Capítulo Vinte – A doença misteriosa

Rony se espreguiçou com um gemido.

- Você poderia pegar mais leve nos treinos, não, Harry? – ele perguntou esperançoso.

- É claro que não, estamos muito perto da taça esse ano. – Harry retrucou, guardando coisas no seu armário. Lembrou-se de como reclamava também quando Olívio Wood, muitos anos antes, era rigoroso nos treinos, e se pegou pensando se não estaria ficando paranóico e chato como ele. – Mas eu fui muito ruim com vocês hoje? – perguntou hesitante para o amigo.

Rony revirou os olhos, sem graça.

- Bastante. Não precisava ter brigado comigo porque eu deixei passar aquelas cobranças, precisava?

- Mas você realmente se distraiu, não pode, Rony!

- Foram só três!

- Seriam trinta pontos em um jogo de verdade!

- Arre!

Houve uma pausa. Harry fechou o armário com um som metálico.

- Ok, da próxima vez eu vou pegar mais leve. ‘Tá bom assim?

- Hunf. – Rony resmungou, colocando a vassoura no ombro. – Vamos embora logo que eu estou cansado. E aposto que Hermione vai nos dar maior carão de novo porque ainda não fizemos o dever da McGonagall.

- É pra segunda. – Harry acompanhou o amigo enquanto deixavam o vestiário.

- É, vai explicar pra ela que ainda temos a sexta, o sábado e o domingo até lá...

Porém, mal eles tinham saído, e deram de cara com Gina, que vinha correndo até eles, com uma expressão nervosa no rosto. Ainda estava com as roupas de quadribol. Rony emburrou a cara – tinha sido a própria irmã dele que marcara três vezes nas suas balizas.

- Ah, estão os dois juntos. – a garota falou ligeiramente desapontada. – Preciso falar com o Harry, dá o fora. – ela completou, grosseiramente, para Rony.

- Opa! – ele exclamou aborrecido. – Acho que ainda sou seu irmão, você não está falando com o vizinho!

Gina fez uma cara de quem seria capaz de fazer Rony engolir aranhas se ele continuasse com aquela história. Mas Harry não achava que ele estava errado.

- Hermione está procurando você. – Gina disse mal humorada. – Pediu para que te chamasse.

Rony trocou um olhar com Harry que este não entendeu. Parecia um tanto desconfiado quando disse:

- Tá bom, Gina. Se você está dizendo...

E saiu batendo os pés, espalhando água da grama por todo o lado.

Quando ele estava longe, Gina finalmente se virou para Harry. Ele se sentiu incomodado; ultimamente, não gostava de ficar sozinho com ela. Parecia que estava fazendo sempre algo errado. E Gina andava muito diferente do que era.

Ela procurava não olhar em seus olhos.

- Você foi muito duro com a gente no treino hoje... – ela comentou se balançando para frente e para trás. Aquilo lhe lembrava alguma coisa, mas ele não conseguia atinar o quê.

- Mas que droga, todo mundo tirou o dia pra me dizer isso? – ele retrucou automaticamente, mas então olhou para ela com mais atenção. Gina ainda desviava o olhar dele e torcia as mãos, nervosa. Continuava a balançar o corpo para frente e para trás. E ele se lembrou de Dobby, o elfo doméstico, e de como uma vez Gina lhe fez lembrar a mesma coisa, só que, naquela época, ela hesitava em contar sobre a Câmara Secreta para ele e Rony. – Não foi isso que você veio me dizer, Gina. – ele completou mais sério. - Fala de uma vez o que você quer.

Ela finalmente o encarou, e seu olhar era diferente... Tinha um brilho estranho. Ela parou de se balançar, ficando ereta e muito séria.

- Eu sei o que você anda fazendo.

Foi como se um alarme soasse na cabeça de Harry. O que ela poderia saber? Será que... Não, ela não poderia ter descoberto... ou poderia? Ele ouviu, ao longe, um barulho alto e se virou para olhar, procurando a fonte do som.

- Você ouviu isso?

Foi quando ele sentiu as mãos de Gina virando seu rosto para ela. Estavam frias, quase gélidas. A garota tinha um olhar obstinado.

Houve um momento no qual os dois apenas se olharam, Harry muito consciente de que havia algo bastante errado ali. Só que ele não saiu dali. Continuou fitando a garota, até que ela agiu.

Aconteceu muito rápido. Num minuto, ele estava olhando-a intrigado e, no outro, ela já estava beijando-o. Mas não era um beijo de verdade; Gina mordeu seu lábio com força, tanta que Harry sentiu-o romper e arder, e o sabor de sangue invadiu sua boca. Imediatamente, ele afastou Gina com violência, xingando alto.

- Ai, o que você está fazendo sua louca?

Harry levou as mãos aos lábios, que sangravam sem parar. Ele viu que a boca de Gina estava vermelha pelo seu sangue, assim como os dedos dela. Seu olhar parecia fora de foco por um momento, então ela murmurou, atordoada, um “desculpe”, virou-se e foi embora, quase correndo.

- Hey! – Harry gritou, tentando correr atrás dela, porém foi como se uma linha invisível se enroscasse no seu pé, ele tropeçou e caiu espetacularmente de cara na grama. – Merda! – ele xingou, levando a mão ao lábio, que ainda sangrava. Olhou para os lados e viu uma pessoa apontando-lhe a varinha. Ela estava em cima de uma árvore e pulou para o chão. Aquele barulho mais cedo tinha vindo dali.

- Azaração do tropeço, Potter.

Era Katherine.

Harry ficou parado onde estava, sem saber o que fazer ou dizer. Não, aquilo era realmente o fim da picada, só faltava agora cair um meteoro na sua cabeça ou coisa parecida. Harry não conseguia acreditar na falta de sorte. Katherine tinha nos olhos uma fúria quase assassina. Todo seu corpo tremia de raiva, mas a mão que segurava a varinha apontada para Harry estava bastante firme.

- Kate...

- Não me chame assim, Potter.

Outra vez ela lhe chamando daquele jeito. Era como se ela estivesse lhe dando um tapa.

- Você é muito idiota mesmo, não é? – ela disse com os dentes cerrados, ainda apontando a varinha, acompanhando o movimento que Harry fez ao se erguer do chão. – Patético, ridículo...

- Ei! Você não sabe o que está dizendo, o que você viu... não significa... se você me deixasse explicar...

- Ah, não me venha com essa história de que “eu posso explicar, querida”. – ela o mandou para um lugar bastante feio. – Essa desculpa já está muito batida. – ela respirou fundo, os olhos brilhando. – Se tem uma coisa que eu não suporto é ser enganada... você poderia simplesmente ter dito que não me queria, e eu entenderia...

Harry não conseguiu dizer nada. Achou que não adiantaria explicar, ou tentar... Ela estava realmente magoada, ou não diria aquilo, daquele jeito. Houve uma pausa muito longa.

- Você ainda sente algo por ela? – Katherine perguntou incisiva, brandindo a varinha com raiva para Harry enquanto falava. – Responda!

- Não!

Ela respirou fundo.

- Nada?

- Não!

- Sente ao menos... raiva, desprezo, vontade de se vingar...?

Harry não entendia aonde ela queria chegar. Katherine ainda empunhava a varinha. É claro que ele sentia raiva da Gina, principalmente agora, que ela tinha se comportado como uma doida varrida. Mas ele não respondeu.

- Então você ainda sente algo por ela... – ela concluiu tudo errado.

- Não... – ele não entendia como aquilo estava acontecendo, mas sabia que podia consertar tudo, ela só tinha que parar para escutá-lo... – Kate, você não entendeu!

- Eu entendi muito bem. – ela disse firme. – É você que é muito burro.

Deu as costas a Harry e saiu andando, sem dizer mais nada. Ele correu atrás dela, segurando-a pelo braço, desesperado. Aquilo não poderia estar acontecendo, simplesmente não podia.

- Kate...

Ela se virou, apontou a varinha e exclamou um feitiço que fez Harry voar bem uns dois metros e aterrizar dolorosamente na grama.

- Se você não gostasse dela... – Katherine sentenciou magoada. - ...tudo o que sentiria seria uma fria indiferença.

E foi embora antes que Harry pudesse dizer qualquer coisa. Ele não viu que havia uma terceira pessoa assistindo à briga.

 

*******

 

- Você viu a Gina, Hermione?

Hermione ergueu os olhos de suas anotações de Transfiguração, intrigada.

- Ela subiu há algum tempo para o dormitório feminino, Harry. – a garota informou calmamente. – Estava voltando do treino... Algo errado?

- Não, tudo bem. – ele mordeu o lábio e sentiu o gosto adocicado de sangue.

- Harry, você está sangrando! – Hermione exclamou preocupada. – Deixe-me ver isso.

- Não precisa! – ele afastou a mão da amiga, que se emburrou.

- Harry, o que houve? E o Rony, por que não está com você?

Harry parou por um momento, fitando a amiga, esquecendo por um minuto de Gina.

- Ele veio antes, pensei que já estivesse aqui com você.

Hermione parecia confusa.

- Anh... mas eu achei que ele estava com você, Harry.

- Bem, ele já está bem crescidinho para se perder nesse castelo, não é? – Harry bufou irritado. Hermione ia falar alguma coisa quando Rony entrou como um maluco pela passagem do retrato, parecendo também bastante nervoso. Ele viu Harry e Hermione, e atravessou o salão comunal, repetindo a pergunta de Harry:

- Você viu a Gina, Hermione?

- Olá para você também, Ronald. Eu estava me perguntando onde você estaria! Mas, já que você obviamente não quer saber da minha pessoa, pode ir procurar sua irmã, primeira à direita, dormitório feminino do sexto ano. Tenha uma boa noite. – ela disse automaticamente, voltando a atenção para suas anotações, muito contrariada.

Rony nem percebeu isso e resolveu subir as escadas para o dormitório feminino, e o óbvio aconteceu: os degraus viraram uma rampa íngreme, e Rony acabou estatelado no chão da sala comunal, de costas, sendo recebido por risadinhas das meninas mais novas que estavam no salão conversando perto da lareira. Ele se levantou enfurecido e voltou para onde estavam os amigos, sentando-se ao lado de Hermione.

- Não me diga que não sabia que isso ia acontecer. – ela ironizou.

- Merda. – ele disse por fim. – A minha irmã me paga. – então, ele lançou um olhar rápido a Harry, que ficou sem entender nada, e logo fingiu que não tinha olhado. Harry teve vontade de chacoalhar Rony até ele dizer o que estava se passando na sua cabeça, mas, ao invés disso, decidiu desistir por hoje. O dia tinha sido horrível, ele tinha brigado com a sua namorada – se é que ela ainda era sua namorada -, estava com a boca ardendo e sangrando, o corpo dolorido por vários feitiços e azarações de Kate, e sua cabeça estava estourando. Não adiantava nada ficar ali, não conseguiria ir até o quarto de Kate se explicar, muito menos ir ao quarto de Gina sacudi-la para arrancar dela qual era o problema dela afinal, e lançar algumas azarações no meio da sua cara. Talvez fosse melhor mesmo ir dormir, talvez no dia seguinte acordasse e descobrisse que tudo não se tratara de um sonho muito maluco. É, era isso que iria fazer.

Resmungou um boa noite mal humorado para os amigos (Hermione ainda reclamou da boca dele sangrando, mas Harry não se importou) e subiu para seu dormitório. Tomou um banho apenas porque estava muito nojento para se jogar direto na cama e depois caiu nos lençóis, sem vontade de comer e tentando entender, antes de adormecer num sono inquieto, porque ele tinha tão pouca sorte na vida.

 

*******

 

Era uma noite tempestuosa, e Harry estava andando descalço na praia das Andorinhas. A pequena Agatha o seguia, e tentava pegar na sua mão, mas as mãos de Harry estavam suadas, e ela escorregava. Ele, por sua vez, continuava a andar, alheio aos esforços da menininha de alcançá-lo. Queria chegar na casa mal-assombrada do final da praia, que àquele dia parecia particularmente tenebrosa. Ele escutava a menina atrasando-o, pedindo para que parasse, que ela não queria ir, mas Harry continuou a andar sem lhe dar atenção. Um relâmpago riscou o céu, e Harry sentiu sua cicatriz doer. Agatha começou a chorar. Ele viu a porta da casa, estavam perto, talvez só mais um pouco... Havia uma mulher de cabelos longos à porta, e o vestido dela estava manchado de sangue. Harry quis perguntar o que tinha acontecido, mas sua voz não saiu. A mulher disse que ele tinha chegado tarde demais. Mas ele conhecia aquela mulher, gritou seu nome, mas ela caiu aos seus pés, morta. Agatha chorou e gritou, e um som fino atravessou a escuridão...

Harry abriu os olhos. Era apenas o despertador tocando.

Sua cabeça doía horrivelmente, e parecia que seu corpo tinha sido esmagado por um trator. O despertador continuou a tocar, e ele ouviu Simas resmungar e desligá-lo. Começou uma movimentação no dormitório, pessoas se mexendo, procurando coisas, trocando de roupa. Harry continuou deitado, achava que se mexesse um único músculo algo que estava dentro dele poderia ir para o chão. Talvez suas tripas e o jantar do dia anterior. Então ele lembrou que teria dois tempos com Snape àquela manhã, e ele não aceitaria uma falta ou um atraso, com a desculpa de que Harry não estava se sentindo bem. Resignado, Harry colocou os óculos no rosto e começou uma lenta movimentação para se sentar na beirada da cama. Ele viu Rony, de pé atrás de sua própria cama, lutando contra o sono e uma camisa que ele tentava colocar. Ele finalmente conseguiu e encarou Harry, com os olhos caídos de quem poderia ter dormido mais umas cinco horas no mínimo.

- Nossa, você ta bem?

- Meio enjoado só... e com dor de cabeça. – Harry reclamou, sentindo a voz pastosa, e algo retornando à garganta, com um gosto ácido. Ele rapidamente fechou a boca e a tapou com a mão.

- Vai ver foi o jantar ontem. – ele disse, terminando de colocar o suéter. – Por que não pede à Madame Pomfrey alguma poção?

- Hum... talvez... – só de pensar em andar até a ala hospitalar, Harry já se sentia cansado. – Se bem que ela pode querer me manter lá, e hoje temos aquele trabalho do Snape para entregar...

- Ah, não... assim você também vai me deixar enjoado, cara.

Muito lentamente, Harry colocou as vestes da escola e recolheu seu material para o dia. Sua cabeça parecia pesar uma tonelada, e por vezes ele se sentiu tonto demais para continuar em pé e teve de sentar novamente. Rony insistiu para que ele fosse apanhar uma poção e mandasse Snape para aquele lugar, mas Harry disse que se sentiria bem se pegasse um ar fresco e talvez bebesse alguma coisa no café da manhã. Ele pediu a Rony que não contasse isso a Hermione, pois ela faria mil recomendações, mas não foi preciso ninguém contar nada; assim que a garota o viu, já saiu falando que Harry estava pálido, que deveria ir à ala hospitalar se não estava se sentindo bem, mediu a temperatura dele com uma mão em sua testa e um monte de coisas. Ela se ofereceu para explicar a Snape porque ele não tinha ido à aula, e pedir a ele que Harry entregasse outro dia o trabalho, mas até Hermione teve de admitir que Snape não se comoveria, e além de zerar a nota de Harry, ainda descontaria pontos da Grifinória.

- Mas depois da aula dele, você vai à ala hospitalar, Harry! – ela sentenciou quando chegavam ao Salão Principal, que estava lotado àquela hora da manhã. – Tem um lugar vago ali perto da Gina. – Hermione apontou, puxando os garotos.

- Lá não. – Rony disse firme, antes que Harry se manifestasse contra, apesar de ao mesmo tempo seu corpo estar implorando para que sentasse, já que não podia deitar. – Ali, do lado do Neville tem um lugar.

- Está cheio, Rony! O que é que tem...?

- A gente se aperta. – ele disse em um tom de sentença que nem Hermione ousou contrariar.

A primeira coisa que Neville comentou foi como Harry não parecia estar bem, para depois dar bom dia. Hermione passou a manhã inteira tentando persuadir Harry a ir à ala hospitalar e a comer alguma coisa; ela conseguiu que ele tomasse metade de um copo de suco, o que o deixou ainda mais enjoado, se era possível.

- Você não está grávido, está? – Rony perguntou, recebendo uma resposta seca de Hermione, mas Neville riu.

Harry observou Katherine na mesa da Sonserina, mas ela não estava olhando, parecia distraída. Ele tentou convencê-la de que estava enganada, mas tudo que a garota fazia era ignorá-lo. O único momento que Harry ainda conseguia trocar algumas palavras com ela era nas aulas de duelos, e na última delas, Katherine, parecendo muito magoada, explicou:

- Harry, não se trata mais disso...

- Eu disse que não foi nada, Kate! Aquela garota é louca, estou te dizendo!

- E eu estou dizendo que isso não importa mais!

- Como assim?!

Ela suspirou, cansada.

- Harry, eu me dei conta de que não há muito espaço pra mim na sua vida... você tem seus amigos, suas obrigações, e eu tenho as minhas. Esse negócio de ficar escondido não ia dar certo, de qualquer jeito.

- Você quis assim!

- Eu sei... mas é porque precisava ser assim, ou você parou para pensar em como seria se todos soubessem?

- Kate...

- Vamos continuar a nos tratar bem, apenas. Temos que fazer coisas juntos até o final do ano. Sem ressentimentos.

Não era bem aquilo que ele tinha em mente.

- Pelo menos você acredita que eu não tive culpa no que aconteceu?

Ela guardou o material na mochila e a jogou por cima das costas. Olhou para Harry longamente, suspirou. Parecia estar se controlando para não dizer algo, mas Harry não achou que fosse algo rude ou desagradável; ela não parecia mais brava, apenas... triste. Ela balançou a cabeça e foi embora sem responder.

Harry suspirou. Tinha cansado de ficar dizendo para si mesmo que ela ainda pensava nele, como ele pensava nela. Talvez fosse melhor apenas se concentrar nas coisas que tinha a fazer, e deixar essa história de lado. Tinha outras coisas para se preocupar, como a sua montanha de deveres, os N.I.E.M.s, que Hermione não cansava de lembrar, e também aqueles sonhos que o visitavam agora todas as noites...

Mas havia alguém que não parava de espiá-lo na mesa, e não era Katherine. Era Draco Malfoy. Ele parecia tenso e, Harry notou, desviou o olhar apressadamente quando Harry percebeu que estava olhando. Mas ele notou que o olhar de Malfoy o acompanhou quando saiu do Salão, junto de Rony e Hermione.

Toda a névoa, o cheio acre, a escuridão e a voz odiosa de Snape não melhoraram em nada o estado de Harry. Àquela manhã, tinham que preparar a poção da invencibilidade, que era muito complicada. Hermione ficou dizendo instruções baixinho para Harry e Rony todo o tempo, mas isso não foi o bastante para melhorar o estado do trabalho do dois. Harry tinha vontade de se afogar naquele líquido amarelo pálido, tamanho era seu cansaço. De fato, aquele líquido se parecia muito com o que Harry vinha tentando reprimir por toda a manhã...

- Harry! – ele escutou Hermione gritar de muito longe.

Vagamente percebeu os rostos nublados de Rony e Hermione sobre si, e o teto da masmorra cheio de fumaça. A voz de Snape bem longe. Outras vozes. Seu corpo pesado... os olhos fechando...

 

*******

 

Harry abriu os olhos lentamente; parecia que apenas o movimento de suas pálpebras se abrindo fazia seu corpo inteiro gritar de dor. Ele viu uma luz branca entrar e sair de foco. Estava tamanho silêncio, que ele pensou ter ficado surdo, por um momento. Então, aos poucos, como se alguém estivesse aumentando o volume, ele começou a ouvir ruídos, distantes, e depois sussurros.

- Ele parecia meio mal quando acordou... mas nossa, não pensei que fosse tanto.

- Isso é loucura. Nós nunca deveríamos tê-lo deixado fazer as coisas assim. Ele deveria ter vindo logo para cá!

- E como a gente ia fazer isso, exatamente, Hermione? Íamos azará-lo?

- Hum... eu não disse isso... mas... devíamos tê-lo convencido e...

- Podem parar de discutir um minuto, vocês dois? – Harry conseguiu abrir a boca e falar, porém sua voz saiu pastosa e mole.

- Você acordou! – era Hermione, e ele distinguiu o formato dela perto dele na cama. – Você está melhor?

- Ele não parece melhor...

- Rony!

- Que foi? Estou falando alguma mentira por acaso?

Harry não estava mais ouvindo. Ele sentiu uma tontura, algo com um gosto muito ruim voltando em sua garganta e só teve tempo de dizer:

- O que acon...?

Mas não conseguiu terminar a frase; Hermione se afastou bem a tempo de evitar que suas vestes fossem encharcadas de vômito. Harry deixou o corpo cair de lado na cama, sem força para se levantar e viu, no chão, o que tinha acabado de colocar para fora, mas não era nada que já tivesse visto antes; era um líquido viscoso e negro, que borbulhava agourentamente. Ele levou uma mão à boca e um pouco do liquido ficou na sua mão; era quente e pulsante, como se mil formigas passeassem por ele. Como se fosse algo vivo.

- Evanesco!­ – ele ouviu Hermione, e o líquido sumiu.

- Que... o que é isso?

Rony e Hermione trocaram um olhar breve. Rony foi o que se mexeu primeiro; ele apanhou um pano úmido em um cesto e esticou para Harry, dizendo que era melhor ele se limpar. Harry apanhou o pano, e reparou que Rony largou-o bem depressa, como se não quisesse encostar no amigo.

- O que está acontecendo? – Harry perguntou, após se limpar com o pano úmido. – O que está acontecendo comigo?

Eles trocaram aquele olhar novamente. Harry já estava começando a perder a paciência.

- Bem, Harry... nós não sabemos direito, você caiu na aula de Poções... – Rony começou, meio sem jeito.

- E começou a vomitar esse... líquido preto. – Hermione continuou, meio enojada. – Snape veio correndo, nós achávamos que ele fosse falar alguma maldade, mas... ele foi muito eficiente... quer dizer, ele mandou que não tocássemos em você e muito menos na... gosma, ou o que seja. Ele colocou você em uma maca, mandou que avisássemos Dumbledore... e ele trouxe você aqui, porque depois que falamos com Dumbledore você já estava aqui...

Harry voltou a se deitar, sua cabeça estava explodindo de dor. Ele queria perguntar mais, mas estava ficando cada vez mais difícil falar sem causar uma dor ainda maior em seu estômago.

- Mas... o que é isso?

- Então, Harry... nós não sabemos. – Hermione continuou. – Não disseram nada pra gente.

Harry olhou acusadoramente para os amigos.

- É sério. – Rony confirmou. – Nós não iríamos mentir pra você sobre um negócio desses, cara. – ele puxou uma cadeira e sentou-se com o encosto virado para frente. – Mas... isso não parece normal. – ele finalizou, com a expressão bastante séria.

Harry virou a cabeça sobre o travesseiro para olhá-lo; Hermione tinha se colocado atrás de Rony, com uma expressão assustada. O simples movimento de girar a cabeça fez todo o corpo de Harry doer.

Hermione mordeu os lábios e agitou as mãos, como fazia quando estava nervosa ou ansiosa.

- Tenho certeza de que se nós procurarmos bem... vou pesquisar isso, deve ter uma explicação e... com certeza Madame Pomfrey poderá resolver isso, ela sempre dá um jeito e...

Mas Rony mantinha a expressão séria.

- Não acho que vá encontrar algo na biblioteca. – ele disse para Hermione, mas continuava fitando Harry. Este, por sua vez, achava que estava entendendo o que se passava na cabeça do amigo. – Quer dizer... existem coisas no mundo da magia que não são normais, bem... eu já ouvi histórias de gente que...

- Você quer dizer que eu fui envenenado? – Harry perguntou abruptamente.

Rony torceu o nariz.

- Não. Acho que algo pior.

 

*******

 

As horas que se passaram não foram muito melhores. Harry passou mal novamente e vomitou algumas outras vezes aquela mesma gosma preta, mesmo que não tivesse comido nada (não por falta de tentativas de Madame Pompfrey, que quase o fez engolir uma sopa que só tinha uma aparência um pouco melhor que a gosma). Nunca tinha se sentido tão mal daquela maneira; já tinha ficado doente algumas vezes, porém nada daquele jeito, e o deixava ainda mais nervoso não saber do que se tratava. Madame Pomfrey desconversou quando Harry perguntou, e Rony jurou ter visto Dumbledore trocando algumas palavras rápidas com a enfermeira no final da tarde daquele dia, mas não conseguiu entender do que falaram.

- Acho que ele notou minha presença ou sei lá... Às vezes acho que Dumbledore tem olhos atrás da cabeça ou algo assim.

Harry não saberia dizer se era pior quando estava acordado ou tentando dormir. Tentando, porque nunca conseguia dormir completamente. Conseguia tirar alguns cochilos superficiais, como se sempre estivesse naquela fronteira entre o acordar e o despertar, mas as dores por todo o corpo o faziam voltar à realidade. A única dor que tinha sentido maior que aquela fora a da Maldição Cruciatus, mas a diferença era que a maldição terminava... já essas dores não pareciam ter fim.

Em alguns momentos que conseguiu fechar os olhos por mais tempo que alguns minutos, Harry novamente vislumbrou aqueles sonhos que ultimamente tinha com Agatha na praia. E sempre perdia a oportunidade de salvar aquela mulher, que ele não conseguia reconhecer – mas sabia que conhecia. No final de todos os sonhos, ela aparecia morta, recortada contra a escuridão da noite e caída cheia de sangue em frente à casa mal assombrada da praia.

Madame Pomfrey expulsou Rony e Hermione quando já era noite, afirmando que Harry não precisava de babá, que ela estava sempre por ali para ficar de olho nele, e que os dois deveriam seguir para a sua casa. Eles faltaram nas aulas daquele dia, mas não foram dispensados do dia seguinte; prometeram passar antes das aulas para visitá-lo, e Hermione disse que não se preocupasse, que ela pegaria toda a matéria para ele.

- Não vai fazê-lo se sentir melhor assim, Mione... – Rony comentou, arrancando um meio riso de Harry quando Hermione tentou bater nele pelo comentário.

Harry dormiu mal àquela noite, e teve pesadelos com a praia e a mulher morta novamente, agora misturados a fatos banais da escola e algumas cenas com Katherine do tempo que passaram juntos. Acordou quando ainda era madrugada, com uma voz familiar que chamava seu nome e pedia que se acalmasse. Quando abriu os olhos, uma nova dor se somou a todas as outras: sua cicatriz, e essa ele sabia que não tinha nada a ver com a doença ou o que quer que possuísse. E a pessoa que ele viu não era quem ele esperava.

- Sirius...? – Harry murmurou.

O padrinho sorriu para ele, ainda constrangido como da última vez que se encontraram. Ele parecia cansado e abatido, e uma ruga de preocupação tinha se instalado nas suas têmporas, concorrendo com todas as outras marcas que tinha.

- O que foi, achou que eu não viesse vê-lo? – ele perguntou em um tom que apenas pretendia ser brincalhão, porém não obtinha nenhum êxito.

Harry tentou se ajeitar na cama, porém só conseguiu mais dor ao se movimentar, e parou onde estava. Suas costas estavam doloridas por estar na mesma posição por tanto tempo; ele ia pedir a Sirius que o ajudasse a se movimentar, mas notou que ele, assim como Rony e Hermione, também evitava tocá-lo. Sirius mantinha uma certa distância do leito e suas mãos estavam bem distantes do lençol. Snape deveria ter dado a mesma recomendação de não tocá-lo, assim como fizera com seus amigos, e Harry ficou pensando que teria que ser algo realmente muito grave para Sirius obedecer à recomendação de Snape.

- Mas não precisava tanta preocupação. – Harry ouviu sua voz rouca e lenta, muito diferente da que estava habituado. Falar era um esforço muito grande também e causava muita dor. – Eu não estou morrendo... ou estou?

Foi apenas um segundo, mas Harry viu uma sombra nos olhos de Sirius e a ruga de preocupação ficou mais pronunciada.

Então Sirius riu com aquela risada muito canina dele.

- Que bobagem, Harry! Você não morreu com um jato verde mortal quando era criança, iria morrer agora com uma gripezinha qualquer?

Mas estava escrito na cara de Sirius que ele não achava que aquilo fosse uma “gripezinha qualquer”. Aliás, passava longe disso. E Sirius pareceu perceber que Harry estava prestes a perguntar o que era aquilo, pois mudou bruscamente de assunto.

- Você estava delirando enquanto dormia. – ele comentou. – Falando algumas coisas... nomes...

Harry estava com a cabeça muito dolorida para pensar onde Sirius queria chegar, e sabia que poupar palavras era poupar dor, então esperou que o padrinho dissesse logo o que queria.

- Você disse o nome daquela menina. – ele disse lentamente, como se estivesse com receio que dizer aquilo fosse fazer Harry gritar ou, pior, passar mal do jeito que estava. De fato, não melhorou seu estado de ânimo lembrar de Katherine.

- Ela tem nome, realmente. – Harry comentou, desviando os olhos cansados para o teto.

- “Kate”, você disse. E falou outras coisas também. – Harry sentiu uma pontada no estômago que não tinha muito a ver com a dor que sentia, e desejou que ficasse calado quando estava delirante. – Você se envolveu com ela, Harry?

Harry ponderou se adiantaria discutir ou mentir. Chegou à conclusão de que estava muito cansado para qualquer uma das duas coisas, e que não poderia doer mais dizer a verdade. Além disso, Sirius não iria gritar com ele ou coisa que o valha estando ele naquela situação, iria?

A partir daí, ele começou a contar o que tinha acontecido para Sirius, omitindo algumas partes que considerava mais íntimas, dele ou de Katherine. Para sua surpresa, Sirius o ouviu calado, sem comentar ou protestar, muito menos criticar Harry. Quando este terminou de falar, o padrinho suspirou e comentou, em um tom dividido entre alívio e lamento:

- Sinto muito que tenha terminado desse jeito... – ele pigarreou. – Tem alguma chance de vocês se acertarem? – ele completou depressa, e Harry não sabia se era uma pergunta boa ou ruim.

- Não sei.

Sirius não insistiu. Ele se recostou à cadeira e fitou o teto junto com Harry. Não havia nada de interessante ali além do fato que era mais fácil olhá-lo do que aos olhos de um ao outro.

- Eu não consegui te contar algo àquele dia que me despedi de você antes de pegar o trem... – Sirius comentou. Harry se virou para fitá-lo, um pouco mais desperto. – Mas acho que agora temos tempo.

Harry fez um esforço para prestar atenção, a despeito das dores e náusea que sentia. Não disse nada, porém; espero que Sirius falasse a seu próprio tempo.

- Você se lembra daquele dia que brigamos em casa? Quando você estava de férias?

- Acho que seria meio difícil esquecer, Sirius...

- É... – ele deixou a voz solta no ar, os olhos vazios. – Eu fui procurar Samantha aquele dia, depois que saí. – ele fez uma nova pausa e procurou os olhos de Harry, esperando alguma reação, que não veio. – Precisava saber uma coisa.

- E descobriu...?

- Não por ela. – Sirius respondeu, com uma voz cheia de mágoa. – Não, ela nunca me diria... Ela nunca se importou em me dizer... Ela plantou essa dúvida na minha cabeça há tanto tempo e por tantos anos ela não foi capaz de retirá-la. Eu tive que fazer minhas próprias buscas...

Sirius suspirou.

- Um pouco antes de eu ir para Azkaban... – ele continuou, seus olhos um pouco mais fundos. - ... eu me envolvi novamente com ela, por uma noite. E dessa noite... nós tivemos um filho.

Havia algo nos olhos de Sirius muito além de dor. Harry tinha várias perguntas a fazer, mas se calou; a única coisa que Sirius precisava no momento era ser ouvido, e apenas isso.

- Ela me contou isso pouco antes de tudo acontecer... seus pais, você, Azkaban... e eu passei anos e anos sozinho, com toda a minha culpa e essa dúvida, sem poder saber o que de fato tinha acontecido. Se havia, em algum lugar, um filho meu, vivo... talvez morto... talvez perdido...

“Quando eu consegui sair, nas poucas vezes que consegui encontrar Samantha e falar com ela, ela nunca me respondeu. Sempre negou. Mas eu não estava convencido. Àquela noite, ela me disse que nosso filho tinha morrido. Eu não acreditei. Fui atrás de respostas.”

Ele parou e não disse mais nada. Harry esperou, porém depois de alguns minutos, não consegui mais se controlar.

- E então? O que descobriu?

- Ela está viva.

- É uma menina?

- Sim... mas não posso encontrá-la. Mesmo que seja quem eu pense que é... não posso encontrá-la... se ela estivesse agora aqui, na minha frente, eu não saberia quem é ela, nem a veria.

- Como assim? Como...?

- Samantha fez alguma coisa com ela para que eu não a encontrasse. Nem eu, nem Voldemort.

- Alguma coisa...? Como assim, ela a enfeitiçou ou coisa parecida...?

- Pior. Ela amaldiçoou a própria filha. A minha filha.

 

*******

 

Sirius não pôde terminar o que estava dizendo aquele dia a Harry, pois Madame Pomfrey os ouviu conversar e entrou na ala para cuidar de Harry, distribuindo poções, tentando fazê-lo comer e mandando que Sirius parasse de exaltar seu paciente. Harry ficou furioso, mas Sirius pareceu achar a interrupção bem-vinda, pois não reclamou e logo deixou a sala, depois de se certificar do estado de Harry com a enfermeira. Ele disse que voltaria, que ficaria em Hogwarts até Harry se restabelecer, não importasse o quanto demorasse.

Harry passou muito mal àquele dia. Parecia que piorava, ao invés de melhorar, com os cuidados que tinha. Rony e Hermione vieram lhe visitar no final da tarde, mas pareciam ainda mais preocupados que no dia anterior, e falaram menos àquele dia, colocando dúvidas na cabeça de Harry se eles já saberiam ou não coisas a mais que ele.

Durante todo o dia, Harry apenas cochilou várias vezes, todas elas povoadas por pesadelos e dores. Sirius passava a maior parte do tempo na enfermaria, mas não voltou mais ao assunto daquela madrugada, não que fizesse alguma diferença agora que o estado de saúde do rapaz se agravava cada vez mais. Os dias foram passando piores e, logo, Harry estava perdendo a noção do tempo, e trocando os dias pelas noites. Tinha muita febre e freqüentemente delirava. As dores não cessavam, nem com as poções que Madame Pomfrey administrava. Ele comia sempre menos, e forçado, e depois vomitava tudo, junto com a mesma gosma preta dos primeiros dias.

Em uma noite, talvez uma ou duas semanas depois – Harry não saberia precisar -, ele acordou com enjôo e dor de estômago. Ficou parado na cama, sem conseguir se mover, e não abriu os olhos. Lentamente, seus ouvidos começaram a registrar vozes e palavras. Harry reconheceu Sirius e, depois de algum tempo, Dumbledore. Suas vozes pareciam distantes, mas Harry não se atreveu (e talvez nem conseguisse) a abrir os olhos.

- Não seria o caso de transferi-lo para o St. Mungus, Dumbledore? – Sirius dizia, aflito. – Ele está pior a cada dia...

- Eu já lhe disse o que está acontecendo, Sirius. – o diretor respondeu inflexível, porém, com a voz carregada de pesar. – Sabe que não adiantaria.

- Como não? Nós não podemos continuar assim... será que não está vendo o que está acontecendo?

- É claro que eu estou vendo, Sirius. E estou tão preocupado como você, mas estamos de mãos atadas.

Sirius soltou um urro de frustração.

- Eu não conformo com isso, Dumbledore! – a voz dele estava mais alta. – Não vou me conformar, não vou permitir que isso aconteça na frente dos meus olhos!

- E como acha que eu me sinto a respeito, Sirius? – Dumbledore também parecia exaltado, como poucas vezes Harry o vira. – Eu sei o que está acontecendo aqui muito bem, e estou...

- HARRY ESTÁ MORRENDO, SERÁ QUE NÃO VÊ?!

Houve um silêncio aterrador. Harry sentiu algo pressionando seu peito, e não era parte de todas as dores que sentia pelo corpo. Ele quase abriu os olhos, mas conseguiu se manter impassível, apesar das mãos trêmulas.

- Ele é a única pessoa que eu tenho nesse mundo, Dumbledore... – a voz de Sirius estava mais lenta. – E ele está morrendo...

- Eu também me importo com ele, Sirius. – Dumbledore falou, e sua voz estava lenta e rouca, como a de um velho que ele pouco demonstrava ser. – Eu estou fazendo tudo e mais do que eu posso... mas essa maldição é maior que eu ou meus poderes e meu conhecimento. Voldemort tinha uma carta na manga e soube exatamente como utilizá-la.

Silêncio. Vários minutos se passaram, e Harry não ouviu mais as vozes. Mas não importava também. Já sabia tudo o que estava acontecendo. Estava morrendo. Voldemort tinha conseguido o que desejava, por tanto tempo. Ele não o enfrentara, ele preferira fazer tudo oculto... tudo o que importava era que Harry morresse, não importava mais se pelas suas mãos ou se por uma maldição. Harry sentiu a revolta borbulhar dentro dele, não podia acabar assim, ele não podia se entregar daquele jeito... ele tentou se levantar, mas não conseguiu mover um músculo. Tentou se concentrar, pensou em Voldemort, sua cicatriz ardeu, mas estava muito tonto e com muita dor... a concentração foi se esvaindo... Sentia-se exausto. Não queria dormir, agora não queria mais dormir... e se não acordasse depois? Não era assim que deveria acabar...

Depois que os homens pararam de discutir e deixaram a enfermaria, depois que Harry finalmente cedeu ao sono, cheio de pesadelos e delírios, uma pessoa invisível se aproximou da cama dele e tirou o capuz. A pessoa olhou para o rapaz, que era apenas uma sombra do que tinha sido, magro, abatido, com a pele escurecida como se já estivesse quase morto. A pessoa estendeu a mão para perto dele, mas não o tocou. Ainda não. Olhou para as próprias mãos. Toda a sua vida tentara compreender porque era assim... mas, agora, finalmente entendia.

E tomou uma decisão.


No próximo capítulo: Harry tem um sonho muito vívido e perturbador, e finalmente abre a caixa de Lílian... e descobre coisas que deveriam ficar escondidas para sempre...

< Capítulo Anterior / Continua...

Voltar aos capítulos/Home

Hosted by www.Geocities.ws

1