Nota da autora: Esse é o presente de Natal (adiantado! ;) da Jessie (Miss Gryffindor). Mas vou aproveitar também para dedicar como presente a todos os meus leitores que me apoiaram nessa fase pré-vestibular e pós-vestibular também, com todos esses comentários de incentivo no GB. MUITO OBRIGADA MESMO, GENTE! :)

 

Capítulo Treze – Os desenhos secretos

 

- Longbottom! Quantas vezes eu disse que a essência de murtisco deveria ser colocada na poção somente quando ela maturasse? – Snape reclamou com sua voz seca, fazendo Neville se encolher na cadeira. – Evanesco! – ele fez um gesto amplo com a varinha, fazendo toda a poção de Neville desaparecer. Draco Malfoy disse algo que fez seus amigos rirem do outro lado da sala. – Quero uma redação de quinze rolos de pergaminho sobre como preparar essa poção, isto é, se você souber escrever, Longbottom, porque parece que você mal sabe ler a instruções que eu passo.

Neville abaixou a cabeça, desolado; era possível ainda ouvir a risada de alguns sonserinos, que achavam muita graça nas piadas de Malfoy sobre o assunto. Harry olhou feio para ele, por trás da cortina de fumaça que estava na sala, mas Malfoy apenas mostrou um sorriso irônico e comentou alguma coisa com Pansy Parkinson, fazendo a garota rir. Rony, que estava prestando atenção no mesmo que o amigo, apenas murmurou com raiva "filho da mãe", mas se calou bem depressa quando Snape alcançou a mesa deles.

Ele observou primeiro a poção de Hermione, e obviamente não achou nada para reclamar; a garota encarou o professor em desafio, o que o fez remexer os lábios numa careta de raiva e frustração. Seus olhos negros, então, correram para as poções de Harry e Rony, onde, surpreendentemente, não achou defeito também.

- Dez pontos a menos para cada um, Potter e Weasley.

- Por quê? – os dois perguntaram em uníssono, revoltados, ouvindo ao fundo as risadas irritantes dos sonserinos.

- A poção deles está correta, professor. – Hermione alegou com imprudência. – O senhor não pode tirar pontos dos alunos por fazerem as coisas certas!

- Exatamente por isso, Srta. Granger, eu estou tirando os pontos. – ele respondeu com um sorriso cínico. – E menos vinte pontos também... porque a senhorita os ajudou nas poções.

- O quê? – Harry não conseguiu se conter.

Snape se voltou para ele indulgentemente.

- Alguma reclamação, Potter?

- Isso é injusto! – Harry prosseguiu, sem se importar com os olhos arregalados de Rony ou com os chutes que Hermione lhe dava por debaixo da mesa. – O senhor não pode fazer isso! Está descontando a sua raiva de sabe-se sei lá o quê na gente!

O rosto de Snape se contraiu e seus lábios representavam apenas uma linha muito fina. A sala ficou muito silenciosa.

- Detenção na sexta-feira, Potter. Depois das aulas, comigo.

Harry bufou, imaginando várias formas diferentes de torturar Snape, cada uma mais dolorosa que a anterior. O professor deslizou para a frente da sala, enquanto Hermione fitava Harry com aquela sua cara de "você não devia ter feito isso!" que só servia mesmo para piorar o humor do garoto. Ele observou as costas de Snape, pensando no "sabe-se lá o quê" que estava deixando-o com tanta raiva daquele jeito.

O rapaz virou a cabeça para o lado esquerdo da sala, bem ao fundo, na carteira onde Katherine estava sentada sozinha. Ela estava observando Snape também, com o queixo apoiado na mão direita distraidamente; os olhos dela, estreitos, pareciam querer dizer que ela sabia de alguma coisa. No entanto, enquanto Harry pensava essas coisas, ela pareceu perceber que o rapaz a observava, porque se virou para ele, ergueu as sobrancelhas como se perguntasse "o que você está encarando?" e depois voltou a mexer na sua poção fumegante.

 

*******

 

- Você sabia que ia arranjar encrenca, Harry, mas mesmo assim não pára de correr atrás delas! O que se passa pela sua cabeça, hein?

Harry, Rony e Hermione tinham acabado de sair da aula de Poções e estavam caminhando pelos jardins em direção à estufa sete, onde teriam aula de Herbologia com a turma da Lufa-lufa. O vento seco e frio do fim de outubro fustigava-lhes as faces, e Harry ajeitou melhor a capa sobre o corpo, olhando feio para a amiga, que ainda não tinha parado de ralhar com ele desde que saíram da aula de Poções.

- Queria ver você no meu lugar! O Snape agora pega no meu pé em duas aulas diferentes!

- E foi sacanagem mesmo o que ele fez hoje... – Rony resmungou. – A primeira vez na vida que eu faço uma poção certa e ainda perco pontos por isso!

- Com licença. – Hermione se intrometeu. – Você fez a poção certa? Eu ajudei vocês dois o tempo todo!

- Agora a culpa é nossa que você perdeu vinte pontos!

- Eu não estou dizendo isso, Rony!

- Mas é o que parece que você está querendo dizer!

- Ei, ei! – Harry se intrometeu. – Fiquem felizes porque só perderam pontos. Eu ainda vou ter uma detenção com Snape...

- Porque provocou! – Hermione repetiu. – Se você tivesse ficado quieto...

- O que eu queria mesmo saber... – Harry ignorou a frase da amiga. - ...é o que aconteceu com o Snape para que ele ficasse de tão mau humor...

- E ele já esteve de bom humor algum dia? – Rony perguntou irônico.

- Mas nesse ponto Harry tem razão. – Hermione ponderou, enquanto os três jogavam suas mochilas nas mesas da estufa sete. Harry reparou que um grupo de Lufa-lufas comentava uma notícia de jornal a um canto, parecendo assustados. – Snape está mesmo estranho de uns tempos para cá. Parece pior do que já era antes!

- Eu não vejo como ele possa ficar pior. – Rony disse só por dizer, ou talvez só para contrariar Hermione mesmo. Harry continuou observando o grupo de Lufa-lufas; Ernie Macmillan segurava um exemplar amassado do Profeta Diário.

- Hermione, você leu o Profeta Diário hoje? – ele disparou antes que a garota pudesse retrucar o que Rony dissera, pegando-a de surpresa.

- Hum... não, hoje não... – ela disse ligeiramente intrigada com a pergunta repentina de Harry; Rony também parecia curioso, tanto que parou de discutir com a garota. – Eu precisei resolver uns problemas de monitoria hoje de manhã e não tive tempo de ler o jornal... – Rony fez uma careta, mas não disse nada. – Mas... eu acho que ele ainda está aqui na mochila...

Enquanto Hermione revirava sua mochila à procura do jornal, os alunos se sentaram e silenciaram quando a Profª. Sprout entrou na estufa. Ela pediu para que Parvati Patil a ajudasse com um espécime de uma flor vivamente colorida, que era extremamente venenosa e usada em poções de "usos duvidosos", ou seja, poções de magia negra. Enquanto todos estavam muito preocupados prestando atenção no que a professora dizia, Hermione tirou o jornal do fundo da mochila e começou a vasculhá-lo por debaixo da mesa, soltando uma exclamação de susto ao ler uma das notícias.

- O que foi? – Harry perguntou com urgência. Rony tentava ver alguma coisa por cima das costas do amigo.

- O que está acontecendo aí atrás? – a professora perguntou severamente, observando os três. Hermione engoliu em seco e fechou o jornal rapidamente.

- Nada, professora, está tudo certo.

A Profª. Sprout não parecia ter acreditado, por isso, passou o resto da aula de olho neles, o que impediu Harry de saber o que de tão ruim tinha acontecido para que Hermione estivesse com aquela expressão nervosa e amassasse cada vez mais o jornal entre os dedos. Várias vezes, Harry tentou perguntar silenciosamente o que tinha acontecido, mas Hermione desviava o rosto e fingia prestar atenção na aula. Rony passou um bilhete para ela: "Deixe de ser CDF e diga para mim e Harry o que aconteceu!", mas a garota devolveu com um bilhete seco e grosso: "Deixe de ser irritante e pare de me atrapalhar!".

Harry passou toda a aula com o pensamento no que Hermione estava escondendo deles. Às vezes ele fitava o jornal, mas a amiga, percebendo, segurava-o com mais força, tentando escondê-lo. Harry começou a imaginar milhares de coisas ruins que poderiam ter acontecido, todas elas envolvendo Voldemort e alguma catástrofe. Ele se lembrou da última vez que o Profeta Diário trouxera más notícias, quando a avó de Katherine tinha sido assassinada daquela maneira, e ficou imaginando se Hermione estaria escondendo aquilo pois dessa vez tinha sido com alguém que conheciam. Ele se virou para Rony; e se fosse algo ruim com os Weasleys? Não, não, aquilo não... Rony tinha recebido uma carta da mãe ainda no dia anterior. Se bem que, numa época como aquela, isso não era garantia de nada... Não, não podia ser...

Quando a sineta para o almoço tocou, Harry achou que tinha passado no mínimo o tempo de umas cinco aulas ao invés de apenas uma. Hermione colocou a mochila nas costas rapidamente e saiu feito um furacão da estufa; Harry e Rony se entreolharam confusos, Harry tendo milhões de pensamentos negros. Os dois recolheram o mais rápido que puderam suas coisas e atropelaram vários colegas para saírem depressa em meio à aglomeração de alunos famintos loucos pelo almoço. Em meio à tarde nevoenta que estava no jardim, Rony reconheceu os cabelos cheios de Hermione mais à frente.

- Não vai fugir assim da gente, Hermione. – ele disse seriamente quando a alcançou, colocando-se de frente a ela, fazendo-a parar de andar. Ela se virou e viu Harry bem atrás.

- O que você viu nesse jornal que a perturbou tanto? – ele perguntou cauteloso.

A garota suspirou profundamente, encarando ora Harry, ora Rony, até que se deu por vencida e murmurou:

- Vamos para um lugar onde tenha menos gente...

Eles se desviaram do fluxo de alunos em direção ao castelo e acabaram sentando em um banco vazio, no lado oeste da propriedade. Harry e Rony se postaram um de cada lado da amiga, enquanto ela suspirava novamente e colocava o jornal no colo, ainda fechado, cobrindo-o com as mãos.

- O que aconteceu? – Rony perguntou de novo quando estavam sozinhos. – É algo ruim? Com alguém que conhecemos?

O estômago de Harry estava dando voltas. E se fosse mesmo algo com os Weasleys? E se fosse com Sirius? Mas ao invés de olhar para Rony, Hermione se virou para ele, com um olhar penalizado.

- Pode ser um pouco chocante, Harry... – ela murmurou lentamente. – Eu sei que você não gostava deles, mas mesmo assim...

- Me deixa ver isso! – ele puxou o jornal das mãos dela antes que pudesse ser impedido e começou a procurar freneticamente. Hermione segurou o braço dele e o olhou seriamente. Harry parou de mexer no jornal. Ele pôde ver a expressão de Rony, quase tão alarmada quanto a dele deveria estar.

- Os Comensais da Morte atacaram os trouxas de novo... só que dessa vez, foi em Little Whinging, Surrey...

 

*******

 

Harry ainda não acreditava que tivesse ouvido direito. Ele não sabia o que pensar ou sentir a respeito. A única coisa que sabia era que precisava saber ao certo o que tinha acontecido, e estava indo de encontro da única pessoa que poderia sanar suas dúvidas.

- Harry, vai mais devagar! – Hermione pediu correndo para alcançá-lo. Rony estava junto dela e parecia um pouco assustado.

- Você acha que... os seus tios... – ele começou incerto. – Podem ter...

- Eu não sei! – Harry respondeu impaciente, andando mais depressa. – É o que eu quero saber também!

- Bem, mas de qualquer maneira... eles sempre te trataram mal...

- Rony! – Hermione exclamou com um tom repreensivo. – Olha o que você está dizendo!

- Mas é verdade, não é? – ele retrucou um tanto quanto constrangido. – Eles sempre foram ruins com você, Harry...

Era verdade. Os Dursleys, desde que Harry se conhecia por gente, foram ruins para ele. Sempre o trataram mal, sempre como se ele fosse um estorvo, sempre como se tivesse sido melhor que Harry tivesse morrido junto com os pais no "acidente de carro", como eles diziam. E depois, sempre torcendo para que Harry "se explodisse" como acontecera com seus pais, ou talvez até coisa pior. Harry detestava os tios, Duda, e qualquer membro daquela família e até saíra brigado da Rua dos Alfeneiros com dezesseis anos, mas daí desejar que eles... não, não chegava a tanto. Não, não poderia pensar assim! Ele com certeza não desejava tanto mal assim para eles... Poderia desejar que eles inflassem como Tia Guida, ou que Duda virasse um porco de verdade, ou qualquer outra coisa do gênero... mas nunca que eles...

Harry parou na frente do gárgula de pedra, observando-o demoradamente. Rony e Hermione se entreolharam ao seu lado, sem saberem o que dizer. Harry também não sabia. Não sabia nem como deveria se sentir. Estava tudo tão confuso em sua cabeça... Ele definitivamente não estava feliz por aquilo estar acontecendo... mas não estava triste também. Ele não sabia se sentia muito, ou se não sentia coisa alguma. Bem, talvez eles nem estivessem lá, talvez eles estivessem em outro lugar...

Era a irmã de sua mãe... apesar de tudo, tia Petúnia ainda era a irmã de sua mãe...

Samantha também era.

Não, mas era diferente! Pelo menos... pelo menos tia Petúnia era filha de Arabella... já Samantha era filha de Voldemort...

Ele olhou para os dois amigos, preocupados, ao seu lado. Pensar naquilo só estava piorando as coisas. Ele voltou a encarar o gárgula de pedra.

- Você sabe a senha da sala de Dumbledore? – Hermione perguntou.

- Sei. – Harry disse sem emoção.

A amiga parecia estar pensando sobre essa pequena informação, mas não disse nada. Rony a encarou sem entender. No entanto, quando Harry ia dizer "pena açucarada", o gárgula girou para que alguém saísse.

- Professora McGonagall! – Hermione exclamou surpresa.

A professora arregalou os olhos ao ver os três, porém, focalizou Harry mais atentamente do que os outros.

- Ah, Potter... O diretor já tinha pedido para que eu falasse com você mesmo.

Harry abriu a boca para disparar todas as mil perguntas que tinha para fazer, mas a professora o calou com um gesto de sua mão.

- Vamos para a minha sala, Potter. – ela disse e, dirigindo-se a Rony e Hermione, completou: - Vocês podem voltar para o almoço e para as aulas da tarde.

- Mas... – Rony começou a dizer, calando-se também após um olhar severo da professora que, com um novo gesto, indicou a Harry que a seguisse. Após entreolhar nervosamente os amigos, ele acompanhou a professora.

Eles fizeram toda a caminhada até a sala dela em completo silêncio. Harry não conseguia parar de pensar em como aquilo lhe confundia. Ele nunca desejara aquilo para os Dursleys... eles poderiam tê-lo tratado mal todos aqueles anos, mas ele nunca... nunca desejaria...

Nem quando eles te trancavam no armário sem comida?

Ou quando eles colocaram grades no seu quarto?

E em todas aquelas vezes que tia Petúnia o colocou de castigo por perguntar sobre seus pais?

E as vezes em que Duda o humilhou na frente de toda a escola primária?

Ou naquela vez que tio Válter bateu nele de cinto, quando ele tinha apenas sete anos, porque a televisão explodiu sozinha?

Você nunca desejou que os Dursleys não existissem, Harry?

Harry respirou fundo; só queria que aquilo parasse, que aquela vozinha na sua cabeça parasse de acusá-lo... Ele não era como Voldemort... ele não queria, mesmo depois de tudo, ver os Dursleys... mortos...

- Você está bem, Harry? – a Profª. McGonagall perguntou quando chegaram à sala dela.

Ele não conseguiu encará-la nos olhos. Preferiu encarar o chão. Estava com nojo, vergonha de si mesmo...

Ele era como Voldemort?

Você é neto dele... Você tem o mesmo sangue sujo dele...

Não, eu não sou como Voldemort... Harry pensou desesperado... não sou...

- Tudo bem, professora. – ele murmurou e quase não conseguiu ouvir o som da própria voz.

Eles entraram na sala de McGonagall. Ela contornou sua mesa e se sentou na cadeira de espaldar reto. Harry se sentou de frente a ela, sem ainda conseguir encarar seus olhos; era como se temesse que ela enxergasse suas dúvidas neles. Ele tinha vergonha daquilo... ninguém poderia saber... saber que Harry tinha algo em comum com ele...

Mas a Profª. McGonagall era amiga de sua avó Arabella... talvez ela até já soubesse... como será que ela se sentia, ali, sentada de frente para o neto daquele que fizera e ainda fazia tantas atrocidades?

- Harry... – a professora começou num tom mais brando do que de costume. – Eu suponho que você já tenha lido algo sobre isso no jornal...

Ele não estava escutando direito. Estava prestando mais atenção nas dúvidas que tinha sobre si mesmo... era como se ele não conhecesse a si mesmo...

- ...e vários trouxas morreram nas proximidades da casa de seus tios... Dumbledore está procurando saber se tinha algo a ver com você... por você ter vivido lá...

- É por minha causa, então? – Harry disparou sem pensar. – Foi minha culpa?

- Não! – a professora respondeu enfaticamente, os olhos arregalados, o tom preocupado. – Não, Harry, não pense assim! Você não teve culpa de nada, jamais pense dessa maneira!

Você teve sim... você queria isso...

Não queria! Eu já tinha me esquecido deles!

Não se esquece tantos anos assim tão fácil...

A voz de McGonagall parecia estar tão longe...

- ...como eu disse, vários trouxas morreram... Está como da outra vez, há dezesseis anos... Os seus tios...

Harry voltou sua atenção à professora, mesmo que seus pensamentos não deixassem de atormentá-lo.

- Bem, os seus tios... O seu primo estava na escola interna, por isso não aconteceu nada com ele, mas seus tios...

Aquilo estava torturando-o. Por que ela não dizia logo? Mas ele também não conseguia fazer sua voz sair para pedir que ela falasse...

- A sua tia, Petúnia... e o seu tio, Válter Dursley... – ela respirou fundo, ajeitando os óculos quadrados no rosto. – Eu sinto muito, Harry... Sei que vocês não se davam bem, mas mesmo assim...

E aquela vozinha não parava de acusá-lo.

 

*******

 

"Ah, é? E ela te contou também que traiu meu pai?"

Aquele dia... já fazia tanto tempo... como poderia pensar que seria realmente a última vez que os veria? A última vez que os veria... com vida?

"ELA O TRAIU SIM! E DA TRAIÇÃO NASCEU AQUELA BASTARDA DA LÍLIAN!"

Harry fechou os olhos; aquela claridade que entrava pela janela de seu dormitório silencioso cegava seus olhos. Porém, mesmo de olhos fechados, a claridade continuava a incomodar, mas ao invés da luz por trás de suas pálpebras, o que ele via eram as cenas, as várias cenas de seu passado na Rua dos Alfeneiros, n.º 4. E não havia boas lembranças... nenhuma...

"E depois a Lílian e aquele Potter com quem ela se casou fizeram o favor de se explodirem!"

Ele abriu os olhos ardidos. O quarto estava desfocado; estava sem os óculos. E Duda? Tantas vezes ele rira de Harry... quando ele era pequeno, Duda dizia que a história do acidente de carro era mentira... que a verdade era que os pais de Harry tinham-no abandonado... que ele não merecia ter família... que ele fora rejeitado...

Harry, com quatro anos, ia para o seu armário e se perguntava por que as pessoas não podiam gostar dele... Será que era porque ele era magricelo, de cabelo bagunçado e os óculos remendados com fita de adesiva? Ou era porque ele não tinha os mesmos brinquedos bonitos que Duda?

E agora Duda era como ele... sem pai... sem mãe...

Sozinho no mundo...

"E foi uma pena que você não tenha se explodido junto com eles também!"

A claridade ia diminuindo conforme o tempo passava... começava a escurecer... Batia uma brisa gelada, a cortina ondulava suavemente... dava para enxergar de onde Harry estava, estirado na cama...

"Se você tivesse morrido naquele dia, eu não teria precisado cuidar de você durante todos esses anos!"

Tia Petúnia queria que ele tivesse morrido... pouparia muito trabalho e aborrecimento durante todos aqueles anos... mas Harry também desejava aquilo? Ele queria que os Dursleys não existissem?

Talvez sua infância tivesse sido melhor sem eles...

Você está se igualando a Voldemort.

Harry teve nojo de si mesmo novamente.

"A CULPA FOI TODA SUA!"

- Harry?

Ele se sentou rapidamente, assustado. A noite já tinha caído. O quarto estava parcialmente iluminado pela claridade opaca da lua. Harry conseguiu divisar a silhueta de alguém parado à porta.

- Você não apareceu nas aulas e nem no jantar. Eu e Hermione ficamos preocupados.

Ele ouviu o barulho da porta rangendo quando Rony a encostou; por algum motivo, não quis olhar. Não queria olhar para Rony... não conseguia.

- Nós fomos falar com a McGonagall... – a voz dele se aproximava; Harry queria recuar, mas não sabia para onde... sentia-se acuado, incomodado. – Ela nos contou o que aconteceu... disse que o dispensou das aulas...

A cama de Rony rangeu sensivelmente sob o seu peso. Harry sabia que ele estava sentado de frente a ele, olhando para ele... Rony não tinha a menor idéia do quão sujo era seu melhor amigo...

- Você está bem? Parece meio pálido...

- Eu estou... – sua voz era um mero sussurro. - ...estou bem...

- Olha... – a voz de Rony indicava que ele estava constrangido. Será que ele sabia quem Harry era? Harry queria que ele se afastasse... – Foi mal ter dito aquilo mais cedo... Eu não pensei direito, você sabe como eu sou atrapalhado, falo as coisas sem pensar... Eu não quis dizer...

...que foi bom eles morrerem?

...que foi bem feito?

...que foi o que eu queria?

- ...você entende, não é, Harry?

Não, eu não queria isso! Eu não sou como Voldemort...

Mas é neto dele.

Tem o sangue dele...

Harry pulou para fora da cama, e se virou de costas para o amigo, de modo que conseguisse divisar os jardins pela janela. Ele desejou que Rony fosse embora. Rony era uma pessoa boa. Ele não.

- Harry?

Ele acenou afirmativamente com a cabeça. Vá embora, Rony, vá embora.

Silêncio. A cama de Rony rangeu novamente.

- Você não vai ir comer nada? A Hermione pediu que eu insistisse... A gente pode visitar o Dobby para pegar algumas coisas... Ele vai ficar feliz de te ver...

- Eu não estou com fome. – sua voz soou morta. – Rony... eu quero ficar sozinho... Você se importa?

- Não, não! – ele disse depressa. – Tudo bem, Harry, eu só vim ver se está tudo bem mesmo.

- Está tudo bem.

- O.k...

Os passos se afastando. A porta rangendo. Uma vez. Duas vezes. O clique da porta fechando. Os passos sumindo.

Harry se sentou na cama novamente. Paralisado. Deitou de lado. Os olhos sem foco.

Nunca tinha imaginado que o mundo sem os Dursleys o perturbaria tanto.

 

*******

 

Snape examinou, com um olhar crítico, as tripas que tinham saído das iguanas que Harry estava destripando. O rapaz esperou. Snape tinha ficado fungando em seu pescoço durante todas as malditas três horas que Harry esteve ali, destripando iguanas. Aquilo não era uma detenção; era apenas uma diversão pessoal de Severo Snape.

- Acho que não estão bons, Potter. – ele disse, jogando as tripas em cima de Harry. – Faça de novo.

Harry respirou bem fundo e contou até três. Depois percebeu que não adiantaria e contou até dez. E continuou contando até vinte, imaginando que horas sairia dali. Voltou a destripar as iguanas, sem emitir nenhum som; Snape andava de um lado para o outro, bufando, pigarreando, estalando a língua.

- Eu fico pensando o que seu pai diria se o visse agora, Potter.

O tom dele era de zombaria. Harry puxou com tamanha força o estômago de uma iguana, que ele abriu todo e uma secreção viscosa e fedorenta se espalhou por seus dedos.

- O que diria o grande Tiago Potter se visse o filho com as mãos fedendo a tripas de iguana?

- Ele não diria nada. – Harry disse entredentes, sem desviar a atenção do seu trabalho nojento. – Porque ele está morto e não pode dizer coisa alguma.

- E o que Black diria, Potter?

Harry riu.

- Do quê você está rindo, Potter?

- Você não contaria isso ao Sirius.

- Senhor. Eu sou seu professor, Potter. Trate-me por senhor.

- O senhor não contaria isso ao Sirius. – Harry repetiu calmamente, mas as tripas se desfaziam em suas mãos. Ele levantou ligeiramente os olhos; Snape o encarava friamente, não parecia mais tão contente em se divertir às custas de Harry. Atrás dele, uma lareira queimava em chamas frias.

- Por que não?

PLOC.

- Porque o senhor tem medo dele.

Os dois ouviram uma risada escandalosa. Harry levantou a cabeça rapidamente; Snape se virou com um movimento brusco na direção da lareira. Os olhos de Harry se arregalaram ao enxergar aquele rosto na lareira, emoldurado por chamas esverdeadas e sem calor.

- Eu concordo com ele, Severo. – Samantha Stevens disse com divertimento na voz rouca. – Você é um cagão.

O rosto de Snape perdeu a pouca cor que tinha. Harry não conseguia entender porque Samantha Stevens tinha aparecido na lareira de Snape, e também não tinha gostado nada de vê-la, mas mesmo assim não podia deixar de achar graça no que ela tinha dito. Snape se virou para ele furioso, e Harry parou de rir.

- Saia daqui, Potter! A sua detenção acabou!

A cabeça de Samantha se inclinou no fogo para ver melhor além de Snape. Ela sorriu ironicamente.

- Destripando iguanas, Harry? – e se virando para o bruxo perto dela. – Você é nojento, Severo. No sentido literal da palavra.

- SAIA, POTTER!

Harry não pensou duas vezes. Levantou-se depressa e, depois de um último olhar intrigado para Samantha, que sorriu para ele e o fitou com aquele olhar profundo que ele detestava, o rapaz saiu, encostando a porta. Ele deu alguns passos, fingindo se distanciar, mas logo voltou silenciosamente e colou o ouvido na porta da masmorra. Não ia sair dali sem saber o que Samantha e Snape estavam fazendo juntos.

As vozes deles estavam abafadas pela porta fechada, mas Harry ainda assim conseguiu entreouvir alguma coisa. Snape parecia simplesmente furioso, enquanto Samantha dava a impressão de estar se divertindo.

"...você não podia ter aparecido aqui desse jeito! Potter a viu!"

"Dane-se. Harry provavelmente sabe mais coisas do que você, seu estúpido!"

"É claro que não sabe, Dumbledore não conta metade das coisas para ele."

"Ele não precisa de Dumbledore para saber."

"Você não veio aqui para falar de Potter, não é?"

"Não, eu vim porque tenho assuntos para resolver com você. Ontem, na reunião dos Comensais..."

Harry descolou o ouvido da porta rapidamente. Ouvira passos. Alguém estava vindo. Ele olhou para os lados; não tinha como fugir, a pessoa estava próxima. Olhou para trás. Poderia fingir que saíra da masmorra de Snape, era o único jeito.

- Potter? – era a voz arrastada de Draco Malfoy. Harry reconheceu seu rosto pálido parcialmente encoberto pelas sombras.

- É, por quê? Nunca me viu, Malfoy? – ele retrucou com sarcasmo.

O sonserino estreitou os olhos de uma maneira astuta, observando a porta às costas de Harry.

- O que estava fazendo?

- Não que seja de sua conta. – Harry retrucou, escondendo as mãos sujas atrás de si. – Mas... detenção.

Um sorriso amplo se espalhou pelo rosto de Malfoy, mas logo depois ele fez uma careta com o nariz.

- Você está fedendo, Potter. Vai contaminar o castelo todo desse jeito.

- Pelo menos eu só estou fedendo hoje. – Harry respondeu. – Já você fede em tempo integral.

Harry deu as costas a ele, caminhando no sentido que levava para fora das masmorras. Ainda ouviu uma risadinha sarcástica de Malfoy às suas costas, mas não ligou. O que ele poderia fazer? Entrar na sala de Snape e contar que Harry estava de ouvidos colados na porta? Era capaz de Snape se enfezar ainda mais, do jeito que ficou mal humorado quando Samantha apareceu na lareira...

Eles estavam conversando sobre a reunião de Comensais da Morte. Samantha, provavelmente, deveria estar presente sob sua forma animaga, como Nagini. Mas Snape... estava mancomunado com ela? Como, se Dumbledore confiava tanto nele? Mas Dumbledore também confiava em Samantha... e estava enganado. O sangue de Harry ferveu. Como eles podiam ser tão cínicos? Como Snape podia ser tão cínico? Harry precisava contar isso ao diretor. Mas de que adiantaria, se Dumbledore parecia ficar cego quando o assunto era Snape e Samantha? "Eu confio neles..." Dumbledore estava errado, estava sendo enganado. Harry precisava abrir seus olhos, mesmo que o diretor não quisesse isso.

Snape era mesmo um desgraçado, filho da mãe. Rony estava certo em sempre desconfiar dele. Rony... Hermione... fazia pelo menos uns três dias que Harry não falava direito com eles. Desde a morte dos Dursleys... Harry simplesmente não conseguia se aproximar deles. Era como se não fosse digno de estar entre eles. Entre as pessoas boas. Mas Rony e Hermione estavam notando isso... e logo lhe pressionariam. E Harry não contaria a verdade... não poderia contar a eles que era neto dele...

"Dumbledore não conta metade das coisas para ele."

À que Snape se referia? O que mais Dumbledore não tinha contado a ele? Depois de saber de sua relação consangüínea com... Voldemort..., Harry tinha pensado que não havia mais nada que Dumbledore não tivesse lhe contado. Mas o que mais ele não sabia? O que mais Dumbledore escondia dele?

Então Harry não estava cometendo um pecado tão grande assim, deixando de contar tudo sobre Samantha e a Terra das Sombras... Dumbledore também andava escondendo coisas dele... coisas que ele deveria saber...

Ele parou em frente à tapeçaria dos centauros. Nem tinha percebido que tinha chegado ali. Seus pés o levaram sozinhos. Será que... não, não deveria estar. Mesmo assim, Harry entrou.

A sala estava um pouco mais clara do que de costume; encostada à parede, com uma prancheta sobre o colo e um monte de folhas espalhadas ao seu redor, estava Katherine.

- O que você está fazendo aqui? – ela perguntou, levantando os olhos ao perceber que ele tinha entrado. – Nós não combinamos um treino hoje.

- Ah, eu só... vim parar aqui... e resolvi entrar. – ele disse e percebeu que as palavras pareciam um tanto quanto estúpidas ao serem pronunciadas. – Não sabia que você estaria aqui.

- Esse lugar é meu. – ela respondeu com grosseria. – Você só deveria aparecer aqui nos treinos.

Harry não soube o que dizer. Sua boca ficou seca.

- Eu vou embora, então.

- Não!

Ele enrugou a testa, confuso.

- Você bateu a cabeça em algum lugar hoje, sua pentelha?

Ela riu levemente e voltou a riscar o papel sobre a palheta.

- Só estou dizendo que você pode ficar. Se quiser...

Harry sentiu o músculo de sua boca se contrair num sorriso mínimo. Aproximou-se dela, e reparou nas várias folhas espalhadas no chão. Algumas estavam apenas rabiscadas, outras amassadas, algumas eram desenhos de pessoas, mas ele não conseguiu reconhecê-las, pois a garota os juntou depressa.

- Mas não é para ficar xeretando! – ela repreendeu.

O rapaz riu pelo nariz e se sentou no chão, perto da garota. Ela começou a rabiscar o papel novamente, e o único som na sala era o da grafite arranhando o pergaminho. Até que ela parasse novamente.

- Está fedendo aqui. – ela disse, virando para ele displicentemente. – E vem de você.

Harry bufou e levantou as mãos; suas unhas estavam imundas de restos de tripas. O cheiro era mesmo bastante ruim.

- Credo! – ela fez uma careta, tapando o nariz com a mão enluvada. – Vá limpar isso! – a voz dela saiu abafada e engraçada.

Harry riu.

- Eu não sei limpar essa porcaria. Esse troço não sai!

- É claro que não sai, se você for um trouxa! Tem que fazer um feitiço!

Ele ergueu as sobrancelhas para ela.

- E você acha que se eu soubesse fazer continuaria com as unhas desse jeito?

- Você ficou tonto ou nasceu assim mesmo? - Harry jogou uma das bolinhas de papel na cabeça dela, fazendo-a rir. – Vamos, estique as mãos para mim. – ela mandou, tirando a varinha do meio das vestes.

- Ei, o que você vai fazer com isso?

- Está com medo de mim, huh, Potter? – ela zombou. – Vamos, Harry, pare de ser idiota e estique as mãos antes que eu sufoque com esse mau cheiro!

Ele sorriu ligeiramente, ainda achando esquisito ouvir seu nome sendo pronunciado por ela; às vezes ela fazia isso, mas ele ainda não tinha se acostumado. De qualquer maneira, ele acabou esticando as mãos. A garota exclamou "Limpar" e foi apontando a varinha para cada uma das unhas de Harry, fazendo os restos de tripas sumirem junto com o cheiro.

- Hermione já fez esse feitiço quando Neville também passou por essa detenção. – ele disse distraído, examinando as mãos limpas novamente.

- Então você deveria ter ido pedir para ela fazer isso, não vir me "pentelhar" aqui. – a garota retrucou, guardando novamente a varinha nas vestes, mas seu tom não era sério. – Isso foi a detenção do Prof. Snape, então?

- Foi. – Harry respondeu laconicamente, voltando a pensar em Hermione e Rony. Sentia-se desconfortável perto deles desde que os Dursleys morreram, como se estivesse contaminado com algo ruim e não quisesse que eles ficassem doentes por estarem próximos a ele. No entanto, naquele momento, perto de Katherine, não estava se sentindo assim.

- Você foi realmente imprudente aquele dia. – a garota comentou. – Poderia ter passado sem essa detenção.

- Você diz isso porque não tem um Snape no seu pé há quase sete anos.

- O que aconteceu com você, hein? – ela perguntou subitamente. – Está esquisito. Ou melhor, vou corrigir: mais esquisito do que o normal.

- Como se você não fosse esquisita...

Ela revirou os olhos, mas não disse mais nada. Harry se sentiu estranho. Ela tinha notado como ele estava? Ele ainda não tinha se acostumado com essa "estranha amizade". Tá certo que ele e Katherine continuavam a desferir desaforos e provocações um para o outro, mas parecia que agora era só... de brincadeira. Não era sério.

- O que você está desenhando? – ele perguntou, tentando desviar seus pensamentos para outra coisa.

- Nada que lhe interesse. – a garota respondeu depressa, escondendo o desenho com o corpo. – Já disse que não é para xeretar minhas coisas!

- Por quê? Tem algum segredo ultra-secreto aí? – ele espichou os olhos. Ela fez uma cara feia.

- Não é porque fizemos uma trégua, Potter, que eu vou te dar a liberdade de saber dos meus assuntos!

Ele recuou e não disse mais nada. Mas a situação ficou um pouco incômoda depois disso. Harry acabou se levantando, sentindo que ela o observava.

- Eu vou indo, então. Obrigado pelo feitiço... Boa noite.

- Não tem de quê. – a voz dela parecia constrangida. – Boa noite.

O estômago dele tinha abaixado um pouco. A sala estava silenciosa enquanto ele caminhava. Quando já estava com a mão na maçaneta brilhante da porta, Katherine o chamou:

- Ei! – ele se virou, mas aí ela não soube o que dizer. – Deixa pra lá... – ela disse por fim. – Boa noite.

Quando Harry cruzou a porta e deixou a sala para trás, descobriu que alguma coisa que ela tinha falado deixara-o desanimado. E ele não entendia porquê.

 

*******

 

Junto com a primeira semana de novembro, vieram montes de neve branca e gelada. Os jardins foram pintados de um branco espesso que atrapalhava a passagem dos alunos para as aulas externas. A cabana de Hagrid parecia, novamente, um bolo coberto de chantilly. E foi em um sábado frio que os alunos fizeram sua primeira visita a Hogsmeade do ano.

Harry ajeitou o cachecol vermelho e dourado no pescoço e cruzou os braços para tentar espantar o frio. Rony esfregava as mãos com luvas grossas. Os lábios de Hermione tremiam pelo frio, ao mesmo tempo que ela soltava uma fumaça esbranquiçada ao falar.

- Vamos tomar algo quente no Três Vassouras. – ela sugeriu quando uma neve fina começou a cair.

Eles tomaram a direção do bar o mais rápido que conseguiram. Como já era previsível, o lugar estava cheio de alunos tentando se abrigar da neve quando entraram. Depois de algum tempo de espera, Hermione achou uma mesa vazia bem ao fundo do bar, do lado de uma mesa de terceiranistas animados e barulhentos, e os garotos pediram três cervejas amanteigadas.

Fazia quase um mês que os Dursleys tinham morrido, mas Harry ainda sentia um certo desconforto ao pensar nisso. Rony e Hermione de certa maneira colocaram-no contra a parede algum tempo depois disso, por ele estar distante deles, e Harry inventou uma história qualquer sobre estar se sentindo mal com todas essas mortes que ocorriam constantemente – e mais ainda com essa morte, tão próxima dele. É claro que ele nunca contaria que o motivo dele estar distante era que ainda se sentia culpado por não saber se estava feliz com a morte dos tios.

Às vezes repetia para si mesmo que não estava. Ninguém fica contente com a desgraça dos outros, ou fica? Voldemort fica. Mas ele não era Voldemort. Não era parecido com ele, em nada. Uma relação de sangue não faz as pessoas serem iguais. Sua mãe, Lílian, era pessoa boa mesmo sendo filha de quem era. Tia Petúnia era uma mulher horrível, mesmo sendo filha de Arabella.

Ele não queria pensar em tia Petúnia agora.

E não estava feliz com a morte dos tios. Definitivamente não estava.

Mas também não sentia muito.

Outras vezes ele se pegava pensando em Duda. Achava estranho pensar no primo, mas não conseguia parar de lembrar que ele estava na sua mesma situação. Era órfão, como ele. Talvez tivesse que ir morar com Tia Guida, com a tia, como ele.

Nem em mil anos os Dursleys poderiam imaginar que teriam um castigo desse...

Tão irônico...

Não deveria pensar assim.

Deveria pensar que Voldemort tinha desfeito mais uma família. Mais uma...

- Três cervejas amanteigadas. – Madame Rosmerta disse animadamente, colocando as garrafas sobre a mesa. Harry abriu a sua e começou a beber, mais para ocupar as mãos e a mente do que qualquer outra coisa.

A neve começava a cair mais espessa lá fora. Os três passaram algum tempo conversando sobre bobagens enquanto tomavam suas bebidas. Naquele sábado, não era somente Harry que estava desconfortável. De manhã cedo, ele surpreendeu Rony e Hermione se beijando na sala comunal. Para sua sorte, eles não notaram sua presença; Harry voltou depressa para o dormitório e deu mais algum tempo para descer novamente. Mas aquele beijo entre os dois só parecia tê-los deixado mais constrangidos entre si; Rony lhe contou, mais tarde, que tinha tido algo como "uma recaída". Eles não tinham voltado.

Harry, por sua vez, começou a achar que tinha agora mais um motivo para estar desconfortável entre os amigos naquele momento. Sentia-se sobrando.

- Onde vocês vão passar o Natal? – Rony perguntou de súbito em certo ponto da conversa, quando as garrafas já estavam pela metade.

- Eu acho que vou passar com Sirius... – Harry disse, tomando um longo gole de sua cerveja. – Ele comentou isso na última carta que me mandou.

- Só vocês dois? – Rony insistiu. – Vocês poderiam ir para a Toca, pelo menos no dia de Natal...

Harry deu de ombros.

- Vou ver com ele. Obrigado pelo convite, mesmo assim.

- E você, Mione?

A garota pareceu se assustar ao ser questionada e pousou a garrafa sobre a mesa com uma força maior do que pretendia, produzindo um barulho mais alto do que o normal. Ela mordeu o lábio inferior, constrangida. Harry sabia que era porque, agora, ela não via como poderia passar o Natal na casa de Rony, depois da briga que tiveram. Mesmo que eles já estivessem se falando.

- Eu não sei, Rony... Ainda não falei com meus pais...

- Mas você sabe que pode ir passar o Natal lá. Nós ainda somos amigos... – ele torcia nervosamente os dedos das mãos enquanto falava. – Não é?

Hermione poderia fritar um ovo nas bochechas.

Harry sentiu que realmente estava sobrando ali. Ele levantou rapidamente, batendo o joelho na mesa ao fazer o movimento. Soltou um palavrão de raiva.

- Onde você vai? – Hermione perguntou, ainda rubra depois do que Rony tinha dito.

- Lembrei que preciso... comprar um remédio para Edwiges. – ele inventou depressa, colocando a capa ao redor do corpo.

- O que ela tem? – Rony perguntou confuso.

- Ela está... gripada. – inventou de novo, mas como os amigos fizeram uma careta descrente, ele enrolou o cachecol no pescoço e emendou: - É... gripe de coruja. Hagrid disse que existe.

- Mas está uma nevasca lá fora! – Hermione insistiu. – Desse jeito é você que vai ficar gripado.

- Eu me viro. Vejo vocês mais tarde.

Ele saiu tão rápido, que acabou dando um esbarrão em duas pessoas que vinham entrando. Fez uma careta emburrada ao ver quem eram: Gina e Jonnathan.

- Ei, Potter, não olha por onde anda? – o garoto perguntou mal humorado.

Harry preferiu não responder. Contornou Gina, cujas faces estavam avermelhadas pelo frio, contrastando com os cabelos ruivos cobertos de flocos de neve; ela o olhou de um jeito esquisito, mas ele saiu do bar desviando o rosto. O vento gelado arranhava sua face e a neve começava a cair em flocos grossos agora. Ele olhou pelo vidro do bar e enxergou Rony e Hermione conversando naquela mesa ao fundo. Tomara que eles se entendam. Ao menos alguém tinha o direito de ficar contente naqueles dias.

Ele ajeitou a capa melhor no corpo, tentando diminuir o frio. Era difícil caminhar entre aqueles montes de neve sobre a calçada. Seus pés, depois de um tempo, começaram a formigar por causa do frio. Parecia que tinha dois grandes blocos de gelo envolvendo-os.

Não tinha a menor idéia de onde ir. Edwiges estava muito bem, obrigado, e não precisava de remédio algum. Sabia muito bem que nem Rony, muito menos Hermione, tinha caído nessa desculpa esfarrapada, mas ele não podia continuar de "vela" entre os dois. Mas sabia também que se continuasse naquela neve, ele que precisaria de um remédio para gripe.

Mas ele não parecia ser o único louco a enfrentar a neve. Do outro lado da rua, divisou ninguém menos que Katherine, andando apressada e olhando para os lados como se temesse que alguém a estivesse seguindo. Harry achou aquilo muito suspeito e resolveu ir atrás dela.

A garota desceu a rua principal, passou pela Zonko´s – Logros e Brincadeiras, e depois contornou o correio, parando por um momento para olhar para os lados e checar se estava mesmo sozinha. Harry se escondeu rápido atrás de uma lata de lixo. Onde diabos aquela garota estava indo? Quando espiou por trás da lata de lixo, Harry começou a se achar ridículo por estar se intrometendo na vida dos outros. Mas a atitude de Katherine era bastante suspeita. Sua curiosidade falou mais alto e, depois que ela começou a andar de novo, ele voltou a segui-la de longe, cautelosamente.

Ela virou para uma ladeira lateral, no alto da qual se localizava uma pequena estalagem. Harry viu a garota entrar lá dentro. Ele caminhou até o lugar; um letreiro maltratado de madeira estava pendurado sobre a porta, em um suporte enferrujado, onde se via o desenho de uma cabeça decepada de um javali. Harry se lembrava daquele bar; Hagrid já o tinha mencionado quando estava no primeiro ano: "O Cabeça de Javali". O Três Vassouras com certeza era um lugar mais agradável para se estar.

Harry espiou pela janela de vidro suja de poeira pelo lado de dentro e esfumaçada pela neve do lado de fora. Conseguiu divisar, muito mal, a figura de Katherine sentada numa mesa ao fundo, junto com uma pessoa. Harry forçou a vista e viu que era uma mulher, de cabelos longos e negros. Ela estava de costas, e Harry não podia ver seu rosto. Katherine, de frente a ela, parecia novamente irritada e nervosa, mas muito mais do que ficava na presença de Harry. Ele teve vontade de entrar no bar, mas sabia que era dar muita bandeira. Além disso, por que estava tão interessado assim em saber daquilo? Não era da sua conta a vida daquela garota. Ela era sua dupla de Defesa Contra as Artes das Trevas, nada mais. Ocasionalmente, alguém para provocar. Mas Harry não poderia esperar que a pessoa que fosse sair do bar, bem quando ele estava decidido a ir embora dali, fosse aquela mulher.

O rapaz se escondeu num beco sujo que ficava do lado do bar para não ser visto por ela. Ele observou o corpo esguio e delineado pelo vestido negro e provocante de Samantha Stevens. Ela novamente. A bruxa parou na frente do bar, olhou para os lados, balançando sua longa cabeleira negra e cacheada num movimento leve. Os olhos azuis dela, astutos, pareciam pressentir que estava sendo observada. Harry segurou a respiração; ela não poderia imaginar que ele estava ali. Subitamente, outra pessoa saiu do bar. Katherine.

- Ei! – a garota chamou a mulher, que se virou com os olhos arregalados. Harry se abaixou para não ser visto e, por isso, sua visão ficou limitada; ele passou a enxergar apenas parte do rosto de Samantha.

- Você não deveria ter saído. – a mulher retrucou em voz baixa, sigilosamente. – Era para você esperar que eu fosse embora.

- Eu só queria perguntar... – Katherine parecia hesitante. – Se você vai... aparecer de novo...

Houve um momento de silêncio. Samantha suspirou e virou o rosto; Harry não pôde ver sua expressão. Ela se voltou novamente para a garota. Murmurou algo que Harry não conseguiu compreender.

- ...você entende.

- Eu sempre tive que entender.

Samantha murmurou outra coisa que Harry, por mais que aguçasse os ouvidos, não pôde depreender. Ela se despediu da garota e desaparatou. Harry tentou obter uma visão melhor e, pela expressão perdida nos olhos de Katherine, viu que ela estava desolada.

Que assuntos ela poderia ter com aquela cobra?

Nota da autora: Voltei! :) Com um capítulo não betado, pois eu sei que já demorei MUITO e já estava com agonia por isso. Estou mandando o capítulo para a minha beta hoje, e ao mesmo tempo estou postando aqui no site. Por isso, perdoem meus erros, por favor! ^^ Aliás, obrigada mesmo pela compreensão durante todo esse tempo que eu passei me preparando para o vestibular... Em um ano inteiro, eu fiz somente doze capítulos da CdE. Mas agora percebi que, sem o vestibular para pensar, eu escrevo incrivelmente fácil e rápido. Portanto, espero adiantar bastante a fic nas minhas férias. ^^ E mais uma coisa; se vocês acharam o capítulo um tanto quanto diferente da minha sinopse dele que eu sempre coloco aqui antes... não reparem, porque eu tive que fazer uma pequena mudança de planos. Era muito cedo para revelar algo... hehehe. :p

Editado em 18/12/2004: Capítulo betado.

No próximo capítulo: Uma discussão, um soco, uma briga fazem Harry se confrontar com seus sentimentos e se surpreender com as pessoas. Mas ele ainda tem que pensar em uma maneira de juntar seus dois melhores e mais teimosos amigos.

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