Capítulo Oito Uma espada e um dom
O gárgula de pedra olhava para Harry entediado; parecia que estava esperando impaciente o rapaz se decidir. Por sua vez, Harry encarava o gárgula com seus pensamentos viajando por lugares muito distantes. Primeiro, ele somente conseguia pensar em como seus membros doíam de cansaço e sonhar com sua cama, lá em cima, na Torre da Grifinória, esperando-o acolhedora. Depois, ele ainda não conseguia atinar o que diabos poderia Dumbledore querer com ele, logo no segundo dia de aulas.
O sol opaco de fim de tarde penetrava pelas janelas de vitrais, atrás dele, enquanto permanecia parado à frente do gárgula de pedra, que ainda o observava negligentemente. Tinha sido um dia difícil. Montanhas de deveres de casa, sermões dos professores sobre a postura que deveriam tomar àquele ano... Harry começou a achar que estava se tornando alérgico à palavra "N.I.E.M.s". Para completar, Rony e Hermione continuavam brigando sem parar entre si. Harry estava oficialmente desistindo de se importar com os amigos.
Hermione estava mais atarefada do que a maioria dos alunos, pois a monitoria-chefe tomava grande parte de seu tempo, sem contar que ela já fazia mais aulas do que o resto dos colegas. Rony, por sua vez, não parava de resmungar quando Hermione ia resolver seus assuntos da monitoria e, conseqüentemente, passava muito tempo com o tal monitor-chefe da Corvinal. Harry, imprudentemente, sugeriu que Rony estivesse com ciúmes e dor de cotovelo, tudo ao mesmo tempo; Rony parecia ter-se controlado para não bater no amigo e ficou pelo menos uma meia hora sem lhe dirigir a palavra.
E, naquele momento, Harry continuava encarando o bendito gárgula de pedra, perguntando-se por que Dumbledore tinha-o chamado ali, pensando se algum dia (nem que fosse dali a cem anos) Rony e Hermione parariam de viver às turras e, mais importante, imaginando sua cama à sua espera no seu dormitório.
- Você vai ficar aí parado me olhando até quando? o gárgula perguntou com rabugice. Sem senha, não entra.
Harry finalmente saiu de seu torpor. Tinha que ser realmente muito pentelho para aquele gárgula resolver falar (como ali era o escritório do diretor, aquele gárgula geralmente não falava com os alunos). O rapaz suspirou profundamente.
- Pena açucarada.
- Finalmente! o gárgula exclamou, revirando os olhos de pedra e abrindo a passagem desgostoso.
Harry ajeitou a mochila nas costas e entrou, subindo a escada circular.
Estava tudo muito silencioso quando ele chegou à porta da sala de Dumbledore. Harry bateu, mas não houve resposta. Ele colou o ouvido à porta: nada. Intrigado, girou a maçaneta e ela se abriu com facilidade. Ele entreolhou a sala pela fresta:
- Professor Dumbledore?
Não houve resposta. Por alguns segundos, Harry hesitou entre esperar Dumbledore ali fora, voltar mais tarde, ou entrar e esperar lá dentro. Achando que o diretor não iria se importar, Harry entrou na sala de uma vez por todas, encostando a porta atrás de si.
Os vários quadros de diretoras e diretores antigos da escola estavam dormindo em suas molduras. A sala de Dumbledore estava impecavelmente arrumada, e o único som era dos objetos variados e valiosos retinindo. A luz do pôr-do-sol penetrava pela janela aberta, deixando a sala à meia luz. Fawkes estava em seu poleiro, dormindo com a cabeça vermelha debaixo das asas, mas ainda imponente. Harry se aproximou dela e, tomando cuidado para não acordá-la, acariciou levemente suas penas. Fawkes acabou acordando mesmo assim; soltou um ruído lento e preguiçoso, mas estava dócil e pareceu gostar do carinho. Harry sorriu, porém, ao fazer isso, sentiu uma sensação muito esquisita, que não sabia definir...
Ele parou de acariciar Fawkes, intrigado, tentando descobrir que sensação era aquela. Fawkes soltou uma nota branda e ligeira, para depois voltar a dormir.
Harry despejou sua mochila numa cadeira à frente da mesa de Dumbledore. Estava cansado, mas não quis se sentar. Ao invés disso, colocou as mãos nos bolsos da calça e começou a caminhar devagar pela sala, pensando. Estranho, ainda tinha a mesma sensação diferente... mas não conseguia defini-la...
Era possível enxergar o campo de quadribol brilhando à luz do sol poente da janela do diretor. Harry se lembrou, novamente, de que precisava falar com os jogadores para marcar um treino do time da Grifinória. Porém, isso implicaria em falar com Gina, e ele sinceramente não tinha a mínima vontade disso. Sentia que iria se aborrecer se procurasse a garota.
Harry suspirou. Estava começando a ficar entediado. Por que Dumbledore tinha chamado-o ali se não iria aparecer? Talvez estivesse com alguma problema urgente, o rapaz pensou. Mas isso ainda não mudava o fato de que Harry estava entediado.
Ele parou de caminhar de um lado para outro e divisou uma porta, que ficava do lado direito da sala do diretor. Harry se lembrava daquela sala; tinha entrado ali duas vezes no seu quinto ano. Na primeira, tinha sido convidado por Dumbledore, para conversarem sobre o que tinha acontecido na fuga de Azkaban, mais ou menos uns dois anos antes. Já na segunda, Harry, Rony e Hermione tinham praticamente invadido a sala, procurando a passagem secreta que os levaria até a Profecia Sagrada. A Profecia Sagrada... Harry preferia não pensar nela, muito menos no dia trágico em que a ouviu.
Porém, contrariando esses pensamentos, Harry se aproximou da porta. Não sabia por quê, mas algo o impelia a abrir aquela porta. Obviamente, deveria estar fechada, mas mesmo assim Harry tentou girar a maçaneta. Ele a soltou rapidamente quando sentiu que ela tinha girado. A porta se abriu, rangendo devagar e sinistramente.
Harry umedeceu os lábios, pensando. Deveria entrar ou não? Será que Dumbledore se zangaria, ou Harry conseguiria sair a tempo do diretor chegar? E por que raios estava entrando ali? Não tinha o que fazer ali dentro! Suspirou devagar, tentando pensar. Olhou a porta novamente e entrou.
A sala estava como ele se lembrava. O lustre de cristal, com detalhes em ouro... as estantes, abarrotadas de livros, que chegavam até o teto... os tapetes magníficos, as estátuas, os vasos antigos e... os quadros. Harry observou os quatro grandes de Hogwarts, dormindo tranqüilamente em suas molduras talhadas com as cores das Casas da escola que fundaram. Eram tão imponentes que, até dormindo, pareciam inspirar respeito. Harry não queria se lembrar, mas mesmo contra a vontade, veio à sua cabeça a imagem daquele dia, no qual ele e seus amigos entraram naquela sala e conversaram com aqueles retratos. Mal sabia ele, naquela época, que aquele dia mudaria tanto sua vida.
Harry observou o quadro de Rowena Ravenclaw; sua ocupante dormia serenamente. Era ali a passagem para aquela caverna, onde Harry encontrou o Portal dos Tempos e o Espelho da Verdade. Ele desviou o olhar; ainda permanecia com aquela mesma sensação esquisita.
Caminhou lentamente pela sala, observando seus objetos. Estava feliz que aqueles quadros não estivessem acordados, para lhe perguntarem o que estava fazendo ali. Harry parou entre os retratos de Gryffindor e Slytherin, ambos adormecidos. Entre eles havia algo que Harry nunca tinha notado antes; ele estendeu sua mão involuntariamente para tocar uma espada reluzente, cravejada de rubis: a espada de Godric Gryffindor.
Sem raciocinar, Harry retirou a espada do apoio onde ela estava na parede, inclinada para o lado esquerdo. Segurou-a com apenas uma das mãos, achando aquilo muito diferente; lembrava que, quando tinha doze anos, tinha tirado aquela mesma espada de dentro do Chapéu Seletor, mas a segurara com ambas as mãos, de tão pesada que era.
Ele observou a lâmina, e seu rosto era refletido nela, de tão brilhante que era. Harry sorriu; não sabia por quê, mas empunhou a espada, como se estivesse em luta, e apontou-a para o nada. Riu sozinho. Que sensação esquisita.
- Estais se regozijando, rapaz?
Harry deu um sobressalto involuntário e abaixou a espada. Surpreso, ele percebeu que o quadro de Godric Gryffindor estava falando com ele, um leve sorriso brincando no seu rosto imponente.
- Oh... Harry começou encabulado, sem saber como se explicar. A espada ainda estava em sua mão; Gryffindor observou-a e, em seguida, voltou a encarar Harry, parecendo estar se divertindo. Desculpe-me por acordá-lo, hm... senhor.
Gryffindor riu levemente, seus olhos brilhando. Harry teve certeza de que tinha dito a coisa mais idiota do mundo. O fundador da Grifinória abaixou seus olhos para a espada novamente.
- Eu... sinto muito. Harry falou rapidamente, adiantando-se para colocar a espada no lugar. Essa espada é do senhor...
- Não. o retrato disse antes que Harry colocasse a espada no apoio da parede. Não é necessário, rapaz. Esta espada já estivera de minha posse, séculos atrás. Não mais me pertence.
Harry ficou um tanto quanto abobado, mas acabou não guardando a espada, mesmo que não soubesse o que fazer com ela em mãos. Gryffindor parecia se divertir com o jeito do rapaz; observou-o astutamente.
- Não pensei que fosse vê-lo aqui novamente, rapaz. ele continuou; Harry estava paralisado. Faz muito tempo, estou certo?
Harry percebeu que ele se referia àquele dia distante, no seu quinto ano.
- Sim, senhor.
- Tu conseguistes a Profecia antes do herdeiro de Slytherin, não?
Harry assentiu, mas algo lhe ocorreu. Seu estômago revirou ao lembrar. Na realidade, o herdeiro da Casa das cobras tinha conseguido a Profecia ao mesmo tempo que o da Casa dos leões: ele mesmo. Era ruim pensar assim, mas era a verdade.
- O senhor... Harry começou, desviando o olhar de Gryffindor. - ...sabe que eu...?
- Sim, eu sei. Gryffindor respondeu, surpreendendo o rapaz, que o encarou. Não descobri em vida, mas sim... esta imitação de vida, que é este quadro, sabe quem você é.
Aquilo era um pouco complicado, mas Harry conseguiu assimilar o que ele queria dizer mesmo assim. Lembrou-se do quadro do seu avô, em Godrics Hollow, que lhe disse que, mesmo não estando presente em vida, a sua versão pintada tinha assistido todos os acontecimentos daquele fatídico dia das bruxas, dezesseis anos antes, e que por isso, sabia de tudo.
Harry observou a espada em sua mão, pensando em perguntar mais uma coisa para Gryffindor, quando a porta se abriu. Ele se assustou primeiramente, mas Gryffindor sorriu, como se esperasse aquilo.
- Desculpe-me por tê-lo feito esperar, Harry. Dumbledore disse calmamente, sorrindo, seus olhos azuis cintilando por detrás dos óculos de meia lua.
O diretor e Gryffindor trocaram um olhar significativo e, antes que Harry conseguisse começar a se desculpar, Dumbledore se dirigiu ao quadro:
- Você não vai ficar assistindo, vai, Godric?
- Eu gostaria. o fundador da Grifinória retrucou sorrindo. Tu não se importas?
- Acho que... Dumbledore olhou de esguelha para Harry, que não entendeu nada. ...ao menos desta vez, é melhor que não esteja presente.
Gryffindor ergueu apenas uma das sobrancelhas, de maneira indulgente.
- E os outros?
- Os outros estão dormindo. Dumbledore respondeu com um sorriso.
- Duvido que Slytherin esteja. Gryffindor entortou o pescoço para divisar o quadro do fundador da Sonserina, que dormia a sono solto. É um fingido.
- Ele está dormindo. Dumbledore disse categórico. Veja como ronca.
Era verdade. Slytherin tinha a cabeça pendida na moldura, a boca entreaberta e a respiração lenta e pesada; soltava roncos estrondosos. Harry teve que segurar o riso. Gryffindor, por sua vez, parecia dividido entre o riso e a desconfiança.
- Se tu queres assim... disse, ainda se dirigindo a Dumbledore. Apreciei nossa conversa, rapaz. Gryffindor se virou para Harry. Nos veremos em breve.
E ele sumiu da moldura, provavelmente indo dar uma voltinha pelos outros quadros do castelo. Dumbledore sorriu.
- Vejo que não quis esperar por mim, Harry.
- Anh... desculpe, professor. o rapaz disse sem jeito. Eu...
- Não há problema algum. o diretor permaneceu sorrindo, aproximando-se apenas alguns passos. Ele abaixou os olhos para a espada, que ainda estava na mão de Harry. E não me importo que tenha mexido na espada de Gryffindor.
Harry ficou um pouco mais aliviado, mas isso não mudava sua confusão.
- Professor, por quê...?
- Por que eu o chamei aqui?
Harry assentiu. Dumbledore ficou subitamente sério e, devagar, sentou-se no sofá de veludo. Harry, por sua vez, não sabia o que fazer; resolveu colocar a espada de Gryffindor no lugar e, depois, aproximou-se de Dumbledore, que mandou que se sentasse de fronte a ele no sofá.
- Você sabe, Harry, que é especial... sabe o que significa a Profecia Sagrada...
O rapaz ajeitou seus óculos no rosto, pigarreando. Não gostava daquele assunto.
- Sei... quer dizer... não entendo direito o que ela significa, por completo, mas sei...
- O principal. Dumbledore completou. É o que importa. o velhinho olhou novamente a espada, pendurada na parede, e voltou a encarar Harry. Sabe, Harry, eu estive pensando durante esse verão... A magia que aprende nessa escola não é o suficiente para você.
Harry arregalou os olhos. Onde Dumbledore queria chegar?
- Professor, eu...
- Harry, se você quiser, há várias coisas que eu poderia lhe ensinar. o diretor continuou. Modéstia à parte, eu era um... bom aluno na minha época de Hogwarts. ele sorriu e Harry o acompanhou. E aprendi algumas coisas durante todos esses meus anos de vida também.
- Algumas coisas? Harry perguntou, sem conseguir conter a admiração no tom de voz. Eu diria que muitas, professor.
- Oh, obrigado, Harry. Dumbledore disse, parecendo um pouco sem jeito. Eu não ficava assim encabulado desde que Madame Pomfrey me disse que gostava dos meus abafadores de orelhas novos... Harry não conteve o riso. Anh, bem, teve uma outra vez em que a Profª. McGonagall me disse... ah, não importa. ele sorriu. Eu não seria tão pretensioso para dizer que sei muitas coisas, Harry, mas sim, se você quiser, eu poderia ensiná-lo o pouco que sei.
Harry ainda estava absorvendo aquelas palavras. Por alguns minutos, permaneceu em silêncio.
- O senhor está querendo me dizer... O senhor está se oferecendo para me dar aulas particulares?
- Bem, se quiser chamar assim, Harry. Eu diria que seria apenas uma "troca de experiências".
O queixo de Harry caiu. Aquilo era surpreendentemente. Dumbledore prosseguiu:
- Mas é claro que entenderei se não quiser, Harry, afinal... sei que está em ano de N.I.E.M.s e tem muitas coisas para fazer, mas...
- É claro que eu quero, professor! Harry disse aos atropelos, surpreendendo Dumbledore, que sorriu encantado. Quando podemos começar?
- Hoje, se quiser.
Harry estava maravilhado. Ter aulas com Dumbledore lhe abria uma cortina enorme de possibilidades; ele sabia muito bem o quanto o velhinho era sábio e aquela era uma oportunidade que muitos gostariam de ter. Além disso, por mais que não quisesse pensar no assunto, sabia que poderia precisar muito daqueles ensinamentos.
Dumbledore, por sua vez, aproximou-se ligeiramente de Harry e disse em tom de confidência:
- Mas eu ficaria grato se ninguém soubesse disso, Harry.
- Claro, professor... ninguém vai saber.
Dumbledore sorriu, olhou para a espada de soslaio e voltou a encarar o seu novo pupilo:
- Podemos começar por algo que parece lhe interessar...
*******
Harry ainda não acreditava no que tinha acontecido. Passara quase uma hora tendo uma aula espetacular com Dumbledore. Como tema da primeira aula, o professor tinha escolhido esgrima de bruxos (devido ao interesse que Harry mostrou na espada antes da entrada do diretor), que era muito parecida com a de trouxas, mas tinha uma única diferença fundamental: era possível utilizar a varinha no meio do duelo também. Obviamente, Dumbledore ensinou apenas os princípios básicos, mas Harry ficou tão entusiasmado que até tinha se esquecido do cansaço.
O diretor disse a Harry que não poderia marcar um dia certo para as aulas, tanto para ninguém suspeitar que estavam fazendo aquilo, como também tanto Harry, quanto ele, tinham compromissos. Ficou combinado que a Profª. McGonagall se encarregaria de dizer a Harry quando Dumbledore gostaria de vê-lo, como fizera da primeira vez.
Na realidade, Harry sabia muito bem o porquê da preocupação do diretor de lhe ensinar conceitos avançados de magia. Às vezes, o rapaz se pegava relembrando cada estrofe da Profecia, tentando desvendá-la. Voldemort não tinha aparecido no ano anterior para lhe perseguir, mas Harry sabia muito bem que ele nunca desistiria de matá-lo. E todos aqueles ensinamentos de Dumbledore seriam muito úteis quando esse dia chegasse.
Já estava quase na hora dos alunos se recolherem quando Harry adentrou a Sala Comunal da Grifinória naquela noite. Estava abarrotada de alunos dos quinto e sétimo anos estudando feito loucos por todos os cantos da sala, e alguns outros alunos de outros anos, apenas aproveitando o final da noite. Harry viu o grupinho de Gina a um canto, conversando animadamente. "Você precisa falar com ela...", uma vozinha chata cantou irritantemente em sua cabeça. Que droga, bem que Rony poderia deixar de ser teimoso e conversar com sua irmã.
Por falar em Rony, ele e Hermione estavam fazendo algo bastante incomum em uma das mesas: discutindo. Por que Harry sempre tinha a esperança impossível de que eles não estivessem fazendo isso?
- Boa noite. disse, sentando-se em uma das cadeiras, ao lado de Rony. Ninguém lhe deu atenção.
- Eu só disse que estava errado porque realmente estava, Rony! Hermione exclamou, exaltada. Uma pilha de livros e anotações estava ao seu lado. Mas se você é tão cabeça dura para admitir que estava errado, tudo bem, entregue essa redação estúpida para o Snape e agüente as conseqüências!
- Você sempre fica procurando os meus erros, não é, Hermione? Rony retrucou. Mas você não é sempre a certinha, sabia?
- Eu não disse isso!
- Mas é como você é!
Harry desistiu de ser notado. Ele puxou o livro de Poções e uma folha. Também tinha que terminar aquela redação pavorosa do Snape a que os dois amigos se referiam aos gritos ao seu lado. Ele olhou para a folha em branco, pensando no que escrever; resolveu que seria melhor começar pelo seu nome e o título. No entanto, depois disso, não conseguiu escrever mais porcaria alguma. Sua cabeça ainda estava cheia dos ensinamentos de Dumbledore, e ele não conseguia desviar seus pensamentos para Snape e suas poções idiotas.
Rony e Hermione pareceram finalmente dar uma trégua, mas Harry, naquele momento, preferia que os dois continuassem brigando ao invés de lhe encherem de perguntas:
- Onde você estava? Rony disparou.
Harry parou sua pena no ar e olhou de esguelha para o amigo.
- Boa noite pra você também, Rony.
- Você não estava no Salão Principal no jantar. Hermione disse.
- Olá, Hermione. Que bom que vocês me notaram.
O casal de namorados se entreolhou, mas logo depois os dois desviaram o olhar.
- Onde você estava? Rony repetiu a pergunta.
Harry pousou a pena. Tinha comentado com eles que iria ver Dumbledore? Porque, se contasse isso, teria que dar explicações, e o diretor tinha lhe pedido que mantivesse tudo em segredo, até para seus amigos. Harry não gostava disso, mas era inevitável que mantivesse algumas coisas em segredo com Rony e Hermione. O fato de ele ser neto de Voldemort, por exemplo: Harry queria levar aquele segredo para o túmulo, se fosse possível. Não, não tinha comentado que iria ver Dumbledore.
- Eu fui... pigarreou. - ...ver a McGonagall... para falarmos de quadribol. ele finalizou, sentindo-se miserável por estar mentindo descaradamente para os amigos.
Rony mudou sua expressão ao ouvir a palavra "quadribol".
- E aí, quando vamos começar a treinar?
- Ei, ei, espera um pouco! Hermione, infelizmente, interrompeu. A Profª. McGonagall estava na mesa o tempo todo!
Harry ficou paralisado. Por que Hermione tinha que ficar notando todas as coisas?
- Mas... hm... isso foi antes do jantar.
- E por que você não foi comer depois, então? a garota prosseguiu, desconfiada.
- Ei, vocês não estão a fim de voltarem a discutir? Harry disse irritado, olhando os dois amigos.
- Não liga, a Hermione está chata hoje mesmo... Rony falou com rabugice.
Hermione ficou vermelha e seus olhos soltavam faíscas para o namorado.
- EU?! EU QUE ESTOU CHATA, É? Rony se encolheu ligeiramente. Harry sentiu seus ossinhos do ouvido tremerem com aquele grito. Eu desisto, Ronald Weasley! Volte a falar comigo quando parar de ser estúpido!
E ela enfiou a cara nos livros e na sua redação, freneticamente. Rony primeiro fechou a boca, que estava aberta, e depois se virou para Harry com uma cara de "eu não fiz nada de mais". Harry preferiu não comentar mais nada.
- E aí? O que você e a McGonagall discutiram? ele puxou conversa.
Harry desistiu de tentar escrever alguma coisa.
- Hm... acho que vou fazer um treino no sábado de manhã... pelo menos isso não era mentira; Harry vinha pensando nisso mesmo.
Rony torceu a cara por ter que acordar cedo no sábado.
- E você vai... ele lançou um olhar para o grupinho animado formado por Gina, Peta, Colin e Jonnathan. - ...falar com a Gina?
- Eu não precisaria se você falasse com ela... Harry tentou persuadir o amigo.
- Nem pensar. Isso é problema seu.
- Obrigado, amigo! Harry retrucou emburrado, dando uma batidinha "de leve" nas costas de Rony.
- Ai! e os dois riram.
Harry ainda ficou um tempo sentado, observando aquele mesmo grupinho do outro lado da sala, pensando no que diria. Resolveu que tinha que ir mesmo lá antes que desistisse. Rony ainda lançou a ele um olhar zombeteiro quando se levantou, e Harry o xingou silenciosamente.
Colin e Peta estavam jogando Snap Explosivo, enquanto Gina e Jonnathan assistiam, fazendo muito barulho. Quando Harry se aproximou e se mostrou presente, o jogo todo explodiu bem na cara de Jonnathan, que imediatamente emburrou a cara e encarou Harry com raiva, literalmente fumegando. Peta desatou a rir, o que só piorou a situação, e Colin começou a juntar as cartas. Gina apenas lançou um olhar de soslaio para Harry, negligentemente.
- O que você quer, Potter? Jonnathan perguntou irado. Você nos atrapalhou.
- Sempre simpático, não é, Cavendish? Harry respondeu em tom irônico, cruzando os braços e voltando seu olhar para os outros. Eu só queria avisar que vai ter treino no sábado de manhã. Você avisa seu irmão, Colin?
- Claro. o garoto respondeu.
- Que horas? Peta perguntou.
- Às nove.
- Acordar cedo no sábado é uma mer...
- É, mas não pense que eu estou feliz por ver sua cara logo de manhã, Cavendish. Harry cortou o garoto, que bufou.
Peta deu uma risadinha, mas fingiu que era um ataque de tosse depois do olhar que recebeu de Jonnathan. Gina permaneceu em silêncio o tempo todo, e Harry teve a incômoda sensação de que ela estava esperando algo.
- Hã... Gina?
Ela respondeu com um resmungo, sem nem ao menos se virar. Jonnathan a encarava atentamente, enquanto Colin e Peta se entreolhavam.
- Posso dar uma palavrinha com você? Harry pediu contrariado.
- Claro. ela respondeu sem dar muita importância, mas permanecendo de costas.
- Não aqui.
Ela finalmente olhou para Harry, de lado. Levantou-se, arrumou a saia do uniforme que tinha amassado, e encarou-o displicentemente, mexendo nos cabelos ruivos. Harry a encarou por alguns segundos, sentindo alguma coisa se revirar dentro dele; desviou o olhar e pediu a ela que o acompanhasse.
Eles cruzaram a passagem da Mulher Gorda, que estava tirando um cochilo encostada na sua moldura. No corredor de fora estava bastante escuro; Harry se aproximou de uma janela, por onde entrava a luz da lua crescente. Ele parou de frente a Gina e observou o efeito da luz prateada sobre parte do rosto da garota e seus cabelos por alguns instantes, sem se dar conta de que fazia isso. Ela parecia realmente mudada: seu olhar era mais maduro e mais imponente; seus cabelos, mais curtos, deixavam-na com a aparência de uma garotinha sapeca, porém sensual; o seu corpo parecia mais bem delineado e delicado. Harry enfiou as mãos suadas nos bolsos.
- O que afinal de contas você quer, Harry? ela perguntou entediada.
Harry se deu conta de que tinha-se passado mais de um minuto no qual ele ficou olhando-a. Odiava quando tinha essas recaídas idiotas. Ele ainda não sabia direito o por quê, mas Gina tinha lhe chutado e lhe tratado como lixo, e ele tinha seu orgulho. Aliás, ele era bastante orgulhoso, diga-se de passagem.
- Eu queria falar com você sobre o time de quadribol. Harry disse finalmente, disfarçando o seu incômodo.
- E daí?
Ele não gostou do tom dela. Respirou fundo, tentando não se aborrecer.
- E daí que você ficou fora do time por seis meses... mas a sua vaga de artilheira ainda está lá.
- Eu pensei que ela tivesse sido preenchida por Dino Thomas.
- Você sabe muito bem que Dino saiu no final da temporada. Harry disse irritado. E eu o coloquei na sua vaga porque você não estava em condições de jogar.
Gina cruzou os braços, jogando seu corpo para frente e para trás, olhando vagamente para um ponto atrás de Harry. Para irritação dele, ela parecia estar pesando aquelas palavras.
- Deixa eu ver se entendi direito... ela começou, num tom de diversão que fez o sangue de Harry latejar. Você está me pedindo para voltar ao time.
- Acho que você não entendeu direito, Gina. Harry retrucou praticamente cuspindo as palavras, tal era seu mau humor. Eu estou apenas lhe informando que a sua vaga ainda está lá. Mas isso não significa que precise preenchê-la, se não quiser.
- Hm... ela franziu as sobrancelhas, fingindo estar ponderando aquilo. Quer dizer que você está me oferecendo a vaga, mas ela não é minha...
Harry teve a imensa vontade de dizer um palavrão muito feio, mas se conteve e apenas falou:
- O treino é no sábado, como eu avisei seus amigos. Se você quiser participar do time, esteja lá.
- É... vou pensar.
E antes que Harry pudesse dizer qualquer coisa, ela lhe deu as costas, deixando-o sozinho no corredor e entrando novamente na Sala Comunal, após acordar a Mulher Gorda. Harry ficou parado, olhando para o mesmo ponto no final do corredor. O.k., quando ele tinha o pressentimento de que ia se aborrecer, ele deveria acreditar nele.
Ele se encostou na parede, tentando controlar sua indignação antes de voltar para a Sala Comunal. Às vezes não conseguia entender como aquela Gina, aquela garota que ele amava, que era tão amável com ele, pôde se transformar naquela menina irritante que acabara de deixá-lo a ver navios. Ele sabia que a vida tinha sido dura com ela nos últimos meses, mas a vida tinha dura com ele nos últimos dezesseis anos, e ele não tratava as pessoas assim. Ou tratava? Não, não tratava. Ah, acabaria ficando com dor de cabeça se ficasse discutindo consigo mesmo.
Problema dela se não quisesse voltar ao time. Ele não estava nem ligando.
Ou estava?
Tinha que parar de discordar de si mesmo.
*******
Estava um dia claro e ensolarado naquela manhã de sábado. Harry andava pelos jardins de Hogwarts, com sua Firebolt nas costas, apenas sentindo a luz quente do sol matutino no rosto e a brisa leve que batia. Rony, ao seu lado, seguia dando um passo e um bocejo, um bocejo e um passo, parecendo muito mais um zumbi do que qualquer outra coisa.
- Até parece que acordamos tão cedo... Harry riu.
- Cedo para um sábado. Rony retrucou com mais um enorme bocejo.
- Você vai se esquecer disso quando começar a voar.
Foram os primeiros a chegar. Rony resolveu se sentar num dos bancos, encostar a cabeça na parede e tirar um cochilo. Harry não o julgava, também estava cansado. Uma semana de aulas e parecia que tinha sido um mês. Seus deveres estavam acumulados e suas noites de sono mal dormidas e mais curtas, de tanta coisa que tinha para fazer. Agatha tinha lhe mandado mais uma carta, e Harry ainda não tinha tido tempo de respondê-la. Talvez fizesse isso quando voltasse do treino.
Ele encostou sua Firebolt na parede, saiu do vestiário e sentou-se sobre a grama. O céu estava magnífico: azul, com poucas nuvens, o sol brilhando sobre o campo de quadribol. Logo o verão terminaria. Harry soltou seu corpo e deitou-se sobre a grama, tentando não pensar em nada que o preocupasse. Ele só queria ficar ali, deitado, sentindo o sol no rosto... sem pensar, sem se preocupar, sem se torturar com o que imaginava para os dias seguintes...
Mas ele ouviu vozes distantes no vestiário e, para seu desgosto, teve que voltar.
Peta, Colin, Dênis e Jonnathan já estavam lá dentro quando Harry entrou. Rony ainda parecia um zumbi, mas um zumbi acordado, já que não dava para dormir com a barulheira que Peta fazia com sua voz estridente. Ela parou de tagarelar quando Harry entrou e cumprimentou alegremente:
- Bom dia, capitão!
Era a única que parecia animada. Todos os outros, como Rony, pareciam zumbis. Jonnathan era o pior, pois parecia um zumbi saído das tumbas daqueles filmes de terror, de tão mau humorado que estava. Harry não se importou.
- Acho que estamos todos aqui, não?
- A Gina não vai vir? Dênis perguntou sonolento, ao mesmo tempo que todos se sentavam. Harry, que estava de pé, sentiu o sangue latejar ao ter a lembrança daquele dia no corredor da Torre da Grifinória. Peta se remexeu incomodada no seu banco.
- Você não tinha falado com ela, Harry? Rony pressionou.
- Falar eu falei. o rapaz respondeu aborrecido; sentia o olhar estreito de Jonnathan sobre ele. Mas se ela não quiser vir, o problema é dela.
- Mas teremos que fazer novos testes se ela não vier... Colin lembrou, parecendo desanimado. Vai dar um trabalhão.
- Sem contar que teríamos que nos acostumar de novo com um novo artilheiro. Jonnathan resmungou. Aposto que você foi grosso com ela, Potter, ou então ela teria vindo.
Harry fuzilou o garoto com o olhar. Rony parecia finalmente ter acordado, e os outros também.
- Eu falei com ela com educação, mas não vou pedir de joelhos que volte.
Rony parecia querer dizer algo, mas Harry o encarou com um olhar estreito, desafiando-o a contrariar. Se o amigo tivesse tentado ajudá-lo e conversado com a irmã, Harry não teria se aborrecido tanto.
- Pois deveria, Potter. Jonnathan continuou. Gina é uma artilheira brilhante.
Aquele garoto estava, novamente, provocando-o. Harry não sabia se estava com paciência suficiente para agüentar aquilo.
- Não tenho culpa se ela não quer vir.
- Claro que tem! A culpa é toda sua se ela não está a vontade para voltar ao time! Peta e Dênis olhavam de Harry para Jonnathan, como se estivessem em um jogo de tênis. Já Rony olhava para a porta e fazia gestos frenéticos para Harry, que não estava se importando com o amigo no momento. Ou então... Jonnathan prosseguiu, venenoso. - ...ela talvez ela esteja envergonhada de voltar a um time que perdeu daquele jeito a taça, no ano passado. Se eu fosse você, Potter, não conseguiria mais encarar os grifinórios.
- Deixe-me lembrá-lo, Cavendish... Harry disparou, seu sangue fervendo. Rony continuava a fazer gestos. - ...de que você também estava aqui, neste time, quando perdemos, o que quer dizer que também perdeu junto com todos nós!
Cavendish se levantou. Harry sentiu que seus punhos estavam fechados.
- Se o capitão fosse alguém mais competente, não teríamos perdido daquele jeito!
- Se está tão descontente, a porta está aberta para que vá embora!
Alguém bateu palmas. Harry e Jonnathan pararam de brigar para ver quem era. Rony finalmente desistiu de seus gestos frenéticos e parecia desanimado; olhou para Harry com uma cara de "tentei avisar". Peta, Colin e Dênis olharam para a porta, intrigados.
Gina estava apoiada no batente, batendo palmas, com um sorriso divertido no rosto.
- Não seria o time da Grifinória se não apreciássemos mais um showzinho do apanhador e do artilheiro que mais se adoram na história... ela disse em deboche. Parece que nada mudou por aqui, não é?
- Ah! Que bom que você resolveu vir, Gina! Peta exclamou, claramente tentando quebrar o gelo que tinha se instalado. Sentimos sua falta...
Jonnathan bufou, olhou para Gina de esguelha, e resolveu se sentar novamente. Harry abriu os punhos, tentando se acalmar. Rony o observava tenso. Gina entrou no vestiário calmamente, parecendo estar achando tudo muito divertido.
- Então, você decidiu ficar no time? Harry perguntou, tentando soar calmo.
- Eu disse a você que iria pensar, Harry. ela disse, sentando-se ao lado de Peta. Não disse que deixaria de vir.
- Isso significa que você vai ficar ou não no time?
- Eu vou ficar no time.
Todos sorriram, exceto Harry, que se limitou a resmungar um "ótimo" e começar a falar sobre o time e a temporada que começaria dali a um mês. Gina tinha uma irritante expressão vitoriosa no rosto, Jonnathan permaneceu de cara fechada durante todo o treino e Rony estava contente com a volta da irmã; não parava de sorrir para ela, apesar de manter uma expressão de preocupação quando desviava o olhar para Harry.
O treino não foi tão produtivo quanto poderia, mas mesmo assim Harry ficou satisfeito no final. Depois que todos terminaram, Rony veio falar com Harry, que estava guardando as bolas que tinham utilizado. Os outros ainda conversavam animadamente lá atrás.
- Harry, você não precisa ficar com essa cara fechada o tempo todo, não é?
- Não preciso, Rony? o rapaz perguntou, tentando fechar a caixa, que estava emperrada. Nem venha me dizer que sua irmãzinha não fez nada, porque ela se comportou como uma garotinha mimada esse tempo todo.
Rony bufou.
- Você tem que entender, Harry, que Gina...
- Eu não tenho que entender nada, Rony. a desgraçada da caixa ainda não fechava. Gina me tratou feito um idiota nessa história do time e ainda deve estar rindo de mim pelas costas.
Rony se abaixou, olhou para a caixa que Harry dava umas boas pancadas, e voltou a olhar para o amigo.
- Por que toda essa mágoa entre vocês?
- Talvez porque ela me trate como um brinquedo, que pode pisar e jogar fora quando quer. Harry resmungou.
- Você ainda gosta dela, Harry?
Ele deixou a caixa abrir e, só então, percebeu que estava imprensando a goles no balaço. O pomo saiu voando quando a caixa se abriu. Harry soltou um sonoro palavrão, levantou-se rapidamente, subiu num banco e agarrou o pomo antes que ele se escondesse atrás do armário. Todos os jogadores o olharam espantados.
- Tão olhando o quê?
Gina deixou escapar um risinho. Harry teve vontade de mandar todos para o inferno, mas se limitou a voltar àquela bendita caixa, socar o pomo lá dentro, e fechá-la com estrondo. Rony o olhou num misto de incredulidade e preocupação.
- Tudo isso porque eu te perguntei -
- Não ouse repetir a pergunta.
- Mas você ainda...?
- NÃO! Harry respondeu, encarando o amigo nos olhos. Não, Rony! Que saco!
Ele levantou, apanhou sua Firebolt e saiu do vestiário, batendo os pés e esbarrando em Dênis, que se desequilibrou e quase caiu no chão. Ainda escutou alguém falar, antes que estivesse longe o bastante para não ouvir:
- Ele estava nervosinho hoje, hein?
*******
Harry acordou naquela manhã sem acreditar que já era segunda-feira novamente. Milhares de aulas, professores falando sobre exames e montanhas de deveres de casa o esperavam. Mais uma semana como a que tinha passado, e Harry consideraria seriamente se exilar no Alasca. Ou algum lugar mais distante ainda. Ele se virou para o outro lado, tentando esquecer que o dia tinha nascido e que ele tinha que levantar.
Meia hora depois, ele já estava de pé, reclamando e resmungando, mas se arrumando para o dia de aulas que estava começando. Se isso era um consolo, ele não era o único que já estava cansado e de saco cheio. A conversa principal entre Dino e Simas era sobre a chateação das aulas. Neville já tinha descido. Rony não participava da conversa, pois estava colocando as meias, ou melhor, dormindo e fingindo que vestia as meias.
Simas e Dino desceram, e Rony permanecia na mesma posição. Harry deu um tapa no braço dele, e o amigo acordou sobressaltado:
- O que está acontecendo?
- Está acontecendo que você tem que acordar. A menos que queira pegar minha capa de invisibilidade e se esconder em algum lugar da escola, para cabularmos aula.
- Sabe que é uma boa idéia? Rony ponderou.
- Hermione nos mataria. Harry lembrou. E pior, não deixaria que copiássemos a matéria depois.
Rony fez uma careta de desgosto. Ele e Hermione ainda estavam às turras, apesar de ainda não terem brigado tão sério a ponto de deixarem de se falar, ou pelo menos, discutir, pois era só isso que faziam ultimamente quando estavam juntos.
Eles resolveram, finalmente, descer para a Sala Comunal. Estancaram ao ver um aglomerado de alunos do sétimo ano se acotovelando no mural de recados. Harry ficou na ponta dos pés e conseguiu ver os cabelos crespos de Hermione lá no meio da bagunça. Ele e Rony se entreolharam confusos e se aproximaram.
- O que está acontecendo? Rony perguntou a Neville, que estava bem atrás no amontoado de pessoas, ficando na ponta dos pés para tentar enxergar alguma coisa.
- Parece que é um aviso sobre as aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas. o garoto respondeu. Mas eu ainda não consegui entrar aí no meio para ver melhor. Estou tentando há dez minutos.
- Será que é um aviso dizendo que Snape teve uma dor de barriga incurável e não vai mais poder dar aulas de Defesa junto com o Lupin? Rony perguntou esperançoso, tentando enxergar.
- Credo, Rony! Parvati Patil, que estava próxima e ouviu a conversa, exclamou.
- Vai dizer que você não quer que isso aconteça? Rony perguntou com as sobrancelhas erguidas.
Estranhamente, Parvati preferiu não responder. Hermione, pouco depois, saiu do meio grupo de alunos, um pouco descabelada, mas inteira. Tinha um sorriso no rosto.
- E aí, você sabe o que isso aqui significa? Harry perguntou curioso.
- Ah, são aquelas duplas de duelos que o Prof. Lupin tinha mencionado na aula passada. ela respondeu sorridente. Eu já vi a minha.
- E qual é? Rony perguntou.
- Até que tive sorte... Hermione falou, sem dar muita importância ao assunto. Vou fazer dupla com o Brendon.
O rosto de Rony assumiu um tom vermelho pálido, logo após vermelho escuro, para depois um púrpura berrante, fazendo Harry se lembrar por um segundo de como tio Válter ficava quando estava nervoso com ele (o que era quase sempre). As orelhas do amigo, então, pareciam estar em brasa. Seu rosto se contorcia horrivelmente. Depois de soltar um "humpt", Rony se embrenhou no meio das pessoas para descobrir qual era sua dupla. Hermione olhou para Harry um pouco assustada.
- O que deu nele?
- Você não notou?
Hermione olhou de esguelha para Rony, que depois de muitas cotoveladas, já tinha chegado à lista dos alunos pendurada no mural.
- Não sei porque ele se comporta desse jeito!
- Ele está com ciúmes de você, Mione. Só você que não percebe.
Ela olhou para Harry, parecendo registrar as palavras. Passados alguns segundos, riu.
- Você está brincando, Harry...
- Estou falando muito sério, Mione.
Ela parou de rir.
- Mas eu e Brendon só somos colegas. Nós somos monitores-chefes, não tem como não estarmos juntos às vezes. ela olhou para Rony, que agora assumia um tom "verde-alface-queimada-pelo-tempero" ao ver quem era sua dupla. E eu não tenho culpa que acabei caindo para dupla dele em Defesa. O Rony sabe disso.
- Se eu fosse você não teria tanta certeza. Harry disse desanimado, enquanto observava as pessoas se deslocando e finalmente desobstruindo o caminho, comentando entre si sobre suas duplas. Rony se aproximava dos amigos, parecendo estar pisando em ovos, de tão abobado que estava.
- O que houve, Rony? Hermione perguntou preocupada.
- O pior... ele respondeu em transe.
Harry e Hermione se entreolharam.
- Quem é sua dupla, afinal? foi a vez de Harry perguntar.
Rony olhou para os amigos com uma expressão digna de dó; sua voz era apenas um sussurro:
- Draco Malfoy...
Harry não tinha escutado direito, obviamente. Hermione estava paralisada. Eles se entreolharam novamente, e depois voltaram a encarar Rony.
- Você viu isso direito, Rony? Hermione perguntou.
- É CLARO QUE EU VI, HERMIOOOOONEEEEEE!!! AHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!
A garota deu um passo para trás, de medo que o surto psicótico de Rony a atingisse. Harry correu para o quadro de avisos, passando o dedo indicador sobre os nomes: Washington... Wellington... Weasley, Ronald Malfoy, Draco.
O queixo de Harry caiu. Ele se virou e viu uma Hermione tentando consolar cautelosamente um Rony com cara de vômito. Definitivamente, Harry estava com pena do amigo. Era o fim do mundo ter que passar um ano inteiro estudando e fazendo dupla com Draco Malfoy. Pelo menos Rony poderia azará-lo o quanto quisesse; Harry tentaria animar o amigo lembrando-o desse detalhe significativo.
Esquecendo a dor de seu amigo por um minuto, Harry resolveu procurar seu próprio nome na lista, rezando para que tivesse mais sorte que Rony. Se não pegasse uma dupla com alguém da Sonserina, já estaria dando pulos de alegria, se bem que não conseguisse pensar em nenhuma desgraça maior do que ter Draco Malfoy como dupla. Parkinson, Pansy... Patil, Parvati... Potter, Harry ligado a...
Os olhos de Harry se esbugalharam. Ele sentiu que derretia como sorvete no sol ao ver aquilo. Não, não estava acontecendo com ele... Provavelmente estava assumindo o mesmo tom verde que Rony assumira anteriormente. Não, não... ele não tinha visto direito... Voltou a olhar seu nome, ajeitou os óculos, mas estava certo. Aquilo realmente era verdade.
- Katherine Willians nãããããooooooo!!!
Nota da Autora: Peço MILHÕES de desculpas pela demora do capítulo... É, eu sei que estou sendo muito má com vocês, mas acreditem em mim: NÃO É DE PROPÓSITO!!! *kaka prestes a chorar* Chuif... hihi ^_^ Mas, tenho dois avisos: um - estou de férias, portanto, vou tentar ser mais rapidinha agora! hehe ;) Dois - minha beta viajou e só volta no fim do mês, então eu vou postar caps não-betados aqui no site, e só aqui *não reparem os erros grotescos, ok?* Bem, era só isso mesmo e mil desculpaaaasss!!! Bjks mil e um da Kaka *se sentindo muito culpada*
No próximo capítulo: Fazer dupla com Katherine Willians era a última coisa que Harry poderia esperar, e ele amarga sua falta de sorte até o momento da aula de duelos. No entanto, Remo Lupin tem uma surpresa para seus alunos (e até mesmo para seu colega Snape, que fica enfurecido) e lhes mostra o local onde farão seus duelos no final do ano. Mas Harry se interessa mais pelo o que há no meio do caminho; algo muito mais sombrio e inesperado.