N/A: A última cena desse capítulo é em homenagem à minha amiga querida, talita_black. Está aí concretizada sua idéia e seu pedido, espero que goste! =)

 

Capítulo Dezessete – O presente de Natal

 

Uma opaca e apática claridade penetrava devagar e sorrateiramente no quarto escuro à medida que o tempo passava com vagar e, aos poucos, aquela escuridão sombria foi sendo substituída por uma luz indolente e sonolenta.

Harry não teve ânimo de se levantar e fechar as cortinas, de modo que a luz morna do sol pálido foi preenchendo o quarto silencioso, numa mistura de tons vermelhos, alaranjados e amarelados, como num quadro borrado de tinta fresca. Era possível ouvir o som distante das ondas quebrando na praia, bem como o piar de passarinhos preguiçosos e o pinga-pinga da chuva da noite anterior secando ao se encontrar com o sol fraco da manhã.

Parecia que estava anestesiado. De pernas e braços abertos, Harry estava estirado na cama, que ele nem se dera ao trabalho de desarrumar para se deitar. Fitava o teto como se ele fosse uma tela de cinema, na qual passavam cenas difusas, misturadas, de um passado, um presente e um futuro obscuros.

Não tinha pregado o olho a noite toda. Talvez por causa da tempestade furiosa lá fora, talvez porque estivesse preocupado com Sirius – que ainda não retornara, nem dera sinal de vida – ou talvez porque não conseguisse parar de se sentir como se fosse a última pessoa no mundo. Sua própria voz, dura e cheia de mágoa, não parava de soar dentro de sua cabeça, como um gongo estridente. Então, ele voltava a se lembrar de tudo, e novamente sentia aquela horrível e desesperadora sensação de sujeira, imundice... de nojo de si mesmo.

Várias vezes, naquela madrugada, apanhara a caixa antiga de sua mãe, decidido a abri-la, mas em todas as vezes acabou desistindo. Não sabia por quê, mas não conseguia nem ao menos tentar abri-la; suas mãos tremiam, ele suava, e era como se uma força invisível de repulsa o impedisse de segurá-la. Era como se ele fosse encontrar a própria mãe ali dentro, e então fosse ver em seus olhos verdes a mesma vergonha dele, que também estava presente em seus olhos...

No momento, a caixa estava em cima do criado-mudo, apenas esperando... silenciosamente. Sobre ela, um envelope pardo e um tanto amassado. Harry também não tinha conseguido abrir esse envelope.

Não que não tivesse tido vontade. Inúmeras vezes, também, sentara-se na cama, apanhara o envelope e começara a abri-lo. Até chegou a tirar de dentro as duas folhas de pergaminho, mas no último instante, devolvera-as ao envelope. Queria estar com a cabeça no lugar quando lesse a carta de Katherine.

Aliás, a pentelhinha tinha sido o centro de sua atenção e seus pensamentos por um bom tempo naquela madrugada chuvosa. Ele ainda não conseguia acreditar... parecia impossível, irreal, quase como um sonho maluco, daqueles em que se acorda e ri em seguida por ser uma bobagem muito fantasiosa de nossa cabeça. Aquele tipo de sonho que se conta aos amigos mais tarde, como se fosse uma piada, e então todos riem. Mas não era sonho, porque Harry estava acordado há quase 24 horas, e tinha certeza que não dormira nadinha por todo esse tempo. Era real. Harry estava apaixonado por Katherine. E isso não era nem um pouco reconfortante.

Por muito tempo, ele tentou descobrir o porquê. Uma resposta, uma pista, um sinal, um motivo... Qualquer coisa que explicasse o inexplicável. Porém, simplesmente não havia absolutamente nada que explicasse a verdadeira loucura de Harry. Ele não conseguiu encontrar o porquê de estar apaixonado por Katherine Willians, pela pura e simples razão de não existir um porquê. Sim, pois qual seria a razão de Harry gostar daquela garota?

Enumerando-se os fatos, racionalmente, percebe-se que existem mais contras que prós:

Primeiro fato contra: Katherine era uma sonserina. Logo após, o segundo fato que ligava-se ao primeiro, e parecia ser ainda pior: Katherine era prima de Draco Malfoy. Só esses dois fatos já eram bastante contundentes por si só e, se Harry estivesse gozando de seu pleno juízo, gargalharia de sua ridícula estupidez e tiraria aquela garota idiota da cabeça no mesmo minuto, percebendo que aquele sentimento era apenas um surto louco de sua mente perturbada. Mas, não! Havia ainda mais fatos!

Terceiro: Katherine mantinha contato com Samantha Stevens. Quarto: Katherine era uma chata, pentelha, irritante e vivia provocando Harry apenas pelo prazer de vê-lo ficar com raiva dela. Existiam mais fatos? Sim, um monte, que encheriam uma longa lista. Harry sinceramente considerou escrever tudo isso em um papel qualquer e pendurar atrás da porta, ou em algum lugar bem visível, para que sempre se lembrasse da sua inacreditável loucura e o porquê de ser uma completa insanidade. E, talvez, fazer uma cópia, para andar sempre com ela no bolso e consultar de vez em quando para se lembrar.

Agora, se existiam prós, Harry não sabia. Primeiro, porque não se forçou a lembrar. Segundo, porque se forçou a não lembrar. Deu para entender a sutileza da coisa? Bem, o que realmente importava era que Harry tentou não achar bons motivos para se apaixonar por aquela garota, porque não poderia haver bons motivos e porque, se ele encontrasse algum bom motivo, isso atrapalharia o seu intento de esquecê-la.

O que dava mais dava raiva era que Harry não queria esquecê-la. Sim, e ele tinha vontade de se bater por causa disso. Várias vezes, naquela madrugada, ele se pegou pensando naquela garota... em como o cabelo dela cheirava a canela... em como o corpo dela era quente e se encaixou perfeitamente no seu quando os dois se abraçaram àquele dia no qual ela se debulhava em lágrimas pela morte da avó... em como foi mágico quando os dois dançaram (ou melhor, moveram-se devagar) naquele pub em Londres... em como o rosto dela tomava uma nova cor quando ela ria ou sorria, e sua cabeça se inclinava ligeiramente para o lado... em como sua mão era pequena e dava para sentir seu calor mesmo por trás das luvas... ou em como Harry quase a beijou, àquele dia, quando os dois conversaram deitados sobre a grama gelada, sob a neve...

Ele girou seu rosto sobre o travesseiro lentamente, observando com cobiça o envelope pardo em cima da caixa de madeira. O que Katherine poderia ter escrito ali? Será que era para revelar que ela sentia o mesmo que ele? Claro que não, deixe de ser ridículo, Harry! Katherine poderia ser chata, mas não parecia ser burra. E só mesmo sendo muito burro como ele para se apaixonar assim.

Era nessas horas que Harry fechava os olhos com muita força, mordia os lábios e se forçava a mudar a rota de seus pensamentos. Só podia estar mesmo maluco. Ele se obrigava, então, a se lembrar de todos os "contras", mas eles de repente pareciam pequenos e insignificantes... tão mesquinhos...

Harry se sentou rapidamente ao ouvir um barulho seco no andar de baixo. Seu coração bateu muito depressa dentro do peito. Seu primeiro pensamento foi Sirius. Mas então lembrou que tinha esquecido a porta da frente destrancada também. Poderia ser outra pessoa? Pensou em Agatha, mas estava muito cedo, e ela nem deveria ter acordado ainda. Se não fosse Agatha, nem Sirius, quem poderia ser? Ladrões?

Ele ficou quieto por mais um instante, esperando. Silêncio. Fosse quem fosse, estava tentando não fazer barulho. Ainda atento ao menor ruído, Harry silenciosamente apanhou a varinha na mesa de cabeceira, levantou-se e, descalço, saiu do quarto.

Caminhou devagar no corredor. Ouvia, agora, ruídos mínimos. Chegando próximo à escada, espiou apenas com um dos olhos e soltou um suspiro de alívio, abaixando a varinha.

- Ah, é você, Sirius...

O padrinho segurava uma pasta negra, abarrotada de papéis, e estava colocando-a sobre a mesa de centro quando Harry apareceu no alto da escada. Ele rapidamente recolheu novamente a pasta, segurando-a como se fosse algo muito importante.

Sirius ergueu os olhos, e Harry viu que eles pareciam ainda mais opacos e sem vida que na noite anterior, quando os dois discutiram feio. O bruxo estava um tanto abatido e cansado, com olheiras fundas; a camisa dele estava aberta, suja e ligeiramente rasgada, a calça, mal vestida ao corpo e, para completar, Sirius estava sem sapatos. Ele engoliu em seco por um momento, fitando Harry pensativo, como se procurasse algo para falar ou ainda estivesse estupefato demais para isso.

- E quem você esperava? – ele perguntou rudemente, depois de algum tempo. – O Papai Noel?

Harry bufou longamente, revirando os olhos e descendo alguns degraus. Será que Sirius continuaria com aquela bobagem? Tá certo que Harry tinha pisado na bola ao demorar tanto para voltar para casa e, ainda por cima, sem avisar, mas ele sabia que aquele não era o motivo mais forte para o padrinho estar tratando-o com frieza. Era por causa de Katherine. Mas Harry não tinha culpa de ter sido besta o suficiente para se apaixonar por ela, tinha? Afinal, ele não era o único cara no mundo a ser idiota para isso; deveria existir milhares como ele no por aí, que se apaixonavam pela garota errada. Mas isso era algo que ele poderia mudar, é claro que Harry poderia tirá-la da cabeça assim que desejasse. Poderia, não é? Além disso, Sirius não tinha nenhuma moral para ficar zangado com ele por causa disso. Não era ele que sempre estava tendo recaídas à todo momento por Samantha? Harry, no entanto, achou melhor não mencionar tudo isso, ou poderia piorar as coisas. Preferiu ser sarcástico:

- Na verdade, não. Eu esperava o Coelhinho da Páscoa, mas sabe que você também serve, Sirius...?

Foi a vez de Sirius bufar com irritação e fitar Harry com desagrado. Ele subiu alguns degraus, até que ficasse da mesma altura do afilhado, para que os dois pudessem se encarar de frente.

- E você sabe que às vezes me irrita bastante, Harry? Você é igualzinho ao seu pai... Pontas também era bem sonso quando estava com vontade de me deixar irritado...

Harry sorriu, achando graça. Sirius, pelo contrário, não parecia ter achado nada engraçado ali.

- E não sorria desse jeito! – ele disse zangado, dando as costas a Harry e subindo o restante da escada.

- Hey, espera aí, Sirius! – Harry exclamou depressa, subindo atrás dele e alcançando-o no topo. Sirius caminhava na direção do seu quarto, decidido a não olhar para a cara do afilhado. – Você passou a noite toda fora e nem vai me dizer nada? Eu fiquei acordado, te esperando...

Harry sentiu que tinha falado demais quando Sirius se virou para ele e lançou-lhe aquele olhar. Parecia que tinha sido a gota d’água para ele.

- Talvez seja bom pra você aprender, Harry. – ele disse com cinismo. – Eu também fiquei te esperando ontem à noite, ou você já se esqueceu disso?

Harry ficou sem palavras. Sirius aproveitou o estado catatônico do afilhado, deu as costas a ele novamente e saiu depressa. Percebendo isso, Harry rapidamente saiu do seu transe cheio de culpa e correu até Sirius, segurando a porta antes que o padrinho a fechasse na sua cara.

- Espera um pouco, Sirius! Vamos conversar...

Eles se fitaram por alguns longos segundos. Harry tinha um tom de súplica na voz, sinceramente arrependido. Sirius, por sua vez, parecia duro e implacável, no entanto, mesmo assim, parou de forçar a porta. Ele caminhou pelo quarto, sem olhar para Harry, e abriu seu armário, jogando lá dentro a pasta negra.

Harry ficou observando-o por alguns instantes, escolhendo as palavras certas. Sirius, agora, ocupava-se escolhendo uma camisa no armário. Depois de algum tempo de um silêncio tenso, Harry engoliu o orgulho e falou:

- Sirius... eu sinto muito... eu realmente pisei na bola com você ontem...

O padrinho não disse nada, apenas continuou entretido escolhendo as camisas. Harry achou que aquele silêncio o mataria.

- Bem, Sirius... – Harry sentiu a garganta levemente seca, desconfortável. Ele torceu as mãos, que começaram a suar. Encostou-se ao batente da porta, achando muito complicado falar aquelas coisas em voz alta. – Eu... eu não deveria mesmo ter sumido ontem, sem avisar nada a você... mas é que aconteceram algumas coisas... coisas que eu não consigo falar sobre elas ainda, você entende?

Sirius nem se deu ao trabalho de olhar para Harry. Finalmente achou uma camisa no armário – vermelha escura –, jogou-a sobre a cama e começou a tirar a camisa rasgada e suja que usava. Harry teve vontade de perguntar o que tinha acontecido com ele àquela noite, mas se conteve.

- Aquilo que você disse ontem... sobre eu estar... bem, sobre eu estar... apaixonado... – Harry fez uma pausa breve, observando a reação do padrinho; ele já estava sem camisa, e agora desabotoava a camisa vermelha para vesti-la. No entanto, parou ao ouvir o afilhado, e ele teve certeza que Sirius o ouvia atentamente, mesmo que não dissesse nada, ou sequer o olhasse. – Eu fiquei pensando sobre o que você disse, Sirius... e, bem... eu acho que você está certo.

Rápida e atabalhoadamente, Sirius desabotoou os botões restantes, vestindo a camisa com tanta pressa, que acabou colocando um braço na manga errada e teve que começar de novo.

- Mas, olha... eu posso consertar isso! – Harry exclamou urgentemente. – Quer dizer, é sério, eu consigo! Eu sei que você está certo, Sirius, que ela é a garota errada, que isso não deveria ter acontecido! Eu sei muito bem quem ela é, e... e... e, bem, não era para eu estar... gostando dela... aconteceu, foi só isso. Mas eu vou tirá-la da cabeça, quer dizer... é uma loucura, eu não sou tão idiota a ponto de seguir em frente com isso. – Harry riu nervosamente. – Você vai ver, Sirius, eu vou consertar tudo! É sério, acredita em mim!

Houve um silêncio mais longo e significativo dessa vez. Sirius, com a camisa já colocada do jeito certo, parou de prender os botões quando faltavam bem poucos para fechar toda a camisa. Ele umedeceu os lábios por um instante, parecendo pensativo. Quando falou, sua voz era vazia e rouca.

- Não é assim que as coisas funcionam, Harry...

- Claro que é, Sirius! Eu posso, eu consigo, é claro que eu...

- Não é, não, Harry. – ele negou categoricamente, finalmente erguendo os olhos para fitar o afilhado. Harry se sentiu horrível ao receber aquele olhar desalentado. – Você não pode simplesmente dizer a seu coração para parar de gostar de uma pessoa. As coisas não são tão simples... tão fáceis...

- Mas, e se...

- Não existe "mas". – Sirius continuou a falar, imperturbável às tentativas inúteis de Harry se explicar. – Eu estou te dizendo isso, Harry, porque já tentei – e não paro de tentar – deixar de gostar de uma pessoa, mas os anos se passaram, e eu ainda não consegui sequer tirá-la dos meus pensamentos...

Harry pensou em Samantha, e em como deveria ser complicado para Sirius lidar com seus sentimentos a respeito da mulher. Ele ficou imaginando se ele não teria estado com ela àquela noite.

- Pontas costumava dizer que eu não era capaz de me apaixonar por uma única mulher... – Sirius disse, rindo tristemente. – ...que eu me apaixonava por todas, de uma vez só. Mas sabe, Harry, até seu pai, que me conhecia melhor do que ninguém, errou ao dizer isso. No dia em que eu me apaixonei por uma única mulher, eu nunca mais consegui me apaixonar por outra.

Harry permaneceu mudo. Não tinha argumentos contra aquilo, e se sentiu extremamente infantil por todas suas explicações tolas. Desviou os olhos de Sirius, pois não conseguia mais encará-lo. Por alguns instantes, sentiu-se observado por ele, até que o padrinho voltou sua atenção para a camisa, terminando de abotoá-la enquanto falava:

- Eu não deveria ter-me descontrolado com você ontem, Harry... Mas eu só queria que você entendesse o quanto eu estou preocupado com você. – ele suspirou. – Só que não tem mais "conserto" agora. O mal já está feito, e não adianta eu me zangar e gritar com você, porque você vai sofrer com isso, e não tem mais jeito de impedir. – Harry ergueu os olhos; Sirius ainda abotoava a camisa, distraidamente. – É algo pelo qual você tem que passar. Talvez você cresça mais um pouco com isso, como aconteceu comigo. Eu só peço que tenha cuidado, porque você pode sair mais do que apenas machucado nessa história...

Harry não podia acreditar no quê estava ouvindo. Ele ficou ali, parado à porta, observando Sirius, completamente atônito. Depois de todo aquele ataque histérico do dia anterior, Sirius estava ali, dizendo-lhe que seguisse em frente? Não dava para acreditar. Mesmo. Quando o rapaz abriu a boca para dizer algo, porém, sua voz foi abafada pela de Sirius, que o fitava seriamente.

- Arrume suas malas, Harry.

- O-o... o quê? – ele perguntou sem entender. O que era aquilo, uma piada de mal gosto, por acaso? – Eu não entendi, Sirius.

- Arrume suas malas. – o padrinho repetiu com uma seriedade que não lhe era muito característica. – Eu já avisei Arthur e Molly, você vai passar o Natal e o resto das férias n´A Toca, com os Weasleys.

Harry apenas fitou o padrinho de volta, incrédulo. Obviamente, não tinha ouvido direito.

- Você está brincando.

- Não estou, não, Harry. – ele disse sem se perturbar. – Molly e Arthur ficaram muito felizes de te receber, como era previsível, e vai ser ótimo, porque você vai estar perto de seus amigos.

- Mas eu quero estar perto de você no Natal! – Harry exclamou indignado. – Sirius, nós nunca passamos o Natal juntos, eu pensei que...

Sirius parecia muito chateado quando fitou Harry mais uma vez. O rapaz se calou, atordoado.

- Eu tenho muitas coisas para fazer agora, Harry, vou precisar passar algumas semanas fora... – ele disse lentamente, como se escolhesse as palavras. – Não vou poder ficar aqui em casa com você, e também não vou poder passar o Natal, então...

Mas Harry sentiu algo quente subir até sua cabeça e inundar seu corpo. Era demais, não dava para acreditar que estivesse ouvindo aquilo. Sirius tinha... prometido! E, agora, só porque eles tinham brigado uma vez, ele estava dispensando Harry? Ele respirou fundo, tentando se acalmar. Talvez tivesse uma explicação, afinal, e ele não poderia ser injusto com Sirius, não depois de ter feito a besteira que tinha feito na noite anterior.

- Mas o que aconteceu, Sirius? – ele perguntou controlado, cruzando os braços e encarando o padrinho. – Foi alguma coisa da Ordem... de Dumbledore... foi o seu trabalho, ou foi...

- Não foi nada disso. – Sirius disse sem graça, fazendo uma careta desconfortável. – Foi... pessoal.

- Pessoal? – Harry perguntou engasgado. – Mas... o quê...?

- Escuta, Harry, tem coisas sobre você que não quer contar pra mim, não é? Então eu acho que posso me sentir no direito de também não contar certas coisas sobre minha vida pra você, o.k.?

Já era a segunda vez em menos de dois dias que Harry sentia como se tivesse levado um tapa. O quê, Sirius estava jogando na sua cara que ele estava escondendo coisas dele? Será que ele não compreendia que simplesmente existiam coisas que Harry não se sentia à vontade de contar? Ah, é claro, é muito fácil chegar para as pessoas e dizer "Olha, eu sou neto do Lorde das Trevas, legal, não é? Eu sou neto de um maníaco assassino, e sabe, o mais interessante é que ele também quer me matar e não tá nem aí que eu seja seu parente... divertido, não?". Não, Sirius não entendia isso, aliás, ninguém conseguiria entender, e é exatamente por esse motivo que Harry não contava isso para ninguém.

Ele bufou lentamente, respirando fundo, sem desviar os olhos de Sirius. Seu corpo estava começando a tremer de fúria reprimida. Nem ele conseguia entender direito porque estava se contendo, ou porque estava ficando tão nervoso. Bem estava entendendo sim. Ou não. Ah, o que importa?

- Tá bom, Sirius, você não precisa contar pra mim porque está me mandando ir embora... Tudo bem, sério.

- Eu não estou "te mandando ir embora", Harry. – Sirius também parecia se controlar. – Eu só estou tentando explicar...

- Não, não. Não precisa explicar nada, Sirius. – o rapaz retrucou com sarcasmo. – Não se incomode. Quer dizer, você está dizendo que não está "me mandando ir embora", tudo bem, eu entendo agora, me desculpe por entender errado a sua mensagem.

Sirius parecia não encontrar palavras para responder.

- Você está sendo sarcástico, Harry.

- Eu? – o rapaz apontou para si mesmo, inocentemente. – Acho que agora você que não está me entendendo, Sirius...

- Puta que o pariu, Harry! – o padrinho exclamou entredentes, prestes a explodir, porém ainda fazendo o impossível para se controlar. – Que gênio você tem! Será que não entende que...

- Gênio, eu? Você não, não é, Almofadinhas?

Harry tinha tocado na ferida. Sirius parecia realmente furioso agora. Ele apontou o dedo para Harry ameaçadoramente, seus olhos em chamas quando gritou, saliva pulando de sua boca:

- NÃO ME CHAME DE ALMOFADINHAS!

- E o que é que tem?

- Tem que você não é seu pai!

Harry se calou por um momento, tenso. Sirius estava vermelho de raiva. Ele repentinamente percebeu que seu dedo estava ainda apontado, e então o abaixou, sem graça, mas ainda perigoso. Seus olhos voltaram-se novamente para Harry, e ele parecia tentar se controlar mais uma vez.

- Você vai para A Toca.

- E se eu não quiser?

- Não importa. Você vai.

- Eu acho que você se esqueceu que eu já sou maior de idade, Sirius.

- Isso não lhe dá o direito de fazer o que bem entender.

- É o que você pensa.

- Ah, é, Harry? – foi a vez de ele cruzar os braços, estampando um sorriso irônico no rosto. – Então, me diz, pra onde você vai se não for pra lá?

Harry pensou por apenas alguns instantes.

- Eu posso ficar aqui...

- Não, Harry, você não pode. Eu não vou estar aqui, então você não pode ficar.

- E por que não?

- Porque não vai ficar sozinho.

- E se eu quiser?

- E se eu te disser que essa casa é minha?

Harry se calou novamente. Sirius realmente tinha pegado pesado agora. Ele mordeu os lábios, sem fitá-lo.

- Você está querendo dizer que eu estou morando de favor aqui com você?

Sirius suspirou longamente, exausto e desanimado.

- Não, Harry, pelo amor de Deus, é claro que não, é só que...

- Mas foi o que pareceu. – Harry disse magoado, fitando-o seriamente. – Quando você me chamou para morar aqui, disse que essa agora era a minha casa também.

- É claro que é, mas...

- Mas o quê, Sirius? Pombas, se decide, cara!

Foi a vez de Sirius não saber o que dizer. Harry desistiu de esperar; desencostou-se do batente, deu as costas ao padrinho e saiu andando no sentido oposto, até sentir uma mão em seu ombro. Parou, mas não se virou.

- É claro que essa é a sua casa, Harry. – o padrinho disse devagar. – Eu não quis dizer aquilo de verdade.

Harry não respondeu imediatamente. Um silêncio desagradável se instaurou entre os dois por longos minutos.

- Eu só... pensei... que nós passaríamos o Natal juntos dessa vez. – ouviu a respiração pesada de Sirius atrás dele, mas não deu importância. A mão do padrinho ainda estava apoiada em seu ombro pesadamente. – Eu nunca... passei o Natal com... uma família... de verdade. Eu pensei que isso pudesse acontecer dessa vez...

- Mas, não é assim, Harry... – Sirius argumentou. – Puxa, os Weasleys gostam muito de você, e você também, dessa vez eu realmente não pos...

- O problema não são eles, Sirius! – Harry se virou para o padrinho, abrindo os braços com desânimo e deixando-os cair em seguida. Sirius parecia muito chateado agora. – Eu gosto muito deles, é claro, Rony é meu melhor amigo, e você sabe disso...

- Então, Harry...

- Mas você não vai estar lá! Ou vai? – Sirius não respondeu. – Não vai, não é, Sirius...? É claro que eu gosto deles, mas você é o cara mais perto de uma família que eu consegui ter! Não, eu vou dizer certo: você é minha família. Tá difícil entender isso?

Sirius ficou em silêncio novamente, parecendo incapacitado de falar. Harry bufou de irritação. Não agüentava mais aquele suspense, já estava farto de tudo aquilo.

- Você venceu. Eu vou arrumar minhas malas.

E, antes que Sirius pudesse dizer qualquer outra coisa, Harry bateu a porta de seu quarto.

 

*******

 

Harry tinha os cotovelos apoiados nas coxas, ao mesmo tempo em que seu queixo se apoiava em suas mãos. Estava sentado em sua cama, enquanto a claridade gradualmente se extinguia em seu quarto. Seus olhos ardiam intensamente e seu corpo parecia ter sido surrado. Sua cabeça doía incomodamente, mas não tinha nada a ver com porcaria de sonho nenhum ou com a sua estúpida cicatriz; ele sabia muito bem o porquê. Era porque tinha passado a noite toda acordado e ainda pegado uma chuva dos infernos, sem contar que no dia anterior aparatara em ida e volta até a Rua dos Alfeneiros, que era bem longe, e Harry não estava tão acostumado a aparatar como deveria. Ah, também não comia há quase um dia inteiro.

Ele coçou os olhos ardentes por baixo dos óculos, piscando seguidamente, e eles lacrimejaram. Tirou os óculos embaçados por um instante, limpou-os, e então devolveu-os ao rosto, bufando de cansaço e irritação. Seus olhos, então, bateram naquela caixa, que ainda estava sobre a mesa da cabeceira. A carta de Katherine também estava no mesmo lugar. Tinha esquecido de guardar as duas coisas quando arrumara o malão. Estendeu a mão para apanhar o envelope pardo da carta, mas levou um sobressalto ao ouvir batidas na porta.

- Harry, sou eu, Sirius! Posso entrar?

O rapaz se levantou depressa, agitado. Olhou para os dois objetos, não queria que Sirius os visse. Batidas novamente.

- Harry? Você está aí?

- Estou! – Harry respondeu, apanhando as duas coisas e correndo até o malão, abrindo-o com pressa e jogando a caixa e a carta de qualquer jeito lá dentro. – A porta está aberta, pode entrar! – ele exclamou, quando estava fechando o malão.

Escutou o rangido quando Sirius abriu a porta, mas não se virou para olhá-lo; fingiu estar terminando de ajeitar o malão.

- É melhor nós irmos andando, não é? Antes que fique muito tarde...

Harry desviou os olhos para a janela. O sol estava se pondo, em tons vermelhos e alaranjados no horizonte.

- Nós vamos aparatando?

- Não, vamos de carro.

Harry se levantou e se virou para Sirius, intrigado.

- Por que de carro?

- Porque nós estamos cansados e não é bom aparatar assim se pode-se evitar, principalmente para alguém inexperiente como você.

Harry queria dar uma resposta mal educada ao comentário do padrinho, mas conteve as palavras a caminho da boca; estava cansado de discutir. Limitou-se a um aceno de ombros, e acompanhou-o escada abaixo. Sirius estava colocando as coisas de Harry no porta-malas quando uma distração na forma de uma menininha loira os interrompeu:

- Onde você vai, ´Arry? – Agatha perguntou, o sorriso em seu rosto desaparecendo gradualmente enquanto observava Sirius fechando o porta-malas. Harry trocou um olhar com o padrinho, que apenas suspirou e deu de ombros.

Um tanto irritado ainda e, agora, constrangido por não saber o que dizer à menina, Harry se abaixou para ficar do tamanho dela, colocando um sorriso um tanto forçado no rosto.

- Eu vou ter que ir embora mais cedo, Agatha... – ele disse devagar, escolhendo as palavras. Agatha fez bico, inchando as bochechas como um balão e cruzando os bracinhos.

- Mas você prometeu que ia passar o Natal aqui! – ela argumentou, seu rosto vermelho de indignação. – Você prometeu, ´Arry!

- É, eu sei... – ele revirou os olhos, impaciente. Sirius o fitava da porta do carro, apoiado na capota; tinha um olhar oblíquo e chateado. Harry desviou o rosto. – Mas, eu... eu estou "desprometendo", Agatha.

- Mas não pode! – ela choramingou. – Eu não deixo!

Harry respirou fundo, revirando os olhos e pedindo paciência a um ser maior. A sua estava bem curta àquele dia. Mas a menina não tinha culpa do que andava acontecendo, era apenas uma criança. O rapaz, suspirando, colocou algumas mechas loiras do cabelo dela para trás, fitando a expressão emburrada da menina.

- Não vai dar mesmo, Agatha. Me desculpe... – ele lamentou, a menina suspirou. – Mas eu continuo te mandando cartas... eu te mando um cartão no Natal!

- Não é a mesma coisa!

Harry pensou por alguns instantes. Sirius sempre perguntava a ele como ele tinha tanta paciência com Agatha; às vezes nem o próprio Harry sabia, mas quando parava para pensar, começava a entender. De uma estranha maneira, ele via a si mesmo naquela menina; ela não tinha amigos, vivia sozinha e muitas crianças caçoavam dela por ser pobre. Harry olhava para aquela garotinha e lembrava daquele menino pequeno e magricela da Rua dos Alfeneiros, que vivia debaixo da escada, sozinho e sem amigos. Talvez a única diferença entre eles fosse que, ao contrário de Harry, Agatha tinha pais. Mas nem isso a fazia menos carente.

- Eu te ligo, o.k.? – ele sorriu para ela. Ela ameaçou abrir um sorriso. – Ah, vai, Agatha, eu não quero ir embora e ficar lembrando dessa sua carinha triste... Dá uma risadinha para o seu... namorado, vai? – ele sussurrou, piscando um olho para ela, e então começou a fazer cócegas na barriga da menina, que não suportou e soltou gostosas gargalhadas. – Ah, assim está melhor!

Passou algum tempo para que a menina parasse de rir. Harry ameaçou um olhar de esguelha para o padrinho, e viu que ele sorria observando-os; os olhares dos dois se encontraram por um segundo, então Harry desviou novamente o rosto.

- Você liga mesmo? – a menina perguntou.

Harry fingiu pensar, então sorriu e assentiu. Agatha o abraçou pelo pescoço, quase derrubando-o para trás, fazendo-o rir. Alguns minutos depois, Harry estava sentado no banco do passageiro, observando a paisagem passar em borrões pela janela do carro. Sirius dirigia em silêncio. Tocava uma música lenta e triste no rádio.

- Tem felitone na casa dos Weasleys? – ele perguntou de repente, sem tirar os olhos da estrada. Harry não se virou para olhá-lo; continuou observando os campos passarem depressa pela janela.

- Telefone. – corrigiu sem emoção. – Sim, eles têm. O Sr. Weasley gosta de colecionar coisas dos trouxas.

- Ah, sim... – Sirius murmurou. Tomou fôlego para dizer algo, mas as palavras pareceram se perder a caminho da boca, e o que ele disse não aparentava ser o que realmente pensou. – Você gosta mesmo dessa menina, não é?

- Gosto. – Harry murmurou, pensando se deveria ou não falar o que pensou. Respirou fundo, soltando o ar lentamente pela boca; os olhos estavam perdidos no horizonte da estrada. – Ela me lembra eu.

- Você?

- Quando eu era menino.

- Ah... – havia uma certa formalidade no ar que não lhes era característica. – Eu gostaria de ter te visto quando menino...

- Eu sei que gostaria. – Harry respondeu com sinceridade. – Eu também gostaria.

Silêncio. Não era um silêncio ruim ou tenso, porém. Apenas não se falavam. O locutor anunciou a próxima música, uma balada dos anos 80. Harry sentia-se sonolento; ele olhou para Sirius por alguns minutos; o padrinho estava concentrado na estrada, mordendo os lábios inferiores, como se pensasse. O rapaz deixou o corpo escorregar levemente no assento, e sua cabeça pendeu para o lado. Seus olhos estavam pesados.

- Harry, eu só queria te dizer...

Mas Sirius parou de falar abruptamente ao perceber que o afilhado tinha adormecido. Sorriu levemente e voltou a se concentrar na estrada, abaixando um pouco o volume do rádio, cantarolando baixinho a letra da música.

 

*******

 

Harry despertou com cutucões desagradáveis no braço. Resmungou, virando-se no banco; estava dormindo tão bem, tão quentinho, por que sempre aparecia alguém para perturbá-lo? A pessoa insistiu.

- Vamos, Harry, acorda, a gente já chegou...

- Ainda nem é de manhã... Pára de encher! – e voltou a dormir.

- HARRY!

- AHHHH!!!

Harry abriu os olhos, dando um salto no banco que entortou seus óculos no rosto. Ele olhou para Sirius, que ria da cena; olhou para o outro lado, e percebeu o que tinha acontecido. Não fora Sirius que gritara, fora um chumaço de cabelos vermelhos e sardas chamado Rony Weasley.

- Ah, isso é uma conspiração contra mim... – resmungou, ajeitando-se no banco e acertando os óculos no rosto. As costas estavam ligeiramente doloridas por ter cochilado sentado no banco. – Só pode ser...

- Olá pra você também, cara. – Rony disse alegremente; Harry notou que ele estava com um sorriso enorme no rosto e seus braços estavam apoiados na porta do carro, ao lado de Harry. – Tudo bem, Sirius? – ele acenou com a cabeça para o padrinho de Harry, indicando logo depois algo mais ao longe. – Meu pai já está vindo logo ali...

- Ah, ótimo. – Sirius disse, abrindo a porta do carro. – Vou falar com ele e depois pegar suas coisas, Harry.

Os garotos observaram o padrinho de Harry sair do carro e dirigir-se até o Sr. Weasley, que vinha caminhando pelo jardim. Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão e um abraço. Harry se virou para Rony, que parecia muito contente.

- Por que você não me mandou uma coruja avisando que viria? – o amigo perguntou. – Descobri pelos meus pais.

- Ah, foi de última hora... – Harry deu de ombros. – Não deu pra avisar...

O sorriso de Rony se transformou numa careta de desconfiança.

- Tô te achando estranho, Harry... Aconteceu alguma coisa?

- Nada. – o rapaz respondeu depressa. – Impressão sua.

Rony examinou-o por alguns instantes, sem parecer estar muito convencido; então, com um movimento rápido e brusco, abriu a porta do carro.

- A gente não vai ficar conversando aqui a noite toda, não é?

Quando Harry saiu e bateu a porta do carro, olhou para o céu e viu que já era uma bela noite estrelada sobre A Toca. Rony o conduziu até a porta de casa, tagarelando. Harry olhou de esguelha para o padrinho, e viu que ele o fitava por cima do ombro do Sr. Weasley. Assim que entrou dentro da casa, Harry quase foi sufocado por um abraço apertado da Sra. Weasley.

- Pára, mãe, você vai matá-lo desse jeito! – disse Rony, mas a mãe do garoto nem lhe deu ouvidos.

- Que bom que veio passar o resto das férias conosco, Harry! – a bruxa sorriu bondosamente para o rapaz, logo após soltá-lo do abraço. – Fiquei tão contente quando Sirius nos contou!

- Ah, que bom... – Harry disse com um sorriso um tanto forçado; não que não gostasse de estar com os Weasleys, não tinha era gostado das circunstâncias. – Obrigado, Sra. Weasley.

- Sirius vai ficar para o jantar, não? – ela perguntou ansiosa.

- Ah, eu não sei... – Harry respondeu. – Ele anda... cheio de coisas pra fazer. – completou, emburrado.

- Eu vou até o jardim mandá-lo entrar, então. – ela disse, saindo pela porta que Rony e Harry deixaram aberta.

- Você ainda tá vivo aí? – Rony zombou, rindo, assim que a mãe estava longe para ouvi-lo. Harry apenas sorriu. – Ótimo, vamos subir para o meu quarto, então.

- Que cara é essa, hein, Rony? – Harry perguntou enquanto subiam as escadas; Rony olhou intrigado para o amigo. – Cara de bobo.

Rony o xingou, ainda com o sorriso no rosto.

- Anh... só... recebi uma carta da Mione, hoje...

- Ahhhh, tá explicado! – Harry retrucou. – Grande coisa, eu também recebi uma carta dela há uns três dias.

Rony mostrou-lhe a língua. Foi nesse momento que um segundo chumaço de cabelos vermelhos botou a cabeça pra fora de uma porta no corredor. Harry sentiu uma reviravolta desagradável na boca do estômago.

- Rony, você por acaso viu minha...? – Gina parou de falar abruptamente ao bater os olhos em Harry. – Ah, esquece. – e bateu a porta do quarto sem cerimônia na cara dos dois garotos, que se entreolharam de sobrancelhas erguidas.

- Gina é uma aborrecente. – Rony revirou os olhos, voltando a subir os degraus que restavam. Harry riu, mas não disse o que pensava. – Vai, pode concordar, ela é mesmo.

- Sem comentários. – o rapaz disse quando entraram no quarto excessivamente laranja do amigo.

Pichitinho deu um rasante na cabeça de Harry, obrigando-o a se abaixar, piando alegremente. Rony praguejou, apanhando a corujinha no ar e levando-a de volta à gaiola.

- O.k., Harry. Desembucha. – Rony disse, puxando uma cadeira para se sentar, fitando o amigo atentamente. – O que aconteceu?

Harry colocou as mãos nos bolsos, desconfortável, e preferiu observar os pôsteres do Chudley Cannons a olhar para o amigo, murmurando qualquer coisa sobre nada ter acontecido.

- Ora, Harry, eu não sou tão inteligente quanto a Mione, mas também não sou tonto, vai? – Rony insistiu. – Você me disse antes das férias que não tinha jeito de vir pra cá por causa de uma... – o amigo girou os olhos, lançando um olhar significativo para Harry, apontando para baixo. – ...certa pessoa. E ai aparece do nada o Sirius pra falar com meus pais, você vem no dia seguinte e não manda nem uma coruja pra mim?! Algo estranho aconteceu, tá na cara.

Harry se virou para o amigo, ponderando a questão. Antes que pudesse falar qualquer coisa, a porta do quarto se abriu e o rosto sorridente da Sra. Weasley apareceu na porta.

- Sirius já foi embora, Harry, querido. – ela disse, parecendo um pouco intrigada. – Eu não o chamei para se despedir dele porque ele mesmo disse que não precisava, espero que não se importe.

Harry fez um gesto negligente, sorrindo fracamente para ela, murmurando que não se importava.

- As suas coisas estão lá embaixo, querido. – ela se virou para Rony. – Depois você desce com ele para trazê-las para cá, filho? E, ah, daqui a pouco eu venho chamá-los para jantar. – ela completou, sorrindo para Harry e fechando a porta.

- Então? – Harry se virou para Rony, que o observava com atenção. – Você e Sirius nem se despediram, vai continuar negando que tenha acontecido alguma coisa?

Harry suspirou profundamente, desistindo de argumentar, sentando-se na cama de Rony com desânimo.

- O.k., Rony... aconteceu sim alguma coisa.

- Ah-há! – o amigo estalou os dedos. – Eu sabia! Vocês brigaram, foi? – ele perguntou, num tom mais sério.

Harry balançou a cabeça de um lado para outro, pensando no quanto deveria contar para Rony.

- Mais ou menos...

O amigo ergueu as sobrancelhas, incentivando Harry a continuar. O rapaz fitou Rony por alguns instantes, ponderando se deveria contar a ele sobre sua visita à Rua dos Alfeneiros. Demorou para se decidir, mas acabou por contar. Aquilo estava sufocando-o, precisava falar para alguém. Era capaz de explodir se continuasse guardando tudo aquilo somente para si. Apenas tomou cuidado para não revelar nada comprometedor sobre sua relação consangüínea com Voldemort, nem mencionar nada que se relacionasse a ele. Rony parecia mais pasmo a cada minuto. Harry acharia engraçada a careta abobada que o amigo fazia se não estivesse angustiado

- Eu não acredito, Harry! – ele exclamou quando o amigo terminou de falar. – Realmente, tem que ter estômago para voltar num lugar desses... Eu não sei se voltaria, não...

Harry deu de ombros, suspirando.

- Garanto a você que não foi fácil.

- Eu me assustaria se você dissesse que tinha sido. – Rony comentou. – Mas e aí, e o seu primo? Como ele te tratou?

Harry pensou por alguns instantes.

- No começo, com indiferença. Depois... com raiva.

- Por quê?

Harry explicou que Duda o tinha culpado pela morte dos Dursleys. Rony ficou indignado.

- Que babaca! – exclamou. – Não tem nada a ver!

Harry não respondeu. Passou pela sua cabeça que sim, tinha muito a ver. Rony pareceu, de um jeito estranho, notar isso.

- Harry, você não pode ficar achando que tudo que acontece no mundo é por sua causa, cara! – ele disse com uma maturidade que não lhe era comum. Harry o fitou com espanto. – É sério, o mundo não gira ao redor do seu umbigo!

O rapaz bufou, jogando uma almofada em Rony, que a apanhou num reflexo.

- Eu não tô dizendo isso, droga!

- Não, mas tá pensando. – Rony jogou a almofada de volta. Harry a apanhou no ar, deitando a cabeça nela. Rony tinha as sobrancelhas erguidas para ele.

- Fala a verdade, Rony... Eles não teriam morrido se não fossem meus tios.

- Você tem lido o Profeta Diário? - Rony perguntou bruscamente.

- Não, por quê?

- Então não está vendo que um monte de trouxas morrem quase todos os dias por causa da guerra, e duvido que algum deles te conheça. – Rony ponderou. – Nós estamos em guerra, Harry. Meus pais vivem dizendo que também era assim antes, da outra vez... Desde que eu era criança, eles contavam como era quando Você-Sabe-Quem estava no poder, e como as pessoas viviam apavoradas, com medo de morrer... E é a mesma coisa agora, não é? Quer dizer, a gente passa a maior parte do tempo em Hogwarts, e lá a gente tem a sensação de que tudo está bem, mas não está... As pessoas aqui fora estão morrendo, Harry, e não é culpa sua. É culpa de Você-Sabe-Quem.

Houve um silêncio significativo após as palavras de Rony. Harry não sabia o que dizer, porém, sem que ele permitisse, aquele peso no seu peito foi diminuindo devagar. Ele ergueu os olhos e percebeu que Rony o fitava com uma daquelas suas caretas engraçadas. Harry sorriu.

- Acho que a Mione está sendo uma má influência pra você, Rony... – ele zombou.

- Deus me livre! – o amigo exclamou com um arrepio exagerado, batendo três vezes na madeira. – Isola, isola!

- Daqui a pouco você está por aí, lendo aqueles livrões...

- Credo, Harry, pára de rogar praga!

Harry não pôde deixar de rir. O peso em seu peito foi sumindo, sem que ele se desse conta disso.

- Mas... o problema, Rony... – ele argumentou, hesitante. – ...é que, quando eu soube dos meus tios... eu não... bem, eu não... "senti muito", entende?

Ele nem acreditava que tivesse dito aquilo em voz alta. Ficou encarando Rony, esperando ansiosamente sua resposta.

- Eu ficaria surpreso se sentisse. – o amigo falou com simplicidade. – Harry, os caras te trataram mal uma vida inteira, eu também não lamentaria a morte deles se fosse você.

Harry o fitou de volta, chocado com a resposta. Rony arregalou os olhos, defendendo-se.

- Olha, eu não quis dizer que desejaria isso pra eles... quer dizer, não se deseja isso pra ninguém, não é? – ele parecia muito sem graça. – Mas... bem, se fosse comigo, eu não "choraria" a morte deles, entendeu? Não tem sentido "sentir muito" por pessoas que nem se importavam com você...

Harry não respondeu. Bem, era um consolo saber que não era o único que se sentia daquela maneira. Mas Rony sabia apenas parte da história; no ponto de vista de Harry, a coisa toda era muito mais apavorante – havia o agravante de seu parentesco com Voldemort para complicar as coisas. Qualquer mínima semelhança entre ele e o bruxo era aterrorizante. Harry pensou nas coisas que dissera para Duda, mas rapidamente tentou afastá-las do pensamento. Foi um alívio quando Rony mudou de assunto:

- Mas e o Sirius? Eu ainda não entendi porque vocês brigaram... você contou essas coisas para ele, foi?

- Não, não. – Harry negou categoricamente. – Ele ficou nervoso comigo porque... porque eu cheguei muito tarde em casa, e nem avisei nada, foi isso.

Harry preferiu omitir a carta de Katherine. Sabia que, como Sirius, Rony também teria um ataque histérico se soubesse sobre Harry e a garota. Mesmo que não existisse nada entre os dois. Até o momento.

Ele teve vontade de se bater depois disso. Não existia nada, e nem existiria. Nem dali a dez dias ou dez anos. Era um pensamento ridículo e, mesmo que Sirius duvidasse, Harry tiraria aquela garota de sua cabeça.

Quando Harry voltou à realidade, já tinha perdido muito do que Rony tinha dito:

- ...ah, mas isso é besteira. – ele dizia, fazendo pouco caso. – Vocês vão se entender... Sem bem que... – Rony parecia pensar se deveria dizer o que estava pensando. – Bem, eu não entendi por que você veio para cá depois de brigarem... Há uma relação entre as duas coisas?

Isso era uma coisa que Harry também não entendia.

- Eu não sei... – ele disse com sinceridade. – Sirius disse que tinha que resolver uns assuntos pessoais, e que não estaria mais em casa, então eu não poderia ficar mais lá.

Rony deu de ombros.

- Vai ver era isso mesmo, e só foi uma coincidência acontecer ao mesmo tempo. – ele arriscou, mas Harry não estava muito crente nessa teoria. Rony, porém, levantou-se num salto. – E essa caixa que você falou que foi buscar? O que tem dentro dela?

Harry foi pego de surpresa pela pergunta.

- Ah, eu ainda nem abri...

- Como, não? - Rony se espantou. – Pensei que tivesse sido a primeira coisa que tivesse feito!

Harry não disse nada. Rony parecia impaciente.

- Você nem vai tentar abrir? – ele insistiu. Foi aí que Harry notou o que estava acontecendo.

- Você está curioso para saber o que tem na caixa?

- E você, não? – Rony arregalou os olhos, sem nenhuma vergonha. – Quer dizer, bem... você não precisa me mostrar se for algo muito... pessoal.

Harry se sentou na cama depressa, encarando o amigo por alguns minutos, pensativo.

- O.k., vamos abri-la.

Eles desceram as escadas em seguida; encontraram Fred e Jorge chegando da loja de logros, e a Sra. Weasley gritou da cozinha que o jantar estava quase pronto. Rony contou que estavam em casa só ele, os pais, os gêmeos e Gina, pois Percy tinha resolvido alugar um apartamento em Londres – sob protestos da mãe – para se sentir mais "independente". Os dois apanharam as coisas de Harry e subiram com elas para o quarto de Rony, fechando a porta. Rony parecia mais ansioso que Harry quando este apanhou a velha caixa de dentro do malão (o rapaz tomou cuidado para que o amigo não visse o envelope pardo da carta de Katherine, que estava junto com a caixa).

Harry se sentou na cama de Rony, apoiando a caixa no colo. Ficou olhando para ela, pensativo, enquanto o amigo sentava-se ao seu lado. Harry não sabia por quê, mas estava com um certo receio de revelar o conteúdo daquela caixa. Eram coisas da sua mãe e, apesar de sempre ter tido vontade de saber mais sobre os pais e seu passado, ele, naquele momento, estava apreensivo. Depois de tudo que acontecera no n.º 4 da Rua dos Alfeneiros, Harry não se sentia confiante em cutucar a ferida. Isso porque sabia que, mexendo nas coisas de sua mãe, talvez remexesse, por conseqüência, na história de sua avó Arabella e de... Voldemort. E ele não sabia se estava preparado para isso.

- Você não vai abrir? – Rony perguntou.

- Pára de me pressionar, que saco! – Harry retrucou, aborrecido. Rony se calou, dando de ombros.

O rapaz fitou a caixa por mais um instante, então se lembrou que não tinha a chave do trinco.

- Que foi? – veio a pergunta de Rony.

- Não tem chave...

- Harry, você é um bruxo ou o quê?

Harry o mandou para o inferno, bufando. Sacou a varinha e apontou para o trinco, murmurando "Alorromora". Nada aconteceu. Rony fez cara de intrigado, quando os dois amigos se entreolharam.

- Deixa eu tentar. – ele pediu, e Harry passou a caixa a ele. Rony puxou a própria varinha e repetiu o feitiço e, mais uma vez, não houve resposta alguma. – Que estranho... – Rony devolveu o objeto a Harry. – O seu primo não te deu uma chave ou qualquer outra instrução de como abri-la?

Harry apenas balançou a cabeça negativamente, agora também intrigado. Se um Alorromora não abria a caixa, o que poderia abri-la? No entanto, os seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por batidas fortes e insistentes na porta.

- Entra logo! – Rony exclamou.

Para desgosto de Harry, era Gina. Ela nem olhou para ele, dirigindo-se ao irmão.

- Mamãe está chamando para jantar. – e bateu a porta, sobressaltando os garotos. Rony revirou os olhos.

- Essa garota tá um pesadelo! Até parece outra pessoa!

Harry não se importou com Gina; estava mais preocupado em descobrir um meio de abrir aquela bendita caixa.

 

*******

 

Os dias transcorreram como de costume na Toca. Harry não mais mexeu na tal caixa – mesmo que ficasse pensando em meios de abri-la – , nem Rony mencionou-a mais. Os dois passavam os dias se divertindo jogando xadrez de bruxo ou treinando quadribol. Pouco mexeram na montanha de deveres que tinham de Hogwarts para fazer (Hermione mencionava-os nas cartas que mandava, tanto para Harry, quanto para Rony, e só então é que batia uma pontinha de remorso). No final das contas, Harry estava gostando muito de passar o resto das férias na casa dos Weasleys, mas isso não queria dizer que estava menos aborrecido com Sirius.

Fred e Jorge apareciam só de noite, e era então que paravam para conversar com Rony e Harry. Eles contaram ao rapaz que estavam indo muito bem com a loja e fizeram questão de ceder "como cortesia da casa" alguns artefatos das "Gemialidades" como agradecimento, pois "se não fosse pelo Harry aqui, nós não teríamos nem um galeão furado para começar o negócio".

Gina estava cada vez mais mal humorada; reclamava por qualquer coisa, e ela e Harry viviam discutindo quando se encontravam. O rapaz preferia evitá-la se pudesse. Às vezes, porém, era impossível, e os atritos tornavam-se inevitáveis. Rony também estava bastante aborrecido com a irmã, e contou a Harry que, de uns tempos para cá, ela andava muito "chata e irritante", sem motivo algum. Ele dissera que Gina tinha ido muito bem nos N.O.M.s, os quais tinha feito atrasados por causa de sua internação no St. Mungus no ano anterior, e que, no início, pensava que fosse a pressão desses exames fora de hora que a tinham deixado irritada. Sem querer, Rony deixou escapar que achava que todo esse estresse era culpa do "idiota do novo namorado de Gina".

- O quê, ela está namorando? – Harry perguntou de supetão, distraindo-se do seu trabalho, o que resultou numa mordida feroz de um gnomo (eles estavam desgonomizando o jardim). – AI! Filho da mãe!

Rony pareceu muito sem graça por ter deixado escapar a informação.

- Bem... está sim...

- Quem? – Harry retrucou depressa, arremessando o gnomo a uns oito metros.

- Hum... – Rony fez uma careta emburrada, jogando seu gnomo bem mais longe do que o de Harry. – Aquele carinha lá... o artilheiro do nosso time... o tal de Cavendish.

- Aquele idiota?

- É, eu disse que ele era um idiota, não disse?

Harry não respondeu. Ficou pensando no que estava sentindo após ouvir aquilo. Não que estivesse com ciúmes de Gina – problema dela se escolhia tão mal seus namorados – , mas o fato é que nenhum cara leva numa boa ser trocado por um outro que seja pior do que ele. Sim, porque Harry poderia ser várias coisas, mas se achava melhor do que Cavendish sem risco de ser presunçoso. Não era grande coisa ser melhor do que aquele carinha, afinal, ele não passava de uma chato, implicante e sempre andava com aquela cara amarrada, como se fosse incapaz de sorrir ou ser agradável. Sério, como alguém poderia ter a estômago a ponto de namorar um cara desses? Não, Harry definitivamente não estava com ciúmes. Ele estava mesmo era indignado com aquilo. Era revoltante ser substituído por um ser humano daquela categoria. Se é aquilo poderia ser chamado de "ser humano".

Rony tomou cuidado para não comentar mais o assunto com Harry, o que o rapaz achou totalmente desnecessário, já que não estava nem aí pra isso. Não mesmo. De qualquer maneira, não era um assunto agradável, então era mesmo melhor não comentá-lo.

O Natal na casa dos Weasleys era exatamente como os outros dias – uma bagunça generalizada. Mas era uma bagunça feliz, o que deixou Harry muito contente. A Sra. Weasley preparou uma variedade enorme de comidas, e Percy apareceu para passar a noite. No manhã de Natal, Harry acordou mais cedo do que gostaria com bicadas na palma da mão.

- Pára, Edwiges... agora não... – ele resmungou sonolento, porém a coruja não parou de cutucá-lo. Para completar, agora que estava acordado, não conseguia mais ignorar a claridade ofuscante que atingia seus olhos através das pálpebras cerradas. – Ai, o que é que foi?

Harry se sentou lentamente, fitando aborrecido a coruja à sua frente; como ela estava um pouco embaçada, ele se deu por vencido e apanhou os óculos na mesa de cabeceira. Rony, na cama ao lado, virou-se para o outro lado, puxando as cobertas, respirando calmamente durante o sono. Edwiges fitava o dono de volta com aquele seu característico olhar de censura, piando indignada, indicando com a pata algo mais além. Harry logo identificou o motivo de aborrecimento da coruja.

Pichitinho tinha se instalado em sua gaiola e estava devorando todo o pedaço de bolo de frutas que Harry tinha colocado para Edwiges – isso porque Pichi já tinha comido o pedaço que Rony tinha deixado para ela também. Harry se virou para sua coruja com um olhar condescendente.

- Não acredito que você me acordou por causa disso...

Após um pio cheio de dignidade por parte da coruja, Harry praticamente se arrastou com preguiça da cama, levantando-se, e foi atender ao pedido de Edwiges. Tirou Pichi da gaiola e transportou-a até sua própria gaiola, limpou a sujeira depois da "festa" da corujinha, desceu e apanhou outro pedaço de bolo de frutas para Edwiges, que lhe retribuiu com bicadinhas de agradecimento nas orelhas. Parecia que todos estavam dormindo na casa; quando Harry voltou ao quarto, Rony estava com as cobertas até o nariz, ainda adormecido.

Harry até que tentou dormir novamente, mas não conseguiu, então resolveu se distrair abrindo seus presentes. Havia lembranças e cartões de Hermione, Rony, Hagrid, da Sra. Weasley, de Agatha (um desenho dos dois, como bonequinhos de palitinhos, e uma mensagem infantil com a letra da Sra. Prescott) e de Sirius – que se desculpou por não poder estar com Harry no Natal, em uma longa carta que Harry leu muito por cima. O rapaz procurou por mais alguma coisa, mas não havia mais presentes de ninguém.

"O.k., eu já deveria esperar por essa de você.", ele pensou quase rindo, e então apanhou um embrulhinho que tinha comprado há alguns dias em segredo; junto com ele, havia um cartão ainda em branco. Sorriu olhando aquilo por alguns instantes, até resolver finalmente o que fazer.

Silenciosamente, apanhou pena e tinta e começou a rabiscar algumas palavras no papel; era para serem poucas, mas Harry se estendeu por várias linhas, e quase que o cartão ficou pequeno para tudo que o rapaz resolveu dizer. Releu-o; não havia nada comprometedor ali, apenas algumas poucas bobagens. Teve vontade de rir de si mesmo. Estava sendo patético.

- Edwiges... – ele cutucou a coruja, que saboreava ainda o bolo de frutas. – O.k., eu te dou casa, comida e gaiola lavada, agora é hora de você trabalhar pra mim. – a coruja piou disposta, saindo da gaiola e pousando no parapeito da janela, onde esticou a pata para Harry prender o pequeno pacote, escutando atenta as instruções do dono. – ...entendeu direitinho? O.k., o destino é Hogwarts, você sabe de cor o caminho...

Harry sorriu sem perceber, observando a coruja branca se perder no céu nebuloso, imaginando o que a pessoa diria ao receber aquilo. Provavelmente, teria a mesma surpresa que o rapaz teve quando abriu o seu presente. Mas ele nem teve tempo de pensar muito, pois uma voz atrás de si o sobressaltou:

- Pra quem é a entrega, hein? – Rony perguntou com curiosidade; quando Harry se virou, reparou que o amigo, sorridente, estava na cama ainda, rodeado de pacotes que arrebatara do chão, os cabelos quase tão despenteados quanto os de Harry normalmente. – Pra Hogwarts, é?

- Ei, e isso é da sua conta, huh? – Harry retrucou esquivo, cruzando os braços enquanto observava o amigo desembrulhar seus pacotes. – Ah, e Feliz Natal pra você também, viu?

Rony revirou os olhos, rindo.

- Tá, tá... Feliz Natal, Harry... – ele arrancou um papel de presente, fez uma bolinha com ele e jogou-o para o lado. – Mas não foge do assunto, não!

Harry pigarreou, remexendo-se desconfortável.

- Não era nada de mais.

Rony se desinteressou de mais um suéter tricotado por sua mãe e, aparentemente, achou bem mais atrativo perturbar o amigo, arregalando os olhos para ele com um sorriso significativo.

- É pra uma garota, é?

A simples pergunta foi o suficiente para Harry se atrapalhar todo. Foi como se ele tivesse acabado de receber um balde d’água na cabeça; o rapaz se remexeu por inteiro, com um arrepio, e acabou esbarrando o cotovelo na gaiola de Edwiges, que por pouco não atingiu o chão. Rony apenas observou a cena com uma sobrancelha erguida e um sorriso enorme no rosto.

- Ah, que besteira, Rony... é claro que... não era, não. – Harry respondeu sem graça. – Ei, por que você está rindo?

- Ainh, nada, não... – o amigo ainda sorria. – Pra quem era, então?

- Era pra... hum... – Harry engoliu em seco sob o olhar penetrante de Rony. – Para o Hagrid... claro!

- Hagrid? Hum... tá.

- É, sim... – Harry preferiu não fitar Rony e resolveu recolher seus presentes e cartões, que ainda estavam espalhados. – Eu tinha esquecido de mandar o cartão dele.

- Ham-ham. – o amigo fez com desdém. – E ela é bonita, é? Eu conheço?

Harry soltou um urro de irritação.

- Rony, de onde você tirou essa idéia? Pelo amor de Deus, não tem nada acontecendo!

- Pelo menos diz de que Casa ela é, vai? Porque ela é de Hogwarts, não? – ele insistiu. – Diz, vai, Harry!

- Eu vou te dar um soco se continuar a insistir nisso! – Harry retrucou aborrecido, terminando de trocar o pijama por jeans, camiseta e casaco, virando-se emburrado para o amigo, que ainda sorria. – Não existe nenhuma garota, entendeu? Não estou com paciência para garota alguma nesse momento!

Rony disse algo parecido com "um cara sempre arruma paciência para uma garota", mas quando Harry o fitou, o amigo assentiu em concordância, mesmo que seu sorriso dissesse o contrário. Harry preferiu não discutir e murmurou qualquer coisa sobre descer para o café da manhã. Porém, antes que conseguisse atravessar a porta, ouviu a voz do amigo:

- Ela é do nosso ano, Harry?

O rapaz bateu a porta atrás de si, sem responder. Encontrou Fred e Jorge subindo as escadas, e desejou-os Feliz Natal.

- Pra você também, Harryzinho... – Fred disse travesso, ao que Harry retribuiu revirando os olhos para o teto. – Ei, você vai descer para o café?

- Eu ia, por quê?

- Melhor dar um tempo. – Jorge recomendou sigilosamente, enquanto Fred soltava um barulhinho de desdém. – Nossos pais estão tendo uma conversa com o Percy Perfeito...

- Sobre o apartamento e tal... – Fred explicou. – Estão tentando fazer com que algo entre naquela cabecinha, mas de quê adianta? Percy tem bosta de dragão em vez de miolos...

Harry não sabia se ria ou não. Preferiu um meio termo e engasgou. Jorge colocou o ouvido na porta do quarto de Rony.

- O Roniquinho tá aí?

- Está sim, por quê?

Os dois trocaram olhares marotos.

- Aposto que abrindo o presente da namoradinha... – Fred zombou. – Que tal uma seção de diversão com nosso maninho querido, Jorge?

- Com prazer! – o outro respondeu com uma piscadela, fazendo sinal de positivo. – Quer participar, Harry?

- Talvez mais tarde. – o rapaz disse, saindo depressa dali; era capaz que Rony transferisse a atenção dos gêmeos para ele, contando sobre as suas suspeitas a respeito de uma certa garota, e Harry queria estar a milhas dali se os gêmeos desconfiassem de algo do tipo.

Ele desceu as escadas, intrigado, pensando se Rony realmente estaria desconfiado de alguma coisa. No entanto, descartou depressa a possibilidade. Não tinha como alguém saber aquilo. Afinal, nem tinha coisa alguma acontecendo de qualquer maneira. Rony só deveria estar zombando dele, isso sim, mas era impossível que desconfiasse, ou teria um ataque histérico assim como Sirius. O amigo também achava que sonserinos eram como germes ou coisa parecida. Aliás, qualquer pessoa com juízo pensava desse jeito. Só Harry mesmo, que estava se descobrindo um perfeito desequilibrado para cogitar pensar o contrário.

O rapaz passou depressa pela sala, ouvindo vozes ligeiramente alteradas na cozinha, e se precipitou o mais rápido que pôde para o jardim. Estava uma manhã gélida de dezembro, e havia neve sobre a grama congelada, o que dificultava um pouco a caminhada. Batia uma brisa fria, e Harry desejou ter-se agasalhado melhor antes de sair do quarto de Rony. Ele se sentou em um toco de madeira, apertando mais o casaco ao redor do corpo, tentando se esquentar; nuvens de vapor saiam de sua boca, e ele passou algum tempo observando-as, apenas pensando. Lembrou-se de uma pessoa e novamente sorriu, sem se dar conta disso.

- Hum, pensando em alguém?

Harry ergueu os olhos e sentiu um arrepio involuntário que não tinha nada a ver com o frio. Gina estava de pé, bem em frente a ele, segurando um pacotinho de alguma coisa na mão, do qual tirava alguns petiscos que mastigava sem parar; fitava-o calmamente, quase divertidamente. A garota estava com o cachecol vermelho e dourado da Grifinória ao redor do pescoço, contrastando com sua pele pálida de inverno; os cabelos vermelhos caíam soltos sobre o suéter tricotado pela Sra. Weasley. Ela usava uma saia amarela bem clara e uma meia-calça branca para se proteger do frio. Harry desviou os olhos, bufando de irritação.

- Estou pensando em como eu gostaria de estar sozinho nesse momento. – ele respondeu rudemente, preferindo observar as folhas secas das árvores se agitando com a brisa ao invés de fitar a garota, que tinha se sentado ao seu lado no toco de madeira. Harry podia sentir que ela o encarava.

Eles ficaram em silêncio por tanto tempo, que Harry quase esqueceria que Gina estava ali ao seu lado se não fosse pelo constante barulho de mastigação que vinha dela. Ele se virou irritado para a garota.

- Que foi? – ela perguntou distraída.

- Esse som. – ele resmungou, fitando-a aborrecido. Gina sorriu divertida, como se não percebesse que estava incomodando.

- Ah, isso? – a garota perguntou inocentemente, oferecendo para ele o pacotinho que trazia na mão. – Desculpe, esqueci de oferecer... Quer um pouco? Ainda não tomou café da manhã, não?

Harry abaixou os olhos para o pacote, avaliando-o. Sim, era verdade que ele ainda não tinha comido e estava realmente começando a ficar com fome, mas torceu o nariz ao verificar o conteúdo do pacote. Eram nozes.

- Não, obrigado. – ele resmungou novamente, desviando os olhos da garota, que apenas deu de ombros. Mais silêncio. – Escuta, Gina, você vai ficar aqui mesmo?

- E o que é que tem, ué?

Harry bufou.

- Imagina... – ele disse sarcástico. – Não tem nada mesmo, não é?

- Exatamente. – ela retrucou imperturbável, ainda mastigando suas nozes, como um esquilinho esfomeado. – Eu estou na minha casa, afinal. Que problema teria em eu estar em qualquer parte dela, não?

Harry fechou os olhos, respirando fundo. O.k., ele só precisava ficar calmo, muito calmo. Ele conseguiria se tivesse força de vontade. Isso, tudo o que precisava era se concentrar. Quem sabe pensar em outra coisa?

Não dava. A raiva o consumia. E aquele som irritante de mastigação estava a um passo de matá-lo. Era quase tão irritante quanto uma torneira pingando no meio da noite. Era torturante.

- O que você quer, hein, Gina?

- Eu?! – ela parou de mastigar, virando-se para ele, quase ofendida. – Eu estou quietinha aqui, Harry.

- Não, é claro, sou eu que estou implicando com você, não?

- É, você disse tudo. Você está implicando comigo.

Harry revirou os olhos, respirando muito fundo.

- O.k., então vou parar de te perturbar, tá bom assim, Gina? – ele retrucou com sarcasmo, levantando-se. – Você conseguiu. Estou indo embora agora.

Mas Harry não conseguiu dar nem um passo.

- Você ainda está sozinho, não é?

Ele se virou. Gina o fitava com um sorriso travesso no rosto, os olhos brilhando no rosto pálido de frio, os cabelos se agitando com o vento gelado. Harry bufou, enfiando as mãos nos bolsos.

- Isso te interessa?

Ela riu, irritando-o ainda mais.

- Então você está mesmo sozinho.

Harry sentiu o sangue subir. Aquela garota não ia ficar rindo às custas dele desse jeito, não. Ah, não ia mesmo!

- E se eu não estiver?

Ela parou de rir instantaneamente. Então estreitou os olhos para ele, como se o estudasse.

- Você não está com ninguém. Não adianta mentir, Harry.

- Isso é o que você pensa. – ele retrucou. – Eu posso muito bem estar com alguém, e ninguém saber disso...

Gina pareceu pensar.

- Quem, então?

- Isso realmente não é da sua conta.

- Se você não me contar, Harry, eu vou ficar pensando que você realmente está mentindo...

- Não me importa o que você pensa ou deixa de pensar... Tenho coisas mais importantes com as quais me preocupar do que com o que se passa na sua cabecinha.

- Aposto que eu sou bem melhor do que ela. – Gina arriscou, sorrindo presunçosa.

- Eu considero um insulto a ela compará-la a você. – Harry retrucou azedo.

- Uhhh, que medo! – a garota riu. – Ela deve ser mesmo maravilhosa... essa sua garota imaginária.

Harry teve vontade de dizer algumas palavras bem pouco educadas para Gina, porém, a custo, se conteve. Não podia perder a razão com ela; como ela mesma fizera questão de frisar, Harry estava na casa dela.

- Bem, eu iria preferir estar sozinho a me envolver com o tipo de pessoa que você está se envolvendo... – ele disse venenoso. Gina estreitou mais os olhos, bufando devagar, com um gato pronto a desferir o ataque.

- Então você já sabe? – o sorriso dela aumentou. – É claro, Rony deve ter contado a você... Mas, sabe, eu não pensei que fosse ficar assim com tanto ciúme, Harry...

- Quê?! – o rapaz retrucou incrédulo. – Ciúmes? Ciúmes de quem, de você, Gina? Ora, faça-me o favor...

- Diga que não está. – ela desafiou.

Por um momento, os dois permaneceram em silêncio, apenas se entreolhando, como numa competição para ver quem pisca primeiro. Então, lentamente, Harry voltou para perto dela, sentando-se ao seu lado no toco da árvore, sem deixar de fitá-la; Gina também não desgrudou os olhos dele por um único instante.

- Nós não estamos juntos só porque eu não quero, Gina. – ele sussurrou. – Portanto, você não está em condições de se sentir tão desejada assim.

- Deixe-me refrescar sua memória, Harry. – Gina respondeu depressa, sorrindo. – Fui eu quem pôs fim ao nosso relacionamento.

- Mas você quis voltar, ou já se esqueceu disso também? – o rapaz não deu tempo para que ela continuasse. – E eu não quis... Sabe, Gina, eu acho que, mesmo que você esteja com esse carinha, nós voltaríamos assim... – ele estalou os dedos na frente dos olhos dela, fazendo-se de canalha de propósito, somente para irritá-la e provocá-la. – Bastaria que eu desejasse...

Por um momento, ele viu em seus olhos que ela realmente estava ofendida, e então Harry sentiu uma satisfação selvagem. Era o troco por ela provocá-lo, humilhá-lo e tratá-lo daquela maneira, como se ele fosse um brinquedo ou coisa parecida. Naquele instante, quem estava por baixo ali era ela, e por causa dele.

Gina o fitou com raiva por um momento, seus olhos faiscando. Ela mordeu o lábio inferior, pensativa, seus olhos grudados nos de Harry. Então, subitamente, ela sorriu. Um sorriso que não alcançava os olhos.

- Você acha mesmo que tem esse poder, Harry?

Ele sorriu também. Era como um jogo, e ele não queria perder. Gina queria que ele fosse um cafajeste, não era? Ele tinha sido muito legal até agora, paciente até demais. Pois então, se ela queria um canalha, era o que teria. Harry não queria ser bonzinho, aliás, ele não era bonzinho. Até aquele momento, ela o tinha feito de bobo, e a última coisa no mundo que Harry queria ser era um idiota. E Gina não o faria nunca mais de idiota.

- Eu acho, Gina. – ele disse calmamente. – Aliás, eu tenho certeza disso.

- Pois então, prove.

Harry estreitou os olhos, alargando o sorriso. E, então, antes que se desse conta do que estava fazendo, e muito antes que Gina percebesse o que ele estava prestes a fazer, o rapaz se adiantou e, furiosamente, beijou-a.

Ele percebeu logo de cara que aquilo era a última coisa que Gina poderia esperar, pois ela levou um susto tão grande, que ele sentiu o corpo dela se sobressaltar assim que Harry encostou seus lábios nos dela. Um arrepio a percorreu, Harry também pôde sentir, e ela tentou se afastar, mas ele a segurou com força, puxando-a pela cintura e impedindo-a de se soltar. Ela puxou-o pelo colarinho do casaco, primeiro como se quisesse sufocá-lo, em seguida como se o puxasse para perto de si. Os dedos gelados da garota se enroscaram no pescoço quente de Harry, aproximando-o pela nuca, desejando tornar ainda mais intenso o beijo. Harry correspondeu.

Foi um sentimento muito estranho. Havia mágoa e ressentimento, mas havia também um quê de saudade e nostalgia, como se ele estivesse beijando aquela antiga Gina e não essa garota rude e grosseira de hoje. Por um instante, Harry também se sentiu como antes, não como esse cara amargo e ressentido, mas aquele antigo Harry que achava que as coisas poderiam se resolver só porque eles estavam juntos. Tudo estava misturado e confuso.

Eles trocavam carícias cada vez mais profundas; o beijo era forte, intenso, e Harry estava quase ficando sem ar, mas havia algo faltando. Era como um vazio, um espaço em branco, que Gina não conseguia preencher. Era como uma música sendo composta, quando ainda existem várias notas faltando, de modo que a melodia parecia pobre e sem valor. Ou como um livro sendo escrito, e nas frases faltavam palavras, havia lacunas, e a mensagem não podia ser transmitida, a história terminava sem sentido, sem emoção. Ou ainda um quadro... no qual a tinta estava borrada e faltavam cores, as mais importantes, e no final a pintura era vazia... não havia sentimento...

A imagem de outra pessoa invadiu os pensamentos de Harry subitamente.

Ele se afastou depressa, como que contaminado, como se tivesse acabado de fazer algo horroroso. Havia um sentimento de repulsa dentro dele, um embaraço pela sua atitude e, num primeiro momento, ele não conseguiu fitar Gina, como se temesse ver ali outra pessoa. Harry se sentiu horrível; não pelo que tinha acabado de fazer com a garota à sua frente, mas pelo que tinha acabado de fazer a si mesmo. Era uma sensação estranha. Parecia que tinha traído a si próprio. Aquele beijo... não condizia com o que ele sentia. Não transmitia o que se passava de verdade dentro dele.

Harry ergueu os olhos para Gina lentamente. Ela também parecia chocada, quase horrorizada, e fitava-o de volta, como se não acreditasse no que tinha acontecido. Por um segundo, Harry quase pôde enxergar, bem no fundo dos olhos dela, aquele olhar antigo, daquela menina que ele conhecera. Aquele olhar de surpresa que ela tivera no primeiro beijo dos dois. Mas foi por um único segundo e deveria ter sido apenas a imaginação de Harry, pois no segundo seguinte, a garota assumiu um olhar frio e duro.

- O quê... o que você pensa que está fazendo? Você é um débil ou o quê?

E, então, todo aquele sentimento de mágoa e raiva voltou com toda a força, como se nunca tivesse desaparecido. Aliás, nunca tinha desaparecido de verdade. Não existia outra Gina ali. Ela ainda tinha cometido todos aqueles erros com Harry. Tantos, que dava para preencher uma lista muito, muito comprida. Ela ainda o tinha abandonado sem explicação. Ela ainda o tinha tratado como um brinquedo quando quis voltar com ele. Ela ainda o tinha dito coisas horríveis, provocações sem sentido e, sim, ainda o tinha trocado por um idiota qualquer. Nada mudara, nem mudaria, só porque eles tinham se beijado depois de mais de um ano.

- Você acabou de trair seu namoradinho, Gina, como se sente? – ele perguntou com ironia e um sorriso vingativo, cheio de ressentimento, no rosto. – O que será que ele vai achar disso?

PLAFT.

Harry sentiu os dedos gelados da mão direita de Gina atingirem-no em cheio no rosto, com mais força do que ela talvez imaginasse que possuía. Seu rosto se virou para o lado o oposto com o impacto, e Harry, assim que Gina afastou sua mão, sentiu de imediato sua pele arder e pulsar com intensidade, como se estivesse queimando. Ele levou a mão esquerda à bochecha dolorida, virando-se lentamente para encarar a garota.

Gina estava ofegante, mas decidida. Sua mão permanecia no ar, ainda espalmada e avermelhada pelo impacto no rosto do garoto. Ela parecia simplesmente furiosa. Fitava Harry com uma raiva trasbordante. Ele achava bem merecido ela estar assim, só não achava justo o tapa que tinha levado. Quer dizer que ela lhe tratava como lixo por tanto tempo e, no único dia que ele veio com a desforra, recebia um tapa daqueles? Afinal, ela quase pediu para que ele fosse um canalha com ela. Sim, ele admitia que tinha sido um canalha, aliás, ele quis agir assim, mas porque ela merecia. Agora, ela vinha achando que tinha o direito de se sentir ofendida? Era demais!

- Você me deu um tapa? – ele disse num sussurro incrédulo, sua voz falha na garganta tamanha era sua raiva. Ainda segurava o rosto, a bochecha ardendo intensamente. – Você teve a cara de pau de me dar um tapa?

Gina, porém, não recuou após o sensível aumento no tom de voz mais grossa e rude dele. Ela parecia perigosa quando ameaçou:

- Não ouse dizer a ninguém o que aconteceu aqui! Ninguém, entendeu?

Por um momento, eles novamente se encararam. Então Harry caiu na gargalhada, deixando-a sem ação.

- Do quê você está rindo?

- Ora, Gina... – ele quase engasgou de tanto dar risada. – Você acha mesmo que eu sairia contando isso? Você pensou que eu iria contar isso ao idiota do seu namorado? – ele desdenhou com um bufo. – Eu não tenho tempo para perder contando a ele que beijei a namorada dele e senti gosto de nozes. Se ainda tivesse sido um beijo bom... Argh, odeio nozes.

O queixo de Gina caiu. Agora sim, ela realmente parecia perigosa.

- O que você está dizendo?

Harry ainda alisava a bochecha quente.

- Estou dizendo que senti gosto de nozes na sua boca. – ele respondeu distraído, sem se preocupar em olhá-la. – E eu detesto nozes. Elas me enjoam. Entendeu agora, ou vou ter que desenhar para que você entenda?

PLAFT. Gina acertou a outra bochecha de Harry.

- SEU IDIOTA! – ela gritou enfurecida, levantando-se. – Como pode dizer uma coisa dessas?

E saiu depressa, de nariz empinado, espumando de raiva, deixando um Harry embasbacado para trás.

Ele se sentou ereto no toco de madeira (o segundo tapa tinha sido ainda mais forte e o fizera tombar para o lado), agora alisando as duas bochechas quentes, doloridas e ardidas. Ou estava muito enganado, ou Gina deslocara alguns dentes naquela brincadeira. Abrindo e fechando a boca várias vezes, ele se deu conta de que estava realmente tudo no seu devido lugar.

- Ótimo! Realmente uma beleza! – ele exclamou sarcástico para o nada, bufando sozinho enquanto fitava o contorno de Gina, distante, entrando dentro de casa. – Virei um saco de pancadas. E ainda por cima de uma garota. Patético, Harry, você realmente é patético.

Ele ergueu os olhos, fitando o céu nublado por cima das copas das árvores secas pelo inverno. Tentou ordenar seus pensamentos, mas estava um pouquinho complicado no momento.

De uma coisa tinha certeza: não tinha sido nadinha agradável beijar Gina. Não apenas pela pancadaria pós-beijo. Fora muito mais pelo beijo em si, e estava sendo sincero consigo mesmo quando dizia isso. Tinha falado a verdade, realmente sentira gosto de nozes. E detestava nozes. E, quanto ao resto do que sentira...

Não tinha sido como das outras vezes em que a beijara. Não tinha sido verdadeiro. Fora uma provocação, sem desejo, carinho ou o mínimo de ternura. Fora vazio. E, para piorar, no final, Harry pensou em outra pessoa enquanto a beijava...

Sim, e Harry tinha a impressão de que estava mais irritado consigo mesmo por esse exato motivo. Não tinha nada que pensar nela, ainda mais naquele momento. Aliás, não tinha que pensar naquela garota em momento algum. Não era algo saudável para se pensar. Mas Harry tinha pensado e, agora, não conseguia parar de imaginar como teria sido se, ao invés de ter beijado Gina, tivesse beijado aquela garota...

Ele se levantou num salto, com uma idéia na cabeça, e caminhou depressa para dentro da casa. Ouviu vozes na cozinha, mas não seguiu para lá, mesmo que estivesse com fome. Subiu depressa as escadas, aliviado por não encontrar nenhum dos Weasleys pelo caminho. Passou pelo quarto de Gina sem nem ao menos desviar por um único segundo os olhos para sua porta, e disparou para o quarto de Rony, desejando que o amigo não estivesse mais lá.

Para sua felicidade, ele não estava, e então Harry pôde ficar à vontade, sozinho no cômodo. Os presentes do amigo ainda estavam espalhados sobre sua cama, e havia papel de embrulho jogado para tudo quanto era lado no lugar. Harry correu até seu malão, revirou-o por alguns instantes até encontrar o que ansiava: um envelope pardo com uma letra corrida de Katherine Willians.

Harry sorriu mais uma vez sem perceber, e sentou-se na cama, esticando as pernas preguiçosamente. Tirou de dentro do envelope duas folhas de pergaminho que ele já tinha olhado várias vezes desde que tivera coragem de ler aquela carta. Qual não tinha sido – ao mesmo tempo – seu contentamento e decepção no dia em que tinha resolvido abrir aquele envelope. Contentamento por todas as coisas que estavam escritas ali. Decepção porque não havia mais coisas escritas. Patético, sim, mas Harry não estava nem se importando com isso no momento.

Ele examinou o primeiro pergaminho. Não havia nada significativo escrito nele, apenas um desenho em preto-e-branco, retocado a carvão. Da primeira vez que o tocara, as pontas de seus dedos ansiosos e inexperientes enegreceram antes de perceber do que se tratava. Mas era mais do que um mero desenho, era quase uma pintura ou uma foto, de tão perfeito que estava. Parecia até real. Assombrado, Harry observou mais uma vez aquele retrato de si próprio; ele mesmo não se descreveria com tamanha fidelidade. Havia os cabelos rebeldes, negros, pintados a carvão com rabiscos imprecisos, imitando os próprios fios que espetavam para tudo quanto era lado no verdadeiro Harry; olhos claros, estreitos, fitando o observador profundamente, numa expressão pouco definida, quase misteriosa, como se o artista não conseguisse penetrar, ainda, no mais encoberto de suas emoções. Cobrindo os olhos, um par de lentes redondas e muito pretas, os óculos de Harry. Os lábios revelavam um sorriso enigmático. Na testa, a famosa cicatriz, fielmente reproduzida, em forma de raio.

O desenho retratava-o apenas do tronco para cima, com as roupas de Hogwarts. No canto inferior direito da folha, próxima ao leão da Grifinória, reproduzido nas vestes que Harry usava no desenho, estava a pequena assinatura de Katherine, com a data em que finalizara o trabalho, em meados do final de dezembro. No verso do pergaminho, um pequeno e rápido P.S.:

Se desejar, utilize o feitiço "Mobilius", e o desenho se movimentará, como as fotos dos bruxos. "Imobilius" o paralisará novamente.

Harry já tinha utilizado o feitiço da primeira vez que vira o desenho, mas o tinha achado tão real, que preferia deixá-lo imobilizado na maior parte do tempo. Além disso, o seu eu em carvão não fazia nada emocionante quando se movimentava; apenas sorria, encostava na margem da folha ou, o que acontecia com maior freqüência, ficava entediado e começava a bocejar. Harry tinha apreciado muito o desenho, mas ia se lembrar de pedir a Katherine que o desenhasse acompanhado – talvez por ela – e aí sim as coisas ficariam mais interessantes. Tolice. Ele riu de sua própria estupidez, dobrando o pergaminho novamente.

O segundo pergaminho era a carta de Katherine, mais extensa do que esperava, e mais curta do que desejava. Harry se recriminava ao pensar assim, mas simplesmente não podia deixar de pensar dessa maneira. Apenas se apanhava sorrindo e pensando. E então repetia para si mesmo que estava agindo como um verdadeiro palerma.

Harry "pentelho",

O.k., eu sei que você deve estar dizendo agora "eu não sou pentelho, você é que é uma pentelha" e blá, blá, blá... Mas como eu não estou aí para ouvir a sua falação eterna, não estou nem me importando para o que você está dizendo, então me xingue à vontade. (longa pausa) Então, já me xingou de tudo o que queria? Ótimo, então posso começar a falar, ou melhor, escrever.

Bem, isso aqui está um tédio mortal, não tem ninguém para conversar (ou pentelhar, como eu faço com você) nesse castelo enorme e vazio, está um frio dos diabos, e eu tinha duas escolhas nessa tarde gelada e monótona. Um: me jogar da janela. Dois: escrever para você. Culpa sua se me deu a idéia de perturbá-lo com cartas. Agora vai ter que agüentar. Enfim, aqui estou entediada e lhe escrevendo.

Você deve estar se perguntando que raios de desenho é esse que eu lhe mandei. Efeito do tédio mais uma vez. Sem nada para fazer, resolvi desenhar alguma coisa, e você apareceu na folha. Não sei porque... Vai ver é porque você é um chato que não me deixa em paz nem quando está longe, mas enfim, tenho que aceitar esse fardo na minha vida que é você. O fato é que quando terminei o desenho, achei idiota ficar olhando para sua cara e resolvi mandá-lo para você. Nem sei se está muito parecido, fiz de cabeça, então desculpe-me os erros. Pensando melhor, dane-se os erros, se você quiser olhar para sua cara certinha, procure um espelho.

Ah, só para avisar: esse é seu presente de Natal. É, pois é, eu ando dura e sem um nuque furado no momento, então fica esse desenho mesmo como seu presente. E antes que você diga "mas ainda não é Natal", não desperdice sua saliva. Eu estou mandando a carta e o presente agora, porque é o meu momento de tédio, e eu lhe disse que só mandaria algo para você no meu momento de tédio. No Natal eu devo estar muito ocupada, comendo um banquete, rolando na neve ou até mesmo me jogando da janela. Ou talvez patinando no lago congelado, quem sabe, não é? Tantas coisas para se fazer nesse lugar...

Opa, acho que esqueci de perguntar se está tudo bem aí com você. Certo, eu sou uma garota MUITO educada e gentil (acesso súbito de tosse) e, então... está tudo bem aí com você? Espero que sim. Volte inteiro para o resto do semestre, se não eu fico sem parceiro e sem nota em Defesa Contra as Artes das Trevas, e isso não seria nada agradável.

Certo, vou parar de perturbá-lo. Aliás, nem sei se você teve paciência de ler tudo isso até o fim. Provavelmente amassou, fez uma bolinha e brincou de acertar a cabeça de alguém com ela, mas não posso dizer que isso não seja uma utilidade também. Se você leu até o final é porque está tão entediado quanto eu. Coitado de você, se esse for o caso.

Espero que essa coruja o encontre. Você não me disse direito pra onde ia, mas acho que todo mundo o conhece por aí, não é? Bem, se ela não o encontrar, dane-se também. Arre, eu estou de saco cheio hoje, mas acho que você provavelmente notou isso. O.k., o.k., estou me despedindo, vou procurar o que fazer além de perturbá-lo.

Feliz Natal (adiantado).

Até mais.

Katherine, a "pentelhinha"

- Hey, o que você está lendo aí?

- Nada importante. – Harry disse depressa, dobrando de qualquer jeito o pergaminho; porém, não foi rápido o bastante para dobrar, também, o desenho.

- Nossa, está igualzinho! – Rony exclamou com assombro, alternando o olhar do pergaminho para o amigo à sua frente, enquanto Harry torcia intimamente para que Rony não percebesse a rubrica de Katherine no canto da página e, se a notasse, não ligasse a assinatura à pessoa. – Quem desenhou isso?

- Anh... bem...

Harry engasgou. Não sabia o que dizer, não sabia nem ao menos que mentira inventar. Nada lhe vinha à cabeça além da verdade. Mas era impossível dizer a verdade a Rony, ao menos naquele momento. Ele não entenderia, assim como Sirius também não pudera compreender. Ninguém o faria, justamente por Harry ser o que mais se sentia confuso e perdido com toda essa história.

- Uma amiga... – ele disse por fim, tolamente, escolhendo revelar apenas parte da realidade. Não deixava de ser verdade, afinal, desde aquele dia que Harry consolara Katherine após a morte de sua avó – ou, talvez, antes disso, quando os dois visitaram juntos o cemitério de Hogwarts – eles selaram, inconsciente e silenciosamente, um irremediável laço de amizade. Não uma amizade como a que Harry tinha com Rony ou Hermione, mas uma ligação diferente, um relacionamento estranho e peculiar, porém com alguma força inexplicável que os unia.

- Amiga? – Rony repetiu a palavra em forma de pergunta, e Harry percebeu o leve tom malicioso de sua voz.

- Sim, uma amiga. – Harry retrucou, impaciente e esquivo, puxando rudemente o pergaminho das mãos distraídas de Rony. – O quê, eu não posso ter uma amiga que você ou Hermione não conheçam?

- Calma, calma... eu não quis ofender! – Rony se defendeu, mas não parecia magoado com o tom brusco e grosso do amigo. Pelo contrário, ele continuava a sorrir, como se aquilo fosse muito divertido. – Quer dizer que eu não estava enganado quanto àquele pacote que você despachou de manhã cedo?

Harry foi pego desprevenido. Estava tão atordoado, que até mesmo dizer seu nome completo seria uma tarefa complicada naquele momento.

- Como?

- Ora, não se faça de tonto, Harry! – Rony continuou, ainda sorrindo, o que só aumentava a irritação de Harry. – Eu lhe perguntei se havia uma garota, e agora você só está confirmando isso!

- Eu não disse que estou saindo uma garota, eu disse que tenho uma amiga! – o tom de voz de Harry se elevou sensivelmente. – Qual parte você não entendeu, Rony?

O amigo fez uma curiosa e cômica expressão de quem não era tolo o suficiente para cair naquela esparrela.

- Harry, não há nada errado em sair com uma garota! – Rony exclamou, quase rindo, fazendo Harry se sentir ainda mais desconfortável. – Por que você está tão empenhado em esconder isso?

Houve uma pausa longa entre os dois. Harry não sabia o que dizer. Como explicar a Rony algo que ele mesmo não conseguia entender? Como fazer o amigo enxergar que Harry estava enveredando por um caminho tão equivocado e arriscado e, ao mesmo tempo, tão certo e seguro?

Pensando bem, o próprio Harry não conseguia compreender como aquilo fora acontecer. Ou melhor, como permitira que acontecesse. Quer dizer, existia realmente uma explicação para tudo aquilo? A resposta era não. Porque não há motivo racional para se apaixonar. Simplesmente, apaixona-se. Não há como explicar, nem como entender.

- Nós não estamos juntos, Rony. – Harry admitiu finalmente, embora não olhasse nos olhos do amigo e tomasse cuidado para não revelar qualquer coisa que remotamente pudesse fazê-lo ligar a tal garota a Katherine. – Quer dizer... bem, eu não acho que ela pense em mim como outra coisa além de um... – ele pensou na carta dela, no desenho, e em como ela parecia decidida a mostrar a ele que não estava se importando de verdade. – ...um colega ou amigo. – finalizou, quase miserável.

Rony não estava mais sorrindo, tampouco encarando a situação como uma brincadeira. Parecia ter percebido que aquele era um assunto difícil para Harry, e resolvera conduzir a conversa com mais cuidado que no começo. Harry agradecia intimamente pela atitude do amigo. Rony às vezes poderia ter pouco – ou nenhum – tato, ou até mesmo ser inconveniente em alguns casos, mas quando percebia que o assunto tinha realmente se tornado sério, ele mudava de postura e tentava ajudar. Mesmo que, para ele, parecesse ser muito mais fácil lidar com os assuntos que não eram assim tão sérios.

- E não há chance alguma de que ela possa... vê-lo de outra maneira, ou...

- Eu não sei, Rony. – Harry confessou, chateado, pensando seriamente no assunto pela primeira vez desde que descobriu o que estava acontecendo. E era realmente uma coisa importante a se pensar. Harry não tinha a mínima idéia se Katherine o correspondia ou não. Provavelmente não, o que parecia ser uma visão bem pessimista, mas diante da confusão que tudo aquilo representava, Harry não tinha nem ao menos certeza se não pudesse ser melhor assim. Quem sabe, para ele, seria mais fácil esquecê-la – o que era o certo a se fazer –, se ela não lhe correspondesse. Por outro lado, se a situação fosse a contrária, as coisas não deixavam de ser complicadas, talvez até ficassem ainda mais difíceis. Parecia inconcebível imaginar um relacionamento entre os dois. Harry sinceramente nem queria imaginar – por mais que às vezes desejasse imaginar – como seria uma situação como essa. Teriam eles que se esconderem ou, quem sabe, enfrentar as pessoas? Um dia isso seria inevitável, obviamente, se a coisa se prolongasse. Sim, porque talvez não fosse nada sério, uma atração passageira, quem sabe? Poderia acabar inesperadamente, assim como começou. De qualquer maneira, Harry não via muita luz no final do túnel. Quase nenhuma, aliás. Não importava como o encarasse, o caminho parecia ser sempre escuro e turvo.

- Harry? – Rony estalava os dedos à frente dos olhos do amigo. – Tá me ouvindo, cara? Você ainda está entre nós, ou já o perdemos?

Harry não pôde deixar de sorrir levemente.

- Foi mal. O que você estava dizendo, Rony?

- Eu perguntei se ela é de Hogwarts. – o amigo repetiu, parecendo aliviado que Harry tivesse despertado de seus devaneios. – É, não?

Houve uma nova pausa. Harry hesitou.

- É... – ele disse por fim. – Mas não me pergunte mais nada a respeito dela. – Harry arrematou depressa. – Eu ainda não quero que você ou Hermione saibam quem ela é.

Rony parecia intrigado.

- Por que não?

- Porque... ora, Rony, porque eu nem tenho certeza se vou seguir com isso adiante! Quer dizer, pode ser apenas uma bobagem minha e nem dar em nada... – ele espantou o assunto com a mão, tentando parecer displicente. – Não é preciso que vocês a conheçam agora, só pioraria as coisas para mim...

- Harry...? – Rony sussurrou confuso, com uma expressão perspicaz bastante incomum. – Há algo de errado que você não quer me contar?

Os dois apenas se fitaram prolongadamente, até que Harry não conseguisse mais sustentar o olhar do amigo.

- Nada com o que se preocupar. – ele disse rapidamente. – Eu vou dar um jeito nisso tudo.

Rony abaixou os olhos, parecendo respeitar a vontade do amigo.

- Não conta pra Mione, tá? – ele ergueu os olhos para Harry. – Ela não precisa saber... ainda.

- Tá bom. – Rony assentiu, lacônico, os olhos postos na porta, vidrados. Porém, virou-se bruscamente para Harry, como se acabasse de ter uma idéia. – Mas eu acho que ela já percebeu.

Harry arregalou os olhos, em pânico.

- Hein?

- Relaxa... quero dizer que ela comentou comigo que você estava estranho, mas não sabia o porquê.

Harry se sentiu um pouco mais aliviado. Sabia que Hermione estava preocupada com ele, mas o motivo era outro. Era tudo que ele estava passando a respeito de Voldemort, pois antes ele não estava preocupado com Katherine, já que não estava pensando nela da maneira que pensava agora. Mas então Harry ficou paralisado por um segundo. Ele não sabia o que se passava na cabeça de Hermione, poderia ela...? Não, não poderia. Principalmente porque nada acontecera entre Harry e Katherine, então não tinha como alguém desconfiar...

- Nossa, esbarrei na Gina enquanto subia... – Rony mudou completamente de assunto, fazendo Harry aterrizar de seus pensamentos com um baque furioso. O amigo fitava a porta agora, os braços cruzados, intrigado. – Essa garota anda muito esquisita, estava tão estranha quando a vi... Você também não imagina o que possa ter acontecido, Harry?

O rapaz engasgou. Ao menos daquela vez, sabia o que tinha acontecido a Gina, pois fora ele quem provocara. Pela primeira vez, desde que desgrudou os lábios dos de Gina no jardim da Toca, Harry se sentiu terrivelmente culpado. Não por Gina – e aqui Harry não sentia nem um pingo de remorso – mas sim por Rony e todos os outros Weasleys. Ele tinha se comportado como um canalha para com a garota àquela manhã, com motivos, diga-se de passagem, mas isso não amenizava sua culpa. Afinal, os Weasleys eram todos muito bons com ele e, para piorar, Rony era seu melhor amigo. Por um instante de delírio, Harry quase confessou seu ato ao amigo, mas desistiu no segundo seguinte. Era loucura. Definitivamente, seria uma péssima idéia arranjar confusão com o amigo, por mais que Harry, em seu íntimo, sentisse que merecesse até mesmo um soco de Rony. Mas, não, era melhor não contar, e torcer para que Gina também não abrisse a boca.

- Eu quase não a vejo, Rony. – Harry murmurou, sentindo a garganta muito seca. – Não faço idéia...

- É claro, vocês estão separados há séculos, nem faria sentido mesmo... – Rony se levantou, dando de ombros, e Harry se sentiu mil vezes pior. – Ela deve ter brigado com o idiota do namorado dela ou qualquer coisa do gênero... Ei, você já tomou café? – Harry negou. – Eu também não, Fred e Jorge ficaram me enchendo quando você saiu, e nem deu para eu ir lá... – ele abriu a porta e espiou para fora, como se esperasse que os gêmeos irrompessem novamente. – Acho que já acabou a discussão dos meus pais e Percy, vamos descer?

Harry seguiu o amigo, desejando que ele nunca soubesse o que tinha feito naquela manhã, ou ainda que, se soubesse, apenas um bom soco no meio de sua cara resolvesse tudo.

 

*******

 

Era madrugada quando Harry desceu as escadas, de pijamas, completamente desperto. Chovia uma garoa fina e gelada lá fora, açoitando as janelas num pinga-pinga teimoso e, depois que acordou, Harry não conseguiu mais ignorar seu ruído contínuo e insistente. Mais uma vez, tivera um sonho estranho, no qual se misturavam cenas idiotas de seu cotidiano, com imagens de seus pesadelos antigos com Voldemort e, ainda – o que mais estava lhe perturbando – aquelas pessoas estranhas, vestidas com trajes ainda mais esquisitos, que falavam de um jeito antigo que Harry mal podia compreender depois que acordava. O rapaz pensou uma ou duas vezes na possibilidade de narrar esses sonhos para alguém; a primeira pessoa que veio à sua cabeça foi Sirius, mas ele acabou descartando-o, não apenas pela briga que os dois tiveram, mas por algo mais. Harry sentia que precisava de alguém que soubesse mais do que o padrinho, alguém mais velho, e esse alguém era Dumbledore. Assim que voltasse a Hogwarts – o que seria na manhã seguinte, quando tomassem o Expresso –, Harry aproveitaria a oportunidade de alguma das aulas especiais que o diretor lhe dava e entraria no assunto. Quando eram apenas um ou dois sonhos, esporádicos, Harry não se importava, mas agora a coisa estava realmente ficando séria, já que em várias noites ele tinha sido acordado por pesadelos como esse.

Harry esperava encontrar a cozinha vazia quando se dirigiu a ela, à procura de um copo d’água ou qualquer outra coisa para beber, mas havia luz vinda de dentro do lugar. Imaginando quem mais poderia estar sem sono, Harry adentrou timidamente o cômodo escurecido, e ficou surpreso ao bater os olhos numa cansada Sra. Weasley, sentada à mesa, sozinha, seus olhos perdidos refletindo a luz vacilante de uma vela já bastante derretida.

- Sra. Weasley? – o rapaz chamou da porta, hesitante. – Tudo bem?

Ela ergueu os olhos, distraída, e Harry notou olheiras ao redor de suas pálpebras ligeiramente caídas. Parecia cansada e um pouco mais velha. Ela fitou o rapaz por um momento, seus olhos desfocados, como se não o enxergasse direito, até que pareceu se dar conta do que estava acontecendo e, com um arrepio, pigarreou, piscando depressa e remexeu-se na cadeira.

- Oh, Harry... você está aí. – ela disse com uma voz distante, voltando a observar a cera da vela derreter. – Me desculpe, eu não o notei chegar. Estava... distraída. Mas, sente-se, sente-se... – ela indicou a cadeira à frente. – Por que não está na cama, querido?

- Eu acordei no meio da noite e acabei perdendo o sono... – Harry disse parte da verdade, sentando-se na cadeira indicada, fitando com atenção a bruxa à sua frente. Estava levemente pálida. – Resolvi... descer e tomar um copo d’água... Está tudo bem mesmo com a senhora?

Ela pareceu despertar com a pergunta, levantando-se depressa.

- Tudo, tudo bem, querido. – disse agitada, sem passar nenhuma segurança em suas palavras. Ela caminhou a passos rápidos e imprecisos até a despensa, abriu-a e começou a procurar alguma coisa. – Quer que eu lhe prepare algo, Harry, talvez um leite quente, ou...?

- Não, não precisa se incomodar, Sra. Weasley. – o rapaz se apressou em dizer, mas a mulher não pareceu levar a sério suas palavras.

- Ora, meu bem, não é incômodo algum. – ela se virou para ele, sorrindo bondosamente, enquanto depositava na mesa uma lata com chocolate em pó. – Vou preparar um chocolate quente para nós, você gosta?

Harry assentiu, murmurando um tímido "obrigado", e a mulher se ocupou nos minutos seguintes com a preparação da bebida. O ar se tornou levemente mais quente e aconchegante quando ela acendeu o fogo para esquentar o leite. Harry a observou com um sorriso, tentando buscar em sua memória as poucas vezes em que alguém lhe perguntara com tamanha ternura o que ele gostava e lhe preparou algo de seu agrado. Em sua infância, não havia ninguém que se lembrasse. Agora, ele tinha Sirius, mas não era a mesma coisa; ele amava muito o padrinho, era verdade, mas ele obviamente não tinha o mesmo tato que uma mulher. Não tinha a voz doce e suave, nem o toque carinhoso e o jeito terno e delicado de sorrir; era algo que somente as mães possuíam. Harry se pegou pensando em como seria essa cena se, ao invés de Molly Weasley, fosse Lílian Potter quem estivesse lhe preparando um chocolate quente.

A vela estava pela metade, a cera derretida se espalhando numa cascata informe aos seus pés, quando a Sra. Weasley depositou duas canecas fumegantes sobre a mesa de madeira.

- Que olhos tristes, Harry... – ela comentou com a voz suave.

Ele ergueu os olhos para ela, observando seu rosto por cima do chama da vela entre eles. Ela sorria novamente com bondade, a atenção completamente concentrada nele agora. Aquilo fez bem a Harry. Fê-lo sentir-se importante e querido. Ele sorriu de volta, aceitando a caneca que ela oferecia, e suas mãos se aqueceram assim que ele envolveu o recipiente morno com os dedos.

- Está bem quente. – ela disse quando ele estava levando a caneca aos lábios. – Cuidado para não queimar a língua, assopre um pouco antes de beber.

Claro que ele sabia que deveria fazer isso, mas Harry não fez objeção à recomendação dela. Pelo contrário, tinha gostado bastante de ouvi-la, e obedeceu satisfeito. Era outra coisa que apenas uma mãe faria, ele lembrou, ao mesmo tempo em que assoprava o líquido quente e observava a Sra. Weasley fazer o mesmo à sua frente, sorrindo para ele com ternura.

Harry mais uma vez imaginou a figura de Lílian Potter à sua frente, com seus olhos verdes como os do filho, os longos cabelos ruivos e um sorriso terno semelhante àquele, mãe e filho entendendo-se apenas pela troca de olhares. Sacudindo a cabeça, tentando sacudir junto com ela seus estúpidos pensamentos, Harry se forçou a voltar à realidade. Não era certo fazer aquilo com a Sra. Weasley. Não era sua mãe quem estava ali, era a mãe de Rony. Lílian jamais poderia sentar-se à mesa com Harry, preparar para ele um chocolate quente no meio da noite, sorrir para o filho e perguntar-lhe com preocupação o que não o deixava dormir...

Ele tomou o primeiro gole da bebida, sentindo a língua arder levemente pela temperatura elevada do leite, então veio o sabor doce e aveludado do chocolate, que desceu em seguida, aquecendo todo o seu corpo com maior eficácia que uma lareira ardendo em chamas.

- Há algo que a preocupa, Sra. Weasley? – ele perguntou subitamente, mais para se desviar dos seus próprios pensamentos do que para qualquer outra coisa.

Ela apenas sorriu devagar, e Harry percebeu que seus olhos marejaram quando ela abaixou a caneca de chocolate sobre a mesa, com um ruído seco. Houve talvez um minuto de silêncio entre eles, no qual apenas se ouvia um ocasional crepitar da chama da vela e as gotas de chuva batendo contra os vidros das janelas.

- Então você percebeu? – ela perguntou, mas não estava zangada. – Você é muito amável, Harry, por se preocupar com uma mulher velha e tola como eu...

- A senhora não é velha! Muito menos tola!

Ela sorriu novamente.

- Você é um bom rapaz, Harry. Seria um filho maravilhoso para sua mãe, se ela estivesse aqui para vê-lo.

Harry abaixou os olhos, calando-se, sem saber o que dizer. Preferia que ela não tivesse mencionado sua mãe.

- Eu espero que, onde quer que ela esteja, não se importe que essa mulher aqui tenha pelo filho dela o mesmo carinho que tem pelos próprios filhos...

Harry ergueu os olhos para fitá-la, mas desejava não ter feito isso, pois tinha sido a vez dos seus olhos se encherem de lágrimas, e ele se sentiu constrangido pela Sra. Weasley vê-lo dessa maneira. Ela, porém, continuava sorrindo para ele, parecendo encantada que ele tivesse se emocionado após ouvir o que ela tinha dito. A mulher deslizou um dedo delicadamente pelo rosto do rapaz, até que não conseguiu mais se controlar e desatou a chorar.

- Oh, Sra. Weasley... – ele disse engasgado, sem graça, observando a mulher cobrir o rosto lavado de lágrimas com as mãos, seu corpo se movendo em espasmos e soluços. – Não fique assim, por favor...

- Me... me desculpe, Harry... – ela sussurrou, limpando os olhos com as costas das mãos, mesmo que ainda soluçante. – Estou me comportando co-como uma tola, foi o que eu d-disse antes... – ela riu sem graça. – Não p-precisa se preocupar...

Ele se sentiu extremamente deslocado, como uma peça fora do lugar. Não sabia o que dizer para ajudá-la. Desejou não tê-la incomodado com perguntas estúpidas.

- É que... olhando para você, falando na sua mãe, passou-me pela cabeça como seria horrível não poder criar o próprio filho... Eu não consigo imaginar o que seria da minha vida se eu não tivesse meus meninos... e minha menina.

Harry permaneceu calado. Não havia nada que pudesse dizer numa situação como aquela. Ele percebeu que, imerso em seu próprio sofrimento, nunca tinha parado para imaginar como era a situação vista pelo lado de sua mãe e de seu pai. Onde quer que eles estivessem, deveria também ser doloroso não poder criar o único filho.

- Oh, me desculpe, Harry! – a Sra. Weasley se apressou em dizer, segurando subitamente a mão do rapaz, que estava estendida sobre a mesa de madeira. – Eu... eu não deveria ter dito isso, foi uma bobagem para se dizer, me desculpe!

Ele forçou um sorriso, levantando o rosto para fitá-la.

- Imagine, Sra. Weasley, não há nada para se desculpar...

Ela ainda parecia estar se sentindo terrivelmente culpada. Apertou com força a mão dele, envolvendo-a entre seus dedos quentes e levemente ásperos. Algumas lágrimas ainda rolavam pelo rosto dela, iluminado fracamente pela chama da vela.

- Eu estou tão preocupada, Harry... – ela confessou. – Toda essa guerra, as pessoas morrendo dia após dia... – a mulher respirou fundo, mordendo o lábio inferior com ansiedade. – Eu tenho medo por meus filhos, meu marido... por você também, Harry, que é como um filho para mim...

Foi como se uma onda quente e arrebatadora o percorresse por um inteiro, uma onda de estímulo, uma chama de raiva vermelha e justificada. Era Voldemort quem causava todo aquele sofrimento, todo aquele temor que não deixava as pessoas em paz. E era ele, Harry, quem tinha que colocar um ponto final naquela história. O dia em que enfrentasse Voldemort pela última vez seria decisivo: sua vida poderia começar ali ou, ainda, terminar. Era algo que Harry, em seu íntimo, sempre soube que aconteceria algum dia, mais cedo ou mais tarde. E havia uma sensação dentro dele que o avisava que esse dia se aproximava.

Harry cobriu a mão da Sra. Weasley com a sua, apertando-a, reconfortante. Ela arregalou os olhos ao enxergar a determinação dura nos olhos do jovem rapaz à sua frente.

- Isso vai acabar, Sra. Weasley. – ele disse com firmeza na voz. – Eu lhe prometo. Eu vou fazer com que acabe.

Parecia ser a vez dela não saber o que dizer. Lentamente, Harry afastou suas mãos das dela, ao passo que ela também recolhia a sua. Por alguns minutos, os dois apenas beberam em silêncio o chocolate quente, imersos em seus próprios e diversos pensamentos.

- Eu não pude deixar de notar, Harry... – a Sra. Weasley disse após algum tempo. – ...que você e Sirius... tiveram um desentendimento.

Ele demorou para responder, mas quando o fez, não mentiu e concordou com ela.

- Não fique zangado com ele, Harry. – ela prosseguiu, encarando-o compreensiva. – Sirius é um homem marcado por diversos desgostos que passou na vida... e ainda existem assuntos mal resolvidos em sua vida. Mas ele é um bom homem e gosta muito de você. Eu me arriscaria a dizer que você é a pessoa mais importante para ele no mundo. Não jogue isso fora por uma bobagem...

Harry depositou a caneca de chocolate na mesa. A bebida estava quase no fim.

- Eu sei, Sra. Weasley. Eu também gosto muito dele, Sirius é a pessoa mais próxima de uma família que eu tenho... – ele confessou o que vinha no mais íntimo de seu ser, mesmo que tivesse dificuldade para fitar os olhos dela. – Ele é como... um pai, um irmão e um amigo ao mesmo tempo. Eu pensei bastante esses dias... e percebi que estou me comportando como um idiota. Sirius tem seus próprios problemas, que não me dizem respeito, assim como eu tenho os meus. Não é meu direito ficar zangado quando ele precisa resolvê-los... sozinho. Eu vou conversar com ele assim que puder.

A Sra. Weasley sorriu maternalmente mais uma vez.

- Eu fico aliviada. – ela disse, tomando o último gole de seu chocolate, levantando-se em seguida. – Termine seu chocolate, Harry, e vamos dormir, já está tarde e amanhã você tem que pegar o trem de volta para a escola. Precisa estar descansado.

O rapaz sentiu as mãos dela acariciarem o topo de seus cabelos com delicadeza quando a mulher contornou a mesa, posicionando-se atrás dele. Um sentimento quente se apoderou dele quando aquela mãe o beijou no rosto com o mesmo amor que beijaria qualquer um dos seus filhos de cabelos vermelhos, murmurando "durma bem, querido".

Ele apenas sorriu, tomou o restante do seu chocolate, que já estava frio, e apagou a chama frágil da vela com um sopro.


No próximo capítulo: Antes de voltar a Hogwarts, Harry tem uma reconciliadora conversa com Sirius, que lhe deixa com mais dúvidas do que esclarecimentos, e o rapaz começa a desconfiar que o alvo de aflições do padrinho está mais próximo de si do que imagina. Suas desconfianças, porém, trazem mais discussões que resoluções e, além disso, Harry tem que enfrentar seus próprios sentimentos ao novamente se confrontar com Katherine em Hogwarts. E acontece algo que, ao invés de fazê-lo compreender o que está sentindo, confunde-o ainda mais.

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