N/A: Devido ao tamanho do cap, ele foi dividido em duas partes. No final da página há um link que leva para outra parte.

N/A 2: Esse capítulo é dedicado ao Victor Hugo, meu leitor "mais apaixonado", como ele diz, pelo seu aniversário. OK, já faz tempinho que ele fez aniversário e me pediu isso, mas a intenção é o que vale ^^ Mil bjus, menino, e muitos aninhos de vida pra você! =)

 

Capítulo Dezesseis - Tão claro quanto água

 

Edwiges estava encarapitada em sua gaiola, sobre o malão de Harry, piando indignada, pois Pichi não parava de voar ensandecida dentro de sua pequena gaiola, batendo nas grades e piando feito louca. Bichento, por sua vez, não estava nem ligando para o que quer que estivesse acontecendo; ronronava feliz no colo de Hermione, que se ocupava em discutir com Rony, algo tão banal, que Harry preferia observar, com o olhar perdido, a neve fina que caía lá fora.

Era uma manhã gelada de dezembro, e os garotos estavam no Salão Principal, esperando pelas carruagens que os conduziriam até o Expresso de Hogwarts, bem como todos os outros colegas que, como eles, passariam as férias longe da escola. Para Harry, era uma sensação estranha estar saindo de Hogwarts seis meses antes, mas o pensamento de que iria passar as férias de inverno com Sirius na casa de praia – mesmo que não fosse época de ir à praia – já o fazia sorrir.

- Não tem nada na Alemanha, Mione, o que diabos você vai fazer lá? – Rony argumentava. Harry sabia muito bem que ele tentaria persuadir Hermione a passar as férias com ele até o último minuto, ainda mais agora que tinham feito as pazes.

- Claro que tem, Rony, posso aprender muita coisa por lá. – a garota retrucou em tom superior. – Li que os bruxos de lá tem costumes muito interessantes e a história do país...

- Quem se importa com essa bobagem? Você e essa sua mania besta de ficar estudando todo minuto! – ele soltou um barulho de indignação. – Férias são pra se divertir, Mione!

As vozes dos dois se perderam na periferia do cérebro de Harry, e ele novamente deixou os pensamentos vagaram sem destino definido. Depois daquele dia, trancados na sala redonda, Harry percebeu que, apesar de Rony e Hermione (principalmente Hermione) se esforçarem para aparentar que ainda eram os mesmos, ainda assim eles pareciam muito estranhos. Harry às vezes captava olhares oblíquos entre os dois, ou frases aparentemente sem sentido ditas por Rony, e qualquer uma das duas coisas sempre terminava em uma Hermione risonha e corada. Definitivamente, isso era muito estranho, pois Hermione não era o tipo de garota que ficava aos risinhos e corava por qualquer bobagem. Quando Harry perguntou, certa vez, a Rony o que andava acontecendo, ele sorriu marotamente:

- Ahhh, Harry, você nem acreditaria se eu te contasse... – ele disse com os olhos cintilando, mostrando um sorriso que era só dentes para o amigo. – Eu bem que queria te contar depressa, mas Hermione... bem...

- Mas o que aconteceu, Rony?

- Hum... bem... não comente com Hermione que eu te contei... ela poderia... talvez... ficar envergonhada...

Mas Hermione tinha aparecido bem nesse ponto da conversa, o que fez Rony se calar imediatamente. Ele acabou não voltando ao assunto mais tarde, e Harry, cheio de coisas na cabeça, tinha se esquecido completamente de perguntar de novo. Tivera umas idéias malucas a respeito depois disso, mas talvez fosse apenas delírio de sua mente mesmo. De qualquer maneira, os amigos andavam bem diferentes depois daquela sala redonda.

Ao mesmo tempo, nenhum dos dois voltou a perguntar como Harry tinha falsificado as cartas ou como conhecia aquela sala. O rapaz agradecia por essa falta de interesse por parte deles, mesmo que, em seu íntimo, soubesse que Hermione não tinha acreditado na história mal inventada que tinha contado. Mas, de qualquer maneira, ele não podia contar a verdade. Tinha prometido a Katherine que manteria o segredo, e não era do tipo que quebrava promessas. E não queria, também, arriscar que a "trégua" entre os dois terminasse. Não quando estavam começando a se dar bem.

"Droga, porque meus pensamentos têm que sempre chegar até essa garota?!", pensou enfurecido consigo mesmo. O pior era que isso andava acontecendo com freqüência. Num momento, seus pensamentos estavam focados num acontecimento qualquer; no instante seguinte, estavam voltados para Katherine Willians. E essa insistência de seu cérebro em se voltar para aquela sonserina pentelha estava lhe irritando. Harry estava tentando, com toda sua força de vontade, esquecer os pensamentos loucos que tivera a respeito dela e estava se concentrando em não mais pensar de "qualquer maneira não-identificada" naquela garota.

Seus olhos bateram inesperadamente numa pessoa que acenava freneticamente para ele do outro lado do Saguão de Entrada, escondida atrás da estátua de um bruxo gorducho. As entranhas de Harry se remexeram agradável ou desagradavelmente – ele não sabia definir. A pessoa o chamava, parecendo aborrecida, olhando nervosa para os lados verificando se alguém podia vê-la.

- Droga, assim fica difícil não pensar em você, pentelha... – Harry murmurou para si, decepcionado consigo mesmo pela sua aparente falta de força de vontade.

- Tá falando sozinho, é, cara?

Harry quase deu um pulo de susto. Tinha esquecido completamente que Rony e Hermione estavam ao seu lado. Mas eles estavam, e encaravam Harry intrigados, de um jeito no mínimo perturbador.

- Anh... – ele balbuciou atrapalhado, enquanto assistia, do outro lado da sala, aquela pessoa continuar a acenar para ele, perdendo a paciência, ao que parecia. – Vocês não estavam discutindo, não?

Hermione rolou os olhos.

- Pra onde você está olhando, hein, Harry? – ela perguntou perigosamente, girando a cabeça à procura do objeto de interesse do amigo.

- Lugar nenhum! – ele respondeu depressa demais, atropelando as palavras. Rony fez uma careta intrigada. – Anh... eu vou fazer uma coisa... – ele disse, afastando-se dos amigos, que o encaravam perplexos. – É bem rápido, me esperem aqui mesmo, eu volto num minuto...

- Ei, mas aonde você vai? – Rony ainda perguntou.

- Voltem a discutir, o.k.? – Harry retrucou, andando de costas e fazendo um gesto displicente com as mãos, para depois se virar e sair quase correndo.

Após dobrar a estátua do bruxo gorducho, Harry fez uma busca com os olhos, mas não encontrou ninguém à vista. Será que estava ficando tão maluco a ponto de ver coisas? No entanto, antes que pudesse formular uma resposta àquela angustiante questão, um braço saiu do nada de dentro de um armário de vassouras e o puxou com urgência.

- Mas que di...?

A porta se fechou com um baque forte, e Harry se viu frente à frente com Katherine Willians, dentro de um apertado armário de vassouras. Seu estômago deu duas voltas completas e aterrissou – mas não no lugar certo. Ele fitou o rosto dela, rabugento como sempre, na penumbra do armário. Apenas alguns feixes de luz penetravam pelas frestas da porta, iluminando alguns pontos específicos do rosto da garota; seus olhos castanhos, escurecidos, estreitos na direção dele, parte de suas bochechas e seus lábios, retorcidos numa expressão de profundo aborrecimento. Harry abaixou os olhos e notou que a garota usava roupas diferentes do preto com verde-e-prata habituais do uniforme; uma blusa de lã, apertada, que revelava suas curvas, e um jeans desbotado e também colado ao corpo. Droga, Harry, por que você está reparando nas roupas dela? Pare de olhar para o corpo dela, seu idiota!

- Por que você fez isso? – ele tentou protestar num tom indignado, mas a voz que saiu de sua boca parecia um tanto pastosa e abobada, e Harry teve vontade de se chutar por isso.

- Porque você é um tonto! – ela exclamou, cruzando os braços, zangada. – Como é possível que não tenha notado que eu estava há quase dez minutos acenando pra você vir aqui? Será que é tão míope assim?

Harry não gostou e fechou a cara, fuzilando-a com o olhar. Não gostava quando as pessoas zombavam da sua visão. Sem pensar, ele ajeitou os óculos no rosto e depressa retrucou com orgulho:

- Caso não tenha notado, pentelha, não é prioridade na minha vida procurar por loucas histéricas que acenam furtivamente atrás de estátuas!

Ela bufou.

- "Louca histérica" é a vovózinha, Potter! – ela retrucou furiosa, colocando o dedo em riste na cara dele. Mania detestável aquela, na opinião de Harry, e ele fez uma careta após o gesto. Katherine notou e recolheu o dedo. – Então... – ela mudou o tom de voz, que parecia um pouco mais suave. – ...você vai embora, agora?

Ela preferiu desviar o olhar e observar uma vassoura velha e poeirenta a encarar Harry depois da pergunta.

- É... hum... só estou esperando a carruagem chegar.

Houve uma pausa. Katherine girou a cabeça e seu olhar caiu numa teia de aranha que pendia do teto. Harry continuou fitando-a, muito consciente de que sua respiração era lenta e profunda, e que seus lábios estavam secos.

- Anh... hm... então... eu só te chamei aqui... pra me despedir...

Harry soltou um risinho pelo nariz.

- Eu não vou sumir pra sempre, sabe? – ele disse num tom de brincadeira. – No próximo semestre eu vou voltar e nós teremos que nos suportar de novo.

O olhar dela, que girava para todos os lados, finalmente voltou a pousar em Harry novamente.

- Pois é, que infelicidade, não é mesmo?

Harry não tinha tamanha certeza, mas não repetiria esse pensamento em voz alta nem sob tortura.

- E você que pensava que iria se livrar de mim, não, pentelhinha?

Ela riu. Um riso descontraído, de quem achava graça em alguma coisa. Harry notou que ela fechava os olhos para rir, sorria com os lábios fechados e entortava apenas um pouco a cabeça, seus cabelos a acompanhando graciosamente. Saco, pensamento errado de novo, Harry Potter.

- Então... – ela abaixou os olhos, indecisa sobre o que deveria dizer. – Acho que...

- Você vai ficar bem aqui sozinha, no Natal? – Harry perguntou tão subitamente, que surpreendeu a si mesmo. Por que raios tinha que fazer aquela pergunta? Mas não tinha dado pra segurar; quando se deu conta, as palavras já tinham pulado sem permissão da sua boca pra fora.

Katherine levantou os olhos, surpresa, sua boca ligeiramente aberta. Havia um brilho estranho no seu olhar, quando fitou Harry. Ele teve vontade de sair bem depressa dali, mas sabia que isso era meio impossível. Sua única saída foi continuar encarando-a de volta, sua cabeça girando.

- Anh... tudo bem... – ela murmurou. – Não precisa se preocupar...

Preocupado? Quem disse que ele estava preocupado? Óbvio que não estava preocupado. Harry tinha feito uma pergunta cretina, só isso, e quem nunca tivesse feito uma pergunta estúpida como aquela na vida que atirasse a primeira pedra. Preocupado, há! Preocupado uma ova... imagine...

Katherine também parecia ter percebido que tinha falado demais, e Harry notou que ela teve a mesma sensação dele: que as palavras saltaram da boca sem sua permissão.

- Ahhh...

- Se... você... quiser... – Harry disse lentamente, e mais uma vez sua boca não estava obedecendo ao seu cérebro, que estava a ponto de entrar em pane. - ...hum, você pode me mandar alguma carta durante as férias... – Katherine arregalou os olhos. Harry se apressou em explicar o que não tinha explicação. – Quer dizer, só se você quiser. – ele completou, enrolando-se cada vez mais. – Eu vou ler... quando não tiver o que fazer! É... bem... é...

E dessa vez as palavras se perderam a caminho da boca. Harry não sabia como continuar. Aliás, ele queria cavar um buraco até a China, pois aquilo ia de mal a pior. Onde estava com a cabeça pra dizer aquele monte de besteira? Ele começou a girar os olhos para todos os lados do pequeno armário de vassouras, e de repente aquela teia de aranha que pendia do teto pareceu muito, muito interessante.

- O.k.! – Katherine exclamou, com a voz ligeiramente falha. – Se eu estiver num tédio quase mortal... eu posso até escrever pra você.

Harry assentiu, ainda fitando a teia de aranha, pensamentos completamente absurdos como "Rony tem medo de aranhas" invadindo sua mente, como se fosse uma espécie de proteção do seu cérebro contra uma pane geral. Sim, porque ele estava convencido de que tinha perdido os parafusos.

- Eu vou... indo! – Harry exclamou subitamente, após um silêncio constrangedor de aproximadamente um minuto, talvez mais. – Ou... posso perder o trem.

Foi a vez de Katherine assentir, sem dizer nada mais. Harry pigarreou.

- Então... Feliz Natal pra você.

- Feliz Natal pra você também. – ela respondeu bem depressa, sem olhá-lo.

Harry ainda a fitou de esguelha antes de abrir a porta do armário – Katherine parecia absorta, focalizando um ponto vago no teto – então ele saiu e andou bem depressa, como se estivesse fugindo de alguma coisa perigosa. Mas o problema era que não dava pra fugir de seus pensamentos, e eles já não eram tão seguros como costumavam ser...

 

*******

 

- Tá tudo bem mesmo, Harry? – Hermione perguntou pelo que deveria ser a décima vez.

- Eu já disse que sim! – ele retrucou irritado, desviando os olhos dos campos brancos, cobertos pela neve, e fitando Hermione com rabugice.

Ela e Rony estavam sentados à sua frente – Rony passava um braço por cima dos ombros da garota –, e como Harry não estava muito a fim de conversar durante a viagem no trem, os dois cochichavam assuntos particulares a maior parte do tempo, o que não estava sendo de grande ajuda. Harry estava se sentindo desconfortável e tinha a impressão de que estava se portando como uma "vela" muito aborrecida atrapalhando os dois.

Depois de deixar o armário de vassouras quase fugido, Harry se encontrou com Rony e Hermione no Saguão de Entrada (Hermione parecia bastante desconfiada e Rony muito curioso, tanto que não parou de fazer perguntas sobre onde Harry tinha ido), e os três pegaram uma carruagem e embarcaram no Expresso de Hogwarts. Harry, no entanto, passou o início da viagem em tal estado de torpor, que Hermione estranhou e começou a enchê-lo de perguntas irritantes. Isso fez com que Harry passasse de um estado letárgico depressivo para um estado absoluto de estresse.

- Mas você está tão estranho, Harry... – Hermione insistiu, sondando. – Aconteceu alguma coisa quando você se afastou da gente no castelo?

Rony apenas fitava Harry e depois Hermione, com uma careta assustada. Parecia estar prevendo a explosão iminente do amigo. Harry não suportou por muito mais tempo.

- Quantas vezes eu vou ter que dizer que não aconteceu nada, Hermione?! – ele elevou o tom de voz, furioso, e Hermione recuou contra o banco, arregalando os olhos. – Você não sabe quando parar, não é?

Houve uma pausa, na qual a garota parecia chocada com a reação tempestuosa do amigo. Então ela se virou para Rony, brava.

- Você não vai dizer nada, Rony?

Ele pareceu terrificado que alguém tivesse pedido sua opinião. Abriu e fechou a boca, como se fosse um peixe, e olhou de Hermione para Harry e de Harry para Hermione.

- Anh... – ele murmurou hesitante. – Ele tem razão, Mione, você repetiu a mesma coisa umas quinhentas vezes... Se tivesse acontecido alguma coisa importante, Harry nos contaria, não é, Harry?

Rony olhou diretamente para ele. Harry sentiu a garganta ficar seca, e não conseguiu responder nem assentir com a cabeça. Tantas coisas importantes tinham e andavam acontecendo, e ele não contara nenhuma delas para Rony, tampouco Hermione. E eles eram seus melhores amigos. Harry se sentiu envergonhado, e virou o rosto, voltando a fitar a paisagem que passava veloz pelo vidro da janela. Não contava algumas coisas para eles não porque não confiasse neles, claro que não era isso. Era mais por ter medo da reação deles, medo que se afastassem dele... Como contar sobre aquela estranha sensação que tinha agora ao se aproximar de Katherine Willians? Ou, o que era muito pior, como contar sua relação consangüínea com Voldemort?

- Eu não acredito em você, Rony! – Hermione reclamou, zangada, de algum ponto distante, e Harry meramente percebeu que Rony tinha levado a culpa no seu lugar.

Harry teve vontade de se evaporar dali nos minutos seguintes. Houve um silêncio constrangido, e ele se viu sentindo falta dos cochichos sigilosos dos amigos, mas eles também não estavam se falando agora. Quando estava prestes a se levantar e dar uma desculpa qualquer para sumir, como "vou ao banheiro" ou talvez algo mais ridículo, a porta da cabine abriu com tamanha violência, que bateu na parede e depois voltou. Rony soltou um palavrão veemente ao ver quem estava à porta. Harry não acreditou no que via.

- O que raios você está fazendo aqui, Malfoy? – Rony perguntou com desgosto, encarando Draco Malfoy com um olhar que beirava ao nojo. O sonserino estava, como sempre, ladeado por Crabbe e Goyle, que definitivamente se assemelhavam, agora, a dois grandes trasgos desajeitados.

- Certamente, errou de cabine. – Hermione disse com desdém, seu tom insinuando claramente o quanto Malfoy deveria ser burro pelo descuido. – Pode dar meia volta agora, Malfoy. – ela fez um gesto indulgente, como se espantasse uma mosca particularmente desagradável.

Malfoy dirigiu a Rony e Hermione um olhar de desprezo, estreitando os olhos cinzentos perigosamente. Crabbe e Goyle fizeram expressões ameaçadoras e apenas grunhiram, incapazes de dizer algo mais inteligente.

- Ninguém aqui quer saber a opinião de vocês dois. – Malfoy praticamente cuspiu. – Por que não vão se ensebar em algum canto imundo, hein? – Rony se levantou impetuosamente, tremendo de raiva, suas orelhas muito vermelhas; Hermione se levantou atrás dele e segurou o seu braço. Os olhos de Malfoy brilharam com malícia e diversão ao fitar Rony. – Você deve estar acostumado, não, Weasley? Afinal, fica aí se misturando com uma sangue-sujo...

A mão de Rony voou para a varinha, ao mesmo tempo em que Hermione tentava inutilmente impedi-lo, murmurando frases do tipo "Não vale a pena", "Deixa pra lá" ou "Você é monitor!". Crabbe e Goyle avançaram um passo, estalando os dedos ameaçadoramente, enquanto Malfoy parecia muito tranqüilo, apesar de Harry ver que ele apertava algo dentro do bolso; sua varinha, com certeza.

Harry também se levantou e se postou um pouco à frente dos amigos, antes que Rony se livrasse de Hermione e fizesse alguma bobagem.

- O que você quer aqui, hein, Malfoy? – perguntou com a voz controlada, mesmo que intimamente estivesse com vontade de acertar o nariz do sonserino com muita força. – Fale depressa e depois suma daqui!

Malfoy deu um passo à frente, contorcendo seu rosto pálido, que agora parecia furioso. Seus olhos cintilavam de ódio.

- Eu vim lhe dar um aviso, Potter. Afaste-se.

Harry não entendeu e riu, desacreditando.

- Você bateu a cabeça ou algo assim?

- Você entendeu, Potter. – Malfoy tornou a falar, e agora não utilizava seu costumeiro tom arrastado de provocação. Parecia realmente falar sério. – Afaste-se.

Ele virou as costas, fazendo um gesto para que Crabbe e Goyle o seguissem, o que os dois prontamente obedeceram. Quando chegou à porta, quase deu um encontrão numa figura de cabelos ruivos que vinha entrando na cabine, estreitando os olhos para ela por um segundo, e então saindo tempestuosamente. Harry bufou profundamente. Era só o que lhe faltava.

- Credo. – Gina Weasley falou com uma careta. – Parece que passou um furacão por aqui.

Rony, cujo braço ainda era seguro por uma Hermione prudente, mirou a irmã com um olhar oblíquo e esquisito.

- Você não apareceu numa boa hora, Gina.

A garota, no entanto, não parecia concordar com a opinião do irmão, já que atravessou a cabine e sentou bem no lugar ao lado do de Harry, sorrindo e encarando os outros três, que ainda estavam de pé, tensos pela discussão com Malfoy.

- Vocês vão ficar aí de pé mesmo? – perguntou indulgentemente.

Como resposta, Harry se sentou furioso, com um enorme estrondo, no seu lugar, tentando ficar o mais longe possível da garota, o que era complicado num banco apertado como aquele. Rony e Hermione também se sentaram, e Rony continuou a observar a irmã com um olhar profundo e esquisito. Hermione foi quem falou primeiro.

- Malfoy veio nos provocar, pra variar. Você sabe...

- Ah, sim... – Gina suspirou em compreensão. – O que ele disse pra Rony e Harry ficarem tão nervosinhos?

Harry não gostou nem um pouco do tom de pouco caso que a garota deu à frase e soltou um grunhido de protesto. Rony, por sua vez, ainda continuava fitando a irmã daquele jeito estranho e pensativo.

- Nem vale a pena repetir... – Hermione deu de ombros. – Mas por que você está aqui e não com seus amigos?

Gina rolou os olhos.

- Peta e Colin estão por aí... John ficou em Hogwarts mesmo.

A única coisa boa que pareceu resultar da aparição de Gina foi que o humor de Hermione melhorou bastante, e as duas passaram a conversar entre si. Rony, porém, pareceu mergulhar no estado letárgico que Harry estava no começo da viagem, pois ficou calado todo o tempo, apenas encarando a irmã até que ela perguntou o que ele estava olhando. Depois de um resmungo, Rony desistiu de fitá-la, mesmo que ainda permanecesse pensativo e lançasse olhares furtivos para ela de vez em quando.

Harry, por outro lado, apenas desejava ardentemente que Gina sumisse dali, mas sua vontade não parecia que seria atendida algum dia. Tudo o que ele menos queria naquele momento era passar o resto da viagem sentado ao lado dela. Tentando se afastar o máximo que podia, Harry encostou a cabeça no vidro gelado da janela, observando perdido os campos passarem velozes e, bem devagar, seus pensamentos se desligaram das vozes de Hermione e Gina. Sua cabeça foi se tornando pesada e foi ficando cada vez mais difícil manter os olhos abertos.

As esmeraldas cintilavam iluminadas pela luz opaca e fria da lareira. Dedos finos, longos e intensamente brancos, quase como se pertencessem à própria morte, passeavam os dedos languidamente pela lâmina polida. Havia ali um nome gravado, em letras caprichadas.

- Poderia ser...?

Os dedos brancos se tornaram mais escuros, e agora pareciam pertencer a alguém vivo, ao menos, pois ainda eram extremamente pálidos. Fosse quem fosse, ainda dedilhava a lâmina, ornamentada por esmeraldas, com prazer.

- O que queres? – perguntou impaciente.

- Ora, tu não sabes? – retrucou o outro, ainda passeando os dedos longos pelas esmeraldas.

- Tu nos abandonaste. Não há mais o que discutir.

- Pois eu tenho assuntos pendentes contigo, ainda.

- Não enxergo quais.

- Logo vais entender.

Ele levantou a cabeça, e Harry viu os olhos vermelhos e estreitos como de uma cobra, o rosto branco como a morte, o nariz de fenda e os lábios, pálidos e finos, abriram-se num sorriso malévolo. Harry recuou, sentindo a cicatriz arder intensamente.

Era Voldemort.

- Harry? – alguém o balançou pelos ombros. – Harry, já chegamos...

Abriu os olhos assustado, o ar enchendo seus pulmões num sopro, como se tivesse acabado de emergir de um lago muito profundo. Piscou os olhos e a imagem de Hermione um pouco acima de si, balançando-o pelos ombros, ficou menos embaçada. Rony estava mais atrás dela, baixando as malas. O trem parecia parado.

- Nós já chegamos à plataforma, Harry. Você cochilou.

- Hum... – Harry pigarreou, sentindo na boca aquele sabor pastoso e enjoativo que se tem após acordar. Levou sem pensar os dedos gelados à cicatriz, que estava ainda quente e ardia levemente. Fazia tanto tempo que não sonhava com Voldemort... Por que tivera esse sonho logo agora, no meio de um cochilo?

- Você está bem? – ouviu a voz de Hermione, hesitante.

Harry se limitou a balançar a cabeça, incapaz de falar. Ainda estava com aquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca. A cicatriz incomodava apenas sensivelmente. O que mais incomodava mesmo era o sorriso de Voldemort, que parecia impregnado em sua mente. E persistia aquela sensação... como se não tivesse terminado... como se aquele sonho ainda fosse continuar... como se estivesse apenas acabado mais um capítulo da história...

Não era a primeira vez que tinha um sonho esquisito, e certamente não seria a última também. Porém, fazia muito tempo que Voldemort não aparecia em um desses sonhos. Os últimos que Harry tivera foram com pessoas estranhas, que não faziam sentido para ele. Nesse sonho, tudo tinha se misturado. Por que Voldemort tinha entrado no meio desses sonhos agora?

- Você parece que foi atropelado por um hipogrifo, cara. – Rony zombou quando os três saíram do trem e se juntaram à aglomeração de alunos que esperavam por suas famílias na Plataforma 9 ½. – Você andou bebendo uísque de fogo e nem ofereceu, foi?

Hermione soltou um barulhinho de censura, mesmo que seus lábios se contorcessem para não sorrir. Harry, aborrecido e ainda tonto com o sonho, soltou um "humpt", mas preferiu ficar calado.

- Sabem, uma coisa me deixou curiosa... – Hermione falou sonhadoramente, mas Rony e Harry continuaram calados. Ela se virou levemente aborrecida para os dois. – Vocês não vão perguntar o que é?

- Ah, e precisa? – Rony retrucou zombeteiro. – Você vai falar de qualquer jeito, não vai?

Hermione fez uma cara muito feia para ele e resolveu não falar mais nada. Rony, por sua vez, passou a insistir para que ela falasse e começou a cutucá-la só para provocá-la, até que a garota se deu por vencida e voltou a falar, satisfeita:

- Não, é que... O que Malfoy quis dizer com "afaste-se"?

Harry quase engasgou ao ser trazido tão bruscamente à realidade.

- É mesmo... – Rony disse pensativo. – Não faz muito sentido... mas não dá mesmo pra entender como funciona a cabeça daquele panaca.

- Fez algum sentido pra você, Harry?

- Não... nenhum... – ele respondeu sinceramente, desviando os olhos da amiga, mas Hermione tinha acabado de colocar uma dúvida na sua cabeça.

Não tinha dado muita importância ao que Malfoy tinha dito no trem naquele momento, mas agora que a amiga tinha mencionado, Harry começou a pensar. O que poderia significar "afaste-se"? Depois de alguns minutos, um pensamento maluco ocorreu a Harry; mas Malfoy não poderia saber... não tinha como... era impossível! Ou talvez... talvez não...

- Ah, Gina já achou sua mãe, Rony! – Hermione exclamou, tirando Harry pela segunda vez de seus devaneios. Ela cutucou Rony, indicando duas pessoas que pareciam ter fogo na cabeça. Ao esfregar a cicatriz ainda ardente e depois os olhos, Harry distinguiu a Sra. Weasley e Gina. – Vamos lá.

Os três se dirigiram até as duas, que pararam de conversar quando eles chegaram. A Sra. Weasley, com um grande sorriso, perguntou como estavam e abraçou cada um dos três maternalmente, demorando-se algum tempo em Harry. Então ela se virou para Hermione.

- Ah, Hermione, seus pais estão lá na estação esperando por você. – ela sorriu. - Eles me contaram que vocês vão para a Alemanha esse ano, é?

Rony grunhiu, emburrado. Gina abafou risinhos, enquanto Hermione conversava um pouco com a Sra. Weasley, que contava que os Weasleys não viajavam desde que foram visitar Gui, no Egito. Depois de algum tempo, ela se virou para Harry.

- Sirius me pediu para avisar que não vai poder vir buscá-lo, Harry. – a Sra. Weasley disse com um ar de censura e irritação. Parecia que não concordava muito com a atitude do padrinho de Harry.

- Não pode? – o rapaz perguntou intrigado, ainda meio sonolento. – Por quê?

- Ah... – a Sra. Weasley preferiu procurar algo na bolsa de couro de crocodilo que carregava a fitar os garotos. – Coisas... de trabalho... – ela pigarreou, aborrecida. – Ele disse para você aparatar para casa. Imagine, pedir para um menino que acabou de aprender a aparatar para ir a um lugar tão longe?! – ela completou indignada, num tom de voz mais baixo, como se evitasse que Harry ouvisse.

Rony rolou os olhos, fazendo uma careta e murmurando para Harry "não ligue para ela". Harry, porém, não podia dizer que estava muito feliz com a notícia; não se sentia muito seguro para aparatar naquele momento, não depois de um sonho com Voldemort e ainda com a cicatriz ardendo. Droga, Sirius tinha prometido que viria e agora o tinha deixado na mão...

- Você não prefere ir lá pra casa, Harry? – a Sra. Weasley perguntou docemente.

- Anh... – os olhos dele bateram em Gina, que cruzara os braços, impaciente. – Não, não, Sra. Weasley, não me importo de aparatar. Mas... obrigado pelo convite.

Ela pareceu murchar depois disso e não disse mais nada a respeito, apesar de às vezes praguejar contra a "irresponsabilidade de Sirius". Todos eles cruzaram a barreira alguns minutos depois, e Hermione logo se encontrou com os pais, e eles foram embora em seguida, deixando um Rony muito chateado para trás. Harry e os Weasleys deixaram a estação logo depois; Rony ainda disse ao amigo que poderia ir visitá-lo se quisesse, mas Harry retrucou dizendo que gostaria que ele fosse visitá-lo na casa de praia. A Sra. Weasley (ainda um pouco aborrecida por causa de Sirius) recomendou que Harry fosse a algum lugar reservado, onde os trouxas não o vissem, para aparatar. Ela, Rony e Gina seguiriam para a Toca via Pó de Flu, já que Gina ainda não tinha idade suficiente para aparatar.

Depois de se separar dos Weasleys, Harry caminhou um pouco por uma rua cheia de lojas trouxas, com vitrines cuidadosamente enfeitadas para o Natal. Ajeitou o casaco para evitar o vento frio. Alguns trouxas observavam curiosos o grande malão que ele arrastava e Edwiges, que arrepiava suas penas por causa do frio.

Harry parou para olhar algumas vitrines, lembrando-se da época em que saía junto com tia Petúnia e Duda para comprar presentes. É claro que isso tinha acontecido em poucos Natais, Harry só os acompanhava quando a Sra. Figg... bem, quando ela não podia ficar com ele na sua casa. Harry sorriu tristemente, pensando por algum tempo em como suas visitas à casa da Sra. Figg poderiam ter sido muito melhores se soubesse àquela época que ela era sua avó.

Parou à frente de uma loja de brinquedos. A vitrine estava enfeitada por um Papai Noel sorridente, rodeado por vários gnomos coloridos (Harry riu ao pensar na real aparência de um gnomo). Havia um trenzinho de brinquedo, que não parava de rodar e até soltava baforadas de fumaça. Harry voltou a se lembrar de quando saía para as compras de Natal e, mesmo que não ganhasse nenhum presente e ainda por cima Duda ficasse implicando com ele todo o tempo, ainda assim gostava do passeio.

- Será que Papai Noel vai trazer o trenzinho pra mim, mamãe?

Harry virou o rosto e viu um menininho de uns cinco ou seis anos saindo da loja de brinquedos de mãos dadas com a mãe.

- Escreva isso na carta para ele, filho. Quem sabe ele não lhe atende? Se você foi um bom menino esse ano...

- Ah, eu fui sim, não fui, mamãe?

A mãe sorriu e beijou a testa do menino. Harry continuou observando os dois, imaginando como teria sido se tivesse sua mãe também naquela idade... para sair e fazer compras de Natal, ou somente para lhe dar um beijo na testa e sorrir daquele jeito carinhoso...

- Ah, mamãe, mudei de idéia! – a voz do menino despertou Harry, e ele notou que os dois o encaravam. O menininho parecia muito excitado e apontava Edwiges. – Eu quero uma coruja, mamãe! Será que Papai Noel me dá uma?

- Anh... – a mãe parecia muito embaraçada. – Acho que Papai Noel vai achá-lo muito pequeno para cuidar de uma coruja, Ricky. O rapaz que está com a corujinha é bem mais velho, vê? E pare de apontar, é feio! – Harry sorriu e a mulher completou para ele: - Desculpe, moço.

Harry fez um gesto indicando que estava tudo bem, e ela saiu arrastando o filho, ainda muito excitado por causa da coruja.

- Parece que você está fazendo sucesso, Edwiges. – Harry brincou com a coruja, levantando a gaiola na altura dos olhos. Edwiges o fitou de volta através dos olhos cor de âmbar e soltou um pio superior. – Mas tenho a impressão de que você não agüentaria ser o bichinho de uma criança, não é? – ele completou, mesmo que seus pensamentos ainda vagassem num mundo paralelo, onde ele, assim como o menininho, tinha uma mãe para lhe acariciar, conversar ou até mesmo para ralhar com ele quando fosse necessário.

Harry caminhou mais um pouco, pensando em sua mãe durante o caminho. Depois seus pensamentos vagaram até sua infância de verdade, e ele irremediavelmente voltou a pensar nos Dursleys. Foi então que se lembrou que os tios, agora, estavam mortos, e Duda, como ele, órfão...

"Mas Duda já teve seus pais por bastante tempo. Eu não."

Balançou a cabeça, tentando desviar seus pensamentos. Era cruel pensar daquela maneira. Ninguém merecia perder os pais daquele jeito. Nem mesmo Duda.

"Você está pensando como ele novamente. Está sendo tão cruel quanto Voldemort seria..."

Não, claro que não! Harry sentiu a cabeça doer. Tinha que parar de pensar naquilo, tinha que esquecer aquelas coisas. Ele não era como Voldemort só porque tinha uma ligação de sangue com ele. Tinha que pensar que isso era um fato imutável, assim como também era imutável Snape ser um idiota implicante, e nada podia mudar isso. Mas Harry não tinha culpa em nenhum dos dois casos. Não mesmo.

Finalmente, Harry dobrou uma esquina e deparou com uma rua completamente deserta. As vitrines ali estavam abandonadas, sujas e cheias de poeira, e as lojas fechadas. A rua era cheia de prédios velhos e gastos, e não havia nem uma vivalma nas janelas. A calçada estava cheia de lixo e sujeira, e o lugar fedia um pouco. As únicas coisas que se mexiam eram algumas baratas que corriam para uma boca de lobo. Harry ainda esperou algum tempo para ver se um mendigo, deitado num papelão do outro lado da rua, se mexia, mas ele parecia dormir profundamente. Harry suspirou e começou a se concentrar.

Como era mesmo que tinha que fazer? Ele começou a se lembrar do dia do teste de aparatação, mas a primeira coisa que veio à sua mente não era muito útil, mesmo que fosse engraçada: Malfoy sem cabelos porque tinha feito tudo errado. Rindo baixinho para não acordar o mendigo, Harry fez força para se lembrar do que tinha que fazer.

Lentamente, começou a esvaziar sua cabeça de pensamentos. Como estava muito silêncio, foi um pouco mais fácil, mesmo que fosse complicado esquecer que sua cicatriz ainda ardia levemente. Então, começou a se imaginar voando em sua Firebolt... Lembrou que precisava se imaginar com tudo junto, então se viu voando junto com Edwiges e seu malão. Depois, imaginou-se voando sem a vassoura... Então, abriu os olhos e pensou na sala de visitas da casa de praia.

Craque.

A primeira coisa que sentiu foi seu traseiro fazendo um contato brusco com o chão de madeira. O malão soltou um estrondo ao cair e se abriu, roupas e livros se espalhando pelo tapete. Edwiges piou indignada quando sua gaiola rolou dois metros, mas Harry achava que ela tinha se sentir muito feliz por ter chegado inteira.

A segunda coisa que sentiu foi o estômago revirar. Levou a mão à cabeça, sentindo-se tonto e enjoado. Parecia que ainda não tinha pegado muito bem o jeito da coisa, mas, ao menos, tinha chegado inteiro no lugar que queria. Harry se levantou, cambaleando um pouco, e se viu na sala de estar da casa de praia; esta continuava a mesma, com os móveis de madeira, o sofá branco e os quadros que se mexiam. A escada circular levava ao andar superior e ainda havia a porta grande que dava para a cozinha. Harry se dirigiu para lá, não sem antes endireitar a gaiola de Edwiges e soltá-la (a coruja bicou irritada a mão do rapaz e, depois que ele abriu uma janela, voou, perdendo-se no céu branco); pelo caminho, foi se apalpando para checar se não tinha deixado algum pedaço em algum canto do país, pensando no quão ridículo estava sendo.

Pegou água da geladeira e encheu um copo, sentando-se à mesa para bebê-la. Estava um silêncio medorrento no lugar, e o único som, distante, era o do suave vai e vem das ondas na praia. Depois de passar alguns minutos sentado, apenas pensando em várias coisas, Harry resolveu subir para seu quarto. Chegando lá, nem reparou se ele continuava o mesmo. Apenas se jogou na cama macia e caiu no sono sem nem trocar de roupa. E dessa vez estava tão cansado, que não sonharia nem se quisesse.

 

*******

 

Abriu os olhos lentamente. Demorou algum tempo para lembrar que estava no seu quarto, na casa de praia. O ambiente estava ligeiramente embaçado e escurecido, e apenas uma fresta da luz da lua penetrava pela sacada aberta. As cortinas balançavam suavemente ao sabor do vento.

Harry se sentou, sentindo novamente aquele som enjoativo e pastoso que se tem ao acordar. Levou as mãos até o rosto para esfregá-los e percebeu que algo estava faltando; não se lembrava de ter tirado os óculos quando caiu na cama. Procurou por eles e encontrou-os na mesa de cabeceira.

Quando saiu da cama, ainda embriagado pelo sono, percebeu que permanecia com as vestes que usava quando chegou. Foi até o armário e apanhou algumas roupas que não tinha levado para Hogwarts no semestre anterior, procurou por um toalha e saiu do quarto, em direção ao banheiro, pensando durante todo o caminho se Sirius já teria chegado. Mas a casa estava muito silenciosa, e Harry sabia que Sirius normalmente fazia bastante barulho quando estava em casa.

A primeira coisa que fez quando entrou no banheiro foi pegar sua escova de dentes no armário da pia, louco para tirar aquele gosto desagradável de cochilo da boca. Enquanto escovava os dentes, observou seu reflexo no espelho e percebeu o quanto parecia acabado. Talvez tivesse sido apenas a viagem, o cansaço ou o esforço que fez para aparatar, sem muita experiência. Ou talvez...

Harry não saberia dizer porquê, mas sentia-se vazio. Quase como se alguma coisa importante tivesse sido tirada dele, e agora ele tinha um estranho sentimento de saudade. Parecia que algo estava faltando. E ainda havia outra sensação, ainda mais estranha... como... como se estivesse lendo um livro, e estivesse ansioso para saber o final da história. Mas Harry não sabia que história era essa que ele queria terminar de ler – ou escrever? – e não entendia o que estava sentindo.

Cuspiu a pasta de dente na pia, lavou a boca e em seguida o rosto. Quando se olhou novamente no espelho, viu seu reflexo encará-lo com os olhos fundos e cansados, as gotas de água escorrendo por sua pele. Parecia mais velho... mais... endurecido... e também teve uma sensação esquisita, como se fosse outra pessoa que estivesse lhe encarando. Sentindo um arrepio na nuca, Harry desviou os olhos e não mais fitou o espelho.

Ouviu o som característico de água batendo no piso quando abriu o chuveiro. A água quente escorreu por suas costas quando colocou a cabeça debaixo da ducha. Ficou por muito tempo apenas sentindo o líquido cair, sua cabeça viajando em pensamentos.

"Anh... hm... então... eu só te chamei aqui... pra me despedir..."

O sabonete escorregou dos dedos de Harry e soltou um ruído alto quando encontrou o piso molhado. O rapaz ficou paralisado por alguns minutos, consciente de que a água quente ainda batia na sua nuca. O barulho da água caindo batucava em seus ouvidos. E, junto com esse som, havia ainda a voz de Katherine:

"Anh... tudo bem... Não precisa se preocupar..."

Então veio à sua cabeça a imagem de Katherine chorando desesperada em seus braços no dia em que tinha perdido a avó. Eles abraçados... Ela agradecendo a ele mais tarde... Ela o chamando pelo primeiro nome... Os dois deitados nos jardins, a neve caindo...

- PÁRA! – Harry gritou, sua voz ecoando no banheiro. A água ainda batia contra o piso e contra sua pele. Harry enterrou as mãos nos cabelos, fechando os olhos debaixo d’água, que escorria por sua pele. – Eu não vou mais pensar nisso... não vou... – ele sussurrou obstinado, na realidade quase um pedido, seus pensamentos irracionais fazendo-o entrar em pânico.

Alguns minutos depois, Harry fechou o registro e se envolveu na toalha macia. O pinga-pinga do chuveiro era quase insuportável. O banheiro estava envolto em vapor quente quando Harry saiu do boxe. Ele se enxugou, colocou uma camiseta folgada e uma calça bem quente, e depois arrepiou os cabelos com a toalha. Então seus olhos bateram mais uma vez no espelho do armário da pia.

O Harry refletido o encarava seriamente, seus olhos ainda fundos e cansados, seus cabelos molhados e mais despenteados do que nunca, cada fio apontando para um lado diferente.

- Admita, seu idiota, você está sentindo falta dela.

Harry levou um susto e recuou um passo tão bruscamente, que acabou esbarrando numa prateleira, derrubando a lata de loção de barbear. Houve um barulho estridente de metal contra o piso, que ecoou dentro do banheiro enquanto Harry ainda fitava o espelho, assustado. O seu eu refletido o encarava com desdém, quase como se o achasse estúpido. Então, Harry ficou furioso e retrucou:

- Cala sua boca, você não sabe nada!

O Harry do espelho apenas deu de ombros, dizendo "problema seu, então!", e depois saiu da moldura, deixando o espelho vazio. Harry ainda deu uma espiada para dentro do vidro, mas não tinha mais ninguém ali. Praguejando, apanhou os óculos que estavam sobre a pia e saiu do banheiro, ainda arrepiando os cabelos, mesmo que soubesse que já os tinha secado o máximo que podia.

Depois que desceu as escadas, Harry quase tropeçou no seu malão, que ainda estava jogado no meio da sala. Soltou um palavrão e ouviu um barulho na cozinha em seguida. Intrigado, caminhou até a porta e soltou outro palavrão de susto ao ver Sirius sentado à mesa, um mar de papéis o envolvendo. Parecia estar trabalhando. O padrinho riu, balançando a cabeça de um lado para o outro.

- Por que você não me avisou que tinha chegado? – Harry perguntou aborrecido, sentando-se à mesa, na cadeira ao lado da que Sirius utilizava.

- Você estava dormindo, ora. – o padrinho respondeu, tomando um gole de uma xícara de café que estava sobre os papéis, fitando o afilhado com o rabo dos olhos castanhos.

- E por que não me acordou?

- Esqueci de dizer, Harry: você estava dormindo feito uma pedra. – Sirius riu novamente. – Eu bem que tentei te acordar, mas você parecia que estava em outro mundo.

Harry soltou um "humpt" e resmungou qualquer coisa sobre estar cansado. Estava mais preocupado em observar os papéis que Sirius estudava; a maioria tinha o que parecia ser mapas e anotações. O bruxo, percebendo, puxou a varinha e fez um gesto amplo que fez os papéis sumirem.

- Você comeu alguma coisa, Harry? – o padrinho perguntou, levantando-se e abrindo o fogão.

- Ah... não... – o rapaz respondeu distraído, ainda pensando nos papéis. Mas era verdade que havia um rombo no seu estômago e que ele emitia sons esquisitos. – Fui dormir direto... Hum, Sirius, o que eram esses papéis, hein?

- Coisas do trabalho. – o bruxo respondeu esquivo, acenando com a varinha. Pratos, talheres e copos que estavam nos armários saíram voando e se posicionaram sobre a toalha de mesa. – Você é doido, é? – ele guinou a conversa rapidamente para outro assunto mais seguro. – Fico imaginando o quanto Lílian encheria meus ouvidos se soubesse que não estou alimentando seu filhinho direito... – completou, bem humorado. A piada, no entanto, não caiu muito bem.

- Fica, é? – Harry disse vagamente, a voz lenta e vazia. Sirius parou seu movimento de fazer flutuar a comida pela cozinha e se virou para fitar o afilhado, constrangido.

- Hum, me desculpe, Harry...

- Ah... que nada... tudo bem... – o rapaz deu de ombros, sorrindo, apesar de estar sentindo o mesmo vazio que sentira quando assistira aquela mãe trouxa e seu filho comprando presentes de Natal. – O que ela diria, hein?

- Ah... – Sirius soltou um risinho pelo nariz, e fez travessas de comida aterrissaram um tanto bruscamente sobre a mesa. – Ficaria me enchendo porque não cuidei bem de você... – ele se sentou e fitou o afilhado. – Teve uma vez...

Então ele parou, indeciso entre contar ou não a história.

- Anda, conta, Sirius. – Harry incentivou sinceramente, servindo-se de batata e carne de uma travessa. Gostava quando alguém lhe contava como eram seus pais.

- Ah, então... – ele pigarreou, também começando a se servir. – Quando você tinha uns três ou quatro meses, Tiago e Lílian tiveram que resolver uns assuntos com Dumbledore... – ele parou por alguns instantes, pensativo. Depois sacudiu a cabeça e continuou: - E eu fiquei cuidando de você. Mas aí você deu um chilique numa hora lá e começou a chorar, chorar... E não parava! Quando Lílian chegou, me deu um esporro. Você tinha...

Então Sirius parou de falar e começou a rir. Harry se virou intrigado para ele.

- O que foi? O que eu tinha feito?

Sirius lançou ao afilhado um olhar maroto e ergueu as sobrancelhas.

- Você tem certeza que quer saber?

- Claro.

- Lembre-se de que foi você que pediu! – Sirius avisou num tom dividido entre a seriedade e o riso; em seguida, deu de ombros e disse simplesmente: – Você tinha se cagado.

Harry engasgou com a comida.

- Credo, Sirius, eu estou comendo!

- Eu avisei! – ele riu. – Mas foi nojento, Harry. Verdade. Lílian me fez trocá-lo, só de pirraça. "Você que estava cuidando dele, Sirius, agora se vire!" – ele imitou uma voz fina, fazendo uma careta. – E ainda por cima tive que fazer isso como os trouxas fazem, porque Lílian era meio biruta e tinha algumas manias esquisitas de fazer algumas coisas como os trouxas. Foi muito nojento. Tiago ficou ao meu lado, rindo da minha cara, como qualquer bom amigo faria.

Harry largou o garfo, enjoado e envergonhado, já que ele era o centro da história.

- Dá pra mudar de assunto?

- O quê? Você tem nojo do próprio cocô? – Sirius zombou, rindo.

- Cala a boca, Sirius! – Harry atirou o guardanapo no padrinho, rindo também.

Eles passaram alguns minutos em silêncio, comendo, até que Sirius comentou sonhadoramente:

- Mas essa é uma boa história pra contar para seus amigos, não?

Dessa vez, Harry atirou o pacote de guardanapos no padrinho.

- Se você espalhar isso, é um homem morto, Sirius!

Os dois riram em seguida.

- Mas, sabe? – Harry disse um tempo depois. – A Sra. Weasley ficou bastante aborrecida com você porque não foi me buscar lá na estação.

- Ah, isso... – Sirius disse com a boca cheia, engolindo. – Eu sabia. Ela ficou doida da vida quando eu pedi a ela que passasse o recado pra você. Falando nisso...

Sirius, então, segurou o queixo de Harry e começou a examiná-lo.

- Que foi?

- Ah, só tô checando pra ver se tá tudo aqui... Você não se esqueceu de nada quando aparatou, não é?

Harry engasgou novamente, dessa vez com o suco de abóbora.

- É claro que não! – respondeu emburrado, limpando a boca e afastando a mão de Sirius.

- Tem certeza? – Sirius fez um careta, arregalando os olhos. – Você já se verificou se... – e apontou para baixo, num local estratégico dos homens. - ...se tá tudo inteiro mesmo?

- TÁ TUDO INTEIRO, TÁ LEGAL?!

Sirius caiu na risada.

- Tudo bem... não está mais aqui quem falou. – ele deu de ombros. – Veja bem, eu só pergunto porque você é meu afilhado e tudo, e aí eu me preocupo, e... – ele arregalou os olhos para o rapaz. – Harry?! Onde está sua orelha?

- Quê? – Harry levou imediatamente as mãos às orelhas. Um segundo depois se sentiu estúpido. É claro que suas orelhas estavam ali, acabara de vê-las no espelho do banheiro. Sirius voltou a gargalhar. – Seu ridículo!

Sirius parou de rir bruscamente.

- Pontas me chamava de ridículo quando ficava nervoso comigo... – disse, perdido em lembranças. Harry ficou sério de repente também, então Sirius balançou a cabeça de um lado para o outro. – Por falar nisso, você deixou seu malão jogado na sala de visitas. Tinha cueca voando pra tudo quanto era lado...

Harry soltou um "pfff" desdenhoso com a língua.

- E por que não levou para o meu quarto?

Foi a vez de Sirius soltar um "pfff".

- Tá me achando com cara de elfo doméstico, é? Leva você, oras!

Os dois riram novamente, amenizando o clima depois da menção ao pai de Harry, e voltaram a jantar. E, ao menos naquela noite, Harry não mais sentiu aquele vazio de antes.

 

*******

 

A rede rangia suavemente. Harry havia largado seu corpo nela, um dos pés soltos para fora, o qual ele utilizava para se balançar preguiçosamente. Ouvia o som contínuo das ondas quebrando na praia e observava, com os olhos perdidos, o sol pálido se pondo devagar no horizonte. Ajeitou o cachecol no pescoço; o frio era enregelante.

Fazia somente dois dias que estava de férias, no entanto, sentia falta de companhia, o que era bem estranho. Quando estava em Hogwarts, várias vezes se isolava, preferindo ficar sozinho, e agora desejava ter gente por perto. Sirius ficava fora o dia todo trabalhando e só chegava já de noite, que era quando os dois jantavam e conversavam. Harry pressionava o padrinho, tentando descobrir o que ele andava fazendo (sabia que era algo para Dumbledore, mas não conseguiu descobrir mais do que isso), porém Sirius sempre tomava cuidado para não falar demais, e geralmente mudava de assunto.

Harry suspirou cansado. Passara o dia todo tentando decifrar outro de seus sonhos malucos. Dessa vez, Voldemort não estava presente nele, mas mesmo assim foi perturbador. O sonho não fora muito claro, mas Harry se lembrava que estava discutindo fortemente com uma pessoa que ele não lembrava conhecer, mas que, no sonho, conhecia muito bem.

O rapaz fechou os olhos por um instante, tentando relembrar o sonho, mas as imagens lhe escapavam cada vez mais à medida que o tempo passava. Aquele sentimento estranho – de que a história ainda continuaria – permanecia, entretanto. Harry forçou-se a lembrar, a ponta de seu pé ainda balançando a rede lentamente, os olhos comprimidos, as ondas quebrando na praia ao longe...

- ´ARRY!

- Quê?!

Ele abriu os olhos assustado, como se tivessem lhe jogado um balde de água gelada, e deu um pulo no mesmo lugar. O resultado foi se atrapalhar todo e se enroscar na rede. A próxima coisa que sentiu foi o chão duro e uma dor enorme nas costas. Deitado estirado no chão de madeira da varanda, ele viu a rede sobre si, balançando suavemente, toda enrolada. Então alguém riu com uma vozinha aguda.

Harry virou lentamente o rosto sobre o chão e bateu os olhos na imagem invertida de uma garotinha loira, de tranças, rindo com as pequenas mãozinhas cobrindo a boca. Ela se assemelhava a um pequeno ursinho de pelúcia, atolada em um casaco de lã amarelo que parecia ser pelo menos duas vezes o seu tamanho; além dele, suas perninhas eram cobertas por grossas meias de lã (rosadas, estampadas com bolinhas brancas), que ficavam por baixo de um vestido esfiapado de margaridas. Um cachecol verde, enrolado várias vezes no pescoço, completava o figurino. O engraçado era que Agatha, mesmo assim, ainda era bonitinha, como qualquer criança na sua idade.

- Você quer me matar de susto, menininha? – Harry perguntou num tom leve, mesmo que realmente tivesse levado um enorme susto e seu coração ainda estivesse disparado.

Agatha continuou a rir gostosamente com sua voz fininha, suas mãozinhas cobrindo o rosto levemente rosado pelo frio.

- ´Cê ´tava distaído, ´Arry!

Harry se sentou, sorrindo para a garotinha, apesar da ligeira dor nas costas. Quando abriu a boca para perguntar como Agatha sabia que ele já tinha chegado, foi sufocado pelos dois bracinhos agasalhados da menina, que apertavam com força seu pescoço.

- Eu ´tava com saudade, ´Arry!

- Eu também, eu também... – ele respondeu rindo, tentando em vão se livrar do aperto sufocante da garotinha. – Mas me deixa respirar, vai...

Ela o soltou, rindo. Harry se levantou do chão e começou a desenroscar a rede.

- Você cresceu, Agatha. – Harry comentou, observando a menina enquanto se sentava novamente na rede. Ela pareceu encantada.

- ´Cê acha? – perguntou ansiosa, os olhinhos redondos brilhando. Harry assentiu, e a menina pulou de felicidade. – Mamãe também acha! – e então, mudou bruscamente de assunto. – ´Arry, ´cê qué brincá?

- Ah... – ele suspirou desanimado. – Eu estou cansado, Agatha... Que tal você se sentar aqui comigo pra gente conversar?

Ela ficou paralisada por alguns instantes, um tanto decepcionada, então pulou em cima de Harry, quase derrubando-o da rede novamente. Ele a segurou e a sentou no colo, balançando a rede para diverti-la.

- Então, menininha... como me achou aqui?

- Ah... – ela abafou risadinhas. – Segredo!

- Vamos ver se é mesmo! – Harry disse num tom divertido e começou a fazer cócegas na menina, que chorou de rir e acabou dizendo, sem fôlego:

- Mamãe... seu padinho contou pr´ela...

- Ah, é mesmo? E como estão seus pais?

Agatha se virou para olhar Harry, seus olhinhos mais brilhantes do que nunca.

- Mamãe foi em Freshpeach! Ela disse que vai me... como era mesmo? Ah... – a menina deu de ombros, desistindo de lembrar a palavra. – Mas, ´Arry, eu vou pra escola!

- Mas já? Não deveria esperar até setembro do ano que vem?

- Mamãe diz que eu sou muito... – Agatha apertou os olhos com força por alguns instantes, como se tentasse lembrar a palavra. – Agitada! – ela exclamou, seus pequenos olhos se arregalando novamente. – E por isso preciso ir pra escola... Ela diz que lá em Freshpeach eles deixam ir mais cedo... Vou entrar no meio do ano, mas mamãe diz que não tem problema. Mas, ´Arry, vou fazer sete anos mês que vem! – ela contou com o orgulho. – Mamãe disse que na escola vou aprender a ler e vou fazer muitos ´migos!

- Você vai gostar... escola é legal...

- Mas mamãe e papai estão preocupados... – ela fez uma cara séria, como se fosse contar uma coisa muito importante.

- Por quê? – Harry perguntou paciente, sabendo que deveria ser alguma coisa boba.

- Porque... – ela abaixou o rosto um pouco, pressurosa, alguns fios loiros que tinham se soltado da trança caíram sobre seu rosto. – Porque em Freshpeach... pessoas... – ela respirou fundo, espiando Harry de esguelha, muito séria. – ...morreram!

Harry não entendeu aonde ela estava querendo chegar, mas sentiu que o assunto não era tão bobo assim.

- Como assim, Agatha? Como morreram?

- Pessoas ruins... – a menina sussurrou, séria. – Foi sim, pessoas más... mataram as pessoas...

Harry parou de balançar a rede, encarando a menina, alerta.

- Que pessoas más, Agatha?

A menina fechou os olhos e girou a cabeça freneticamente de um lado para outro, balançando-se para frente e para trás.

- Não sabem! – exclamou, ligeiramente histérica. Então ela abriu os olhos e encarou Harry com os olhos arregalados. – Mas ouvi papai e mamãe conversarem. Eles diziam que Freshpeach não é mais segura. E deu na TV... eu me escondi debaixo da mesa pra ouvir... – Agatha confidenciou num sussurro. – Gente com roupas pretas... sem rostos... Papai disse que se chamavam... – ela fez um esforço para se lembrar. – Gan... gangues! Mas... – a menina mordeu os lábios, ansiosa e confusa. – Eu vi na TV, ´Arry! As pessoas só pareciam... estar dormindo.

Harry ficou paralisado, chocado com o que a menina tinha acabado de dizer. Seria possível que... Então Harry se lembrou de quando Agatha mencionou, no verão passado, que seu pai tinha visto pessoas com "roupas pretas e compridas, segurando varetas" em Freshpeach. Bruxos. Mas Harry não tinha dado muita importância ao assunto na época; agora, no entanto, a menina estava dizendo que pessoas tinha sido assassinadas por gente vestindo roupas pretas, e as pessoas pareciam estar dormindo, sem marcas nem vestígios. Poderiam ser... bruxos... Comensais da Morte? A cabeça de Harry funcionava a mil. Eram comensais, e estavam matando trouxas na cidade. Mas o que poderia interessar a Comensais da Morte em Freshpeach? Não havia nada ali que fosse importante... exceto...

O rapaz levantou o rosto. Da varanda de casa, dava para ver uma parte da imponente "casa mal assombrada", temida pelos moradores da região. Mas Harry sabia o que tinha ali dentro. Ele sabia que aquela casa era, na verdade, Godric´s Hollow, o lugar onde Voldemort tinha ido procurar os Potters, o lugar onde seus pais tinham morrido... o lugar onde ele tinha ganho sua cicatriz...

- ´Arry?

Ele voltou bruscamente à realidade. Agatha, parecendo muito aborrecida por estar sendo ignorada, puxava-o pelo colarinho da camisa, seu rostinho contorcido de nervoso.

- ´Cê ouviu o que eu disse?

- Ah, não, Agatha... desculpe, o que você falou?

Ela fez um bico, suas bochechas se enchendo de ar, e cruzou os braços, muito zangada.

- Ah... não faz assim, vai? – ele pediu. – Fala, eu estou ouvindo agora...

Ela soltou o ar das bochechas todo de uma vez, bufando.

- Papai disse que é melhor eu não ir pra escola agora por causa disso! – ela exclamou, meio aborrecida, meio decepcionada. - ´Arry, eu vou ficar sozinha de novo!

Harry sorriu, abraçando a menininha, que parecia ainda muito zangada.

- Não vai ficar, não... você vai ver... – ele disse em tom de consolo, mas sua cabeça estava longe, mais especificamente em uma certa "casa mal assombrada"...

 

*******

 

Harry estava na sala de estar cirurgicamente limpa de tia Petúnia. Só que não fazia sentido estar ali; fazia anos que não pisava na casa dos Dursleys. Ele abaixou os olhos e viu dois corpos estendidos no chão. Recuou assustado, sufocando um grito. Eram os corpos de tia Petúnia e tio Válter. Mortos.

- É TUDO CULPA SUA, SEU ANORMAL!

Harry se virou para o lado e viu seu primo Duda, o rosto contorcido em fúria, apontando o dedo em riste para ele.

- VOCÊ OS MATOU! VOCÊ OS MATOU!

- Não, Duda, eu...

- SE VOCÊ NÃO FOSSE UM ANORMAL, ELES NÃO ESTARIAM MORTOS AGORA!

- Você está enganado...

- Ele está certo. – uma voz fria disse atrás de Harry. Quando se virou, Voldemort sorria, os olhos vermelhos cintilando de maldade, a varinha apontada diretamente para o coração de Harry. – Você os matou... Você matou todos eles... é por sua culpa que todos estão morrendo...

- NÃO! A CULPA É SUA! – Harry gritou desesperado. – VOCÊ ESTÁ MATANDO TODOS ELES!

Voldemort riu, e sua risada ecoava por todo o lugar e dentro de Harry, como um veneno se alastrando por suas veias, misturando-se ao seu sangue...

Então as risadas pararam, e Voldemort, ainda sorrindo, falou:

- Mas eu vou matá-lo, Harry... e aí todos estarão finalmente livres de você...

Mas havia alguém na frente de Harry quando Voldemort começou a proferir a maldição.

- Afaste-se. – Voldemort ordenou friamente, dando um passo na direção da pessoa, que recuou. – Afaste-se, menina...

Harry sentiu um aperto no coração ao perceber o que ela estava prestes a fazer.

- Não, mãe!

- Avada Kedrava!

- Mãe, não! Não morra...

Mas o corpo de Lílian Potter caía em câmara lenta na frente de Harry e ele, impotente, nada podia fazer. Houve um brilho de luz verde em seus olhos, e a cena toda se dissolveu...

O sonho mudou...

O homem ainda dedilhava lentamente a espada coberta de esmeraldas, que refletiam seu brilho verde nos olhos dele. Um sorriso maldoso estava em seus lábios.

- O que queres? – perguntou impaciente.

- Ora, tu não sabes? – retrucou o outro, ainda passeando os dedos longos pelas esmeraldas.

- Tu nos abandonaste. Não há mais o que discutir.

- Pois eu tenho assuntos pendentes contigo, ainda.

- Não enxergo quais.

- Logo vais entender.

Ele parou de passear os dedos pelas esmeraldas. Aquele mesmo sorriso cheio de ódio, rancor e malícia estava em seus lábios quando levantou os olhos. Lentamente, ergueu-se da poltrona onde se localizava e, num gesto brusco, apontou a espada.

- O que estais fazendo? – perguntou, recuando um passo.

O homem sorriu com uma sinistra diversão.

- Não percebeste ainda?

O homem avançou rapidamente, a espada de esmeraldas em punho, mas estava preparado. Desembainhou a própria espada, cravejada de rubis, e houve um barulho estridente e metálico quando as duas lâminas fizeram contato.

- Pare, seu louco!

- Não é para isto que treinamos? Para o duelo? – o homem perguntou, seus olhos refletindo o brilho demente das esmeraldas quando os dois estavam a centímetros de distância, as espadas forçadas uma contra a outra, retinindo.

- Mas não para nos matarmos!

- E qual é a graça de um duelo sem o perigo da morte?

- Tu perdeste o juízo!

Recuou, chocado, o homem à sua frente ainda sorria maniacamente, nem parecia aquele que tinha conhecido, que um dia fora seu amigo...

- Não me venha com essas tolices! Tu me traíste!

- Eu?!

- Não te faças de tonto! – o homem avançou, atacando. Obrigado a se defender, revidou o ataque, as espadas se chocaram novamente, retinindo agourentamente.

O homem desferia ataques seguidos, as espadas cantando uma música de morte ao se encontrarem no ar; por sua vez, não sabia como agir, e apenas se defendia, recuando sempre mais, até que foi encurralado numa parede. As risadas do homem à sua frente ecoaram pela sala. A espada dele, a centímetros de seu pescoço, forçava a sua, cuja lâmina afiada era segura por sua mão esquerda; o homem aplicava mais e mais força contra a espada, sedento de vingança. Ao mesmo tempo, sua mão estava sendo retalhada pela lâmina afiada de sua própria arma; sangue vermelho já escorria por sua superfície polida e brilhante.

- É o momento de minha vingança...

- Estás muito enganado...

Estava farto daquilo. Imprimindo uma força descomunal para frente, empurrou o homem que tentava matá-lo e desferiu um golpe brutal com a espada, que cortou o ar. O homem recuou, os olhos arregalados em terror; houve um silêncio agourento, então ele levou a mão ao coração, e ela se manchou de sangue.

- Oh, não... Santo Deus, o que eu fiz?

Largou a espada de rubis no chão, desesperado, assistindo o outro cair de joelhos no chão, a boca aberta em choque, as mãos ainda apertando o coração. O sangue começava a pingar no chão.

- Salazar... – ajoelhou-se no chão, ao lado do homem, que caiu em seus braços estendidos. Sentiu o sangue quente empapar-lhe as vestes. – Salazar!

O homem ergueu os olhos para ele, agonizante. Tremia agora e o sangue brotava aos borbotões, banhando-os em um mar vermelho. Havia ódio, ainda, em seus olhos quando murmurou com dificuldade:

- Tu me derrotaste, Godric. Eu sou um bruxo morto.

- Não, Salazar... não foi minha intenção, tu estavas me atacando e...

- Mas eu juro, Godric. – o homem fez força para falar, e seus olhos cintilavam de mágoa e fúria. – Eu me vingarei de ti. Eu voltarei e te matarei, da mesma maneira que fizeste comigo.

- Não, Salazar... – homem fechou os olhos lentamente. – Não...

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

Harry se sentou na cama, a ar penetrando em seus pulmões como se nunca tivesse respirado como devia, seu pijama empapado em suor gelado e o corpo tremendo por inteiro. A dor em sua cicatriz era quase insuportável, mas ela não era a única coisa que estava doendo; ele puxou a mão esquerda de debaixo das cobertas, e uma dor inexplicável se alastrava por ela. Ele se encolheu, fechando os olhos, gemendo, apertando-a com a mão direita, tentando estancar o sangue...

Sangue? Que sangue?

Foi então que abriu os olhos novamente, ofegante, e, com receio do que veria, fitou sua mão, mas não havia sangue ali. Não havia corte nenhum e, no entanto, ela continuava doendo sem explicação, como se tivesse acabado de ser retalhada...

- Godric... – ele sussurrou, balançando o corpo, que ainda tremia, para frente e para trás na cama. As imagens do sonho passavam como um filme na sua mente, especialmente aquela em que a espada acertava aquele homem... e depois ele caía, morto... sangue em suas mãos... – Salazar...

Seu estômago dava voltas e mais voltas. A cicatriz o fazia enjoar. A mão ainda parecia rasgada. Mas Harry não conseguia se esquecer do sangue quente em suas mãos e do homem morto por ele em seus braços.

Afastou as cobertas e saiu da cama, mas levou um tombo ao tentar ficar de pé. Suas pernas tremeram violentamente e ele caiu de bruços no tapete. Finalmente o que ameaçava acontecer desde que acordara veio com força total, e Harry vomitou no tapete. O cheiro horrível invadiu suas narinas e ele se afastou para o lado, com nojo, seu estômago ainda mais revirado; aquele gosto pavoroso na sua boca fazia com que tivesse vontade de vomitar novamente. A cicatriz ainda doía, bem como a mão esquerda.

Seu corpo estava tão pesado, que parecia que uma mão invisível o puxava, cada vez mais, para baixo. Harry se arrastou pelo chão, a cabeça girando de dor, e tentou se levantar, apoiando-se na escrivaninha. Ele atirou no chão pergaminhos, penas e vidros de tinta ao se utilizar do móvel para se aprumar, seu corpo tremendo violentamente, seus olhos cegos de dor e pânico. Tinha que encontrar... Godric e Salazar... tinha que encontrar...

Ele conseguiu, com muito esforço, chegar até a estante. Seus olhos, desvairados, procuraram desesperadamente por aquilo que desejava. Sabia que estava ali, em algum lugar... Com as mãos ainda trêmulas, Harry começou a puxar livros e mais livros, e jogá-los para trás febrilmente. Eles faziam um estrondo ao chocar-se contra o chão, mas ele nem se importava. Só precisa encontrar... encontrar aquele livro... Sabia que Hermione tinha ajudado Sirius a comprar aqueles livros, portanto, com certeza, ela tinha falado para ele comprar aquele também. Já o tinha visto na estante, tinha que estar ali...

- MERDA! – exclamou enfurecido, desesperado para encontrar, jogando livros para trás, a cicatriz ainda doendo horrivelmente, as pernas desistindo de sustentá-lo...

Até que finalmente encontrou. O bendito livro de que Rony tinha tanta bronca: "Hogwarts, uma história".

Deixou-se cair novamente no chão quando as pernas finalmente cederam de vez, e abriu o livro, desesperado. Virou páginas e mais páginas, febrilmente, rasgando algumas na ânsia de encontrar o que procurava. Tinha que estar em algum lugar... tinha que mencionar algo sobre aquilo...

- AH! – gritou vitoriosamente no quarto vazio quando finalmente seus olhos bateram em um título que dizia:

 

O rompimento entre Gryffindor e Slytherin

 

Hesitou antes de ler o resto. Respirou fundo, fechou os olhos e, sentindo o coração bater com muita força contra o peito, começou a ler as linhas que se tornavam turvas e embaçadas aos seus olhos:

Poucas pessoas acreditam que Godric Gryffindor e Salazar Slytherin, um dia, foram amigos. A rixa entre Gryffindor e Slytherin, Grifinória e Sonserina, é lendária e milenar, mas os fundadores da sua casa foram unidos por um forte laço de amizade antes do seu derradeiro duelo.

A briga começou quando Slytherin decidiu que a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts não deveria aceitar alunos que não tivessem sangue inteiramente mágico, em outras palavras, descendentes de trouxas. Esta decisão foi veementemente vetada pelos outros fundadores: Helga Hufflepuff, Rowena Ravenclaw e Godric Gryffindor; este último teve uma forte discussão com Slytherin que, sozinho e marginalizado pelos colegas, decidiu abandonar a escola.

Antes do desentendimento, Gryffindor e Slytherin tinham o hábito de treinarem duelos entre si utilizando espadas. Apesar das habilidades de ambos serem notáveis, Slytherin se destacava. Porém, nem mesmo sua superioridade o livrou da derrota – e da morte.

Ainda são nebulosas as circunstâncias que marcam o duelo final entre os dois fundadores de Hogwarts. O que se sabe é que, após a saída de Slytherin de Hogwarts, ele e Gryffindor tiveram um encontro que resultou em sangue derramado. Após um duelo mortal, surpreendentemente, foi Gryffindor que venceu, matando seu antigo amigo, sendo este um dos motivos para a interminável disputa e rancor entre sonserinos e grifinórios, que marca a história de Hogwarts...

Harry fechou o livro, batendo as muitas páginas com estrondo. Seu queixo estava caído em choque e pânico. Não podia ser. Sua cabeça girava por causa de toda aquela informação e dor. Por que aquele sonho? Mas no seu íntimo, Harry tinha uma desconfiança, e ela só servia para deixá-lo ainda mais confuso. Era fantasioso e inacreditável demais. Era impossível!

Porém, possuía uma única certeza:

Gryffindor não tivera a intenção de matar Slytherin há mais de mil anos...

 

*******

 

Quando Harry finalmente conseguiu se acalmar o suficiente para se levantar e ser capaz de se manter em pé, já era bem tarde da manhã. Mesmo que sua cabeça ainda girasse em pensamentos cada vez mais angustiantes, e sua cicatriz ardesse levemente, Harry se forçou a sair daquele estado de pânico irracional que se apossara dele após acordar dos sonhos. Com a varinha, tinha dado um jeito na nojeira que ficara seu tapete, e depois arrumara os livros, pergaminhos e penas que se espalharam pelo quarto. Em seguida, tomara um longo banho quente para se livrar daquela sujeira e do suor que empapara suas roupas.

Desceu as escadas, mas sem vontade alguma de ir à cozinha comer. Por muito tempo, pensou se deveria ou não contar o que estava acontecendo a Sirius, até que decidiu que seria o melhor a se fazer; se Sirius não solucionasse suas dúvidas, ao menos seria alguém para desabafar.

Mas Sirius não estava em casa novamente. Harry encontrou um bilhete dele na mesinha do telefone, avisando que precisara sair cedo e não tinha previsão de quando retornaria. Harry amassou o bilhete, desapontado. Não sabia se, quando Sirius voltasse, teria tanta convicção de que deveria contar o sonho e suas suspeitas sobre o que ele significava. De qualquer maneira, não havia nada que pudesse fazer naquele momento, nem nenhuma pessoa com quem pudesse falar...

Foi então que Harry reparou no telefone. Sua mão direita hesitou sobre o fone, e sua mente foi direto nas lembranças do sonho. Dentro de sua cabeça, passaram, como se fosse um filme, as imagens perturbadoras dos corpos de seus tios trouxas sobre o tapete da sala de estar do n.º 4 da Rua dos Alfeneiros... Duda o culpando... Voldemort o acusando... o corpo de sua mãe caindo no chão... sem vida...

De que vai adiantar? Ele não vai me ouvir...

Era bem capaz que o culpasse, como no sonho... E, além disso, por que estava tendo aquela vontade de falar com ele? Não tinha nada para falar com ele. Seria porque... porque...

Porque está se sentindo culpado?

Mas eu não tenho culpa! Ou...

Pense mais uma vez. Não tem mesmo?

Harry fechou os olhos com força, sua cabeça latejando de dor. Respirou muito fundo, mordendo os lábios em silêncio, aquele silêncio medorrento e assustador que se instaurara na casa. Quando abriu os olhos novamente, o telefone ainda estava ali, à sua frente. Suspirou lentamente. Tinha esperança que ele tivesse desaparecido.

Apanhou o fone do gancho, colocou-o no ouvido e ouviu o som contínuo da linha. Seus dedos hesitaram na hora de discar. Havia ainda um resquício do desespero do sonho, e suas mãos tremiam ligeiramente. Harry engoliu em seco e quase desistiu, quase devolveu o fone no gancho, mas as imagens na sua cabeça e aquela voz repetindo "Não tem culpa mesmo?" foram mais fortes.

Ele discou o número, um pouco surpreso que ainda se lembrasse dele. Tinha, também, esperança de não se lembrar. Então ouviu o som da linha chamando, e se pegou desejando que ninguém atendesse. Seu coração batia um pouco mais rápido.

Não esteja em casa, por favor, não esteja em casa...

Talvez o número tenha mudado...

Talvez um estranho atenda...

Mas a voz que ouviu era familiar demais para que a esquecesse.

"Alô?"

Harry sentiu o estômago revirar mais uma vez, a garganta subitamente seca. A voz que vinha do outro lado da linha era familiar, porém, ainda assim, diferente; parecia mais madura, mais... amargurada... As imagens do sonho assombraram sua cabeça novamente...

"Alô?" a voz repetiu aborrecida. "Olha, se não falar logo, eu..."

"Duda?"

Houve um silêncio repentino. Quase dava para ouvir o cérebro de Duda processando aquela informação quase irreal que se colocava à sua frente. Harry sabia que ele estava reconhecendo, assim com ele também tinha feito, sua voz.

"Quem... quem é?"

O tom tinha mudado. Parecia hesitante e um pouco confuso. Harry percebeu que Duda não conseguia acreditar nos próprios ouvidos.

"Sou eu, Duda. O seu primo. Harry. Harry Potter."

Novo silêncio, dessa vez bem maior. Harry esperou, o suspense a ponto de matá-lo. As imagens não paravam de atormentá-lo...

"O que você quer?" havia raiva, ressentimento e ainda um pouco de surpresa na voz.

"Duda..."

Harry hesitou por um momento, sem saber o que dizer agora que tinha chegado o momento. Sua boca estava muito seca. Por que tivera, afinal, aquele impulso estúpido de telefonar para o primo? Não havia o que falar. Diria o quê? Que sonhara com os tios mortos, e Duda o acusava? Que não sentia muito pela morte dos tios? Ou que uma vozinha insistente dentro de sua cabeça não parava de lhe dizer que estava agindo como Voldemort e que a culpa pelos tios e outras pessoas estarem morrendo era dele?

"Fala logo!"

Harry trocou de ouvido, suas mãos suadas.

"Duda... eu soube o que aconteceu... com tia Petúnia e tio Válter..."

Silêncio.

"Sabe, é?"

Harry respirou fundo, lentamente.

"Eu só liguei pra dizer... pra dizer que..."

"Não quero que diga nada." Duda disse repentinamente, e Harry levou um susto com o tom que sentiu na voz dele. Não parecia nada o Duda que conhecera. Ele tinha mudado. "Eu nunca pensei que diria isso, mas foi bom que você tenha dado sinal de vida. Eu preciso mesmo falar com você."

Harry enrugou as sobrancelhas, perdido. Aquilo era inacreditável. Tinha que admitir a realidade: estava mesmo ficando maluco. Duda dizendo que "tinha sido bom ele ligar" e "que precisava falar com ele" era o cúmulo da insanidade, era a prova irrefutável de que Harry precisava urgentemente de internação. Aquilo não poderia ser real.

"Co... como?"

"É isso mesmo que você ouviu. Estou com algo que lhe pertence aqui em casa, e preciso lhe entregar. Quero me livrar logo dessa porcaria. Quando você pode vir buscar? Porque eu não vou mover um dedo pra fazer qualquer coisa por você."

"Mas... o que é?"

"Não dá pra contar por telefone."

"Eu... eu vou buscar, então." Harry afirmou, mesmo que ainda estivesse um tanto quanto confuso. "Quando posso ir aí? Você continua na Rua dos Alfeneiros?"

"Continuo no mesmo lugar por enquanto. Você pode vir hoje mesmo, aliás, é até melhor que venha. Tia Guida está fora, e é melhor que ela não veja alguém como você por aqui."

Harry ignorou o tom de desprezo em "alguém como você".

"Tia Guida está aí com você?"

"Está. Mas isso não lhe diz respeito."

Harry o ignorou mais uma vez.

"Estarei aí hoje, então. De tarde. O.k.?"

"Certo."

E Harry ouviu o som da linha caindo. Duda tinha desligado na sua cara.

 

*******

 

Harry desaparatou no parquinho que havia na Rua das Magnólias, atrás de um conjunto de arbustos, por volta das duas e meia da tarde. O dia estava claro, porém o céu estava repleto de nuvens ofuscantemente brancas. Um vento gelado fez seus pêlos da nuca se arrepiaram, e Harry ajeitou melhor o casaco que o cobria.

Ele saiu de trás dos arbustos, não sem antes verificar se a área estava livre de trouxas. O parquinho não poderia estar mais deserto. Harry observou nostalgicamente o parque por alguns minutos; os balanços estavam cobertos de neve, e de vez em quando o vento os empurrava um pouco, fazendo-os ranger sinistramente, pequenas quantidade de neve caindo sobre o chão com o movimento lento. Assim como os balanços, também os outros brinquedos estavam pintados de branco por causa da neve. A ausência de crianças ali, de certa maneira, tornava o lugar um pouco sombrio.

Harry, com as mãos nos bolsos e os olhos perdidos, passou alguns minutos lembrando-se das diversas vezes que Duda e sua gangue de amigos do mesmo tamanho que ele o maltrataram e humilharam naquele lugar. Certamente, a maioria das lembranças infantis que Harry tinha a respeito daquele parque não eram agradáveis. A verdade era que quase todas as lembranças infantis de Harry não eram boas.

Foi então que Harry se deu conta de que não tinha a menor idéia do que estava fazendo ali realmente. Duda não merecia sua compaixão. Por tudo que tinha feito a ele, merecia sim seu desprezo, e a contradição de tudo era que Duda era quem o desprezava ali. Foi bem feito para ele o que aconteceu, Harry pensou com amargura.

Você está sendo cruel novamente...

Harry gostaria de estuporar o dono daquela vozinha irritante em sua cabeça, mas sabia que ela era sua consciência e, infelizmente, ainda não havia sido descoberta uma maneira de se estuporar a própria consciência. Suspirando muito profundamente, Harry começou a caminhar sobre a neve fofa, lembrando a si mesmo que estava ali por causa da "certa coisa que Duda lhe entregaria e lhe interessava", e por nada mais.

Mas o que poderia ser essa coisa? Harry foi pensando nisso enquanto atravessava a Rua das Magnólias e virava na travessa de mesmo nome, tomando um atalho entre o Largo das Magnólias e a Alameda das Glicínias. Ele foi observando os sobrados que mais pareciam bolos cobertos de chantilly. As garagens e os jardins, tão bem cuidados durante o verão, agora estavam, em sua maioria, com neve impedindo a passagem. Harry percebeu que praticamente tinha se esquecido como era aquele lugar, principalmente no inverno, depois de ficar tanto tempo sem aparecer por lá durante aquela época.

Dois meninos brincavam de atirar bolas de neve um no outro num quintal de um sobrado muito bem cuidado. Harry os observou por alguns instantes, perdido em reminiscências; as crianças da vizinhança costumavam ter medo "daquele garoto Potter" quando ele morava ali, mas depois de todo aquele tempo fora, Harry duvidava que ainda se lembrassem dele. O rapaz continuou caminhando, observando as poucas pessoas (na maioria crianças) que tinham a coragem de colocar o nariz para fora de suas casas bem aquecidas.

Ele virou na Rua dos Alfeneiros, então estacou os passos. Aquela rua lhe trazia bem mais lembranças – quase todas ruins. Harry voltou a caminhar, sentindo uma estranha sensação de vazio ao retornar àquele lugar.

Ainda se lembrava muito bem da noite em que deixou a Rua dos Alfeneiros. Tinha sido antes do início das aulas no seu sexto ano. Tivera a pior discussão de sua vida com os tios, e tia Petúnia praticamente o expulsara de casa – ou fora Harry mesmo quem tinha mandado tudo às favas. É, sim, poderia ser considerada uma mistura das duas coisas. Harry saiu de lá jurando que nunca mais pisaria ali e, no entanto, estava agora de volta, naquelas circunstâncias no mínimo perturbadoras.

Harry imobilizou-se pela segunda vez quando se viu de frente ao número quatro. O carro de tio Válter estava estacionado na garagem, atolado na neve, provavelmente inutilizado há muito tempo. As begônias de tia Petúnia, antigamente sempre muito bem cuidadas (e Harry se lembrava muito bem das várias tardes que passara aparando toda a grama e cuidando daquelas malditas flores), agora estavam mortas, enregeladas pela neve e pelo frio. A grama estava mal aparada, e havia uma necessidade urgente de limpar a neve da soleira da porta, ou era capaz que ninguém mais conseguisse passar por ali dentro de poucos dias.

Aventurando-se na neve fofa e alta, Harry conseguiu alcançar a entrada da casa. Ficou encarando por algum tempo a porta, meio hipnotizado, meio desalentado. Pensou em como Duda iria recebê-lo; provavelmente de uma maneira bem mal educada, mas Harry não estava se importando muito, na realidade. O que mais lhe angustiava era a reação que teria ao ver tudo de novo – aquele lugar horrível para onde jurara para si mesmo que nunca mais retornaria.

Tocou a campainha, finalmente, e esperou. Passaram-se vários minutos, e Harry chegou a pensar que Duda não estava em casa e o tinha feito de bobo, chamando-o para ir até lá por nada. Bufando, Harry levou o dedo à campainha mais uma vez, mas antes que a tocasse, a porta se abriu.

Harry deixou o braço – esticado para apertar a campainha – cair tolamente ao lado do corpo. Sua primeira reação foi o choque; Duda Dursley estava parado à sua frente, mas não se parecia nadinha com o Duda que Harry conhecera. O primo estava um tanto abatido e parecia que tinha perdido vários quilos, dando a estranha impressão de que tinha desinchado. Seu rosto estava pálido, não mais rosado como o de um porco, e seus olhos fundos, com olheiras, transmitiam cansaço e um duro amadurecimento, rápido demais para que um garoto extremamente mimado como Duda pudesse assimilar corretamente. Harry achava realmente impressionante a mudança que se operava em uma pessoa após uma grande perda.

Duda também observava Harry longamente; parecia um tanto surpreso que o primo tivesse realmente vindo até ali. Talvez não tivesse acreditado que Harry seria realmente capaz de ir até lá. Os dois primos se encararam por um longo intervalo de tempo, como se estivessem se medindo. Duda falou primeiro:

- Então você veio mesmo.

Harry teve vontade de responder sarcasticamente algo como "Não, seu idiota, você não reparou que eu sou um holograma congelando aqui na rua?", mas se conteve. A visão de um Duda tão abatido e cansado era bastante chocante, e Harry acabou não tendo coragem de ser grosseiro com o primo. Mas que ele merece, merece.

Está sendo cruel de novo.

- Espero que não tenha chegado numa hora imprópria. – Harry respondeu formalmente, num tom de forçada polidez. Duda apenas piscou, rindo desdenhosamente.

- Não, veio numa boa hora. Não tem ninguém em casa além de mim. – Duda abriu espaço. – Vamos, entre de uma vez.

Harry passou pelo primo, que fechou a porta atrás dele com um clique. A sala de estar dos Dursleys estava mil vezes mais quente do que lá fora, porém duas mil vezes menos acolhedora. Harry se sentiu horrivelmente desconfortável ali, uma sensação de engolfamento, como se estivesse retornando a uma prisão, voltando aos seus pesadelos de menino. Meramente o ar daquela casa o fazia se sentir mal. Harry via aquela sala, observava seus móveis, a lareira que um dia o Sr. Weasley arrebentou para que os Weasleys pudessem passar por ali, e as lembranças terríveis de seu passado naquele lugar o envolviam, quase sufocando-o. Ele bateu os olhos no tapete da sala e tentou tirar da cabeça a imagem dos corpos de tio Válter e tia Petúnia, jazendo sobre o chão em seus sonhos.

- Hum... – Harry pigarreou. – Então tia Guida está morando aqui com você?

Ele sabia que já tinha feito a mesma pergunta ao telefone, e que era possível que Duda fosse grosseiro com ele novamente, mas não estava se importando. Precisava falar algo ou as lembranças daquele lugar o afogariam.

Duda observou o primo por alguns instantes, obviamente dividido entre uma frase rude e a resposta à pergunta. Surpreendentemente, optou por sanar a dúvida do primo.

- Ela está aqui provisoriamente, só enquanto não conseguimos vender a casa. Ela veio pra cá depois que... – ele pigarreou e desviou o olhar para um aparador, repleto de retratos dele mesmo quando pequeno e da família – Harry não estava presente em nenhum deles. – ...bem, você sabe. Depois... talvez eu vá morar com ela... talvez não.

Harry percebeu que ele fora bem mais firme ao dizer "talvez não". Pessoalmente, Harry preferia viver na Floresta Proibida a morar com tia Guida, e parecia que até mesmo Duda não estava muito animado com essa perspectiva.

- Você vai vender essa casa, então? – Harry perguntou.

- Vou. – Duda respondeu com a voz morta. – Mas por que estamos conversando sobre isso, não é? – ele disse, sua expressão tornando-se mais dura. – Vamos logo pegar suas coisas, e então você vai embora o mais depressa possível.

Duda começou a subir as escadas, mas Harry ficou parado na sala, observando, com os olhos perdidos, o armário sob a escada. E, dentro de sua cabeça, ele viu um menino pequeno e magricela ali dentro, no escuro, esperando a madrugada chegar e a casa penetrar em silêncio para que pudesse roubar alguma coisa da cozinha para comer, seu estômago roncando porque tinha ficado sem jantar; viu tia Petúnia socando a porta do armário às seis e meia da manhã para que preparasse o café da manhã de Duda; viu tio Válter empurrando um Harry de quase onze anos para dentro do pequeno armário e trancando-o em seguida porque o sobrinho tinha açulado uma cobra no zoológico para cima de Duda...

- Venha logo! – a voz ríspida do primo o despertou. Ele estava já no alto da escada. – Eu não tenho o dia todo, sabia?

Harry sentiu o estômago se contorcer de raiva, mas não respondeu. Limitou-se a desviar o rosto da porta do armário e subiu as escadas de dois em dois degraus, parando um pouco antes do último e fitando o primo indulgentemente no alto da escada. Duda soltou um barulhinho de desprezo e deu as costas a ele, subindo os últimos degraus.

Passaram pelo quarto de Duda, que estava com a porta fechada. Harry parou de andar quando passaram pela porta do seu antigo quarto. A porta estava entreaberta, e Harry espichou o olho para dentro do cômodo. Estava novamente cheio de coisas velhas – na maioria os antigos brinquedos quebrados de Duda e outras coisas dele – assim como era antes de Harry se mudar do armário para lá aos onze anos.

- Não está aí dentro. – Duda disse, interpretando erroneamente os pensamentos de Harry. Ele se virou para o primo, que o encarava aborrecido e quase entediado. – Está no quarto dos meus pais.

Harry enrugou as sobrancelhas e seguiu o primo até o quarto maior, o dos tios. Duda empurrou a porta entreaberta e entrou. Harry hesitou e acabou ficando na porta mesmo, apenas observando o quarto enquanto Duda caminhava até a cômoda de madeira envernizada de tia Petúnia.

Poucas vezes Harry tinha ido ao quarto do tios – na maioria delas, só para limpar alguma coisa quando a tia mandava. O quarto estava uma bagunça, e com certeza tia Petúnia teria um surto se visse aquilo. A cama de casal enorme (para tio Válter caber, provavelmente) estava artisticamente desarrumada e acentuadamente rebaixada no centro, como se alguém muito pesado tivesse dormido ali há pouco tempo. O quarto estava com um cheiro inconfundível de cachorro, e Harry deu um pulo para trás ao perceber de onde provinha o odor; Estripador, o maior e mais feio cão de estimação de tia Guida (e o que mais odiava Harry também), estava aos seus pés, rosnando para o rapaz com os dentes à mostra, babando em seus sapatos.

Duda soltou uma risadinha desdenhosa ao mesmo tempo que fechava a primeira gaveta da cômoda, segurando nas mãos uma pequena caixa velha de madeira. Observava Estripador rosnar ameaçadoramente para Harry com um sorrisinho desagradável no rosto.

- Parece que ele te reconheceu, hein? – Duda disse com a voz divertida, como se estivesse desejando que Estripador atacasse Harry – como costumava fazer nos tempos de meninos dos dois –, só para tirá-lo daquela monotonia.

- Tia Guida está ocupando esse quarto? – Harry perguntou sem interesse, ainda observando o cachorro, que arreganhava os dentes para ele. As mãos do rapaz estavam ao redor da varinha dentro do bolso, mas Harry sabia que seria imprudente utilizá-la na frente de Duda, em uma casa de trouxas. Porém, agora que estava pela primeira vez na casa dos Dursleys sendo maior de idade e podendo usar a magia, a grande vontade de Harry era puxar a varinha e transformar aquele cachorro desgraçado em sabão.

- Está. – Duda respondeu aborrecido com o fato. – É o maior quarto.

Estripador latiu alto e mostrou seus dentes afiados, mas, antes que pudesse fazer algo contra Harry, o rapaz o encarou com raiva e exclamou "SAI" e, estranhamente, quando os olhos do cão fizeram contato com os de Harry, ele correu assustado para debaixo da cama e ficou lá, encolhido e choramingando. Duda enrugou as sobrancelhas.

- Desde quando ele tem medo de você?

- Desde quando eu não sou mais aquele garotinho que você perseguia, Duda. – Harry retrucou enfurecido, fitando o primo com rancor, e ele ficou quieto. Na realidade, ele não tinha a menor idéia de como Estripador tinha obedecido-o (talvez fosse porque Harry agora estava bem maior do que da última vez que o cachorro o vira), mas o importante era que ele não iria importuná-lo mais. – E então, você já achou o que queria? – perguntou indulgentemente.

- Já. – Duda respondeu mal humorado e estendeu para Harry a caixa velha. – Isso é seu.

Harry apanhou a caixa, intrigado. Era um pouco pesada, bem antiga e talhada com formas esquisitas na madeira, que estava começando a ser comida por cupins. Havia um trinco um tanto enferrujado na tampa, mas não havia chave. Quando Harry levantou o olhar para Duda, ele pareceu entender o que o primo estava pensando:

- Não tem chave. Mas minha mãe disse que você vai conseguir abrir. Como, é problema seu.

Harry ignorou a grosseria. Abaixou os olhos para a caixa, pensando. Deveria abrir com algum feitiço; "Alorromora", talvez. Mas a dúvida que o perturbava no momento era outra.

- Mas isso era de tia Petúnia? Como ela lhe entregou isso?

Duda encostou-se displicentemente ao batente da porta, entediado.

- Há algum tempo eu a encontrei mexendo nisso, em dúvida se deveria jogar fora ou não. Eu disse para se desfazer dessa porcaria, mas ela acabou desistindo. – ele deu de ombros. – Quando eu perguntei de quem era, ela disse que a irmã dela tinha deixado isso com ela antes de bater as botas. Deixou para você.

Harry sentiu uma onda de fúria arrebatá-lo por Duda falar com tão pouco caso da morte de sua mãe, mas estava surpreso demais com o fato daquela caixa velha ter pertencido à sua mãe, Lílian, para se lembrar de responder para o primo.

- Da minha... mãe? – ele murmurou sem compreender. Duda bufou.

- É, que outra irmã minha mãe teve, hein? – o primo retrucou sarcasticamente. – Infelizmente, nossas mães eram irmãs e isso nos faz parentes. – ele finalizou, como se ser parente de Harry fosse uma horrível doença ou algo nojento. De sua parte, Harry também achava que ter os Dursleys como parentes era como estar permanentemente contaminado por germes.

- Tia Petúnia disse alguma coisa sobre o tinha aqui dentro? – Harry perguntou, segurando a caixa com as mãos trêmulas, desejando ir logo embora dali para poder examinar seu conteúdo.

- Não. Parece que sempre esteve trancada, e minha mãe não sabia como abrir. – Harry imaginava que tia Petúnia, fofoqueira e intrometida do jeito que era, bem que deveria ter tentado abrir a caixa. – Ela só me contou que a sua mãe deixou a caixa com ela, pouco antes morrer, para que minha mãe a entregasse a você.

Harry mordeu os lábios, voltando a olhar a caixa. Sua mãe já deveria saber que poderia morrer se foi capaz de pedir a tia Petúnia que lhe entregasse aquilo. Harry ficou pensando no quão ruim deveria ter sido para ela possuir essa dúvida. Depois pensou em Voldemort e em tudo que já tinha passado, e se lembrou que também a tinha.

- Por que tia Petúnia não me entregou isso antes, quando eu era mais novo?

- Ela disse que não podia. – Harry ergueu os olhos para Duda, que estava mais entediado e aborrecido do que nunca. – Que a sua mãe tinha dito que ela só entregasse quando você tivesse 17 anos.

Aquilo era importante. Harry olhou a caixa em suas mãos mais uma vez. Aquilo era muito importante.

- Certo... – disse lentamente, a cabeça muito longe dali. – Eu já vou indo, então.

- Ótimo.

Os dois desceram as escadas, Duda muito mal humorado e Harry com a cabeça perdida em pensamentos. O que de tão importante poderia haver dentro daquela caixa para que sua mãe só quisesse entregá-la quando ele fosse maior de idade? O que Lílian estava tentando lhe dizer, mesmo depois de morta? Harry se lembrou do sonho que teve pela manhã e em como ele foi o motivo principal que o fez telefonar para Duda. No sonho, os Dursleys apareciam... e depois Lílian... seu pai, Tiago, não apareceu em nenhum momento, e Harry costumava ver os dois, seu pai e sua mãe, quando sonhava...

Duda abriu a porta de má vontade para Harry. Os dois se encararam por um instante, Harry se sentindo muito desconfortável. Duda, por sua vez, parecia estar analisando o primo. Quando Harry abriu a boca para se despedir, Duda disparou:

- Meus pais ainda estariam vivos se não fosse por você.

Foi como se Harry levasse um tapa. Ele ficou ali, parado, fitando o primo sem saber o que dizer, o queixo caído em choque. Um pânico crescente o invadiu, e Harry se lembrou imediatamente do pesadelo que teve pela manhã.

- O... o quê? – perguntou tolamente, quase como se estivesse se certificando de que ouvira direito.

Duda o encarava como se visse muitas coisas e havia rancor nos seus olhos.

- É isso mesmo que você ouviu. Se você não fosse um anormal, eles não estariam mortos agora!

No sonho, Duda tinha dito essa mesma frase a Harry, e elevado a voz bem como estava fazendo agora. Não pode ser...

- Você está enganado... – Harry sussurrou, sabendo que já tinha dito aquela frase antes. – Eu não tenho culpa disso. Eu...

- Ora, não me venha com essa! – Duda gritou histérico. O vento gelado da rua entrava na casa pela porta aberta. – Você sabe que é verdade! Você é um anormal, e nós poderíamos ter tido uma vida bem melhor se você não fosse um peso por todos esses anos!

- Olha aqui, não me venha com essa você! – Harry perdeu a paciência e começou a gritar também. – Você e seus pais já cobraram essa dívida o suficiente por todos esses anos, porque vocês nunca me trataram como gente!

- É PORQUE VOCÊ NÃO É GENTE! – Duda exclamou, o rosto rubro de fúria. – Deve ter adorado quando soube que meus pais morreram, não foi? Deve ter ficado muito satisfeito! Aposto que não sentiu nada!

- Você queria o quê? – Harry retrucou venenosamente. – Que eu tivesse sentido muito? Pois eu não senti muito! E quer saber? FOI BEM FEITO PRA ELES E PRA VOCÊ!

Dessa vez, foi Duda que provavelmente sentiu as palavras doerem como um tapa no meio da cara. Harry sabia que deveria se arrepender depois de dizer aquilo, mas tamanho era seu ódio, misturado à toda aquela mágoa acumulada por quase toda a sua vida, que acabou deixando o arrependimento para depois. Mas dentro de sua cabeça, aquela vozinha não parava de repetir que ele estava sendo cruel...

- Você por acaso sentiu algo todos esses anos, Duda? – Harry pressionou o primo, que o fitava abobado, mudo e sem ação. – Você por acaso se deu ao trabalho de ser menos cruel comigo quando soube que meus pais tinham morrido? – Duda continuou calado. – NÃO, DUDA, NÃO! Você fazia questão de ficar me lembrando isso e ainda jogava na minha cara que eu não merecia ter pais e ser amado por eles como você era! – era como se algo venenoso estivesse correndo por suas veias, mas Harry continuou, imperturbável. – E agora, Duda... – sussurrou, quase como se provocasse o primo. Quase como se fosse sua vingança particular. – E agora você é exatamente como eu: sem pais e sem família. Sem ninguém. Dependendo da caridade dos outros... de gente que você detesta... de gente que não dá a mínima de verdade pra você...

Um silêncio mortal caiu sobre eles após as palavras de Harry. Duda ficou ali, parado, atônito, como se fosse uma estátua de neve congelada. Harry o fitou por alguns instantes, seu coração repleto de mágoa e ódio, e então se deu conta de que não conseguia mais olhar para Duda. Deu as costas a ele e foi embora da Rua dos Alfeneiros, sem olhar para trás, dessa vez para realmente nunca mais voltar.

Continua na próxima página...

 

< Capítulo Anterior / Continuação desse capítulo >

Voltar aos capítulos/Home

Hosted by www.Geocities.ws

1