

E Harry se trancou no banheiro para tomar um longo banho quente.

No próximo capítulo: As aulas estão cada vez mais puxadas e a cobrança para os N.I.E.M.s aumenta a cada dia. Harry se vê atolado em coisas para fazer: precisa treinar o seu mais que complicado time de quadribol, já que o primeiro jogo da temporada se aproxima; para seu desgosto, ele começa a fazer lições de Defesa com Katherine Willians e, além disso, Dumbledore o chama para mais uma aula extra em sua sala. No entanto, Harry se surpreende com quem encontra lá dentro.

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