Capítulo Três – O teste de aparatação

 

Uma brisa suave batia no seu rosto. Alguns raios de luz ofuscavam seus olhos, e ele os fechou ainda mais. Não, ainda não queria acordar...

Virou-se na cama, mas parecia que a luz enchia ainda mais o ambiente. Não havia escapatória. Resmungou e abriu os olhos, lentamente, piscando algumas vezes para se acostumar com a claridade.

Parecia que ele tinha levado uma surra. Seu corpo estava tão cansado, que ele se admiraria se conseguisse se levantar. Lentamente, sentou-se na beirada da cama, observando com repreensão a janela que tinha esquecido aberta na noite anterior e por onde, agora, penetrava no quarto toda aquela luz. Sua cabeça doeu ligeiramente. Lembraria-se de duas coisas de agora em diante: fechar a janela antes de dormir e nunca mais acompanhar Sirius quando ele resolvesse sair de madrugada.

A casa estava silenciosa, e o único som que Harry ouvia era o de seus próprios passos. Sirius, é claro, ainda deveria estar dormindo. Harry não se admirava; acharia esquisito se ele já tivesse acordado. Depois do tremendo porre que o padrinho tinha tomado na noite anterior, Harry nem queria pensar na hora em que ele acordaria.

A água estava gelada quando ele abriu a torneira e molhou as mãos, jogando um punhado de água no rosto. Olhou-se no espelho e viu seu rosto ligeiramente embaçado. Saco, tinha esquecido os óculos no quarto!

Cinco minutos depois, os dentes já escovados e o mundo não mais desfocado (ele tinha posto os óculos), Harry estava na cozinha, preparando um café. Não era difícil, mas também não saía muito bom. De qualquer maneira, não precisava que estivesse bom naquele dia; só precisava estar forte e amargo. Pelo menos era o que a Sra. Weasley recomendava para quem tivesse bebido.

Harry ainda não conseguia acreditar que tivesse conseguido voltar para casa. Sirius não foi de ajuda nenhuma; pelo contrário, só atrapalhou. Ele dormiu durante toda a viagem, e Harry teve que se virar sozinho. Pelo menos, Harry poderia ter vários defeitos, mas uma qualidade sua era ser safo. Se não fosse por isso, ainda estaria rodando com o carro pelas estradas.

O.k., demorou bem mais tempo do que demoraria se Sirius estivesse bem e pudesse dirigir, mas ainda assim, Harry não imaginou que fosse encontrar o caminho certo para Freshpeach antes do amanhecer. Tinham saído do pub lá pelas quatro da manhã, e Harry, perguntando aqui e ali, e dirigindo sem usar todos os recursos mágicos do carro (ele não sabia como fazê-lo), conseguiu chegar em casa um pouco antes das seis. Já era um progresso.

Harry olhou para a janela da cozinha e pôde ver, através dela, a praia. O mar estava revolto, quase como estivesse com a mesma ressaca que o rapaz. Não tinha saído para caminhar essa manhã, e já era muito tarde para fazê-lo. Imaginou se Agatha viria visitá-lo mais tarde, reclamando com sua voz fininha por ele não ter ido distraí-la como sempre fazia pelas manhãs.

Quando Harry entrou no quarto de Sirius, levando duas xícaras de café quente e sem açúcar, o padrinho estava dormindo a sono solto, de bruços, e o lençol sobre seu corpo estava quase caindo no chão. Harry depositou as duas xícaras na mesa de cabeceira. Olhando para o padrinho, ele percebeu que Sirius não lembrava nem de longe aquele fugitivo de Azkaban, sujo e maltratado, que ele conheceu na Casa dos Gritos, em Hogwarts. Seus cabelos não eram mais compridos e desgrenhados, e sua barba não estava por fazer. Apesar das cicatrizes que a vida lhe infringiu, Sirius estava muito mais parecido, agora, com aquela antiga foto que Harry tinha do casamento de seus pais. Harry sorriu. Sirius merecia isso, depois de tudo que já tinha passado.

O rapaz se aproximou da janela fechada (pelo menos ele não tinha esquecido de fechar aquela na noite anterior), mas antes de abri-la, ele parou em frente a um grande espelho que Sirius tinha no quarto, na frente do armário. Por alguns instantes, Harry se olhou, como não fazia há muito tempo. Ficou impressionado em como estava ficando igual às fotos que tinha do seu pai. Os mesmíssimos cabelos despenteados, que se eriçavam na nuca... a mesma forma do rosto, tirando o nariz, em que era quase imperceptível a diferença; a altura, as suas mãos... Somente os olhos, verdes como os da sua mãe, e a cicatriz eram diferentes, as suas marcas registradas. Também não era mais aquele garoto magricela, com a aparência esquisita de quem crescera muito rápido em pouco tempo; Harry sorriu ao ver que seus cabelos estavam ligeiramente maiores, e a franja caía nos olhos. Até que não estava tão mal assim. Lembrou-se, com satisfação, de Lauren, no dia anterior, dizendo que ele era "uma gracinha". Pelo menos era uma gracinha...

As cortinas produziram um barulho levemente irritante e enjoativo quando Harry as fez correrem; a luz do sol pálido de lá de fora penetrou no quarto, iluminando-o por inteiro e, com um sorriso maldoso de satisfação, Harry ouviu seu padrinho resmungar e se virar na cama. Quando se virou para olhá-lo, Sirius tinha coberto a cara com o travesseiro.

- Não tem ninguém em casa, volte amanhã! – Sirius chiou alto, assim que Harry arrancou o travesseiro da sua cara, já gargalhando. – Isso não tem graça... – ele reclamou, olhando para Harry com repreensão.

- Chega pra lá! – o rapaz falou, sentando-se na beirada da cama que Sirius tinha deixado (um tanto à contragosto) para ele. Harry pegou uma das xícaras e deu uma bebericada, fazendo uma careta, mas continuou a beber.

Sirius se sentou na cama e encostou nas grades da cabeceira dela, olhando feio para ele com seus olhos ainda nebulosos de sono. Seus cabelos estavam tão despenteados quanto os de Harry e, naquele momento, os dois poderiam competir. Harry imaginou com um sorriso divertido o que diria tia Petúnia se visse uma casa tão bagunçada quanto a deles.

- Por que você fez isso? – o padrinho perguntou, passando as mãos pela cabeça com uma careta de dor. Harry sabia que, se a sua cabeça estava doendo, a de Sirius deveria estar explodindo de dor, já que ele tomou pelo menos o triplo de bebidas a mais que Harry.

- O quê? – Harry retrucou distraidamente, ainda bebericando o café.

- Me acordou!

- Eu não ia ficar perambulando pela casa sozinho o dia todo...

- Que perambulasse na praia, então! E me deixasse aqui, feliz e contente na minha cama, aproveitando meu sono sem dor de cabeça...

Harry riu. Sirius piscou e o encarou.

- Você me acordou de propósito, seu moleque folgado!

Harry riu novamente, mais alto dessa vez.

- É claro, você acha mesmo que perderia essa chance? AI!

Sirius tinha jogado o travesseiro na sua cabeça e, com um murro no ar, ele exclamou:

- Um ponto para o Almofadinhas!

Harry fez uma careta e colocou sua xícara vazia na mesa de cabeceira. Sirius a encarou negligentemente.

- O que é isso? – apontou para a xícara que Harry tinha trazido para ele, ainda cheia.

- Seu café. Eu preparei pra você.

- Ah, não! – Sirius fingiu um tom aborrecido. – Primeiro me acorda e depois quer me envenenar!

Harry ignorou-o e se encostou nas grades que ficavam aos pés da cama, de maneira que pôde encarar o padrinho de frente. Apesar da reclamação, Sirius tinha apanhado sua xícara e cheirou-a como um cão.

- Tem certeza de que não tem nada suspeito aqui?

- Misturei pó de fura-frunco no café, mas o gosto ainda é o mesmo... – Harry respondeu displicentemente, como se estivesse falando sério.

- Ótimo. – Sirius murmurou e começou a bebericar o café, fazendo uma careta horrível. – Isso tá amargo!

- É claro, tá sem açúcar.

Sirius fez uma outra careta, mas dessa vez não discordou. Por alguns instantes eles não se falaram, e Harry encarou pensativo a janela que, como a do seu quarto, dava numa sacada, até que Sirius retomou a palavra.

- Ei, Harry... – o rapaz o olhou; Sirius ainda bebericava o café. – Acaba de me ocorrer... como voltamos para casa ontem?

Harry sorriu marotamente.

- Você realmente não imagina como?

O padrinho pensou por alguns instantes; subitamente, seus olhos se arregalaram e ele cuspiu o café que estava na sua boca fazendo barulho; algumas gotas salpicaram o lençol branco. Harry percebeu que ele tinha compreendido.

- Eu... não acredito! Você!

Harry fingiu-se ofendido.

- E por que não?

- Por que não? – Sirius repetiu, depositando a xícara na mesa de cabeceira, e agora parecia verdadeiramente alarmado e nervoso. – Isso não poderia ter acontecido! Você voltou... sozinho! Por aí... – ele levou as mãos à cabeça. – Se souberem que eu permiti isso...

Agora Harry estava intrigado; por que Sirius tinha ficado tão nervoso? O rapaz se ajeitou na cama para enxergar melhor o padrinho.

- Do que você está falando?

- Sozinho, eu não posso acreditar que deixei isso acontecer... – Sirius murmurava, ignorando completamente o afilhado. – Se descobrirem... eu estou ferrado! Completamente... – e ele falou um palavrão em voz alta, batendo em seguida o punho direito na mesa de cabeceira, fazendo as xícaras mexerem-se perigosamente, e a que era de Harry caiu com estrondo no chão, partindo-se em mil caquinhos. O rapaz arregalou os olhos e engoliu em seco. – Vão dizer que sou um padrinho irresponsável, que nunca deveriam ter me devolvido sua guarda... AH, droga, pior que eu sou irresponsável mesmo por ter deixado isso acontecer!

Harry pulou a xícara quebrada no chão para chegar até Sirius. Chocalhou-o com força, tentando fazê-lo voltar à realidade.

- ... completamente irresponsável, até para os meus padrões... como deixei acontecer? O que Molly diria? Gritaria no meu ouvido até eu ficar surdo...

- SIRIUS!

Ele parou de resmungar para si mesmo e olhou para Harry assustado, como se tivesse esquecido sua presença. Harry parou de chocalhá-lo, e Sirius levou as mãos à cabeça novamente, parecendo um pouco tonto.

- Ai, tá doendo mais agora...

- Sirius, por que você está tão preocupado assim? – Harry perguntou sem entender. – Nós estamos aqui em casa, não é?

- Mas dirigiu sozinho desde Londres até aqui! – Sirius retorquiu, como se Harry não estivesse entendendo sua língua. – Sozinho! Como eu pude ser tão... ah, droga!

- Eu sei dirigir, você me ensinou, Sirius! Além disso, nem foi difícil achar o caminho para Freshpeach, eu...

- HARRY! – Sirius bateu novamente o punho na mesa, e a segunda xícara caiu, estatelando-se no chão. Harry se calou; por um segundo, Sirius pareceu assustador. – Será que você não entende?

- Como ass...?

Sirius se levantou irritado, e começou a andar de um lado para outro no quarto, fervilhando de nervosismo. Harry apenas o acompanhava com os olhos, esperando o momento em que ele abriria um buraco no chão. Ainda não entendia por que Sirius estava tão nervoso, mas era melhor ficar calado até que ele se acalmasse um pouco.

- Ah, Harry... – ele suspirou, depois de dar muitas voltas pelo quarto, e Harry percebeu com alívio que seu tom estava mais ameno. – Será que a estadia aqui nessa casa, nesse lugar, fez você esquecer o que estamos vivendo? O mundo lá fora?

Finalmente Harry entendeu aonde o padrinho queria chegar, e isso apenas fez que seu ânimo, ultimamente tão bom, caísse até atravessar o chão e atingir o primeiro andar. Sirius observou, desanimado, o afilhado deixar-se cair sobre a cama desarrumada. Harry não queria pensar nisso, e fazia um esforço tão grande para esquecer tudo o que descobrira no final do seu sexto ano em Hogwarts desde o início das férias, que ele chegou a pensar que sua cabeça racharia ao meio de tanto esforço. Só de pensar nas coisas que Dumbledore lhe disse, confirmando todos os seus temores, Harry começava a ter náuseas. Era terrível lembrar que aquilo que ele e Sirius estavam vivendo naquela praia era apenas uma ilusão e que logo acabaria. Era ainda mais terrível lembrar que, lá fora, as coisas ainda aconteciam, e Voldemort continuava com seu reino de terror.

Pior do que tudo isso era lembrar que Voldemort não era apenas um inimigo... era seu avô... pai de sua mãe, Lílian...

- Harry... – ele ouviu a voz do padrinho, bem mais serena, e também sentiu o colchão sobre si afundar ligeiramente quando Sirius se sentou ao seu lado. Harry não o olhou. – Eu sei que...

- O que você acha, Sirius? – Harry perguntou, esforçando-se para usar um tom displicente, mas ele mesmo sentiu sua voz tremendo. – Você acha que Voldemort iria aparecer lá no pub, talvez vestido de "drag queen", e então ele pediria uma bebida e, talvez, depois de algumas doses, ele apontaria a varinha para mim e me mataria?

Ele ouviu Sirius suspirar longamente.

- Isso não é uma piada, Harry...

- Ah, é mesmo? – o rapaz desafiou, sentando-se rapidamente na cama e encarando o padrinho com grosseria. Harry sentia como se seu sangue borbulhasse dentro das veias. – E então, o que você quer que eu diga? Que eu vou me comportar e ficar quieto, como um covarde?

- Você não é covarde!

- ...só porque um maníaco me persegue desde que eu tinha um ano de idade? Sirius, se eu fizesse isso, minha vida teria sido pior do que já é!

Sirius não disse nada por alguns instantes, virou o rosto e encarou muito atentamente o lençol da cama. Harry viu que ele mordia o lábio inferior.

- Você precisa entender...

- Eu não preciso e nem quero entender nada, o.k.? – Harry falou grosseiramente, levantando-se e ficando de costas para o padrinho.

- Você vai me escutar e vai ficar quieto! Agora sou eu que vou falar! – Sirius falou mais alto, em um tom que não admitia contestação. Harry não se virou e bufou. – Olha pra mim, Harry!

O rapaz não respondeu, nem se virou.

- OLHA PRA MIM!

A próxima coisa que ele sentiu foi Sirius segurando seu braço esquerdo com força e puxando-o violentamente, fazendo com que Harry se sentasse ao seu lado de novo. O susto fez Harry encarar o padrinho por um segundo, mas logo após ele virou a cara. Sirius não precisava ficar tão histérico assim, e Harry simplesmente não entendia por que ele estava dando esse ataque, se jamais fizera algo parecido alguma vez. O.k., teve uma ocasião em que ele mandou um berrador de estourar os tímpanos para o afilhado, mas ver Sirius histérico pessoalmente era bem mais assustador.

O padrinho soltou seu braço e suspirou, parecendo ligeiramente envergonhado pelo seu modo de agir anteriormente. Harry apenas encarou as xícaras quebradas no chão. Ele sentiu quando Sirius suspirou mais fundo e ouviu sua voz, novamente mais calma, mas, assim como a de Harry antes, ela tremia.

- Harry, você sabe muito bem o que está acontecendo... Nós estamos no meio de uma guerra contra Voldemort. As coisas estão péssimas por aí, mas...

- Mas nós viemos para cá, Sirius... – Harry interrompeu, sentindo a necessidade de falar. – E eu me lembro da conversa que tivemos no noite do dia em que chegamos aqui...

Ele ouviu, novamente, Sirius respirar mais fundo, mas o padrinho não disse nada, tampouco. Harry fechou os olhos, repassando mentalmente aquela noite, em que ele e Sirius sentaram-se na varanda, observando a noite estrelada daquele dia, e as ondas quebrando na praia.

- Você disse... – Harry recomeçou a falar, mas ainda com os olhos fechados. - ...que você resolveu me trazer para cá para esquecermos um pouco o mundo lá fora... que devíamos, pelo menos uma vez, deixar os velhos problemas de lado, e tentar... como você disse? Nos divertir... Viver um pouco. E é por isso que nós nem recebemos o Profeta Diário, não é?

Quando ele abriu os olhos, viu que Sirius sorria tristemente para baixo, mexendo distraído no lençol da cama.

- Eu disse...

- Disse! E é só o que eu tenho tentado fazer, Sirius!

Ele riu baixinho.

- Eu sei... Eu já tinha pensado nisso há séculos, mas imaginei que Dumbledore não permitiria... No entanto, ele adorou a idéia; disse que lhe faria bem... refrescar a cabeça... depois do que aconteceu...

A princípio, Harry não notou, mas passados alguns segundos, pareceu que ele acordou bruscamente e seu cérebro começou a funcionar. Ele abriu os olhos e encarou o padrinho que, por sua vez, encarava o chão sem vê-lo realmente. As últimas palavras de Sirius – "depois do que aconteceu" – despertaram Harry para algo que ele não tinha comentado com o padrinho, ou sequer imaginado...

- Sirius... – ele se virou para olhar o afilhado. – Você sabe alguma coisa? Algo sobre... – Harry respirou fundo. - ...sobre o que aconteceu, sobre... o que eu e Dumbledore conversamos...

Sirius rapidamente desviou o olhar e se levantou com brusquidão. Harry ficou apenas olhando-o, intrigado. Será que Dumbledore tinha comentado algo com Sirius – ou talvez com mais alguém – sobre a conversa que ele e Harry tiveram no final do semestre anterior?

- Por que está perguntando isso?

Obviamente, Harry notou, Sirius queria desviar o assunto para águas menos perigosas.

- Ele te contou algo?

Sirius limitou-se a um som esquisito entre um resmungo e uma tossida, deu uma volta pelo quarto e encarou-se por um segundo no espelho, baixando os cabelos com a mão.

- Ainda sobrou coisas do seu aniversário, não foi? Eu estou começando a ficar com uma fome avassaladora...

- O que você sabe? – Harry insistiu, começando a se irritar com o cinismo do padrinho. – Sobre... o que aconteceu? Sobre... Samantha?

Foi como se um véu negro caísse sobre eles. Sirius parou no meio do seu ato de abaixar os cabelos; Harry podia ver a expressão dele através do espelho: Sirius tinha os olhos cerrados, quase frios, e uma expressão totalmente sombria no rosto. Era a mesma expressão que sempre fazia quando Samantha Stevens, sua antiga namorada e ex-professora de Harry em Defesa Contra as Artes das Trevas, era mencionada em alguma conversação. Só que agora a expressão estava pior. Harry não poderia culpá-lo; ele mesmo já sentira na pele do que Samantha era capaz, e vira muito bem, dentro de sua Penseira, o que ela tinha aprontado para que Sirius a odiasse tanto. Mas o que Harry queria saber no momento era se Sirius sabia ou não que Harry sabia tudo aquilo...

- Não quero ouvir o nome dessa mulher dentro desta casa.

O tom de Sirius era gélido, totalmente diferente do que qualquer um que já tivesse utilizado com Harry algum dia. Porém, mesmo assim, o rapaz não desistiu.

- Você sabe? O que você sabe?

- Essa conversa acabou aqui. – Sirius se virou, encarando Harry com um olhar profundo e gelado, falando em um tom severo, o que era realmente diferente, em se tratando de Sirius Black.

- Mas...

- ACABOU AQUI, HARRY!

Agora, Sirius estava realmente assustador. Harry engoliu em seco e se calou, apenas observando o padrinho sair do quarto, batendo os pés com força, uma aura de ódio profundo emanando dele. Harry, como nunca acontecia, sentiu-se aliviado quando o padrinho deixou o quarto. Umedeceu os lábios, ainda atordoado.

Puxando a varinha, ele murmurou "Reparo", aproveitando-se de que agora, já maior de idade, podia usar magia fora de Hogwarts. As xícaras quebradas por Sirius se refizeram como novas. Harry suspirou profundamente, largando-se na cama de costas, encarando o teto.

Por enquanto, era melhor não voltar ao assunto com Sirius... mas ele tiraria aquele história a limpo, ou não se chamava Harry Potter...

 

*******

 

Quando Harry desceu para tomar café da manhã, algum tempo depois da discussão com Sirius, o padrinho já estava sentado à mesa. Uma torrada meio comida estava sobre seu prato; com a mão esquerda, ele segurava uma outra xícara de café, só que Harry notou, agora ele deveria estar adoçado, pois o açucareiro estava aberto ao lado da xícara. Na mão direita, Sirius segurava uma carta de aspecto formal, que lia com a testa ligeiramente franzida. Sirius não disse nada quando Harry entrou na cozinha e se sentou à mesa, mas uma remexida desconfortável sobre a cadeira fez com que o rapaz entendesse que o padrinho sabia da sua presença.

Harry também não disse nada e, pela primeira vez durante todas as férias, ele notou o clima pesado que assumira o lugar. A casa não parecia mais tão alegre e hospitaleira quanto antes e, com um suspiro de arrependimento, Harry desejou não ter mencionado Samantha sobre as escadas.

Sirius produziu um som abafado, bem parecido com o que fazia quando estava na forma canina e, sem tirar os olhos da carta, ele falou com um tom um pouco rabugento:

- Você recebeu uma carta.

Harry franziu as sobrancelhas e quase perguntou "onde?", quando sentiu bicadas insistentes no topo da sua cabeça. Ele levou a mão direita à cabeça e quase esmagou um amontoado pequeno de penas; quando olhou para o que tinha apanhado, viu Pichitinho se debatendo loucamente e piando alegremente entre seus dedos. Um pequeno recado estava preso nas suas patas.

Enquanto a pequena corujinha de Rony espalhava suco de laranja sobre a toalha de mesa, Harry abriu o bilhete e reconheceu a letra um tanto garranchosa do melhor amigo:

Meu pai só me contou hoje que faremos o teste de aparatação juntos na próxima sexta-feira. Fiquei feliz em saber que não serei o único a passar por isso, pois, na realidade, Fred e Jorge já tentaram me aterrorizar com esse teste, disseram coisas horríveis! Você acha mesmo que eles estão certos, ou apenas estão tentando me pregar uma peça? De qualquer maneira, Hermione começou a procurar livros sobre o assunto e me mandou algumas dicas em uma carta realmente extensa. Se bem que, depois do aperto que tive que passar na casa de Hermione naquele jantar com a família toda dela, acho que nada mais me assusta...

Espero que tenha gostado do presente de aniversário que lhe mandei! Tudo de bom, Rony.

Harry sorriu na parte que dizia do jantar assombroso na casa de Hermione (aliás, esse jantar já tinha rendido a Harry boas gargalhadas quando Rony o detalhou em uma carta), mas ficou imaginando se os gêmeos estariam realmente somente pregando uma peça no irmão. Era bem o jeito deles, mas de qualquer maneira, Harry ainda não tinha pensado sobre esse tal teste, e sentiu uma contração involuntária no topo do estômago. Era como se novamente estivesse esperando aquele teste desconhecido, há muitos anos, para saber para qual das Casas de Hogwarts seria selecionado. Mas, agora, ele tinha a impressão de que a coisa toda era bem mais séria e difícil. Bem, ao menos, ele não seria o único a passar por isso... Rony também estaria lá para compartilhar desse momento tenebroso. Harry gostaria que Hermione também fosse (ela certamente era a mais inteligente do grupo e saberia o que fazer), mas a garota, infelizmente, só completaria a maioridade bruxa em setembro, o que a obrigaria a fazer o tal teste somente nas férias de Natal, quando Harry e Rony já teriam lhe narrado tudo sobre o teste deles para a amiga. Por um segundo, Harry desejou ainda não ter completado dezessete, mas depois lembrou que tinha suas vantagens ser maior de idade.

- E então?

A voz animada de Sirius surpreendeu tanto Harry, que o rapaz deu um sobressalto na cadeira, fazendo Píchi piar assustada e derrubar mais suco de laranja na toalha. Harry olhou o padrinho, completamente abobado. Sirius exibia um sorriso no rosto e, Harry percebeu, a carta, antes nas suas mãos, já estava lacrada novamente e bem segura debaixo do açucareiro. Então Sirius tinha recebido uma notícia tão boa que o fizera esquecer a discussão com Harry e o clima pesado?

Por um momento, Harry desejou ler a tal carta misteriosa. Não era a primeira que Sirius recebia naquele verão e, tampouco, seria a última. Harry não pôde ler nem ao menos o remetente de nenhuma delas. Ele desconfiava ser algo relacionado ao trabalho de Sirius, ou então coisas da Ordem, para que ele mantivesse tanto segredo.

- E então o quê? – Harry disse em um tom displicente, tentando aproveitar o clima de cordialidade que voltara a se instalar na cozinha. Se Sirius tinha recuperado o bom humor, não seria ele, Harry, que novamente o faria perder as estribeiras.

- Era uma carta... dela?

- Dela? – Harry repetiu, sem entender absolutamente nada. Não tinha a mínima idéia a quem Sirius se referia. O padrinho abriu um grande sorriso maroto no rosto.

- Não se faça de inocente... Sei muito bem que esteve com uma garota ontem...

Harry se engasgou com o suco que tinha começado a beber e, assim como o padrinho tinha feito com o café lá em cima, cuspiu o suco que estava na sua boca; várias gotas encharcaram Pichitinho, que arrepiou as penas.

- Do que você está falando? – Harry pigarreou e tentou assumir um tom de desimportância. – Você estava bêbado, como pode se lembrar...

- Ah, eu me lembro sim! – Sirius riu, e cruzou os braços, como se transbordasse experiência. – É claro que não me lembro direito de toda a noite, mas lembro o bastante para saber que você – ele apontou acusadoramente para Harry – estava com uma garota! – concluiu teatralmente, como acabasse de fazer uma revelação bombástica.

Harry apenas o encarou por cima das lentes dos óculos, não acreditando no que ouvia. A única coisa boa era que Sirius tinha parado de gritar com ele. Por outro lado, Harry começou a recear a hora em que o padrinho começasse a fazer perguntas tão diretas que ele precisaria contar como fora seu encontro indigesto com Katherine Willians na noite anterior – e certamente Harry não queria comentar essa ocasião lamentável com ninguém.

- A carta era dela? – Sirius perguntou, tão ansioso quanto um adolescente. Realmente, às vezes, Harry tinha dúvidas se o adolescente ali era realmente ele ou Sirius.

- Não. – Harry respondeu categoricamente. – Era de Rony. – ele apontou para Píchi, agora bicando um pão de frios com energia. – Falava sobre o nosso teste de aparatação na segunda.

- Ah... não tinha reparado que era a coruja dele... que pena...

Sirius pareceu murchar como uma bexiga que ia se esvaziando rapidamente. Harry, pelo contrário, estava muito feliz que a conversa tenha se desviado; ele começou a achar o café da manhã duas vezes mais saboroso. Sirius não ficaria tão desanimado em saber que o encontro de Harry (que para começar nem era um encontro de verdade, apenas uma infeliz coincidência) tivesse fracassado miseravelmente se conhecesse a tal garota como Harry conhecia. No entanto, quando Harry estava quase mordendo com vontade um croissant de queijo, o padrinho exclamou:

- Mas você estava com uma garota!

Harry parou seu movimento de levar o croissant até a boca centímetros antes de sentir o gosto do queijo. Entretanto, depois do susto inicial, ele prosseguiu com o movimento, fingindo que o assunto não lhe importava; escolheu um meio termo entre o "sim" e o "não" e apenas deu de ombros, o que, infelizmente, Sirius encarou como um "sim".

- Ah, há! – o padrinho exclamou, como se tivesse acabado de fazer uma descoberta realmente fascinante. – Então eu estava certo!

Harry revirou os olhos, ainda mastigando lentamente o croissant, o que lhe dava uma desculpa para não falar, já que estava de boca cheia. Sirius não perdeu a oportunidade de pressioná-lo:

- E como foi? Quem era ela?

Para desespero de Harry, o pedaço do croissant tinha terminado na sua boca e não dava mais para mastigá-lo. Além disso, Sirius não engoliria aquela desculpa por muito tempo. E Harry, desesperadamente, não queria comentar a noite com o padrinho; não estava a fim de falar daquela sonserina para ele, pois tinha medo de que isso estragasse seu humor (um tanto delicado naquela manhã), e também, se contasse que não tinha realmente sido agradável, Sirius poderia ficar chateado por ter levado Harry naquele lugar bem no dia do seu aniversário. Tá, até que não tinha sido tão ruim assim, mas também não fora bom. Mas Harry não queria ter que dizer essas coisas para Sirius e arriscar chateá-lo ou, pior, irritá-lo como antes. Engoliu o pedaço do croissant, tentando pensar rápido em algo para dizer, quando batidas na porta da frente o salvaram.

- Parece que temos visitas! – Harry exclamou animado, prontamente se levantando. Ele ainda viu quando a boca de Sirius se abriu para protestar, mas fora mais rápido e saíra em dois tempos da cozinha, deixando o padrinho falando sozinho.

Ao menos, tinha ganhado tempo, Harry pensou, enquanto caminhava até a porta da frente, imensamente agradecido a quem quer que fosse que estivesse quase derrubando a porta com suas batidas. Quando chegou à porta e postou a mão na maçaneta, Harry se perguntou se a pessoa era tão cega que não tinha enxergado a campainha.

Mas não havia ninguém lá fora quando Harry abriu a porta. Ele apenas viu, ao longe, as ondas revoltas baterem na praia, e o vento mover suavemente a rede na varanda. Intrigado, Harry já ia fechar a porta, quando sentiu algo puxando suas calças. Assim que olhou para baixo, o queixo de Harry caiu, mas logo se abriu em um sorriso divertido.

- Eu não alcancei a camp’inha, ‘Arry...

Harry riu ao ver a pequena figura de Agatha na soleira da porta, ainda puxando insistentemente a barra de sua calça. Naquele dia, ela estava com um vestidinho mais esfiapado do que o dia anterior, estampado com margaridas. Seus cabelos loiros estavam presos em uma trança um tanto desajeitada; provavelmente a Sra. Prescott tinha arrumado seu cabelo pela manhã, mas Agatha já deveria tê-lo desfeito depois de tanto brincar na praia. Harry se abaixou até ficar do tamanho de Agatha, cruzando os braços de um jeito brincalhão:

- O que essa menininha está fazendo tão longe de casa?

Ela arregalou os olhos, cruzou os braços de um jeito repreensivo, e inchou as bochechas, balançando o pequeno corpo na ponta dos pés sujos de areia da praia para olhar Harry de cima, o que fracassou, pois até agachado ele era maior do que ela.

- Você não foi brincar comigo na praia hoje!

Harry sorriu. É, então ele não estava errado quando imaginou que Agatha realmente viria visitá-lo para recriminá-lo por não ter ido vê-la essa manhã, como de costume.

- Você não vai me perdoar? – ele fingiu um tom choroso.

Ela soltou o ar que guardava na boca, murchando as bochechas. Piscou, descruzou os braços, e postou-os na cintura, autoritariamente:

- Só se você me carregar!

Harry suspirou lentamente e, depois de alguns segundos, ofereceu os ombros para ela subir, o que Agatha aceitou prontamente. Algum tempo depois, quando ele já tinha encostado a porta e se encaminhava para a cozinha, Agatha, que começara a fazer seu passatempo favorito (fazer rolinhos no cabelo de Harry), perguntou com sua voz fininha:

- Por que você não apareceu hoje?

- Dormi demais...

- Por quê?

- Porque cheguei tarde ontem em casa...

- Que horas?

- Dá pra parar com o interrogatório?

- O que é inte’ogatório?

- Deixa pra lá... – ele suspirou, abaixando-se para que a cabeça dela não batesse no alto do batente da porta da cozinha. Sirius, parecendo emburrado, estava tentando espantar Pichitinho da manteigueira, porém, sem sucesso. – Olha quem veio visitar a gente, Sirius! – Harry exclamou assim que entrou na cozinha com Agatha.

O padrinho levantou os olhos, esquecendo momentaneamente a corujinha sapeca de Rony, e quando seus olhos focalizaram Agatha sobre os ombros de Harry, ele fez uma expressão de entendimento.

- Ah, sim... a "pequena notável"! – exclamou displicente, voltando sua atenção para a Pichitinho, que agora pulava sobre a geléia.

Agatha inchou como um balão. Seu rosto imediatamente ficou vermelho de fúria. Se havia uma coisa que ela detestava mais do que tudo na vida era darem pouca importância à sua presença. E se havia uma coisa que divertia Sirius imensamente, era provocar aquela garotinha.

Divertindo-se, como sempre fazia, com a situação, Harry tirou Agatha de seus ombros e sentou-a em uma cadeira. Ela era tão pequena, que seu nariz batia nas bordas da mesa e apenas seus olhos eram visíveis. Às vezes, Harry apanhava alguns de seus livros grossos de magia para que ela se sentasse sobre eles e não havia problema algum nisso, já que Agatha não sabia ler e engolia perfeitamente quando Harry dizia que aqueles eram seus livros de matemática, história... Mas, na maioria das vezes, ela pedia para que Harry a colocasse no seu colo, o que era um pouco difícil de recusar, já que ela geralmente fazia chantagem sentimental com ele, ou então ameaçava colocar o Mordedor atrás dele.

- O que é isso? – a menininha perguntou curiosa, apontando para Píchi, que agora corria pela mesa, voando às vezes, perseguida por um irritado Sirius. O bruxo parou assim que ouviu a voz fininha de Agatha e congelou, olhando para ela assustado, sem saber o que dizer. Agatha era trouxa, e ninguém ali queria que ela, ou qualquer outro habitante da Praia das Andorinhas ou de Freshpeach, descobrisse que Harry e Sirius eram bruxos.

Harry, que observava tudo por cima da porta da geladeira, de onde retirava agora aquele mesmo bolo de pêssego que a Sra. Prescott tinha lhe dado de presente de aniversário, segurou o riso e fechou a porta às suas costas. Sirius não sabia, mas Harry já tinha apresentado Edwiges à Agatha, e ela não tinha se importado, o que fazia com que Pichitinho não fosse um problema.

- É uma coruja, Agatha. – o rapaz explicou, dando a volta por trás da menina e depositando o bolo sobre a mesa. Ele teve que novamente engolir o riso quando Sirius o encarou de olhos arregalados.

- Ahhhhh! Como a sua? – ela perguntou, ainda observando curiosa Píchi, que agora dava voltas em torno da cabeça de Sirius, que bufava, mas ainda mantinha os olhos em Harry.

- Isso, como a Edwiges. – Harry explicou, sentando-se no seu lugar e dando uma piscadela para Sirius, que finalmente entendeu qual era a do afilhado e voltou a se sentar, aliviado. Píchi começou a caminhar no meio da comida novamente.

- E ela também é sua?

Sirius tinha cruzado os braços, apenas observando a conversa de Harry e Agatha. Harry fazia muito esforço para não rir, e agora se ocupava em cortar um pedaço de bolo para a menina.

- Não, ela é de um amigo meu.

- Quem?

- Você não o conhece.

- Qual o nome dele?

- Rony.

- E ele está aqui?

- Não.

Sirius aproveitou a deixa quando Agatha estava recuperando o fôlego para lançar mais uma pergunta, virou-se para Harry e perguntou:

- Essa menina não tem o botão de "desliga", não?

Imediatamente, Agatha murchou e olhou feio para o padrinho de Harry, que sorriu como se tivesse conseguido uma grande vitória: calar a boca da menina. O.k., Harry tinha que admitir que fazer Agatha parar de falar um minuto não era uma tarefa fácil, mas Sirius também não precisava, todo dia, confrontar uma menininha de seis anos de idade.

- Ah, droga! – Sirius resmungou, tentando espantar Píchi com a mão, que agora voltara a fazer festa na manteigueira. – Já falei pra sair daí!

Como se fosse a coisa mais simples do mundo, Agatha estendeu o minúsculo braço, fez um barulho esquisito com a língua entre os dentes, e em dois tempos, Píchi tinha pousado sobre um de seus dedinhos estendidos, ficando, milagrosamente, quieta. Harry e Sirius se entreolharam abobados. Agatha abriu um enorme sorriso vitorioso para Sirius, e o provocou:

- É tão fácil...

Harry tinha que admitir que aquela menininha tinha gênio, além de jeito com animais. Às vezes era um jeito um tanto brusco (Mordedor sabia bem disso), mas ela tinha um certo dom para lidar com animais. Hagrid gostaria de conhecê-la, ele pensou. Com um sorriso maroto no rosto, Harry imaginou aquela garotinha mais velha. Ele nem queria imaginar o que ela aprontaria com um gênio daqueles...

Sirius se virou embasbacado para Harry, enquanto Agatha ainda olhava vitoriosa para o homem, acariciando de leve as penas eriçadas de Píchi.

- Harry... você tá vendo... essa menina tá folgando comigo...

Harry gargalhou, ao mesmo tempo em que colocava um prato com um generoso pedaço de bolo de pêssego – o favorito de Agatha – à frente dela.

- Vem dizer isso pra mim? Eu não me meto...

E Agatha sorriu com os dentes, enquanto cortava um grande pedaço do bolo com a colher e o engolia rapidamente, com gulodice.

 

*******

 

- Amanhã não vou poder encontrá-la aqui na praia, Agatha.

Era uma manhã ensolarada e abafada de verão. Harry estava sentado na areia, somente usando uma bermuda, enquanto ao seu lado, Agatha montava alegremente um castelo de areia. O rapaz observava, ao longe, Sirius nadando no mar. Realmente ele tinha fôlego; já tinha dado uma volta inteira na praia e ainda não tinha parado para descanso.

- Por que não? – ela perguntou com sua voz fininha, observando Harry por cima do castelo disforme, parecendo extremamente desapontada.

- Vou sair cedo para... hum... resolver umas coisas...

- Que coisas?

- Coisas minhas.

Às vezes as perguntas insistentes de Agatha o irritavam. Porém, ao menos daquela vez, milagrosamente, ela tinha desistido de continuar a perguntar – talvez porque estivesse muito ocupada consertando uma parte do castelo que tinha desmoronado.

- ‘Cê vai até Freshpeach? – ela perguntou depois de alguns minutos tensos em que esteve ocupada arrumando o castelo e resmungando para si mesma, enquanto Harry ainda observava o mar, pensativo.

- Não, eu vou mais longe...

- Hmmm...

Harry olhou para a menina. Ela estava com aquele mesmo jeito de quando queria pedir alguma coisa, mas não sabia por onde começar. Não olhava para Harry, o que era um mal sinal – significava que era alguma coisa grande.

- Eupossoircomvocê?

- Quê?

Ela respirou fundo, começou a fazer círculos na areia com o dedinho, parecendo chateada e (o que era difícil), um pouco sem jeito.

- Posso... ir... com... você?

Harry voltou a olhar o mar, enquanto Agatha buscou seus olhos com ansiedade. Ele suspirou; não poderia atender aquele pedido... No dia seguinte, ele iria até o Ministério da Magia junto com Sirius para fazer seu teste de aparatação.

- Erm... acho que não, Agatha...

A menininha abaixou os olhos, desanimada. Harry olhou para ela penalizado; sabia o quanto ela sentia falta de passear. Os pais dela eram empregados da mansão dos Kendals e bem pobres, o que reduzia imensamente suas oportunidades de visitar outros lugares que não fossem a sua casa, o jardim dos Kendals e a Praia das Andorinhas. Depois que Harry chegou no lugar, esse roteiro passou a incluir a sua casa com Sirius também, mas ele imaginava o quanto deveria ser chato para uma criança como Agatha não sair nem ir para lugares diferentes. Ele sabia muito bem o que era isso. Quando era pequeno, sua vida se reduzia ao armário sob a escada na casa dos Dursleys, às vezes a casa que cheirava a gatos da Sra. Figg (e naquele época ele não fazia a mínima idéia de que a senhora fosse sua avó, o que aumentaria as chances de estar feliz se soubesse) ou então a escola. Harry olhou de esguelha para a menina, que tinha voltado a mexer no castelo de areia, mas sem muita animação.

- Olha, Agatha... amanhã realmente não vai dar para levar você, mas... quem sabe... eu não possa te levar para dar uma volta em Freshpeach semana que vem? Poderíamos comer alguns doces por lá...

O rosto dela se iluminou, e ela parou imediatamente de fazer o castelo para olhar para Harry com os olhinhos arregalados.

- Verdade?

- Verdade. Se sua mãe deixar, claro.

Ela abriu um grande sorriso, pulou o castelo de areia, pisando em cima dele sem se importar, e deu um beijo estalado na bochecha de Harry. O rapaz ficava um pouco desconcertado quando ela fazia isso, mas não reclamou. Sentia-se bem de fazer aquela garotinha feliz. Lembrava da sua própria infância e ficava imaginando que teria sido legal ter um amigo quando era mais novo... Mas não tinha do que reclamar, tampouco; agora era mais velho e tinha amigos que sabia que gostavam dele e em quem podia confiar.

- Papai foi a Freshpeach ontem... – Agatha começou a falar animadamente, retomando sua tarefa de refazer o castelo desmontado. – Mas ele não me levou, foi para lá por causa de um trabalho para os patrões...

- Hum... – Harry se limitou a dizer, voltando novamente sua atenção para o mar, onde podia ver Sirius, ao longe, nadando.

- Eu ouvi eles conversando de noite... mamãe e papai... – Agatha disse em um sussurro.

Harry se virou para ela, erguendo as sobrancelhas com um quê de repreensão.

- Não deveria escutar atrás das portas! É feio!

Obviamente, ele omitiu a parte que dizia que ele, costumeiramente, fazia isso para saber segredos que não queriam lhe contar em Hogwarts ou em outros lugares.

- Eu não estava ouvindo atrás da porta! – ela falou com dignidade e ligeiramente brava com Harry. – Eu estava na sala quando eles falaram! Só que... eles achavam que eu estava dormindo... – ela falou tão baixo a frase seguinte, que quase foi preciso fazer leitura labial para Harry entender o que ela queria dizer. - ...mas eu não estava.

Ele sorriu pelo canto da boca, mas rapidamente fechou a cara, como se o que ela tivesse dito fosse algo muito reprovável. Harry tinha se lembrado de uma ocasião que tinha feito a mesma coisa, só que fora na ala hospitalar de Hogwarts.

- Papai disse que viu gente esquisita em Freshpeach... – Agatha continuou, ainda sussurrando, seus olhos arregalados. – Gente... como foi que ele disse mesmo? – ela pensou por alguns instantes, parecendo aborrecida de ter esquecido a palavra. Alguns segundos depois ela deu um sobressalto, sorrindo. – Suspeitos! Foi o que ele disse...

Aquilo poderia ter sido encarado como algo bem rotineiro para Harry se não fosse pelo jeito com que Agatha dissera aquelas palavras – gente esquisita... suspeita... Harry encarou-a profundamente, enquanto a menina olhava satisfeita para ele, como se estivesse adorando a atenção que o rapaz estava dando para o assunto. Mas aquilo tinha despertado na cabeça de Harry uma lembrança... "gente esquisita" era o exatamente o mesmo termo que tio Válter costumava utilizar para se referir a bruxos.

- E o seu pai disse mais alguma coisa sobre essas pessoas?

- Ahhhhh, disse sim! – Agatha falou, feliz por Harry estar interessado. – Ele disse... – ela começou a sussurrar novamente. - ...que essas pessoas usavam roupas estranhas... compridas e pretas... e... tinham... gravetos nas mãos!

Ela finalizou teatralmente, cruzando os braços e olhando para Harry com os olhinhos tão arregalados que pareciam que saltariam das órbitas. Parecia extremamente satisfeita consigo mesma por ter feito essa descoberta.

- Estranho, né? Mamãe sugeriu que eles poderiam ser... hum, como ela disse? Pre... ah, não era isso! – ela fez um gesto brusco, como se estivesse espantando algo no ar. – Ah, como pessoas que cortam árvores, entende? Podem querer cortar os pessegueiros!

Harry riria da maluquice que Agatha tinha dito se não estivesse mais preocupado com outra coisa; pela descrição da menina, haviam bruxos em Freshpeach. E, pelo que Harry sabia, ele e Sirius eram os únicos bruxos em raios de quilômetros. E o mais esquisito, era que esses bruxos não estavam preocupados com a discrição perto dos trouxas. Usavam, pelo que deduziu através das palavras de Agatha, vestes normais de bruxos e empunhavam as varinhas...

- Hmmm... – Agatha falou sonhadoramente, voltando a mexer no castelo. – Sinistro... palavra legal.

- É... – Harry concordou, voltando a observar o mar imerso em pensamentos. Realmente sinistro...

 

*******

 

O edifício de vidro escuro do Ministério da Magia não refletia a luz cintilante do sol quando Sirius parou o carro. Harry suspirou; quanto mais se aproximavam do lugar, com mais força revirava o seu estômago. Só esperava que o tal teste de aparatação não fosse tão horrível quanto os gêmeos disseram para Rony.

- Você vai ficar sentado aí o dia inteiro?

- Anh, o quê? – Harry disse distraído, finalmente percebendo que Sirius estava falando com ele. – Erm... não...

Sirius deu um sorrisinho irritante e saiu do carro, acompanhado de Harry.

Quando Harry e o padrinho cruzaram as portas de vidro, eles entraram em um aposento grande e ricamente decorado. Harry se lembrava de ter estado ali apenas uma única vez, um ano antes, na ocasião do julgamento de Sirius. Daquela vez, Harry estava acompanhado de Remo Lupin, e os dois foram testemunhas no julgamento do padrinho de Harry que, felizmente, foi absolvido das acusações injustas que o colocaram em Azkaban, a prisão dos bruxos, por doze longos anos.

Diferente da outra vez que Harry esteve naquele lugar, ele não estava cheio de jornalistas e fotógrafos, tampouco aquele monte de pessoas importantes que tinham vindo ser jurados no julgamento de Sirius. Os sofás vermelhos de veludo estavam ocupados por bruxos que conversavam ou que liam o Profeta Diário. Já outros se encaminhavam apressados para o elevador ou para as várias lareiras que ficavam pela sala, de onde apareciam bruxos que usavam o transporte pela via de Flu.

Os vários quadros de bruxos famosos nas paredes observavam tudo ao redor. Harry reparou em um quadro de um bruxo velho e franzino, com cabelos quase tão despenteados quanto os do rapaz. O velho sorriu para ele, deu uma piscadela, e depois sumiu do quadro, mas não reapareceu nos quadros do lado, como as pinturas de Hogwarts costumavam fazer. Harry teve vontade de se aproximar do quadro para poder ler a legenda dele, mas Sirius o puxou pela manga da camisa.

Algumas pessoas cumprimentavam Sirius com a cabeça, enquanto que outros apenas olhavam curiosos para ele e Harry. Um bruxo de pele macilenta e expressão pesarosa cumprimentou Sirius e disse num tom baixo e profundo:

- Aproveitando as férias, Black?

- Não são exatamente férias, Bode, mas sim... estou aproveitando... – Sirius falou em um tom jovial, sorrindo. – Mas parece que você está precisando bastante de férias... – ele completou, examinando o homem, que apenas murmurou "tenha um bom dia" em um tom sepulcral de total reprovação, afastando-se em seguida.

Harry olhou intrigado para o padrinho, esquecendo por um segundo a reviravolta no seu estômago.

- Quem era ele?

- Broderico Bode. – Sirius respondeu automaticamente e só depois notou a expressão interrogativa do afilhado; suspirou e baixou a voz. – Trabalha comigo.

- Anh...

Eles se encaminharam até um balcão no fundo da sala, onde uma moça jovem, que Harry lembrava vagamente como sendo a recepcionista, lia distraidamente o "Semanário das Bruxas".

- Com licença... – Sirius falou, assim que ele e Harry se aproximaram do balcão. A moça, que estava escondida atrás da revista, pareceu não escutar.

- Não acredito... – ela murmurou por detrás da revista.

– Erm... ei! – o padrinho disse mais alto. A moça saiu de trás da revista, revelando um rosto arredondado, cheio de sardas, e cabelos louros e espessos. Ela encarou Sirius com os olhos arregalados.

- Ele vai se casar, você acredita?

- Quê? – Sirius perguntou sem entender, e Harry começou a ter vontade de rir.

- É, eu também não acredito! – ela exclamou indignada, jogando a revista de lado e claramente entendendo o "quê" de Sirius como referente ao que ela falava. – Ralf Bennett, aquele verdadeiro pão, casando! Isso deveria ser proibido, onde já se viu? É um crime!

Harry teve que colocar os nós dos dedos dentro da boca para sufocar o riso. Sirius olhava totalmente desolado para a moça e dava a impressão de que ele cogitava seriamente a possibilidade de enterrar a edição do Semanário das Bruxas na boca dela para que ela parasse de falar. Provavelmente Sirius se controlou, porque apenas respirou fundo e disse em um tom profundamente irritado:

- Não estamos interessados no casamento do vocalista dos "Gárgulas Negros", só queremos ir para o teste de aparatação do meu afilhado. Você pode fazer o favor de checar na lista?

A moça, ao invés de ficar envergonhada, apenas sorriu e murmurou baixinho "Aquela aproveitadora que vai se casar com o Ralf deveria ir para Azkaban!", enquanto procurava algo no meio dos seus papéis bagunçados. Sirius tamborilou os dedos no balcão, claramente impaciente. Ele olhou para Harry, que ainda sufocava o riso, e deu de ombros.

- Quem vai fazer o teste? – a moça perguntou, depois de finalmente encontrar a tal lista.

- Meu afilhado, já disse!

- E o seu afilhado tem nome? – ela perguntou sarcasticamente.

Sirius bufou exasperado.

- Harry Potter. – ele rosnou aborrecido.

Os olhos da recepcionista se arregalaram mais ainda do que quando ela descobriu que o vocalista da tal banda iria se casar.

- Harry Potter? – ela murmurou, virando o pescoço tão rápido para encarar Harry que ele fez um barulho de estalo. Isso pareceu não incomodá-la, porque ela continuou observando, boquiaberta, a cicatriz dele, e Harry achatou com força a franja na testa.

- Apenas cheque a lista! – Sirius resmungou, e a moça voltou seus olhos rapidamente para o papel, ainda olhando de esguelha para Harry às vezes.

- Hum. – ela resmungou. – Aqui está o nome dele... Nono andar, Departamento de Transportes Mágicos. O teste começa às nove.

- Obrigado. – Sirius falou, mas a moça os deteve antes que fossem embora.

- E você?

- Eu estou acompanhando-o. – Sirius respondeu mais aborrecido do que nunca, indicando Harry.

- Nome? – ela perguntou, posicionando a pena sobre o papel.

- É realmente necessário? – a expressão dela revelava que sim. Sirius revirou os olhos. – Sirius Black.

Novamente, os olhos dela se arregalaram, e ela assobiou.

- É bem bonito para um ex-fugitivo de Azkaban...

O elogiou pareceu desfazer o mau humor de Sirius, que sorria presunçoso assim que ele e Harry adentraram no elevador, acompanhados por uma bruxa velha de nariz adunco e um bruxo jovem, que não parava de ficar encarando Harry como se quisesse constatar que estava vendo direito.

O elevador parou no segundo andar "Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas", onde a bruxa saiu. Quando o elevador parou novamente no sétimo andar "Departamento de Jogos e Esportes Mágicos", o jovem perguntou antes de sair, ainda observando Harry:

- Você é mesmo Harry Potter?

- Ele é, agora vá andando. – Sirius respondeu rapidamente, antes que Harry pudesse se pronunciar.

O jovem deixou cair o queixo, mas saiu do elevador. Quando a porta se fechou novamente, Sirius se virou para o afilhado, que achatava novamente a franja na testa.

- Que saco, hein?

- Já estou acostumado.

O elevador parou no nono andar, e os dois saíram.

Entraram numa sala grande, menor do que a da recepção e bem menos decorada. Havia um balcão no canto da sala, parecido com aquele onde estava a moça faladeira da recepção. Um bruxo alto, corpulento e negro, riscava um pergaminho grande. Vassouras em miniatura voavam ao seu redor. Quando Sirius se aproximou, o bruxo levantou os olhos, encarou Harry por um segundo, e falou antes mesmo que Sirius abrisse a boca:

- Teste de aparatação, hein? Última sala do corredor.

Sirius agradeceu com um gesto da cabeça, e ele e Harry saíram pelo corredor que ficava à esquerda. Nas paredes havia quadros de, na maioria, jogadores de quadribol, ou bruxos famosos por feitos na área de Transporte Mágico. Harry achou interessante um que retratava o Nôitibus Andante, que corria e batia descontrolado na moldura do quadro.

Depois de passarem por muitas portas, eles chegaram na última, onde estava escrito em letras douradas "Centro de Testes de Aparatação". Harry começou novamente a sentir aquela reviravolta na boca do estômago; era ruim não ter a mínima idéia do que o esperava. Sirius o encarou com um olhar divertido, postando a mão na maçaneta.

- Não precisa ficar nervoso.

- Eu não estou nervoso. – Harry respondeu rápido.

Sirius riu e abriu a porta. Entraram, dessa vez, numa sala pequena, cheia de jovens e alguns poucos adultos. Harry viu vários rostos conhecidos seus de Hogwarts e acenou para aqueles com os quais falava na escola. Ele procurou ao redor para tentar achar Rony, mas foi Sirius que o cutucou e indicou o amigo de Harry com a cabeça.

Rony, se isso era possível, parecia ter crescido mais durante as férias e ter contraído mais sardas no rosto. Seus cabelos extremamente vermelhos – a marca de todos os Weasleys – se destacavam em um canto da sala. Ele estava sentado ao lado de um colega do mesmo ano que ele e Harry, Neville Longbottom, um garoto de rosto redondo e extremamente trapalhão. Rony também pareceu ver Harry e Sirius, porque acenou para eles.

- Pensei que não fosse vir mais! – Rony exclamou, assim que Harry se aproximou.

- Sirius se atrasou.

- Ei, não foi totalmente minha culpa! – o padrinho protestou, fazendo uma cara tão cômica que Neville riu, acompanhado de Harry e Rony. Ele resmungou e se virou para Rony. – Onde está seu pai?

- Ah, lá na sala dele... Sabe, não pôde ficar aqui comigo, muitas coisas pra fazer... Mas ele mandou te avisar que queria falar com você quando chegasse, Sirius.

- Anh, claro. – ele respondeu, fazendo uma expressão de entendimento. – Bem, então eu vou falar com ele. Harry, não fique nervoso com o teste, o.k.?

- Eu não estou nervoso! – Harry respondeu emburrado. Novamente, Rony e Neville riram.

- Boa sorte pra vocês. – Sirius falou rindo e se afastou.

Harry se sentou aborrecido ao lado de Rony no sofá. Neville se debruçou sobre o ruivo para falar com Harry.

- Ei, quer dizer que aquele era mesmo o seu padrinho, Sirius Black?

- Era sim... – Harry respondeu distraído.

- Wow! Ele parece ser legal...

- Ele é legal. – Rony interveio.

- Ele é maluco, mas é legal. – Harry corrigiu, fazendo Rony rir. Neville se encostou no sofá, suspirando.

- Queria que minha avó fosse assim... mas ela é durona, queria fazer o teste junto comigo, para ver como eu me saio... Não quero nem ver a cara dela quando eu for reprovado! – ele tapou o rosto com as mãos, desesperado.

- Besteira, você não vai ser reprovado. – Harry tentou consolá-lo.

- É claro, não vai dar tempo... – Neville suspirou. – Provavelmente quando me virem, vão dizer que é melhor eu nem fazer o teste, para o meu próprio bem...

- Ai, que drama! – Rony comentou, mas logo fez uma careta. – Não deve ser tão ruim... ou talvez... sei lá.

- Até você está nervoso! – Neville alfinetou. – Estava desfiando reclamações antes do Harry chegar!

- Nem vem, Rony, vai dizer que acreditou nos gêmeos!? – Harry perguntou, entrando na conversa.

- Acreditar não acreditei, mas depois veio o Percy e recomendou que eu deveria estudar... Sabe, ele já está quase me pirando com a história de que os monitores-chefes são escolhidos no sétimo ano, ele fica me pressionando! Então os gêmeos deram para ele um pouco de "Nugá Sangra Nariz" para que ele calasse a boca. Minha mãe ficou uma fera... Eu tentei perguntar para ela e para meu pai se o teste era mesmo tão complicado, mas eles disseram que era melhor não dizerem nada...

- Ah... – Harry suspirou tristemente. – Sirius também não estava muito a fim de me dizer qualquer coisa que valesse a pena.

- Minha avó fez questão de lembrar que eu estava sendo ridículo perguntando tantas vezes sobre o exame e ameaçou me mandar para cama sem jantar ontem à noite... – Neville comentou mais triste do que Harry, que logo notou que não tinha do que reclamar.

Rony teve a brilhante idéia de mudar de assunto, e dessa forma os três começaram a comentar sobre o que estavam fazendo nas férias de verão. Neville não tinha muito o que dizer, e só se empolgou na hora de contar que tinha ganho uma planta exótica no seu aniversário (a matéria favorita dele era Herbologia). Rony falou com tristeza que, agora, seus pais tinham convidado os pais de Hermione para jantarem na Toca, e que a única coisa boa disso seria que a garota ficaria na casa dele o resto do verão. Dessa vez ele não reforçou o convite para que Harry passasse uns dias lá, pois logo entendeu que não adiantaria. Para alívio de Harry, Rony parecia se policiar para não mencionar Gina nas conversas. Neville e Rony pareceram bem entusiasmados quando Harry começou a narrar suas férias na casa de praia com Sirius e, bem na hora que Rony perguntou o que ele tinha feito no dia do seu aniversário, Neville fungou tão alto que os dois pararam para olhá-lo.

- O que foi? – Rony perguntou aborrecido, virando-se para o garoto.

- Olhem para a porta. – Neville disse em tom de enterro.

Harry e Rony viraram rapidamente a cabeça e, juntos, fizeram caretas de nojo. Adentrava na sala a pessoa que os três menos gostavam em Hogwarts: Draco Malfoy, acompanhado de seu pai, Lúcio Malfoy. Os dois conversaram na porta por alguns instantes, mas logo o Sr. Malfoy se despediu do filho, aparentando um ar de urgência. Harry ficou imaginando se ele não teria um "agradável" compromisso com seu mestre; ele sabia que Lúcio Malfoy era um dos Comensais da Morte de Voldemort, mas devido aos seus bons relacionamentos, o Sr. Malfoy ainda não tinha conseguido ser pego. Depois do pai sair, Draco pareceu enxergar, infelizmente, Harry, Rony e Neville sentados em um canto.

- Eu não acredito que ele tá vindo pra cá... – Rony rosnou entredentes. – Esse nojento não se enxerga?

- Que tal se fingirmos que ele não existe? – Harry sugeriu.

- É o que eu vou fazer! – Neville retrucou, rapidamente apanhando um exemplar da primeira revista que viu pela frente – "O Pasquim" – e começando a fingir que estava lendo-a. Harry e Rony se entreolharam, os dois pensando rápido em algo para conversarem, mas não foram rápidos o suficiente.

- Ora, ora... o que fazem os três maiores fracassados de Hogwarts aqui? – Draco Malfoy perguntou, usando aquele seu típico tom arrastado irritante. – Ué, Longbottom... – ele se virou para Neville. – Não pensei que deixassem palermas como você fazerem esse teste, o pessoal do Ministério já separou as pás para recolherem o que sobrar de você depois de tentar aparatar?

Neville continuou a fingir que lia O Pasquim bravamente, mas não era difícil perceber que ele tinha escutado e entendido o que Malfoy dissera; o exemplar da revista tremia entre seus dedos. Draco se virou para Harry:

- Deveria ser proibido pessoas com a cabeça rachada como você fazerem o teste, Potter. Pode ser perigoso você se fragmentar ainda mais, mas acho que não seria uma grande perda. Eu ficaria bem feliz se isso acontecesse...

- Diz aí, Malfoy... – Harry não suportou mais ficar calado. – Quantos galeões seu pai pagou para você passar no teste? Porque eu não acredito que permitam gente com tanta titica no cérebro tentarem aparatar. Pode ser perigoso para a população, de repente um pedaço do seu ego pode matar criancinhas no meio da rua...

Malfoy ignorou o comentário, mas Harry viu com satisfação que o seu rosto pálido assumira um tom ligeiramente avermelhado. Ele se virou para Rony; parecia que tinha preparado um desaforo para cada um dos três ali.

- Fico surpreso que a Granger não esteja aqui com você, Weasley. Você só consegue fazer as coisas quando ela está por perto, não é? – ele provocou. – Mas aposto que aquela sangue-ruim deva estar por aí, pronta para recolher seus pedacinhos depois do teste, não é?

Rony se levantou de um ímpeto, e rapidamente Harry e Neville se levantaram depois dele, postando as mãos nos ombros do rapaz. Não era uma boa idéia começar a brigar dentro do Ministério da Magia, em um lugar público cheio de testemunhas, mesmo que Malfoy merecesse apanhar. O loiro deu um sorrisinho debochado para os três, mas antes que qualquer um deles pudesse responder, uma bruxa baixinha e magrinha, de cabelos extremamente curtos e pretos, usando óculos fundo de garrafa, saiu de uma porta e disse com uma voz aguda, em um tom formal:

- Peço que todos os jovens que vieram fazer o teste me acompanhem até a sala ao lado.

Malfoy ainda lançou um olhar de desprezo para Harry, Rony e Neville antes de ser um dos primeiros a cruzar a porta atrás da bruxa baixinha. Harry e Neville ainda continuaram com as mãos nos ombros de Rony, só por precaução, e os três cruzaram a porta seguindo uma dupla de garotas nervosas, que Harry reconheceu como sendo da Corvinal.

A sala que entraram era grande e alta, mas não tão ricamente decorada como as outras. Suas paredes eram lisas, sem janelas, e só tinham cartazes explicando o que acontecia com bruxos que tentavam aparatar sozinhos, mostrando fotos de pessoas que foram encontradas em pedaços. Era um tanto... enojante, portanto Harry desviou o olhar. Um grande cartaz, escrito em letras douradas, dizia:

"Aparatar com acompanhamento especializado é garantia de não perder partes do corpo depois."

Harry viu os olhos de Neville se esbugalharem depois disso, e o garoto olhou para si mesmo por alguns instantes, como se estivesse vendo-se pela última vez inteiro. A bruxa de óculos fundo de garrafa se posicionou no fundo da sala, próxima à uma fileira de cinco mesas dispostas uma do lado da outra, onde haviam três bruxos e uma bruxa, os quatro sentados ao redor de uma mesa vaga, provavelmente onde se sentaria a bruxa baixinha. Todos eles aparentavam um aspecto jovial, diferente do da bruxa magra, que parecia ser a mais velha dentre eles. Os quatro encaravam os jovens quase tão curiosos quanto os jovens os encaravam. Juntando as mãos, a bruxa mais velha começou a falar, seus óculos refletindo fortemente a luz do ambiente.

- Bem-vindos ao seu teste de aparatação. Eu sou Penny Harper, a encarregada do Centro de Testes de...

Um dos bruxos, que parecia ser o mais jovem, espirrou. Seus olhos estavam quase fechados e seu nariz, extremamente vermelho. Tinha uma aparência um tanto doente, mas ainda assim animada. Ele acenou para a bruxa, que o encarava muito aborrecida, e murmurou:

- Desculpe, Penny... Esqueci de tomar minha po... poooo... – ele espirrou novamente, e alguns garotos do outro lado da sala riram baixinho. - ...poção... hoje de manhã...

E espirrou novamente, esfregando um lenço no nariz com força. A bruxa chamada Penny fez um ruído impaciente, e continuou, explicando quem era, reforçando os cuidados que se deveria ter quando se tentava aparatar, e que isso só poderia ser realizado com o acompanhamento de bruxos especializados, etecétera e etecétera... Harry sentiu sua atenção ir se esvaindo conforme ela falava, e seu estômago recomeçando a virar. Ele observou o rosto dos outros jovens e percebeu que não estava muito diferente da maioria deles; Rony parecia que engolira algo indigesto e começou a encarar os sapatos. Neville observava a tal Penny, mas parecia que não estava escutando absolutamente nada do que ela dizia. Do outro lado da sala, Malfoy estava um pouco mais pálido do que de costume, e Harry se sentiu mais animado de ver que ele estava com medo do teste.

Depois de um falatório interminável, interrompido ocasionalmente por um ou outro espirro do bruxo de nariz vermelho, mas que durou quinze minutos exatos (Harry não parava de olhar o relógio todo o tempo), Penny Harper mandou que todos os jovens se sentassem em cadeiras no fundo da sala, enquanto ela ia chamando os nomes de cada um para que fossem examinados pelos bruxos das mesas. Eram cinco jovens de cada vez e, pelo que Harry observou enquanto esperava, eles eram primeiramente interrogados, enquanto os bruxos escreviam freneticamente em pranchetas, para depois começarem com a prática. Ouviram-se vários "craques" quando os garotos começavam a tentar aparatar, no começo, apenas sumindo e reaparecendo nas próprias cadeiras onde estavam antes. No fim do teste, os bruxos aparentemente os mandavam aparatar para outra sala, já que os jovens sumiam e não apareciam mais.

Neville foi o primeiro dos três a ser chamado, deixando Harry e Rony sozinhos nas cadeiras. Nenhum dos dois estava com muita vontade de falar. Eles observaram o colega se levantar, caminhando indeciso. Ele fez o teste com a tal bruxa Penny, que parecia aterrorizá-lo cada vez mais. Harry desejou não ter que fazer o teste com ela. Apesar de Neville estar indo bem (pelo menos ele e Rony não acharam que faltava nada nele quando ele sumiu e reapareceu), o teste dele demorou mais um pouco, de modo que Malfoy também foi chamado e fez o teste com a outra bruxa, lançando um olhar de desprezo para Neville ao se sentar do lado dele. Felizmente para o garoto, ele não precisou ficar perto de Malfoy por muito tempo, porque cinco minutos depois o seu teste acabou.

Quando "Potter, Harry" foi chamado, Harry se levantou e não escutou direito quando Rony lhe murmurou um "boa sorte". Ele estava nervoso demais para notar os olhares curiosos que algumas pessoas lhe lançaram. Quando ele se aproximou das mesas, viu Malfoy, sentado duas mesas ao seu lado, fazendo uma careta de concentração, enquanto a bruxa à sua frente murmurava palavras de encorajamento. Harry, por um segundo, teve o desejo malicioso de que Malfoy se fragmentasse e perdesse seu ego em algum lugar depois de aparatar. Aquele mesmo bruxo resfriado que espirrou tantas vezes no meio do discurso de Penny Harper, acenou para ele e chamou-o para que se sentasse na sua mesa.

- E en... en... – ele espirrou bem em cima de Harry quando ele se sentou à sua frente. – Sinto muito... – murmurou, novamente esfregando o lenço no nariz que parecia ficar mais vermelho a cada segundo. – Então você é mesmo Harry Potter?

Harry suspirou e achatou pela milésima vez naquele dia a franja na testa.

- Sou.

O bruxo ficou encarando-o por alguns segundos com seus olhos lacrimejantes. Depois pareceu notar que Harry estava se enervando com aquilo, pois voltou rapidamente seus olhos para um pergaminho à sua frente, molhou uma pena num tinteiro, espirrou em cima do pergaminho, fazendo com que algumas gotas de tinta o manchassem, e por último esfregou com energia o nariz vermelho.

- Qual o seu nome completo? – ele perguntou com a voz anasalada.

- Harry Tiago Potter.

- O.k., Harry... – ele olhou ansioso para o rapaz. – Posso te chamar assim? – Harry assentiu, dando de ombros. – Meu nome é Ray... Ray... – ele espirrou novamente. – Raymond! E eu serei o seu supervisionador. Farei algumas perguntas, e gostaria que fo... fooooo... – outro espirro. - ...fosse o mais sincero possível, beleza?

Harry assentiu novamente, suprimindo o riso. Parecia que tinha pego o bruxo mais cômico para ser seu supervisionador. Só isso já fez a dor no seu estômago melhorar sensivelmente, mas o que o fez ficar imensamente animado foi o que aconteceu a seguir.

Raymond tinha apenas aberto a boca para começar as perguntas, quando soou um grito na sala. Todas as cabeças rapidamente se viraram para ver o que tinha acontecido, e Harry ouviu a gargalhada de Rony no fundo da sala.

Fora Draco Malfoy que gritara. Quando Harry olhou para ele, não pôde sufocar seu riso dessa vez. Parece que, após aparatar, Malfoy tinha perdido um pedaço do seu corpo, e não poderia ser algo mais cômico. Ele tinha ficado careca.

- Onde estão meus cabelos? – gritou histérico para a bruxa à sua frente, que parecia dividida entre o susto e o riso. – O que você fez com eles?

- Não fui eu! – ela reclamou, seus lábios tremendo por tentar não rir. – Foi você! Eu falei para se concentrar!

- Tsk, tsk... – Raymond murmurou, virando para Harry. – É isso que acontece quando não se segue direiiiii... diiii... – espirro. - ...direitinho as orientações...

A bruxa chamada Penny se levantou e tomou o lugar da supervisionadora de Malfoy, tentando explicar pacientemente o que tinha acontecido para um Draco totalmente histérico. Harry ainda ouvia Rony lá atrás tentando controlar as gargalhadas. Ele tinha que se lembrar de espalhar aquilo por toda Hogwarts quando recomeçasse o ano letivo; desejou ter uma câmera fotográfica igual à de Colin Creevey para registrar aquele doce momento. Raymond chamou sua atenção com uma pergunta:

- Muito bem, o que você mais gosta de fazer, Harry?

Cada pergunta era mais esquisita do que a outra, e Harry simplesmente não conseguia entender como elas poderiam ajudá-lo para aparatar. Raymond anotava tudo com cuidado, mas o pergaminho estava cada vez mais molhado por causa dos constantes espirros. Harry se surpreenderia se também não apanhasse um resfriado depois de tantos espirros que Raymond soltou em cima dele. Depois de preencher um extenso questionário, Raymond levantou seus olhos para Harry e começou a explicar:

- Muito bem, Harry, agora que eu já conheço um pouco de você poderei te ajudar a aparatar. Não é difíiiii... diiii... – Harry se desviou bem em tempo de um espirro que o atingiria no rosto. - ...difícil. Aparatar é apenas um tru... truuuu... atchim! Truque. Primeiro, quero que feche os olhos.

Harry respirou fundo e, antes de obedecer, viu pelo canto dos olhos Rony se sentar ao seu lado para começar o teste.

- Tente se concentraaaaaaaa.... – espirro. – Concentrar na minha voz, Harry...

O rapaz tentou ignorar os ruídos da sala, a voz histérica de Malfoy, que parecia ainda não ter recuperado os cabelos, e as perguntas que o supervisionador de Rony lhe lançava ao seu lado. Era complicado, mas ele tentou apenas ouvir a voz de Raymond e seus espirros.

- Esvazie sua cabeça de pensameeeee... atchim! Pensamentos...

Harry tentou apagar da cabeça a careca reluzente de Malfoy, mas sorriu ao lembrar o seu cocuruto mais pálido do que seu rosto. Ficou imaginando como seria engraçado se Malfoy tivesse que aparecer dessa forma em Hogwarts. A voz de Raymond soou, pela primeira vez, repreensiva.

- Você não está se concentrando, Harry!

- Desculpe...

Ele se forçou a esquecer Malfoy e sua careca, e voltar seus pensamentos para a voz de Raymond.

- Você me disse que gosta de jogar quadribol, de voar... Imagine-se voando, Harry... com a sua vassoura...

Harry lembrou de como era boa a sensação de voar sobre sua Firebolt e imaginou, com um sorriso, o campo de quadribol de Hogwarts.

- Sinta o veeeeee... – espirro. – Vento no rosto...

Raymond não precisava instrui-lo a isso. Harry sabia exatamente como era voar.

- Agora imagine que está sem a vassoura, mas continua voando...

Era esquisito, mas Harry tentou fazer o que ele pedira.

- Imagine que seu corpo é apenas carregado pelo vento...

Dessa vez, Raymond deu mais um tempo para Harry, e ele passou pelo menos um minuto apenas imaginando aquela cena.

- Agora abra os olhos e pense nessa sala! – Raymond disse rapidamente, fazendo um estalo com os dedos.

Craque.

Assim que Harry abriu os olhos, ele não viu mais o nariz vermelho de Raymond ou ouviu sua voz entrecortada por espirros. Mas isso durou apenas um segundo. Ele sentiu como se seu estômago estivesse revirando horrivelmente e teve vontade de vomitar. Sentiu, por milésimos de segundo, como se todo o seu corpo tivesse se dividido em minúsculos pedacinhos. Craque. Com um sobressalto, ele novamente sentiu o assento da cadeira dura e viu o nariz extremamente vermelho de Raymond.

Ele espirrou para o lado, acertando acidentalmente o supervisionador de Rony, e murmurou um "desculpe", voltando-se novamente para Harry, que sentiu o olhar de Rony sobre si. Harry colocou a mão na boca para não vomitar; sentia-se totalmente enjoado, e rezou para que Rony não estivesse lhe encarando porque faltasse alguma parte do seu corpo.

- O que foi? – Raymond perguntou com um grande sorriso.

- Estou enjoado... – Harry murmurou, temendo abrir demais a boca. Ele escutou o supervisionador de Rony lhe chamar a atenção e voltar com as perguntas.

- Isso acontece às vezes... – Raymond disse, ainda sorrindo, e conjurou um copo d’água, que ofereceu para Harry. – Apenas beba um pouco, respire fundo, e logo vai estar bem.

Devagar, Harry começou a beber a água, perguntando-se porque Raymond não parava de sorrir. Será que ele tinha perdido os cabelos como Malfoy? Quando levantou os olhos e encarou o bruxo, foi que notou que ele estava embaçado.

- O que é tão engraçado? – perguntou emburrado, depositando o copo sobre a mesa.

- Quando você estava voando, na sua imaginação... – ele parou por um instante, para espirrar. – Você estava usando óculos? – ele completou, limpando novamente o nariz.

- Não sei... – Harry falou sem entender. – Não dei muita importância a isso. – foi então que notou que algo estava faltando. Levou a mão aos olhos e percebeu porque Raymond estava embaçado; ele tinha perdido os óculos enquanto aparatava.

Harry não conseguiu reprimir uma exclamação de susto, mas Raymond apenas deu um risinho.

- O que eu faço agora?

- Não precisa se preocupar... – Raymond disse, como se tudo fosse muito simples. – Você só precisa aparatar de novo.

- De novo? – Harry perguntou, sentindo o estômago revirar mais uma vez. Ele não tinha gostado muito da sensação de aparatar. – Mas como eu devo fazer?

- Apenas imagine aquela mesma cena de antes, mas agora lembre-se que está usando óculos!

- Você não pode me dar novamente as instruções?

- Não. – Raymond respondeu severamente. – Você tem que fazer sozinho.

- Sempre vai ser assim?

- Assim como?

- Vou ter que imaginar isso sempre?

- Sim, a diferença é que quando abrir os olhos deve pensar no lugar onde quer aparecer. Por exemplo, dessa vez eu pedi para você pensar nesta sala, mas das próximas vezes você pode pensar na sala ao lado... na recepção do prédio... ou até mesmo na sua casa, entendeu o processo?

- Mas eu sempre vou ter que demorar todo esse tempo imaginando a cena?

- Não... com o tempo você vai se acostumar e as coisas vão ser au.. auuu... atchim! Automáticas. – ele esfregou o nariz. – Vamos, tente de novo.

Harry fechou os olhos, novamente imaginando a cena, com os óculos nela, e tentando esquecer a sensação horrível no estômago. Craque. Ele sumiu e reapareceu na frente de Raymond novamente, só que ele não estava mais embaçado. Levou a mão aos olhos e sentiu as lentes no rosto. Raymond sorriu.

- Você aprende rápido, Harry. Agora você só precisa aparatar para a sala ao lado e ficar treinando lá um tempo. Depois volte para a sala de recepção e espere o resultado. Foi bom conversar com você.

- Erm... você... pode me fazer... um favor?

Raymond limpou o nariz de novo e olhou intrigado para Harry.

- Eu quero mais um copo d’água! – Harry tapou a boca, e Raymond riu.

Certo, aparatar não era bem confortável, e Harry esperava definitivamente que a sensação de enjôo passasse com o tempo. Mas até que era divertido desaparecer e reaparecer em outro lugar. Na próxima sala onde Harry desaparatou, ele encontrou Neville, e os dois ficaram treinando mais um pouco até que Rony aparecesse bem ao lado de Neville desajeitadamente, fazendo com que o garoto perdesse o equilíbrio e os dois caíssem.

Depois de aparatar e desaparatar várias vezes, os três foram para a sala da recepção, onde esperaram os resultados. Malfoy apareceu um pouco depois, já com os cabelos recuperados, mas parecendo extremamente irritado. Harry e Rony, bem como Neville, que ouvira a história em primeira mão pelos colegas, riram com gosto quando Malfoy apareceu na sala, resmungando para si mesmo.

O resultado do teste saiu perto do meio-dia, e Harry, Rony e Neville ganharam certificados que permitiam que eles aparatassem livremente dali em diante. Os garotos ficaram satisfeitos quando descobriram que Malfoy teria que voltar no dia seguinte para um novo teste, e os três seguiram dali para a lanchonete do Ministério, onde se encontrariam com Sirius e o Sr. Weasley, comentando o que pensavam antes de aparatar.

- Poxa, eu gostei do que você pensa, Harry! – Rony falou animado, depois que Harry contou exatamente o que imaginava. – O bruxo que estava me supervisionando cogitou que eu imaginasse voar também, mas desistiu.

- O que você imagina, Rony? – Neville perguntou curioso.

As orelhas de Rony ficaram imediatamente vermelhas e ele abaixou os olhos, murmurando.

- Eu... penso... em... Hermione...

Harry e Neville trocaram olhares marotos e desataram a rir, o que fez Rony ficar emburrado com os dois pelos próximos cinco minutos. Neville passou esse tempo contando a Harry que se imaginava cuidando de plantas mágicas nas estufas de Hogwarts.

Eles almoçaram juntos na lanchonete, contando a Sirius e o Sr. Weasley sobre o teste. A Sra. Longbottom apareceu na lanchonete esbaforida em torno da uma da tarde, ralhando com Neville por tê-la deixado esperando. Foi só então que ele se lembrou que tinha esquecido que encontraria a avó na recepção do Ministério.

Rony passou o resto do almoço contando a Harry em detalhes como foi o jantar na casa de Hermione, o que fez Harry rir ainda mais do que a extensa carta que o amigo tinha lhe enviado. Quando Harry ia finalmente contar o que tinha acontecido no dia do seu aniversário, o Sr. Weasley disse que tinha que dar uma passadinha em casa, para deixar Rony lá. O garoto protestou, dizendo que queria ir aparatando, mas o Sr. Weasley argumentou que ele ainda não estava acostumado e poderia ser perigoso. Eles convidaram Harry e Sirius para uma visita, mas Harry recusou educadamente antes que Sirius dissessem "sim".

- Por que você não quis ir? – Sirius perguntou assim que os dois entraram no carro, Harry imensamente feliz pelo teste ter terminado.

- Eu estou cansado... – Harry mentiu. – Quero ir pra casa.

- Conta outra. – Sirius falou, dando a partida.

- Tá, é porque eu não quero ver a Gina, satisfeito?

Sirius fez um barulho ininteligível e por alguns minutos os dois ficaram em silêncio.

- Você ainda gosta dela, Harry?

A pergunta foi tão direta, que Harry quase engasgou com a própria saliva. Ele olhou tonto para o padrinho.

- Como?

- Perguntei se ainda gosta dela. – ele repetiu, e seus olhos estavam estranhamente nostálgicos.

- Eu tenho raiva dela. – Harry respondeu bravo, cruzando os braços e passando a encarar a paisagem pela janela.

- Vamos fazer a pergunta de outro modo... – Sirius sondou. – Se você tivesse a oportunidade de beijá-la, faria isso?

Harry pensou por alguns instantes. Ainda se sentia machucado com o que Gina tinha feito.

- Não. – respondeu com orgulho.

- Certeza?

- Certeza.

- Hum... – Sirius fez uma expressão misteriosa, mas não disse mais nada.

Eles não falaram muito o resto da viagem, apenas em um momento quando Harry contou sobre a careca de Malfoy para o padrinho. Quando eles chegaram em Freshpeach, Harry lembrou de uma coisa ao ver uma velhinha vestida de preto entrar na igreja da praça.

- A Agatha me disse uma coisa estranha ontem...

- Aquela menina é estranha, Harry... – Sirius comentou. – Eu sempre te disse isso.

- Você implica com ela, isso sim!

Sirius deu de ombros.

- O que ela disse?

- Disse que o pai dela viu gente esquisita aqui em Freshpeach... gente com vestes negras e gravetos nas mãos.

Sirius freou o carro bruscamente e quase atropelou um cachorro que correu choramingando para longe do carro.

- O quê?

- É exatamente o que eu pensei! – Harry exclamou, feliz pelo padrinho ter entendido. – Seriam... bruxos?

Sirius ficou em silêncio por alguns instantes, parecendo refletir. Depois, deu a partida no carro novamente e fez um gesto negligente com a mão.

- Ela deve ter se enganado...

- Será? – Harry perguntou descrente.

- Os únicos bruxos aqui somos nós, Harry... Disso eu tenho certeza.

Mas Harry não conseguiu tirar da cabeça que o tom de voz do padrinho quando disse "Disso eu tenho certeza" não parecia muito firme.

Nota da autora: Lembram que eu lancei um desafio sobre a música que a Katherine tava cantando no capítulo dois? Pois bem, uma pessoa acertou :D Foi a Lolo, que descobri que também adora a banda. A resposta era "Falling In Love (Is So Hard On My Knees), do Aerosmith. :)

No próximo capítulo: Harry recebe um telefonema muito louco de Rony e Hermione, e a aproveita a ligação para convidá-los a passar um dia na sua praia. A sua dupla de amigos conhecem Agatha, que acaba tendo uma relação com Rony tão amigável quanto a que tem com Sirius. Harry novamente tem vontade de visitar a tal "casa mal assombrada" e, dessa vez, ele chega bem perto da verdade.

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