Capítulo Quatro – A casa mal assombrada

 

Harry encostou a porta atrás de si. Estava em um conflito interno: continuar na praia ou vir comer? Seu estômago falou, ou melhor, roncou mais alto, e ele resolveu voltar para casa.

Sirius, que tinha saído junto com ele para uma caminhada, voltara mais cedo para preparar o almoço, o que era realmente preocupante. Harry considerou tentar almoçar na casa dos Prescotts, mas de qualquer maneira eles tinham ido fazer compras em Freshpeach. Agatha também tinha ido com eles, depois de insistir muito.

Quando Harry tocou o chão da sala com seus pés descalços e cheios de areia, ele arregalou os olhos para o que viu na sala. Sirius estava com o telefone na mão, gritando para ele; o problema era que ele estava gritando para o fone que escuta, e não o que fala. Harry suspirou, um sorriso brincando nos seus lábios.

- NÃO! ELE AINDA NÃO CHEGOU! VOCÊ TÁ ME OUVINDO?

"FALA MAIS ALTO!", alguém gritou do outro lado da linha, e dava a impressão de que Sirius e a tal pessoa competiam entre si. "NÃO TÔ TE ESCUTANDO!!!"

- Com licença... – Harry disse gentilmente, como se Sirius fosse uma criancinha, e arrancou o fone da mão dele. – Quer que eu resolva isso?

Sirius resmungou.

- Eu não vi você aí...

- Acabei de chegar. – ele agitou o fone do telefone, de onde continuavam a sair gritos. – Quem é?

- É pra você... – Sirius deu de ombros. – Mas não consegui identificar quem é, parece que a pessoa não está conseguindo me ouvir...

- Sério? – Harry perguntou sarcasticamente. – Quem sabe você não está falando muito baixo?

Sirius imitou um rosnado e saiu de vista, subindo as escadas. Harry segurou o riso até ele desaparecer e depois encarou o fone. A pessoa do outro lado gritava tanto que ele vibrava. Harry teve uma noção de qual seria a única pessoa que faria uma coisa dessas.

- Alô? Rony?

"TEM ALGUÉM AÍ? OI! NÃO TÔ OUVINDO!!!"

"Ah, francamente!", Harry ouviu uma outra voz do outro lado. Uma exclamação veemente, o barulho de um empurrão, um palavrão, e novamente a voz, que falava (para alívio de Harry) em um tom normal. "Oi, Harry, aqui é a Hermione!"

Ela não precisava dizer que era ela. Bastou o "francamente" para que ele soubesse. Ele ouviu o som de alguém resmungando ao lado dela, provavelmente Rony.

- Percebi... Por que você não pegou o telefone antes?

"O Rony insistiu que queria falar com você... Agora vi que foi um erro tentar ensiná-lo a telefonar." Outro resmungo. "Ah, Rony, por favor! Sossega!"

Harry não conseguiu esconder o riso.

- Eu não sabia que vocês dois estavam juntos.

"Pois é." Hermione respondeu calmamente, ainda tentando sobrepor sua voz aos resmungos constantes de Rony ao seu lado. "O Rony te contou que os pais dele convidaram os meus para jantar aqui na Toca?" E sem esperar resposta: "Nós viemos. E depois eu acabei ficando por aqui para o passar o fim das férias. Você não vai vir mesmo, não é?"

- Não. – Harry disse categórico.

"Imaginei... Bem, talvez seja mesmo o melhor a fazer."

Um novo empurrão. Outra exclamação veemente, mas por parte de Hermione. A voz de Rony:

"SE VOCÊ VIER TRAGA TAMPÕES DE OUVIDO!"

Harry afastou o fone do ouvido.

- Rony...

"O QUÊ?"

- Acho que já preciso dos tampões... Não dá pra você falar um pouquinho mais baixo?

Risadas. "Ah, fica quieta, Mione!" Mais risadas.

"Mas é mesmo uma pena que você não vai vir, Harry..." Rony continuou a falar. "Sem chance, não é?"

- Sem chance. – Harry respondeu, aliviado por Rony voltar a falar como uma pessoa normal e, ao mesmo tempo, ter entendido o que ele queria dizer.

"Bem, de qualquer maneira, as coisas estão quentes aqui... Todo dia temos uma nova discussão entre Percy e os gêmeos, e Percy sempre sai com alguma... digamos... seqüela. Gina parece que tá com TPM. Vive gritando comigo por qualquer besteira. Minha mãe diz que são os ‘hormônios’... "

Outro resmungo. "Sai pra lá, Rony!" Novamente Hermione no gancho.

"Não liga pra o que o Rony diz... A Gina anda estressada com os N.O.M.s dela, só isso... Ele é que é um insensível."

Harry desejou que os dois parassem de falar tanto na Gina. Ele imaginava muito bem tudo aquilo, afinal, Gina não pôde prestar os N.O.M.s dela durante as aulas por causa de sua internação no St. Mungos, e provavelmente estava estudando pra valer nas férias. Mas ele ficava satisfeito apenas em saber que todos os Weasleys estavam bem, não era necessário darem detalhes sobre Gina. Rapidamente mudou de assunto.

- Mas, então, como foi o tal jantar das famílias?

Silêncio. Hermione teve um súbito ataque de tosse. "O que ele falou?" Silêncio novamente. "Ah, passa esse felitone pra mim, Mione!"

"Sou eu de novo, Harry." Rony disse desnecessariamente.

- Eu notei. Mas vocês poderiam parar com isso? Estou ficando tonto.

"O que você perguntou, afinal?"

Hermione tossiu mais do outro lado da linha.

- Perguntei sobre o tal jantar das famílias.

"O QUÊ?!"

- Não precisa voltar a gritar, Rony...

"Não toque nesse assunto!" Ele sussurrou. "Ainda não nos recuperamos... entende?"

Harry achou aquilo mais esquisito que o normal.

- Por quê? O que aconteceu?

"Não faça perguntas. Nós te contaremos tudo... quando estivermos mais..." ele pigarreou. "...acostumados com a idéia..."

Definitivamente, aquilo era estranho, mas Harry não comentou mais nada em respeito aos amigos. E então, houve um grande estrondo do outro lado da linha; gritos histéricos. Harry captou algumas frases:

"...COMPLETAMENTE IRRESPONSÁVEIS!!!"

"SAIAM... CIMA... MIM!!!"

"CALEM A BOCA! ...ESTUDAR!"

- O que tá acontecendo aí?

"Ah, droga! Espera um pouco, Harry."

Harry olhou para o gancho. Aquilo era insano. Ele ouviu a voz de Hermione.

"Oi, Harry. Sou eu de novo."

- Você pode me explicar o que tá acontecendo?

"Os gêmeos chegaram para o almoço."

- E daí?

"E daí que eles aparataram em cima do Percy. A Sra. Weasley ficou uma fera. Rony foi ajudar."

- Eu não entendi... eles... aparataram em cima do Percy?

"Fazem isso quase sempre... sabe, só pra provocar. Humpt."

Mais gritos.

- Bem, pelo menos as coisas devem estar animadas aí.

"Você nem imagina o quanto... Ah, espera um minuto, Harry."

Harry começou a considerar a idéia de desligar. Ele suspirou, sentou-se numa cadeira próxima, enquanto ouvia o que Hermione falava do outro lado. Seu estômago revirou horrivelmente ao perceber com quem ela estava falando.

"Eu vou subir para estudar!" A voz de Gina soou. "Se alguém se atrever a subir atrás de mim, azare o infeliz por mim, Hermione!"

"Eu não posso usar magia fora de Hogwarts ainda, Gina."

"Então chute-o!"

"Vou fazer o possível..."

"A propósito, com quem você e Rony tanto falam?"

"Harry."

"Grunf!"

- Ei, que cara é essa? – Sirius, que vinha descendo as escadas, perguntou ao ver a careta de Harry. Ele abaixou o fone e levantou os olhos para ver o padrinho.

- Acho que vou vomitar. Isso realmente está me dando tontura.

- Eu digo que esse troço é esquisito! – ele protestou, apontando o telefone. – Mas se quiser vomitar, não faça isso na sala... – ele riu. Harry lançou-lhe um olhar mortal. Sirius seguiu para a cozinha, ainda rindo.

"Ei, Harry, você ainda está na linha?"

- Estou. – ele encostou o fone na orelha novamente. Ainda havia muito barulho do outro lado. – Quase desisti, mas sou realmente muito amigo de vocês dois.

"Obrigada pela consideração." Hermione brincou.

- E então, ainda não resolveram o problema?

"Fred e Jorge ameaçaram colocar um ‘Pântano Portátil’ no quarto de Percy."

- Oh, parece que as coisas estão indo bem...

"Muito bem." ela obviamente decidiu mudar de assunto. "E então, como foi no teste de aparatação? Rony não quis me contar muita coisa..."

- É porque não há muita coisa para contar mesmo...

"Isso significa que nenhum de vocês dois vai me dar uma idéia de como é o teste?" ela perguntou desesperada.

- Sinceramente, a gente vai complicar sua cabeça se contarmos... Espere o seu teste, Mione.

"Vocês são dois chatos."

Harry riu. Uma idéia acabara de passar por sua cabeça.

- Ei, Mione, o que você e o Rony acham de passar uns dias aqui na... – ele sorriu. - ... minha casa?

"Hum, sério? Rony contou que você falou muito bem da praia para ele no dia do teste."

- Sério! Eu prometo que não deixo o Sirius cozinhar.

"O quê?"

- Deixa pra lá...

"Eu não sei, Harry... seria bem legal, mas... eu não avisei os meus pais, eles pensam que eu vou ficar aqui na Toca o resto do verão inteiro, entende?"

- Você não pode avisá-los agora?

"Eles foram viajar e eu não queria incomodá-los."

- Hum... talvez um dia só, então? – ele insistiu.

"É... é uma boa idéia. Eu vou chamar o Rony... RONY!"

Harry novamente afastou o fone do ouvido. Alguns gritos esparsos. As vozes de Rony e Hermione falando entre si. Harry estava realmente impaciente. Novamente, a voz de Rony.

"Oi, Harry, voltei."

- Conseguiu resolver o problema?

"Mais ou menos. Não importa. A Mione acabou de me falar sobre sua casa."

- E então? Podem vir pela manhã e ir embora no final da tarde... Temos uma lareira ligada à rede de Flu para a Mione usar, já que ela não pode aparatar.

"Eu adorei a idéia, faz muito tempo que eu não vou à praia. Depois que a minha mãe se acalmar aqui, eu vou conversar com ela sobre isso. Eu... usarei o felitone para combinar melhor, o.k.?"

- Sinceramente, Rony... mande uma carta pelo Pichitinho.

"Ah, tá bom... eu também prefiro. Escuta, preciso desligar, a confusão aqui tá ficando pior... Mione manda lembranças."

- O.k. Boa sorte.

"Valeu. Vou precisar."

Harry finalmente colocou o fone no gancho, com a sensação de que sua cabeça estava girando ao redor do pescoço. Bem, ao menos ele tinha a perspectiva de que Rony e Hermione viessem lhe visitar. Sirius reapareceu na sala, encostou no batente da porta e encarou Harry com um sorriso divertido.

- Você não parece bem... tem certeza de que não vai vomitar?

- Aquilo era uma piada, Sirius.

Ele riu.

- Afinal, quem era no... bem, nesse troço aí?

- Rony e Hermione. – Harry respondeu, segurando a cabeça ainda tonta pela conversa. – Parece que eles vão vir passar um dia aqui.

Sirius abriu um sorriso sincero.

- Que ótimo, eu ia mesmo perguntar quando você iria convidá-los. – ele se aprumou, o sorriso aumentando de um jeito perigoso. – Ei, eu posso preparar algo para eles! Harry, eu acho que estou pegando o jeito agora, sabia?

- Não.

- Por que não?

- Não quero que meus amigos tenham indigestão. – Harry respondeu rindo, enquanto se encaminhava para a cozinha.

- Harry, você é cruel! – Sirius retrucou, encarando-o com uma fingida expressão de desgosto.

- Eu só sou prevenido!

Sirius mostrou a língua para ele e encarou o chão intrigado. Harry rapidamente tapou os ouvidos com a mão, mas foi impossível não escutar o grito:

- HARRY, VOCÊ ENCHEU A SALA DE AREIA!!!

Ele sorriu. Estava ansioso para saber o que seus amigos diriam da sua casa.

 

*******

 

- Wow!

Rony abriu um grande sorriso. Hermione olhava ao seu redor, com os olhos brilhando. Harry desejou que eles falassem alguma coisa.

- E então?

- Cara, ficou ótimo! – Rony exclamou.

Eles conseguiram combinar um dia para Rony e Hermione visitarem a casa de Harry. Hermione chegou pela rede de Flu antes de Rony, que demorou mais um tempo porque quis aparatar. O problema foi que ele aparatou nas escadas da varanda e rolou por elas até a areia. Harry estava feliz por Sirius ter saído de casa para comprar algumas coisas em Freshpeach, porque Rony se encheu de areia e, consequentemente, também encheu a casa de areia, desde a sala até o quarto de Harry, que era onde os três estavam no momento.

- Que bom que vocês gostaram... – Harry suspirou aliviado. – Sirius teve o maior trabalhão para fazê-lo do meu jeito, mas bem... vocês dois sabem disso, porque o ajudaram, que eu sei...

E ele lançou um olhar estreito para os amigos, que claramente entenderam que ele estava recriminando-os por não terem contado nada. Rony sorriu e deu de ombros, dizendo apenas:

- Se contássemos, não iria ter graça, concorda?

Hermione, porém, não se incomodou em dizer alguma coisa. Ela rapidamente atravessou o quarto e foi direto mexer na estante, olhando cada livro do acervo que Sirius tinha comprado para o afilhado. Seus olhos brilhavam, e Harry soube que, depois de ver os livros, Hermione tinha realmente aprovado o quarto dele.

- Uau! Vejo que ele comprou os títulos que eu sugeri! – ela exclamou com uma felicidade acima do normal. – E ele comprou mais alguns também! – e ela puxou um exemplar de "O Assassinato de Roger Ackroyd", abriu-o, sentou-se na cama e começou a folheá-lo freneticamente.

Rony se virou para Harry de olhos arregalados e fez um gesto com os dedos do lado da cabeça, indicando claramente: "Maluca".

- Eu ainda não li esse, você me empresta, Harry? – Hermione exclamou.

- Claro, Mione.

Rony parecia prestes a vomitar.

- Que horror, quer dizer que Hermione Granger ainda não leu algum livro? – ele provocou.

Hermione estava tão feliz com o livro que meramente fez um aceno displicente para o namorado. Harry riu. Rony se virou para ele e apontou um dedo bem no meio do seu rosto, ameaçadoramente.

- Se você tiver mais algum livro que ela não tenha lido, nossa amizade estará seriamente abalada! – e então ele abaixou a voz. – Estou tentando fazer ela largar os livros e prestar atenção em mim, e agora você me vem com isso?

- Não foi culpa minha! – Harry se defendeu. – Queria que eu fizesse o quê? Escondesse os livros debaixo da cama?

Meia hora depois, após muita insistência, Harry e Rony conseguiram convencer Hermione a largar o livro para os três irem à praia. Na verdade, Rony fez um feitiço convocatório e disse que só devolveria o livro para Hermione no final da tarde. E ameaçou Harry dizendo que, se ele ousasse emprestar mais algum livro para a garota, ele mesmo incendiaria a sua estante.

O dia não poderia estar melhor, e Harry ficou feliz pelos seus amigos terem vindo visitá-los justamente em um dia tão ensolarado. Ele não lembrava de estar assim tão animado desde o dia em que chegou na Praia das Andorinhas junto com Sirius. Era a primeira vez na sua vida que ele pôde chamar os amigos para visitá-lo, na sua própria casa, mostrando o seu quarto. Aquilo era algo que os Dursleys sempre lhe negaram, porém, agora, ele podia desfrutar isso como nunca. Por um instante, ele desejou que seus pais, de algum lugar, vissem o quanto ele estava feliz.

- Ela está fazendo o quê, afinal? – Rony exclamou impaciente, balançando a rede onde estava deitado de um lado para outro. – Já deve fazer no mínimo uma hora que ela está lá dentro se trocando.

Harry e Rony, que tinham se trocado rapidamente e colocado apenas bermudas, esperavam por Hermione há um bom tempo, que tinha ido se trocar no quarto de hóspedes.

- Você está exagerando... – Harry respondeu distraidamente, observando o mar. Ele estava apoiado na cerca de madeira da varanda, enquanto ouvia o "nhec-nhec" de Rony balançando a rede. – Ela não está lá há uma hora...

- O.k., ela está lá há cinqüenta e nove minutos. – Rony retrucou rabugento.

- Por aí... – Harry riu. – E então?

- Então o quê?

- Ora. – Harry se virou para encarar o amigo, apoiando os cotovelos na madeira. Um sorriso divertido apareceu nos seus lábios. – Você não vai me contar como foi o tal jantar com a família dela? O novo jantar?

Rony parou de balançar a rede e olhou chateado para Harry.

- Você quer mesmo saber?

- Depois do suspense que vocês dois estão fazendo... é claro que eu quero saber.

Rony suspirou tristemente, voltou a balançar a rede e postou os olhos no teto da varanda.

- Foi horrível...

- Por quê? A avó dela estava lá também? – Harry perguntou, lembrando-se de tudo que Rony lhe disse sobre o jantar anterior, na casa de Hermione.

- Não! Graças a Deus! Mas aconteceu algo pior...

- O que pode ser pior?

- E você ainda pergunta? Há muitas coisas piores do que a avó dela... – Rony olhou alarmado para o amigo. – Harry, você não vai acreditar quando eu contar...

- Se você me contar, talvez eu possa começar a tentar acreditar...

- Eles mencionaram... – Rony fez uma careta engraçada, que misturava desespero e aflição. - ... casamento! – ele falou tão baixo, que Harry pensou que não tivesse ouvido direito.

- Como é que é?

- Não me faça repetir! – Rony falou categórico.

Harry puxou uma cadeira de vime e se sentou perto do amigo, o queixo caído e os olhos arregalados.

- Você não está falando sério!

- Estou! Pior que estou! – Rony disse desesperado. – E há coisa ainda pior! Eles mencionaram isso bem no meio do jantar! Na frente de Fred e Jorge!

Harry sorriu, imaginando o estrago que isso causou, mas logo apagou o sorriso antes que Rony o visse, em solidariedade ao amigo.

- Quem tocou no assunto?

- Quem mais? Minha mãe e a mãe dela!

Harry não conseguiu conter o riso. Rony olhou feio para ele, e Harry tratou logo de recompor.

- Ah, cara, por que mães têm que fazer isso? – Rony imitou uma voz fina e irritante. – "Porque meu filho é assim, minha filha é assado... blá, blá, blá, blá... e quando eles casarem? Blá, blá, blá..." Humpt!

Harry achou que suas costelas iriam se partir pelo esforço para não rir. Ele tapou a boca, mas estava ficando cada vez mais difícil. Rony, infelizmente, percebeu isso.

- Ah, vai, ri! Você faz assim porque não sabe como é! Não tem uma mãe que fica te enchendo a paciência com essas coisas!

Um segundo após ter dito a frase, foi visível a perturbação de Rony por tê-la dito. Ele piscou algumas vezes, olhando abobado para Harry, e logo se apressou em dizer:

- Erm... foi mal, eu...

- Ah, tá tudo bem, Rony. – Harry disse sorrindo, levantando-se e voltando a se apoiar na varanda, observando o mar. – Não esquenta, não.

Felizmente, aquele assunto desagradável foi logo esquecido com a chegada de Hermione.

- Estou pronta, meninos!

Quando Harry se virou, ficou impressionado. Certamente, ele não teve a mesma reação de Rony, que se sentou tão rápido na rede que acabou escorregando dela para o chão. Hermione olhou de esguelha para o namorado e sorriu com a reação dele. Ela estava realmente bonita, com um biquíni de flores roxas e um tecido da mesma cor enrolado na cintura. Os cabelos cheios não estavam cheios, e caíam em cachos castanhos sobre os ombros. Rony conseguiu se levantar, mas seus olhos não desgrudavam da garota.

- E então, estou bem? – Hermione perguntou, sorrindo de orelha a orelha e postando as mãos nos quadris.

- Erm... hã... hum...

- Você está ótima! – Harry disse jovialmente, dando um sonoro tapa nas costas de Rony, que parecia estar se engasgando com a própria saliva. – Tenho certeza que Rony diria o mesmo se estivesse capacitado a falar.

Hermione riu marotamente, lançando um olhar sedutor para o namorado, que ainda parecia sem palavras. Os três, então, desceram a varanda indo na direção do mar (Rony tropeçando nos próprios pés), conversando sobre banalidades. Harry ficou feliz que não estivessem mais falando sobre Gina, como quando fizeram quando telefonaram para ele. Depois de algum tempo, Hermione tocou novamente no assunto do teste de aparatação, e Rony (que já parecia recuperado), ficou provocando-a com frases assustadoras sobre o quanto era complicado o teste. No final, Hermione ficou bem emburrada com os dois por não quererem contar nada sobre o teste, mas isso passou quando Rony começou a beijá-la – um momento propício para um banho de mar, o que Harry prontamente se pôs a fazer, deixando-os a sós por pelo menos uns bons quinze minutos, quando os dois também se reuniram a ele no mar.

Quando eles estavam conversando sobre suas expectativas para o próximo ano em Hogwarts (Hermione não parava de falar sobre os N.I.E.M.s), os três puderam ouvir uma vozinha fininha atrás deles. Rony e Hermione se entreolharam intrigados, mas Harry sabia muito bem quem era. Quando se virou, teve certeza disso. Agatha estava parada alguns metros atrás deles, seu vestido esfiapado se agitando contra a brisa marinha e os bracinhos cruzados sobre o peito, com um olhar estreito que, Harry sabia, era para ele, por não ter ido visitá-la naquele dia.

Hermione e Rony, bem como Harry, também se viraram para ver a quem pertencia a tal voz e olharam interrogativamente para o amigo quando viram a pequena menina caminhando decidida na direção deles, com os olhos focados em Harry numa clara expressão de aborrecimento. Foi Rony que se manifestou primeiro:

- Você conhece?

Harry poderia rir, mas apenas sorriu e confirmou com a cabeça. Rony arregalou os olhos, assombrado. Hermione apenas sorriu, um tanto surpresa, e depois voltou novamente seu olhar para Agatha, exclamando:

- Que gracinha!

Harry e Rony também voltaram seus olhos para Agatha, que agora tinha parado perto deles e, ainda de braços cruzados, erguia seu pescoço para encarar Harry com as sobrancelhas franzidas, parecendo ignorar completamente a presença de Hermione e Rony.

- Por que você não apareceu hoje? – a menininha perguntou brava, fazendo um bico bastante engraçado.

Rony, com as sobrancelhas erguidas, parecia estar apenas observando a situação com o máximo de atenção para depois tirar sarro de Harry. Já Hermione aparentava estar maravilhada com tudo aquilo, e Harry temeu que ela exclamasse novamente "que gracinha" na frente de Agatha. Ele se abaixou e olhou pacientemente para a menina, como sempre fazia quando ela lhe perguntava aquela mesma coisa.

- Eu estou com visitas hoje... não deu para ir te ver.

Agatha olhou bastante nervosa para Rony e Hermione, como se eles fossem os culpados de tudo no mundo.

- E esqueceu de mim por causa disso? – ela voltou novamente seu olhar para Harry.

- E você não esqueceu de mim naquele dia que foi passear em Freshpeach com seus pais? – ele contornou-a astutamente.

Agatha abriu e fechou a boca, descruzou os braços, e seu rosto se desanuviou por alguns instantes. Harry sorriu.

- Peguei você.

- Não pegou não! – ela exclamou de uma maneira pouco convincente. – ‘Quele dia foi diferente!

- Ah, eu acho que não... – Harry fingiu-se magoado e olhou de esguelha para os amigos. Rony estava pasmo e Hermione com um sorriso divertido. – Você me deixou aqui sozinho... nessa praia enorme... sem nem uma -

- Tá bom! Tá perdoado, mas só hoje! – ela o ameaçou com seus dedinho minúsculo. – Mas se fizer de novo eu mando o Mordedor atrás de você!

- Você não faria isso...

- Faria sim!

- De qualquer maneira, ele fugiria de você quando se aproximasse.

Agatha novamente emburrou a cara depois da provocação de Harry, mas logo riu quando ele fez cócegas em um ponto fraco dela – na barriga. Rony pigarreou e levantou as sobrancelhas para Harry.

- Agora que vocês já se entenderam... Acho que você ainda não nos apresentou, Harry.

Agatha se aprumou também, encarando Rony e Hermione com curiosidade e parecendo bastante ansiosa. Quando Harry abriu a boca para falar, Rony, que provavelmente não conseguiu se conter, deixou escapar:

- Quem é ela, afinal? Sua filha?

Harry quase engasgou. Hermione deu uma cotovelada tão forte em Rony que ele tropeçou e quase caiu na areia. Agatha não pareceu se abalar nem um pouquinho.

- Não, não sou não. – ela disse sorrindo de um jeito travesso. Harry podia esperar pelo pior. – ‘Arry é meu namorado!

Decididamente aquilo era a pior coisa que Agatha tinha falado em todas as férias, levando-se em conta quantas coisas ela falava e ela realmente falava bastante. Harry olhou enviesado para a menina, que apenas sorriu para ele, como se estivesse se divertindo imensamente. Hermione encarava a menina como ela fosse um programa de televisão muito interessante. Rony explodiu em gargalhadas. Agatha emburrou a cara para ele e postou, novamente, as mãozinhas na cintura.

- Não vejo graça!

- Mas eu vejo! – ele retrucou, controlando o riso, o que parecia ser muito complicado. Hermione olhou severamente para ele. Rony não se importou e encarou Harry com um sorriso enorme no rosto. – Ora, ora, Harry, sabe que isso é muito interessante? Tem muita gente que vai rir muito depois que eu contar isso, sabia?

- Humpt! – Agatha resmungou.

- Que gracinha! – foi a vez de Hermione se manifestar, rindo discretamente.

Harry se levantou, respirando fundo para não se aborrecer.

- Se você repetir isso vai se ver comigo! – ele ameaçou Hermione.

- O que eu fiz? – ela riu, abrindo os braços. – Ela é uma gracinha mesmo!

Harry se virou para Rony, que ainda ria descontrolado.

- Isso vale para você também.

- O quê? – ele perguntou engasgado pelo riso.

Harry suspirou profundamente e olhou feio para Agatha, que sorriu marotamente.

- Vai b’igar comigo também?

- Isso é culpa sua.

Ela riu. Harry se sentiu idiota e se virou para os amigos.

- Obviamente, ela estava brincando. Essa é Agatha, ela é minha... pequena amiga. – Agatha fez um bico. Harry gostou de dar o troco. – Ela mora aqui na Praia das Andorinhas.

- Tem... hum... certeza de que ela não é mesmo...

- Tenho certeza, Rony. – Harry disse azedo.

- Ah, que pena...

Hermione sorriu encantada para Agatha.

- Oh, Harry, mas isso é mesmo... – ele a encarou profundamente, esperando outro "que gracinha", e Hermione notou. – Isso é mesmo muito legal. – ela remendou, e Harry teve certeza de que não era bem isso que ela ia dizer.

- E quem são eles? – Harry ouviu a voz fininha de Agatha perguntando lá de baixo.

- Essa é Hermione. – ele apontou desnecessariamente a amiga, que sorriu para Agatha. – E ele é o Rony.

Rony, que ainda soluçava pelo riso, apenas ergueu as sobrancelhas para Agatha. Pelo jeito que ela encarava Rony, Harry teve certeza de que ela estava tentando encontrar em sua memória de onde conhecia aquele nome.

- Já sei! – ela exclamou entusiasmada. – Ele é o dono daquela corujinha!

- É ele mesmo, o dono da Píchi.

Rony encarou o amigo intrigado.

- Agora eu sou conhecido por causa da minha coruja?

- É, fazer o quê, né? – Harry riu. Rony bufou.

Hermione, que até o momento estava ocupada em observar Agatha, se virou para Harry.

- Harry, ela é... hum... trou -

- Sim, ela é. – Harry respondeu antes que ela completasse a palavra "trouxa". Agatha olhou para Harry curiosa.

- Eu sou o quê?

- Uma gracinha... – foi a primeira coisa que Harry pensou em falar.

- E ela... erm... – Rony começou. – ...vai ficar com a gente?

Harry e Hermione se entreolharam.

- Vou! – Agatha decidiu. – Algum problema? – ela completou, olhando emburrada para Rony, que a encarou surpreso.

- Nenhum. – Hermione falou, surpreendendo Harry e Rony. – Vai ser divertido, não?

Agatha sorriu feliz, e Harry teve certeza de que ela tinha simpatizado muito mais com Hermione do que com Rony. Dessa maneira, os quatro começaram a passear pela praia. A maior parte do caminho, Rony e Agatha foram discutindo coisas bobas. Harry e Hermione aproveitaram para conversar, e Harry contou um pouco sobre Agatha e sobre como estava passando as férias. Em dado momento, no qual Agatha estava se distraindo atirando areia em Rony, Hermione tocou em um assunto um tanto complicado:

- E você tem lido o Profeta Diário durante as férias, Harry? – ela perguntou, ligeiramente preocupada.

Harry olhou para os lados, um pouco temeroso de comentar aquilo, já que era um segredo somente seu. Mas Agatha e Rony ainda continuavam entretidos na sua guerra de areia, então ele decidiu contar aquilo para sua amiga.

- Bem, Sirius cancelou nossa assinatura. – Hermione olhou intrigada para ele. – Sabe, ele diz que estamos aqui para descansar e nos divertir, e não quer que eu me lembre que existe Voldemort... – ela tremeu um pouco ao ouvir o nome do bruxo. Harry bufou. – Quando vocês vão começar a falar esse nome?

- Erm... que tal você continuar a sua história? – ela se desviou.

Harry revirou os olhos.

- Mas eu sei que ele sabe o que está acontecendo... faz parte do trabalho dele saber, e ele não pode estar totalmente alienado.

- Mas e você?

Harry abaixou mais um pouco o tom de voz.

- Eu recebo o Profeta, Edwiges me traz, mas nunca mencione isso perto do Sirius, entendeu?

Hermione parecia surpresa. Harry não falou nada por alguns instantes; não esperava mesmo que alguém fosse entender, mas ele sabia que aquele era o melhor jeito que ele e Sirius estavam lidando com aquele assunto. Sirius queria que Harry esquecesse um pouco suas preocupações a respeito de Voldemort, o que era impossível, no entanto, Harry não queria desiludir o padrinho. Sabia que ele sempre recebia informações sobre o que estava acontecendo, por mais que fingisse que não. E ele, Harry, não agüentaria passar todo aquele período das férias sem ter notícias do que estava acontecendo. Era óbvio que ele sabia que Voldemort continuava fazendo as atrocidades de sempre, ainda piores, mas ele nunca comentava isso com Sirius, para não desanimá-lo, exatamente como o padrinho fazia com ele.

- Ai, isso dói!

Harry e Hermione sorriram divertidamente ao observar Rony ser atingido em cheio por uma bolinha de areia molhada. Agatha se dobrava de tanto rir, enquanto Rony ainda acariciava a bochecha atingida e cheia de areia. Hermione sorriu e se afastou para fazer um carinho no namorado.

- Você viu o que eu fiz? – Agatha perguntou a Harry, obviamente se sentindo orgulhosa de seu feito.

- Andou treinando em andorinhas, foi? – Harry retrucou incisivamente. Agatha fez um gesto negligente.

- Andorinhas são mais difíceis de se acertar do que seu amigo...

Harry suspirou profundamente, e levantou os olhos. No mesmo instante, notou que tinham chegado a um lugar que ele queria muito ir durante todas as férias. Obviamente não estariam ali se não estivessem tão distraídos. Nem ele ou Agatha tinham notado a qual lugar estavam indo, muito menos Rony e Hermione, que não tinham a mínima noção de que lugar era aquele, tampouco. Um segundo após Harry pensar isso, Rony se desviou de Hermione, que tentava limpar seus cabelos cheios de areia, e reparou no mesmo que o amigo.

- Ei, Harry, que lugar é esse?

Ele apontou para uma velha mansão em ruínas, alguns metros além de um amontoado de pedras verdes pelo limo do mar, que vivia molhando-as. Hermione também se virou para olhá-la, e seu olhar demonstrou claramente uma certa repugnância. Já Agatha, que se virou assim que Rony disse aquela frase, como se tivesse sido atingida por um balde de água gelada, tremeu dos pés à cabeça, e seus pequenos olhinhos se arregalaram tanto que dava a impressão que pulariam das órbitas.

- Vamos embora daqui, ‘Arry... – ela murmurou assustada, puxando a barra da bermuda do rapaz.

Harry não deu atenção à menina. Pela primeira vez, tinha chegado perto o bastante daquela casa, a "tal casa mal assombrada", ao ponto de ver que um caminho entre as pedras sujas de limo e coberta pelas plantas, que cresciam desordenadas, levava a um grande portão de ferro, com formas requintadas porém enferrujadas; atrás do portão, um enorme jardim a perder de vista, que conduzia às portas da mansão. Ele sentiu novamente aquele desejo de caminhar naquele jardim, entrar naquela casa, descobrir o que ela tanto escondia...

- Harry, você me escutou?

Como se tivesse sido trazido de volta de um transe, Harry deu um sobressalto e reparou que todos o olhavam. Rony tinha feito a pergunta, e o encarava intrigado; já Hermione o olhava como se lesse seus pensamentos e tivesse entendido tudo o que tinha acabado de passar pela sua cabeça; por último, Agatha continuava a puxar insistentemente a barra de sua bermuda, murmurando de olhos apertados para que saíssem dali. Harry não deu atenção a ela novamente.

- É apenas uma velha mansão em ruínas. – ele respondeu à pergunta de Rony, voltando seus olhos para a casa. – Há uma crença entre os moradores daqui de que ela seja...

- Mal assombrada! – Agatha exclamou esganiçada, finalmente parando de puxar a bermuda de Harry, e ocupando suas mãozinhas, agora, em tapar seu rosto. Hermione a olhou penalizada. – É ruim! Tem fantasmas aí... fantasmas maus!

Seu corpo tremia por um inteiro. Hermione desistiu de apenas olhá-la com pena e se aproximou da menina, abaixando-se e acariciando seus cabelos, tentando acalmá-la. A garota olhou para Harry, claramente dizendo que deveriam ir embora, mas Harry estava por demais excitado com a idéia de estar tão próximo daquele lugar para dar meia volta agora e simplesmente ir embora.

Sendo observado pelos amigos, ele caminhou até as pedras. O caminho que ele tinha visto de longe, no entanto, era bem mais acidentado. As heras e o limo cobriam-no por inteiro e, apesar de ser uma subida curta, não dava para se enganar que seria fácil; era bastante íngreme e por causa do limo deveria ser bastante escorregadia.

- Você vai subir? – a voz de Rony soou ao seu lado; Harry não tinha percebido que o amigo o tinha seguido.

- Vou.

- Não vá, você vai se machucar!

Harry não se importou com o alerta de Hermione lá atrás. Ele só sabia que queria muito subir aquelas pedras e chegar mais perto daquela casa. Nem que fosse apenas para olhá-la por alguns minutos. Era estranho, porque aquela casa, praticamente desmoronando, não deveria ser motivo algum de curiosidade, mas para Harry não; ele tinha uma enorme vontade de saber o que aquela casa escondia, fosse o que fosse.

Ele não estava enganado sobre a subida. Era tão, ou mais difícil do que pensara. Escorregou por umas duas ou três vezes no limo, mas não desistiu de maneira alguma; ele ouviu o palavrão que Rony soltou ao escorregar em uma pedra aparentemente segura e raspar o joelho. Quando Harry finalmente conseguiu chegar ao topo, viu que suas mãos estavam avermelhadas por terem amparado-o para se segurar nas pedras e havia alguns arranhões na batata da sua perna. Um minuto depois, Rony também chegou ao topo.

- Você não precisava ter me acompanhado. – Harry resmungou. O amigo sorriu jovialmente.

- Eu nunca perco uma de suas aventuras. Geralmente são as melhores.

Harry quase sorriu, mas reprimiu-se a tempo. Os dois olharam para as meninas lá embaixo. Hermione, de braços cruzados, olhava-os muito emburrada, às vezes fazendo gestos para que descessem. Agatha continuava com os olhos tapados pelas mãos.

- O que tem aqui de tão interessante, hein? – Rony perguntou, claramente animado, virando-se para observar o portão enferrujado a uns três metros de distância deles.

- Eu não sei. – Harry respondeu sinceramente, também se virando e começando a caminhar até o portão.

- Ah, fala sério, Harry! Por que você quis tanto vir aqui, então?

- Eu já disse que você não precisava ter vindo também. – Harry resmungou novamente, parando de andar quando ficou de frente ao portão. Rony bufou.

- Eu não estou reclamando...

Harry estava mais preocupado em observar o portão. Havia, ainda, alguns resquícios de dourado nele, mas em sua maioria, o ferro estava gasto e enferrujado. As grandes grades faziam curvas e se retorciam, cada vez mais, até culminarem no topo do portão, bem no alto, onde havia algumas inscrições ininteligíveis. Harry apertou os olhos para tentar enxergá-las, mas era quase impossível. Ele só conseguiu reconhecer, mais ou menos, a letra "G", mas também não tinha certeza disso.

- Wow... isso aqui deve ser bem velho, não? – Rony comentou.

Harry apenas confirmou. Não estava muito interessado nos comentários de Rony. Seus olhos se desviaram para o grande jardim, consumido pelo tempo, mas que provavelmente deveria ter sido, um dia, tão belo quanto aquele que o pai de Agatha cuidava. Havia estátuas velhas e cobertas por plantas, que não perdoavam nada, de maneira que o jardim estava virando uma mata, de tanto que as plantas estavam dominando-o.

Ele ouviu a voz de Hermione, distante, mas não ligou. Rony se afastou dele, e Harry também não se importou, tampouco. Ele abaixou seus olhos para a maçaneta e reparou que tinha a forma de um animal, mas o ferro estava tão lascado e enferrujado, que Harry teve que aproximar o rosto para tentar distingui-lo. No momento em que ele levou sua mão à maçaneta, ele ouviu a voz de Rony:

- Ei, Harry! Vem cá!

Ele suspirou aborrecido e se virou para ver Rony; o amigo encarava-o com uma expressão bastante ansiosa. Harry ainda se virou mais uma vez para o portão, olhou para o jardim além dele por alguns instantes, e depois deu meia volta e caminhou até chegar a Rony.

- Que foi?

Rony apenas apontou para baixo, e Harry, acompanhando-o, viu Hermione olhando-o realmente brava, enquanto Agatha se agarrava desesperada às suas pernas, e mesmo de longe dava para ver que ela tremia de medo e estava prestes a começar a chorar. Harry suspirou, sentindo-se um canalha, a culpa consumindo-o por dentro. E pensar que sempre havia algo que o impedia de ver naquela casa; era quase como se os deuses mancomunassem para que ele não entrasse ali. Como se as circunstâncias combinassem de impedi-lo de fazer algo proibido. Ele bufou e começou a descer as pedras, tomando cuidado para não escorregar e cair. Dessa vez, Rony também tomou mais cuidado e o seguiu.

Hermione os encarou com aquela cara "à la Profª. McGonnagal" que somente ela e a própria McGonnagal conseguiam fazer. Rony apenas deu de ombros, negando culpa. Harry abaixou seus olhos até Agatha, que ainda se agarrava às pernas de Hermione.

- Vamos sair daqui, Agatha. – ele murmurou no ouvido dela, abaixando-se para ficar do tamanho da menina.

Ela o olhou de esguelha com apenas um olho, temerosa.

- Verdade?

- Verdade. – ele sorriu.

Ela também sorriu, muito timidamente, e rapidamente se pôs a correr pela praia, na direção contrária à da casa. Harry levantou, endireitando-se, observando Agatha se afastar.

- Vocês não deveriam ter subido até lá. – Hermione recriminou Rony e Harry, olhando de um para outro.

- E você tem alguma razão para que não fôssemos? – Rony pressionou.

- E vocês têm alguma razão para que fossem?

- Esqueçam isso. – Harry interveio a discussão que já estava começando. – É somente uma grande bobagem minha.

E ele começou a caminhar na mesma direção que Agatha fora, tentando alcançá-la. Foi estranho o que aconteceu depois; ninguém falou muito, exceto Agatha, que tinha o costume de falar demais quando estava tensa. Parecia que a tal casa, mesmo que não fosse "mal assombrada", deixou no ar um clima muito esquisito. Quando eles estavam quase chegando à mansão dos Kendals, Agatha parou de andar e se virou para os garotos, olhando diretamente para Harry. Seus olhinhos estavam um tanto quanto ansiosos e assustados.

- Não volte lá, ‘Arry...

Rony e Hermione se entreolharam, para depois olharem para Harry, que ficou sem jeito. Ele sabia que Agatha se referia à velha mansão em ruínas. E era estranho como, mesmo que o conhecesse há pouco tempo, Agatha já percebesse alguns dos seus hábitos e adivinhasse que Harry tinha o desejo de visitar aquela casa.

- Agatha, eu...

- Não vá! – ela pediu de novo, sua voz fininha vacilando. – É ruim... Dizem que há coisas ruins lá dentro... Não vá...

E depois de dizer isso, ela correu na direção de sua casa, sem ao menos se despedir. Hermione a olhou com um pouco de pena, enquanto Rony apenas levantou as sobrancelhas e fez uma careta.

- É. Agora estou curioso para saber o que tem lá dentro também.

Hermione o encarou com um ar de desimportância.

- Pois eu não vi nada de interessante lá. Na verdade... – ela mudou sua expressão facial, tomando um ar de certa forma quase tão assustado quanto o de Agatha. - ...aquele lugar me deu arrepios...

- Você não acreditou nessa história de que lá é mal assombrado, acreditou? – Rony perguntou pasmo. – Porque há fantasmas em Hogwarts e ninguém tem medo deles! O.k., algumas pessoas têm medo do Barão Sangrento, mas não é nada com que se preocupar.

- Eu sei disso, Rony! Só estou querendo dizer que não gostei daquele lugar! Parece ser mesmo... ruim. Foi como se algo estranho pairasse no ar...

- Credo. Tá ficando supersticiosa agora, Hermione? – Rony perguntou, utilizando seu melhor tom de provocação. – Tá ficando igual à Trelawney?

- CALA A BOCA, RONY!

Harry, que até o momento apenas observara, resolveu interferir:

- Não precisam se preocupar com aquela casa, tá bom? Eu já disse que é uma bobagem minha.

No entanto, Hermione notou que ele não estava muito decidido ao afirmar aquela frase.

- Ah, é mesmo, Harry? E você vai simplesmente esquecer? Não vai mais ir até lá?

Alguns instantes de silêncio. Rony falou primeiro.

- E se ele for? Qual o problema de ir até lá?

- O problema é que aquele não me pareceu um bom lugar! E além disso, os habitantes daqui dizem que...

- E você vai acreditar nessas histórias? – Rony retrucou. – Eles são trouxas, Mione, não sabem que não existem "casas mal assombradas".

Hermione, no entanto, apenas se virou para Harry, seus olhos mirando-o intensamente.

- O que o Sirius diz disso?

- Como?

Rony também parecia tão intrigado quanto Harry.

- Aonde você quer chegar, Mione?

Ela cruzou os braços, revirou os olhos e bufou.

- Estou querendo saber se Sirius também acredita nessas histórias.

- É claro que ele não deve acreditar! – Rony disse.

- Mas... – Harry começou, e os dois pararam de discutir entre si para prestar atenção nele. – Ele sempre diz para eu ficar longe de lá... – ele completou, já arrependido de ter confessado aquilo. – Aliás... seria melhor se vocês não comentassem que fomos até a casa.

- Ah, há! – Hermione exclamou de um jeito muito irritante. Rony deu um salto e a olhou como se ela fosse doida. – Eu sabia que havia algo ruim lá!

- Virou vidente?

- Fica quieto, Rony!

- Olha, se tem algo ruim lá ou não, eu não sei! – Harry exclamou. – Mas alguma me diz que eu deveria entrar lá... ver o que tem lá dentro... sei lá, eu...

- Isso se chama curiosidade! – Hermione falou. – E a curiosidade matou o gato!

- O quê? – Rony perguntou sem entender.

- Deixa pra lá... – ela abanou as mãos como se espantasse uma mosca.

- Pois eu acho que se chama "espírito de aventura".

- E eu sei onde nosso "espírito de aventura" já nos levou. – Hermione completou a fala de Rony e depois se virou para Harry: - Se até mesmo o Sirius disse pra você não ir lá, seria melhor não ir, Harry...

- Eu não entendi a parte do "até mesmo", Mione.

- Nem eu. – Rony disse rabugento.

Mais uma vez, Hermione revirou os olhos.

- Digamos que o Sirius tem um "espírito de aventura" tão grande ou ainda maior do que o nosso aqui, afinal, até fugir do Ministério em um hipogrifo roubado ele já fez. – ela explicou como se aquilo fosse uma complicada matéria de Transfiguração. – E se até ele não quer que você vá àquela casa, seria melhor você não ir, Harry.

- Mas se for... – Rony disse, sorrindo. – Depois me diz o que tinha lá dentro.

Hermione deu um sonoro tapa no braço do namorado, e o assunto foi encerrado.

 

*******

 

Sirius bateu sua taça de vinho na mesa, rindo.

- E aí o Harry teve que vir dirigindo até aqui porque eu não estava em condições... Vocês acreditam?

- Ei, você não contou essa parte pra mim no dia do teste de aparatação, Harry! – Rony reclamou.

- É só porque eu não quis denegrir ainda mais a imagem do Sirius contando como ele ficou bêbado... – Harry respondeu, bebericando, também, sua própria taça de vinho.

Eles tinham acabado de jantar. Sirius trouxe coisas realmente gostosas de Freshpeach, e estava tão animado após a quarta taça de vinho, que Harry estava começando a achar que ele fosse ficar igual ao dia do seu aniversário. Hermione também tinha bebido quase duas taças, e suas bochechas tinham ficado ligeiramente rosadas. Na verdade, os únicos que ainda continuavam totalmente sãos eram Harry e Rony.

- Mas deve ter sido bem engraçado! – Hermione riu. – Imagine só, e você teve que carregá-lo sozinho, Harry?

- Erm... bem... uma pessoa me ajudou.

Ele esperava que eles não perguntassem quem tinha sido. Estava com medo, desde que a conversa sobre seu aniversário tinha começado, que chegassem nessa parte, qualquer parte em que fosse inevitável comentar sobre seu espinhoso encontro no pub. Rony, infelizmente, pareceu ter percebido a confusão do amigo.

- E quem foi?

Harry abriu a boca, tentando pensar rapidamente numa história convincente, quando Sirius lhe fez o favor de responder à pergunta de Rony:

- Foi aquela garota, não, Harry? Aquela nervosinha...

- Uma garota? – Rony repetiu, agora bem mais interessado do que antes.

Hermione apenas piscou intrigada, suas bochechas ainda avermelhadas por causa do vinho.

- Sirius, você estava bêbado! – Harry falou. – Não tem como lembrar de nada daquela noite.

- Ah, Harry, quantas vezes eu tenho que te dizer que eu não esqueço tudo? Fico um pouco... hum... grogue, mas ainda lembro de algumas coisas... – ele sorriu marotamente. – E lembro perfeitamente que você estava com uma garota.

- E ela era bonita? – Rony perguntou mais interessado ainda.

Hermione fechou a cara.

- E o que isso lhe importa?

Rony sorriu enviesado, deu de ombros e continuou olhando para Harry muito animado.

- E aí?

- Se todos vocês já terminaram... – Harry disse, tentando mudar o rumo da conversa, levantando-se e começando a apanhar os pratos. - ...eu vou levar essas coisas pra cozinha.

- Ah, Harry, eu faço isso. – Sirius falou, sacando a varinha.

Harry segurou a mão dele, impedindo-o.

- Eu faço isso, Sirius. Não quero que quebre os pratos.

- Eu não ia!

- Escuta... por que você não deita no sofá? Te garanto que em cinco minutos já vai ter dormido...

- Não vou, não!

- Eu aposto que vai. – Harry respondeu calmamente, enquanto Rony e Hermione olhavam dele para Sirius como se assistissem uma partida de tênis.

Sirius se levantou, decidido, e sentou no sofá de braços cruzados, olhando em desafio para o afilhado, que sorriu.

- Eu não entendi. – Rony confessou, olhando abobado para Harry.

O rapaz puxou a varinha, fez um aceno e murmurou "Vingardium Leviosa", fazendo os pratos, as travessas, os talheres e os copos flutuarem. Ele caminhou até a cozinha e depositou tudo sobre a mesa e a pia assim que chegou lá. Dois minutos depois, Rony e Hermione se juntaram a ele.

- Agora eu entendi... – Rony falou assim que entrou.

- Ele já dormiu? – Harry perguntou, enquanto depositava com cuidado os pratos na pia e fazia um aceno com a varinha para que eles começassem a se lavar sozinhos.

- Despencou para o lado no sofá três minutos depois que se sentou lá. – Hermione disse, sentando-se em uma das cadeiras da mesa. – Escuta, Harry, você pode pegar um copo d’água pra mim? Estou um pouco tonta...

- É claro, não está acostumada a beber! – Rony falou, sentando-se ao lado da garota na mesa. Harry pegou um copo d’água para a amiga e também se sentou, de frente a ela.

- Vocês também não estão! – Hermione reclamou. – Ah, obrigada, Harry... – ela disse quando o rapaz passou a ela o copo com água.

- Eu sempre bebo vinho lá em casa quando comemoramos alguma coisa... – Rony disse. – A única que não bebe nada é a Gina, porque minha mãe não deixa.

- Anh... eu só bebi uma taça. – Harry disse, tentando rapidamente desviar a conversa de Gina. – Aquele porre de vinho que eu tomei quando o Sirius foi declarado inocente no julgamento dele me ensinou uma lição...

- Ei, mas a gente não terminou a conversa da sala, Harry! – Rony, infelizmente, lembrou.

- Sobre a garota do pub? – Hermione perguntou, sem se importar muito. – Existem várias garotas em um pub, é óbvio que Harry encontraria alguma lá.

- É, e é por isso que eu quero saber como foi! – Rony exclamou.

Hermione olhou feio de Rony para Harry.

- Vocês não vão começar a ter aquele tipo de conversa ridícula entre garotos sobre garotas e me excluir, vão?

Harry riu. Rony também, mas ele abraçou Hermione logo depois disso.

- Mionezinha, nós nunca te excluiríamos de uma conversa... – ela olhou desconfiada para ele, mas um meio sorriso apareceu nos seus lábios. – Mas é claro que se você quiser pegar um livro na estante do Harry para ler, nós não faríamos objeção alguma...

- O QUÊ? – ela exclamou, afastando-o. – Ora, seu... seu...

Rony caiu em gargalhadas. Harry, que também estava rindo, interferiu:

- Ele só estava brincando, Mione... É claro que é pra você permanecer aqui com a gente...

Ela não foi embora, mas cruzou os braços, fez uma cara muito emburrada e, quando os garotos começaram a conversar novamente, ela virou os olhos para o outro lado, como se não se importasse com a conversa.

- E como era a garota, Harry? – Rony insistiu, ansioso. Harry, pelo contrário, estava bem desanimado.

- Bem... na verdade nem foi um encontro... foi por acaso...

- Como? Vai dizer que você estava com uma garota e nem deu uns amassos nela?

Hermione olhou mortalmente para Rony, que nem percebeu de tão entretido que estava em reclamar com Harry.

- O que há com você, Harry? Ela não era bonita?

- Bem... erm... ela... – Harry não tinha a mínima idéia de como responder. Sentia que estava se enrolando cada vez mais. – Bem, Rony, é que ela...

- Nós a conhecemos? – Hermione, que estava fora da conversa, perguntou de supetão.

- O que te faz pensar isso? – Harry engasgou.

- Ora, você está tão relutante em contar que parece que é algo terrível!

- Sabe que essa é uma nova perspectiva da história? – Rony comentou pensativo.

- É claro, porque eu sugeri. – Hermione disse pressurosa. – Você não sugeriria algo assim, Rony.

- EI!

Harry levantou, apanhou um copo de água para si mesmo, voltou a se sentar e todo esse tempo deu abertura para uma discussão calorosa entre os seus amigos. Eles só pararam quando Hermione parou de falar com Rony e se virou para Harry:

- Você não respondeu se nós a conhecemos.

- Bem... – Harry começou, passeando a ponta dos dedos pela borda do copo. – Mais ou menos...

- Não existe "mais ou menos". – Hermione prosseguiu. – Ou nós a conhecemos, ou não.

- Erm...

- Ela é de Hogwarts? – Rony perguntou.

- Bem... é...

Os dois arregalaram os olhos e se entreolharam.

- De que ano?

- De que Casa?

Harry olhou de Hermione para Rony, e depois voltou a encarar seu copo d’água pela metade. Suspirou. Ele teria mesmo que contar quem encontrara naquele pub? Não bastava ter sido ruim, ele ainda teria que repetir? Ele daria tudo para que Sirius tivesse dormido antes de começar aquela conversa.

- Bem, primeiro eu tenho que alertá-los de que foi algo totalmente inesperado, inevitável e que eu definitivamente não queria que nada daquilo tivesse acontecido.

- Nossa.

- Você fala como se tivesse acontecido algo muito ruim! – Rony falou assustado. – Como se tivesse encontrado Snape, ou coisa assim...

Hermione riu em deboche.

- Você tá doido, Rony? Snape não vai a lugares assim!

Por um segundo, Harry imaginou seu professor de Poções dançando no meio do pub com alguém tão extravagante quanto Lauren, por exemplo. Rapidamente, apagou aquilo da cabeça, antes que começasse a rir descontrolado.

- Tá, mas foi tão ruim assim, Harry? – Rony perguntou, definitivamente terrificado.

- Mais ou menos...

Não tinha sido horrível, Harry pensou. Mas tinha sido estranho. Talvez ele estivesse exagerando, não foi como se ele tivesse ficado com ela, ele apenas tinha sentado numa mesa de amigos, conversado, bebido e... dançado com ela, mas isso ele poderia omitir na hora de contar para os amigos. Mas... foi estranho. Com certeza.

- De que ano ela era? – Hermione perguntou novamente.

- Do nosso ano...

- Oh, então nós a conhecemos mesmo!

- De que Casa, Harry? – foi a vez de Rony. – Grifinória?

- Não...

- Corvinal? – Hermione arriscou.

- Não...

- Lufa-lufa?! – Rony fez uma careta um tanto esquisita.

- Erm... também não...

- Então de que Casa? – Rony perguntou, abrindo os braços, sem entender. Hermione deixou o queixo cair, entendendo.

- Eu não acredito...

Harry escorregou um pouco na cadeira. Aquilo não estava indo bem...

- Eu ainda não entendo! – Rony exclamou.

- Ô, esperto! – Hermione deu umas cutucadas na cabeça de Rony. – Temos quatro Casas em Hogwarts, não três!

Harry escorregou mais um pouco... estava quase ficando no nível da mesa...

- É claro que nós temos quatro Casas, Mione! Grifinória, Corvinal, Lufa-lufa e... e... e...

Harry tinha quase escondido a testa debaixo da mesa quando Rony gritou:

- SONSERINA!!!

Harry deixou escapar uma exclamação veemente.

- VOCÊ SAIU COM UMA SONSERINA?! – Rony perguntou lá de cima.

Lentamente, Harry se ajeitou um pouco na cadeira, e conseguiu ver um pedaço do rosto totalmente pasmo do amigo. Hermione, ao lado dele, parecia ter acabado de descobrir que tinha tirado zero no exame de Feitiços. Completamente chocada.

- Bem... você não está colocando as palavras corretamente... – Harry tentou se explicar. – Eu só encontrei uma sonserina, casualmente, em um pub.

- Quem era ela? – Hermione perguntou, saindo do seu transe.

Harry se ajeitou melhor na cadeira e encarou os amigos com um sorriso amarelo no rosto.

- Vocês têm certeza de que querem mesmo saber?

- Agora que começou, termina, criatura! – Rony falou.

- É claro que nós queremos saber, Harry!

Ele suspirou profundamente, fechando os olhos. Quando os reabriu, Rony e Hermione não tinham sumido como ele planejara.

- Bem, o nome dela... ela... erm... ela é...

- Desembucha! – Rony exclamou com as orelhas vermelhas.

- Katherine Willians!

Harry disse aquele nome tão rápido, e Rony e Hermione ficaram tão paralisados, que ele pensou que tivesse atingido os dois com algum estranho e ainda desconhecido feitiço de petrificação. Ele estalou os dedos na frente dos dois, e eles se entreolharam, ainda chocados.

- Katherine...

- Willians. – Hermione completou a frase de Rony. – Willians? – ela se voltou para Harry. – Aquela nojenta?

- Bem... ela... foi. – Harry disse sem jeito. – Mas vejam bem, eu não planejei isso! Não sabia que logo ela estaria lá! Foi completamente casual! E sublinha bem esse "casual"! Eu só estava lá e... ela apareceu! Puf! Do nada!

Rony piscava umas três vezes por segundo.

- Se você disser que ela estava acompanhada do "simpático" primo dela, eu nunca mais reclamo da minha vida.

- Não, ela não estava. – Harry disse aliviado. – Graças a Deus.

Hermione continuava totalmente inconformada.

- Aquela... coisinha nojenta! Eu não acredito... Mas como aconteceu, Harry? Você disse lá na sala que... ela te ajudou a carregar o Sirius?

Harry sentiu que teria que contar mais coisas do que planejara. Mas agora o estrago estava feito, e não adiantava tentar remendar. Ele contou o que acontecera no pub, e como foi praticamente obrigado a sentar na mesma mesa que Katherine Willians. Obviamente, ele omitiu a parte que foi não menos obrigado a dançar com ela. No final de sua narrativa, Rony e Hermione estavam ainda mais chocados do que no começo, se isso era possível.

- Mas... pelo menos... ela é diferente fora de Hogwarts? – Rony perguntou.

- Diferente como?

- Ah, Harry, você sabe... – Rony fez umas caretas significativas. – Diferente! – ele fez uma forma arredondada com as mãos. Harry entendeu e quase riu.

- Bem... – ele coçou a cabeça, tentando analisar. – Não é de se jogar fora, entende?

- Entendo... – Rony sorriu marotamente.

- Mas eu não. – Hermione disse, olhando de um para outro. – Do quê vocês estão falando?

- É melhor você não saber.

- Confie nele. – Harry completou, rindo.

- Humpt! – ela exclamou, cruzando os braços. – O fato é que ela é aquela completa babaca da Willians!

- Entendem agora por que eu não queria contar? – Harry finalizou, desanimado.

- Ei, mas... e ela? – Rony perguntou. – O que ela achou disso tudo? Será que vai comentar alguma coisa em Hogwarts?

- É claro que não! – Harry falou, mas sentindo-se um pouco temeroso. – Bem, ela disse que não iria... Além disso, ela ficou tão irritada quanto eu.

- Acho que não é do interesse dela sair comentando por Hogwarts que te encontrou, Harry. – Hermione comentou. – Vocês dois estão na mesma situação, pelo que parece.

- E que situação esquisita, não?

- Muito esquisita... – Harry completou, bebericando seu último gole d’água.

Mas, pensando calmamente agora, Harry achou que poderia ter sido pior... Até que não tinha sido tão horrível. Mas não deixava de ser esquisito.

Nota da autora: Peço mil desculpas pela demora de atualização... Sei que estou abusando da paciência de vocês, né? Disculpaaaaaa!!! :) Bem, vocês sabem... eu viajei, voltei às aulas, tive um pequeno bloqueio... muitas coisas, não? Mas agora voltei e espero não demorar mais tanto tempo assim... hehehe Bjks!

No próximo capítulo: Finalmente, Harry consegue visitar a "casa mal assombrada". E descobre coisas com as quais jamais imaginara, coisas que dão um rumo totalmente novo à tudo que ele achava sobre a Praia das Andorinhas. E ele e Sirius têm a pior discussão de suas vidas...

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