N/A: Esse capítulo é dedicado à minha miga Ainsley, que me ajudou a escrever esse capítulo com uns ótimos palpites ;) Bigada, miga! :)
Capítulo Cinco Óculos quebrados
O dia estava nublado. Aquilo não era comum.
Harry olhou para o céu. As nuvens estavam ficando cada vez mais negras, e o dia escurecia, mesmo que só fossem quatro horas da tarde. Talvez chovesse. Mas ele não estava com vontade de voltar para casa; aquele estava sendo um dia realmente estranho.
Ele acordou, pela manhã, de um sonho do qual não se lembrava. Só sabia que o sonho tinha lhe deixado inquieto por todo o dia. E ele não gostava daquilo. Harry tinha experiências suficientes com sonhos para não gostar de nenhum deles, principalmente os que o inquietavam.
Harry abaixou a cabeça. Riu de si mesmo, mas sem alegria. Era incrível como ele sempre vinha parar ali, naquele lugar...
Desde o dia que Rony e Hermione vieram lhe visitar, ele não mais tinha chegado tão perto daquela casa, mesmo que tivesse vontade. As circunstâncias, como sempre, o atrapalhavam. Mas não naquele dia. Ele estava sozinho, provavelmente iria chover, e nenhuma Agatha viria correndo até ele, pedindo que não entrasse lá.
Riu novamente, do mesmo jeito, ao ter aquela lembrança. Às vezes sentia remorso por ser tão... genioso. Tantas pessoas disseram para ele não entrar ali e, no entanto, lá estava ele, desobedecendo a todos, encarando as rochas cobertas pela hera e pelo limo, pensando se deveria mesmo subir por aquelas pedras escorregadias e entrar naquele lugar.
Ele sabia que tinha que entrar logo. Faltavam poucos dias para que voltasse a Hogwarts, e Harry não tinha certeza de quando voltaria à Praia das Andorinhas e estaria tão próximo daquela casa novamente.
Uma coisa o intrigava: por que ele tinha tanta curiosidade em ver o que tinha dentro daquela mansão em ruínas? Era apenas uma casa velha e abandonada, não? Talvez a razão para a qual ele queria tanto entrar lá era exatamente para tentar entender porque ele tinha tanta curiosidade sobre aquele lugar.
Ele se decidiu e, finalmente, começou a subir as pedras escorregadias. Elas pareciam estar ainda mais lisas naquele dia, e Harry teve que tomar muito cuidado para não cair naquelas pequenas armadilhas que as rochas escondiam. Estava indo bem até que, quando estava quase no topo, segurou na planta errada e um espinho se cravou na ponta de seu dedo. Ele soltou um palavrão involuntariamente e levou a mão a altura dos olhos para verificar o que tinha acontecido; um espinho tinha se cravado na ponta do seu dedo médio e, quando Harry o arrancou, o pequeno corte começou a sangrar. É claro que ele não podia sair dali sem alguma marca para a posteridade... Esse era o Harry Potter que ele conhecia.
- Droga! murmurou assim que conseguiu chegar ao topo, começando a chupar o dedo machucado.
Ele se viu novamente de frente ao portão de ferro, retorcido e enferrujado. Novamente, levantou a cabeça para ver as inscrições no topo: palavras que ele não conseguia distinguir e, novamente, aquilo que ele imaginava ser um "G" muito rebuscado. Por alguns minutos, ele permaneceu observando as inscrições, mas não adiantava virar a cabeça ora para a esquerda, ora para a direita; continuava ilegível por qualquer ângulo de visão. Quando finalmente entendeu que seria impossível ler aquilo e sentiu-se um completo idiota, ele desistiu e voltou sua atenção para a maçaneta do portão.
Tinha a forma de um animal, disso ele tinha certeza. Mas também era quase impossível reconhecê-lo; o ferro estava muito enferrujado e carcomido para que isso pudesse ser feito. A única coisa que ele conseguiu notar foi que era um animal grande... Mas ainda assim, não dava para reconhecê-lo.
Ele tocou a maçaneta, sentindo-a fria e levemente úmida, talvez pela proximidade com o mar. Ele imaginou se aconteceria algo que o impedisse de girar aquela maçaneta e entrar. Provavelmente deveria estar trancado; se bem que isso não seria um obstáculo: ele tinha sua varinha, não havia nenhum trouxa à vista, e ele sabia perfeitamente conjurar um Alorromora. Mas não foi preciso. Harry, de certa maneira, espantou-se quando o portão abriu com um simples empurrão, rangendo sinistramente.
Harry viu o jardim todo aberto para ele. Finalmente, ele estava entrando naquele lugar. A tal casa mal assombrada de que todos temiam. Por um segundo, sentiu-se soberano; ninguém queria entrar ali, ninguém tinha coragem para isso nem Sirius e ele estava ali. Desfez o sorriso. Era um sentimento esquisito, quase como se não pertencesse a ele. Sentiu um arrepio.
Respirou fundo. Finalmente iria entrar naquele lugar.
E entrou...
O jardim era realmente enorme. Harry achava que só havia um jardim maior que aquele: o de Hogwarts. Havia várias estátuas, a maioria encoberta pelas plantas que cresciam desordenadamente. Mesmo assim, Harry conseguiu reconhecer animais, pessoas e... ele parou no meio do caminho que levava à porta principal da casa, estarrecido. Ele estava mesmo vendo o que achava que via? Era a estátua de um... unicórnio e, próximo a ele, um... Harry tinha certeza... um centauro! Então aquela casa pertencia (ou algum dia pertencera) a um bruxo?
Ele ponderou se aproximar das estátuas para vê-las melhor, mas começou a chover; no começo, alguns pingos ralos, porém, rapidamente, aumentou de forma assustadora. Harry teve que correr até a varanda principal da mansão para não se molhar.
Foi só então que ele parou e pôde ver o tamanho da casa; deveria ter uns três andares, uma varanda enorme, que perdia de vista, bem como o jardim. Quando Harry parou e se virou para ver o tanto que tinha andado, ficou impressionado com o tamanho do terreno da casa; não era possível ver o portão, de tão longe que estava.
A chuva apertava mais e mais, e Harry podia ouvir o som das gotas grossas fustigando o teto de madeira consumida pelo tempo. Era uma varanda rústica, em tons avermelhados. Ele se virou para ver a porta da entrada principal.
A maçaneta da porta também era de um animal, mas muito mais adornada e rica em detalhes do que a maçaneta do portão. Quando Harry a olhou melhor, ele finalmente conseguiu identificar o animal um leão. Foi então que ele ligou os pontos e uma idéia maluca (ou nem tanto assim) se formou em sua cabeça. Seria esta casa...? Não, não poderia ser... Ali, abandonada... Em um lugar como aquele, onde só haviam trouxas? Não era possível, mas... fazia sentido também.
O coração de Harry bateu mais rápido. Se esta casa fosse o lugar que ele imaginava, então... então fora lá que viveram seus... Não, era melhor se acalmar. E se não fosse? Ele se decepcionaria com certeza. O melhor era entrar na casa de uma vez por todas e ver logo o que ela escondia, fosse o que ele achava ou não.
Harry levou a mão à maçaneta. Podia ouvir o som da chuva batucando em seus ouvidos, competindo com seus batimentos acelerados do coração. E se fosse? Calma, Harry... Pode não ser também. Ele girou a maçaneta. Hesitou. Finalmente, empurrou a porta e, assim como o portão, ela se abriu facilmente, rangendo agudamente.
Ele esperou a porta se abrir por inteira. Seu coração batia tão rápido e tão forte que chegava a doer. Sua garganta estava seca. Ele sentiu algo no topo do seu estômago, algo que demorou a identificar, mas que depois de muito tempo reconheceu vagamente como saudade. Não entendia de onde vinha aquele sentimento, só sabia que ele estava ali. Estava escuro lá dentro. Harry deu um passo e entrou.
A única luz provinha da porta aberta, que iluminava uma espessa camada de poeira no chão. Quando Harry a pisou, uma nuvem se levantou e também foi iluminada. Ele cobriu o rosto com a manga da camisa para a poeira não penetrar nas suas narinas, mas foi impossível; logo, ele já estava tossindo.
Soprou um vento forte e, com um rangido estridente, a porta se fechou atrás dele, batendo com força. Harry deu um sobressalto, assustado. Ele sentiu o estômago congelar. Tudo tinha ficado escuro e apenas alguns poucos fios de luz penetravam pelas tábuas de madeira soltas nas paredes velhas. A casa cheirava a mofo. Ele tossiu novamente, o único som que quebrava o silêncio tenebroso do lugar.
- Harry, seu burro! ele xingou a si mesmo.
Rapidamente, ele sacou sua varinha do bolso da calça, murmurou "Lumus" e levantou-a na altura dos olhos. Um pequeno faixo de luz se propagou pela sala. Harry pôde ver as sombras difusas de pedaços de madeira no chão, vidros quebrados, coisas jogadas... A poeira fazia uma nuvem ao seu redor enquanto ele caminhava com cuidado para não tropeçar em nada.
O feitiço não conseguia iluminar satisfatoriamente o lugar, e Harry desejou que ali tivesse uma lareira que pudesse acender e iluminar um pouco o lugar. A chuva ainda fustigava as janelas rachadas com força, e aquela cena, estranhamente, fazia Harry se lembrar de algo que não conseguia atinar no momento.
POW.
Algo duro e pontiagudo pressionou com força seus joelhos, e a única coisa que Harry conseguiu sentir foi a dor lancinante que o atingiu. Ele recuou automaticamente, xingando.
- AI, saco! exclamou, apontando a varinha para o local onde tinha dado a topada. Reconheceu, depois de algum tempo, uma mesa de centro de vidro, rachado em muitos pontos, e fora em um deles que Harry batera. Ótimo, mais uma marca para a posteridade; Harry queria saber porque era tão tapado às vezes.
Uma risadinha debochada ecoou no silêncio do lugar. Harry ficou paralisado; não era ele que tinha feito esse barulho. Será que havia mais alguém naquela casa velha? Seria possível que alguém estivesse escondido em algum canto, à espreita, vigiando-o?
Estou ficando paranóico..., Harry se censurou, achando-se completamente estúpido. Ele esperou algum tempo, e o barulho que ouvira não se repetiu; talvez fosse somente sua imaginação ou então o clima estranho que aquela casa parecia emanar.
Ele levantou a varinha sobre sua cabeça, tentando iluminar mais a sala. Não adiantou muito, mas ao examinar ao seu redor, ele não achou possível que houvesse alguém escondido em algum lugar. Provavelmente, seus ouvidos o enganaram. Harry colocou a varinha à frente, desviou-se da mesa de vidro e, tomando cuidado para não topar em mais nada, ele caminhou mais um pouco, tateando à frente e apontando sua varinha tentando enxergar algo.
A próxima coisa que ele topou foi com um sofá velho e mofado, mas pelo menos era macio e não doera como a topada na mesa. Harry já ia se desviar do sofá, quando parou para olhá-lo melhor, sem entender direito porque estava fazendo aquilo. Ele passou a mão sobre o estofado, e ela se encheu de poeira. Nunca tinha se sentido tão esquisito na vida; era um sentimento tão estranho, que ele não conseguia definir. Era como se aquele lugar despertasse algo adormecido dentro dele...
Um trovão ressonante do lado de fora o sobressaltou. Quando ele olhou para trás, viu as cortinas velhas das janelas balançando sinistramente ao sabor da ventania, iluminadas apenas pelos raios que por vezes apareciam no céu. A chuva fustigava os poucos vidros que ainda estavam inteiros e causavam um enorme estrondo nos andares mais altos, dando ao ambiente uma aparência ainda mais sombria.
Harry, finalmente, decidiu se desviar do velho sofá, contornou-o e se aproximou da parede, tentando encontrar algo que pudesse acender e iluminar a sala, de preferência, uma lareira. Se ele estava certo e aquela era... bem, se ao menos era ou já tinha sido a casa de um bruxo, com certeza deveria ter uma lareira. Aliás, qualquer casa daquele tamanho tinha uma lareira, especialmente na Grã-Bretanha.
- Ah, há! ele exclamou, assim que, depois de muito procurar, encontrou uma lareira grande do outro lado da sala. Harry iluminou-a com a varinha e percebeu que, como tudo ali, estava cheia de pó. Não importava; ele apenas murmurou "Incendio", e chamas começaram a crepitar na lareira instantaneamente.
Quando Harry se virou para trás, para ver a sala iluminada, levou um susto. Por alguns segundos, ele não pôde fazer mais nada a não ser olhar aquela sala, pasmo. Ele estava chocado; a varinha apontava para o chão, sua boca estava aberta e seus olhos focavam todo aquele lugar. Não conseguia acreditar que realmente estivesse ali, naquela casa...
Seus olhos correram da mesa de centro, onde ele tinha topado, até o sofá. Ao fundo, uma escada grande e arredondada levava aos cômodos superiores. Seu coração batia mais forte a cada objeto, cada detalhe que ele reconhecia. Ele já tinha estado naquele lugar. A diferença era que, da outra vez que ele estivera ali, não estava destruído como agora. Harry mordeu o lábio inferior, nervoso. Fechou os olhos. Era como se visse novamente aquela mesma cena que presenciara no canto mais íntimo e doloroso de seus pensamentos a Terra das Sombras.
Ele abriu os olhos, sentindo como se algo muito pesado estivesse sobre eles, e observou novamente aquela sala. Seus olhos encontraram novamente aquele sofá, velho, mofado, rasgado... coberto por cortinas rasgadas e puídas. Dezesseis anos antes, seus pais e ele estavam ali, sentados naquele mesmo sofá, rindo, comendo e se divertindo como uma família...
Harry fechou os olhos novamente, apenas sentindo... E foi como se ouvisse aquele som familiar, aquelas vozes, aquelas risadas...
"Pára com essa colher, Tiago! Vai deixar o menino aguado pelo doce!
Ele está gostando, Lílian! Olha como ele ri!"
Ele não suportaria continuar pensando naquilo. Abriu os olhos, respirou fundo e desviou o olhar, mas não ajudou muito; para todo lugar que olhava, ele só via a destruição que lhe remetia àquelas memórias. Nas paredes, viu quadros tortos, com as telas rasgadas, que seus ocupantes há muito tempo já deveriam ter desocupado. No chão, pedaços de madeira quebrada espalhados em meio a vários objetos destruídos.
Ainda observando tudo ao redor, registrando cada peça que via, Harry caminhou de volta ao sofá velho. Novamente, ele passou a mão por ele, e ela se encheu de pó como da outra vez.
Ele se aconchegou ao sofá, encostou-se à ele, ouvindo o som da chuva forte lá fora fustigando as janelas e as paredes. Sentiu suas pálpebras pesadas. Apesar do ambiente estar completamente destruído e abandonado, ele ainda sentia como se fosse aconchegante e familiar... Algo que não conseguia explicar. Ele apenas fechava os olhos e ouvia os sons daquele lugar, de muitos anos atrás, e era como se revivesse o que tinha passado ali...
Era como se ele sentisse seus pais ali...
Sua família...
Um trovão mais alto o sobressaltou e, com um baque violento, trouxe-lhe à realidade. O que ele estava fazendo? Provavelmente Sirius estava preocupado por ele não ter voltado para casa e estar naquela tempestade.
Sirius? Casa?
Ele estava na sua casa agora.
E Sirius tinha lhe negado esse direito quando lhe proibiu de ir ali; que esperasse e ficasse preocupado! Ele só queria ficar ali... na sua casa, na casa de seus pais...
Mais tarde, ele poderia até se arrepender daquele pensamento egoísta e injusto, mas ele não queria ser correto naquele momento. Ao menos naquele momento...
- Então, finalmente, você chegou a esse lugar...
Harry se sentou assustado como se tivesse acabado de ser atingido por um balde de água gelada. Seu coração parecia que ia sair pela boca. Então realmente havia mais alguém ali? Ele não estava ficando maluco; tinha certeza de que ouvira uma voz aguda, arranhada... Mas de onde vinha?
- Quem está aí? ele perguntou, levantando-se e olhando ao redor. Rapidamente, suas mãos alcançaram a varinha dentro do bolso da calça, segurando-a de forma que, assim que fosse necessário, ele pudesse usá-la.
- Eu estou aqui... Não está me vendo? a voz, rouca como a de um velho, disse num tom de zombaria.
Harry girou a cabeça de um lado para outro, atento, ainda segurando a varinha, e foi quando seu rosto virou para a esquerda que ele viu algo que o surpreendeu; não era uma pessoa que estava falando com ele, e sim um quadro.
Como os outros, este quadro também estava destruído; a sua moldura estava quebrada em muitos lugares e parte da tela estava rasgada, mas ainda era possível enxergar a pintura: um homem velho e franzino, de cabelos grisalhos e quase tão despenteados quanto os de Harry e joelhos ossudos encarava o garoto com um sorriso divertido no rosto enrugado. No entanto, Harry não estava achando nenhuma graça; estava achando aquela aparência bem familiar e algo lhe dizia que já tinha visto aquele quadro em algum lugar.
- Você vai ficar me olhando com essa cara de espanto, garoto? o velho disse com sua voz rouca e zombeteira. Até parece que eu sou uma assombração!
E ele riu da própria piada.
Harry contornou os móveis e se aproximou do quadro, observando-o atentamente. Por sua vez, o velho pintado nele sorria, como se estivesse achando aquilo muito engraçado. Harry estava tentando achar em sua memória onde já tinha visto aquele mesmo quadro, e foi então que se lembrou do dia em que fora fazer o teste de aparatação, no Ministério da Magia. Com um estalo, o rapaz se lembrou que aquele era o mesmo velho que tinha piscado para ele naquele dia, em uma outra moldura.
Havia milhares de perguntas que Harry queria fazer a ele, mas a primeira coisa que veio à sua cabeça assim que ficou perto o bastante para encarar os olhos miúdos do velho foi a mais boba de todas:
- Havia um quadro seu no Ministério da Magia!
O velho riu como se Harry tivesse acabado de contar uma piada.
- É claro que eu estou lá! Eu era chefe do Departamento de Execução das Leis de Magia!
E ele se empertigou, pressuroso, de uma forma um tanto cômica.
Harry engoliu em seco. Tinha a ligeira impressão de que sabia quem era aquele homem; lembrava de tê-lo visto não somente no quadro do Ministério, mas também em outro lugar... só não lembrava qual. O velho pareceu perceber que Harry o estudava, pois parou de se empertigar e sorriu para ele, não tão divertidamente quanto antes, mas sim um pouco mais sério.
- Pois é, garoto... Finalmente nos encontramos. Fiquei imaginando quanto tempo você demoraria para me achar em algum quadro por aí... ele se encostou na moldura, e seu olhar passeou pela sala, distraidamente. Pensei que você fosse ter a curiosidade de me falar no Ministério da Magia, mas vi que não foi possível... Nunca imaginei que fosse encontrá-lo justamente nessa casa...
- O senhor... Harry começou, um pouco hesitante, sua voz falhando ligeiramente. A chuva batucava no teto. O senhor é meu...
O velho desencostou da moldura e sentou-se ereto na cadeira onde foi pintado; seus olhinhos miúdos estudaram Harry minuciosamente, suas sobrancelhas largas ergueram-se e sua boca magra abriu um sorriso sincero.
- E não é que você é realmente igualzinho ao meu filho Tiago?
O estômago de Harry afundou uns três metros. Então ele estava certo... Lembrou-se de onde conhecia aquele rosto pintado, além do quadro do Ministério; ele já tinha visto-o na Penseira de Samantha, quando assistiu o casamento de seus pais. Era aquele mesmo velhinho que estava no altar, ao lado da esposa e do filho, Tiago Potter, o pai de Harry.
- O senhor é meu avô... Harry murmurou, sentindo a garganta desagradavelmente seca.
O velho sorriu, novamente, daquele jeito sincero.
- Pode apostar nisso. ele riu. Foi uma pena que eu não tenha te visto crescer, garoto... Mas eu parti antes mesmo que você tivesse completado um ano de vida...
Harry apenas ficou encarando os olhos miúdos de seu avô, enquanto este retribuía o olhar da mesma maneira. Alguns segundos se passaram em silêncio, enquanto os dois somente se olhavam. Harry umedeceu os lábios e resolveu fazer a pergunta que lhe atormentava no momento:
- Então, o senhor... não estava aqui quando os meus pais também...
- Quando os seus pais morreram? ele perguntou diretamente, mais uma afirmação do que uma pergunta, na realidade. Não, eu não estava presente... digamos, em vida. Mas eu sei do que aconteceu por causa dessa minha versão pintada. pela primeira vez, seus olhos pareciam tristes. Eu vi tudo... Assisti daqui.
Harry também tinha assistido, e se lembrava muito bem o quão doloroso fora. Porém, antes que o rapaz pudesse dizer algo, novamente seu avô resolveu falar:
- Você sabe que casa é essa, não?
- Godr...
- Godrics Hollow. seu avô completou, um brilho nostálgico nos olhos miúdos se pronunciando. Foi realmente horrível que tudo aquilo tivesse acontecido justamente aqui, um lugar onde já aconteceram tantas coisas especiais... e memoráveis.
- Por que o seu quadro está aqui também?
Ele riu divertido como antes.
- Ora, não é óbvio? Todos os descendentes do grande Gryffindor têm quadros aqui! Você esbarrará com um deles em cada parede! ele franziu a testa. Mas é claro que você sabe que os Potter são descendentes de Gryffindor, não?
- Eu sei. Harry disse rapidamente. Porém, ele nunca tinha pensado muito friamente no assunto; na realidade, o que realmente o atormentava era sua descendência por parte de outro fundador de Hogwarts.
- Ah, é claro que deve saber... Aposto que Dumbledore deve ter lhe contado...
Subitamente, Harry teve uma idéia que encheu seu coração de esperança.
- Há algum quadro do meu pai aqui?
O seu avô pareceu compreender o que se passava na sua cabeça, porque seu olhos caíram ligeiramente e ele sorriu de uma maneira bastante compreensiva e paternal.
- Seria bom, mas... infelizmente, não houve tempo para isso.
- Ah... sim...
- Eu sinto muito, garoto.
- Tudo bem...
- No entanto... Harry levantou os olhos, atento. Seu avô coçava o queixo, distraidamente. Talvez você goste de encontrar uma coisa...
- O quê? o rapaz perguntou com urgência, sedento por algo que lembrasse seus pais naquela casa, qualquer coisa.
Seu avô encarava-o atentamente, seus olhos miúdos brilhando de uma forma um tanto tristonha.
- Procure perto da lareira, sobre o tapete vermelho e dourado.
*******
Sentia as gotas grossas de chuva batendo desagradavelmente no seu corpo. Seus pés afundavam na areia encharcada, que mais parecia areia movediça. O mar estava terrivelmente revolto, e às vezes algum raio iluminava por poucos segundos a escuridão da noite. Ele sabia que era perigoso caminhar na praia durante uma tempestade, mas não se importava com nada daquilo no momento. Sua cabeça estava cheia demais para que ele se preocupasse.
Ele odiava dias de chuva.
Segura firmemente entre seus dedos da mão direita estava a única lembrança que trouxera daquela casa, que não era nenhuma "casa mal assombrada" idiota, mas sim Godrics Hollow o lugar onde seus pais viveram seus últimos dias.
Ainda não tinha pensado racionalmente sobre o que aconteceria quando chegasse em... casa. Com certeza, Sirius deveria estar preocupado, talvez até desesperado, nervoso até o último fio de cabelo e doido para obter uma explicação do porquê de Harry ter sumido todo aquele tempo durante a tempestade. Mas dessa vez, era Harry que queria explicações.
De tão desnorteado e agitado que estava, ele nem percebeu quando chegou em frente à varanda de casa. Foi como se seus pés o tivessem encaminhado até ali automaticamente. Ele só se deu conta de que tinha chegado quando ouviu aquela sua voz conhecida gritar ressonante na noite:
- HARRY!
Ele levantou os olhos, lentamente, e viu a figura de Sirius recortada na chuva. Seu padrinho estava com uma aparência péssima; os cabelos tão desarrumados como se ele os tivesse tentado arrancá-los com as mãos, as roupas todas molhadas e a bainha da calça suja de areia. Ele desceu os poucos degraus da varanda de madeira tão depressa, que num segundo Harry estava olhando-o e, no outro, Sirius estava na frente dele, segurando firmemente seus ombros e agitando-os com tanto vigor que seria capaz de derrubar Harry em dois tempos.
- EU ESTAVA PREOCUPADO! ONDE VOCÊ ESTEVE TODO ESSE TEMPO?
Harry não sabia se Sirius estava gritando para que ele pudesse ouvi-lo em meio à barulheira da tempestade, ou se era de nervosismo e aflição. Provavelmente pelos dois motivos, mas o rapaz não dava a mínima para isso. Ele apenas continuou encarando o padrinho, negligentemente, apenas sentindo o objeto na sua mão esmagar à medida que ele reforçava o aperto.
- QUE IDÉIA FOI ESSA, HARRY? Sirius continuou a gritar, agitando Harry pelos ombros brutalmente. Era de apavorar qualquer um a expressão de fúria no rosto do bruxo, mas não Harry naquele momento; ele estava tão completamente encolerizado que não fazia diferença se Sirius também estava. VOCÊ QUER ME MATAR DE SUSTO? VOCÊ PODE IMAGINAR O MUNDO DE DESGRAÇAS QUE ME PASSARAM PELA CABEÇA?
Harry permaneceu sem dizer nada. Ele só conseguia olhar para os olhos de Sirius e sentir raiva pelo o que o padrinho tinha escondido dele, todo aquele tempo. A chuva ficava cada vez pior, castigando-os com seus pingos grossos e pesados, encharcando-os mais do que se tivessem tomado banho de mar.
- ...SOZINHO, POR AÍ, NESSA TEMPESTADE HORRÍVEL! VOCÊ NÃO PODE SUPOR O QUANTO EU FIQUEI DESESPERADO ENQUANTO VIA AS HORAS PASSAREM E VOCÊ NÃO VOLTAVA!
Sirius o balançava tanto, que os óculos de Harry estavam pendendo do rosto, e seus cabelos molhados caíram-lhe sobre os olhos, ao mesmo tempo em que grossas gotas de água pendiam deles, pingando no chão.
- ...PODERIA TER APARATADO PARA CASA, MAS NÃO, VOCÊ PREFERIU ME DEIXAR DESESPERADO, NÃO FOI? FALA ALGUMA COISA!!!
E dessa vez, Sirius desistiu de balançá-lo e deu um empurrão tão forte no afilhado, que ele tombou para trás, caindo de costas na areia, que grudou em suas roupas encharcadas pela água da chuva.
Harry permaneceu, ainda, em silêncio. Era como se tivesse emudecido. Mas seu cérebro continuava excepcionalmente claro, contrastando com sua pulsação, que parecia ferver junto com o sangue de suas veias. Ele se sentou e permaneceu ainda algum tempo dessa forma, as palmas das mãos apoiando-se na areia. Porém, aquele objeto continuava seguro firmemente em sua mão direita.
Quando ele finalmente levantou os olhos, por detrás das mechas dos seus cabelos que atrapalhavam sua visão, ele enxergou Sirius, de pé, à sua frente, uma das mãos cravando-se nos cabelos negros. No seu rosto, mostrava-se claramente o seu desespero e aflição.
Devagar, Harry se levantou e, assim que estava totalmente de pé, encarou mais uma vez seu padrinho, profundamente, nos olhos. Sirius o olhou também, por alguns instantes, com aquela mesma expressão aflita, porém, ao enxergar o verde opaco e fundo nos olhos do afilhado, sua expressão mudou. Ele largou os cabelos e olhou para Harry assustado.
- Vamos entrar... murmurou cansado seu padrinho.
Harry seguiu na frente, seus pés batendo firme na areia, na madeira e depois no tapete da sala, encharcando-o e sujando-o de areia. Mas não seria daquela vez que Sirius brigaria por ele por algo tão banal. Aquela noite, a coisa seria diferente, e Harry sabia muito bem o porquê.
Era uma noite de chuva, e em todas as noites assim algo de ruim acontecia.
Ele ouviu Sirius encostar a porta. O ruído estrondoso da tempestade lá fora diminuiu ligeiramente, mas não o bastante para que cessasse. Chegara a hora. Lentamente, Harry se virou para encarar Sirius nos olhos; o padrinho o olhava como se somente esperasse o que Harry tinha a lhe dizer.
O rapaz estendeu sua mão direita.
Primeiramente, Sirius não entendeu o gesto e olhou interrogativamente para o afilhado. Harry, que permanecia encarando o padrinho com uma expressão dura no rosto, apenas disse com uma voz rouca e distante:
- O que isso significa para você, Sirius?
Ele se aproximou de Harry, cautelosamente, até que, depois de lançar mais um olhar intrigado para ele, abaixasse as orbes para enxergar o que Harry tinha na mão.
E dentro da mão molhada e cheia de areia de Harry, estava justamente aquele objeto que ele tinha apanhado próximo à lareira de Godrics Hollow, sobre o tapete vermelho e dourado, conforme as instruções do quadro de seu avô.
Óculos arredondados, quebrados em várias partes da armação preta, com as lentes rachadas.
E Harry sabia muito bem a quem aqueles óculos tinham pertencido.
A boca de Sirius se entreabriu, seus lábios tremeram freneticamente, e ele subitamente perdeu a cor da face, assumindo um tom branco pálido que contrastava com o negro de seus cabelos. Seus olhos focavam o objeto nas mãos de Harry, perplexos. Então, ele estendeu sua mão trêmula para apanhar os óculos.
Mas Harry fechou seus dedos e puxou o objeto para si, recuando um passo.
A mão de Sirius, ainda paralisada no ar, caiu, largada ao lado do seu corpo, ao mesmo tempo em que ele encarava o afilhado abismado, compreensão passando por seus olhos. Harry sabia que ele finalmente tinha entendido o que tinha acontecido.
- Você... Sirius murmurou atônito. Você foi até...
- São os óculos de meu pai, não é? Harry praticamente cuspiu as palavras, seu sangue palpitando nas veias.
Parecia que algo muito pesado tinha batido com força em Sirius. Ele dava a impressão de ser um homem completamente sem rumo e cansado naquele momento. E então, ele apenas confirmou com a cabeça, ainda estupefato com tudo aquilo.
Algo muito venenoso terminou de se apossar de Harry. Ainda, bem no seu íntimo, ele tinha esperança de que Sirius fosse negar, e que ele descobrisse que aquilo era só um engano, que o padrinho não tinha mentido para ele por todo aquele tempo... Mas Harry estava certo, e Sirius tinha acabado de confirmar isso.
- Eram os óculos de Tiago sim... Sirius começou, sua voz embargada. Ele nunca os tirava do rosto, assim como você. Perderam-se durante... o duelo que ele teve com Voldemort, e Tiago foi enterrado sem eles.
Parecia extremamente doloroso para Sirius pronunciar aquelas palavras, mas ele estava se forçando àquilo. Harry estava tão enfurecido, que descobriu que não sentia nenhuma pena.
- Os óculos do meu pai... Harry repetiu dolorosamente.
- Você os encontrou em...
- Em Godrics Hollow, sim, Sirius. o rapaz completou pelo padrinho; ele sentia a mão que segurava os óculos de seu pai tremerem e, por isso, apertou-os com mais força. Exatamente naquela casa que você, praticamente, me proibiu de chegar perto.
- Harry, eu preciso que você entenda...
- EU JÁ ENTENDI TUDO, SIRIUS!
Sirius desfez, pela primeira vez, a expressão cansada do seu rosto, que assumiu feições duras.
- Eu não vou admitir que você fale assim comigo, Harry. ele disse perigosamente.
- MAS É COMO EU VOU FALAR! o rapaz retrucou com ousadia. O que você quer, Sirius? Que eu leve isso numa boa? Que eu encare com naturalidade a sua mentira?
- EU NÃO MENTI!
Harry cruzou os braços, estreitando os olhos, em provocação.
- Ah, é? Eu sinto muito, então eu acho que esqueci como se chama quando uma pessoa esconde a verdade de outra! Como se chama, Sirius?
- Não seja cínico! Sirius exclamou com sua tão grossa que ecoou pela sala. Deu para escutar um trovão lá fora. Eu fiz isso para o seu bem, Harry.
- É mesmo? Então você me esconde que eu estou morando há quase dois meses praticamente do lado da casa onde eu e meus pais moramos, e você diz que isso foi para o meu bem? Você me negou ao meu passado, à minha história!
- EU NÃO QUIS QUE VOCÊ SOFRESSE!
Por um instante, Harry se calou. Sirius continuou a falar, depois de respirar muito fundo, seus olhos sempre encarando o afilhado profundamente.
- Eu apenas não quis que você sofresse com mais isso... Porque eu sabia que você ia sofrer se fosse até aquela casa!
- Como... como você podia estar tão certo disso? Harry retorquiu, tentando soar firme, mas uma leve hesitação na sua voz era perceptível.
Sirius soltou uma risada sem alegria.
- Como eu poderia estar tão certo? ele repetiu. Então você vai dizer, na minha cara, que não sofreu ao ver aquela casa? Ao ver aquela destruição, aquelas coisas, os quadros de seus antepassados? Você vai dizer que não doeu? Ah, Harry, eu vou te dizer: isso se chama mentir.
Harry não disse nada. Ele não conseguiu olhar para Sirius por alguns instantes, e virou o rosto, focalizando sua visão em uma cadeira antiga que estava encostada em um canto. Ouviu a voz de Sirius, mais calma e paternal.
- Olha, Harry, eu até entendo que você esteja magoado... Na verdade, eu...
- Você não entende nada, Sirius. Você não sabe como eu me sinto.
Ele pôde sentir o olhar ferido do padrinho sobre si.
- O qu...
- Não importa que eu tenha sofrido ao ver aquilo, tá legal? Harry falou com a voz embargada. Era a casa dos meus pais! O lugar onde eles viveram... os últimos dias. Ah... você não entende como eu preciso... sempre precisei... de coisas que me lembrassem deles, mesmo que seja doloroso. Eu realmente preciso disso. Eu sinto tanta falta deles que não me importo que as únicas lembranças que eu possa ter deles sejam ruins.
Ele ouviu os passos de Sirius ecoando no chão de tacos de madeira. Então, uma mão sobre seu ombro. Harry se desviou dele, recuando novamente. Ele olhou para Sirius, e viu a expressão surpresa no rosto dele.
- VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO! NÃO TINHA O DIREITO DE ME NEGAR ISSO!
- Eu só queria te proteger!
- MAS VOCÊ ESTAVA ERRADO! Sirius mordeu os lábios. Dava para ver que ele estava lutando para não demonstrar que aquilo estava doendo. Você não sabe, Sirius... não entende... ninguém nunca vai entender o que significa para mim...
- Eu pensei muito, Harry. Sirius falou, exausto, caminhando até a janela, onde ele começou a observar a chuva caindo lá fora. Pensei muito mesmo se deveria te trazer para cá. Porque eu tinha medo que exatamente isso acontecesse. Mas então... eu quis que você viesse, porque eu queria que você se divertisse aqui, esquecesse pelo menos um pouco tudo isso que acontece na sua vida...
- E então você preferiu mentir para mim?
- PORRA, EU NÃO MENTI PRA VOCÊ! Sirius exclamou ferozmente, virando-se para encarar o afilhado, seus olhos brilhando de fúria. É tão difícil entender que eu te pedi para não aproximar daquela casa porque eu me preocupo com você?
Sirius deu alguns passos para frente e, subitamente, ele pareceu ser maior do que o normal. Harry apenas o encarou, mantendo o contato visual, apesar dos olhos de Sirius exalarem uma cólera profunda.
- Eu não queria que você fosse lá, Harry, e encontrasse aquele passado horrível, porque eu sei que dói! Dói em mim, não doeria em você? Eu olho para aquela casa e me lembro das férias que eu passava com Tiago lá, ou quando eu ia visitá-los e ele e Lílian já eram casados, ou quando eu ia ter ver ainda bebê, ou daquele dia maldito em que eu, naquela mesma casa, disse para eles trocarem o fiel de segredo! E eu justamente não queria te ver assim, Harry, PORQUE EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ SOFRENDO!
Só era possível ouvir a tempestade do lado de fora. Um silêncio retumbante e negro caiu sobre eles. Harry e Sirius ainda se olhavam, e a mão que apontava acusadoramente para Harry, caiu ao lado do corpo de Sirius, com um baque surdo. E então, ele apenas fechou os olhos, exausto.
Por sua vez, Harry apenas abaixou os olhos para ver os óculos que estavam na sua mão direita. As lentes estavam totalmente rachadas, e uma parte da armação tinha desaparecido. Harry suspirou, aproximou-se da mesa onde ficava o telefone, e depositou ali os óculos, com um ruído mínimo.
- O que você está fazendo? Sirius perguntou, alarmado.
Harry apenas viu o rosto do padrinho por detrás das mechas dos seus cabelos que caíam no rosto, e soube que antes mesmo de fazer aquilo que não deveria estar fazendo. Mas ele precisava.
- Eu... preciso ficar sozinho, Sirius.
Sirius pareceu perceber o que Harry ia fazer antes mesmo que ele o fizesse. Seus olhos se arregalaram e ele deu um passo para frente, sua mão estendida.
- Não, Harry, espera!
Mas Harry já tinha desaparatado.
*******
Ele não soube por quanto tempo apenas ficou olhando aquela casa, pensando e repensando se seria sensato entrar. Mas ele precisava tanto conversar com alguém... Acabou aparatando para lá sem pensar, sem raciocinar para onde estava indo. Um pouco perigoso, era verdade; ele poderia ter reaparecido faltando um dedo ou a orelha, mas parecia que ele estava inteiro pelo menos não estava dando por falta de nada importante nele.
Estava tão desorientado que até esqueceu de se sentir enjoado aparatando.
Mas ele sabia que não estava certo ter deixado Sirius lá, sozinho e aflito. Estava completamente errado, injusto e era um tremendo egoísmo de sua parte porque, bem no fundo, ele sabia que o padrinho estava o tempo todo somente querendo ajudá-lo, mas era, ao mesmo tempo, impossível que ele permanecesse lá com ele, ao menos naquela noite.
E ele queria tanto conversar com alguém...
Harry estava sentado no gramado do jardim da Toca. Tinha aparatado bem ali, e ainda não saíra do mesmo lugar. O único movimento que fizera foi se sentar, porque seus joelhos estavam incrivelmente doloridos e cansados.
Ele olhou seu relógio de pulso: quase duas e meia da madrugada. Era óbvio que Rony e Hermione estariam dormindo àquela hora. Talvez, se ele entrasse sorrateiramente no quarto de Rony (afinal, ele sabia muito bem onde era, estava acostumado a dormir lá quando se hospedava na Toca) e o acordasse... Será que ele iria tentar bater nele, pensando que Harry era algum tipo de animal mágico indesejado? Era bem típico de Rony... agir primeiro, perguntar depois. Talvez fosse perigoso.
E talvez Harry apenas estivesse sendo idiota. Para exatamente o quê ele iria invadir a casa dos Weasleys no meio da noite e acordar seu melhor amigo se nem sabia se queria mesmo contar para ele o que tinha acabado de acontecer, e ainda passando pelo perigo de levar um soco no meio da cara se Rony se assustasse quando fosse acordado?
Harry se levantou, sentindo-se estúpido, ridículo e idiota, resolvido a aparatar novamente para longe dali, mas algo o deteve. Ele sentiu que alguém o observava. Virou-se imediatamente, tentando encontrar algo suspeito, e seus olhos se arregalaram ao encontrar uma pessoa, parada, a apenas alguns metros dele.
Gina Weasley estava com um pijama de gatinhos rosados, pantufas de um animal esquisito e colorido que Harry não conseguiu identificar e os cabelos ruivos quase tão despenteados quanto os do rapaz que a encarava estupefato. Seus olhos estavam estranhamente vidrados (talvez de sono), e ela segurava um copo dágua na mão. No momento em que Harry abriu a boca para se explicar, ela piscou repetidamente e coçou os olhos com a mão livre, como que tentando despertar.
Então, ela respirou fundo, suspirou e olhou para Harry atentamente, como se estivesse tentando reconhecê-lo. Ela piscou várias vezes novamente, bocejou e finalmente disse com a voz arrastada de sono:
- Estou realmente vendo o que vejo ou ainda estou dormindo em pé?
- Não, sou eu mesmo... Harry respondeu rabugento. Eu ainda não sou um pesadelo, Gina.
- Ah... Fico feliz em saber.
- Hum... que bom.
Era uma situação realmente esquisita. A última pessoa que Harry pensou que fosse encontrar naquela noite era Gina. Especialmente porque ele não estava nem um pouco a fim de vê-la. No entanto, ela caminhou lentamente até ele e sentou-se na grama, ao seu lado, para depois coçar novamente os olhos. Um pouco sem jeito e mais por estar se sentindo esquisito, Harry voltou a se sentar na grama, um pouco afastado dela, mas ao seu lado.
Gina bebeu um grande gole dágua antes de falar alguma coisa novamente.
- Posso saber o que você está fazendo aqui?
Era uma pergunta justa. Afinal, Harry tinha praticamente invadido o jardim dos Weasleys, e Gina era uma Weasley.
- Eu... aparatei.
- A pé é que você não deveria ter vindo, com certeza. o olhar dela estava focalizado em um ponto da casa, ao longe, sem piscar. Eu gostaria de poder aparatar agora como você e Rony já podem fazer, mas ainda tenho um longo caminho pela frente...
- E por que você quer tanto aparatar, se posso saber?
- Sei lá... ela deu de ombros. Tantas coisas. Por exemplo, eu poderia aparecer em algum lugar exatamente como você fez agora... do nada.
Harry não respondeu. Ele apenas apoiou as mãos sobre a grama atrás dele, e percebeu que elas ainda estavam sujas de areia. Ele levantou a cabeça e pôde ver que a noite estava bem melhor em Ottery St. Catchpole. Havia estrelas no céu, e não a tempestade horrível da Praia das Andorinhas.
- Por que você resolveu aparecer aqui, hein?
Harry desviou os olhos do céu para olhar Gina. Ela estava ocupada novamente em coçar seus olhos, coçava-os tanto e com tanta força que dava até aflição. Harry desviou o olhar dela.
- Eu... tive alguns problemas... e pensei em conversar... com Rony ou Hermione.
- Eles estão dormindo. Gina informou desnecessariamente. E eu te aconselho a não acordá-los; nenhum deles gosta de ser acordado, que eu saiba.
- Eu imaginei. Mas... e você? Por que não está dormindo também?
- Insônia. ela respondeu, dando um enorme bocejo.
- Não parece.
- Mas é o que é.
Alguma coisa rumorejou entre as árvores próximas. Harry se virou intrigado, mas não conseguiu ver nada entre o mato. Também, seria difícil no meio de toda aquela escuridão. Ele se virou para Gina, que agora encarava seu copo dágua como se estivesse refletindo seriamente em mergulhar nele.
- Você ouviu isso?
- O quê?
- Esse barulho.
- Eu não ouvi nada.
- Ah... tem certeza?
- Absoluta, talvez quem esteja com sono seja você.
- Eu não estou com sono. Duvido que consiga pregar o olho hoje.
Gina deu de ombros e suspirou profundamente. Ainda encarava o copo como se estivesse tentada a meter sua cabeça ali dentro. E então, subitamente, ela jogou a água toda do copo em cheio na sua cara. Harry se assustou tanto com o gesto dela, que até recuou. Algumas gotas também respingaram nele.
- Você pirou?
Gina piscou várias vezes e se virou para encarar Harry. Seus cabelos estavam ligeiramente molhados, e algumas gotas pingaram na grama. A água escorria por seu rosto, e a boca dela estava ligeiramente aberta, como que surpresa.
- Anh... Harry!
- Sinceramente... acho que você realmente precisa dormir, Gina.
- É... talvez.
Ela se levantou, parecendo um pouco atordoada. Harry a achou completamente maluca; talvez fosse apenas a pressão dos N.O.M.s que ela ainda iria prestar. Gina piscou novamente várias vezes, e olhou de esguelha para Harry.
- Ah... então, eu já vou.
- O.k.
- A gente se vê.
- Tá...
Ela lhe deu às costas, caminhando lentamente na direção de casa, e só parou quando Harry gritou:
- Espera!
- O quê? ela o encarou pelo canto do olho.
- Não comenta com ninguém que eu estive aqui, tá?
Ela pensou por alguns instantes, como se estivesse refletindo a possibilidade.
- Hum... o.k.
E se virou novamente para ir embora, e dessa vez Harry não a chamou de volta. Ele se levantou, olhou-a por alguns instantes se afastar, achando-se muito esquisito. Aquilo tinha sido realmente estranho.
Suspirou cansado, e aparatou novamente.
Nota da autora: Acho que vou passar minha vida pedindo desculpas a vocês... Eu REALMENTE peço desculpas pela demora desse capítulo, sei que a fic está criando teias de aranha, mas é essa porcaria de terceiro colegial que não me dá tempo nem p/ me coçar, droga! Desculpa mesmo, gente! Eu não estou querendo ser má, é falta de tempo mesmo!!!
No próximo capítulo: O clima está tenso entre Harry e Sirius depois da discussão, e Harry fica cada vez mais angustiado, já que sua volta a Hogwarts está próxima e os dois ainda não conseguiram se resolver. Antes de partir da Praia das Andorinhas, Harry tem uma emocionante despedida de Agatha. Voltando, finalmente, a Hogwarts, ele vê que certas coisas mudam e certas coisas nunca mudam. E Hermione tem uma doce surpresa que irrita muito Rony.