Capítulo Dezoito – Sobre a grama molhada

 

- Andem logo, ou vamos nos atrasar!

Uma atarantada Sra. Weasley apressava os filhos para saírem do carro e apanharem depressa as bagagens. Como Gina ainda não tinha completado dezessete anos, eles não puderam aparatar (ambos, Sr. e Sra. Weasley, e também Percy, insistiram que não era seguro se separarem para fazer a viagem, de modo que todos tiveram que seguir juntos de carro). O Sr. Weasley não pôde acompanhá-los por problemas que tinha que resolver no Ministério, mas em seu lugar vieram Percy e os gêmeos. Porém, como sempre acontecia na família Weasley, eles novamente estavam atrasados para o embarque; faltavam somente dez minutos, e eles apenas estavam entrando na Estação King’s Cross.

- Como se isso fosse novidade... – Fred debochou num sussurro para os trouxas não os ouvirem, referindo-se à bronca da mãe. – Desde que eu me conheço por gente estamos atrasados!

- Nós praticamente nascemos atrasados... – Jorge remendou em tom de lamento.

Os gêmeos, Gina, Rony e Harry se apressavam para acompanhar os passos rápidos da Sra. Weasley e de Percy, que iam à frente, olhando para os lados à todo momento como se esperassem que algo horrível fosse acontecer. Harry, inicialmente, achou que era por sua causa (afinal, ele era quase um imã para desastres), mas depois se lembrou que, no ano anterior, a estação tinha sido atacada por seguidores de Voldemort e, por causa disso, Gina tinha passado quase seis meses internada no St. Mungus.

- É claro que vocês não nasceram atrasados! – a garota em questão retrucou aos gêmeos, mal humorada. – Vocês foram os únicos da família que nasceram prematuros!

Tanto Fred como Jorge olharam atravessado para a irmã.

- Como você sabe disso, pequena? – Fred perguntou. – Veio depois da gente, oras!

- Mamãe me contou... – ela revirou os olhos, entediada. – E não me chama de pequena! – ela completou enfurecida, fitando Fred com os olhos quase tão flamejantes quanto os cabelos.

- Hey, maninha, não faz assim com seu irmãozinho favorito! – Fred insistiu, seguindo Gina, que tinha se adiantado para ficar próxima à mãe e Percy. – Volta aqui, pimentinha!

- Acho que ele está usando a tática errada. – Rony disse sabiamente, observando a irmã ao longe, tentando se desvencilhar de Fred. Jorge ria com vontade.

- Ei, mas essa garota tá realmente mais ardida que pimenta... – ele divagou após algum tempo, virando-se intrigado para Harry e Rony. – Algum de vocês dois sabe o que está acontecendo, ou estão boiando como eu?

Harry engoliu em seco. Sabia, em parte, porque Gina andava tão azeda àqueles dias. O.k., o temperamento dela não andava lá essas coisas há bastante tempo, mas isso não diminuía a culpa de Harry na questão. Gina não parecia ter esquecido, muito menos perdoado, o beijo que Harry tinha roubado dela na manhã de Natal. Tudo bem, ele admitia que tinha sido um cafajeste (de propósito, aliás), mas, ao mesmo tempo, tinha-se que levar em conta que Gina bem que merecia aquele troco da parte dele. Por isso mesmo, a culpa que Harry sentia não era bem pela garota, mas sim pelo restante dos Weasleys. A sua sorte era que, mesmo enfurecida, Gina não tinha contado o fato para ninguém, pois Harry saberia se isso acontecesse – seu olho estaria roxo e, no momento, ele estava perfeitamente normal, muito obrigado.

- Você vem perguntar isso pra mim, Jorge? – Rony retrucou com uma daquelas suas caretas. – Alguém consegue entender a Gina?

- Pois é... – o outro lamentou, fingindo estar inconsolável, enquanto a Sra. Weasley mandava que os três atravessassem a barreira entre as Plataformas 9 e 10. – Se nem a mamãe e o papai, que a fizeram, conseguem entendê-la, o que esperar de nós, pobres mortais?

Harry preferiu não se manifestar. Sentia que qualquer palavra poderia ser usada contra ele no tribunal. Ou quase isso.

A Plataforma 9 ½ estava apinhada de gente; parecia até mesmo que era início de ano letivo, e não apenas o retorno das férias de Natal. Agora, Harry podia entender o que Katherine queria dizer quando escrevia que Hogwarts estava um mar de tédio; com tanta gente embarcando, dava até a impressão que o castelo tinha esvaziado. Arre, lá estava ele se lembrando daquela garota novamente...

- Ei, Harry!

Ele se virou intrigado ao ouvir seu nome. Instantaneamente, sentiu-se congelar, e isso não tinha nada a ver com o frio. Tinha ensaiado várias vezes o que dizer quando visse Sirius novamente, mas não esperava sentir todo aquele desconforto e desânimo ao encará-lo. A discussão entre os dois naquela manhã de dezembro retornou muito viva à sua memória e, mesmo que estivesse se esforçando para entender os motivos do padrinho, ainda assim se sentia no direito de estar um pouco magoado.

- Oh, Sirius! – a Sra. Weasley disse antes que Harry conseguisse pronunciar alguma palavra. – Você não avisou que viria, por que não passou lá na Toca antes?

Sirius se aproximou, acabrunhado, cumprimentando os Weasleys com um sorriso amarelo. Ele parecia um pouco abatido e cansado, havia olheiras ao redor dos seus olhos, e seus cabelos estavam mal tratados. Harry se deu conta de que não estava se importando tanto assim com o fato como faria alguns dias antes. Sirius olhou por um segundo para Harry, então logo desviou o olhar para a Sra. Weasley, parecendo aliviado por ter que falar com ela antes de se dirigir ao afilhado.

- Ah, foi de última hora... – ele disse desconfortável, coçando a orelha de um jeito muito canino. – Dei uma escapulida antes da hora do almoço no trabalho, sabe como é...

- Ah, entendo... – a Sra. Weasley disse compreensiva. – Arthur também está cheio de coisas no trabalho, semana passada ele até...

- Mamãe! – Gina exclamou. – O trem!

- Oh, por Merlin, faltam só cinco minutos! – a mulher gritou desesperada, voltando ao seu estado de estresse antes de encontrar Sirius. – Vamos, vamos, meninos, entrem no trem...

Enquanto ela gastava os cinco minutos restantes abraçando Rony e Gina e dando-lhes centenas de recomendações (Fred e Jorge fingiam que dormiam um no ombro do outro enquanto ela fez um longo sermão para Rony), Sirius puxou Harry para um canto, muito sem jeito, e pediu para lhe falar. Harry não disse nada, apenas esperou que ele começasse. Havia um clima incomum de constrangimento entre os dois.

- Harry... – ele iniciou desconfortável, novamente coçando a orelha. – Eu sinto muito que não tenha dado para passarmos o Natal juntos, mas...

- Tudo bem, Sirius. – Harry o cortou pouco gentil, procurando não encará-lo nos olhos. – O Natal na casa do Rony foi muito bom, mesmo que você não estivesse presente...

Sirius pareceu notar a indireta, pois contraiu o rosto sensivelmente.

- Eu sei que talvez você não entenda...

- Eu só não entendo por que você teve que me expulsar daquele jeito de casa, Sirius! – Harry exclamou zangado, esquecendo completamente tudo o que tinha pensado no esforço para entender os motivos de Sirius. Era possível ouvir a voz de Rony resmungando por causa da mãe. – Quer dizer, da sua casa, não?

- Harry, não fale assim! – Sirius disse cansado. – É claro que lá é a sua casa também! Nossa casa! – ele suspirou. – A vontade de Tiago e Lílian era que eu o criasse na falta deles... Isso não foi possível, mas agora que podemos estar juntos, eu quero que você se sinta em casa morando comigo...

Houve uma pausa breve. Harry virou o rosto por momento, ponderando a questão. É claro que as últimas palavras de Sirius – a respeito de seus pais – causaram um impacto e tanto no rapaz. Ele sabia tudo aquilo, mas não se conformava com a maneira pela qual se deram as coisas quando ele e Sirius discutiram. Poderia estar sendo egoísta e teimoso, mas ainda assim não conseguia deixar de estar chateado com essa história. Sabia que Sirius tinha lá os seus motivos, mas da mesma maneira, ele, Harry, também tinha os seus.

- Acho... que eu lhe devo uma explicação, Harry.

O rapaz se virou para o padrinho, indeciso sobre o que dizer.

- São os seus problemas, Sirius, eu não quero que pense que precisa contá-los a mim, mesmo porque...

- Mas eu quero, Harry! – o padrinho insistiu, parecendo sinceramente angustiado. – Eu preciso dividir isso com alguém, e quero que seja com você!

Houve uma nova pausa. Harry já podia ouvir as primeiras baforadas do Expresso de Hogwarts.

- Sabe, Harry, quando você me falou sobre aquela garota, aquela Sonserina, eu achei que... – ele pigarreou nervosamente, fazendo uma careta, desviando o olhar do afilhado de propósito. Harry se lembrava muito bem do jeito que o padrinho tinha ficado ao descobrir que o rapaz estava... bem, que Harry estava sentindo aquilo por Katherine Willians. – Bem, de qualquer maneira, tudo tem a ver com a Samantha, Harry... – Sirius admitiu, talvez um pouco envergonhado. – Eu fui atrás dela procurar respostas, porque, no passado... pelo menos eu acho assim... nós tivemos um...

- HARRY! – a Sra. Weasley gritou, próxima a uma das portas de embarque; só então Harry percebeu que o trem estava começando a tomar velocidade, ao longe dava para enxergar Rony com cara de assustado numa das janelinhas. – Vamos, querido, depressa!

Pelo que talvez tivesse sido um segundo, Harry e Sirius trocaram um olhar significativo, e o rapaz sentiu um incompreensível nó na garganta. Mas o segundo passou, e logo Sirius também já o estava apressando para tomar o trem:

- Vá, Harry, eu lhe mando uma carta depois!

O rapaz, então, virou-lhe as costas e correu. A Sra. Weasley só teve tempo de passar a mão rapidamente em seus cabelos, e Harry já estava segurando a mão estendida de Rony, que o ajudou a embarcar no trem em movimento. Eles quase caíram no chão por causa do tranco, mas no fim conseguiram ficar de pé e ainda alcançar novamente a janela. Harry viu, em primeiro plano, a Sra. Weasley, acompanhando o trem caminhando rapidamente ao seu lado, acenando com os olhos marejados e pedindo que escrevessem assim que chegassem ao castelo. Um pouco atrás, os gêmeos e Percy também acenavam. Porém, os olhos de Harry estavam concentrados em Sirius, que aos poucos ia se transformando em um pontinho borrado ao longe, uma expressão de desconsolo no rosto abatido. E Harry, novamente, sem saber o porquê, sentiu aquele aperto na garganta.

- A minha mãe anda tão chorona esses dias... – Rony comentou com uma careta, olhando a janela vagamente após a plataforma ter ficado para trás. – Eu a ouvi comentando com meu pai que, se pudesse, não permitiria que eu e Gina voltássemos para a escola... Vê se pode?

- Ela só está preocupada, Rony... – Harry comentou distraído, ainda pensando em Sirius. O amigo se virou para ele com uma expressão confusa, e Harry se lembrou da conversa que teve de madrugada com a mãe de Rony. – Talvez... ela só esteja com medo...

- Ah, Harry, mas... hum... sei lá. – Rony bufou, sem saber o que dizer, até que, por fim, resolveu mudar de assunto. – Mas, e você e o Sirius, hein? Quase que você perde o trem por causa dele, o que ele estava lhe dizendo?

Harry hesitou. Sirius não tinha lhe contado muita coisa – não tinha dado tempo – mas, ainda assim, não podia dividir aquele pouco que sabia com Rony. Era um assunto particular do padrinho.

- Ah, ele... só estava se desculpando por não poder passar o Natal comigo...

- Hum, entendo... – ele praguejou em seguida, olhando para os lados. – Saco, a Gina já evaporou, nem pra me dizer pra onde ia...

Rony não se deu conta, porém, que uma pessoa se aproximava, sorrindo marotamente por trás dele. A garota dirigiu uma piscadela para Harry, pedindo em silêncio para que ele não abrisse a boca e, enquanto Rony se distraía resmungando, ela tapou os olhos dele, rindo.

- Adivinha quem é!

Rony apalpou, em choque, as mãos delicadas que estavam à frente dos seus olhos.

- MIONE!

Ele se virou rapidamente em seguida, com um sorriso de orelha a orelha e, antes que Hermione pudesse dizer alguma coisa, ele já estava abraçando-a e beijando-a.

- Xi... já vi que tô sobrando... – Harry reclamou em tom de brincadeira, e os dois se separaram, sorrindo.

- Ah, Harry, seu bobo! – a amiga riu, abraçando o rapaz. – Eu também estava com saudades de você!

Rony resmungou, cruzando os braços.

- Mas com mais saudades de mim, espero!

Hermione riu, revirando os olhos. Parecia estar muito contente. Ela deu um beijinho nos lábios de Rony, e ele ficou com cara de tonto. Harry fez questão de debochar dele por trás de Hermione, e o amigo lhe mostrou a língua.

- Então, vamos procurar uma cabine? – ele sugeriu, já puxando Hermione pela mão.

- Espera, Rony! – ela exclamou seriamente. – Será que já se esqueceu?

- Do quê? – ele perguntou impaciente. Hermione revirou os olhos para o teto.

- A reunião dos monitores, Rony! – ela disse, como se fosse a conclusão mais óbvia do mundo. – E nós ainda temos que patrulhar os corredores e...

- E blá, blá, blá... Saco!

Hermione o fitou severamente, com aquela sua expressão parecida com a da Profª. McGonagall, e então se virou para Harry:

- Você se importa de procurar uma cabine pra gente enquanto isso?

- Não, não, tudo bem... – Harry se apressou a recolher sua bagagem. – A gente se vê mais tarde, então. – ele se despediu, rindo de Rony, que estava com cara de quem tinha sido condenado à forca.

Foi bem difícil encontrar uma cabine, mas Harry finalmente conseguiu se instalar na cabine de Neville (ele a estava deixando, alegando que precisava encontrar sua namorada da Lufa-Lufa), de modo que Harry nem acreditou na sorte em se instalar numa cabine vazia. Não estava com vontade de conversar. Ele guardou seu malão e a Firebolt, e depois colocou a gaiola de Edwiges no alto do bagageiro; a coruja dormia preguiçosamente com a cabeça escondida entre as asas. Harry, por sua vez, sentou-se perto da janela e pôs-se a apreciar a paisagem coberta de neve.

Não conseguia entender por que se sentira daquele jeito ao se despedir de Sirius. Talvez fosse somente porque a situação entre eles estava mal resolvida... Ou talvez não, ele não sabia explicar. Harry, então, começou a pensar no que o padrinho lhe tinha dito; bem que ele desconfiava que tivesse a ver com Samantha, mas a que Sirius poderia estar se referindo quando disse que eles tiveram alguma coisa no passado? E por que ele se recordara disso quando soube sobre Katherine?

De repente, foi como se uma lâmpada tivesse acendido na cabeça de Harry.

- Como eu pude ser tão tapado?!

 

*******

 

- Xeque-mate.

Harry fez uma careta de desgosto, lançando um olhar estreito para Rony por cima do tabuleiro. O amigo riu satisfeito, recolhendo as peças. Hermione apenas ergueu alguns centímetros seus olhos do seu livro de Poções, sorriu levemente, e pôs-se a ler mais uma vez.

- Eu desisto, Rony! – Harry exclamou. – Hoje eu não estou inspirado para ganhar de você.

O amigo riu em deboche.

- Desculpe, eu estou ouvindo direito? – ele perguntou cinicamente. – E você alguma vez ganhou de mim, Harry?

Harry bufou, revirando os olhos.

- Hum... devo ter ganhado alguma, só não estou lembrado agora... – retrucou, emburrado. – Mas eu ganho da Mione! – ele apontou a amiga com dignidade. Hermione ergueu finalmente os olhos de seu livro, ofendida.

- Falando assim parece que você ganha sempre, Harry! – ela exclamou em sua própria defesa. – Foram só duas ou três vezes, tá bom?

Rony gargalhou.

- O.k., o.k... – Harry ergueu os braços. – Eu admito, tá? Eu sou uma porcaria completa em xadrez e, se eu tivesse vergonha na cara, não chegava perto de um tabuleiro! Satisfeitos?

Rony e Hermione trocaram um olhar cúmplice.

- Quase... – Rony disse por fim, ainda rindo.

- Aonde você está indo? – Hermione perguntou em seguida, observando que Harry estava se levantando. – Está um gelo lá fora!

- Ah... não tem problema... – ele pigarreou, hesitante; não seria prudente revelar aonde estava pensando em ir. – Só vou dar uma volta por aí...

- Hum... sei... – Rony debochou, cínico mais uma vez, ao mesmo tempo em que arrumava as peças do tabuleiro de xadrez. Havia um sorriso maroto em seu rosto quando trocou um olhar com Harry, que compreendeu perfeitamente aonde ele queria chegar. O rapaz devolveu um olhar severo ao amigo, que se calou, mesmo que ainda sorrisse.

- Ei, o que eu perdi? – Hermione perguntou ligeiramente irritadiça.

- Não liga, Mione... – Harry retrucou zangado. – É só que o Rony anda meio tonto. – o amigo ergueu os olhos do tabuleiro, intrigado. – Sabe como é, ele sentiu muito sua falta esses dias, aí ficou assim... Ou... quem sabe, ele já seja assim mesmo normalmente...

- Hey! – Rony exclamou, mas Harry já tinha dado as costas aos amigos, rindo, e logo estava alcançando o buraco do retrato.

Estava começando a anoitecer. Harry podia apreciar, enquanto caminhava tranqüilamente, o pôr do sol alaranjado através das altas janelas dos corredores de pedra do castelo. Era um preguiçoso final de domingo, e o ar possuía a típica temperatura gelada de janeiro. Os pés de Harry o comandavam sozinhos, e ele sabia muito bem para onde eles estavam indo.

Havia algo que o inquietava. E o pior era que Harry sabia muito bem o que era: ele estava sentindo falta dela. Sim, era exatamente isso. Ele queria vê-la, falar com ela, mas sabia que, provavelmente, isso não seria possível naquele fim de tarde de domingo. Harry ficou imaginando se ela também estaria sentindo sua falta. Tolice. Claro que não devia, ela não mandou mais nenhuma carta, nem no Natal (e ele procurara por alguma coisa dela como um idiota naquele dia), nem depois que Harry... ah, era melhor esquecer aquilo. Tinha sido uma perda de tempo...

Droga, tenho que parar de pensar nela.

Aquilo não estava indo bem. Harry sentia que estava começando a perder o controle. A imagem daquela garota não aparecia mais em sua mente quando ele queria. Parecia que essa "imagem" tinha vontade própria; aparecia a qualquer momento do dia, até mesmo nas horas mais impróprias. Alguns dias antes, Harry se pegou pensando nela ao acordar. Imagine, a primeira coisa que deveria vir à sua cabeça no dia não deveria ser ela; poderia ser qualquer coisa, como escovar os dentes ou ir ao banheiro, ou ainda como o dia está frio, mas jamais ela!

Harry estava ficando com raiva de si mesmo. Era ridículo! Estava agindo feito um idiota. Patético! Não deveria ficar imaginando besteiras, quando tinha tantas coisas mais importantes para pensar. Era bobagem sua ficar imaginando aquelas coisas, quando sabia que elas não podiam ser reais; tudo não passava de fantasias estúpidas de sua cabeça. Todas as suas tentativas quando se tratava de garotas tinham sido frustrantes; ele não deveria alimentar esperanças por uma coisa que simplesmente não dava certo para ele. Porque isso era uma verdade da natureza: as coisas não funcionavam para Harry quando o assunto era relacionamentos. O.k., talvez apenas uma entre dez coisas na vida de Harry realmente funcionassem, mas a questão "relacionamentos" estava muito próxima do topo das dez maiores coisas que não davam certo.

Ele ergueu os olhos e deu de cara com a tapeçaria dos centauros. Suspirou profundamente, emburrado. Seus pés não tinham esquecido o caminho, afinal. Talvez fosse melhor voltar, ele não tinha nada o que fazer ali naquela sala. Mas, e se ela estivesse ali dentro? Harry abriu a boca para dizer a senha ao centauro, mas desistiu um segundo antes; se ela estivesse ali, seria pior. Ele não tinha a mínima idéia de como deveria se comportar diante dela quando a visse novamente. Sim, porque, da última vez que a vira, ainda não tinha se dado conta da bagunça que ela tinha feito dentro dele. Mas agora ele tinha percebido... e então...

As estrelas da tapeçaria se rearranjaram em uma porta brilhante quando Harry disse a senha. Ele deu um passo à frente, pensando no que diria se ela estivesse ali dentro. Harry girou a maçaneta devagar, empurrou a porta, que rangeu suavemente...

Mas ela não estava ali.

A sala estava vazia e escura. Harry fechou a porta atrás de si, sentindo-se miserável. Por que, afinal, tinha imaginado que ela poderia estar ali? Estava sendo estúpido. Não fazia sentido ter aquela esperança ridícula! Ele achava o quê, que ela estaria ali, talvez esperando-o? Harry estava se comportando como cara mais idiota da face da Terra. Era patético, ele estava agindo como um garoto que se descobre apaixonado pela primeira vez. Deveria tomar juízo e enfiar em sua cabeça de uma vez por todas que era perda de tempo pensar daquela maneira. Ela nem deveria estar se importando, muito menos pensando nele... Besteira! Ela nem deveria ter-se lembrado que ele voltaria àquele dia... A culpa era mesmo toda dele por estar sendo tão burro, tão imbecil, tão...

- O que é isso?

Ele sentiu a porta sendo pressionada contra suas costas, como se alguém a estivesse forçando do outro lado. Harry deu um pulo e, mal tinha se afastado da porta, ela foi aberta por uma garota.

Era Katherine.

Ela ficou ali, parada, fitando-o de volta, seus lábios ligeiramente entreabertos de surpresa ao vê-lo. Estava usando um casaco preto e a saia verde, de pregas, da Sonserina. Trazia uma prancheta com várias folhas de papel atadas a ela, e abraçava-se a ela como se fosse algo muito precioso. Os desenhos dela, Harry sabia. Seus olhos castanhos estavam ligeiramente arregalados e brilhantes. E – Harry se pegou sorrindo ao observar –, seus cabelos estavam desajeitadamente presos num rabo de cavalo com uma fita de veludo verde-azulada.

Katherine, então, se deu conta que a porta ainda estava aberta e, atrapalhada, pôs-se rapidamente a fechá-la com um tranco, mas seus desenhos acabaram caindo e se espalhando pelo chão, e os lápis que trazia rolaram pelo assoalho. Ela murmurou um palavrão, abaixando-se depressa para recolhê-los. Harry, rapidamente, também se abaixou para ajudá-la a juntar os papéis, e suas mãos se encontraram quando os dois resolveram apanhar os lápis a um canto.

Se fosse em outra época, Harry certamente riria de sua própria tolice. Sim, porque era coisa de idiota se sentir daquele jeito, só porque tinha tocado na mão dela, isso sem contar que ela, além de tudo, estava usando luvas, como sempre. Se alguém lhe contasse isso, ele diria que não passava de um ridículo clichê. Mas ele tinha gostado e, naquele momento, nada disso passou por sua cabeça. Ele teve vontade de apertar a mão dela, mas Katherine a recolheu depressa.

- Então, você já chegou... – ela murmurou desconcertada, com sua voz ligeiramente rouca, pigarreando e levantando-se, abraçada aos seus desenhos. Harry também se levantou, e parecia que, por um segundo, seu cérebro tinha desligado.

- Se eu já cheguei? – ele repetiu tolamente, só percebendo depois como estava se comportando como um idiota, e então tentou agir normalmente, mesmo que não desse muito certo. – Não, pentelhinha, eu ainda não cheguei, você está vendo um holograma de mim. – ele completou sarcasticamente.

- Ah, Harry, vá tomar banho! – ela retrucou, parecendo voltar ao normal, já recomposta. Katherine bufou, balançando a cabeça, aborrecida, e caminhou até uma das janelas, sentando-se no chão, encostada à parede, como costumava fazer. – O que você estava fazendo aqui, afinal?

- Ora, eu só vim dar uma volta, não posso? – ele se sentou ao seu lado, bem próximo dela, sentindo o calor que emanava de seu corpo. Seus olhos focaram a prancheta dela, que Katherine apoiava nas pernas cobertas por uma meia-calça. Ela parecia concentrada em fazer alguns rabiscos imprecisos na folha em branco, mordendo os lábios.

- Não pode vir a essa sala. – ela retrucou secamente, rabiscando tão forte o papel que seria capaz de rasgá-lo. – É a minha sala. Você só vem aqui para os treinos de Defesa.

- "É a minha sala!" – Harry a imitou, forçando uma voz aguda que não combinava nada com ele. – Como você é egoísta, pentelhinha!

Ela parou de rabiscar o papel, suspirando e revirando os olhos até pousá-los em Harry.

- Já vi que vou ter que trocar a senha de novo, não?

- Se você trocá-la, eu acabo descobrindo como da outra vez... – ele respondeu, usando o mesmo tom descarado dela. Katherine deu um sorrisinho irônico, voltando aos seus desenhos.

- E então, como foi de férias? – ela perguntou num tom casual.

- Hum, nada mal... – ele meneou a cabeça, pensando que um relato de suas férias demoraria todo o resto da noite. Além disso, metade do que tinha acontecido ele não poderia contar a ela; era meio impossível contar que ele tinha brigado com o padrinho porque tinha descoberto "sentimentos estranhos" por ela, não? – Foram boas, e as suas?

- Tédio, tédio e mais tédio. – ela paralisou o lápis, virando-se para ele, pensativa. – Eu já mencionei "tédio"? Porque é uma ótima palavra para resumir minhas férias.

- Ah, mas você tinha tanta coisa pra fazer... – Harry debochou. – Como "se jogar pela janela", ou "rolar na neve" ou ainda "patinar no lago congelado"...

Katherine tentou fazer uma expressão severa, mas acabou rindo.

- Olha, eu quase me joguei pela janela, mas aí pensei "puxa, eu ainda tenho tanto o que pentelhar o Harry..." Aí desisti. Viu só como irritá-lo se tornou uma motivação na minha vidinha sem graça?

- Há, há, há... Que sorte grande a minha, não?

- Claro, é muita sorte ser pentelhado por mim... – ela zombou, pretensiosa.

Harry fez uma careta de desgosto. Katherine o fitou, intrigada.

- Que foi?

- Diga a verdade, você só está dizendo isso porque não quer admitir que sou uma pessoa indispensável na sua "vidinha sem graça" e que você sentiu muito minha falta...

Foi a vez dela fazer uma careta.

- Alguém já te disse que você tem um ego do tamanho de um campo de quadribol?

Harry fingiu estar pensando.

- Não, o que significa que só você pensa assim, e você não tem muita credibilidade...

- Quê? – ela começou a socar o braço dele seguidas vezes. – Seu idiota!

Harry segurou os pulsos dela, rindo. Katherine agitou os braços, tentando se soltar e conter o riso.

- Pára, Harry, me solta!

- Só se você disser que sentiu minha falta nas férias!

Ela agitou ainda mais os braços, rindo e tentando acertá-lo ao mesmo tempo.

- Eu vou enfiar esse lápis no seu olho se você não me soltar!

- Quê? E você por acaso acha que consegue?

- Você duvida de mim? – ela já estava começando a ficar vermelha por rir e tentar se soltar ao mesmo tempo. Os cabelos começavam a se soltar da fita.

Harry ergueu os braços, levantando junto os braços dela, aproximando-se de seu rosto para desafiá-la:

- Du-vi-do!

Ela tentou novamente se soltar, mas foi inútil, Harry era bem mais forte que ela. Então, houve uma pausa, e eles apenas se entreolharam. Várias mechas do cabelo escuro dela caíam-lhe sobre os olhos. As respirações estavam descompassadas, e Harry quase podia sentir o hálito quente dela nos seus lábios. O cabelo dela emanava aquele cheiro suave de canela, e Harry enfraqueceu o aperto nos pulsos de Katherine, entorpecido.

Ela se soltou lentamente. Porém, por um único segundo, permaneceu junto a Harry por sua própria vontade. Ele desejou intensamente poder ler o que diziam os olhos brilhantes dela. Daria tudo para saber se ela estaria pensando nele assim como ele estava pensando nela. Harry sentiu um formigamento na garganta, como se as palavras quisessem pular para fora, mas ele as engoliu. Não tinha coragem de dizer aquilo. Era loucura apenas pensar daquela maneira, ainda mais dizer tudo em voz alta. No entanto, Harry sabia que não estava pensando, mas sim sentindo.

Katherine se afastou depressa, rindo nervosamente, porém apontando com firmeza o lápis para Harry, como se fosse uma varinha.

- Você ainda duvida? – ela perguntou, em tom de provocação. Havia um sorriso trêmulo em seus lábios. Harry abaixou por um segundo os olhos para o lápis, então voltou a fitá-la, rindo em deboche.

- Você espera me derrotar com um lápis?

Então, eles apenas se encararam por longos minutos, como numa competição para ver quem ria primeiro. Harry estava quase explodindo, mas se segurou bravamente. Katherine, então, caiu na gargalhada, e Harry percebeu como gostava de vê-la sorrindo daquela maneira tão espontânea. Somente porque estava feliz. Porque ele, Harry, a fizera rir.

- Está bem, você venceu essa, Potter. – ela admitiu, e nos lábios havia o rastro de um sorriso depois que ela finalmente parou de rir.

- Quê?! Então você admite mesmo que eu venci?

- Pára! – ela riu de mansinho. – Eu não vou repetir!

Por alguns preciosos minutos, Harry a apreciou soltando os cabelos a fim de arrumá-los, já que eles estavam uma bagunça completa depois daquela luta entre os dois. Harry se deu conta que nunca a tinha visto com os cabelos soltos. Eles caíam ao redor do rosto da garota em grandes cachos longos. Por que ela não os deixa sempre assim? Katherine começou a ajeitá-los, aparentemente sem perceber que Harry a observava quase hipnotizado. Foi somente quando ela notou isso, que o fitou confusa, paralisando seu movimento:

- Que foi?

Ele não conseguiu falar, e apenas moveu a cabeça de um lado para outro, desviando o olhar, completamente sem graça. Estaria dando muito na cara se dissesse que a estava achando linda? Sim, seria demais – sua razão respondeu imediatamente – apenas feche a boca e finja que nada aconteceu; ou melhor, que nada está acontecendo, se é que você consegue esconder...

Harry esperou que Katherine terminasse de prender novamente seu cabelo com a fita para tentar falar novamente:

- Então, você gostou do presente?

Ele captou a sombra de um sorriso fugidio nela. Katherine desviou os olhos dele e, disse depressa, procurando soar indiferente:

- Sim, eu gostei. Você é observador. – ela elogiou; Harry sorriu sem perceber. – Uma fita é algo que eu gosto muito e uso mais ainda. E gostei do cartão também. – ela emendou, fazendo uma pausa em seguida, enrugando as sobrancelhas e fitando-o de esguelha. – Estava enorme, você se empolgou escrevendo, não?

Harry quase engasgou. Ele preferiu não olhá-la, pois achava que talvez sua expressão o denunciasse.

- Eu estava sem nada para fazer.

- Ah... – ela parecia decepcionada? – Assim como eu quando mandei o seu desenho...

- Ficou ótimo! – Harry falou apressado, contente por ter algo a dizer. – Você sabe desenhar muito bem.

Katherine corou. Harry achava que era a primeira vez que a via ficar vermelha sem ser de raiva.

- Obrigada, Harry. – ela disse muito tempo depois.

- Só isso? – ele não pôde se conter. Ela se virou rapidamente para fitá-lo. Harry sustentou o olhar, mesmo que suas mãos suassem desagradavelmente frias.

- Como assim? – ela perguntou hesitante. – O que você quer mais?

É, o que ele esperava? A resposta certa seria imediata, se Harry não estivesse tão convencido em omiti-la até para si mesmo. Ele queria um beijo. Ele queria Katherine.

- Ah... – ele suspirou, tentando soar descontraído. Porém, não conseguia mais encará-la. – "Obrigada" é pouco.

Houve uma pausa muito longa dessa vez. Harry quase podia sentir o ar palpável ao seu redor. Ele ficou muito tempo em silêncio, apenas esperando que algo acontecesse. Ou que não acontecesse. Começou a amaldiçoar a si mesmo por ter dito aquelas coisas estúpidas para ela. O que Katherine deveria estar pensando? Que ele era maluco, com certeza. Pior, poderia estar achando-o patético, e era exatamente o que ele era, afinal. Harry estava quase se levantando, inventando uma desculpa qualquer e se mandando dali – com sérios planos de se exilar no Patagônia no dia seguinte, diga-se de passagem – quando sentiu algo em sua bochecha.

Era levemente molhado. Quente. Suave. Tinha aquele embriagante aroma de canela. Doce. Era barulhento. Estalado. Quando Harry finalmente se deu conta de que Katherine estava beijando sua bochecha, ela já tinha se afastado. Mas ele ainda sentia o toque dela em sua pele.

Ele se virou para a garota, sorrindo desconcertado. Estava em estado de choque, e nem se deu ao trabalho de omitir sua surpresa. Ela também sorriu, suavemente, quase sem graça, porém ainda travessa:

- Satisfeito?

 

*******

 

Três batidas secas à porta. Silêncio.

Harry esperou.

- Entre.

A porta rangeu suavemente. Harry adentrou a sala do diretor, encostando lentamente a porta atrás de si. Os quadros repousavam em seus retratos, cochilando tranqüilos. Fawkes, a fênix, emitia sons brandos e melancólicos. Dumbledore estava de pé, próximo à janela, observando o horizonte negro com os olhos perdidos. Ele parecia cansado. Estava claro que algo não ia bem; ele estava preocupado. Harry nem precisava perguntar o que era; a manchete do Profeta Diário daquela manhã dizia tudo. Uma cidade inteira destruída. Não muito longe de Hogwarts. Milhares de mortos. Voldemort.

- Com licença, professor. – Harry disse hesitante, apenas para anunciar sua presença. Não entendia por que Dumbledore o tinha chamado para uma aula logo num dia como aquele, quando ele tinha passado todo o dia ausente resolvendo problemas envolvendo o incidente daquela cidade em chamas.

Dumbledore não se virou para fitar Harry. Ele apenas enrugou ligeiramente as sobrancelhas brancas, e continuou a observar o horizonte, como que hipnotizado.

- Eu não compreendo, Harry. – o diretor disse subitamente, quase num tom de desabafo. O rapaz não soube o que dizer. – Não consigo entender onde ele quer chegar agora...

- Voldemort, o senhor quer dizer? – Harry perguntou para se certificar; no momento, era ele quem não entendia onde Dumbledore pretendia chegar.

- Sim. – o bruxo respondeu gravemente, ainda sem olhar Harry. – Há algo que não se encaixa... Parece... que ele sabe algo que eu desconheço...

Foi a vez de Harry enrugar as sobrancelhas.

- Por que o senhor diz isso?

- Você sabia, Harry, que a cidade que foi destruída essa madrugada por Voldemort... – Dumbledore questionou, finalmente se voltando para Harry. Os olhos azuis dele brilhavam de um jeito incompreensível. – ...um dia, há muitos anos, foi a vila onde os fundadores de Hogwarts viveram?

Houve uma pausa. Era quase como se Dumbledore esperasse que Harry dissesse alguma coisa, algo que clareasse suas idéias. O rapaz não entendia como poderia ajudá-lo naquela situação. Talvez Hermione fosse mais útil, vasculhando livros na biblioteca. Ele, Harry, não sabia nada a respeito daquela história.

- Não, professor, eu não sabia.

Estranhamente, Dumbledore pareceu decepcionado. Mas isso durou apenas um segundo. Logo, ele estava cruzando a sala, parecendo novamente ativo e prático, falando depressa.

- Pois foi, sim. Que eu saiba, Salazar Slytherin também viveu lá seus últimos dias, depois que deixou Hogwarts, até que foi... – ele fez uma pausa breve, e o que disse em seguida não parecia corresponder ao que tinha pensado antes. – ...até morrer.

Aquela última frase despertou algo em Harry que até o momento permanecia adormecido.

- Professor?

Dumbledore ergueu os olhos de sua mesa, gentilmente. Havia um leve sorriso em seus lábios.

- Há algo que eu gostaria de conversar com o senhor... – Harry disse hesitante. – O senhor se importa de me ouvir um pouco antes da aula?

O sorriso do diretor se alargou.

- Absolutamente, Harry. – ele indicou a cadeira à frente de sua mesa, acomodando-se também. – Sente-se, por favor.

Harry se aproximou, sentando-se. Dumbledore o observava ansioso, quase curioso, sorrindo para ele. Com um gesto da mão enrugada, incentivou Harry a falar.

O problema era que ele não sabia por onde começar. Não sabia como explicar aqueles sonhos estranhos que andava tendo. O problema todo não eram os sonhos com Voldemort – ele já estava acostumado a isso, se é que é possível se acostumar a algo assim –; o que mais o preocupava, contudo, eram aqueles sonhos com pessoas estranhas, das quais Harry mal conseguia se lembrar ao acordar, e que ele desconhecia. Mesmo assim, Harry começou a contar alguns dos sonhos que se recordava, achando que estava sendo idiota, pois nada daquilo fazia sentido. Dumbledore, no entanto, parecia pendurado em cada palavra que o rapaz dizia.

- Espere um pouco, Harry... – ele o interrompeu em certo ponto, erguendo a mão para fazer o rapaz se calar. – Você está me dizendo que esses sonhos estão se tornando freqüentes e que você chegou a se sentir mal por causa deles?

- Não foram todas as vezes, professor... – ele tentou explicar. – Às vezes eu só fico com dor de cabeça, indisposto... mas, teve uma vez... – Harry fez uma pausa breve, pensativo. – Bem, nas férias, quando eu estava em casa... hum, o senhor sabe, a casa onde eu estou morando com Sirius...

Dumbledore meneou a cabeça, assentindo. Harry sentiu algo desagradável na ponta do estômago ao mencionar o padrinho – ele ainda não tinha mandado nenhuma carta como prometera aquele dia na estação, e já fazia mais de uma semana que Harry tinha retornado a Hogwarts –, no entanto, tentou transparecer ao diretor que estava tudo normal.

- Então, um dia, quando eu estava lá... acordei depois de um sonho desses, e passei realmente mal... – ele disse, lembrando-se daquele dia em que chegara a vomitar no tapete ao acordar de um sonho. – Tenho certeza que foi por causa do sonho.

- Você quer dizer... – Dumbledore perguntou lentamente. – Que teve uma dor em sua cicatriz, como tem quando sonha com Voldemort ou quando está perto dele?

Harry não respondeu de imediato. Parecia uma pergunta simples, mas para ele era difícil encontrar uma resposta exata. Agora que pensava mais friamente naquele incidente, percebia que tinha deixado passar muitas coisas...

- Não é exatamente essa dor, professor.

Dumbledore pareceu não entender. Ele escutava com o máximo de atenção.

- Como assim, Harry?

- Não é... não é a mesma dor de quando Voldemort está por perto, ou quando sonho com ele... – Harry respondeu devagar, surpreendendo-se com suas próprias palavras. – É... parecida, mas, de alguma maneira, diferente... de um jeito sutil, mas... ainda assim diferente.

Dumbledore se aprumou na cadeira para ouvir melhor, praticamente debruçando-se sobre a mesa.

- Continue, Harry. Explique-se melhor.

Harry hesitou. Era estranho explicar aquilo, porque ele mesmo não entendia. Desde aquele dia, nunca tinha parado para pensar realmente no que tinha sentido. Aliás, nunca tinha parado para pensar racionalmente naqueles sonhos. Porém, agora...

- Bem, o que eu quero dizer é que... a dor não é exatamente a mesma, mas ainda assim, é como se fosse a mesma, o senhor entende? – e sem esperar uma resposta, Harry prosseguiu, sabendo que deveria estar parecendo maluco. – Mas, não era só a cicatriz que doía... a minha mão esquerda... – ele segurou a mão, lembrando-se exatamente da dor que tinha sentido, como se a sensação ainda estivesse ali, mas apenas adormecida. – ...ela doía e... ardia, como se eu tivesse me cortado, e eu sentia como se sangrasse... E o estranho é que foi exatamente nesse lugar que a espada o feriu...

Dumbledore segurou o pulso de Harry com tamanha firmeza, que o rapaz se assustou. O diretor parecia extremamente sério. Falava com urgência na voz.

- "A espada o feriu"? Quem, Harry? De quem você está falando?

Harry não soube o que responder. E também não compreendia por que Dumbledore estava tão tenso. Será que esses sonhos eram realmente tão importantes assim?

- O homem, no sonho... Ele lutava com espadas contra... um outro homem... que o atacava... parecia descontrolado...

- E o que aconteceu depois?

- Eles discutiam... e continuaram lutando... até que... – Harry sentiu a boca seca. Finalmente se deu conta de por que tinha ficado tão horrorizado com aquele sonho. Era o final dele...

- Até que... – Dumbledore o incentivou, urgentemente. – Diga, Harry.

- Até que um matou o outro.

Um silêncio agourento seguiu-se às palavras de Harry. Dumbledore largou seu pulso, seus olhos azuis estudando atentamente o rapaz à sua frente, quase como se não o reconhecesse.

- Quem eram esses homens, Harry? Você sabe?

Harry fitou Dumbledore de volta, vacilando. Sabia quem eram aqueles homens, ouvira seus nomes no sonho e, assim que acordou, era como se algo lhe desse a certeza de quem realmente eram. Porém, foi somente àquela vez que Harry teve essa certeza e, somando-se ao fato que ele estava passando muito mal, ele bem que poderia estar enganado. Não fazia sentido algum, poderiam ser apenas fantasias de sua cabeça, afinal. Além disso, ele nem ao menos vira direito seus rostos, apenas tivera a impressão de que eram eles, que ouvira seus nomes...

- Eu não tenho certeza, professor.

- Mas o que você acha, Harry? – Dumbledore insistiu. – Você acha que sabe quem eles são?

- Por que o senhor está perguntando isso, professor? – Harry retrucou depressa, não sabia se porque quisesse a resposta ou porque não quisesse responder à pergunta do diretor. – Há algo que o senhor pense, ou que saiba, que está me escondendo?

Dumbledore enrijeceu, tenso. Ele torceu uma mão na outra, um gesto de nervosismo bastante incomum tratando-se dele. Fitava Harry como se temesse que o rapaz lesse sua mente.

- Não, Harry, eu não estou escondendo nada de você. – ele respondeu firme. – Desde o dia em que lhe revelei a sua relação com Voldemort, eu não tenho mais nada a esconder de você. Nada.

Harry abaixou os olhos por um momento, nervoso. Não gostava de lembrar aquele dia, no qual colocara o diretor contra a parede e descobrira tudo a respeito dele e de Voldemort. A relação consangüínea deles. Muitas vezes, Harry se arrependeu disso. Preferia quando não conhecia esse fato. As coisas pareceram ficar muito mais difíceis e dolorosas depois disso.

- Apenas diga quem você acha que eles eram, Harry. – Dumbledore pediu, algum tempo depois. – Pode ser importante.

Houve uma pausa breve.

- Eu tive a impressão... – Harry disse lentamente, sem olhar o diretor nos olhos. – ...que eles eram... Godric Gryffindor e Salazar Slytherin.

Foi a vez de Dumbledore se calar. Ele recostou-se à cadeira, cruzando os dedos das mãos, pensativo. Fitava Harry com perplexidade nos olhos azuis.

- Gryffindor e Slytherin? Você tem certeza, Harry?

Harry poderia soltar um palavrão, mas se conteve bravamente. Ele não tinha acabado de dizer que não tinha certeza?

- Não, professor. Eu apenas tive a impressão, porém...

- Porém...?

- Eu procurei saber a verdade depois disso. – Harry observou Dumbledore com cuidado, tentando perceber se ele realmente não estaria ocultando algo dele. – E descobri que... Gryffindor realmente matou Slytherin, não?

Dumbledore assentiu gravemente.

- Não é um fato que todos tenham conhecimento. – ele explicou brandamente. – Digo, não é algo que se relate com freqüência nas aulas de História da Magia, por exemplo.

- Mas... – Harry não conseguiu se conter. – Eu tive a nítida impressão de que... Gryffindor não teve a intenção de fazê-lo, o senhor compreende?

Dumbledore estreitou os olhos.

- E por que você acha isso, Harry?

O rapaz engoliu em seco. Como explicar aquilo, se era algo que ele... simplesmente... sabia?

- Ele não parecia ser capaz disso.

Não era uma boa resposta, e Harry teve certeza disso assim que as palavras saíram de sua boca. Dumbledore pareceu não acreditar.

- Ele viveu há mais de mil anos, Harry, nenhum de nós o conheceu. – ele pressionou. – Não temos como saber com certeza como era seu caráter. Tudo o que sabemos dele vem dos livros de história. E, você sabe, a História é escrita sob um único ponto de vista: o dos vencedores.

Harry sentiu-se enrijecer. Não estava gostando do rumo que Dumbledore estava dando àquela conversa.

- Mas, pelas Casas de Hogwarts podemos saber, não? – o rapaz insistiu. – Quer dizer, a maioria dos sonserinos possui afinidade com as Artes das Trevas, Voldemort era um sonserino, enquanto os grifinórios...

- Você poderia ter sido um sonserino, Harry. – Dumbledore retrucou incisivamente. – Assim como sua mãe, também.

Harry se calou, fechando os punhos instintivamente. Fazia muito tempo que não ficava tão aborrecido com Dumbledore, mas definitivamente não tinha gostado do que ele tinha dito.

- Mas nós não fomos sonserinos. – ele disse entredentes, irritado, com um certo orgulho na voz. – Nem eu, nem minha mãe.

- Exatamente! – Dumbledore exclamou. – Mas, mesmo que tivessem sido, Harry, eu duvido que poderiam ter-se afinizado com as Artes das Trevas! Isso não condiz nem com o seu caráter, nem com o caráter de sua mãe...

Harry não estava entendendo o que Dumbledore pretendia dizendo tudo aquilo. Relaxou os punhos por baixo da mesa, mas continuava com o pé atrás com o bruxo.

- O que eu quero dizer, Harry, é que nem todos os sonserinos são ruins, assim como nem todos os grifinórios são bons... Pedro Pettigrew era um grifinório, e no entanto...

Harry torceu o nariz à menção daquele nome. Sabia perfeitamente que Rabicho era um canalha, mesmo que tivesse sido grifinório um dia.

- Cada pessoa é uma pessoa. – Dumbledore explicou lentamente. – Cada pessoa tem um caráter próprio, uma educação e uma criação próprias. Tendências próprias. A Casa para a qual uma pessoa é selecionada quando entra em Hogwarts não a condena a ser bondosa ou perversa; isso apenas depende dela mesma. O Chapéu Seletor não escolhe pessoas iguais a Gryffindor, Slytherin, Ravenclaw ou Hufflepuff. Ele escolhe pessoas que tenham afinidades com eles, peculiaridades que lhe eram comuns e que eles apreciavam. Mas essas pessoas são diferentes entre si, e diferentes dos fundadores. E nós só podemos saber como é uma pessoa conhecendo-a. Nós nunca saberemos como Slytherin ou Gryffindor eram ao certo. Nós jamais os conheceremos.

Houve uma longa pausa dessa vez.

- Nós nunca teremos certeza se Gryffindor teve ou não intenção de matar Slytherin...

- ELE NÃO TEVE! – Harry vociferou, sem perceber que tinha se levantado. Dumbledore arregalou os olhos, pasmo; aquela impressão que Harry tivera antes, que o diretor parecia fitá-lo como se não o conhecesse, agora estava bastante clara. Dumbledore não parecia reconhecê-lo naquele momento. Nem Harry. Quando Dumbledore disse sua última frase, foi como se Harry a tomasse como uma ofensa pessoal, no entanto, nem ele mesmo sabia porque tinha reagido dessa maneira. Tentando se controlar, o rapaz prosseguiu: - Ele não teve a intenção, professor, eu sei disso.

Meia hora depois, Harry estava deixando a sala do diretor para trás, aborrecido. O gárgula de pedra estava se trancando às suas costas novamente, e Harry parou no meio do corredor, sem saber para onde ir. Sua cabeça estava dando um nó. A conversa com Dumbledore, ao invés de esclarecer suas dúvidas, apenas lhe confundiu ainda mais. E, para melhorar a situação, havia algo martelando em sua cabeça; ele tinha deixado de contar uma coisa para Dumbledore, uma única coisa que estava lhe deixando cada vez mais inquieto. Mas Harry achava, ao mesmo tempo, que deveria esperar; talvez, se ele tivesse mais sonhos como aqueles, eles lhe revelassem algo mais concreto, e ele então pudesse entender.

Os corredores estavam escuros; já deveria ser bem tarde da noite. Harry apalpou um volume debaixo das vestes, pensando. Mesmo que Dumbledore tivesse lhe garantido que conseguira uma permissão para que Harry caminhasse pelo castelo fora do horário permitido em certos dias – os das aulas do diretor –, o rapaz, naquele dia, tinha levado consigo a Capa de Invisibilidade, como uma precaução a mais; não estava com vontade de ter que ver a cara feia de Filch para ele, por exemplo, se esbarrasse com o zelador por um infeliz acaso do destino no corredor. A capa o livraria de contratempos como esse. Harry ficou pensando se deveria usá-la agora, porém os corredores estavam tão escuros e silenciosos, que ele acabou desistindo, já que não estava muito longe da Torre da Grifinória. Harry se pegou imaginando que logo estaria deitado em sua cama, finalmente descansando depois de um mais longo dia. No entanto, seus pensamentos foram interrompidos quando estava no sexto andar; ele ouviu o ruído de passos. Imaginando que fosse Filch, o rapaz rapidamente se escondeu debaixo da Capa de Invisibilidade, e esperou, segurando a varinha por baixo das vestes.

Não era Filch. Harry ouviu uma voz praguejando baixinho, e não a reconheceu como a voz asmática do zelador rabugento – era uma voz feminina, talvez até um pouco familiar. Harry encostou-se à parede, muito quieto, tomando cuidado para que até mesmo sua respiração fosse silenciosa. Então, esperou, tentando escutar, e logo a voz se pronunciou novamente.

- Saco... eu o perdi de vista!

Harry ficou imaginando quem poderia ser, tendo aquela leve sensação de que conhecia a dona daquela voz. Ele esperou mais alguns segundos e, logo, a silhueta de uma pessoa foi se tornando mais visível na escuridão do corredor. A poucos metros de Harry, os passos cessaram; porém, ele ainda sentia a presença da pessoa. Quando Harry estava se decidindo a se aproximar para tentar descobrir quem era a pessoa, ela se revelou por si própria:

- Lumus!

Harry quase exclamou o nome de Katherine sem querer, mas se conteve a tempo. A garota tinha acendido a varinha, e a luz bruxeleante desta iluminava parcialmente seu rosto concentrado. Ela parecia estar procurando por alguém; Harry ficou imaginando quem poderia ser. Subitamente, ela apontou a varinha exatamente para o lugar onde Harry se encontrava, estreitando os olhos em sua direção. O rapaz se amaldiçoou por alguma exclamação de surpresa que, com certeza, deveria ter deixado escapar quando a reconheceu. Porém, mesmo que parecesse desconfiada, ela não podia vê-lo, já que ele estava totalmente encoberto pela capa. Por um instante, Harry teve vontade de se revelar, mas novamente se deteve; achava muito estranho a garota estar perambulando pelos corredores àquela hora, e ainda procurando alguém, como parecia que estava. Era melhor esperar para ver o que ela estava pretendendo.

- Quem está aí? – disse uma terceira voz, dessa vez masculina. Harry sentiu o estômago revirar; conhecia muito bem aquela voz, suave e letal. Quantas vezes já a ouvira soar exatamente daquela maneira com ele próprio? – Eu sei que tem alguém aí, apareça!

- Nox!

Contudo, Katherine não foi rápida o suficiente. Ele a descobriria num piscar de olhos. Harry não pensou duas vezes; adiantou-se e puxou a garota pelo pulso com força, e sentiu que ela sufocou uma exclamação de susto; ele não a culpava, deveria ser realmente muito estranho ser puxada por alguém invisível. Logo, porém, ela e Harry já estavam novamente escondidos, espremidos debaixo da capa do rapaz, seus braços colados um no outro. Harry pôde distinguir o olhar de choque no rosto da garota, iluminado apenas pela luz pálida da lua, que vinha das janelas. Ela parecia incapaz de emitir algum som, de tão surpresa e assustada. Mesmo assim, Harry colocou o dedo indicador sobre os lábios, indicando que ficasse calada. Sentia, no entanto, a respiração tensa dela, assim como a dele próprio, e as batidas rápidas do coração.

Os passos cadenciados daquela terceira pessoa foram ficando mais altos, até que pararam. O rosto de Severo Snape era iluminado apenas pelo feixe de luz fraco proveniente de sua própria varinha, e ele olhava para os lados, apontando a varinha aleatoriamente, procurando, furioso, por alguém que seus olhos não conseguiam enxergar.

- É você, Potter? – ele perguntou traiçoeiro. – Está oculto debaixo de sua maldita Capa de Invisibilidade? Apareça!

Harry sentiu o braço de Katherine no seu, rígido. Estava claro que ela estava com medo que Snape a encontrasse ali, fora dos limites. Por um segundo, Harry imaginou se ele poderia desconfiar do que ela estaria aprontando também. Mesmo assim, Harry decidiu confiar na garota naquele momento e acobertá-la, afinal, ninguém merecia ser pego por Snape, e Harry dizia isso por experiência própria.

Ele sentiu a mão enluvada de Katherine ao redor de seu pulso quando ela percebeu o que ele estava prestes a fazer, e um sussurro urgente – "Não!" –; Harry, porém, desvencilhou-se dela e saiu debaixo da capa. Assim que o fez, Snape sentiu seus passos e apontou a varinha bem para seu coração. Os olhos de Harry se ofuscaram com a luz que incidiu diretamente em seu rosto, e ele teve que fechar um pouco os olhos para não ficar momentaneamente cego.

- Potter... – Snape sussurrou suavemente malicioso, quase deleitado em vê-lo (e Harry sabia muito bem que isso certamente não se devia à fantástica amizade entre eles). – Então, eu não estava enganado?

- Acho que isso é óbvio, não? – Harry retrucou sarcasticamente, reprimindo a vontade de dizer "Não, seu idiota, eu sou apenas uma ilusão da sua mente doentia!". – Mas eu ficaria muito grato se virasse essa luz para longe dos meus olhos. Senhor.

Ele sentiu, perto de si, Katherine se movimentar nervosamente por baixo da capa, mas a ignorou. Havia algo muito mais preocupante à sua frente: Snape, seu olhar de fúria e sua varinha ainda apontada exatamente para seu coração.

- Você é mesmo muito atrevido, não, Potter? – Snape retrucou mordaz. – Eu poderia...

- Poderia o quê? – o rapaz desafiou. – O senhor sabe que hoje eu tenho permissão para estar nos corredores a essa hora.

Snape se calou pelo o que deveria ser um segundo; obviamente, ele sabia disso – Dumbledore sempre avisava os professores quando Harry estaria em sua sala até tarde e, portanto, teria permissão de andar pelos corredores após o horário normal, para que pudesse voltar à Grifinória. E, daquela vez, Harry não estava mentindo; realmente estivera com Dumbledore. No entanto, Snape estava jogando com ele naquele momento, tentando apanhá-lo em um deslize, para que pudesse se divertir, talvez. Harry, porém, não permitiria que Snape saísse daquele encontro satisfeito.

- É mesmo, Potter? Não estou lembrado... Na verdade, acho que o diretor não me disse nada sobre você ter permissão para perambular pelo castelo como se fosse o dono dele... Porque você tem esse costume, não? – ele continuou, maldoso. – Acho que é uma mal de família... pensar que significa alguma coisa, não?

Harry mordeu a língua para não mandá-lo à merda. Sabia que era exatamente aquilo que Snape estava querendo: que Harry perdesse a paciência e o insultasse, para que, assim, pudesse puni-lo e ganhar o dia. Mas Harry não daria esse gostinho a ele, mesmo que as palavras estivessem na ponta de sua língua, prontas para serem ditas.

- No entanto, eu sinto muito em informá-lo, professor... – Harry começou, tremendo de raiva. – ...que eu possuo sim permissão para estar fora dos limites a essa hora, hoje. Eu estou vindo agora mesmo da sala do diretor, se o senhor quiser verificar por si mesmo, eu posso acompanhá-lo até lá e nós teremos o prazer de perguntar ao Professor Dumbledore se eu tenho ou não permissão.

Harry não tinha dado saída a Snape, e sorriu por dentro ao vê-lo morder os lábios, sem saber como responder. Ele não realmente não tinha o dizer contra aquilo; sabia que, se fossem até Dumbledore, ele confirmaria a história de Harry, até mesmo se o rapaz estivesse mentindo. Portanto, não havia saída; Snape estava perdendo.

Porém, ele não iria desistir tão facilmente. O professor decidiu utilizar uma tática alternativa.

- Tem alguém aqui com você, Potter? – ele perguntou incisivamente, pegando o rapaz desprevenido. – Alguém que esteja... escondendo de mim?

Harry engoliu em seco. Como ele poderia saber? A única resposta plausível era que ele já estivesse desconfiado antes, e estivesse, talvez, seguindo Katherine. O que ela poderia estar escondendo, afinal? Ah, mas ele descobriria – Harry repetiu a si mesmo, convicto –; depois de tudo que estava fazendo para acobertá-la, ela teria que contar a ele o que estava aprontando, de um jeito ou de outro.

- Não estou escondendo ninguém. – Harry disse firme, sustentando o olhar de Snape. Sabia, porém, que não estava mais tão seguro quanto antes, e é claro que ele notaria isso. – Eu estou sozinho aqui.

- Tem certeza, Potter? – Snape retrucou rapidamente, dando um passo à frente, bem devagar, ameaçador. A varinha continuava apontada para Harry, e a vontade que ele tinha era sacar a própria varinha e desarmá-lo, mas sabia, também, que jamais poderia fazer isso e, mesmo que pudesse, não haveria tempo suficiente antes de Snape atacar. – Talvez... essa pessoa esteja sob sua capa...

Harry decidiu arriscar. Tinha dado certo antes, quando discutiam sobre Dumbledore, tinha que dar certo agora também.

- O senhor pode procurar, se quiser. Quem sabe não acha alguma coisa? – o rapaz incentivou, encostando-se à parede displicentemente, cruzando os braços. Estava bem ao lado de Katherine, podia até mesmo sentir sua respiração próxima sob a capa. Decidiu apostar que Snape não procuraria bem ao seu lado; ele tinha que achar que o rapaz não teria tamanha ousadia de desafiá-lo a procurar por alguém, e esconder essa pessoa bem debaixo do seu enorme nariz. – Eu não tenho pressa, professor. Pode demorar o tempo que desejar.

Snape hesitou, observando Harry como se tentasse ler seus pensamentos. O rapaz, porém, tentava demonstrar que não estava nem se importando com aquilo tudo, mesmo que fosse complicado ocultar sua tensão. Vamos, você não vai ficar procurando à toa, vai ser humilhante se não tiver ninguém aqui, ainda mais na minha frente...

O professor finalmente abaixou a varinha, claramente frustrado. Harry nem acreditou na própria sorte. Como era fácil manipular gente orgulhosa, não? Ele também sabia disso por experiência própria; admitia que era extremamente orgulhoso, e isso já o fizera se dar mal muitas vezes.

- Tudo bem, Potter. – o professor retrucou, sua raiva transbordando pelas orelhas. Os olhos negros dele pareciam fuzilar Harry. – Mas, saiba que eu estou de olho em você. – Harry imaginou que não era nele que ele tinha que ficar de olho no momento, mas permaneceu calado. – Agora, suma da minha frente!

Harry fez força para não sorrir demais. Ele desviou o olhar depressa do de Snape, pois era mais fácil esconder sua excitação por aquela saída inacreditável se não estivesse enfrentando os olhos dele. Então, o rapaz saiu depressa dali, esperando que Katherine não fizesse a besteira de segui-lo enquanto Snape estava por perto. O rapaz sentiu os olhos do professor acompanhando-o até o final do corredor, e não ousou olhar para trás ou mudar de direção. Era arriscar muito da sorte. Ele, então, rumou para a Grifinória, decidido a procurar Katherine assim que pudesse e interrogá-la a respeito do que ela estaria fazendo àquela noite.

 

*******

 

Nos dois dias que se seguiram, Harry não conseguiu nenhuma oportunidade de conversar com Katherine a sós, apenas trocou olhares com ela nas refeições. Até parecia que ela estava evitando-o, o que só serviu para deixá-lo ainda mais desconfiado. Ele ficou imaginando por muito tempo o que ela poderia estar fazendo àquela hora da noite fora da Sonserina, procurando por alguém. Sabia que Snape deveria estar desconfiado também, mas perguntar algo a ele obviamente estava fora de cogitação; ao mesmo tempo, Harry ficava pensando se ele teria apanhado a garota àquela noite, depois que foi embora. Apesar de Katherine estar oculta sob a capa, ela ainda assim era sólida, e Snape sabia muito bem como a capa funcionava.

- Harry! – ele sentiu alguém cutucá-lo na altura do antebraço. Era Hermione. – Nós estamos falando com você!

- Anh? O quê?

Hermione bufou, revirando os olhos para o teto, emburrada. Ela se abraçava aos seus livros, impaciente. Atrás dela, Rony fazia força para segurar o riso. Harry olhou para os lados e percebeu que os outros alunos estavam recolhendo seu material e saindo depressa de mais uma aula complicada de Transfiguração. A Profª. McGonagall recolhia papéis em sua mesa, atarefada.

- A aula já acabou? – Harry perguntou tolamente.

Rony não agüentou; desembestou a gargalhar. Hermione, porém, parecia muito irritada com aquela atitude de descaso do amigo com o que deveria ter sido, obviamente, uma aula muito importante.

- Em que planeta você estava, Harry?

- Desculpa, então! – ele se defendeu, levantando-se e colocando de qualquer jeito as coisas dentro da mochila. – Eu só me... distraí.

- Distraiu? – Rony riu ainda mais alto. – Você literalmente viajou, Harry! Mas tudo bem... é completamente compreensível...

E riu ainda mais. Estava ficando tão vermelho quanto os cabelos de tanto rir. Harry deu uma cotovelada nele de advertência quando jogou a mochila nas costas e se apressou para sair da sala. Hermione pareceu confusa depois disso.

- O que vocês dois estão escondendo de mim? – ela interrogou incisiva, colocando-se entre os dois garotos, desconfiada, quando saíram para o corredor. – E não neguem, eu não sou idiota, sei que estão escondendo algo!

Rony trocou um olhar nervoso com Harry, que estava ficando cada vez mais irritado. Aquilo era tudo culpa de Rony, que não sabia se controlar na frente de Hermione! Ele tinha deixado muito claro que não era para ele ficar dando bandeira por aí do que estava acontecendo. Harry não queria nem pensar na falação sem fim que teria que escutar se Hermione descobrisse sobre Katherine. As duas se detestavam.

- Anh, Mione...

- Não, Rony! – Hermione protestou, aborrecida. – Não adianta tentar me enrolar de novo, eu sei que...

- Não faz assim, Mionezinha... – Rony prosseguiu na tentativa, abraçando a garota e tentando beijá-la. Mas Harry sabia que não iria funcionar; Hermione não desistia por nada quando colocava alguma minhoca na cabeça. – Ah, vem aqui, vem...

- Pára, Rony! – ela se virou para Harry, vermelha. – O que está acontecendo? Eu vou ficar muito magoada se vocês não estiverem me confiando algo importante!

Harry gemeu, suspirando desanimado. Aquilo não estava indo bem. Não era apenas por Katherine; se fosse qualquer outra garota, também ficaria sem graça de falar essas coisas com Hermione. Porém, ao mesmo tempo, sabia que ela não iria sossegar até descobrir se era mesmo algo importante. Não que aquilo não fosse importante, mas quando se tratava de Harry, ela sempre ficava preocupada que pudesse ser algo mais sério, algo a respeito de Voldemort, por exemplo.

Rony fitava Harry com uma cara do tipo "eu tentei, cara", enquanto Hermione olhava o amigo com uma expressão séria e emburrada. Harry finalmente desistiu e deu de ombros. Hermione se voltou imediatamente para Rony, que novamente tentava segurar o riso. Eles tinham chegado aos jardins; era um fim de tarde nublado de janeiro, mas pelo menos o frio não estava tão intenso, nem estava nevando. Os três sentaram-se em um dos bancos de pedra, e Harry abriu um livro qualquer, fingindo estar concentrado, pois não queria ter que olhar na cara dos amigos quando Rony contasse o que estava acontecendo.

- Anh... bem, Mione...

- Sim?

- É que o Harry... – Rony começou hesitante, e Harry sentiu que ele o fitava sem jeito; pôde ver pelo canto dos olhos que o amigo ainda sorria. Harry foi escondendo aos poucos o rosto dentro do livro, mais e mais. – Bem... é que o Harry está apaixonado!

Houve um silêncio breve. Hermione se virou para Harry, claramente surpresa, não sabendo se sorria ou se deixava o queixo cair. Rony estava quase ficando roxo de tanto segurar o riso. Harry sentia o rosto fumegando; não sabia se de vergonha – pelo palerma do Rony ter colocado as coisas do jeito que tinha colocado – , ou de raiva mesmo. Afinal, ele tinha dezessete anos, pombas! Não era para ninguém ficar rindo da sua cara se ele estivesse a fim de uma garota!

- Harry, é verdade? – Hermione perguntou desconcertada.

Harry a fitou por um segundo, sem saber o que dizer, então se voltou para Rony, com toda sua ira:

- Não foi isso que eu disse, Rony! – ele exclamou, furioso. – Eu não estou... apaixonado! – então, subitamente veio à sua cabeça a expressão de Sirius, muitos dias antes, naquela briga entre os dois, dizendo "Você se apaixonou". Isso só fez Harry ficar ainda mais irritado, então ele completou: - Isso é tudo culpa sua e da sua boca grande! Mas que merda, Rony!

No entanto, o amigo não pareceu se ofender. Pelo contrário, continuava a sufocar o riso, a ponto de ter um treco, de tanto que estava ficando roxo. Hermione sorria suavemente, parecendo compadecida, o que só deixava Harry ainda mais sem graça.

- Ah, Harry, mas isso é ótimo!

O rapaz bufou, virando o rosto para o lado oposto, pensando se Hermione diria a mesma coisa se soubesse de quem estavam falando.

- É verdade, Harry... – ela prosseguiu, tentando animá-lo, o que não estava surtindo muito efeito. – Já faz tanto tempo que você está sozinho...

Harry revirou os olhos, emburrado. Sabia que a amiga estava tentando ser gentil, mas ter aquela conversa era o fim da picada. Ele estava com a sincera vontade de cavar um buraco no chão e se esconder ali dentro por anos a fio. Ainda podia escutar as risadinhas do infeliz do Rony.

- Quem é a garota?

Harry engasgou. Olhou para os amigos, abobado, e viu que ambos o fitavam curiosos. Virou o rosto para o outro lado, desanimado, e teve um novo acesso de tosse; seus olhos bateram em ninguém menos que ela.

Katherine estava a alguns metros, parcialmente oculta atrás de uma pilastra, fazendo sinais impacientes para que ele fosse falar com ela. Harry estava chocado. Essa garota tem um parafuso solto, não é possível! Ele percebeu que Rony e Hermione ainda o fitavam, sem entender o que estava acontecendo, e então Harry se deu conta de que devia uma resposta aos dois. Porém, antes que conseguisse balbuciar qualquer palavra, foi Rony quem o ajudou, inacreditavelmente:

- Anh, ele ainda não quer contar, Mione. – ele disse rapidamente, fitando o amigo de um jeito esquisito, como se estivesse desconfiado de algo. Harry não entendeu nada, porém, estava mais preocupado com Katherine, que ainda estava lá ao longe, tentando chamar sua atenção. – Vamos deixá-lo em paz, o.k.? Quando ele quiser, ele conta.

Hermione pareceu desapontada, mas não fez objeção. Ela sorriu suavemente, fitando o amigo, compreensiva.

- Tudo bem, Harry... Mas eu espero que dê tudo certo.

- Anh... – ele balbuciou, sem graça, fitando Rony, que tinha um olhar diferente; Harry ficou imaginando se ele tinha percebido alguma coisa. – Obrigado, Mione...

- Onde você vai? – a amiga perguntou assim que viu Harry se levantando. Ele reparou que Rony ainda o olhava daquele jeito desconfiado. Harry só esperava que, se ele tivesse notado alguma coisa (e tomara que ele não tivesse), soubesse ser discreto, sabendo que talvez fosse mais fácil Hermione largar os livros por um dia, do que isso acontecer.

- Ah, eu, anh... esqueci umas coisas na estufa hoje de manhã, na aula de Herbologia... – ele inventou. – Vou lá buscar, daqui a pouco eu volto.

Ele, então, saiu depressa, deixando sozinhos os dois amigos. Viu que Katherine tinha voltado a se esconder atrás da pilastra, porém ainda podia enxergar sua sombra. Harry seguiu até lá, trocou um olhar discreto com a garota, que fingiu estar entretida procurando alguma coisa em sua mochila, e então rumou para as estufas, esperando que ela tivesse entendido que era para segui-lo.

Harry já estava esperando há uns dez minutos, sentado na escadinha que antecedia a porta da estufa n.º 7, quando Katherine apareceu e sentou-se ao seu lado. Era muito difícil alguém ir até lá, já que as aulas naquela estufa eram apenas para o sétimo ano, e a Grifinória e a Lufa-lufa já tinham tido sua aula àquele dia.

- Era mais fácil você ter aparecido e me chamado na frente de todo mundo, pentelhinha. – Harry disse sarcástico, assim que a garota se sentou, sem, no entanto, fitá-la. Nem ele sabia porque estava tão irritado; aliás, sabia sim, mas não podia contar a ela.

- Eu fui bem discreta, tá? – ela retrucou ofendida, abrindo a mochila para apanhar alguma coisa. – Tomei cuidado para que ninguém me notasse.

- Claro, só faltava colocar um penacho na cabeça pra passar ainda mais despercebida!

- Que saco, Potter, você tá muito resmungão hoje!

- Não estou, não! – ele resmungou, apoiando o queixo nas mãos, sem, entretanto, encará-la.

Não sabia se estava mais irritado por causa de Rony e Hermione, ou se porque Katherine não estivesse falando com ele há dois dias. Era muita falta de consideração ela não o ter procurado, ele a tinha protegido de Snape àquela noite! Era o cúmulo ela não ter nem ao menos agradecido! Nem devolver a Capa de Invisibilidade ela tinha devolvido! Se Harry tivesse vergonha na cara, não olhava mais na cara dela. Imagine, deixá-lo no vácuo, há dois dias!

O.k., ele estava sentindo falta dela. Bastante. Chegara ao ponto de sonhar com a garota na noite anterior. Estava ficando idiota. Ridículo. Patético. Louco. Deveria se internar num hospício.

Foi quando ele sentiu algo leve e macio sendo colocado em seu colo. Quando olhou para baixo, viu sua Capa de Invisibilidade, cuidadosamente dobrada. Virou-se imediatamente para Katherine, que sorria, travessa.

- Foi muito útil, obrigada, Harry.

Completamente apalermado, ele ergueu a capa entre as mãos e depois se virou para Katherine, confuso:

- Você andou usando a capa esses dias?

Katherine tentou disfarçar, mas ela não conseguia esconder que estava extremamente sem graça.

- Anh... ela está como antes, Harry, pode olhar.

- Não é isso! – ele retrucou um pouco mais alto, o que pareceu assustá-la ligeiramente. Nem ele mesmo entendia porque estava tendo essa reação. – O que você andou fazendo? Você usou a capa além daquela noite no corredor, com Snape?

- Ah, ali ela me ajudou bastante, também! – ela emendou, tentando mudar de assunto. – Você me tirou de uma grande enrascada, Harry, é sério, eu tô te devendo uma.

- Não tenta me enrolar! – ele insistiu, agigantando-se sobre ela. Katherine recuou ligeiramente; era estranha aquela posição, afinal, ela sempre parecia saber exatamente como agir e, no entanto, naquele momento estava completamente sem graça. – Pra quê você usou a capa? O que você anda fazendo? Por que você estava perambulando àquela hora pelos corredores?

- Ei, ei, ei! – ela se ergueu, defendendo-se. – Vamos parar com o interrogatório, o.k.? Você emprestou a capa, logo, eu podia usá-la para o que eu quisesse, não?

- O problema não é a capa! O problema é o que você anda fazendo por aí à noite!

Katherine fechou a cara imediatamente. Parecia que Harry tinha passado dos limites.

- O que eu ando fazendo é problema meu. – ela respondeu grossa, como costumava ser antes de eles se tornarem amigos. – Se é para fazer interrogatório, eu também deveria perguntar o que você estava fazendo por aí, àquela hora!

Harry se calou, mordendo os lábios. Katherine estava muito irritada agora; empinava o queixo, como que o desafiando. Harry sabia que não podia contar o que fazia na sala de Dumbledore àquela hora; nem para Rony ou Hermione tinha contado direito, um pedido do próprio diretor.

- Eu estava com o Professor Dumbledore. – ele disse seriamente. – Não menti quando disse a Snape que tinha permissão para estar fora dos limites àquela noite.

Katherine se remexeu, incomodada, abraçando-se às pernas. Claramente estava emburrada com Harry. Ele desejou não ter sido tão rude com ela, sendo que ela parecia tão amável com ele àquele dia. Nem ele mesmo entendia porque tinha reagido dessa maneira. Ou talvez entendesse...

Àquela noite, Katherine parecia estar procurando por alguém. E Harry estava louco para saber se era isso mesmo, e quem era esse alguém. Mas isso não era ciúmes, era? Não, não mesmo. Não era, não podia ser!

- Eu não posso contar o que eu estava fazendo. – ela murmurou zangada. – É um assunto pessoal. Mas eu não estava fazendo nada de horrível, tá?

Harry ficou ainda mais envergonhado por seu comportamento. Ela parecia estar sendo honesta. Ele abaixou a cabeça, vexado, e não olhou em seus olhos quando sussurrou:

- Me desculpe.

Silêncio. Ela respirou mais forte.

- Eu não deveria ter falado desse jeito com você. – ele continuou, sentindo-se muito mal. – É claro que você não estava fazendo nada horrível, eu sei disso, ou não teria lhe acobertado de Snape. Eu... confio em você. Me desculpe.

Houve uma nova pausa. Ele ainda ouvia apenas a respiração forte de Katherine, e esperou, ansioso, que ela lhe desse uma resposta. Aquele silêncio estava a ponto de matá-lo, mas ele sabia que não podia pressioná-la; era ele quem estava pedindo desculpas, não ela. Quando ele estava prestes a explodir, ouviu a voz dela, ainda um pouco magoada:

- O que aconteceu com você?

Ele se virou depressa, e encontrou os olhos dela. Ela parecia apreensiva.

- Como assim?

- Hoje... no café da manhã... – ela continuou. – Quando as corujas chegaram... você pareceu tão... sei lá, decepcionado, chateado...

Então ela tinha notado? Como? Nem Rony ou Hermione tinham percebido que ele andava chateado porque Sirius não mandara nenhuma carta a ele, nem ao menos um mísero bilhete, desde que se encontraram pela última vez na estação. Harry estava tentando disfarçar, pois não queria ficar contando toda aquela história novamente, ainda mais porque assuntos particulares do padrinho estavam envolvidos, porém, no entanto, Katherine o estivera observando àqueles dias e percebera.

- Eu... anh... estava esperando uma carta do meu padrinho, mas ele não mandou nada. – Harry disse, sentindo que não era complicado dizer essas coisas a ela. Até sentia-se um pouco melhor. – Nós nos desentendemos e não conseguimos nos acertar direito... Ele ficou de mandar uma carta, mas até agora nada...

Katherine suspirou.

- Família é um negócio complicado mesmo. – ela, então, teve um sobressalto, como se tivesse percebido que tivesse dito algo errado. – Ah, me desculpe.

Harry afastou o assunto com a mão.

- Tudo bem. Ele é a minha família mesmo. – ele admitiu, achando estranho dizer aquilo em voz alta. "Minha família." – Ele é como... um pai e um irmão... tudo ao mesmo tempo.

- Ele deve estar com problemas... – ela disse depois de algum tempo. – Ele gosta de você. Vi como se davam bem àquele dia, no pub.

Harry a fitou longamente. Katherine tinha os olhos perdidos. Ela tinha mencionado aquele dia novamente. Harry suspirou e se lembrou de algo que vinha pensando desde o dia na estação, quando conversara aqueles cinco minutos com Sirius.

- Você nunca falou direito do seu pai.

Ela se virou rapidamente para Harry, assustada, como se tivesse levado um choque elétrico. Harry teve medo de tê-la machucado com a pergunta.

- Eu não sei muita coisa sobre ele. – Katherine desabafou, suspirando. – Minha mãe só dizia que ele tinha sido um... – ela revirou os olhos, como se achasse aquilo ridículo. – ..."um grande amor do passado, que não voltaria mais". Como se ela fosse capaz de amar alguém...

Demorou algum tempo para Harry perceber que estava sentindo pena de Katherine. Aquela mãe dela deveria ser uma idiota, para não gostar da própria filha. Ele chegou a estender a mão em direção ao seu ombro para confortá-la, mas Katherine se levantou antes que ele a tocasse.

- Eu preciso ir. – ela disse depressa, respirando forte. Por algum motivo, não queria olhar para o rapaz. – Até mais, Harry.

E foi embora antes que Harry pudesse pedir para que ficasse.

 

Harry sacudiu os cabelos de um lado para outro, espalhando água para tudo quanto era lado. Estava encharcado. Era capaz de até a lula gigante estar mais seca do que ele àquela noite.

- Estamos empatados com a Sonserina! – Peta Spencer comentou contente. – Só precisamos que Harry pegue o pomo no próximo jogo, e seremos campeões esse ano!

- Se Potter pegar o pomo, você quer dizer... – Jonnathan Cavendish comentou mordaz.

Harry fingiu que não estava escutando. Não seria aquele idiota do Cavendish que lhe tiraria do seu bom humor. Apesar de ter sido um jogo difícil, com chuva, eles tinham vencido a Lufa-lufa com uma boa frente, e agora estavam empatados com a Sonserina no campeonato. Os dois times tinham a mesma chance de levar a taça, mas Harry sabia que seu time tinha potencial. Porém, o que ele não parava de imaginar era como seria jogar contra Katherine novamente, agora que tudo tinha mudado...

- Você não vem, Harry? – Rony perguntou, tirando-lhe de seus devaneios.

O rapaz se virou para o amigo, que lhe esperava à porta. Os outros estavam comentando o jogo, contentes, e iam saindo juntos. Harry percebeu que, um pouco mais atrás de Rony, Gina o fitava de esguelha, como se o observasse. Ela desviou o olhar quando viu que Harry a notara, e voltou a dar atenção ao seu namorado.

- Ah, vai ser a maior festança hoje na sala comunal! – Colin disse animado. – Disseram que vão pegar comida com os elfos na cozinha. E trouxeram bebida de Hogsmeade também!

- Como é um mistério... – Peta emendou.

Harry voltou a guardar as coisas no armário.

- Daqui a pouco eu vou. – ele disse distraído. – Tenho que terminar de ajeitar umas coisas por aqui.

- Quer ajuda? – Gina perguntou lá atrás. Harry viu pelo canto dos olhos que Cavendish a olhou emburrado.

- Não, obrigado. – Harry respondeu depressa. – Falta pouco.

Os outros jogadores foram deixando o vestiário em bando, até que só restaram Rony e Harry.

- Vá você também, Rony. Não vai querer deixar a Mione lá sozinha, não é?

Rony riu baixinho. No entanto, ele parecia um pouco sem jeito, como se quisesse dizer algo e não sabia por onde começar.

- Anh, é que eu queria lhe perguntar uma coisa, Harry...

O rapaz se virou para o amigo, a sobrancelha erguida, esperando a pergunta. Rony fez uma careta, indeciso, então completou:

- Não, deixa pra lá... Outro dia eu pergunto.

- Tem certeza?

Rony fechou os olhos por um segundo, sorrindo.

- Tenho, tudo bem. – ele disse, dando de ombros. – Você podia se aborrecer, deixa pra lá, não era mesmo tão importante... Eu encontro você na sala comunal.

Alguns minutos depois, Harry fechou o armário, intrigado, e o som metálico dele ecoou pelo vestiário vazio. O que Rony poderia estar querendo lhe dizer? Confiando que, assim como o amigo disse, não deveria ser nada muito importante, Harry cruzou o vestiário, apanhou sua Firebolt e já estava colocando-a no ombro, pronto para voltar ao castelo, quando ouviu um barulho, parecido com o de um assobio.

Ele saiu do vestiário, entrando novamente no campo. Era uma noite escura e nublada, mas a chuva já tinha passado, finalmente. A grama estava úmida; Harry pisou nela, ouvindo o barulho aquoso da terra misturada à água da chuva. O campo estava vazio e silencioso novamente. Harry sorriu; era como se, naquela noite, o campo fosse só dele.

Batia uma brisa fria, e Harry teve vontade de transformar aquela brisa em vento. Chegou a descer a Firebolt dos ombros, pronto para montá-la e dar uma volta antes de ir embora, quando ouviu o assobio novamente. Ergueu os olhos e se deu conta de que não estava sozinho, afinal.

Havia alguém voando lá em cima. A vassoura assobiava, competindo com o vento. No início, Harry pensou que fosse algum dos jogadores, mas a pessoa não vestia uniforme de time algum. Parecia voar muito bem; descrevia voltas e mais voltas graciosamente. Harry não soube quanto tempo ficou observando-a, até que a pessoa parou no ar, olhando exatamente para ele. Harry a reconheceu e sorriu.

Ele passou a perna por cima da Firebolt, deu impulso e, logo, estava novamente no ar. O ar batia forte em seu rosto molhado, fazendo-o tremer ligeiramente de frio, mas Harry não se importava. Aquela sensação era boa demais.

Katherine esperou que Harry a alcançasse, planando no ar. Os cabelos dela estavam desarrumados pelo vento. Observava Harry com um brilho estranho no olhar, fazendo-o imaginar coisas.

- O que você está fazendo aqui? – ela perguntou, mas não estava zangada. Sorria, e Harry adorava seu sorriso.

- Eu é que pergunto. – ele retrucou. – Pensei que o campo fosse só meu.

- Eu perguntei primeiro, Harry... – ela provocou, sorrindo como uma criança prestes a fazer uma travessura, girando devagar em torno dele com a vassoura.

- Estava no vestiário e resolvi voltar aqui... e te encontrei.

- Há quanto tempo estava me observando? – ela continuava a voar ao redor dele, numa velocidade suave. Harry sorria, acompanhando-a com os olhos, imaginando aonde aquilo poderia dar.

- Não sei. – ele disse, percebendo que não se importava mais com o que poderia estar dizendo. Parecia que alguma coisa – talvez o sorriso dela, talvez o seu perfume, misturado ao cheiro adocicado da chuva – estava entorpecendo seu cérebro e permitindo que ele dissesse exatamente o que vinha à sua cabeça. Não havia barreiras ou limitações. – Eu não presto atenção no tempo quando estou com você.

O sorriso dela se alargou. Harry sabia que era um sorriso sincero. Podia sentir.

- Será que você sabe mesmo voar, Harry? – seus olhos brilhavam intensamente. – Consegue me alcançar?

- É um desafio?

- Quem sabe?

- Duvida que eu te alcance?

Ela se aproximou dele, seus braços quase se colando um ao outro, então sussurrou em seu ouvido:

- Du-vi-do!

E disparou para o lado contrário, rindo. Harry girou rapidamente a vassoura e voou como um raio atrás dela. O ar úmido pelo orvalho arranhava sua face, tornando-a cada vez mais gelada. Ele escutava o assobio do vento em seus ouvidos. Seus olhos focavam apenas Katherine, à frente, um pontinho no ar que ele queria apanhar.

Ela realmente voava bem. Apesar da vassoura de Harry ser indiscutivelmente mais rápida, ela conseguia fazer boas manobras para fugir dele, escapando muitas vezes por um triz. Ela ria nessas horas, e jogava o cabelo para trás, provocando Harry apenas com os olhos, disparando outra vez em seguida. Mas ele não iria desistir. Ela não podia escapar todas as vezes...

Katherine embicou a vassoura para baixo, depois que eles contornaram as balizas próximas ao vestiário da Grifinória. Harry teve uma idéia e, ao invés de segui-la, tomou o caminho oposto, para apanhá-la quando saísse do mergulho. Ele deitou na vassoura, fazendo-a tomar mais velocidade, torcendo para que Katherine não percebesse a jogada.

Ela não notou. Assim que estava se erguendo do mergulho, Harry a surpreendeu. A garota hesitou, percebendo que estava sem saída; eles estavam indo de encontro um ao outro. Harry não pensou duas vezes; assim que se viu próximo o suficiente, abraçou-a no ar, e eles caíram. Harry sabia que não estavam muito longe do chão, por isso ousou aquela loucura; Katherine, no entanto, não notou o mesmo que ele e gritou, agarrando-se ao rapaz e fechando os olhos em seu peito. Harry sentiu um frio gostoso na barriga antes de alcançar o chão.

Ele amorteceu a queda com o próprio corpo, e Katherine caiu bem em cima dele. A terra estava fofa, e por isso ele quase não notou o impacto. Eles rolaram sobre a terra, grudados um no outro, até pararem. Harry sentiu a grama molhada sob suas costas, a água gelada umedecendo seus cabelos e sua nuca. Seus olhos estavam fechados, para que apreciasse melhor aquela sensação maravilhosa. Katherine estava sobre ele, em seus braços; podia senti-la, pois seus braços envolviam seu corpo pequeno, protegendo-a. O rosto dela estava escondido nas vestes dele, e ela respirava assustada, trêmula. Todo o corpo de Harry correspondia ao calor que emanava dela, e era a melhor sensação que ele já tinha tido na vida.

Ele não saberia dizer por quanto tempo ficaram assim, apenas abraçados, sentindo um ao outro. Mas não queria que acabasse. Aos poucos, a respiração dela foi se acalmando, porém, ela ainda agarrava suas vestes, como se tivesse medo de cair novamente se o soltasse. Ele estava embriagado pelo aroma suave de canela que emanava dos cabelos dela.

Katherine se afastou, apenas o suficiente para se encarassem nos olhos. Ela ainda puxava suas vestes, mas parecia trêmula demais para brigar com ele. Ela parecia quase... desarmada. Era Harry quem tinha o controle da situação naquele momento.

- Você é louco... – a voz dela não passava de um sussurro.

Houve uma pausa muito longa. As mãos de Harry passearam pelas costas dela; ele estava hipnotizado. Katherine não se moveu, mas ele sentiu que ela se arrepiou ao seu toque. Aos poucos, as mãos dele foram se aproximando do rosto sujo de terra dela; os cabelos dela caíam sobre seus olhos em cachos suaves. Harry procurou com os dedos a fita de veludo que segurava os cabelos da garota – era a mesma fita que ele lhe mandara de presente de Natal –, e então, lentamente, ele a puxou. Os cabelos dela se soltaram, caindo ao redor do seu rosto; eram longos, cacheados, negros. Harry tocou-os, colocando-os para trás das orelhas dela, e sentiu como eram macios. Ele novamente a achou linda, como naquela outra vez que a vira assim. Ele não conseguia parar de olhá-la. Acariciou o rosto levemente úmido dela com ambas as mãos, sentindo como era delicado.

- Eu estou apaixonado por você, Katherine...

Ele não acreditava que tivesse realmente dito aquilo. Mas a sensação era fantástica; parecia que tinha tirado um peso dos ombros, sentia-se mais leve, mais feliz. Não havia nada mais importante, nenhum outro problema no mundo, porque Harry tinha resolvido o maior de todos: tinha deixado que aquela frase, que o estava sufocando, saísse, e Katherine tinha escutado. Ela parecia sem palavras. Apenas o fitava de volta, os olhos ainda mais brilhantes.

Ela também tocou seu rosto com suas mãos enluvadas, e Harry sentiu como o toque dela era macio e carinhoso. Lentamente, ela tirou os óculos dele de seu rosto, como ele tinha acabado de fazer com a fita.

- Você tá toda embaçada... – ele reclamou, rindo. Katherine riu junto dele.

Ela se abaixou, e os corpos deles se grudaram por completo. Aos poucos, ela foi ficando mais nítida, à medida que seu rosto ficava mais próximo do de Harry. Ele conseguia sentir os batimentos do coração dela sobre si. Os narizes molhados dos dois se tocaram.

- Eu quero ficar com você, Harry...

Então, eles fecharam os olhos. E o que Harry sentiu em seguida foi fantástico. Os lábios de Katherine eram quentes, macios e tinham gosto de pimenta. Ardiam, mas no fim, a sensação era maravilhosa... no fim era doce, com uma pontinha amarga. Ele não queria mais nada da vida. Aquilo era tudo que precisava. Somente ela... a sua pentelhinha...

Ele tocou suas costas, sentindo como eram suaves. Ela se encaixava perfeitamente nele. Katherine afagava seu rosto suavemente, e Harry, em resposta, puxou-a mais para si, abraçando-a contra o peito, intensificando o beijo. Ele não escutava nada ao redor... apenas uma suave melodia, e a voz dela, repetindo "Eu quero ficar com você, Harry..." Ele entrelaçou os dedos em meio aos cabelos dela, levemente úmidos, abraçou-a com o outro braço e impulsionou os corpos, tomando cuidado para colocá-la bem devagar sobre a grama, de maneira que a posição se inverteu. Logo, Katherine estava sob ele, e Harry, sem parar de beijá-la, estava tocando-a na cintura, erguendo-a apenas alguns centímetros do chão para que seus corpos não deixassem nunca de estarem colados. Quando o fôlego dos dois estava quase se esgotando, Katherine se afastou apenas um milímetro; ele a contemplou, maravilhado; ela sorria, e seus cabelos espalhavam-se sobre a grama molhada. Eles se podiam se compreender apenas pelo brilho do olhar.

- Diz que vai ficar comigo, Harry...

- Eu fico. Sempre.


No próximo capítulo: Após beijar Katherine, todos os sentimentos de Harry se tornam sólidos e irremediavelmente reais, mas como os dois encararão essa descoberta assustadora em suas vidas? E pior, como os outros encararão isso?

Notas da autora: HOHOHOHOHO [ri alucinadamente] Sejam sinceros, vocês esperavam por isso agora? Ou achavam que eu ia demorar 998 anos e meio pra escrever isso? hahahaha =D Sim, eles se beijaram! E o que vocês estão com vontade de fazer agora? Me matar? Me abraçar? Hahaha =D Os dois??? [rindo descontrolada] Bem, e agora, depois disso... tirem suas próprias conclusões até o próximo capítulo! O que vocês acham que há entre os dois? Amizade colorida? (risos) Hum, sei não, vocês que sabem... hehehehe =D

Bem, me desculpem a demora, eu sei que eu me comporto como uma lesma paralítica para escrever e postar esses capítulos, mas não me matem, é tudo uma grande conspiração contra mim!!! Batam nos meus professores na faculdade, eles são culpados! =p hehehe [kaka torcendo para que vocês façam isso]

Ah, e o próximo capítulo? [HAHAHA] Melhor nem comentar... um dia vai sair e vocês vão ler... não posso prometer nada, vocês sabem que eu sou uma lesminha mesmo. =p [faz cara de lesma... perae, como é cara de lesma???]

Até mais, gente, e MUITO obrigada mesmo pelos comentários lindos, maravilhoso e fofos que eu amo de paixão! ;)

< Capítulo Anterior / Próximo Capítulo >

Voltar aos capítulos/Home

Hosted by www.Geocities.ws

1