Capítulo Dezenove – Apenas por diversão

 

Dizem que existe um lugar, um lugar mágico, entre o sono e o despertar; um lugar onde ainda se lembra do sonho... onde ainda é possível senti-lo, tocá-lo, vivenciá-lo... onde todos os aromas mais agradáveis estão presentes no ar, onde as sensações ainda são palpáveis, onde as palavras ecoam suaves na mente... como doces lembranças... como leves melodias...

Era esse o lugar onde estava Harry.

Ele continuou a fitar o teto do dossel da cama, enquanto a claridade fresca e preguiçosa da manhã penetrava sorrateiramente pela janela aberta. Muito distante, ele ouvia o ruído dos pássaros anunciando que uma nova manhã se iniciava, e também longe estavam os roncos de Neville do outro lado do quarto. Harry não sabia há quanto tempo estava daquela maneira, apenas observando as pregas do dossel sem realmente enxergá-las, alheio ao mundo exterior àquele sonho, lembrando e sorrindo...

Às vezes, Harry ria consigo mesmo. Em vários momentos, pegou-se beliscando o próprio braço para checar se era mesmo realidade, então descobria que não se importava de verdade se aquilo era ou não real, porque era muito, muito bom, e nada mais importava.

Era difícil acreditar que, apenas algumas horas antes, Harry tinha rolado com Katherine Willians na grama molhada, dito a ela o que o sufocava há tanto tempo – que estava apaixonado por ela – e que, depois disso, eles tinham se beijado...

"Eu quero ficar com você, Harry..."

Tinha sido o melhor beijo de sua vida, Harry pensou imediatamente, ainda sorrindo sozinho. Ele já tinha beijado Gina, e até mesmo Samantha – algo que ele lembrava com desagrado –, uma mulher madura, o que era muito diferente de beijar uma garota, porém, mesmo assim, Harry não tinha medo de errar ao dizer que beijar Katherine tinha sido a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido. Tinha sido... especial. Como se fosse o primeiro beijo, mas ainda melhor; havia algo a mais, alguma coisa que Harry não conseguia explicar – ainda.

Havia aquela sensação fantástica... de tê-la em seus braços, a pele dela tão colada à sua que parecia a mesma, o calor do corpo dela junto ao seu, seus corações batendo no mesmo ritmo, as respirações se confundindo, as mãos cobertas de luvas tocando seu rosto...

Simplesmente havia Katherine.

Harry jamais se sentira daquela maneira. Passara um ano inteiro com Gina, mas nunca experimentara uma sensação tão especial, como se houvesse algo que fluísse por seu sangue e disparasse por todos os poros de seu corpo, fazendo-o apreciar por completo aquele sentimento desconhecido. As imagens do que tinha acontecido não paravam de assaltar sua mente, e em todas as vezes que elas se repetiam, Harry sentia o mesmo que tinha sentido naquele momento, algo tão inexplicável que só era possível entender sentindo.

Ele ouviu uma certa movimentação ao seu redor, mas não deu atenção a ela; vozes, ruídos apressados de passos e de tecidos roçando-se uns nos outros. O quarto parecia agora completamente iluminado pela claridade da manhã, e provavelmente seus colegas de quarto estavam começando a se levantar e se vestir para um novo dia de aulas. Harry, no entanto, permaneceu na mesma posição, sem mover um único músculo, exceto os labiais, que não paravam de sorrir.

- O Harry não vai se levantar, Rony? – alguém perguntou.

- Ora, como eu vou saber?

- Deve estar dormindo um pouco mais.

- Com todo esse barulho que estamos fazendo?

- Será que ele está doente? – perguntou a mesma voz do início.

- Mas ele estava bem ontem quando terminamos o treino, Neville... Será?

Uma nova movimentação. Mais passos. Alguém puxou a cortina do dossel e, antes que a claridade intensa cegasse os olhos de Harry, ele identificou a cara cheia de sardas de Rony sobre ele.

- Ah, você está acordado! – ele resmungou, virando-se para alguém ao seu lado. – Relaxa, Neville, ele tá bem, só é um folgado mesmo.

- Ei, a noite foi boa, hein, Harry? – a voz de Simas caçoou lá do outro lado, seguida de risadas.

- Opa, quem você pegou, cara? – Dino perguntou malicioso. – A gente conhece?

Harry resmungou um palavrão qualquer, mandou-os para um lugar que deveria ser muito distante, virou-se na cama e cobriu o rosto com o travesseiro, ouvindo as risadas de Dino e Simas se distanciando assim que eles cruzaram a porta do dormitório. Neville, segurando uma risada, desejou um "até logo" e, pelo que parecia, também deixou o quarto, porque a isso se seguiu um silêncio prolongado.

Quando finalmente tirou o travesseiro da cara, Harry deu de cara com Rony, de pé, ao lado de sua cama. Ele tinha um olhar enigmático no rosto; não sabia se ria, ou se fazia uma careta séria, que definitivamente combinava muito mais com Hermione do que com ele.

- O que foi, Rony? – Harry perguntou sonolento. – Por que tá me olhando com essa cara?

Houve uma pausa breve, na qual Rony parecia estar analisando a situação cautelosamente.

- Você estava com ela ontem à noite, não? – ele perguntou de supetão. – Foi isso que aconteceu, não foi? Você voltou tarde ontem, eu ouvi quando entrou no quarto...

Harry se sentou depressa na cama, fazendo muito barulho ao arrastar os lençóis, enquanto fitava assustado o amigo à sua frente. Do quê Rony estava falando? Ele não poderia saber... ou poderia? O amigo continuava a fitá-lo, seriamente, o que era bem atípico de sua parte.

- "Ela" quem, Rony? O que você está dizendo?

Depois de um suspiro, ele puxou uma cadeira e sentou-se em frente a Harry, apoiando os cotovelos no encosto do móvel. Parecia analisar com cuidado o amigo, pensando no melhor jeito de dizer o que estava na sua cabeça.

- Aquela... – ele começou, hesitante. – ...garota que você está gostando, Harry... Você estava com ela, não? Aconteceu alguma coisa ontem, hein?

Por um instante, pareceu que Rony fosse sorrir, mas deveria ser apenas impressão de Harry, porque no instante seguinte ele estava sério novamente. Aquilo não era normal.

- Eu... – Harry começou devagar, e então descobriu que não queria esconder aquilo de Rony. – Eu estava com ela sim, Rony.

- E...? – ele arregalou os olhos de um jeito engraçado.

- Nós apenas nos beijamos. – Harry disse depressa, interpretando corretamente o que Rony quis dizer, sorrindo em seguida. – Não fizemos nada que você e Hermione já fizeram...

Rony se remexeu na cadeira, sorrindo contrafeito após a insinuação de Harry.

- Como você sabe...?

- Eu não sou burro.

- Ah... – por um momento, Rony não quis olhar para Harry. – Foi mal não ter contado, mas... eu fiquei achando que Hermione poderia ficar constrangida, e...

- Tudo bem, eu vou continuar fingindo que não sei de nada. – Harry sorriu, contente pela conversa ter-se desviado dele. Grande engano.

- Mas não mude de assunto. – Rony ergueu os olhos, um pouco mais seguro de si. – Então... você esteve... com ela.

Era apenas impressão de Harry, ou Rony tinha torcido o nariz ao dizer, com um leve desagrado, "com ela"?

Harry tomou fôlego para dizer o que tinha vindo à sua cabeça, mas se conteve pouco antes das palavras saltarem de sua boca. Queria contar aquilo a Rony, queria saber o que ele pensava a respeito, mas ao mesmo tempo não tinha a mínima idéia de como ele iria reagir, mesmo que tivesse a impressão de que essa reação não seria exatamente muito boa...

Contudo, nada poderia prepará-lo para o que vinha a seguir.

- Diz o que veio à sua cabeça, Harry.

Houve uma pausa breve, na qual eles apenas se encararam.

- O que você diria se eu dissesse que "ela" é uma... sonserina?

Rony soltou um palavrão muito prolongado, fechando os olhos.

- Eu sabia. – ele disse entredentes. – Eu sabia!

- Rony...

- Harry! – o amigo exclamou parecendo chocado com a "revelação", fitando-o como se visse Harry pela primeira vez. – Como você pôde se apaixonar por Katherine Willians?

Harry permitiu-se arregalar os olhos e deixar o queixo cair, pasmo.

- Como você sabe...?

- Eu também não sou burro. – Rony disse, transformando aquela conversa num estranho "dèjá vú". – Por mais que pareça, eu não sou. Tinha notado já há algum tempo.

- Rony, você não entende...

- Ela é uma sonserina, Harry! Prima de Draco Malfoy! Onde você estava com a cabeça, afinal?

Definitivamente, aquela não estava sendo uma boa reação.

- Olha, Rony...

Ele ignorou Harry, levantando-se transtornado.

- De todas as suas encrencas, Harry, essa deve ser a maior! – ele disse sem se importar com os protestos do amigo. – E... cara! Não é apenas uma encrenca, é uma cagada, e das bem fedorentas! Você já parou pra pensar no que está se metendo? Porque aquilo lá... – ele apontou para um lugar imaginário, muito sério. – ...é um ninho de cobras, literalmente! Ela provavelmente está contando tudo nesse exato momento para o priminho querido, e então você vai se ferrar grandão, Harry! Escuta o que eu tô te dizendo, eu não tô brincando, Harry, isso vai feder! Eu não acredito que você foi logo se...

- RONY! – Harry gritou furioso, sem se dar conta de que tinha se levantado e fitava o amigo de cima pra baixo. Rony parou de falar imediatamente, recuando um pouco. – Porra, Rony, eu não planejei isso, tá legal! Ou você acha que eu parei e pensei "ah, acho que agora vou gostar de uma sonserina, só pra variar!" – ele completou sarcástico. – Eu fiquei tão surpreso quanto você quando descobri o que estava acontecendo, mas já era tarde demais, entendeu? Não posso voltar atrás agora! O que está feito, está feito, e eu não me arrependo!

Rony se calou por alguns segundos, parecendo embaraçado.

- Me diga... que eu estou errado, Harry. – ele começou ansioso. – Que você não se apaixonou por ela... que isso tudo é... apenas por diversão.

Alguma coisa nas últimas palavras de Rony despertou algo assustador dentro de Harry. O que ele estava fazendo? O que faria a seguir? Ele e Katherine tinham se beijado, mas o que vinha depois? Eles poderiam sair juntos, como um casal qualquer? Ou eles só se beijariam às vezes, "apenas por diversão"? Harry poderia assumir aquilo e encarar todos comentando pela escola e arregalando os olhos como Rony estava fazendo agora? Ou poderia Katherine aceitar o risco de assumir que estavam juntos para todos? Ou, pior, e se ela não quisesse mais ficar com Harry?

- É... não... bem... – Harry gaguejou, indeciso. No entanto, a verdade estava bem na frente de seus olhos, e ele não podia negá-la agora. – Não é só diversão, Rony. Eu... eu estou apaixonado por ela.

Tinha sido quase tão difícil quanto dizer aquelas palavras para Katherine. Quanto a Rony, parecia que ele tinha sido atingido por um hipogrifo desembestado. Pálido como cera, ele se sentou na cama de Harry, fitando o malão do amigo, mas sem o ver realmente. Harry se sentou ao lado dele, um tanto apreensivo, esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa.

- Apaixonado? – ele repetiu depois de muito tempo, então se virou para o amigo com uma expressão engraçada. – Tem certeza que não andou bebendo por engano a poção de amor do Malfoy, Harry?

Harry suspirou profundamente, rindo pelo nariz.

- Tenho, Rony. Foi uma coisa gradual, não do dia pra noite.

- Ah...

- Rony?

- Fala.

- Você não vai contar para a Mione, vai?

Houve uma pausa. Rony estava com uma cara de cachorro sem dono.

- Por quê? Você não quer que ela saiba?

- Talvez... não ainda. – Harry disse hesitante. – Ela provavelmente vai ter um ataque, e depois vai ficar falando no meu ouvido sobre isso todos os dias... você sabe como ela é.

Rony assentiu seriamente, ainda um pouco atordoado.

- Mas... e se ela perceber sozinha? Ela é esperta, Harry.

- Eu sei. – Harry fez uma careta. – Mas eu vou evitar enquanto puder...

- Boa idéia. – Rony disse um pouco mais descontraído, rindo. – Você só contou pra mim, Harry?

- Hum... Sirius descobriu sozinho, nas férias...

Rony se virou chocado para Harry.

- Então foi por isso que vocês...

- Brigamos? Foi.

- Oh, puxa! Eu nunca imaginaria... – Rony boquiabriu-se um pouco mais enquanto analisava a situação. – Mas... o que ele achou... disso tudo, quero dizer?

Harry deu de ombros, aliviado por Rony não estar mais tendo ataques histéricos.

- O mesmo que você. Quero dizer... – ele completou, pensando naquela discussão com o padrinho quando ele encontrou a carta de Katherine. – Bem, a reação dele foi um pouco pior...

Rony pareceu que ia dizer alguma coisa, mas se calou a tempo. Talvez porque tivesse percebido que Harry não estava muito feliz com aquela situação.

- Ele não mandou mais nenhuma carta, então?

- Nem um bilhete. – Harry retrucou, seco e amargurado.

- E se você...?

- Eu não vou mandar nada para ele. – o rapaz disse irritado. – E vou socar a próxima pessoa que me recriminar, e isso inclui você.

- O.k., o.k... eu só estava tentando ajudar...

- Tá, eu sei. Mas... agora eu só quero... deixar as coisas acontecerem, o.k., Rony?

O amigo assentiu, mas ainda não parecia muito convencido. Ele fez uma careta estranha.

- Então... anh... o estrago já está feito.

Harry urrou de raiva, revirando os olhos.

- Rony! O que eu acabei de falar!

- Tá bom, tá bom! – o outro se defendeu, recuando. – Eu não disse nada! Nadinha mesmo!

Houve uma pausa longa.

- Ela... não é como você está pensando, ela é...

- A sua opinião sobre ela não é muito confiável, Harry.

- Arre! Não importa, Rony. Eu estou assumindo o risco. – Harry suspirou. – Quer dizer... ela não é a pessoa mais perfeita do mundo, mas eu também estou longe de ser e... eu gosto dela.

Nova pausa. Rony se levantou.

- Acho melhor irmos andando... Se demorarmos mais um pouco, Mione vai começar a fazer perguntas e...

- Sim, eu sei. – Harry também se ergueu. E, antes que Rony desse as costas a ele, Harry apertou seu ombro. – Obrigado por... tentar entender...

O amigo apenas deu de ombros, sorrindo contrafeito.

- Você sabe o que está fazendo.

E, enquanto Rony apanhava suas coisas, Harry observou por um instante a paisagem nublada pela janela, imaginando como enfrentaria aquele dia. E o que faria quando visse Katherine de novo depois do que tinha acontecido.

 

*******

 

- Vocês demoraram.

Foi a primeira coisa que Hermione disse quando Harry e Rony a encontraram na mesa da Grifinória, no Salão Principal. Ela já estava tomando café, com um livro apoiado na mesa, dando migalhas de biscoito de amêndoas para Edwiges.

- Harry demorou para acordar. – Rony explicou descontraído, sentando-se ao lado da namorada. – Hey, larga esse livro e presta atenção em mim! Eu sou muito mais interessante, posso garantir!

- Oh, me desculpe se eu sou a única que me preocupa com os exames. – a garota resmungou irônica, desviando-se das mãos de Rony. – Mas eles estão logo aí, e temos toneladas de coisas pra estudar, se vocês não-

- Mione, nós estamos em fevereiro, os exames são só em junho!

- Rony, não são exames quaisquer! São os N.I.E.M.s! – ela parou de falar subitamente, fitando Harry confusa. – Harry, o que você está fazendo? Por que não senta?

- Ah, tá bom... – ele se largou depressa no banco, como se tivesse levado um choque, e percebeu que Rony se controlou muito para não rir. Nem tinha se dado conta que estava há pelo menos cinco minutos procurando Katherine na mesa da Sonserina. – Eu estava distraído.

Hermione olhou por cima do próprio ombro, intrigada.

- É a sua garota misteriosa, Harry?

Foi demais para Rony. Ele caiu na gargalhada. Harry engasgou com o suco de abóbora.

- Você sabe algo que eu não sei, não é, Rony?

- Mione, você não disse que ia estudar? – ele se controlou corajosamente para não sorrir.

- O.k... eu não vou insistir! – ela deu de ombros, voltando ao seu livro, apesar de ter lançado um olhar furtivo para Harry. Rony se debruçou na mesa para olhá-la.

- Oh, não, você está com aquele olhar de novo! – ele choramingou, em pânico. – Harry, olha só isso!

- Que olhar? – a garota perguntou confusa.

- Aquele! – ele exclamou. – Aquele "eu vou descobrir, nem que tenha que revirar... hum... a biblioteca toda!"

- Ah, então tá ótimo, isso não é uma coisa que se descubra na biblioteca. – Harry divagou, voltando ao seu suco de abóbora.

- Não... – Hermione sorriu travessa. – É muito mais fácil! Principalmente para uma garota...

Harry começou a tossir. Rony iniciou um ritual bizarro de bater a cabeça na mesa.

- Rony, dá um freio nela! – Harry implorou, depois que conseguiu desengasgar.

- Eu! – ele perguntou com a cara amassada. – Por que eu?

- Porque você é o namorado dela!

- Pior ainda! – e voltou a bater a cabeça na mesa.

Hermione não conseguia parar de rir. Parecia que a encenação dos dois a tinha distraído, ou Harry queria acreditar nisso. Ela puxou Rony pelo colarinho para que ele parasse de se autoflagelar, e voltou a ler seu livro. Foi então que Harry se deu conta que alguém bicava as costas de sua mão.

- Que foi, Edwiges?

- Ah, ela trouxe um bilhete pra você, Harry. – Hermione disse, concentrada no livro. Rony aparentemente desistira de atrair sua atenção, talvez por medo que ela tivesse outro daqueles "olhares". – Eu esqueci de avisar, está na pata dela.

Harry trocou um olhar significativo com Rony.

- Será que é do Sirius? – Harry perguntou mais para si mesmo que para o amigo.

Hermione ergueu os olhos do seu livro nesse momento. Harry até esqueceu de procurar Katherine pelo salão e puxou depressa o pergaminho das patas de Edwiges, ignorando os protestos dela em busca de mais biscoitos.

- E aí? – Rony perguntou avidamente quando Harry passou os olhos pelo bilhete.

- Ah... não é dele, não. – o rapaz disse decepcionado. – É do Hagrid.

- O que ele diz? – Hermione perguntou.

- Reclama porque faz séculos que a gente não o visita. – Harry respondeu, oferecendo o pergaminho para a amiga ler. – Está chamando para tomarmos um chá com ele depois das aulas de hoje.

- Não é nossa culpa! – Rony resmungou. – Nós temos toneladas de coisas da escola para fazer, não?

Hermione respondeu com um olhar oblíquo.

- Você quer dizer... eu tenho toneladas de coisas pra fazer, e vocês não fazem nada da vida?

- Ah, Mione, você às vezes fere meus sentimentos, sabia? – Rony choramingou, puxando o pergaminho da mão dela.

Mas Harry não estava mais prestando atenção. Seus olhos estavam pregados em quem tinha acabado de entrar. Katherine parecia diferente, e Harry se pegou sorrindo como um idiota; ela ainda usava o uniforme verde e prata, e ainda andava fazendo pose, mas tinha soltado os cabelos, porque Harry tinha pedido. E então ele teve uma idéia maluca: levantar, atravessar o salão e sentar-se na mesa da Sonserina. Em outros tempos, ele teria certeza que tinham colocado algo em sua bebida no café da manhã. Mas quando ele estava prestes a pôr em prática a sua insanidade, os olhos dos dois se cruzaram, e Katherine lançou um olhar de advertência a ele. Harry voltou a se sentar, emburrado.

Sua imaginação começou a funcionar feito louca. Será que Katherine não tinha gostado do que tinha acontecido no campo de quadribol? Será que ela não gostava de Harry para ficar com ele? Será que ela estava brincando com ele? Será que ela nem se lembrava do que tinha acontecido? Será que ela estava se levantando naquele exato momento, e Harry não iria conseguir falar com ela?

A cabeça de Harry a acompanhou quando a garota atravessou o salão em direção às portas duplas. Atrapalhado, ele apanhou a mochila de qualquer jeito, nem respondeu quando Hermione perguntou aonde ele iria e saiu apressado do salão. Esbarrou em Colin Creevey, que vinha entrando no salão, mas nem se preocupou em pedir desculpas. Alcançou Katherine quando ela estava no alto da escada, desviando-se de um grupo de segundanistas da Corvinal para chegar ao primeiro andar.

- EI! – Harry gritou com urgência, tentando sobrepor sua voz à barulheira que faziam as crianças que vinham descendo as escadas. – Kate!

Ela se virou, ligeiramente pálida e assustada, os longos cabelos girando com ela e cobrindo seu rosto. E, então, a boca de Harry ficou seca, seu cérebro ficou vazio, e ele não tinha a mínima idéia do que dizer.

- Ei, sai da frente! – um menino mal encarado esbarrou na altura da cintura de Harry ao passar, desviando sua atenção, e o rapaz se pegou pensando que respeitava bem mais os setimanistas na sua época. Ele se encostou no corrimão da escada, aborrecido, enquanto a avalanche de crianças mortas de fome passava, pensando em várias maneiras de transformá-las em geléia. Quando finalmente o último aluno passou (uma menininha que quase entortou o pescoço para dar uma boa olhada de perto em Harry), ele pôde olhar para cima e ver que Katherine apontava para a esquerda, fazendo gestos desencontrados tentando explicar que devia segui-la.

No entanto, quando ele finalmente chegou ao primeiro andar, o corredor estava vazio, como se a garota tivesse evaporado no ar. Harry estava tentando relembrar os gestos que ela tinha feito há pouco, pensando se tinha entendido direito, quando uma mão saiu do nada e o puxou para dentro de uma sala de aula vazia.

- O que diabos deu em você? – ele perguntou para Katherine assim que ela fechou a porta. A garota se virou indignada para Harry.

- O que deu em mim? O que deu em você! Você bebeu, por acaso?

Houve uma pausa para Harry tentar entender o que estava acontecendo.

- Anh... espera um pouco, acho que a gente não tá falando a mesma língua.

- Você... – ela começou a espetar o dedo no peito dele. – ...ficou doido... – Harry começou a recuar, mas ela não parava de empunhar o dedo ameaçadoramente contra ele. – ...de me chamar de "Kate"... – ele encostou na parede, e ela ainda assim continuou a cutucá-lo com o dedo. – ...na frente de todo mundo?

- Não era "todo mundo"! – ele explicou, quase rindo. – Era um bando de pivetes!

- E no Salão Principal? – ela continuou como se Harry não tivesse interrompido. – Eu entrei em pânico achando que você fosse vir falar comigo na mesa da Sonserina! Você por acaso enlouqueceu, foi! Ou bateu a cabeça em algum lugar? Não, porque parece que você-

- Eu adorei o seu cabelo desse jeito, sabia?

Ela parou de falar no mesmo instante, sua expressão irritada transformando-se sem que permitisse em um sorriso. Quando ela se deu conta do que estava acontecendo, virou a cabeça de um lado para o outro, respirando fundo e fechando a cara:

- Não mude de assunto, eu estava dizendo que você...

- Você está deixando ele assim porque eu pedi? – Harry começou a mexer no cabelo dela, e sentiu que ela se arrepiou. Aproveitando-se disso, ele inclinou o rosto até o pescoço dela, sentindo seu perfume de canela. – Estou me sentindo importante depois disso, sabia?

- Não foi... porque... você... – ela riu, pois ele estava roçando a pele no pescoço dela, fazendo cócegas. – Pára com isso, eu estava falando...

- Ah... sinto muito... – ele sussurrou próximo ao seu ouvido, acariciando-a com o próprio rosto, enquanto sua mão livre alcançava sua cintura e a puxava para ele. – Acho que não está mais...

Ele alcançou enfim seus lábios, silenciando-a ao beijá-la novamente. E se pegou pensando em como era estúpido por ter demorado tanto tempo para fazê-lo, pois beijá-la era realmente muito bom. Katherine ficou paralisada no início, como se pega de surpresa, então, depois de algum tempo, começou lentamente a corresponder a Harry, beijando-o de volta, envolvendo-o com seus braços ao redor do pescoço do rapaz, parecendo flutuar colada a ele. E, então, depois do que pareceu muito tempo (mesmo que Harry quisesse que fosse mais), os dois se separaram. Katherine estava ligeiramente rosada, sorrindo, e parecia que tinha esquecido tudo aquilo que queria dizer antes, completamente entorpecida.

- Isso... – ela disse depois de algum tempo, sorrindo suavemente. – ...quer dizer que nós estamos mesmo... juntos?

- Ah, você não estava escutando quando eu te disse ontem no campo de quadribol que ficaria com você? – Harry perguntou, fingindo estar ressentido.

- Não, não... anh... – ela riu, girando novamente a cabeça, levando tímida uma mão ao rosto dele. – Quer dizer... é claro que eu estava ouvindo, mas eu pensei...

- Pensou...?

- Nada, não importa! – ela espantou o assunto.

- Fala o que você pensou!

- Eu... não, eu... – os olhos dela encontraram os dele. – Ah, saco! Eu pensei que... você não fosse querer mais nada... além...

Ela virou o rosto, sem graça para encará-lo. Harry sorriu, puxando-a pelo queixo para olhá-lo.

- Eu tenho palavra. Eu gosto de você. E eu disse que ficaria com você. Sempre.

Ela fechou os olhos por um segundo, rindo.

- Eu achei que tivesse inventado essa parte quando me lembrei do que tinha acontecido algum tempo depois...

- Bem, eu não tinha bebido nada, então se eu me lembro que disse, é bastante certo que eu devo ter dito, não é? Mas, se você não acredita, eu repito: eu fico. Sempre.

Ela riu, muito sem jeito.

- Se você quiser, eu te belisco, pra você ter certeza que é de verdade. – Harry emendou, fazendo menção de beliscá-la, conseguindo arrancar risadas, pois novamente encontrara os pontos de cócegas dela.

- Pára de tirar uma da minha cara! – ela reclamou, recuando até ficar numa distância segura dele. – Você é um cretino!

- Eu não tô tirando uma das sua cara, que injustiça comigo!

- Tá, tá... Fica aí, Harry! – ela avisou, colocando uma carteira entre os dois. – Nós precisamos ficar um pouco longe para conversarmos, o.k.?

- Eu não quero conversar, você quer, Kate? – ele perguntou malicioso, tirando a cadeira do caminho e começando a envolvê-la pela cintura, enquanto ela lutava, rindo, para fugir. – Ah, que pena, acho que não vamos conseguir conversar...

- Har...

Mas ele já estava novamente beijando-a, dessa vez ainda mais longamente. Eles só pararam quando Harry encostou-a numa cadeira, que se arrastou, fazendo muito barulho, despertando-os para os passos do outro lado da porta. Eles se separaram depressa, trocando um olhar tenso, mas os passos se afastaram pouco tempo depois.

- Acho melhor trancar a porta por enquanto... – Harry sugeriu, puxando a varinha.

- Harry, é sobre isso que eu quero conversar. – Katherine insistiu, depois que o rapaz acenou para a porta com a varinha. – Quer dizer... o que nós vamos fazer?

Harry percebeu onde ela queria chegar, e ficou subitamente tenso também. Estava adiando o momento que teriam que conversar sobre isso, pois também não sabia bem o que fazer. A sua vontade era gritar para o mundo que ele e Katherine estavam juntos, mas...

- Harry, talvez seja melhor...

- Contar! – ele se virou para a garota, tomando uma decisão. – Vamos deixar que todos saibam, Kate, de que adianta esconder, não tem problema o que as pessoas vão dizer, nós não precisamos...

- NÃO! – ela exclamou alarmada, fazendo Harry enrugar as sobrancelhas, sem compreender sua reação. – Não, Harry, nós não podemos contar.

Houve uma pausa breve.

- Kate, se você diz isso por causa do que as pessoas vão falar, eu já escutei muito as pessoas falando da minha vida, mas eu não estou me importando com esses comentários idiotas agora, o mais importante é que...

- Não, não é esse o problema!

- Então qual é!

Ela se calou, ficando de repente muito séria.

- Vamos só... esperar mais um pouco, o.k.? A gente pode dar conta disso sem as pessoas saberem... ainda.

Harry sentou em cima de uma carteira, um pouco decepcionado. Era estranha aquela sensação, pois uma hora antes estava inseguro, pedindo para Rony não contar para mais ninguém o que estava acontecendo, e agora tinha vontade que todos soubessem, não importava o que dissessem. Não queria esconder Katherine, gostava dela e queria poder andar junto dela nos corredores ou em qualquer outro lugar, na hora que desejasse. De repente passou pela sua cabeça que Katherine queria se esconder, pois não estava realmente levando aquilo a sério. Como se fosse... apenas por diversão. E para Harry era sério. Bem sério.

- Você... ficou chateado? – ela perguntou, aproximando-se dele e tentando encontrar seus olhos.

Ele fez uma careta, suspirando emburrado.

- Você não acha que... isso é uma brincadeira, não é?

- Claro que não! – ela exclamou séria. – E também não quero que você ache que é, entendeu?

- Então por que vamos esconder? – ele se virou para ela. – Olha, eu não vou negar que isso me passou pela cabeça, mas se pararmos pra pensar, só vamos nos aborrecer escondendo... Nós não precisamos disso, precisamos? Não estamos fazendo nada errado, e... dane-se o que as pessoas vão pensar, só porque...

- Porque eu sou uma sonserina... – ela revirou os olhos.

- E eu sou um grifinório! – ele completou. – Mas, quem se importa? Quer dizer, há uma lei proibindo que um grifinório e uma sonserina fiquem juntos? Se existe, ninguém conhece ainda, ou está afixada na lista do Filch, e ninguém olha aquela lista.

Ela riu, fechando os olhos por um segundo.

- Kate...

- Só mais um pouco, Harry. – ela pediu. – Vamos esperar só mais um pouco. Até que eu tenha certe... – a garota engoliu em seco. – Até que seja o momento certo, o.k.?

Houve uma nova pausa até que Harry cedesse, assentindo com a cabeça.

- Vai dar tudo certo, você vai ver! – ela segurou o rosto dele e deu-lhe um selinho. Harry se inclinou para frente, esperando mais, mas quando se deu conta, ela já estava na porta, destrancando-a. – Preciso ir para a aula, não me siga! Até mais!

- Até mais... – ele disse para a sala vazia, sem conseguir deixar de se sentir ligeiramente decepcionado.

 

*******7

 

Harry abriu os olhos bem devagar, ainda bêbado de sono. Tinha aquela sensação agradável de ter acabado de despertar de um sonho bom, mas não se lembrava dele com exatidão. O quarto ainda estava escuro, então não deveria ser a hora de levantar. Virou para o outro lado, sonolento demais para abrir os olhos e ver que horas eram.

Mas a ausência dos roncos de Neville definitivamente era suspeita. O.k., Harry pensou, tinha apenas que colocar os óculos no rosto e ver o horário no despertador; depois, viraria para o outro lado e voltaria a dormir.

- MERDA!

Eram quase oito horas da manhã, e Harry estava muito, muito atrasado. Mesmo. E se não estava enganado, teria aula com Snape naquele dia, o que significava uma provável detenção, sem contar os pontos perdidos e o que era pior, a falação eterna dele se chegasse atrasado. Blá, blá, blá, e etecétera e tal. Aquele idiota deveria se tratar, porque, sério, ele tinha problemas. Ah, adorável maneira de despertar!

Harry se levantou atrapalhado, trocou de roupa sem nem ao menos olhar direito o que estava fazendo, e saiu correndo pelo quarto, jogando de qualquer jeito a mochila por cima dos ombros. Como aquele infeliz do Rony não lhe acordara? Era muita sacanagem mesmo, ele iria ouvir muitas quando Harry chegasse ao Salão Principal. Possivelmente sairia de lá com os ovos com bacon enfiados nas orelhas, se Harry confirmasse que tinha sido de propósito. Mas será que daria para tomar café da manhã atrasado daquele jeito? Seu estômago rugiu enlouquecido ao simples pensamento de pular a refeição. Passaria lá ao menos para roubar umas torradas da mesa. Quem sabe também uns bolinhos?

Ele parou derrapando ao chegar ao Salão Principal, mas ele estava... cheio? Àquela hora? Foi então que Harry sentiu braços ao redor de seu pescoço, quase o sufocando.

- Kate!

Ela sorria para ele, mas bem diferente. Aliás, o que ela estava fazendo com aquelas roupas? Ela nunca se vestia daquele jeito, como... qualquer garota. Ela sempre andava toda molambenta! E ela definitivamente estava puxando Harry pela gravata, na frente de toda escola!

- Mas o que raios você...?

- Venha tomar café comigo, Harry!

- Você tá doida? Além disso... eu estou atrasa...

Mas ele já tinha sentado na mesa... da Sonserina! Ao lado de ninguém menos que Draco Malfoy!

- Ei, Harry, pode me passar a torta de maçã? – o loiro disse cordialmente.

Harry parou para pensar. Será que tinham colocado algo em sua bebida na noite anterior? Aquilo só poderia ser uma alucinação, e das bravas! Sim, deveria ser uma poção! Ele obviamente estava drogado, imaginando coisas! Claro, ele só precisava falar com a Madame Pomfrey, e ela com certeza lhe ministraria um antídoto que pudesse fazê-lo voltar ao normal. E não se esqueceria de tomar mais cuidado com seu suco de abóbora da próxima vez. Olho-Tonto Moody era um cara sensato, afinal de contas.

- Ei, Harry, ´tá dormindo? Eu falei pra você me passar a torta! – Malfoy disse um pouco mais impaciente.

Ele se sentia dentro de um desenho animado, ou de um episódio de um programa de televisão trouxa que via às escondidas na casa dos Dursleys, chamado "Além da Imaginação". Será que o mundo virara de cabeça para baixo, e ele era o único que não notara?

Ainda completamente em choque, Harry passou a travessa de torta para o sonserino. O.k., se ele estava tendo alucinações, provavelmente aquele nem deveria ser Draco Malfoy; talvez fosse Rony, ou Neville, e Harry estivesse vendo Malfoy porque estava ficando pirado. Sim, só poderia ser isso!

Porém, para seu horror, sua teoria tão elaborada logo foi contrariada pelo próprio Malfoy:

- Arre, você não acredita em quem eu e Kathy esbarramos quando chegamos no Salão Principal... – ele comentou com uma cara de nojo.

Katherine, que estava levando uma torrada à boca, parou no meio do caminho com uma expressão de desagrado para o primo.

- Draco, você é surdo ou é burro mesmo?

Malfoy revirou os olhos, suspirando entediado. Em seguida, ele deu um tapinha amigável no braço de um Harry ainda estupefato com aquela situação, comentando:

- Ei, me conta aí qual o segredo para suportar o bom humor matinal dessa garota... fala sério, como você agüenta, hein?

Um bolinho lançado por Katherine voou na direção de Malfoy, e Harry, que estava no meio dos dois, teve que se abaixar para não ser atingido. O doce passou raspando pelo cabelo cheio de gel do loiro, que riu e provocou:

- E além de louca, é vesga também!

- Quantas vezes eu já te disse que odeio esse apelido! – a garota se debruçou na mesa para falar com o primo, uma expressão assassina no rosto. – Por que você não me chama de "Kate", como o Harry?

- Ah, deixa eu ver... – o loiro começou a contar no dedos. – Por que eu gosto de te irritar? Por que eu sempre te chamei assim desde que aprendi a falar? Por que eu não sou seu namorado desde o quinto ano e não tenho o dever de fazer o que você quer?

Harry, que estava perdido em devaneios sobre como aquilo tudo era loucura, e em como ele deveria estar drogado ou bêbado para estar imaginando aquela cena (sim, porque aquilo simplesmente não poderia ser real), foi despertado pela última frase de Malfoy.

- Ei, nós estamos namorando desde o quinto ano? – ele perguntou chocado para Katherine. A garota enrugou as sobrancelhas. Malfoy gargalhou.

- Aí, Kathy, isso é pra ver como você é importante! – ele disse irônico, enfiando um biscoito na boca como se fosse o primeiro-ministro da Inglaterra.

- Harry, seu abobado! – a garota deu um tapa estalado no braço do rapaz. – Em que planeta você está! Como pode esquecer uma coisa dessas! A gente começou no quinto ano, logo depois do jogo contra a Grifinória... quando ganhamos a taça! Vai dizer que esqueceu isso também?

"Jogo contra a Grifinória?", Harry pensou em pânico. Não, ele não poderia estar... ele não poderia ser um... Toda a vida que ele tinha não poderia ter sido apenas um sonho... Não, não, ele estava ficando louco, era uma possibilidade muito mais reconfortante do que aquela que ele estava pensando!

Katherine cruzou os braços, olhando emburrada para ele. Foi só então que Harry percebeu que tinha pisado na bola.

- Ah! Mas é claro que eu não esqueci! – ele mentiu, rindo amarelo. – Eu só estou querendo te provocar, pentelhinha...

- Humpt! Que bom que todos tiraram o dia pra isso, não é? – ela resmungou, virando a cara.

- Ei... Não fica brava... – Harry tentou alcançar seus olhos, com um cara de coitado, fazendo-a rir.

Seus rostos estavam tão próximos, que Harry até esqueceu por um instante da situação absurda em que estava metido, e não controlou seus impulsos: beijou-a ali mesmo. No entanto, era um beijo com um gosto tão diferente... Havia uma certa liberdade que não havia antes, e ainda um sentimento de carinho há muito conquistado, como se já tivessem feito isso várias e várias vezes. Por um momento, Harry esqueceu de tudo e sentiu como se aquela fosse a sua vida.

E se fosse?

- Ei, vocês dois aí, procurem um quarto! – Draco resmungou ao lado.

Harry e Katherine se separaram. A garota ainda tinha no rosto o rastro de um sorriso e já não parecia mais de mau humor. Harry, no entanto, despertou de seu devaneio bruscamente; ele ainda estava sentado na mesa da Sonserina, e Draco Malfoy o tratava como um velho amigo. E isso certamente não era bom, não é?

Mas era muito bom beijar Katherine assim que desejasse...

- Ah, mas eu acabei não terminando o assunto! – Malfoy se virou para Harry, como se nada tivesse acontecido. – Então, você imagina quem eu e Kathy aqui encontramos quando vínhamos para cá? Oh, e por Merlin, eu quase perdi o apetite! O casal bela bosta!

- Quem? – Harry perguntou sem entender, e com medo da resposta.

- Ora, e quem mais? O pobretão Weasley e a sangue-ruim da Granger! – Malfoy respondeu como se fosse óbvio. – Foi você mesmo que os nomeou o "casal bela bosta"! Tá mesmo dormindo hoje, não, Harry?

Foi como se Harry tivesse levado um soco na boca do estômago. Então era assim que ele, Harry, chamava Rony e Hermione, seus melhores amigos na vida? Quem ele era, afinal?

Será que era assim que ele era de verdade?

Ignorando a falação eterna de Draco ao seu lado sobre como fora o encontro, ele se virou no banco, sentindo vergonha de si mesmo e uma enorme tristeza no peito. Procurou, com os olhos, a mesa da Grifinória, do outro lado do salão, e não foi muito difícil localizar os cabelos cheios de Hermione e os ruivos de Rony.

Eles estavam conversando e rindo, felizes, como faziam quando Harry estava lá. Talvez até mais felizes do que quando Harry estava lá. Pareciam nem sentir a falta dele... Também, eles não eram seus amigos agora, não? Harry não passava de um idiota sonse... não, não podia ser verdade!

- ...e eles estavam com uma cara, não é, Kathy? – Malfoy ainda falava sem parar. – Também, depois de ontem... – ele gargalhou novamente, dando um novo tapa no braço de Harry. – Cara, você foi demais!

Katherine riu para dentro de seu prato de omelete.

- Eu jamais vou esquecer aquela cena! – ela disse se deliciando. – A cara da Granger... aqueles dentes dela... parecia um castor! Não que ela já não pareça normalmente... – a garota se virou para Harry. – Você vai me ensinar esse feitiço de crescer os dentes, não, Harry?

- E o Weasley, então? – Malfoy riu. – Tentando defender a namoradinha sangue-ruim e levando de brinde uma detenção do Prof. Snape! Entrou pra história!

Aquilo estava ficando pior a cada segundo. Não, Harry não acreditava que tivesse feito aquilo com Hermione... Não era possível, era Malfoy que tinha feito os dentes dela crescerem, no quarto ano, ele lembrava muito bem, tinha sido quando ele e Rony brigaram...

Mas essa não era mais a sua vida.

- Eu fiz isso?

- Harry, que cara é essa?– Katherine perguntou preocupada. – Sério, você está tão estranho hoje... O que aconteceu? Você não dormiu bem, foi?

- Kate! – ele exclamou alucinado, segurando-a pelos ombros. Aquilo tinha que acabar, ele tinha que dar um jeito de consertar tudo! – Você não vê o que está acontecendo?

Ela revirou os olhos pelo salão.

- Café... da manhã? – perguntou num tom óbvio.

- Kate! Não era para eu estar aqui!

Houve uma pausa breve, na qual ela o olhou intrigada e depois riu pelo nariz.

- Harry, você tomou seu remedinho hoje? – e antes que ele falasse qualquer coisa em sua defesa, ela começou a ajeitar sua gravata. – E você colocou sua roupa toda de qualquer jeito, olha só!

Ele olhou para baixo e viu algo que tornou tudo aquilo ainda mais desastrosamente real. Só podia ser um pesadelo. E Harry gritou; gritou com todo o ar de seus pulmões:

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOO!

O quarto estava parcialmente iluminado; amanhecia. Os roncos de Neville soavam fracamente. Harry olhou para baixo, trêmulo, e nunca se sentira tão feliz por ver seu pijama listrado, encharcado de suor. Ele não estava mais vestindo o uniforme da Sonserina.

- Ah, Harry, que foi? – Rony perguntou sonolento ao seu lado, esfregando os olhos. – Alguém tá te matando, é? Assim que eu acordar, eu vou ir aí ajudar o cidadão...

Harry se virou lentamente para observar o amigo. Estava tão trêmulo e enjoado como quando sonhava com Voldemort. Pegou os óculos na mesa de cabeceira e assim pôde checar se o amigo não era mesmo uma ilusão. Rony ainda o fitava com os olhos fora de foco, tonto de sono. Harry se levantou, arrastou-se até a cama do amigo e beliscou-o.

- AI, HARRY, SEU FILHO DA MÃE!

- Ah, você é de verdade! – o rapaz exclamou tolamente. – E, olha, cabelos vermelhos, não loiros!

Rony o encarou assustado.

- Harry... o próximo passo é te colocar numa camisa de força, não?

Rindo de alívio, Harry abraçou o amigo. Seu amigo Rony! Era a primeira vez que se sentia feliz por ser chamado de "filho da mãe" e "louco" em menos de dois minutos. Rony, por sua vez, ficou paralisado de choque.

- Rony... É tão bom ver as suas sardas novamente, sabe?

- Harry... você tá bem?

O rapaz voltou a se deitar na própria cama, fitando o teto distraído. Ele não era sonserino, não era inimigo de Rony e Hermione, nem aluno favorito do Snape, muito menos amigo de Draco Malfoy. Porém... ele também não era namorado de Katherine há três anos, nem podia tratá-la como gostaria...

Será que aquela seria sua vida se ele não tivesse contrariado o Chapéu Seletor e escolhido a Sonserina? Será que, naquela vida, ele seria um cara normal, sem as preocupações que tinha agora... sem precisar pensar em Voldemort, ou qualquer outra coisa que tinha que pensar sendo "Harry Potter"? Será que teria sido... melhor?

E se ele estivesse ao lado de Voldemort naquela vida?

Afinal, você possui o sangue dele, não?

- Não! – ele se sentou novamente, apavorado com aquela idéia. Ele estava enlouquecendo ou o quê? Jamais poderia pensar algo assim! Nunca trocaria sua vida por aquela, por nada nem ninguém! Não importava que ele tivesse o sangue de Voldemort, ele não era como ele!

- Ei, cara! – Rony o segurou pelos ombros, preocupado. – O que aconteceu com você? Você teve um pesadelo com "O cara"?

Harry, ainda atordoado, ergueu os olhos para ver o amigo. E lembrou de como ele estava feliz com Hermione no seu sonho... sem ele, Harry... Será que eles seriam mais felizes se Harry não fosse amigo deles? Bem, com certeza eles correriam menos riscos de morrer se jamais tivessem se tornado seus amigos...

O que Rony e Hermione diriam se soubessem que Harry era neto de Voldemort?

Não, Harry nem queria pensar. Era muito ruim apenas imaginar o momento em que teria que contar aos dois quem era realmente. Porque, algum dia, teria que contar...

- Não, Rony... Não sonhei com ele, não...

- Mas o que foi, então? – o amigo perguntou agora completamente desperto, sentando-se na cama de Harry. – Você tá pálido!

Harry pensou por um momento no que deveria dizer. Decidiu por não contar, não queria explicar nada daquilo que estava sentindo. Não queria que Rony soubesse, por um bom tempo. Não estava pronto para ver o choque em seu olhar.

Talvez até a repulsa...

- Não foi nada, Rony... – Harry murmurou distante, voltando a se deitar, procurando não olhar nos olhos do amigo com medo que ele descobrisse a verdade. – Foi só um sonho ridículo... Desculpa ter te acordado, volta a dormir...

- Você tem certeza? – o amigo insistiu. – Não quer que eu chame alguém? Por que você não fala com Dumbledore? Ou então-

- Não, Rony! – Harry retrucou com grosseria, sem notar. – Eu só quero dormir um pouco, o.k.?

- Anh... tudo bem, você é quem sabe...

Harry escondeu a cabeça por baixo do travesseiro, sentindo-se doente. Rony não o conhecia. Hermione não o conhecia. Nem ele mesmo sabia quem ele era de verdade.

E, sem que permitisse, sua mente voou para a parte do sonho em que estava com Katherine. E ele imaginou como seria poder estar com ela sempre, como fora no sonho, até adormecer num sono inquieto, porém sem sonhos.

 

*******

 

- Mas vocês ainda não explicaram direito por que o Harry pegou uma detenção com o Prof. Snape... – Hagrid insistiu, enchendo a xícara de chá de Harry por último. O rapaz estava distraído coçando as orelhas de Canino, enquanto Rony cheirava desconfiado um bolinho de arroz, parecendo verificar se era seguro experimentá-lo.

- Por que o próprio Harry não explica? – Hermione sugeriu venenosamente, abaixando a xícara de chá ao mesmo tempo que fuzilava o amigo com os olhos. Ela ainda não se conformava com o que ele tinha feito na aula de duelos um pouco mais cedo.

- O Harry não vai se explicar porque não foi o Harry quem começou a contar a história! – o rapaz retrucou sarcasticamente, sem tirar os olhos de Canino. Hagrid virava a cabeça de um lado para outro, como se estivesse acompanhando uma partida de tênis.

- Eu explico então! – Rony largou o bolinho que examinava, certamente porque o risco de comê-lo era diretamente proporcional à sua fome. – Foi demais, Hagrid! Eu queria fazer algo assim um dia desses!

- Foi irresponsabilidade! – Hermione censurou enérgica. – De uns dias pra cá, parece que o Harry perdeu o juízo! Alguém deve estar virando a cabeça dele...

Harry bufou, mas não respondeu. Não era a primeira vez que Hermione vinha com uma dessas indiretas. Se ela sabia ou se apenas estava desconfiada sobre Katherine, ele não tinha a mínima idéia, e decidiu que estava pouco se importando também. Ela iria descobrir mais cedo ou mais tarde, e iria perturbá-lo um pouco mais quando o fizesse.

- Ah, o Snape mereceu!

- Rony! Não se manda um professor pra...

- Pra onde, Hermione? – Hagrid perguntou curioso, quando a garota tapou a boca antes de falar a palavra seguinte.

Harry fingiu que não estava escutando, mas sabia muito bem o que vinha a seguir; Rony fez uma cara de riso e soltou sem nenhum pudor:

- Pra puta-que-o-pariu!

Houve um silêncio muito prolongado. Talvez quase tão prolongado quanto o que houve no Salão Principal, quando Harry xingou Snape, na frente de todo mundo, na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas daquela tarde.

Não que Harry se arrependesse – há muito tempo isso estava entalado em sua garganta –, mas que fora constrangedor, não havia dúvidas. Ele e Katherine estavam duelando (não tão seriamente quanto deveriam, pois ela estava lançando feitiços engraçados para rir de Harry, como por exemplo quando ela fez rabanetes saírem por suas orelhas), e Snape apareceu. A partir daí, é fácil imaginar; ele fez inúmeras críticas a Harry, fez questão de que todos os alunos soubessem que o rapaz era um inútil, e que não sabia nem como bloquear um simples feitiço de pernas bambas (o que era mentira, Harry só estava distraído porque... bem, por motivos muito compreensíveis que estavam à sua frente, colocando rabanetes em suas orelhas), enfim, ele humilhou Harry na frente de todos os alunos do sétimo ano da escola. Qualquer um perderia a cabeça, não?

- ...foi incrível! – Rony continuou falando. Agora, ele estava empolgado com o que tinha acontecido, mas bem que ele também ficou chocado quando Harry xingou o professor. – O Snape ficou lá, parado, sem saber o que dizer!

Mas Hagrid, assim como Hermione, não parecia estar achando a menor graça:

- Harry! – ele censurou. – Você ficou maluco de falar assim com o Prof. Snape! Não é de se admirar que tenha conseguido uma detenção!

- Ele é um cretino, Hagrid! – Harry se virou para o amigo indignado. Será que todos tinham tirado o dia para encherem os ouvidos dele com essa história? – Estava pedindo por isso desde o primeiro ano, mas eu não o mandaria para um lugar assim com onze anos, obviamente.

- Ah, eu sei que ele e você têm seus problemas, mas-

Harry se levantou antes que Hagrid terminasse a frase. Estava cheio de ficar ouvindo aquilo. O meio-gigante parou no meio da sentença, intrigado.

- Onde você vai, Harry? – Hermione perguntou.

- Pra detenção, oras! Já está na minha hora.

- Mas você disse que era só depois do jantar... – Rony argumentou, observando o amigo jogar a mochila nas costas.

- E você nem tocou no seu chá... – Hagrid comentou sem graça.

- Eu me enganei, ele disse pra ir mais cedo. – o rapaz mentiu; na verdade, iria dar uma volta para respirar. Já estava de saco cheio de todos lhe atormentando, já era bastante ruim ter que agüentar aquela detenção. – Até mais.

Estava um vento fresco quando Harry deixou a cabana de Hagrid em direção aos jardins. Ele caminhava lentamente, observando o sol se pôr atrás do lago de Hogwarts, até que resolveu se sentar na beira da água. Não deveria ter xingado Snape daquele jeito, na frente de todo mundo... ou, sim, deveria, tinha valido a pena, só pela cara que ele fizera. Por um segundo, Harry imaginou sorrindo o que seu pai diria se estivesse vivo. E o que Sirius diria quando soubesse? Foi só então que Harry se lembrou que ele e Sirius não estavam se falando direito, e fazia semanas que ele não mandava nem um mísero recado.

Harry se deitou na grama com os braços estendidos, e ficou por muito tempo observando as nuvens se moverem suavemente no céu vermelho pálido, permitindo que sua mente se esvaziasse de pensamentos naquele momento. Ouvia, ao fundo, um canto gentil de pássaros. Quando estava quase cochilando, um rosto apareceu invertido sobre sua cabeça.

- Gina! – ele gritou de susto, sentando-se num pulo. A garota riu, marota. – Você estava aí há muito tempo?

- Não, acabei de chegar. – ela se sentou ao seu lado sem que Harry convidasse ou permitisse. Ele arregalou os olhos, achando aquilo muito esquisito; ela andava muito zangada com ele desde o beijo roubado na Toca, aquele com o gosto de nozes. Harry pensou o que Katherine diria se soubesse daquilo. – Você estava viajando mesmo, hein?

- Estava... distraído. – ele comentou um pouco tenso, sem saber mais o que dizer. – Anh, escuta-

- Então... – a garota disparou, maliciosa. – ...como vai sua "namorada imaginária"?

Harry sentiu uma grande vontade de dizer um palavrão. De novo.

Ou de jogar na cara dela que estava com Katherine. Mas não podia fazer isso... infelizmente. Só queria ver a cara de Gina quando soubesse algum dia. Pagaria para ver.

- Então... você já contou o que aconteceu entre a gente nas férias para o seu "namorado real"?

Gina fechou a cara no mesmo minuto.

- Eu não sei do que você está falando... – ela retrucou depressa, cínica, com uma expressão de fúria no olhar.

- Memória curta, hein? – Harry riu, levantando-se para ir embora. Não queria ficar ali ouvindo-a. – Até mais, Gina.

- Vai encontrá-la, é? – a garota perguntou antes que ele se retirasse. Harry se virou para vê-la, mas Gina observava o lago, de costas para ele.

- Do quê você está falando?

Houve uma pausa breve.

- Da sua namorada imaginária...

- É, eu vou ir sonhar com ela, se não se importa. É bem melhor que ficar aqui perdendo meu tempo com você.

- Cuidado, Harry. – Gina alertou antes que ele estivesse longe o bastante para não ouvi-la. – Sonhos podem virar pesadelos...

Harry respirou fundo e decidiu não responder. Continuou caminhando em direção ao castelo, batendo o pé. Era só o que faltava! E o que ela queria dizer com isso, afinal? Sério, não dava para acreditar que aquela fosse a Gina, tudo bem que eles tiveram um monte de desentendimentos, mas agir desse jeito? Ela nem parecia mais irmã do Rony!

Quando Harry adentrou o Hall de Entrada, pensando em mais algumas coisas que deveria ter dito a Gina, ele reparou numa pessoa sentada na escadaria, fitando-o com um meio sorriso. Harry parou de chofre, surpreso; e pegou-se pensando aliviado que era uma sorte que Katherine estivesse ali dentro, e não lá fora nos jardins para ver a cena que tinha acabado de acontecer entre ele e Gina.

Por alguns segundos, eles apenas se encararam em silêncio. O hall estava vazio, mas era possível ouvir barulho de conversas no Salão Principal ao lado. Katherine estava com o queixo apoiado nas mãos, fitando Harry com um sorriso despretensioso. Então, subitamente, ela se levantou sem dizer nada, e desceu as escadas em direção às masmorras. Harry entendeu que era para segui-la.

- Você está gostando disso, não é? – ele sussurrou a pergunta assim que a encontrou atrás de uma estátua tão grande que era capaz de encobri-los. Além disso, o lugar estava bastante escuro.

- Vai dizer que não gosta do perigo? – ela provocou com os olhos semicerrados, encostada à parede de pedra fria. Harry levou suas mãos à cintura dela, e a garota se apoiou em seus ombros. Ele se abaixou para beijá-la, mas encontrou sua bochecha; Katherine se desviou.

- O que há?

- Eu não acredito no quê você fez hoje na aula...

Harry riu, próximo à orelha dela. Estava difícil sentir o cheiro dela e não beijá-la, mas por mais que ele tentasse, ela parecia estar se divertindo em não permitir.

- Snape estava merecendo, oras. – ela abriu a boca para protestar, mas antes que o fizesse, Harry finalmente conseguiu beijá-la. – Nem venha defender aquele filho da mãe, eu não quero discutir com você.

Ela riu suavemente.

- Eu não ia dizer nada! O problema é seu, é você que vai ficar em detenção.

- Ah, droga! Você tem que ficar lembrando!

- Quando é?

- Logo mais... ainda dá pra ficar aqui mais um pouco...

- Onde você estava? – ela perguntou calmamente, logo após dar um tapa na mão de Harry, que estava propositadamente se aproximando de lugares impróprios.

- Na casa do Hagrid. – ele respondeu mal-humorado depois do tapa. – Eu fui lá depois da aula com Rony e Hermione.

Katherine torceu levemente o nariz.

- Eles sabem da gente?

Harry permaneceu em silêncio por alguns instantes. Fazia quase duas semanas que ele e Katherine estavam juntos, em segredo. Rony sabia desde o primeiro dia, depois daquela conversa que ele e Harry tiveram no dormitório; Hermione, porém, não sabia, ou pelo menos Harry não tinha contado.

- Hum... Rony sabe.

Ele conseguiu enxergar as sobrancelhas dela se erguendo à meia luz do corredor das masmorras.

- E ele já me xingou bastante, foi?

- Ah, Kate, que bobagem... é claro... que não. – Harry respondeu hesitante, lembrando de quantas vezes Rony já tinha lhe dito que ele não estava bom da cabeça por sair com uma garota da Sonserina. – A vida é minha, oras.

- E a Granger? Ela me olha estranho quando me vê...

- Deve ser impressão sua.

- Que nada, ela parece que quer me amaldiçoar! Deve ser porque eu estou tirando você do "bom caminho"...

- Pf! Quem disse que algum dia eu estive nele?

- Você vai-

Mas Katherine parou de falar subitamente, tensa. Ela empurrou Harry instintivamente.

- Que foi?

- Vem alguém aí! – ela sussurrou urgente, empurrando-o para detrás da estátua. Harry acabou caindo sentado, e ficou ali, encolhido no chão, apenas ouvindo o barulho de passos que se aproximava. A respiração de Katherine estava agitada.

Os passos cessaram bruscamente.

- Kathy? – Harry reconheceu a voz arrastada de Draco Malfoy.

- Já falei pra você não me chamar assim. – Katherine respondeu irritada. – O que está fazendo aqui?

- Eu ia te perguntar a mesma coisa...

- Mas eu perguntei primeiro... – ela retrucou com ironia.

- Estou indo jantar, posso? – ele devolveu o sarcasmo. – E você?

- Estou indo para a Sala Comunal.

- Ah, é? E... tem alguém aí com você?

Houve uma pausa tensa. Katherine riu, um pouco nervosa.

- Que idéia estúpida é essa?

- Só estou checando...

- Se tivesse, não era da sua conta, não, Draco?

- Claro que era, você ainda vai ser minha, ou se esqueceu disso? – Harry ouviu passos apressados; viu os pés de Katherine recuarem. Teve vontade de sair dali e dar um soco no meio da cara nojenta de Malfoy.

- Onde você estava no sábado passado? – Katherine disparou. Harry apurou os ouvidos.

Houve uma nova pausa.

- Não é da sua conta.

- Eu vi aquele livro de poções negras, você esqueceu na Sala Comunal... ele é da sua casa, não?

- Anda bisbilhotando minha vida, é, Kathy?

- Opa, parece que eu pisei no calo de alguém...

- Você pensa o que quiser, mas eu não tenho que ficar aqui ouvindo isso! – Malfoy retrucou aborrecido, e foi embora batendo os pés. Harry só se levantou quando os passos dele tinham sumido.

Katherine estava encostada à parede, parecendo cansada e desanimada.

- Do quê vocês estavam falando?

Ela virou o rosto lentamente para Harry, os olhos perdidos.

- Acho que já está na hora de sua detenção, não é?

- Está, mas-

A garota se aproximou, segurou o rosto dele entre as mãos e beijou-o suavemente.

- Eu vou jantar. Depois a gente se vê. Boa sorte, Harry.

E foi embora antes que Harry conseguisse perguntar qualquer coisa, deixando-o com mais dúvidas que respostas.


No próximo capítulo: Sirius finalmente se comunica com Harry e combina de encontrá-lo, porém, Harry se sente mal e não consegue comparecer. Porém, o rapaz acaba indo parar na ala hospitalar e descobre que esse simples mal estar pode ser algo mais...

Notas da autora: Bem, eu diria que estou até envergonhada... (risos) Nunca tinha demorado tanto tempo assim para postar um capítulo novo, talvez até muitos tenham desistido de acompanhar a fic, mas, enfim, tudo o que eu posso fazer é pedir sinceras desculpas e me explicar.

Quem visita meu site acompanhou o problema. Tive um bloqueio sério, por vários meses, devido a problemas pessoais. Por um tempo, eu realmente não conseguia escrever, de maneira alguma, devido a esses problemas. Nas vezes que tentei, tudo o que eu escrevia, achava ruim, e não conseguia continuar. Na realidade, não foi somente as fics que eu parei por esse tempo, deixei de fazer várias coisas na minha vida por causa disso, mas graças a Deus, estou retomando tudo agora.

Enfim, parei de escrever todas as minhas fics por algum tempo, pois não queria estragá-las com um conteúdo ruim, já que estava mal para escrever. Expliquei isso no meu site, e a quem quer que fosse me perguntar o que estava acontecendo. Sei que fiquei por muito tempo ausente, mas peço novamente desculpas, e agradeço a compreensão que tiveram por mim por todo esse tempo.

Mas, agora, finalmente voltei! Terminei esse capítulo da CdE e logo retomarei as outras fics também. A novidade na CdE é que ela está de beta-reader nova, a Sara Lecter, grande autora de fics e contos originais, e também maravilhosa amiga pessoal. A Deka está fazendo um intercâmbio e, por isso, deixou a betagem. Então, a Sara, agora, se ofereceu para betar, e eu adorei o trabalho dela, aliás, agradeçam a ela por esse capítulo, pois muita coisa daqui só saiu assim porque ela me puxou as orelhas! (risos)

Ah, e sobre o capítulo... espero que tenham gostado da relação Harry/Kate, aliás, fiquei tão contente com a recepção que esse casal teve! (Aliás, obrigada MESMO, pois eu nunca tive tantas reviews assim em um único capítulo da CdE!) E, bem, esse capítulo teve algumas pistas, será que vocês notaram? Hehehe

O próximo capítulo sai assim que eu terminar o capítulo da minha outra fic, a Nena, mas acho que agora não vai mais demorar todos esses meses como dessa vez... Prometo!

Mil beijos e obrigada por tudo!

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