Capítulo Quinze Parceiros também no crime
Harry encostou a porta atrás de si com um ruído seco. A sala redonda estava obscurecida como de costume, e apenas suaves feixes de luz provenientes das janelas arredondadas impediam que a escuridão fosse total. Os pontos cintilantes no teto não estavam tão brilhantes àquela noite. Harry observou a figura de Katherine encostada à parede, sob uma das janelas.
Quando ele entrou, ela apenas levantou os olhos muito rapidamente, desviando-os logo em seguida para sua prancheta de desenho (ela realmente parecia gostar daquilo; apenas um minuto parada e já começava a rabiscar formas em qualquer lugar), como se não quisesse olhar diretamente para ele naquele momento. Harry não poderia culpá-la por essa atitude.
Assim como ela, ele também estava um pouco abalado com tudo aquilo. Aquela noite era a primeira vez que se encontravam sozinhos após aquela cena perturbadora da biblioteca e em seguida no corredor. Harry ainda estava tentando se convencer de que tinha perdido o juízo, apenas temporariamente, porém acabara de perceber que era bem mais fácil pensar daquela maneira quando ocupava sua cabeça com a escola e seus problemas, e não quando estava sozinho na presença dela.
Tinha pensado bastante sobre o assunto (as noites mal dormidas que o digam), no entanto, a única conclusão plausível a que chegara fora que estava realmente ficando doido. Não era uma conclusão muito animadora, mas era melhor do que a segunda conclusão aquela que imaginava quando desanuviava os pensamentos e liberava seus instintos... mas ele nem queria voltar a pensar nisso, ou realmente enlouqueceria.
Harry respirou fundo e tentou fazer a voz assumir um tom banal, como se nada tivesse acontecido.
- Por que você continua trocando essas senhas estúpidas? ele questionou, caminhando até se aproximar da garota e parar de frente a ela. Passei uns bons dez minutos para desvendar a de hoje, e aqueles centauros pareciam bastante tentados a arrancar o meu pescoço.
Ela ficou muito imóvel no ato de rabiscar os traços de um rosto no pergaminho, como se estivesse estudando a resposta que iria dar; então, num ímpeto, levantou a cabeça, com uma expressão petulante e um sorriso irônico, e retrucou:
- Talvez um dia você não consiga adivinhar a senha e os centauros realmente arranquem o seu pescoço.
- Muito engraçado. ele retrucou aborrecido, sentando-se ao lado dela. Ela o encarou de esguelha, ligeiramente tensa, então ele percebeu que, inconscientemente, tinha se sentado bem próximo a ela. Mas era tarde para sentar em outro lugar. Quem é aí no desenho? ele perguntou, espiando por cima do ombro da garota, enquanto ainda tentava agir como fazia antes. O clima, no entanto, era um tanto artificial, como se os dois representassem uma peça.
Katherine rapidamente escondeu o desenho debaixo de alguns livros e anotações espalhados ao seu lado. Tudo o que Harry conseguiu ver foi o esboço de um rosto masculino. Ela se virou aborrecida, seus olhos ligeiramente estreitos, e disse:
- Quantas vezes eu disse para que não espiasse meus desenhos?
Harry apenas ergueu as sobrancelhas e deu de ombros.
- Sinto muito, eu não fiz as contas... replicou irônico.
Ela devolveu um sorriso cínico como resposta, mas em seguida começou a observar Harry com atenção, enquanto ele massageava a cabeça por causa da dor intermitente que sentia desde o início da manhã. Ele se sentiu bastante desconfortável e parou o movimento, fitando-a intrigado.
- O que você está olhando? Tem algo errado comigo?
- Você está com olheiras. Parece... um pouco pálido. ela constatou, enrugando as sobrancelhas. Não tem dormido direito?
Harry ainda permaneceu fitando-a abobado por alguns instantes. Ela tinha notado? Ela estava prestando atenção nele? Será que estaria preocupada com ele? Dois segundos após essas perguntas pipocarem em sua cabeça, Harry se sentiu estúpido. É óbvio que não, por que ela se preocuparia comigo? Harry não significava nada para ela, assim como ela não significava nada para ele... Sem que quisesse, ele se sentiu inexplicavelmente vazio ao ter esse pensamento. Em seguida, quis se bater por isso. Não podia se sentir assim, afinal, que importância existiria em Katherine não se preocupar com ele? Nenhuma, não é mesmo? Não é, Harry?
Sua cabeça deu um nó e a dor se intensificou. Então, subitamente, ele notou que ainda precisava responder à pergunta dela.
- Hum... são muitas coisas pra fazer... Eu ando um pouco cansado...
Ela ainda o fitou por mais alguns segundos, como se tivesse percebido que ele tinha omitido vários fatos naquela explicação. No entanto, ela não disse mais nada, e Harry achou melhor assim. Era verdade que tinha uma montanha de coisas pra fazer deveres, trabalhos e ainda as aulas de Dumbledore mas ele sabia que os motivos das olheiras eram mesmo as noites mal dormidas. E grande parte delas ele andou pensando o que não devia a respeito da pessoa sentada ao seu lado...
Não, não! Ele repetiu para si mesmo em pensamento, massageando novamente a cabeça dolorida. Não era para voltar a pensar daquele jeito!
- Então... ele ouviu a voz dela e tomou um susto; por um momento, ficou tão perdido em seus devaneios que tinha se esquecido de que ela ainda estava presente, bem ao seu lado. Você está bem para treinarmos ou prefere que fique para amanhã?
Ele ponderou a questão por alguns minutos, pensando em tudo que já tinha feito naquele dia Poções, Snape lhe perturbando, Rony e Hermione discutindo novamente, Transfiguração, montanhas de deveres, Feitiços, dor de cabeça e mais uma briga dos amigos no final da tarde. É, não tinha sido pouca coisa, mas já que estava ali, era melhor que treinasse logo, assim não precisaria voltar no dia seguinte.
- Não, tudo bem... Vamos logo com isso.
Ela apenas o fitou mais um pouco enquanto ele se levantava e acabou dando de ombros. Eles se posicionaram no centro da sala e começaram a trocar feitiços entre si.
Harry não estava novamente conseguindo atingi-la; os movimentos de Katherine eram muito rápidos e, para piorar, os reflexos de Harry estavam bem lentos naquele dia. Ele conjurou três vezes a Azaração de Impedimento, porém, em todas as três tentativas ela se esquivou. Harry começou a se irritar e, na última vez, tentou estuporá-la. Katherine, em contrapartida, deu uma estrela no ar, desviando-se do feitiço, o que fez Harry soltar um palavrão de raiva; ela foi parar atrás dele, tão rápido como se aparatasse. Harry se virou, mas a varinha da garota já estava em posição.
- Proteg...
Mas já era tarde. A barreira não foi conjurada a tempo, e Harry viu a luz vermelha vir em sua direção. Não conseguiu se desviar e foi atingido em cheio pelo feitiço.
*******
- Enervate!
Harry abriu os olhos vagarosamente. A escuridão na periferia de seu cérebro deu lugar ao vulto difuso de um rosto que parecia sorrir para ele. Sua cabeça doía bastante. Ele piscou várias vezes, mas o rosto ainda estava embaçado. A pessoa riu divertidamente e, no instante seguinte, óculos se aproximaram da sua face e suas abençoadas lentes desanuviaram a visão de Harry. Ele enxergou o rosto de Katherine entrar em foco.
Ela parecia se divertir com a situação dele, pois um largo sorriso debochado estava presente em seu rosto, ao mesmo tempo que vários cachos dos seus cabelos presos em desalinho caíam sobre seus olhos.
- Um a zero pra mim, Potter. Katherine disse num tom de brincadeira, ajoelhada ao lado dele.
Harry, então, subitamente percebeu que estava deitado de costas no chão de pedra. Seu cérebro voltou a funcionar, e ele lembrou que provavelmente caíra após ser estuporado por Katherine. Ele se sentou bem depressa, a cabeça ficando mais tonta devido ao movimento brusco, sentindo-se muito aborrecido pela situação.
- Você me estuporou. ele resmungou emburrado, sem olhar para ela.
- Não se preocupe, eu não vou espalhar por aí. ela retrucou rindo. Mas é um bom trunfo se eu quiser te chantagear qualquer dia desses...
Harry se virou para ela, as sobrancelhas erguidas. Ela riu novamente, divertindo-se. Harry percebeu que gostava quando ela sorria; o rosto dela ficava bem mais bonito do que quando ela estava com aquela cara de rabugenta que costumava ficar na maioria do tempo. Ela está se divertindo comigo... Katherine parou de rir ao notar que ele a observava. Eles estavam sentados bem próximos um ao outro novamente.
- Além disso... ela pigarreou, desviando o olhar. Não teve muita graça. Você não está bem hoje.
Então ela tinha mesmo percebido.
Harry sorriu involuntariamente, notando que apreciava aquela atenção.
- É, bem... aconteceram algumas coisas hoje... ele murmurou distraído. Se não fosse por isso, você nunca teria conseguido me estuporar.
Ela soltou um barulhinho de desdém.
- Que coisas? perguntou em seguida, no entanto, quando ele a encarou de volta, ela se apressou em remendar a frase: - Quer dizer, você não precisa contar... perguntei por perguntar...
Katherine deu de ombros e fitou com atenção um dos pontos brilhantes no teto, como se ele fosse muito mais interessante do que saber o que tinha acontecido com Harry.
- Ah, foi o de sempre... ele respondeu absorto. As aulas... meus amigos discutindo...
Ela virou a cabeça tão rápido para olhá-lo que poderia destroncar o pescoço.
- Ahan... Granger e Weasley, huh? ela perguntou com um sorriso debochado. Aqueles dois vivem às turras, todo mundo comenta. Chega a ser ridíc... ela fez uma pausa brusca, fitando Harry um tanto constrangida, e acabou não dizendo o que Rony e Hermione chegavam a ser. Sinceramente, eu não sei como você não sobe pelas paredes...
Harry riu baixinho, lembrando que era exatamente aquela sensação que tinha.
- Às vezes tenho vontade mesmo de fazer isso. ele disse pensativo, refletindo o quanto acharia estranho estar tendo aquela conversa com Katherine se pensasse friamente, mesmo que se sentisse à vontade para conversar com ela naquele momento. Sabe, eu gostaria de fazer algo por eles... mas aqueles dois são tão teimosos...
Katherine fez uma careta, mas preferiu não expor seus pensamentos talvez em respeito à amizade de Harry por "Granger e Weasley". Harry sabia que se importaria muito com isso algum tempo atrás, mas, naquele instante, não estava levando em conta as coisas que o aborreceriam antes a respeito daquela garota.
- Hum... ela resmungou pensativa. Sei lá, tranque os dois numa sala e deixe que resolvam suas diferenças cara a cara... O pior que poderia aconteceria seria os dois se matarem lá dentro. Mas isso seria engraçado... ela deixou escapar.
Harry não se importou o tanto que deveria após a última frase da garota; estava mais preocupado com o que ela disse no começo.
- Não seria má idéia...
Ela se virou para ele, intrigada.
- Como é que é?
Harry sorriu, observando a sala ao redor e tendo uma idéia que achava que poderia funcionar. Tinha prometido a si mesmo que nunca mais se intrometeria nos assuntos de Rony e Hermione, mas logo tinha percebido que não seria possível. Não suportava mais vê-los daquela maneira e tinha que dar um jeito de juntá-los antes do Natal. E Katherine, sem querer, tinha lhe dado uma boa idéia.
- Eu já sei o que posso fazer. ele disse triunfante, levantando-se de supetão. A garota continuou encarando-o como se ele tivesse um parafuso solto. Harry deu uma volta pela sala, pensando na idéia que teve, até voltar a parar de frente a Katherine, que ainda estava sentada no chão, fitando-o com um ar confuso. Mas eu vou precisar de um pequeno favor seu...
*******
- Não. Não mesmo.
- Ah, vai, pára de ser chata, você não vai ter que fazer nada de mais... Não custa nada!
Katherine tinha voltado a assumir aquele seu ar estressado e rabugento de sempre. Ela mantinha os braços cruzados, sentada no parapeito da janela, suas costas encostadas à parede. Ela revirava os olhos e bufava, sua boca se contorcendo todas as vezes que Harry refazia seu pedido. Ele tinha contado a ela a idéia que teve e tinha pedido apenas um favorzinho, nada que fosse fazer sua mão cair se o ajudasse. Mas ela parecia irredutível.
- Eu não vou fazer isso, é contra os meus princípios!
- Você está sendo implicante, isso sim! ele retrucou aborrecido, bufando e encostando-se também à parede. Por que você não quer fazer isso, afinal?
Ela o encarou indulgentemente.
- Por vários motivos.
- Cite alguns. ele revirou os olhos, voltando a achar que ela era mesmo uma sonserina pentelha.
- Existem vários. ela começou a contar nos dedos. Essa sala é minha, ninguém mais deve saber que ela existe, eu só "deixei" que você viesse aqui porque era o único lugar onde poderíamos treinar.
- Essa sala não é sua. Harry respondeu emburrado. Ela está na propriedade de Hogwarts, logo, é um bem comum dos alunos. Todos podem usá-la se quiserem.
- Mas ninguém sabe que ela existe.
- Eu sei!
- Sabe porque eu o trouxe aqui. houve uma pausa, na qual Harry teve vontade de soltar um palavrão mas se limitou a um raivoso "humpt". Ela aproveitou para continuar a enunciar suas razões. Segundo motivo: eu estaria ajudando aqueles dois. ela revirou os olhos, como que entediada, ao mencionar Rony e Hermione. Harry bufou.
- Veja por outro lado. ele disse. Você não estará ajudando-os; eles vão ficar furiosos quando eu fizer isso, portanto, teoricamente, você estará aborrecendo os dois. É bem lógico, não?
- Só se essa for sua lógica distorcida, Potter. ela ergueu as sobrancelhas. Harry a fuzilou com os olhos, voltando a ter aquele mesmo sentimento que sempre teve a respeito de Willians: que ela era uma sonserina irritante e cabeça-dura. Motivo número três: eu estaria te ajudando.
- Hein? Harry exclamou, desencostando-se da parede e encarando-a de frente. Aquilo era o cúmulo! Quer dizer que o problema todo é esse? Me ajudar?
- Basicamente. ela resumiu, com um sorriso irônico e irritante.
- Ah, Willians, vá à mer... ele parou e remendou a frase. Vá catar coquinho!
Ela riu desdenhosamente do que ele disse. Harry, entretanto, estava nervoso demais para achar qualquer coisa engraçada. Ele ficou de costas para ela, batendo o pé no chão repetidamente. Toda a sua idéia brilhante estava indo por água abaixo.
- Você vai ficar emburrado comigo? ela perguntou num tom que sugeria que tinha voltado a se divertir. Harry não se deu ao trabalho de responder. Vai, Harry?
Ele apenas virou os olhos para ela, bufando exasperado e encarando-a como se fosse capaz de atirá-la no caldeirão quente. Ela estreitou os olhos, como se analisasse a situação.
- Digamos que... numa hipótese remota... ela cogitou. - ...eu fizesse isso. O que eu ganharia em troca?
Harry observou a expressão curiosa dela e riu.
- Minha... eterna gratidão...? ele disse incerto. Foi a vez dela rir.
- É pouco.
- Pouco? "Eterno" é muita coisa!
- Pouco. ela repetiu. Faça uma oferta melhor. Bem melhor.
Ele pensou por alguns instantes. Ela estava brincando com ele.
- Eu vou ficar lhe devendo um favor. ele sugeriu. E você poderá me pedir alguma coisa quando precisar...
Ela sorriu maliciosamente.
- Qualquer coisa?
- Eu não disse a palavra "qualquer". Eu disse "alguma coisa".
- Então ainda é pouco. ela deu de ombros, indulgente. Harry a fitou por alguns instantes, considerando a questão. O.k., o que ela poderia lhe pedir, afinal?
- Está bem, qualquer coisa...
- Opa! ela exclamou, juntando as mãos sonoramente e pulando do parapeito da janela. Bem melhor!
Katherine atravessou a distância que os separava e estendeu a mão.
- Trato feito, Sr. Potter. ela disse formalmente assim que ele apertou a mão dela. Harry sentiu, mais uma vez, algo levemente gelado no seu estômago assim que sentiu a mão enluvada dela entre seus dedos. Eles trocaram um olhar breve e profundo, então ela se desvencilhou dele. E não se esqueça de sua promessa, Harry, porque eu vou cobrá-la! ela disse, dando as costas a ele.
Harry revirou os olhos, ponderando se realmente aquilo valia a pena e se não estava indo longe demais... ou se já não tinha ido.
*******
Uma coruja das torres pousou sobre a mesa da Grifinória naquela manhã nublada, ventosa e gelada de novembro, bem entre a travessa da omelete e a cesta de pães. Ela estendeu a pata, onde havia um envelope pequeno e pardo.
- Acho que a correspondência é pra você, Harry. Rony disse distraído, comendo seus ovos mexidos com vontade.
Harry conteve um sorriso. Imaginava muito bem qual seria aquela carta. Ele levantou ligeiramente os olhos para se certificar e, na mesa da Sonserina, Katherine Willians apenas ergueu as sobrancelhas, o que significava que aquela carta era exatamente a mesma que ele estava pensando que seria.
- Não, Rony, Sirius me mandou uma carta ontem, ninguém mais além dele me manda cartas. Harry retrucou, esforçando-se para não rir.
- E aquela garotinha que me odeia? Aquela que é sua vizinha na casa do Sirius...
- Quem, Agatha?
- Eu não lembro o nome dela, mas deve ser.
- Não, ela também me mandou uma carta há pouco tempo. Harry inventou.
Rony largou o pãozinho que iria comer e olhou desconfiado para a coruja, que o fitava impaciente, esperando o momento em que o destinatário da correspondência resolveria recebê-la. Ele limpou uma mão na outra e desamarrou a carta da pata da coruja, que arrepiou todas as penas antes de levantar vôo novamente.
- Você não vai abrir? Harry perguntou, tentando disfarçar a ansiedade.
Rony o encarou indulgentemente; em seguida, abaixou os olhos, arregalando-os ao ver seu nome na carta.
- É a letra da Hermione! ele exclamou confuso, virando o pescoço na mesma hora para fitar a garota, sentada mais no final da mesa comprida, conversando com Gina. Por que ela me mandou uma carta se poderia vir até mim e falar diretamente?
Harry deu de ombros, sentindo que estava cada vez mais difícil esconder o sorriso. Então, se Rony tinha pensado que aquela era mesmo a letra de Hermione, significava que Katherine realmente tinha jeito para desenhar. Ou para ser falsificadora.
- Talvez ela não quisesse dizer isso pessoalmente... Harry sugeriu. Por que você não abre logo e lê a carta?
Rony, ao contrário da sugestão do amigo, largou o envelope, como este estivesse contaminado.
- Melhor não. ele gemeu. Se ela não quis me falar isso pessoalmente, deve ser algo horrível, e eu não quero ficar deprimido logo pela manhã...
Harry fez um grande esforço para não xingar o amigo. Já estava começando a ficar impaciente. Estava doido pra saber se iria conseguir enganar Rony, e ele nem ao menos abria a carta?!
- E se for algo importante, Rony? ele insistiu, apanhando a carta e colocando-a de frente ao amigo. É melhor você abrir logo.
Rony fez uma careta confusa, mas em seguida observou o envelope com apreensão. Ele finalmente o apanhou e começou a abri-lo. Harry sorriu discretamente e procurou Katherine na mesa da Sonserina; ela aparentemente estava absorta tomando seu café da manhã, mas os olhares de esguelha que ela lançava à mesa da Grifinória provavam que estava prestando atenção ao que estava acontecendo.
- O quê?! Rony exclamou após ler rapidamente a carta. Por que ela fez isso?
Harry se voltou para ele. Rony parecia completamente perdido após ler a carta. Ele encarou Harry como se pedisse explicações.
- Ela quer que eu a encontre... ele checou a carta. - ...numa sala atrás de uma tapeçaria de centauros, no sexto andar... depois das aulas... Por quê?
- Eu não sei, Rony! Eu não leio os pensamentos da Hermione, oras! Rony fez uma nova careta e voltou a observar a carta. Você vai? Harry perguntou rapidamente, sem conseguir se controlar.
- Ainda não entendo porque ela não veio falar logo comigo... ele fitou Hermione mais além novamente. Ela tinha acabado de ler uma carta e a guardava na mochila, mas ao contrário de Rony, estava bastante calma. Harry também sabia que carta era aquela. Ele voltou a encarar Harry. Acho que vou conversar com ela primeiro...
- Não! Harry exclamou depressa, e Rony fez uma careta de quem não estava entendendo. Quer dizer, se ela fez isso, deve ter um bom motivo... ele se apressou em remendar seu descuido. Rony não poderia comentar sobre essa carta com Hermione antes do momento certo. Você sabe que a Hermione sempre tem as suas razões para fazer até as coisas mais estranhas...
Rony não disse nada por alguns minutos, analisando a situação. Por um momento delirante, Harry teve medo que ele percebesse a jogada. No entanto, Rony caiu direitinho no plano.
- Você tem razão. ele murmurou em concordância. Não vou comentar nada com ela e só perguntar isso quando me encontrar com ela nessa tal sala... É melhor assim. ele examinou a carta mais uma vez. Você sabe onde fica isso? Harry negou com a maior cara de pau. Bem, não deve ser difícil achar...
Rony guardou a carta no bolso e voltou a comer, ainda olhando de vez em quando para Hermione. Pela sua aparência casual, Harry presumiu que ela também tivesse acreditado no que estava escrito na carta dela. Ele olhou mais uma vez para a mesa da Sonserina e reparou que Katherine o observava; ele discretamente acenou afirmativamente para ela e a garota sorriu presunçosa.
*******
Harry e Katherine estavam escondidos dentro de um armário cheio de produtos de limpeza do Filch. Ela estava sentada em cima de um balde, as mãos segurando o queixo, ligeiramente entediada. Harry estava de pé, observando o que acontecia lá fora no corredor; de onde estava, tinha uma visão parcial, mas suficiente, da tapeçaria dos centauros que queriam lhe arrancar o pescoço tantas vezes.
- E aí? Katherine perguntou pela terceira vez, num tom cada vez mais rabugento. Aconteceu alguma coisa? Eu não tenho o dia todo, Potter!
- Espera mais um pouco. Harry retrucou impaciente. Rony deve estar chegando. Ele disse que ia vir...
- A Granger já está lá há uns quinze minutos. ela revirou os olhos. Se eu fosse ela, me mandava depois de tanto esperar.
- Hermione não vai fazer isso, porque pensa que o encontro é com a McGonagall. Ela não arriscaria ir embora e aborrecer um professor. Mas eu sei que só está falando isso porque é você quem quer ir embora. Harry a fitou, levemente irritado. Mas se você me explicasse como se faz para trancar aquela maldita porta, eu poderia fazer o resto sozinho.
- Se eu explicasse isso, nunca mais poderia te deixar do lado de fora quando quisesse. ela disse com simplicidade, sorrindo cinicamente.
- Você é uma pentelha mesmo. ele resmungou, voltando a observar o corredor pelas frestas da porta do armário.
Mais uns cinco minutos se passaram, nos quais os únicos sons eram os constantes bufos impacientes da garota. Harry também estava começando a ficar nervoso. Rony estava demorando muito, será que não viria? Será que tinha se tocado que Harry o estava enrolando? Mas como, se até mesmo Hermione tinha caído na farsa? Harry tinha conversado com a amiga mais cedo, e ela confirmara que tinha recebido um bilhete da Profª. McGonagall, pedindo que a encontrasse ali.
- Você deve ter feito alguma coisa errada, Potter. Katherine cantarolou irritantemente. Ele se virou para ela, fuzilando-a com o olhar.
- Eu fiz tudo certo. Você é que deve ter errado em alguma coisa. ele retrucou nervoso. Rony deve ter percebido que aquela não era a letra de Hermione. Eu te disse para ter cuidado, ele conhece muito bem a caligrafia dela!
- Sem chance, Potter, minha falsificação é perfeita! ela sorriu presunçosa. Você é que pisou na bola em algum lugar.
Ele soltou um indignado "humpt", mas se limitou a isso, não estava com cabeça para discutir com Willians. O pior de tudo era que sabia que ela estava certa; a falsificação era mesmo perfeita, e isso era o mais irritante de tudo. Ele mesmo tinha examinado as cartas e ninguém diria que aquelas não eram realmente as letras de Hermione Granger e Minerva McGonagall. Harry tinha mostrado a Katherine o cartão de aniversário que Hermione tinha lhe mandado, e a garota disse simplesmente que aquele tipo de letra era muito redonda, fácil de desenhar; ela realmente tinha jeito com cópias, pois fazia isso sempre nos seus desenhos. O conteúdo da carta Harry mesmo escreveu, pois conhecia Hermione o bastante para saber o que ela diria numa carta daquelas. O plano era, basicamente, mandar a carta falsificada de Hermione para Rony, e a da McGonagall para Hermione. Conhecendo os amigos como conhecia, Harry sabia que eles não faltariam em encontros como esses, mesmo que fosse no lugar mais esquisito possível. Depois, era só trancar os dois na sala (e era por isso que ele ainda precisava de Katherine, que era a única a saber o segredo) e deixar que se entendessem por um bom tempo. O problema era que Rony estava muito atrasado.
- Ele não vem, Harry... Katherine se levantou, postando as mãos na cintura. Admita, seu plano falhou.
Ele arregalou os olhos.
- Shhh, pentelha! ele sussurrou. Ele está vindo!
- O qu...?
Harry tapou a boca dela com mão ao mesmo tempo em que observava Rony atravessar o corredor, apressado e irritado, até chegar à tapeçaria, dizer a senha e entrar na sala redonda.
- O que você pensa que está fazendo?! Katherine exclamou histérica, quando Harry finalmente achou seguro soltá-la. Seu estúpido! ela começou a socá-lo.
- O que eu poderia fazer se você não fechava essa matraca? ele se defendeu, com vontade de rir da expressão indignada da garota. Vamos logo, ele já entrou!
Eles deixaram o apertado e escuro armário de vassouras e pararam de frente à tapeçaria. Harry não ouviu nenhum barulho de gritos ou algo parecido lá dentro; ao menos, Rony e Hermione não estavam se matando, como Katherine supôs.
- E então? ele a apressou. Ela o fuzilou com os olhos.
- A sua dívida comigo, Potter, está grande... assustadoramente grande!
- Tá, mas vai logo!
Ela bufou e revirou os olhos. Em seguida, sacou a varinha, apontou para a tapeçaria e murmurou algumas palavras engraçadas, que Harry, por mais que se esforçasse, não conseguiu decorar. Os centauros da tapeçaria cintilaram por um instante, como estrelas, e depois se apagaram, até que a tapeçaria virasse apenas um tapete negro. Harry se virou intrigado para Katherine.
- Era só isso?
- Só, e aposto que você não conseguiria fazer. ela zombou.
- É claro que conseguiria! ele retrucou indignado. Se você se dignasse a me explicar.
- Mas eu não vou fazer isso.
- Pentelha.
Ela sorriu e girou os olhos mais uma vez.
- Então, quando é que você pretende abrir a porta? ela perguntou. Quando eles finalmente se matarem?
Ela mostrou um sorriso cínico e esperançoso. Ele estreitou os olhos e fez uma careta rabugenta.
- Claro que não, Willians. Vou dar uma hora a eles... Talvez um pouco mais.
Katherine bufou.
- E o que eu vou fazer enquanto isso?
- Você pode aproveitar pra me ensinar como se destranca a porta...
- Nem pensar! É segredo.
- Pentelha. ele repetiu.
Ela fez pouco caso e encostou-se à parede, cruzando os braços, batendo devagar a varinha nos braços.
- Eu não acredito que vou ter que esperar. O favor que você vai me retribuir vai ter que ser mesmo muito bom, Potter. A sua dívida está aumentando cada vez mais...
- Eu já disse que se você...
- Não.
- Então vai ter que esperar. ele abriu um sorriso cínico, dando meia volta e começando a caminhar no sentido oposto. Ouviu os passos de Katherine acompanharem-no, e logo ela emparelhou ao seu lado.
- Aonde você vai?
- Dar uma volta... houve uma pausa. Quer vir junto?
Harry não pensou ao fazer a pergunta, simplesmente a fez. Os dois pararam de caminhar e se entreolharam. Quase dava para ouvir o cérebro de Katherine funcionando. Harry, por sua vez, não sabia se deveria se arrepender pelo convite que tinha acabado de fazer ou insistir nele. No entanto, ele percebeu que realmente queria a companhia dela. Katherine encarava um ponto vago à frente, como se pensasse. Harry desejou que ela respondesse logo.
- Tudo bem. ela finalmente respondeu, num tom de pouco caso. Vou ter que esperar mesmo, não é?
Ele subitamente se sentiu aliviado. E contente.
Os jardins estavam vazios por causa do frio que fazia; todos estavam no castelo, tentando se esquentar o máximo que conseguissem. Era melhor assim; seria ruim se alguém os visse juntos.
Um vento gelado arranhava os rostos, e Katherine enroscou melhor o cachecol no pescoço, esfregando as mãos enluvadas uma na outra. Harry a encarou de esguelha por um segundo; sua face estava ligeiramente pálida e rosada nas bochechas por causa do frio. Os cachos que caíam desalinhados do seu cabelo faziam um contraste gritante com sua pele. Ela percebeu que ele a observava e enrugou as sobrancelhas para o rapaz:
- O que foi? seu tom não era rude como de costume.
- Eu só... ele percebeu que não tinha a mínima idéia do que deveria dizer. Torceu uma mão na outra de nervoso ou de frio, não sabia e assoprou-as, tentando esquentá-las, sentindo-se estúpido por ter aqueles pensamentos tolos. Estou pensando que gostaria de ter luvas agora. Esqueci as minhas na Grifinória. ele rapidamente colocou as mãos nos bolsos, sem saber o que fazer com elas, tendo a frustrante sensação de que tinha acabado de falar a coisa mais imbecil do mundo.
Eles caminharam até a beira do lago, que estava congelado em algumas partes. Katherine suspirou e um vapor esbranquiçado saiu por seus lábios rachados pelo frio. Harry decidiu quebrar o silêncio:
- Então... onde você vai passar o Natal? Harry perguntou a primeira coisa que veio à mente, e não tinha certeza se era um bom assunto; parecia muito estúpido aos ouvidos. Katherine, no entanto, respondeu, seus olhos encarando o horizonte, como que perdidos.
- Aqui mesmo. Já assinei a lista.
Harry quase perguntou "e a sua família?", mas se lembrou a tempo que a única família dela sua avó tinha morrido naquele trágico incêndio. Era estranho como, alguns minutos antes, os dois estavam discutindo e trocando injúrias e, agora, o clima estivesse tão sério. Antes que Harry pudesse pensar em algo a dizer, Katherine já tinha voltado a falar:
- Lauren me mandou uma carta, queria que eu fosse passar o Natal com ela. ela continuou, seus olhos ainda vagos. Mas eu sei que ela está cheia de coisas pra fazer nessas férias, e não quero atrapalhar seus planos... Além disso... acho que quero ficar sozinha neste Natal.
Harry não soube o que dizer. Entendia um pouco a situação dela, afinal, já tinha perdido a conta de quantos Natais passara sozinho; todos os Natais na casa dos Dursleys eram assim. Harry ficava no seu armário, imaginando como seria passar o Natal junto com os pais, como os outros meninos de sua idade...
- E você? Katherine perguntou subitamente, fazendo Harry se sobressaltar por um momento. A garota sorriu, mudando totalmente o tom da voz, que tinha assumido um tom artificial de animação, e sentou-se na grama queimada pelo clima gelado. Vai ficar em Hogwarts também?
- Não dessa vez. Harry respondeu, sentando-se também, ao lado dela. Na verdade, vai ser a primeira vez que não passo o Natal em Hogwarts... ele continuou, dando-se conta, pela primeira vez, desse fato.
- Com quem vai passar então? ela perguntou, fitando-o com atenção. Harry se sentiu esquisito, como estava sempre ficando na presença dela há algum tempo, principalmente quando ela parava para observá-lo.
- Meu padrinho.
- Ahhh, o bêbado? ela retrucou, sorrindo. Harry achou estranho ela lembrar esse assunto geralmente eles não comentavam que aquele dia no pub tivesse existido mas ele gostou de ver o sorriso dela mesmo assim.
- É, sim... Harry sorriu timidamente. O bêbado.
Katherine abaixou os olhos por um instante. Harry teve vontade perguntar se ela estava bem, mas o que saiu de sua boca foi outra coisa:
- Eu sinto muito...
Ela levantou os olhos subitamente, surpresa.
- Por quê?
- Porque... ele engasgou, sentindo as palavras se embaralharem a caminho da boca. Porque eu sei... o que você está sentindo...
Eles se encararam por apenas um instante, mas pareceu haver um súbito entendimento apenas através de seus olhos.
Katherine suspirou e virou o rosto para fitar a grama. Houve uma pausa, na qual Harry percebeu que vê-la daquela maneira, tão miserável, também o deprimia de certa maneira. Ele preferia quando ela estava gritando com ele; ao menos, ela parecia bem fazendo isso. Lentamente, a garota deixou seu corpo escorregar e acabou por se deitar na grama, de lado, um pouco encolhida, seus olhos vazios e distantes novamente. Harry, por sua vez, acabou também se deitando na grama, de frente a ela; seus rostos a poucos centímetros. Ela parou de encarar o nada e fitou-o.
- Eu poderia dizer a você que ninguém pode imaginar o que eu estou sentindo... ela murmurou, mas seu tom, ao invés de duro, era suave e melancólico, o que era bem mais preocupante. Mas eu sei que você entende...
Harry apenas a observou de volta, absorvendo suas palavras. Naquele momento, não passou por sua cabeça o quanto poderia ser estranho ter aquela conversa com ela, ou o quanto deveria ser proibido ter aqueles pensamentos a respeito de uma sonserina. Naquele momento, ela não era uma sonserina ou a prima de Malfoy; ela só era Katherine.
- Deve ter sido difícil passar tantos Natais sem seus pais... sem uma família de verdade... ela sussurrou suavemente. Mas dizem que você morava com seus tios, não é?
- Eles eram horríveis. Harry confessou, sem se sentir mal por contar essas coisas a ela. Não era uma família. Eu não pertencia de verdade à família deles...
- Entendo como é. ela suspirou longamente, observando o céu nublado por um instante; os cabelos dela, espalhados sobre a grama, ondularam levemente por causa do vento. Harry percebeu que não estava sentindo o frio que deveria sentir; pelo contrário, seu corpo estava muito quente. Eu passei vários Natais junto com os Malfoys... toda a família se reunia... eles são muitos... Mas não era uma família de verdade, sabe? Nenhum deles tinha verdadeiros laços de afeto... ninguém ali sabia o que era isso...
- Você ia com sua avó lá?
- Ia. Era uma espécie de "obrigação familiar", você sabe...
- Mais ou menos... Harry disse num tom mais descontraído, como se não se importasse. Ela subitamente se virou para ele, alarmada.
- Me desculpe, eu...
- Não, tudo bem... ele sorriu. Não importa, eu me acostumei com isso faz tempo.
Ele sabia que ela se referia ao fato de que ele nunca teve família para entender o que era uma "obrigação familiar". Ela observou-o por alguns instantes a mais, então se virou novamente para o céu, como se tivesse levado um choque, como se achasse mais seguro não olhar para ele.
- Nem queira saber então o que é isso. É tudo uma besteira sem fim. Aquelas "reuniões de família" eram apenas um bando de esnobes competindo pra ver quem tinha mais. ela estreitou os olhos, como se buscasse uma imagem na mente. Draco costumava fazer um jogo comigo: comparar quem ganhava mais presentes. É claro que eu perdia todas as vezes...
- E os seus pais? Você nunca fala sobre eles. ela girou o olhar tão bruscamente, que Harry logo se arrependeu de ter feito a pergunta sem pensar duas vezes. Tudo bem se não quiser responder. ele tentou remendar o estrago.
Ela suspirou novamente.
- Tudo bem... ela sorriu melancolicamente. "Eu me acostumei com isso faz tempo." ela continuou, imitando-o. Harry sorriu, um sorriso um tanto quanto sem vida.
- Eles... estão... Harry começou a perguntar, indeciso se deveria continuar. Katherine apenas o encarava com atenção. Você sabe... como... os meus?
- Não... quer dizer... ela bufou, como se aquele assunto a enfurecesse. Minha mãe não. Mas é como se estivesse. ela cuspiu as palavras selvagemente. Eu a odeio.
Houve uma pausa, na qual Harry apenas continuou encarando-a, sem conseguir desviar o olhar.
- Odeia...?
- Odeio. ela repetiu firmemente, sua voz vazia, assim como os seus olhos. Ela nunca se importou comigo de verdade.
Havia rancor na sua voz. Harry ficou imaginando como seria possível odiar assim a própria mãe. Ele não conseguia nem imaginar. Ele nem sabia direito como era amar a própria mãe...
Katherine voltou a encará-lo; seus olhares se cruzaram e, por algum tempo, eles apenas se observaram. A garota parecia mais séria do que nunca.
- Eu jamais repeti isso em voz alta. ela disse. Nunca contei a ninguém que odeio minha mãe. Estranho ter contado justo a você, Harry...
Houve uma longa pausa. Ela tinha dito o nome dele, mais uma vez, daquele jeito... Harry sentiu um estranho formigamento subir por seu corpo, entorpecendo sua mente e sua razão.
- Estranho... Harry estendeu a mão, sem pensar nas conseqüências, e tocou suavemente o rosto gelado dela; sua voz não passava de um sussurro. Estranho estarmos aqui... dessa maneira... juntos...
Uma neve fina começou a cair. Katherine não se moveu; ela apenas continuou a fitá-lo, como se estivesse hipnotizada. Harry não estava pensando direito. Ele sentiu novamente aquele incômodo no estômago, mas, instintivamente, sabia o que queria fazer. Aproximou-se dela, arrastando pesadamente o corpo sobre a grama. Sua mão continuava sobre o rosto dela, sentindo sua temperatura, que começava a esquentar, inexplicavelmente. Seus rostos estavam muito próximos agora. Harry estava quase fechando os olhos...
Katherine se afastou, como se tivesse levado um choque. Seus olhos estavam arregalados. Ela se sentou depressa, e a mão de Harry, antes sobre o rosto dela, agora tinha caído com um baque surdo na grama. Ele também se sentou, sem saber o que sentir; não tinha certeza se estava frustrado, decepcionado ou com a sensação de que tinha realmente perdido o juízo daquela vez. A verdade é que ele estava tão atordoado, que nem conseguia pensar.
Havia alguns flocos finos de neve presos nos cabelos da garota, que parecia um tanto descabelada e desconjuntada. Assim como Harry, Katherine também parecia bastante abalada. Ela tentava, de todas as maneiras, não cruzar seu olhar com o dele.
- Você não vai abrir a porta para aqueles dois? ela perguntou, ao mesmo tempo atordoada e tentando recompor-se, o que significava que ela forçava um tom rabugento. Talvez eles já tenham se matado lá dentro.
Harry levou um susto. Tinha se esquecido completamente de Rony e Hermione. Ele levantou a cabeça; no horizonte, percebia-se que começava a escurecer. A neve tornava-se mais forte. Como eu pude quase beijá-la dessa vez?
- Você tem razão. É melhor irmos embora.
*******
- Eu poderia ter feito isso. Harry disse rabugento, observando a tapeçaria cintilar, as estrelas formando os contornos dos centauros sobre o fundo negro. Katherine abaixou a varinha, sorrindo com um ar presunçoso.
- Desista, Potter, eu não vou te ensinar. ela ergueu as sobrancelhas, guardando novamente a varinha entre as vestes.
Harry colou o ouvido na tapeçaria, no lugar onde sabia que era a porta.
- Não tem nenhum barulho lá dentro...
- Será que eles se mataram mesmo? Katherine perguntou, um sorriso muito esperançoso no rosto. Harry apenas girou os olhos para ela, com a expressão de quem seria capaz de afogá-la no lago se ele não estivesse congelado. Ela deu de ombros, displicentemente. Mas se eles tiverem mesmo se matado... continuou um pouco depois, sorrindo com os dentes. - ...eu até perdôo sua dívida comigo, Potter.
- Eu vou tapar sua boca de novo se você não ficar quieta, pentelha. ele respondeu estreitando os olhos para ela.
- Credo, como você é sem graça, Potter.
Ele a ignorou, tentando ouvir algo dentro da sala, um pouco preocupado.
- É, acho melhor abrir a porta agora...
- Não! Katherine exclamou terrificada. Harry se virou para ela sem entender. Eles não podem me ver aqui! ela deu um passo à frente, apontando o dedo para ele, parecendo estar realmente falando sério. Se eles descobrirem que eu estou metida nisso, nossa trégua acaba no mesmo instante, entendeu, Potter?
Harry encarou confuso o dedo que ela lhe apontava em ameaça.
- Eu já prometi que não vou contar. Você pode tirar esse dedo da minha cara agora?
Ela fitou o dedo, como se só percebesse naquele momento o que estava fazendo, e recolheu a mão, um pouco envergonhada.
- É bom mesmo. disse por fim, como numa tentativa de manter a pose autoritária. Ela observou a tapeçaria por um instante, antes de se voltar para Harry novamente. Boa sorte com as feras.
Harry não respondeu, apenas observou-a ir embora e dobrar um corredor. Maluca, pensou. Completamente pirada. Ele se virou para a tapeçaria; as estrelas moviam-se, como se tentassem encontrar uma palavra para se arranjarem. É, Harry... uma maluca que você está começando a gostar...
- Não, não! Claro que não! ele disse em voz alta, tentando fazer com que a razão retornasse à sua cabeça perturbada. Ele suspirou e voltou a encarar a tapeçaria; as estrelas tinham finalmente formado uma palavra.
- Você sabe ler as estrelas? o centauro perguntou.
Harry bufou, fitando a palavra formada nas estrelas. Até eles sabiam?
- Vocês estão enganados.
O centauro apontou a lança para ele. Harry suspirou, girando os olhos.
- Mentira.
As estrelas se rearranjaram até formarem a porta cintilante e a maçaneta. Harry segurou-a, respirando fundo antes de girá-la; quando o fez, a porta rangeu suavemente e abriu.
Seus olhos se ofuscaram e a primeira coisa que sentiu foi surpresa ao ver como a sala estava diferente. Lá dentro não era noite, como costumava ser toda vez que ele e Katherine se reuniam ali. O teto refletia um dia claro, com poucas nuvens no céu azulado. Aquela sala era realmente tão esquisita quanto Katherine.
- Harry, seu filho da mãe! alguém gritou.
Harry levou um susto. Rony tinha se levantado, parecendo bem maior do que era, e se aproximava de Harry, batendo os pés enquanto caminhava. Hermione, que estava sentada no chão, encostada à parede (Rony estava ao seu lado quando Harry entrou), apenas observou a cena com uma expressão engraçada, como se estivesse dividida entre o riso e o aborrecimento.
- Como você pôde fazer isso com a gente?! Rony segurou o cangote de Harry, aparentando estar realmente nervoso, seus olhos cintilando de fúria e suas orelhas perigosamente vermelhas. Você preparou essa armadilha, não foi?
Harry não soube o que dizer diante daquela reação. Significava que não tinha dado certo, que eles ainda estavam brigados? Ou talvez Rony estivesse furioso porque Harry se intrometeu no problema dos dois? Quando Harry tentou falar, tudo o que saiu de seus lábios foram sons embaralhados, quase ininteligíveis:
- Erm... Rony... ele balbuciou, confuso. Hm... eu...
Houve uma explosão de risadas lá atrás. Harry, por cima do ombro de Rony, observou Hermione rindo de se acabar próxima a uma janela. Ele fitou Rony de volta, mas eles não trocaram aquele olhar de confusão como sempre faziam quando Hermione tinha uma atitude estranha; pelo contrário, Rony estava sorrindo divertidamente. Ele soltou o cangote de Harry, sua expressão totalmente diferente daquela de dois minutos antes.
- Rony, é melhor você parar... Hermione disse engasgada com o riso que tentava conter. Está assustando o coitado...
Harry definitivamente não estava entendendo nada. Rony riu prazerosamente.
- Olha a cara dele, Hermione! Nós o enganamos direitinho!
Foi então que Harry finalmente entendeu a jogada.
- Ora, seus desgraçados! ele exclamou indignado. Vocês combinaram toda essa encenação pra quando eu chegasse?
Foi a vez de Rony cair na gargalhada, rindo da indignação do amigo. Hermione, que parecia um pouco mais controlada, aproximou-se dos dois e postou as mãos na cintura, tomando aquele seu ar superior que sempre utilizava quando dizia algo importante.
- E você não planejou nos trancar aqui, Harry? Então, esse é o troco!
Harry encarou os dois severamente, mas depois começou a rir também. Rony, que finalmente também estava conseguindo se controlar, encarou-o com um olhar que ao menos tentava ser sério:
- Mas foi uma sacanagem o que você fez com a gente, cara.
- É verdade... Hermione remendou muito séria. Nós deveríamos estar muito bravos com você...
- Mas não estão. Não é?
Rony e Hermione se entreolharam, como se analisassem a situação.
- Nós devemos, Rony?
- Hum... ele fitou Harry pelo canto do olho. Vamos perdoar dessa vez, Mione... Mas só dessa vez! ele se virou para o amigo. E nos agradeça por sermos tão bondosos com você!
- Ah, que sorte a minha. Harry disse irônico. Mas como vocês perceberam?
Hermione riu desdenhosamente, girando os olhos para o teto.
- Ora, Harry, você estava muito estranho. Parecia ansioso demais e não estava sério como de costume. ela o fitou atentamente, e Harry sentiu como se Hermione enxergasse até seus pensamentos com aquele olhar. Você mudou muito subitamente, não estava distante de mim e Rony hoje como anda fazendo...
Harry engoliu em seco. Sabia à que ela se referia. Lembrou-se daquela conversa que teve com a amiga numa noite na sala comunal, quando ela disse que não importava se ele escondia algo horrível; eles eram seus amigos e nunca o deixariam de apoiá-lo. Subitamente, Harry se sentiu mal e desconfortável mais uma vez na presença de Rony e Hermione, mas dessa vez por mentir para eles.
- Ah, mas também teve aquelas cartas esquisitas. Rony exclamou, desviando o assunto. Eu achei muito estranha aquela carta da Mione quando a recebi, mas nunca me passou pela cabeça que era falsa! Só depois, quando cheguei aqui, é que fui me tocar...
- O que eu não consigo entender, Harry... Hermione interrompeu. ...é como você conseguiu falsificar aquelas cartas! ele sentiu um frio no estômago; não podia contar como tinha feito, ou melhor, quem tinha feito. A letra da Profª. McGonagall estava muito parecida e a minha estava tão igual que chega a ser assustador!
- Verdade, eu também fiquei curioso com isso... Rony murmurou pensativo. Harry de repente sentiu a boca muito seca.
- Anh... ele disse, pensando muito rápido. Eu... ah, isso é segredo! ele espantou o assunto. Vou deixá-los curiosos por terem me enganado também.
Rony protestou indignado, mas Hermione apenas encarou Harry com os olhos atentos, o que foi muito pior. Ele desejou que eles mudassem de assunto, mas quando Harry abriu a boca para tentar fazê-lo, Hermione já estava perguntando outra coisa:
- E essa sala? Eu não conhecia esse lugar... Como você ficou sabendo daqui?
- Anh... eu descobri... por acaso. mas ela não parecia convencida. Só isso, Mione.
Ele não conseguiu encarar os amigos depois de mentir tanto e preferiu abrir a porta e sair depressa dali. Rony e Hermione o seguiram.
- Mas afinal... ele pigarreou, ainda sem olhar para os amigos. O meu plano funcionou?
Rony e Hermione se entreolharam, trocando aqueles sorrisos entre si. Harry também sorriu, aliviado, mesmo que ainda sentisse um certo gelo no estômago por causa das perguntas de Hermione. Foi Rony que se virou para Harry, com um enorme sorriso sincero no rosto, e disse:
- Funcionou, sim. ele colocou o braço sobre os ombros de Hermione, que sorriu timidamente. Obrigado, amigo.
Harry sorriu de volta, aliviado que tudo tivesse dado certo. Eles começaram a caminhar, mas Harry bateu os olhos na dobra de um corredor, onde havia uma pessoa espiando toda a cena. Ele parou de andar subitamente, piscando os olhos para comprovar se não estava enxergando coisas, mas a pessoa não estava mais ali. Estranho... não poderia ser... ela...
- O que foi, Harry? Rony perguntou atrás dele.
- Você viu alguma coisa lá? Hermione, ao lado do amigo, perguntou, tentando ver o que Harry via.
- Não, eu não vi nada. ele respondeu mecanicamente, a cabeça perdida em pensamentos muito distantes dali. Vamos embora.
Mas era ela, Harry pensou enquanto caminhava com os amigos. Era Katherine que estava ali.
No próximo capítulo: Chegam as férias de Natal, e Harry percebe que as coisas mudaram quando volta a Freshpeach, na casa de praia. Pesadelos desconexos sobre passados distantes perturbam Harry. Um telefonema e uma visita ao passado revelam segredos antigos, e um presente de Natal de uma pessoa inesperada desperta lembranças e mágoas em Sirius, e Harry finalmente aceita a verdade sobre seus sentimentos.
Leia também:"Não vá embora", songfic da cena Rony/Hermione desse capítulo - NO AR!!!