Capítulo Seis A monitora e o monitor-chefes
Estava em uma sala muito requintada, mas era difícil distinguir o que havia lá dentro. Tudo era muito nebuloso, no entanto tinha a sensação de que conhecia aquele lugar muito bem. Seus passos ecoavam no chão de madeira, andando como se soubesse exatamente aonde ir. Então, subitamente, paralisou; havia algo à sua frente que reluzia. Estendeu sua mão, queria muito aquilo, sabia que era algo que o satisfazia, mas quando estava quase tocando-o, ouviu o som de uma porta se abrindo.
- Ora, ora, quem eu encontro?
Ele riu ao ouvir aquela voz familiar. Deixou sua mão cair, desistindo de apanhar aquilo que tanto queria. No entanto, não virou o rosto para ver quem tinha entrado; sabia muito bem quem era. Ouviu seus passos se aproximarem.
- Admirando seu tesouro? disse a mesma voz, próxima a ele, com um quê levemente divertido, quase imperceptível.
- Há algum pecado nisso? perguntou também divertidamente, sentindo-se contente e achando graça naquela conversa.
- Nenhum. Eu não posso censurá-lo, já que faço o mesmo...
Riu novamente. Uma idéia acabara de lhe surgir à mente.
- O que acha de os compararmos?
- Se estiver disposto a perder... aquela mesma voz provocou, perdendo o tom divertido e assumindo rapidamente um competitivo.
- Eu nunca perco.
Após aquela resposta arrogante, ele se virou para ver o rosto da pessoa, mas tudo ficou claro demais, ofuscando seus olhos...
- Ahhhhhhh!!! Fecha essa janela!
Harry se virou na cama, tapando a cabeça com o travesseiro para tentar se proteger da luz que o cegava. Ouviu alguém resmungar próximo a ele, e o travesseiro foi retirado bruscamente de seu rosto, fazendo a luz voltar a ofuscar seus olhos. Piscando várias vezes para tentar se acostumar com a claridade, ele viu o rosto embaçado de Sirius invertido sobre ele.
Levou um susto. Rapidamente se sentou, e suas mãos correram mais que depressa para a mesa de cabeceira, onde alcançaram seus óculos. Depois de colocá-los, finalmente pôde perceber que Sirius era real e não fazia parte do sonho que acabara de ter. Seu padrinho estava bem ali, ao lado de sua cama, de pé, olhando para ele com uma expressão bastante ranzinza no rosto.
Harry não soube se deveria ou não falar alguma coisa. Estava um clima muito esquisito entre Sirius e ele. Fazia três dias que os dois não se falavam direito somente o necessário, na realidade exatamente desde o dia que Harry foi visitar Godrics Hollow e tinha discutido com o padrinho na volta.
Após voltar daquela inusitada visita à Toca, Harry estava bem menos nervoso e até disposto a conversar com Sirius novamente. Conversar, não gritar. Tinha passado quase toda a noite fora, pensando, e começara a sentir algo muito ruim e pesado dentro de si, que ele reconheceu, mais tarde, como remorso. Sabia que tinha dito palavras duras para o padrinho quando estava com a cabeça quente e, depois, começou a se arrepender. Porém, quando voltou para casa, quase de manhã, percebeu que era tarde demais. Sirius já estava muito magoado para que pudesse perdoá-lo.
Os dias se passaram daquela maneira, com Sirius e Harry se tratando quase como estranhos dentro da mesma casa. Por várias vezes, Harry cogitou iniciar o assunto, tentar falar com ele e... sim, se desculpar, afinal, depois de um tempo, forçou-se a entender que Sirius não tinha tido más intenções, ao contrário, quis apenas protegê-lo. Mesmo que ainda houvesse uma parte de Harry que estivesse um pouco magoada por Sirius ter-lhe escondido a verdade, a outra parte repetia que o padrinho não tinha feito por mal, e sim porque estava preocupado com ele. Mas não foi possível para Harry dizer tudo isso a Sirius, porque ele não deu a oportunidade. Toda vez que o rapaz tentava abrir a boca para dizer algo, Sirius lhe cortava e inventava alguma desculpa para se afastar. E isso estava realmente agoniando Harry.
No entanto, ele estava ali, agora, no seu quarto, acordando-lhe. Não era à toa que Harry estava surpreso. Ele ficou olhando para o padrinho por alguns instantes tensos, pensando em alguma coisa para dizer, mas antes que conseguisse formular uma frase que não fosse idiota, Sirius atirou o travesseiro que segurava em Harry, e o rapaz o segurou por puro reflexo de apanhador.
- É melhor levantar. o padrinho disse, naquele mesmo tom que usava com Harry habitualmente, ou seja, bem seco. Ou então vai se atrasar.
- Ah... é? Harry falou sem entender, parecia que seu cérebro ainda não estava funcionando perfeitamente. Que horas são?
- Sete e meia da manhã.
- Tão cedo? o rapaz se espantou, arrependendo-se depois por causa da cara aborrecida que Sirius fez. Anh, quero dizer...
- Você... não esqueceu... que hoje vai voltar para Hogwarts, não é?
A princípio, Harry não tinha absorvido a informação direito. Quando finalmente seu cérebro resolveu trabalhar, ele deu um sobressalto e um tapa estalado na testa.
- Eu esqueci!
Podia ser só impressão, mas uma sombra de sorriso perpassou o rosto de Sirius. Mas Harry deveria ter-se enganado, porque rapidamente ele voltou à sua expressão carrancuda habitual daqueles dias.
- Ainda bem que eu lembrei, não? Sirius disse, e escondido naquela frase estava aquele velho tom que ele costumava utilizar quando queria se gabar de algo. Como ele tinha se virado para ver o quarto, Harry pôde ficar à vontade para sorrir ligeiramente. Você já arrumou suas coisas?
Harry se assustou com a pergunta súbita. Então, ele novamente se lembrou daqueles dias esquisitos e em como estava preocupado demais com o que estava acontecendo para se lembrar de arrumar suas coisas. Ele sabia que tinha deixado um dever de Poções incompleto, e sabia também que Snape pegaria no seu pé por isso. Aliás, Snape e Hermione.
- Bem, eu...
- Você não arrumou... novamente, aquela sombra de sorriso e um tom levemente divertido. É, ainda bem que eu resolvi te acordar cedo.
- E por que você acordou cedo? Harry perguntou, levantando-se, um pouco mais disposto do que antes, e tentando continuar a primeira conversa decente que tinham em três dias. Não costuma fazer isso...
- Tive... que resolver uns probleminhas cedo. Sirius respondeu distraidamente.
Ele examinava o quarto de Harry, que estava uma completa bagunça: livros jogados, misturados aos seus volumes da escola (novos e usados) e também ao seu material, roupas no chão, algumas cartas de seus amigos amontoadas na escrivaninha junto com o dever de Poções por fazer e presentes de aniversário. Harry contornou sua cama sorrateiro, tentando ver discretamente o rosto de Sirius, e constatou que ele estranhamente sorria, como se apreciasse aquela bagunça.
- Trabalho? Harry arriscou, sentindo-se confiante para prosseguir com a conversa.
- Talvez. Sirius disse vagamente, aproximando-se da escrivaninha e observando exatamente o dever incompleto de Harry. Ele fez uma careta. Dever do Snape?
- Hum... é. Eu acabei não terminando.
- Tirano filho da mãe. Sirius xingou entre dentes, ainda observando o dever. Onde já se viu passar dever?
- Todos passam dever, é só que eu odeio fazer o dele.
- Não importa, aposto que o seboso passou o mais difícil de todos.
Harry estava surpreso. Eles estavam mesmo xingando Snape? Nesse caso, a convivência entre eles finalmente estava voltando ao normal? Harry estava estupefato, mas se era Sirius que estava querendo assim, não seria ele que reclamaria.
- Ele é um babaca mesmo. Harry disse só por dizer.
- Um completo idiota. Sirius completou, também, só por dizer.
Um silêncio caiu sobre eles. Harry desejou que ainda continuassem xingando Snape, mas não lhe apareceu nenhum xingamento realmente bom. Então Sirius postou as mãos na cintura e falou:
- Nós não sairíamos daqui hoje se disséssemos tudo que Snape é, não? É melhor nos aprontarmos para não chegarmos atrasados à estação.
- É, tem razão. Harry disse rapidamente, adiantando-se para seu material, fazendo menção de juntá-lo. Eu... vou arrumar essas coisas.
- Não, não! Deixa que eu faço isso.
Harry olhou de esguelha para o padrinho. Era uma situação realmente constrangedora. Por um instante, Harry teve a impressão de que Sirius também estava com o mesmo desejo dele de fazer as pazes.
- Tudo bem, eu mesmo faço, Sirius... Só... preciso achar minha varinha.
- Eu acho ela pra você. o padrinho disse, sacando sua própria varinha. Vai tomar banho e enquanto isso eu arrumo suas coisas, isto é... se você não se importar...
- Ah, não! Tá o.k., anh... obrigado. Harry foi até o armário e apanhou um jeans e uma camiseta. Quando ele já estava quase na porta, completou: - Não precisa arrumar muito, é só jogar as coisas no malão mesmo.
Sirius, que estava ocupado em lançar um olhar um tanto nostálgico para as coisas do afilhado, apenas concordou com a cabeça sem prestar muita atenção e fez um gesto para que Harry fosse embora. Ainda um pouco desajeitado, Harry saiu.
Talvez as coisas melhorassem, ele pensou esperançoso, enquanto caminhava para o banheiro. E ele queria muito isso. Apesar de ter-se magoado com o padrinho pelo que acontecera, sentia muita falta das conversas, das risadas e das brincadeiras deles. Sentiria falta daquela casa.
Foi a primeira vez que Harry não tinha contado os dias para voltar a Hogwarts.
Pensando nessas coisas, e bem mais animado do que antes, ele decidiu ir tomar banho, completamente esquecido do sonho que teve mais cedo.
*******
Quando Harry desceu para a cozinha mais tarde, devidamente limpo e arrumado, Sirius já estava à mesa, lendo, por incrível que parecesse, o Profeta Diário. Harry já o tinha surpreendido fazendo isso algumas vezes, e Sirius sempre se assustava, bem como acontecera dessa vez quando ele entrou na cozinha; o padrinho derrubou café no jornal na pressa de escondê-lo. Mas era besteira, porque Harry sabia muito bem que, assim como ele, Sirius também recebia o jornal escondido. Mas havia um pacto não-verbal entre os dois para que nenhum deles acusasse o outro de fazer isso, por mais que soubessem ou desconfiassem. Nas vezes em que Harry surpreendia Sirius lendo o jornal, ele sempre perguntava se havia algo importante, e Sirius sempre dizia que não, apesar de que algumas vezes mostrasse o jornal, outras não. E Harry sabia que nas vezes que não mostrava, era porque algo ruim tinha acontecido e, se ele não tivesse lido, depois do café da manhã corria para o quarto para ler.
Porém, antes de fazer isso, Harry estancou ao ver a mesa do café da manhã. Ela estava tão farta e bonita quanto no dia do seu aniversário. Sorriu; Sirius tinha feito aquilo para agradá-lo no último dia que passaria ali. Então ele realmente também queria fazer as pazes com Harry.
- É só... um café da manhã de despedida. Sirius murmurou, tentando utilizar um tom despreocupado, fracassando miseravelmente. Harry se sentou de frente a ele, começando a se servir do máximo que conseguia colocar no prato.
- Eu gostei.
Sirius não disse nada, mas Harry conseguiu identificar uma risadinha baixa vinda de trás do jornal, que logo foi sufocada por pigarros. Enquanto isso, o rapaz tentou ver o que estava no jornal, já que ainda não tinha tido tempo para ler o seu e, só para continuar a falar, perguntou:
- Algo interessante aí?
- Hum... não.
- Deixa eu ver?
Ele viu os olhos de Sirius lhe espiando por cima da página.
- Quer mesmo?
- Quero.
O padrinho fez menção de entregar o jornal para ele, e então Harry teve certeza de que não havia nada importante mesmo.
- Não, tudo bem, pode ler... eu olho depois.
Sirius sorriu ligeiramente, como que entendendo a jogada do afilhado, mas ele não voltou a ler o jornal. Por sua vez, colocou mais café na sua xícara vazia.
- Eu arrumei suas coisas já... Achei sua varinha, coloquei ela em cima do seu malão. Tá tudo meio jogado, mas você disse que não se importava.
- Não, tudo certo.
Sirius apenas assentiu. Ainda existia aquela barreira entre eles por causa dos últimos dias, e parecia difícil a qualquer um dos dois derrubá-la. Harry pensou em comentar sobre o que tinha acontecido, mas depois desistiu, com medo de estragar as coisas. Ao invés disso, apenas perguntou:
- Como vamos para a estação? Aparatando?
- Ah, não... Temos muitas coisas para carregar. Vamos de carro, por isso te acordei cedo também. Teremos que pegar a estrada, você sabe.
- Claro...
- Ei, e a sua amiguinha pentelha, hein?
- Agatha?
- E quem mais?
Harry riu baixinho.
- Eu conversei com ela ontem, tentei me despedir, mas ela não pareceu disposta... fingiu que nada estava acontecendo. Quando eu falei sobre isso com a Sra. Prescott, ela me contou que Agatha é assim mesmo... prefere não se despedir.
Sirius assentiu, deixando Harry a sós com seus pensamentos. Na realidade, ele estava um pouco incomodado com isso também. Queria ter-se despedido direito da sua pequena amiga, mas se isso a faria mal, ele entendia que talvez fosse o melhor ir embora sem nenhuma despedida. Ele também estava chateado; apesar de ela ser toda espevitada, Harry tinha realmente se apegado àquela garotinha e sentiria falta dela, bem como daquela casa, daquele verão e... de Sirius. Sabia que ficaria bem mais distante do padrinho durante o período letivo e já tinha se acostumado a tê-lo sempre por perto. Era exatamente por isso que queria resolver as coisas, mas ao mesmo tempo estava receoso de entrar no assunto.
Eles tomaram o café preguiçosamente e, por isso, só tinham terminado quando eram quase nove horas, o que os obrigou a se apressarem para arrumarem o que faltava e levarem as coisas para o carro. Numa das idas e voltas, quando Harry tinha acabado de descer de seu quarto, onde passou uns bons cinco minutos apenas olhando tudo para se despedir, ele se surpreendeu: no momento em que saía para a varanda, ouviu o "nhec-nhec" da sua rede e, ao olhar para ela, viu ninguém menos do que Agatha sentada ali, se balançando.
Ela tinha uma expressão tristonha no rosto, os olhos um pouco marejados e balançava-se melancolicamente. Seus pezinhos pequenos ficavam suspensos por não alcançarem o chão, e Harry ficou imaginando que tipo de "artes" ela não teria aprontado para poder subir e alcançar a rede. Ele soube que tinha sido algo perigoso quando viu a cadeira bem próxima dela.
Então, ele olhou direito para a menina, que por sua vez também o encarava atentamente. Agatha estava bem mais arrumada do que o normal; parecia que não tinha se esforçado para despentear os cabelos, como de costume, e seu vestido era bem menos esfiapado do que os habituais, isso sem contar que ela não estava cheia de areia. Harry se aproximou dela, sentou-se na cadeira de vime que ela provavelmente tinha arrastado para subir na rede, e a olhou carinhosamente. Agatha suspirou com tristeza.
- Eu não queria vir... ela murmurou, abaixando os olhos. Mas não consegui deixar de vir... Tava com saudades, já.
Harry sorriu e passou a mão nos cabelos dela com carinho. Agatha suspirou novamente.
- Eu até me arrumei para vir me... despedir.
Ele tinha imaginado. Harry segurou o pequeno queixo dela e fê-la olhá-lo. Viu que a menina estava usando todo seu autocontrole para não chorar.
- Eu também já estou com saudades, garotinha.
Foi nesse momento que ela não agüentou mais. Agatha pulou da rede e abraçou Harry desajeitadamente, chorando sobre ele. Aquilo o desconcertou. Então, ele a puxou e a sentou no seu colo, levantando seu rosto e secando suas lágrimas, o que era complicado, pois Agatha, orgulhosa do jeito que era, ainda assim teimava em tentar escondê-las.
- Cê... precisa... mesmo... ir? ela perguntou entre soluços.
- Eu já te expliquei... Preciso ir para a escola...
- Por... que... cê... não... studa... qui?
Harry riria da pergunta se o momento não fosse delicado. Não havia escolas de magia em Freshpeach, mas ele não podia dizer isso a ela. Além disso, mesmo que gostasse dali, Hogwarts sempre seria seu lar.
- Eu estudo em um internato, Agatha... Os alunos têm que morar lá. Você entende?
Ela assentiu, passando as costas das mãos nos olhos para tentar enxugar as lágrimas. Ainda soluçando, completou:
- Mas... não... tá... certo...
Ele sorriu tristemente, e logo virou novamente o rosto dela, forçando-a a olhá-lo. Agatha fez isso um pouco contrariada, pois seus olhos já estavam levemente roxos e ainda escorriam lágrimas pelo seu rostinho. Os seus cabelos, tão cuidadosamente penteados, já estavam novamente se despenteando, como era habitual.
- Eu não vou para sempre. Existem as férias e... cartas! Eu expliquei para a sua mãe como deve fazer para se corresponder comigo, mas vou dizer para você também. ele se lembrava como tinha sido complicado arranjar uma desculpa para explicar à Sra. Prescott o porquê dele utilizar corujas ao invés do correio. Você só precisa amarrar a carta na pata da Edwiges quando ela te visitar, o.k.?
Agatha assentiu, aspirando o ar com dificuldade pelo nariz entupido pelo choro.
- E... cê... vai voltar mesmo... nas férias?
Harry não sabia muito bem o que dizer, afinal sua vida era uma caixa de surpresas, mas mesmo assim concordou. Agatha pareceu ficar um pouco mais aliviada.
- Eu vou... sentir... sua... falta.
- Eu também, menininha...
Ela o abraçou novamente e deu um beijo estalado na sua bochecha. Depois, ela voltou a assumir aquele tom mandão e apontou um dedinho para ele.
- Não esqueça! Cê prometeu voltar, Arry!
- Eu vou!
Ela assentiu, sorrindo timidamente. Harry a colocou no chão e também se levantou. Agatha desceu correndo as escadas da varanda, seu vestido de flores (gardênias, suas preferidas) esvoaçando. Harry a acompanhou, e a menina se virou para olhá-lo quando já estavam na areia.
- Não se esqueça da promessa!
Ele se abaixou para ficar do tamanho dela, juntou os dedos e beijou-os três vezes, para mostrar a ela que a promessa estava selada. Agatha abriu um grande sorriso.
- Olha... ele começou. Vamos fingir que ainda vamos nos ver amanhã, o.k.?
- Certo! ela concordou, animada. Amanhã vamos brincar na praia?
- Vamos. Amanhã eu passo na sua casa!
- Eu vou esperar.
Ela piscou, deu mais um abraço apertado nele, e saiu correndo pela areia, sem se importar mais se estava se sujando. Harry se levantou, colocando uma mão na cintura enquanto observava-a partir, sentindo que realmente tinha se apegado àquela menininha e que sentiria saudades dela. Estava tão absorto, que nem sentiu Sirius se aproximar.
- Sabe, Harry... ele disse, postando-se ao lado do afilhado, cruzando os braços com um sorriso maroto no rosto, observando Agatha ao longe como Harry. Olhando assim, dá até para achar que você daria um ótimo pai, sabia?
Harry olhou de esguelha para ele, agitado, com as sobrancelhas erguidas. Sirius sorriu como que se gabando. Harry deu um empurrão nele.
- Bobão.
E eles riram juntos, como nos velhos tempos.
*******
Podia sentir o vento no rosto, e aquela sensação lhe lembrava de como era voar sobre uma vassoura. Sentia falta disso. Voltar para Hogwarts sempre tinha suas compensações, e quadribol era uma delas.
Harry escorregou ligeiramente seu corpo no banco de passageiro, observando pela janela as várias cidadezinhas do tamanho de formigueiros que passavam lá embaixo. Sirius, que estava dirigindo o carro voador, ligara em uma das suas estações preferidas de rádio e desafinava uma canção enquanto dirigia.
Era como se tivessem feito as pazes sem ao menos tocar no assunto, e por mais que isso tivesse seu lado positivo, ainda assim Harry gostaria que conversassem sobre o problema. Mas ele não tinha a mínima idéia de como começar e, para ficar pior, ele tinha receio de que as coisas ficassem ruins se o fizesse. Foi quando estava pensando sobre isso, que Sirius comentou banalmente:
- Hoje descobri uma coisa em que você não é parecido com seu pai.
Harry ficou tenso; por que ele resolvera dizer aquilo? Ele virou o rosto para olhar o padrinho, sentindo o vento agitar seus cabelos que se moviam em frente aos seus olhos, e viu que Sirius tinha metade dos olhos focados à frente, concentrado na direção, e outra metade prestando atenção no afilhado.
- O que quer dizer?
- Eu vi a bagunça no seu quarto... Sirius riu. Tiago não era assim.
- Você está querendo dizer que ele era organizado?
- Bem, não em tudo, mas o quarto dele era arrumado. E a parte dele no nosso dormitório também, quer dizer, contrastava com a minha parte.
- Então, eu sou como você, nesse aspecto?
- Comigo é uma coincidência, mas você é parecido com sua mãe nisso.
- O quê? A minha mãe era desorganizada?
- Uma bagunceira, isso sim. Fingia-se de certinha, mas no fundo era uma doida, essa era Lílian. Quantas vezes eu não a provoquei com isso? Sirius completou, nostalgicamente. Era muito engraçado... E Tiago só ficava lá, rindo de nós dois... principalmente quando ela tentava me bater. Desgraçado.
Harry voltou a observar a janela, mas agora sorria calmamente, imaginando a cena. Então, uma súbita coragem o envolveu, e logo sua boca se movia sozinha, desobedecendo seu cérebro, que repetia para que ela não pronunciasse uma só palavra.
- Sirius, eu queria muito... te pedir desculpas.
O carro deu um tranco, como se fosse uma pequena turbulência, mas logo Sirius o aprumou.
- Anh... Harry, você não precisa...
- Mas eu quero! ele insistiu, por mais que seu cérebro ainda dissesse que talvez aquilo não fosse uma boa idéia. Sua cabeça queria se virar sozinha para olhar Sirius, mas pelo menos ela Harry consegui controlar e continuou olhando a janela. Eu quero muito...
- Se é assim... eu também tenho que pedir desculpas, Harry.
- Que nada. Eu é que fui um estúpido.
- Nós dois fomos. Ou melhor, você foi estúpido, e eu fui um panaca. Eu não deveria mesmo ter escondido de você aquilo, aliás, eu nem deveria tê-lo levado para aquele lugar de princípio.
- Não! Eu gostei, Sirius, eu realmente gostei. Harry olhou de esguelha para o padrinho, que ainda parecia concentrado em dirigir. Foram as minhas melhores férias.
Ele sorriu ligeiramente.
- Eu realmente não tinha o direito de te esconder que aquela casa era Godrics Hollow, Harry. Foi um erro não ter contado isso desde o começo.
- Você só quis que eu não me chateasse. E eu fui um completo idiota com você...
- O.k., vamos parar de nos xingar aqui? Sirius disse rindo. Eu e você somos idiotas!
- Pelo menos... Harry considerou. ...somos idiotas juntos! E convivemos com a nossa idiotice...
- Nós a aceitamos, não? Como dois homens adultos e idiotas que somos.
- Claro, aceitar é o primeiro passo para uma... evolução!
Os dois pararam de falar, se entreolharam e, depois de um tempo, caíram na gargalhada.
- Que monte de merda! Sirius deixou escapar entre risadas. Nós somos ridículos!
- E idiotas, não esqueça do principal! Harry emendou, sentindo sua barriga doer. Idiotas e ridículos!
- Nós temos muitas qualidades... Sirius ironizou.
O carro começou a perder altitude; Sirius estava aterrizando, dividido entre rir e tentar se concentrar na descida. Quando finalmente tocaram o chão de uma rua deserta de Londres, com um baque leve, eles se entreolharam novamente e riram. Depois de se recuperarem, os dois encostaram-se aos bancos, recuperando o ar. Sirius foi o primeiro a conseguir respirar e agir; ele estendeu sua mão para Harry:
- Oficialmente amigos, idiota?
- Amigos. Harry confirmou, apertando a mão dele. Estúpido.
Então, eles soltaram as mãos rapidamente, como se tivessem pego uma doença, e riram baixinho em seguida.
- Que horas são? Sirius perguntou de súbito.
- Anh... não sei, não era você que estava checando isso?
- Eu estava dirigindo, você, que não estava fazendo nada, deveria estar vendo isso.
Um pouco contrariado, Harry olhou seu relógio de pulso. Seus olhos se arregalaram: faltavam apenas dez minutos para as onze horas, o que queria dizer que o Expresso de Hogwarts partiria em exatamente dez minutos.
- Que foi?
Harry mostrou o relógio para Sirius, que também arregalou os olhos.
- Ahhhh, nós vamos perder o trem!!!
*******
O Expresso de Hogwarts soltava grandes baforadas de fumaça quando Harry e Sirius cruzaram loucamente a barreira da Plataforma nove e meia. Vários alunos, rostos conhecidos de Harry, despediam-se de seus pais e familiares, e muitos viravam seus pescoços bruscamente assim que reconheciam Harry Potter e Sirius Black. Mas Harry não tinha tempo para cumprimentar nenhum deles; o trem partiria em três minutos, e eles precisavam correr.
- Harry? ele ouviu uma voz feminina conhecida gritando de uma das janelinhas do trem.
Ele parou derrapando, segurou Sirius, que corria desabalado empurrando as coisas de Harry, pela manga da camisa, fazendo-o quase cair ao frear tão bruscamente. Sirius se virou para ele, esbaforido e irado.
- Tá doido? A gente vai...
Harry, que não estava em condições de dizer algo devido às suas péssimas condições respiratórias, apenas apontou para uma das cabines, fazendo Sirius enxergar o mesmo que ele.
Hermione, que tinha gritado, olhava espantada para os dois, bem como Rony, que também já tinha subido no trem, mas estava na porta ao invés da janela. Mais abaixo, ainda na estação, a Sra. Weasley e Gina tinham parado de se despedirem para olharem curiosas para Harry e Sirius.
- Atrasados. Hermione disse, meio severa, meio rindo, quando os dois se aproximaram ofegantes.
- Tem que treinar muito para se atrasar mais que os Weasleys... Rony comentou com um sarcasmo divertido na voz.
Edwiges, que estava empoleirada em sua gaiola sobre o malão, toda arrepiada depois da corrida, piou como se concordasse com Rony.
- Você não tem direito a reclamar. Harry disse a ela, ao mesmo tempo em que tentava respirar, suas mãos se apoiando sobre os joelhos. Sirius não estava menos miserável: ele se encostara no trem, quase enfartando de cansaço.
A Sra. Weasley tinha a mesma expressão de Hermione: ao mesmo tempo severa e divertida.
- Por que se atrasaram?
- Foi tudo culpa dele! Harry e Sirius disseram juntos, apontando-se acusadoramente. Idiota! Sirius completou.
- Estúpido! foi a vez de Harry, e os dois riram depois disso. Obviamente, ninguém além deles entendeu porque eles se xingavam e depois riam.
- Fred e Jorge me parecem pessoas equilibradas nesse momento. Gina comentou como quem fala sobre o tempo, ao mesmo tempo em que subia no trem, que começava a soltar baforadas assustadoras.
- Eu acho que o trem vai sair... Rony falou como se estivesse cantando.
- Ah, você também notou isso? Gina perguntou sarcástica.
Harry e Sirius se entreolharam e engoliram em seco. Dois segundos depois, eles estavam praticamente atirando as coisas de Harry em cima de Rony e Gina, enquanto a Sra. Weasley se desviava de um malão voador, uma vassoura desgovernada e uma gaiola, que Hermione apanhou no susto; Edwiges piou indignada (e com razão).
Quando o trem já estava se movendo, Harry subiu nele com um salto, e Rony segurou seu braço para que ele não se desequilibrasse e caísse. Gina, que quase fora soterrada pela quantidade de coisas que voaram sobre ela, ergueu-se com uma expressão de profundo desgosto para Harry. Enquanto isso, Hermione acenava tranqüilamente para a Sra. Weasley e Sirius; os dois estavam lado a lado na plataforma, a matrona dos Weasleys com um olhar ligeiramente preocupado e Sirius, por sua vez, escondendo no seu sorriso uma certa nostalgia talvez a mesma que Harry estava sentindo ao, finalmente, ter certeza de que aquelas férias com o padrinho tinham realmente terminado.
O trem começou a tomar velocidade, e os dois começaram a se distanciar, ao mesmo tempo em que Gina, Hermione, Rony e Harry acenavam. Porém, alguns metros distante, Sirius pareceu se lembrar de alguma coisa, retirou algo de dentro do bolso da camisa e, com um fôlego invejável, correu do lado do trem, sendo observado com surpresa por várias pessoas, tanto na estação quanto dentro das cabines.
Harry se debruçou na janela, ao lado de Hermione, olhando-o intrigado ao mesmo tempo que perguntou sem entender:
- O que foi, Sirius?
O padrinho alcançou a janela em meio à sua corrida frenética e conseguiu colocar algo na mão de Harry com brusquidão; a curva da saída da plataforma se aproximava, e antes que Sirius desse de cara nela, ele ainda conseguiu dizer, olhando Harry carinhosamente:
- Eu esqueci de devolver, mas é seu... Obrigado por emprestar!
E a última coisa que Harry viu antes que o trem fizesse a curva foi Sirius sorrindo e piscando-lhe um olho. Ele abaixou os olhos e observou o que tinha nas mãos: uma caixinha da cor de madeira velha, de uma forma ovalada e que se abria e fechava por fricção.
- Por que ele te deu isso? Hermione, ao lado de Harry, perguntou. Rony, que havia saído da porta, também olhou curioso para a caixinha.
- Eu não sei... Harry respondeu desatento, prestando maior atenção à caixinha; quando a abriu, um sorriso apareceu em seus lábios, compreendendo a intenção do padrinho. Ele só me devolveu algo que eu tinha emprestado... ele explicou depois, fechando novamente a caixinha e guardando-a no bolso da camisa, o que representou um volume considerável.
Rony e Hermione se entreolharam, e o ruivo apenas deu de ombros, fazendo uma cara de que não adiantaria perguntar nada. Harry apreciou essa atitude do amigo; contar o que significava o conteúdo da caixa significaria contar tantas coisas que ele já estava cansado só de pensar.
Enquanto isso, Gina arrastava seu malão com tanta má-vontade, que acabou atraindo a atenção dos garotos.
- Quer ajuda? Rony perguntou um pouco receoso.
- Não, obrigada. ela respondeu excessivamente rabugenta. Eu vou procurar meus colegas. ela remendou, sumindo por entre o corredor que levava às cabines mais ao fundo do trem.
Rony fez uma careta e olhou irritado para Hermione.
- Quando eu digo que ela tá com TPM, você não acredita em mim.
- Ah, que grosseria, Rony! ela retrucou exasperada, recolhendo do chão a cesta onde repousavam Bichento e uma pequena bola de pêlos saltitante, que Harry sabia que era Spi, o pequeno Splooty. Harry, você pode levar isso junto com você quando for procurar uma cabine? É que não vai ser bom eu levar junto comigo na reunião dos monitores... ela pediu, utilizando um tom importante.
Harry não tinha captado direito a mensagem só podia ser essa a explicação. Ele olhou para Rony, mas o amigo parecia subitamente interessado no teto.
- Eu não entendi...
- Nós precisamos ir para a reunião dos monitores, Harry... Rony respondeu impaciente. Uma chatice.
- Mas vocês só vão depois...
Hermione bufou.
- Eu recebi uma carta dizendo que eu fui... quer dizer, precisava estar presente por causa de uma coisa. ela disse esquiva. E não podemos nos atrasar! completou, dirigindo-se especificamente a Rony, que revirou os olhos, parecendo um pouco irritado.
- O.k... Harry falou um pouco desapontado. Eu levo os animais de vocês junto comigo. Mas só os animais, não vou conseguir levar o resto das coisas de vocês... Não sou nenhum burro de carga, sabiam?
Rony sorriu levemente ao ouvir o gracejo, mas Hermione se limitou a suspirar. Ela explicou que eles levariam os malões e só não queriam levar Spi, Bichento e Píchi por causa do barulho, o que foi emendado por um pio alegre da corujinha de Rony. Em resposta, ele apanhou, irritado, a gaiola de Píchi, mandando-a ficar quieta. Hermione apressou-o e recolheu suas coisas, saindo quase correndo na direção do vagão dos monitores. Rony, por sua vez, aproximou-se de Harry e entregou a gaiola de Pichitinho a ele.
- O que aconteceu? o rapaz perguntou, ainda sem entender a estranha atitude dos amigos.
- Sei tanto quanto você. Rony respondeu amargurado, enquanto recolhia seu malão. Hermione só disse que precisava muito ir ao vagão dos monitores o quanto antes, por causa da tal carta. Mas o que diz essa bendita carta na realidade, eu não faço a mínima idéia, por isso, nem adianta me perguntar, cara.
Harry permaneceu onde estava, chocado e sem entender, enquanto Rony lhe dizia que se encontrariam depois e o quanto antes na cabine, e que Harry não se preocupasse porque, se a reunião durasse muito, ele inventava que estava com dor de barriga e saía antes que dormisse. Harry riu, mas, depois da partida de Rony, viu-se completamente só e chateado; não lhe agradava a idéia de viajar muito tempo sem seus amigos e, ainda mais, sem companhia alguma, que era o que parecia que iria acontecer.
Foi quando Spi saltitou em seu cabelo que ele percebeu que não estava só; ele praticamente tinha virado uma babá de quatro animais. Píchi e Spi não paravam de saltitar e fazer barulho, enquanto Bichento apenas ronronava e Edwiges piava indignada. Harry suspirou cansado e tratou de recolher suas coisas, desejando ter oito braços; depois de várias tentativas, ele finalmente percebeu que estava sendo estúpido: jogou as coisas no chão, tirou a varinha do bolso e, com um gesto amplo, começou a fazer tudo flutuar à sua frente, apenas carregando a Firebolt nas mãos. Enquanto caminhava pelos corredores, ele só desejou não encontrar nenhum sonserino do seu ano, pois sabia que estava com uma aparência ridícula e um encontro com Draco Malfoy, por exemplo, seria um desastre. Bem, sempre havia a saída de relembrar o memorável episódio do teste de aparatação, quando o sonserino ficou completamente careca.
- Aonde vai com tudo isso? Neville, que estava passando, perguntou intrigado, observando Harry e sua pilha de coisas que fazia flutuar com um feitiço.
- Rony e Hermione me deixaram sozinho com esse encargo. ele respondeu sarcasticamente. Lembre-me de cobrar deles depois.
- Ah, sim... Neville disse vagamente, ainda observando as coisas flutuando. Onde eles foram?
- Reunião de monitores. Ei, Neville, você sabe se tem alguma cabine vazia por aí?
Neville indicou uma no final do corredor, ao que Harry agradeceu profusamente, encaminhando-se para lá depois que o colega se despediu, alegando que precisava encontrar uma certa "amiga" sua da Lufa-lufa. Quando Harry entrou na cabine vazia, já de saco cheio de carregar tudo aquilo, apenas se sentou e, com acenos da varinha, foi colocando as coisas nos lugares certos. Como era cômodo poder usar magia quando quisesse... Naquele momento, ele agradeceu por ser bruxo.
Depois de terminar de arrumar suas coisas, Harry acabou se deitando no banco vazio, colocando as mãos atrás da cabeça e observando o teto. Pensou em tudo que poderia lhe acontecer naquele ano que estava por vir... Sempre aconteciam acontecimentos estranhos em todos os anos de Hogwarts, e Harry já tinha perdido as esperanças de que isso fosse mudar algum dia. Ele se pegou, depois, pensando que aquele seria seu último ano naquele castelo... O sétimo ano. Era impressionante o pensamento de que já tinham se passado seis anos desde o dia em que Harry pisara pela primeira vez naquela escola, do dia em que ele tinha viajado naquele mesmo trem, conhecido o seu melhor amigo Rony, uma garota dentuça e mandona chamada Hermione e todas aquelas pessoas que agora faziam parte de sua vida.
Ele retirou do bolso a pequena caixinha que Sirius lhe dera na estação, abrindo-a com cuidado. De dentro dela, retirou um par de óculos redondos, quebrados e maltratados os óculos de seu pai, que ele tinha recolhido em Godrics Hollow. Havia deixado-os na casa de praia antes de desaparatar naquela noite de discussão, e os óculos tinham sumido. Agora ele entendia que Sirius tinha-os "pego emprestado" porque, assim como Harry, o padrinho também sentia falta do dono daquelas lentes.
Harry suspirou lentamente, fechando os olhos, mas seu descanso duraria pouco.
A porta da cabine se abriu estrondosamente, e Harry levou um susto tão grande que o fez dar um salto no banco onde estava deitado, sentando-se em meio segundo. Ele se virou rapidamente para ver quem tinha entrado, e seus olhos encontraram os de uma garota de quase a mesma idade que a dele, tão surpresa quanto ele.
- Eu não acredito! os dois exclamaram ao mesmo tempo, desalentados com a má sorte que lhes acorria.
Katherine Willians bufou com tal irritação, que alguns fios soltos do seu cabelo desajeitadamente preso agitaram-se à frente dos olhos castanhos. Harry também não estava menos aborrecido; sabia perfeitamente que aquela garota significava confusão. Como se já não fosse bastante o encontro forçado que eles tiveram naquele pub de Londres, no dia do aniversário do rapaz, ainda tinha que esbarrar com ela logo no trem? Não poderia ao menos esperar que chegasse a Hogwarts?
Ele queria praguejar um nome bem feio, mas se deteve.
- Eu pensei que a cabine estivesse vazia... a garota disse, olhando para Harry como se ele fosse culpado por estar ali dentro. Não pensei que houvesse alguém aqui dentro...
- Pois já viu que há alguém! o rapaz exclamou, abrindo os braços ironicamente. Eu não sou invisível, se pôde notar...
- Se soubesse que logo você estaria aqui, não teria entrado. ela respondeu sem descer do salto.
- E eu teria trancado a porta se tivesse imaginado que você irromperia tão "delicadamente" por ela. ele retrucou no mesmo tom.
A garota, que ainda segurava o seu malão em uma mão e a vassoura na outra, encarou-o com desdém.
- Ah, é? E como faria isso, se não é possível trancar as portas das cabines do trem?
- Eu usaria magia! Harry respondeu com um sorriso arrogante, mostrando sua varinha. Já posso usá-la sem ninguém me encher a paciência. Poderia até mesmo te enfeitiçar aqui sem problemas.... ele sorriu maliciosamente, apontando a varinha para ela.
A garota apenas abaixou os olhos para a varinha, para depois levantar uma sobrancelha com descrença.
- Você não faria isso.
- Mas poderia... Harry emendou, guardando a varinha entre as vestes.
Ela suspirou, revirando os olhos, e depois disse:
- Bem que eu queria poder usar a minha, mas não dá.
- Você ainda não tem idade suficiente?
- Não. ela respondeu chateada. Só farei dezessete no começo do ano que vem...
No instante seguinte, ambos perceberam que estavam tendo uma conversa normal e logo resolveram voltar a se tratarem mal:
- Bem, agora que você já viu que a cabine não está vazia... Harry insinuou.
- O.k., eu já entendi que está me expulsando! ela respondeu na defensiva. Estou indo embora.
Mas no exato momento em que ela abriu novamente a porta, ao ver algo lá fora, fechou-a novamente com um estrondo tão poderoso que Edwiges piou em reprovação e Spi saltitou para o chão.
- Alguém já te disse que você tem um parafuso a menos?
Ela não respondeu. Encostou-se à porta, revirando os olhos, bastante irritada com algo, ao mesmo tempo que largava seu malão e a vassoura. Harry arregalou os olhos, em espanto.
- Você não está pensando em... ficar?
A garota olhou-o desconsolada.
- Meu primo está lá fora.
- E daí? Harry retrucou, sem se importar se estava sendo grosso ou não. Ele só sabia que preferia ficar sozinho a ter a companhia daquela garota chata. Ele é seu parente, é falta de educação não cumprimentá-lo...
O tom dele era de uma irônica reprovação; ele sabia muito bem que agüentar Draco Malfoy deveria ser algo impossível até para a própria mãe dele.
- Vai dizer que não tem nenhum parente de que você não goste? Willians perguntou descrente.
Desanimado, Harry se lembrou que havia tantos nomes que poderiam encher uma lista... seu primo Duda, tia Petúnia, tio Válter, tia Guida, a recém descoberta "tia" Samantha e, o que era pior, seu "avô", de quem nem queria se lembrar naquele momento. Harry suspirou longa e pesadamente, o que deu margem para que Willians abrisse um sorriso vitorioso ao perceber que estava certa.
Ela arrastou seu malão até o outro lado da cabine, enquanto Harry a observava com evidente desânimo e descontentamento estampados em seu rosto. Assim que Willians sentou-se no banco de frente a Harry, o mais distante possível, ele suspirou, ainda sem acreditar.
- Você vai mesmo ficar aqui?
- Não tenho outra opção. ela deu de ombros. Não estou nem um pouco a fim de dar de cara com Draco.
Harry a observou por alguns instantes, suas sobrancelhas erguidas. Estava quase óbvio que alguma coisa, provavelmente, deveria ter acontecido entre os "primos" para que a garota evitasse a todo custo esbarrar em Malfoy. Mas isso não significava que, por esse motivo, fosse Harry o pobre coitado que tivesse que suportá-la.
- Ele pode ter saído de lá nesse momento... Harry tentou convencê-la. Pode ter entrado em alguma outra cabine, ou ter ido ao banheiro, ou se jogado do trem...
Ela levantou os olhos para ele, intrigada.
- Ah, esquece a última parte... é só um sonho... ele fez um gesto displicente.
Willians fez um barulho semelhante a uma risada abafada, mas logo se recuperou; abriu seu malão e retirou dele um livro fino encardenado em couro. Harry leu o título e reconheceu-o como sendo do mesmo tipo dos que Sirius tinha colocado na prateleira do seu quarto, mas antes que pudesse dizer algo, Willians comentou:
- Se você quiser sair, não vou impedi-lo.
- Eu não vou sair! Harry retrucou aborrecido. Eu estava aqui primeiro, você que tem que sair!
- O ditado diz "os incomodados que se mudem". ela respondeu, folheando tranqüilamente seu livro.
Harry ia revidar novamente, mas antes que o fizesse, algo laranja e peludo pulou em seu colo. Willians levantou seus olhos do livro e observou Bichento se espreguiçar sobre o colo de Harry; mais para ter algo com o quê o ocupar as mãos, o rapaz começou a coçar a orelha do animal.
- De quem é o gato? a garota perguntou interessada.
- Hermione. Harry respondeu, apoiando o cotovelo no parapeito da janela e observando, distraído, as paisagens passando velozes por ela.
Willians perdeu o interesse em Bichento num piscar de olhos e voltou-se, novamente, para sua leitura. Alguns minutos silenciosos se passaram, nos quais, no começo, Harry se distraía inventando situação mirabolantes de como poderia se livrar da garota, porém, após algum tempo, ela ficou tão silenciosa, que ele até esqueceu que ela estava presente. O pensamento de Harry começou a viajar e, em dado momento, ele se lembrou de algo que o perturbava: já fazia muito tempo que Voldemort estava parado. Os seus Comensais, às vezes, apareciam em jornais, causando tumultos, mas já fazia algum tempo que isso não acontecia; a última vez que Harry se lembrava de ter visto algo realmente relevante foi quase no começo das férias, quando leu no jornal que vários dementadores juntamente a Comensais tinham invadido uma cidade no sul da Irlanda. Mas as coisas estavam paradas demais ultimamente, o que levava Harry a temer por algo grande da próxima vez que o lado negro se manifestasse.
- Ei, tá me ouvindo?
Harry se virou para ver Willians. Ela o encarava intrigada. O rapaz suspirou; tinha realmente se esquecido que ela ainda estava ali. A garota franziu as sobrancelhas.
- Em que planeta você estava?
- Com certeza um que esteja a anos-luz de você. Harry respondeu com sarcasmo. O que você quer?
- Eu falei com você.
- Não sei se você percebeu, mas eu não escutei.
Ela cruzou os braços e encostou-se ao banco, encarando-o com negligência.
- Eu te perguntei se você comentou com alguém que nós nos esbarramos naquele pub em Londres.
O tom dela era extremamente rabugento, dava até a impressão de que ela era alguma bruxa velha e chata. No entanto, Harry se revirou incomodado no banco; ele tinha comentando o assunto com Rony e Hermione, e ele e Willians tinham feito um acordo de que manteriam em segredo aquele desagradável encontro. Entrementes, ela não tinha nada a ver com a vida dele, e Harry poderia comentar com quem quisesse o que quer que acontecesse na sua vida. Ele voltou a observar a janela, enquanto Bichento ronronava no seu colo.
- Espero que você também não tenha aberto a boca. ele se esquivou.
- É claro que não o fiz.
- Você tem visto aquela sua amiga? Harry perguntou subitamente, mais para não ficar em silêncio de novo. Não queria voltar ao seu pensamento de antes, e ao menos isso era uma distração.
- Lauren?
- Ela mesma.
- Ah, ela voltou para a França... As aulas da faculdade dela recomeçaram também. Willians explicou, distraída. Ela gostou de você.
Harry, intrigado, voltou seu rosto para olhar a garota.
- Ela lamentou já ser comprometida... Willians falou, revirando os olhos e dando de ombros. Louca.
Harry abafou um riso. Antes que qualquer um deles pudesse dizer mais alguma coisa, um estrondo abalou o trem e as luzes se apagaram. Nos primeiros instantes, Harry ficou paralisado pelo susto, mas depois vários pensamentos correram pela sua cabeça. Ele ouviu a voz ligeiramente alarmada de Willians:
- O que está havendo?
Harry se levantou, em alerta. Escutou vozes distantes e abafadas, e um cheiro enjoativo, mas fraco, penetrou por suas narinas. Ele sentiu algo encostar-se com um estalo em seu joelho, seguido de uma exclamação de dor. Willians também tinha se levantado e, como os bancos da cabine eram próximos, os dois se encostaram bruscamente.
- Saco! ela murmurou.
- Dá pra ficar quieta? ele sussurrou nervoso em resposta. Estou tentando ouvir!
Ela apenas resmungou, mas não disse mais nada. Harry deu alguns passos, tateando no escuro, até se lembrar que estava sendo idiota; ele parou e acendeu a varinha. Assim que o fez, sentiu Willians tropeçar atrás dele e dar um encontrão nas suas costas. Ele xingou baixinho, ao mesmo tempo que ela.
- Dá pra parar de andar colada em mim? ele sussurrou, virando-se para olhá-la e iluminando parcialmente seu rosto com a luz da varinha.
- Eu não estava te vendo! ela retrucou com a voz abafada por estar segurando o nariz, que parecia ter levado uma batida, já que ela o apertava e ele estava ligeiramente avermelhado.
Harry bufou e, silenciosamente, abriu a porta da cabine. Olhou para o corredor, mas não viu muita coisa, apenas alguns rostos que saíam das cabines, difusos pela parca luz da varinha. O cheiro enjoativo se intensificou, e Willians fez um som de repugnância.
- O que está acontecendo? uma voz infantil perguntou em algum lugar à direita.
- Esse cheiro tá me deixando tonto... uma segunda voz, que parecia ser de uma criança também, comentou, e Harry percebeu que só deveriam haver primeiranistas nas cabines dali.
Subitamente, a voz de Willians se fez ouvir atrás de Harry, soando autoritária:
- Entrem nas cabines! Não respirem esse ar!
Harry olhou intrigado para a garota e, ao iluminar seu rosto com a varinha, viu que ela tapava ainda mais o nariz vermelho, e seus olhos estavam semicerrados; no entanto, ela parecia decidida quando deu aquela ordem.
Houve uma movimentação dos primeiranistas, mas alguém perguntou:
- Por quê? O que é isso?
- Entrem nas cabines, eu já disse! ela repetiu em tom mais duro, mas como ninguém se movimentou, ela falou mais alto: - Eu sou monitora, entrem nas cabines!
Imediatamente, o som de portas se fechando nas cabines mais próximas se fez ouvir. Harry se virou novamente para a garota:
- Isso foi uma mentira.
- Uma mentira necessária. ela completou, e Harry viu que os olhos dela pareciam um tanto quanto turvos. Ela tapava ainda mais o nariz, que ficava mais vermelho a cada instante. O que está esperando, garoto? Tape o seu nariz também!
- Por quê?
- Não está sentindo o cheiro?
- Estou sentindo um cheiro enjoativo, mas não é nada que...
- Você não deve ser tão sensível a ele. Willians disse rapidamente. Algumas pessoas são atingidas mais rápido, mas é melhor você não respirar muito esse ar o quanto for possível.
- Mas o que é isso, afinal? Harry perguntou, levando uma mão ao nariz; não estava muito feliz em acatar uma ordem da garota, mas concordava que aquele cheiro enjoativo incomodava bastante.
- Eu não tenho certeza. ela disse, começando a respirar rápido. Mas acho que é algum tipo de gás alucinógeno.
- Vamos ver o que está acontecendo, então. Harry decidiu, colocando a varinha à frente enquanto caminhava. Willians o seguiu, a passos arrastados e pesados, e com a respiração cada vez mais rápida e profunda.
O cheiro ficava cada vez mais forte, e parecia que a cada passo ele se tornava mais insuportável. Harry teve que levantar a gola da camisa para proteger o rosto. Ele tentava iluminar o corredor com a varinha, mas não surtia muito efeito. Achou estranha a ausência de pessoas; a maioria das portas estavam fechadas. Ele estancou assim que viu uma porta aberta. Willians também parou, sua respiração muito forte e alta. Harry iluminou a cabine com a varinha, e o que viu fez seus olhos se arregalarem de susto.
Dentro da cabine, haviam várias pessoas caídas no chão ou nos bancos. Willians entrou e se abaixou junto a uma garota muito jovem, provavelmente do segundo ano. Um pouco cambaleante, a sonserina tocou um lado do pescoço da menina e, em seguida, disse aliviada, mas com a voz entrecortada:
- Só está... desmaiada... Foi... o que... eu pensei...
- Você sabe o que isso significa? Harry perguntou ansioso.
- Um gás... esse cheiro... causa esse efeito... nas pessoas... Algumas são mais... sensíveis... do que outras... ela explicou, levantando-se, mas oscilou ao fazer o movimento. Harry se adiantou e postou sua mão em seus ombros, mas ela fez um gesto impaciente e se manteve em pé por si mesma. Eu estou... bem...
- Pois não parece. Harry disse com descrença, sentindo sua cabeça começar a doer, provavelmente devido ao tal gás também. Tem certeza que não vai cair por aí?
- Tenho! ela insistiu com impaciência.
- Certo. Então vamos procurar a origem desse tal gás e ver se tem mais alguém acordado por aí.
- Provavelmente... os mais velhos... devem estar conscientes... a garota falou, assim que os dois abandonaram a cabine, e ela encostou a porta.
- Como assim? Harry perguntou, ao mesmo tempo que tentava iluminar o caminho com a luz da varinha.
- As crianças... são as primeiras... a serem afetadas...
- Como você sabe essas coisas?
- Não importa... como eu sei... ela respondeu irritada, engasgando e tossindo.
Por sua vez, Harry também sentia a garganta arranhar e os olhos arderem à medida que caminhavam mais. Foi com alívio que, à altura do meio terceiro ou quarto vagão, eles encontraram pessoas de pé. Era um grupo de alunos (como Willians previra) mais velhos, que estavam cochichando, alguns parecendo muito indispostos e outros, como Harry, quase normais.
- Olha por onde anda! alguém exclamou com irritação, e Harry sentiu que esbarrara em alguém. Ele retrocedeu alguns passos, ao mesmo tempo que apontava a varinha para a pessoa, iluminando seu rosto. Com desgosto, reconheceu a face emburrada de Jonnathan Cavendish.
- Harry? ele ouviu a voz de Colin Creevey.
- Sou eu. ele confirmou. Vocês sabem o que aconteceu?
- Parece que alguém soltou uma bomba. a voz de Peta Spencer se fez ouvir. Nós ouvimos o barulho.
Eles ouviram uma tossida seca e dolorida. Harry reconheceu-a, já tinha ouvido-a várias vezes, mas nunca daquele jeito.
- Gina?
- Ela não está bem. Colin disse. Parece que foi afetada pelo gás.
- Provavelmente... também deve ser... sensível ao... efeito dele... Willians se pronunciou depois de muito tempo.
- O que essa... garota... faz... aqui? a voz de Gina, profunda e rouca, pôde ser ouvida. A movimentação e os murmúrios dos garotos depois disso fez Harry se constranger um pouco e, antes que Willians abrisse a boca para dizer algo, ele inventou uma desculpa:
- Eu a encontrei no corredor. Parece que ela também veio checar o que está havendo.
Ele ouviu um pigarro seco e um suspiro da garota, mas não se importou.
- Ei, tem mais gente aqui! uma voz surgiu do outro extremo do corredor, e alguém vinha correndo, com uma pequena luz à frente. Assim que se aproximou, Harry reconheceu o rosto redondo e assustado de Neville que, como ele, também empunhava sua varinha iluminada.
O som de outros vários passos. Neville parou próximo ao grupo e perguntou:
- Vocês estão bem?
- Só Gina está passando mal... Peta disse. Esse gás é insuportável.
- Willians também não parece bem... Harry comentou, recebendo um olhar furioso da garota e um resmungo. O que aconteceu, Neville?
- Ah, você também está aí, Harry? Neville perguntou, iluminando o rosto de Harry com sua varinha. Eu não sei direito, parece que estouraram uma bomba em algum lugar.
- Definitivamente foi uma bomba. uma voz muito conhecida de Harry disse. - Rony, vamos, você consegue andar mais um pouco...
Harry se adiantou, preocupado, quase derrubando Jonnathan na sua afobação de se aproximar dos amigos. Sob aquela luz vacilante das varinhas, ele viu Hermione praticamente carregando um Rony assustadoramente pálido pelos ombros.
- O que aconteceu com ele? Harry perguntou aflito, ao mesmo tempo que sustinha Rony pelo outro ombro livre. O amigo tinha a respiração, à exemplo de Gina e Willians, bastante profunda, carregada e seca.
- Esse gás... parece que o afetou. Hermione explicou, sua voz demonstrando seu desespero. Ainda bem que você está aqui, Harry, estou muito preocupada...
- Alguém... pode explicar... o que está... acontecendo? mais uma vez, a voz de Willians soou, e ela parecia estar fazendo um esforço enorme para falar, apesar do seu tom irritado ser o mesmo.
Hermione forçou os olhos para ver melhor e exclamou:
- O que essa nojenta tá fazendo aqui?
- Eu a encontrei vindo pra cá. Harry mentiu apressadamente, ávido por informações. Você sabe o que aconteceu, Hermione?
- Nós estávamos...
Porém, antes que Hermione completasse a frase, as luzes voltaram a acender. Todos levantaram os olhos, intrigados. Com as luzes acesas, Harry pôde ver melhor as pessoas do grupo: Rony, apoiado no seu ombro e no de Hermione, tinha os olhos quase tão vermelhos quando os cabelos, que se destacavam no seu rosto terrivelmente pálido; Hermione o olhava aflita, os cabelos um pouco despenteados; Neville parecia assustado, mas bem, assim como Colin e Jonnathan (este muito aborrecido, como sempre). Mais longe, Gina estava encostada à parede, aparentando estar tão mal quanto Rony, sendo abraçada por Peta, que parecia somente assustada. Por último, Willians se encontrava branca como papel, com o nariz quase roxo e os cabelos caindo desajeitados sobre os olhos; ela cambaleou e encostou a testa numa das janelas de vidro, com uma aparência de doente.
- E agora? Colin perguntou, mais para si mesmo, do que para os outros.
Eles sentiram o trem voltar a andar e, aos poucos, o cheiro do gás parecia se dissipar. À medida que isso acontecia, apesar de ainda fracos, Rony, Gina e Willians começaram a recobrar os sentidos, voltando a levantar as cabeças e seus rostos assumindo mais cor.
- Parece que as coisas voltaram ao normal... Peta comentou.
Todos permaneceram em silêncio por mais alguns instantes, como se esperassem algo acontecer. Durante esse tempo, eles começaram a ouvir vozes, o que significava que quem tivesse desmaiado deveria estar voltando a si. Neville, com um sobressalto, disse que iria verificar uma cabine; Colin e Jonnathan seguiram-no, com a mesma finalidade.
Sobraram, apenas, Rony, sustentado por Harry e Hermione, e Gina, amparada por Peta. Todos os olhos se voltaram para Willians, que estava desencostando a cabeça da janela, visivelmente ainda abalada. Quando ela se voltou para ver os outros, os olhares das garotas presentes Gina, Hermione e Peta eram de tanta raiva, que Willians provavelmente sentiu-se incomodada e deu meia volta para ir embora, cambaleante.
- Você está bem? Harry perguntou sem pensar. Todas as garotas olharam para ele sem entender. Ele encarou-as sem mais confuso ainda; qual era o problema em perguntar se Willians estava bem?
Percebendo o clima, Willians bufou cansada, fez um gesto afirmativo com a cabeça e deu às costas a eles, seguindo de volta aos últimos vagões do trem, ainda bastante hesitante em seus passos.
- É melhor entramos em alguma cabine para vocês se sentarem. Hermione, a primeira a se recuperar do susto, disse com seu espírito prático, indicando Rony e Gina.
Peta abriu uma porta próxima, explicando que era a cabine onde estavam ela, Gina, Colin e Jonnathan antes do incidente. Os garotos entraram e rapidamente colocaram Rony e Gina sentados nos bancos. Rony encostou a cabeça no banco, fechando os olhos, enquanto Gina apenas respirava muito fundo, tossindo de vez em quando.
- O que aconteceu? Harry perguntou pela milionésima vez, andando em círculos pela cabine, extremamente nervoso. Hermione, que tinha sentado ao lado de Rony, preocupada, começou a explicar:
- Nós estávamos na reunião de monitores... Rony e eu... nesse instante, Rony abriu os olhos, encarou Hermione por alguns instantes, parecendo chateado com algo, e depois voltou a fechar os olhos, exausto. - ...quando ouvimos um barulho muito alto e sentimos o trem dar um tranco forte.
- Eu estava no último vagão e também senti. Harry falou.
- Foi assustador... Peta comentou.
- E então começamos a sentir aquele cheiro... se espalhando... Hermione prosseguiu. Rony começou a tremer e ficar muito mal...
- Aconteceu o mesmo com Gina, só que ao invés de tremer ela tossia muito. Peta explicou. Nós até ficamos com medo que ela fosse engasgar ou coisa parecida.
- Mas foi uma bomba? Harry perguntou, ainda sem entender.
- Estão dizendo isso por aí. Hermione falou. E eu já li em algum livro que existem realmente bombas que causam esse efeito nas pessoas... eram muito usadas nos anos da... primeira guerra contra Você-Sabe-Quem...
Todos se entreolharam, até mesmo Rony, que abriu os olhos novamente. Gina tossiu muito forte mais uma vez, demorando muito tempo até que serenasse.
- Quem poderia ter soltado a bomba? Harry perguntou, mais para si mesmo, imaginando respostas.
- Ah, você não faz... idéia? Rony falou pela primeira vez, sua voz bastante rouca e arrastada pelo esforço que fazia.
- Algum sonserino ligado aos Comensais da Morte? arriscou Peta.
- Eu até... poderia dizer... um nome... Rony disse com veneno.
Hermione soltou um "humpt", desconsolada.
- Não podemos acusar ninguém sem provas. ela disse ponderada. Nem Draco Malfoy. completou, olhando Rony severamente. Ele suspirou lentamente e fechou os olhos mais uma vez.
- E aquela... Willians? Gina incriminou.
- Não foi ela. Harry falou distraído, fazendo um gesto displicente com as mãos.
- Como pode ter certeza? Hermione pressionou. Harry sentiu os olhos de todos os presentes sobre si. Engoliu em seco; não queria explicar como sabia, ele só sabia.
- Eu a encontrei no corredor quando houve o estrondo. mentiu novamente.
- Você não disse que a encontrou quando estava vindo para cá? Peta perguntou.
Harry umedeceu os lábios.
- Foi o que eu quis dizer... ah, que saco! e ele se virou, irritado. Para sua sorte, irromperam pela porta Colin e Jonnathan, trazendo copos dágua e barras de chocolate, que deram para Rony e Gina.
A situação foi serenando aos poucos, à medida que Gina e Rony também começavam a melhorar. No entanto, o único assunto era a tal bomba e quem poderia ter colocado-a no trem. Todos concordavam que era obra de alguém ligado a Voldemort, mas era aterrador pensar que haveria seguidores dele infiltrados entre eles, na escola, estudando e convivendo com eles todos os dias.
Quando faltava pouco mais de meia hora para chegar à estação de Hogsmeade, Harry, Rony e Hermione foram para a cabine no final do trem, onde Harry tinha se instalado no início da viagem. Os monitores da Grifinória recolheram suas coisas, que ainda estavam no vagão dos monitores, e seguiram com Harry até o final do corredor. Rony parecia estar bem melhor, ao menos fisicamente, já que ele aparentava estar muito chateado com algo que Harry preferiu não perguntar no momento.
Assim que chegaram na cabine, Harry observou que Willians tinha passado por lá antes deles e recolhido suas coisas. Ficou mais aliviado; não queria dar explicações sobre o assunto a Rony e Hermione. Ainda um pouco cansado, Rony se adiantou e logo se sentou no mesmo lugar onde estava Willians antes. Hermione se sentou ao seu lado, ao mesmo que tempo que Bichento pulava em seu colo, e Rony soltava uma exclamação veemente.
- Droga, o que é isso? ele perguntou, tirando algo debaixo de si. Harry engoliu em seco ao ver, nas mãos de Rony, o livro que Willians lia quando tinha permanecido na cabine junto com ele.
- É meu! ele disse muito rápido, puxando o livro das mãos do amigo, que o encarou intrigado.
- A convivência com Hermione não está te fazendo bem, cara... ele disse apenas, encostando-se ao banco, parecendo exausto.
Harry se sentou, puxando seu malão e enfiando o livro brutalmente dentro dele. Ele notou que Hermione o observava.
- O que foi?
- Eu ainda não devolvi aquele livro que peguei emprestado de você, não é? ela perguntou bobamente, aliviando Harry, que por um segundo pensou que ela tivesse desconfiado dele. Está nas minhas coisas, quando chegarmos a Hogwarts eu te entrego, o.k.?
- Ah, pode devolver quando quiser... ele respondeu com alívio.
Eles não falaram muito durante o resto da viagem. O que tinha acabado de acontecer no trem abalara a todos, e nenhum deles parecia disposto a comentar o assunto. Sabiam perfeitamente, por mais que fosse difícil aceitar, que coisas como aquela poderiam acontecer durante aquele período de guerra que viviam. Deveriam era agradecer por ninguém ter-se ferido com gravidade ou pior... Talvez, Harry pensou, aquilo fosse apenas um susto, um aviso... o perigo estava próximo, muito próximo de Hogwarts até.
Estava uma noite nebulosa e modorrenta quando eles desembarcaram do trem, já trajados com o uniforme negro da escola. Os estudantes, ao invés da habitual barulheira que faziam todos os anos, apenas conversavam baixinho ou, em sua maioria, permaneciam em silêncio. Alguns principalmente os mais novos ainda estavam muito pálidos e assustados.
Eles ouviram a familiar voz de Hagrid chamando os primeiranistas, mas Harry, que conhecia aquele gigante há anos, não reconheceu aquele sorriso simpático no amigo quando ele acenou para o trio na estação de Hogsmeade; diferente das outras vezes, Hagrid parecia bastante cansado e até mais velho.
Os primeiranistas, como se já não estivessem bastante assustados, ficaram ainda mais quando viram a grande figura do professor de Trato de Criaturas Mágicas. No entanto, seguiram com ele para fazerem a tradicional travessia do lago rumo ao castelo.
Harry, Rony e Hermione, por sua vez, trataram de ocupar rapidamente uma carruagem. Nenhum deles disse muita coisa no caminho, e os únicos sons eram dos animais Píchi não parava de piar e se agitar na sua gaiola; foi preciso que Rony a cobrisse com uma camisa para que a coruja parasse de se agitar um pouco. Edwiges também não parava de se mexer, o que não era comum também.
Depois de atravessarem os portões de ferro, os três amigos desceram perto das portas de carvalho, onde deram de cara com uma desagradável visão: Draco Malfoy, junto a um grupo de sonserinos, no qual se incluíam Vicent Crabbe, Gregory Goyle, Pansy Parkinson e Emília Bulstrode, estavam comentando algo aos sussurros. Rony olhou atravessado para eles, mas Hermione o puxou pela gola antes que algo acontecesse; Harry preferiu nem olhar, antes que seu estômago começasse a dar voltas só de vê-los, mas não foi possível passarem despercebidos. Malfoy se desviou da forma gorda e maciça de Goyle, e sorriu maliciosamente para Rony:
- Eu soube que desmaiou no trem, Weasley... É verdade?
Rony ficou vermelho igual a um pimentão e seus punhos se fecharam instantaneamente, mas antes que fizesse algo, Hermione foi mais rápida:
- Eu soube que você se escondeu no banheiro na hora da explosão, Malfoy... É verdade?
E ela arrastou os amigos antes que alguma coisa ruim acontecesse.
Ao penetrarem no Hall de Entrada, os três se assustaram com a quantidade de professores que estavam ali; geralmente eram poucos que esperavam os alunos no Hall, a maioria permanecia o tempo todo dentro do Salão Principal. Porém, desta vez, muitos estavam ali até Snape conversando com os alunos e mandando alguns para a ala hospitalar. Eles viram a Profª. Minerva McGonagall dizer algo a um pequeno garoto do segundo ano e, depois disso, aproximar deles, aflita. Ela se dirigiu diretamente para Harry:
- Você está bem, Potter? Foi afetado pelo gás?
Por que todos achavam que tudo tinha que acontecer com ele? Harry se lembrou, depois, que a maioria das coisas acontecia com ele, então desculpou mentalmente a professora.
- Eu estou bem, professora... O Ro...
- E você, Hermione?
- Tudo bem, professora... Hermione sorriu meio sem jeito ao ouvir seu primeiro nome dito pela professora. Mas o Rony...
Ela se virou para Rony, seus olhos arregalando-se em espanto:
- Você, Weasley? O que aconteceu, está bem? ela perguntou, colocando a mão em diversas partes do rosto do garoto, como se verificasse sua temperatura.
- Eu estou ótimo. ele respondeu emburrado, desviando-se da professora.
- Ele quase desmaiou, professora... Hermione informou, preocupada, mas Rony pareceu tomar isso como uma ofensa pessoal.
- É claro que eu não desmaiei! ele retrucou, as orelhas muito vermelhas, olhando muito bravo para a garota. Eu tô ótimo, já disse!
- Mas seria bom que fosse para a ala hospitalar. a professora recomendou. Eu sugiro que...
- Eu estou bem! ele disse com a voz estridente, suas orelhas parecendo que iam explodir. Não vou para ala hospitalar nenhuma!
A Profª. McGonagall ia dizer algo, mas antes que conseguisse, alguém postou a mão no ombro de Harry e perguntou com sua voz cansada e tranqüila:
- Todos estão bem aqui?
Quando Harry, Rony e Hermione se viraram para ver quem era, levaram um bom susto (ao menos um naquela sucessão de coisas ruins que aconteceram). Ao lado deles estava parado Remo Lupin, parecendo muito preocupado e cansado, porém, com o mesmo brilho no olhar de sempre.
- Prof. Lupin? Hermione foi a primeira a se pronunciar. Mas... o senhor...
Ele sorriu ligeiramente.
- Vocês não sabiam que eu seria o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas esse ano? ele se virou para Harry. Sirius não te contou?
- Ele só comentou que eu teria uma boa surpresa... Harry disse abasbacado. Que filho da mãe. completou com um meio sorriso no rosto.
Remo quase riu também, mas ele parecia mais preocupado com os recentes acontecimentos do que com o seu cargo na escola. A Profª. McGonagall suspirou com repreensão, e pediu a Remo que convencesse Rony a ir para a ala hospitalar, o que só contribuiu para que o rapaz ficasse mais bravo.
Como não conseguia convencer de maneira alguma Rony, Remo ofereceu uma barra de chocolate, que o rapaz aceitou um pouco contrariado. Entrementes, Harry e Hermione aproveitaram para perguntar mais sobre como Remo reconquistou seu cargo, e ele só disse que Dumbledore o chamou novamente e, dessa vez, ele teve que aceitar. No entanto, ele não disse os verdadeiros motivos, e os três perceberam isso.
Quando Remo se afastou para cuidar de outros alunos, os garotos se dirigiram para o Salão Principal. Estava muito diferente do que era de costume; apesar das quatro mesas das casas estarem dispostas da mesma maneira, elas estavam muito vazias e, ao mesmo tempo, a mesa dos professores quase não estava ocupada também. Harry procurou por Dumbledore, mas ele não estava presente.
Os três amigos comentaram isso entre si, mas não conversaram muito depois que se sentaram na mesa da Grifinória. Rony parecia realmente nervoso, e Harry tinha a estranha impressão que isso não se devia somente ao que acontecera a ele no trem. Hermione, por sua vez, tentava não olhar muito para o namorado e, quando o fazia, era com um brilho de culpa no olhar.
Em todos os anos que Harry passou em Hogwarts, ele nunca presenciou a um banquete de início de ano como aquele. Com toda a certeza, foi uma cerimônia atípica. Demorou muito mais tempo para começar, e muitos alunos e professores não estavam presentes. Dumbledore apareceu muito tempo depois, parecendo mais velho e cansado do que nunca, com profundas olheiras circundando os olhos azuis. Não houve cerimônia de seleção dos primeiranistas a maioria deles se encontrava na ala hospitalar. Quando Simas Finnigan exprimiu sua dúvida sobre o assunto, Hermione explicou que eles seriam selecionados outro dia e, provavelmente, não seria em público. Dumbledore gastou uns bons vinte minutos falando sobre o que acontecera no trem e, mais, sobre o que teriam que enfrentar aquele ano e colocando em pratos limpos a guerra que acontecia fora dos muros da escola. Não houve galhofas do diretor como sempre, e eles não entoaram o hino da escola. Dumbledore se limitou a informar que Remo seria o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas àquele ano e, diante de tudo, Snape parecia até mais conformado; apesar de lançar dois ou três olhares rancorosos para o seu antigo colega de escola.
Ninguém comeu muito nem Rony, que parecia estar completamente sem apetite. Isso era realmente incomum. Hermione não mencionou nem uma vez todo o trabalho dos elfos domésticos para fazer o jantar e, tampouco, lembrou que começavam o ano de N.I.E.M.s. Sem tocar muito na sua comida também, Harry passou a observar o salão; na mesa da Lufa-lufa, todos pareciam tão assustados e pálidos como os alunos das outras casas; Corvinal era a mesa mais vazia de todas e, em contrapartida, Sonserina era a mais cheia. Harry notou que o grupo de Draco Malfoy não estava tão apreensivo quanto o resto dos alunos; era óbvio que eles deveriam estar envolvidos com a explosão no trem, já que os pais de todos eram Comensais da Morte Harry já os tinha visto pessoalmente. O rapaz correu mais um pouco os olhos pela mesa da casa das cobras e parou em Katherine Willians; parecia perdida em pensamentos ao encarar seu prato de comida, enrolando num garfo um pedaço de presunto. Harry se lembrou, desagradavelmente, que estava com, o livro dela e que, irremediavelmente, teria que devolvê-lo algum dia. Garota estúpida. Onde estava com a cabeça para esquecer o livro na cabine?
Depois ele se lembrou que ela parecia muito mal por causa do gás e deu um pouco de crédito a ela. Mas ainda continuou a chamá-la de estúpida mentalmente todo sonserino era estúpido. Era uma verdade da natureza.
Quando a maioria dos alunos começavam a se recolher, bem mais cedo do que o normal e com um clima muito pesado, Hermione se levantou bruscamente, murmurando que precisava fazer algo. Rony não respondeu nada, como se estivesse resignado. Harry, porém, perguntou a ela o que era, e Hermione se esquivou depressa, saindo quase correndo do salão. Harry ficou parado, confuso, até que Rony se levantasse e começasse a caminhar, quase se arrastando; ele seguiu o amigo.
- Aconteceu alguma coisa entre você e Hermione? Harry ousou perguntar quando os dois subiam as escadas do primeiro andar e pegavam um atalho para a Torre da Grifinória.
Rony desviou o olhar, bufou e revirou os olhos.
- Não importa...
Harry suspirou, mas não desistiu:
- Foi algo na reunião dos monitores?
Rony o olhou cansado, parecendo que a última coisa que queria era comentar o assunto; porém, Harry também o olhava tão profundamente, que ele cedeu:
- Hermione foi nomeada monitora-chefe. disse com voz de enterro.
- O quê? Harry perguntou atônito, mas não conseguiu reprimir um sorriso no rosto. Monitora-chefe? Poxa, a Hermione merece... sempre se esforçou tanto...
Rony bufou, e Harry finalmente se deu conta do porquê do amigo estar daquela maneira.
- Você não foi nomeado junto com ela, não é?
- Não, eu não recebi a estúpida carta.
Eles disseram a senha à Mulher Gorda e entraram na Sala Comunal da Grifinória, quase vazia. Subiram a escada que conduzia aos dormitórios masculinos e entraram no quarto do sétimo ano.
- Quem é o monitor-chefe? Harry perguntou, mas com medo de chatear ainda mais o amigo.
- Um cara da Corvinal... um tal de Brendon Summerfield. Ou seja lá qual seja seu nome. Cara antipático.
Nem Simas, Dino ou Neville estavam no quarto ainda. Rony praticamente jogava suas roupas em qualquer canto ao trocá-la pelo pijama; Harry, que tinha se sentado na beirada de sua cama, começava a entender como Rony estaria se sentindo. Ele ficou imaginando alguma forma de animar o amigo, mas todas pareciam ridículas na sua cabeça. Quando Rony se jogou na sua cama de dossel, Harry disse a primeira coisa que veio à sua cabeça:
- Pelo menos você poderá desrespeitar as regras junto comigo, Rony.
- Eu sempre fiz isso. Rony respondeu rabugento, e Harry não viu seu rosto para tentar interpretar o que se passava com ele. Além disso, se esse fosse o motivo, eu ainda sou um monitor.
Harry suspirou.
- Você terá mais tempo para me ajudar com o time de quadribol... Você sabe que se não fosse sua ajuda, eu não conseguiria comandar o time direito...
- Boa tentativa, Harry. Rony desabafou, emburrado. Olha, eu tô com sono e cansado. Deixa isso pra amanhã.
E sem ao menos desejar boa-noite, Rony fechou as cortinas do seu dossel com brutalidade. Harry permaneceu encarando-as por alguns instantes, como que hipnotizado, pensando.
O que não poderia acontecer dali em diante? Harry tinha a impressão de que tudo se decidiria naquele ano, e ele não sabia se isso era bom ou ruim. Ele só sabia que estava inseguro e que, sim, temia pelo que pudesse acontecer. Principalmente com as pessoas que gostava.
E o ano só estava começando...
Nota da autora: Vocês já estão cansados disso, mas eu tenho que pedir desculpas pela demora... Dessa vez eu realmente estrapolei, né? Vocês já sabem o motivo... mer** de escola. Mas ok, só espero que o capítulo tenha valido pelo menos um pouquinho a pena esperar ;) Obrigada mesmo pela paciência e pelos mails, reviews e assinaturas no GB. Às vezes eu acabo não respondendo algumas, mas podem ter certeza que leio todas e fico muito feliz com cada uma delas ;) Vocês são anjos por fazerem uma autora (extressada e problemática por causa da escola) feliz. Obrigada!!!! :)
No próximo capítulo: A situação ainda está desagradável em Hogwarts depois do incidente no Expresso, e aurores do Ministério visitam o castelo para verificarem como está o local. Rony continua chateado por causa da monitoria-chefe de Hermione, e a situação só piora quando a namorada começa a fazer amizade com Brendon Summerfield. Harry tenta achar uma oportunidade de entregar o livro de Willians, mas como previra, a tentativa acaba em confusão. E uma mudança no currículo escolar dos alunos do sétimo ano em Defesa Contra as Artes das Trevas agita a primeira aula de Remo Lupin no seu retorno à Hogwarts.