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APRESENTAÇÃO
Muitos leitores de W. S. Maugham não
relutam em considerar "Histórias dos
Mares do Sul" seu melhor livro de
contos. E dentre os contos
enfeixados no livro, "Vermelho" é
tido como um dos melhores, senão o
melhor.
Da primeira à última linha,
"Vermelho" é puro Maugham, com seu
realismo amargo sobre o amor.
Poucas vezes ele descreveu um
relacionamento amoroso de modo tão
idílico e apaixonante como o fez ao
narrar o romance entre "Vermelho" e
Sally. A
narrativa embala-nos no Sonho e
quase acreditamos que é possível
viver o Paraíso neste mundo.
Mas logo somos despertos pelo autor
e desterrados à leste do Eden.
Maugham faz questão de não nos
deixar esquecer (nessa e em outras
de suas obras) aquilo que os amantes
preferem ignorar: que o amor morre, seja
por descuido, por maltrato, por
alguma fatalidade, ou pela
inexorável e corrosiva ação do
tempo.
Ler Maugham é sempre um prazer, mas
é preciso renunciar a qualquer
ilusão de eternidade.
- alvaro rodrigues
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O capitão
meteu a mão numa das algibeiras das calças e,
com alguma dificuldade porque as tinha à frente
e não aos lados e era corpulento, tirou para
fora um grande relógio de prata. Olhou para ele
e depois tornou a encarar o sol poente. O kanaka
à roda do leme deitou-lhe um olhar rápido, mas
não falou. Os olhos do capitão fixaram-se na
ilha que se aproximava. Uma linha branca de
espuma assinalava os recifes. Ele sabia que
havia uma passagem suficientemente larga para o
navio, e contava vê-la quando se aproximassem um
pouco mais. Ainda tinham uma hora de luz do dia
à sua frente. A lagoa era funda e nela poderiam
ancorar confortavelmente. O chefe daquela aldeia
que já se avistava por entre os coqueiros era
amigo do imediato e seria agradável ir passar a
noite a terra. Nesse momento o imediato
aproximou-se, e o capitão virou-se para ele.
- Vamos levar conosco uma garrafa da rija e
arranjar algumas raparigas para dançar - disse
ele.
- Não vejo a passagem - disse o imediato.
Era um kanaka, tipo simpático e moreno, com
alguma coisa do aspecto de um dos últimos
imperadores de Roma, com tendência para
engordar; mas os traços do seu rosto eram finos
e bem delineados.
- Tenho a certeza absoluta que há uma
precisamente por aqui - disse o capitão, olhando
pelo binóculo. - Não percebo porque é que a não
vejo. Manda um dos homens subir ao mastro para
ver se a descobre.
O imediato chamou um homem da tripulação e
deu-lhe a ordem. O capitão viu-o trepar ao
mastro e esperou que ele dissesse alguma coisa.
Mas o kanaka gritou para baixo que não via nada
a não ser a ininterrupta linha de espuma. O
capitão falava samoano como um nativo, e
insultou-o copiosamente.
- Quer que ele fique lá em cima? - perguntou o
imediato.
- Para que diabo servia isso? - respondeu o
capitão. - O filho da mãe não vê um palmo
adiante do nariz. Podes ter a certeza que eu
veria logo a passagem se estivesse lá em cima.
Olhou o delgado mastro com raiva. Era muito
fácil para um indígena habituado a trepar aos
coqueiros toda a sua vida. Mas ele era gordo e
pesado.
- Podes descer - gritou. - És tão inútil como um
cão morto. Temos de ir ao longo dos recifes até
encontrarmos a passagem.
Era uma escuna de setenta toneladas, revestida
de parafina; andava, quando não tinha vento
contrário, a uma velocidade de quatro a cinco
nós por hora. Uma coisa imunda; outrora fora
pintada de branco, mas agora estava suja e
manchada. Cheirava fortemente a parafina e a
copra, que era o seu carregamento habitual.
Estavam agora a cerca de trinta metros da linha
dos recifes e o capitão disse ao homem do leme
que fosse ao longo dela até encontrarem a
passagem. Mas depois de algumas milhas
compreendeu que a tinham perdido. Mandou voltar
para trás, e regressaram lentamente. A espuma
branca dos recifes continuava sem interrupção, e
já o sol desaparecia no horizonte. Com uma praga
para a estupidez da tripulação, o capitão
resignou-se a esperar até à manhã seguinte.
- Ponham o barco ao largo - disse ele. - Não
podemos ancorar aqui.
Saíram um pouco para o mar. Já era noite.
Ancoraram. Quando ferraram as velas, o navio
começou a balouçar muito. Em Ápia diziam que ele
um dia ainda se viraria de pernas para o ar; e o
proprietário, um germano-americano que era dono
de uma das maiores lojas, dizia que não havia
dinheiro no mundo capaz de o fazer viajar nele.
O cozinheiro, um chinês de calças brancas muito
sujas e rasgadas e uma pequena bata branca, veio
dizer que o jantar estava pronto; quando o
capitão entrou na cabina, encontrou o maquinista
já sentado à mesa. O maquinista era um homem
magro e comprido, de pescoço de galinha. Vestia
um fato-macaco azul e uma camisola sem mangas,
que mostrava os braços delgados, tatuados do
cotovelo ao punho.
- Bem, temos de passar a noite a bordo - disse o
capitão.
O maquinista não respondeu; jantaram em
silêncio. Uma pálida lâmpada de óleo iluminava a
cabina. Quando acabaram de comer os damascos de
conserva com que terminava o jantar, o china
trouxe-lhes uma chávena de chá. O capitão
acendeu um charuto e foi para o convés. A ilha
agora era apenas uma massa escura de encontro à
noite. As estrelas brilhavam intensamente. O
único som era o contínuo quebrar da ressaca. O
capitão afundou-se numa cadeira de bordo, a
fumar ociosamente. Três ou quatro membros da
tripulação subiram e sentaram-se. Um deles
trazia um banjo e outro uma concertina.
Começaram a tocar; um cantou. O cântico nativo
soava estranhamente naqueles instrumentos.
Depois, a acompanhar a música, dois começaram a
dançar. Era uma dança bárbara, selvagem e
primitiva, rápida, com movimentos sacudidos das
mãos e dos pés e contorções do corpo; sensual,
mesmo sexual, mas sexual sem paixão. Era muito
animal, direta, estranha mas sem mistério -
natural, em resumo, - e poder-se-ia mesmo dizer
infantil. Por fim cansaram-se. Estenderam-se no
deck e adormeceram, e tudo ficou em
silêncio. O capitão ergueu-se pesadamente da
cadeira e desceu pela íngreme escada do
tombadilho. Entrou na sua cabina e despiu-se.
Depois trepou para o beliche e deitou-se.
Arquejava, tal era o calor da noite.
Mas na manhã seguinte, quando a aurora deslizou
ao longo do mar tranqüilo, a tal passagem dos
recifes que os arreliara na noite anterior
apareceu, um pouco a leste do sítio onde
estavam. A escuna entrou na lagoa. Não havia uma
prega à superfície da água. Viam-se pequenos
peixes coloridos, no fundo, a nadarem por entre
os bancos de coral. Depois de o navio ter
ancorado, o capitão tomou o primeiro almoço e
subiu ao convés. O sol brilhava num céu sem
nuvens, mas de manhãzinha cedo o ar estava
agradável e fresco. Era domingo, e havia uma
sensação de quietude, um silêncio, como se a
própria natureza estivesse a descansar, que lhe
deu uma estranha sensação de conforto.
Sentou-se, olhando a costa arborizada, e
sentiu-se preguiçoso e bem disposto. Um sorriso
assomou-lhe aos lábios; atirou o couto do
charuto à água.
- Vou até terra - disse de. - Lancem o bote à
água.
Desceu a escada com ar importante; e o barco
levou-o a uma pequena enseada. Os coqueiros
vinham até à orla das águas, não em grupos, mas
espaçados numa formalidade ordenada. Davam idéia
de um grupo de solteironas a dançarem um bailado
clássico, em atitudes afetadas com o sorriso
tolo de uma idade já passada. O capitão vagueou
preguiçosamente por entre eles, seguindo um
carreiro tão tortuoso que mal se via, que o
conduziu até um ribeiro largo. Havia uma ponte
por cima; mas uma ponte feita de uma escassa
dúzia de troncos de coqueiro, colocados topo a
topo e suportados nas juntas por forquilhas de
ramos de árvore enterrados no leito da corrente.
Tinha de se caminhar por uma superfície redonda
e lisa, estreita e escorregadia, e não havia
corrimão. Para se atravessar uma ponte dessas é
preciso ter pés firmes e coração forte. O
capitão hesitou. Mas viu no outro lado, aninhada
no meio das árvores, a casa de um homem branco;
decidiu-se e, com um passo hesitante, começou a
andar. Via onde punha os pés, e, nos sítios em
que os troncos se juntavam e onde havia uma
diferença de nível, tropeçava um pouco. Foi com
um suspiro de alívio que alcançou o último
tronco e finalmente pisou chão firme do outro
lado. Estivera tão ocupado com a difícil
travessia que nem reparara que estava a ser
observado, e foi com surpresa que ouviu alguém
dirigir-lhe a palavra.
- É preciso coragem para atravessar estas
pontes, quando se não está habituado a elas.
Ergueu os olhos e viu um homem na sua frente.
Tinha saído, evidentemente, da tal casa.
- Vi-o hesitar - continuou o homem, com um
sorriso nos lábios, e estava à espera de o ver
cair.
- Isso é coisa que nunca verá - disse o capitão,
que tinha recuperado a confiança em si próprio.
- Eu próprio já tenho caído. Lembro-me de uma
noite em que eu voltava da caça e caí dentro de
água com espingarda e tudo. Agora arranjo sempre
um rapazinho para me levar a espingarda.
Era um homem de certa idade, com uma pequena
barba já um pouco grisalha e um rosto magro.
Trazia vestida uma camisola sem mangas e umas
calças de lona. Não tinha nem meias nem sapatos.
Falava inglês com um leve sotaque.
- Você chama-se Neilson? - perguntou o capitão.
- Chamo.
- Tenho ouvido falar de si. Calculei que morasse
por estes sítios.
O capitão, seguindo o dono da casa, entrou no
pequeno bungalow e sentou-se pesadamente
na cadeira que o outro lhe indicou com um gesto.
Enquanto Neilson ia buscar whisky e
copos, o capitão passeou o olhar pela sala.
Ficou admirado. Nunca vira tantos livros. As
estantes iam desde o chão até ao teto nas quatro
paredes, e encontravam-se apinhadas de livros.
Havia um grande piano coberto de músicas, e uma
larga mesa com livros e revistas amontoados em
desordem. A sala fê-lo sentir-se embaraçado.
Lembrou-se de que Neilson era um tipo estranho.
Ninguém sabia muito acerca dele, embora já
vivesse nas ilhas havia muitos anos; mas aqueles
que o conheciam concordavam em considerar
Neilson estranho. Era sueco.
Tem aqui uma data de livros - disse ele, quando
Neilson voltou.
- Não fazem mal a ninguém - respondeu Neilson
com um sorriso.
- Leu-os todos? - perguntou o capitão.
- A maior parte.
- Eu também gosto muito de ler. Leio todas as
semanas o Saturday Evening Post.
Neilson encheu um bom copo de whisky
forte ao seu visitante e ofereceu-lhe um
charuto. O capitão resolveu prestar alguns
esclarecimentos.
- Cheguei ontem à noite, mas não consegui
encontrar a passagem. Por isso tive de ancorar
fora. Nunca tinha feito esta viagem, mas lá o
meu patrão mandou-me trazer umas coisas para
aqui. Para um tal Gray; conhece?
- Sim, tem um estabelecimento aqui perto.
- Bem, ele pediu uma grande porção de conservas,
e da copra em troca. E eles pensaram que era
melhor mandarem-me cá, em vez de estar sem fazer
nada em Ápia. Geralmente viajo entre Ápia e
Pago-Pago, mas agora anda por lá a varicela e o
comércio está parado.
Bebeu um gole de whisky e acendeu o
charuto. Era homem de poucas falas, mas havia em
Neilson qualquer coisa que o enervava; e essa
sensação nervosa obrigava-o a falar. O sueco
olhava-o com grandes olhos escuros, em que havia
uma expressão de ligeiro divertimento.
- Pois aqui é um sítio bem bom este que você tem
aqui.
- Tenho-o arranjado o melhor que me tem sido
possível.
- Deve fazer bom dinheiro com as suas árvores.
Têm ótimo aspecto. E com a copra ao preço que
está... Eu também já tive uma plantaçãozinha, em
Upolu, mas tive de a vender.
Tornou a percorrer a sala com os olhos; todos
aqueles livros davam-lhe sensação de qualquer
coisa incompreensível e hostil.
- Deve achar isto um bocado monótono, apesar de
tudo.
- Habituei-me. Já cá estou há vinte e cinco
anos.
O capitão não conseguiu lembrar-se de mais nada
para dizer, e continuou a fumar num silêncio que
Neilson parecia não ter desejos de quebrar. O
sueco fitava com olhar meditativo o seu hóspede.
Este era um homem alto, com mais de um metro e
oitenta, muito corpulento. O seu rosto era
vermelho e manchado, com ramais de pequenas
veias purpurinas nas faces, e as feições
submergiam-se na gordura. Os olhos, raiados de
sangue. O pescoço, enterrado em rolos de banha.
Não tinha cabelo, exceto uma comprida farripa
encaracolada, quase branca, na parte de trás da
cabeça; e essa imensa e brilhante superfície da
testa, que lhe poderia dar um falso aspecto de
inteligência, dava-lhe pelo contrário um ar de
particular imbecilidade. Trazia vestidas uma
camisa de flanela azul, aberta no pescoço, que
lhe deixava ver o peito gordo, coberto de uma
floresta de pelos avermelhados, e umas calças de
sarja azul muito velhas. Alastrava na cadeira
com uma atitude desajeitada e pesada, e a enorme
barriga espetada para a frente e as gordas
pernas abertas. Toda a elasticidade desaparecera
dos seus membros. Neilson perguntava-se,
ociosamente, que espécie de homem fora aquele na
mocidade. Era quase impossível imaginar que esta
criatura de enorme volume tivesse sido menino, a
correr de um lado para o outro. O capitão acabou
o seu whisky, e Neilson empurrou a
garrafa para o lado dele.
- Sirva-se à vontade.
O capitão inclinou-se para a frente e com a sua
grande mão pegou na garrafa.
- E como é que o senhor veio parar aqui? - disse
ele.
- Oh, eu vim para estas ilhas por causa da
saúde. Estava mal dos pulmões e ninguém me dava
mais de um ano de vida. Como vê, enganaram-se.
- Quero eu dizer - como é que se decidiu a
fixar-se aqui?
- Sou um sentimentalista.
- Oh!
Neilson sabia que o capitão não fazia a mínima
idéia do que ele dissera, e mirou-o com um
brilho irônico nos olhos escuros. Talvez por o
capitão ser um homem tão bruto e estúpido,
apeteceu-lhe falar mais.
- Você estava demasiadamente ocupado em não
perder o equilíbrio para ter reparado, quando
atravessou a ponte; mas este lugar é geralmente
considerado bastante bonito.
- É realmente uma casita engraçada, esta sua.
- Ah, não estava cá quando para aqui vim. Havia
uma cabana indígena, com o telhado em forma de
colméia, sobre pilares, à sombra de uma grande
árvore com flores vermelhas; e os arbustos de
cróton, com folhas amarelas vermelhas e
douradas, formavam uma sebe colorida em volta. E
depois havia por toda a parte os coqueiros,
garridos como mulheres, e tão fúteis como elas.
Ficavam à beira da água e passavam os dias a
mirarem a imagem refletida nela. Eu era um homem
novo nessa altura - Meu Deus, foi há um quarto
de século! – e queria gozar todas as coisas
belas do mundo no curto prazo que me restava
antes de mergulhar na escuridão eterna. Pensei
que era o mais belo sítio que vira em toda a
minha vida. Da primeira vez que o vi senti
apertar-se-me o coração, e pensei que ia chorar.
Tinha só vinte anos; e, por mais que procurasse
conformar-me, não queria morrer. E no entanto
parecia que a própria beleza do lugar me tornava
mais fácil aceitar o meu destino. Quando
cheguei, senti que toda a minha vida passada
desaparecera - Estocolmo e a sua Universidade, e
depois Bonn: tudo isso me parecia a vida de
outra pessoa, como se finalmente tivesse acabado
por alcançar a realidade que os nossos doutores
em filosofia - sou um deles, sabe? - tanto têm
discutido. «Um ano», dizia eu para comigo.
«Tenho um ano. Passá-lo-ei aqui e depois poderei
morrer.»
Aos vinte e cinco anos somos tolos, sentimentais
e melodramáticos, mas se o não fossemos talvez
tivéssemos menos juízo aos cinqüenta.
Mas beba, meu amigo. Não preste atenção
demasiada à minha tola conversa.
Indicou a garrafa com a mão magra, e o capitão
escorropichou o que ficara no copo.
- Você não está a beber coisa nenhuma, - disse
ele, pegando na garrafa.
- Sou de hábitos sóbrios, - sorriu o sueco. -
Embriago-me de maneiras que penso serem mais
subtis. Seja como for, os efeitos são mais
duradouros e os resultados menos deletérios.
- Dizem que agora nos Estados Unidos se está a
tomar muita cocaína, - disse o capitão.
Neilson riu.
- Mas não é muitas vezes que encontro um branco,
continuou, e uma vez na vida não será um pouco
de whisky que me irá fazer mal.
Deitou um pouco no copo, adicionou alguma soda,
e tomou um trago.
- E depois descobri porque é que este sítio
tinha uma tal beleza extraterrena. Aqui o amor
parava por um momento, como uma ave emigrante
que encontra um navio no meio do oceano e por um
curto instante dobra as asas cansadas. A
fragrância de um maravilhoso amor pairava sobre
tudo isto como a fragrância das silvas em Maio
nos prados da minha terra. Parece-me que os
lugares onde os homens amaram ou sofreram
conservam para sempre à sua volta um ligeiro
aroma de qualquer coisa que não morreu
inteiramente. É como se tivessem adquirido um
significado espiritual que misteriosamente afeta
os outros que por eles passam. Gostaria de saber
exprimir-me com clareza. - Sorriu levemente. -
Embora creia que mesmo que o fizesse, você não
me compreenderia.
Fez uma pausa.
- Creio que este sítio era maravilhoso por eu
ter sido aqui amado de uma forma maravilhosa. -
Encolheu os ombros. - Mas talvez isto seja
apenas por ao meu sentido estético ser agradável
a feliz conjugação de um amor jovem e de um
cenário adequado.
Até mesmo um homem menos imbecil do que o
capitão ficaria admirado com as palavras de
Neilson. Porque parecia fazer troça daquilo que
ele próprio dizia. Era como se falasse movido
por uma emoção que o seu cérebro achasse
ridícula. Ele próprio dissera que era um
sentimentalista, e quando o sentimentalismo anda
junto ao cepticismo, as pessoas muitas vezes
sofrem os horrores do inferno.
Calou-se por um momento e contemplou o capitão
com um olhar onde havia uma súbita perplexidade.
- Sabe, não posso deixar de pensar que creio já
o ter visto nalgum lado, - disse ele.
- Confesso que não me lembro de si, - respondeu
o capitão.
- Tenho a curiosa sensação de que a sua cara não
me é estranha. Tenho estado a ver se me lembro,
mas não consigo situar essa recordação em
qualquer lugar ou qualquer época.
O capitão encolheu os ombros maciços.
- Já há trinta anos que vim para estas ilhas. Um
homem não se pode lembrar de toda a gente que
encontrou em trinta anos.
O sueco abanou a cabeça.
- Você sabe como a gente às vezes tem a sensação
de que um lugar onde nunca se esteve nos e
estranhamente familiar. É o que me está a
suceder consigo. Talvez eu o tenha conhecido
numa existência passada. Talvez, talvez você
fosse o chefe de uma galera da Roma antiga e eu
um dos escravos aos remos. Há trinta anos que
anda por estas regiões?
- Trinta anos certos.
- Por acaso terá conhecido um homem chamado
Vermelho?
- Vermelho?
- Foi esse o único nome por que eu o conheci.
Nunca o conheci pessoalmente. E apesar disso
parece-me vê-lo mais nitidamente do que a muitos
outros homens - os meus irmãos, por exemplo, com
os quais passei a minha vida diária durante
muitos anos. Vive na minha imaginação com a
nitidez dum Paolo Malatesta ou dum Romeu. Mas
você se calhar nunca leu Dante ou Shakespeare?
- Confesso que isso nunca li.
Neilson, fumando um charuto, recostou-se na
cadeira e olhou negligentemente o anel de fumo
que flutuava no ar parado. Depois olhou para o
capitão. Havia na sua larga obesidade qualquer
coisa de extraordinariamente repelente. Tinha a
pletórica satisfação dos muito-gordos. Era um
insulto. Aquilo irritou os nervos de Neilson.
Mas o contraste entre o homem na sua frente e o
homem em que estava a pensar era divertido.
«Parece que Vermelho era o homem mais belo que
ainda se viu. Tenho falado com muita gente que o
conheceu nessa época - homens brancos, é claro -
e todos concordam que a beleza dele, a primeira
vez que o víssemos, até nos tirava o fôlego.
Chamavam-lhe Vermelho por causa do cabelo cor de
fogo. Era ondeado, e ele usava-o comprido. Devia
ser dessa maravilhosa cor de que os
pré-rafaelistas tanto gostavam. Não creio que
ele tivesse vaidade nisso, era demasiadamente
simples para tal; mas ninguém o poderia censurar
se a tivesse. Era alto, com mais de um metro e
oitenta - na cabana indígena que aqui estava
havia uma marca da sua altura: um golpe de faca
no tronco central que sustentava o telhado, - e
tinha a figura dum deus grego, largo de ombros e
estreito de ancas; era como Apolo, com aquelas
linhas maciçamente arredondadas que Praxíteles
lhe deu, e aquela graciosidade suave e feminina
que tem qualquer coisa de perturbante e
misterioso. A sua pele era deslumbrantemente
branca, leitosa, como cetim; era como a pele
duma mulher.
- Eu também tinha a pele muito branca quando era
garoto, - disse o capitão, com um brilho nos
olhos raiados de sangue.
Mas Neilson não lhe prestou atenção. Estava
agora a contar a sua história, e as interrupções
impacientavam-no.
- E o seu rosto era tão belo como o corpo. Tinha
grandes olhos azuis, muito escuros, a tal ponto
que muita gente dizia serem negros; e, ao
contrário da maior parte das pessoas ruivas,
tinha negras as sobrancelhas e as longas
pestanas. Os seus traços fisionômicos eram
perfeitamente regulares e a sua boca como uma
ferida escarlate. Tinha vinte anos.
Aqui o sueco parou, com um certo sentimento do
dramático. Bebeu um golo de whisky.
- Era único. Nunca houve ninguém mais belo.
A sua existência explica-se pela mesma razão por
que pode numa planta silvestre desabrochar uma
flor maravilhosa. Era um feliz acidente da
natureza.
«Um dia aportou àquela enseada onde você deve
ter desembarcado esta manhã. Era um marinheiro
americano, e desertara dum navio de guerra.
Convencera algum indígena de bom coração a
dar-lhe uma passagem num cutter que por
acaso ia partir de Ápia para Safoto, e
trouxeram-no a esta enseada numa canoa.
Não sei porque desertou. Talvez a vida num barco
de guerra com a sua disciplina o irritasse, ou
talvez estivesse metido nalgum sarilho; ou então
talvez fossem os Mares do Sul e estas ilhas
românticas que lhe entraram no corpo. De vez em
quando elas tentam estranhamente um homem, fazem
dele uma mosca numa teia de aranha. Pode ser que
houvesse nele uma certa moleza de fibra, e estes
montes verdes com o seu ar macio, este mar azul
lhe roubassem a força nórdica - tal como Dalila
a de Sansão. Seja como for, pretendia
esconder-se e pensou que estaria em segurança
neste recanto isolado, até que o navio partisse
de Samoa.
«Havia uma cabana indígena na enseada; e
enquanto ele hesitava, pensando para onde devia
ir, uma rapariga saiu da cabana e convidou-o a
entrar. Vermelho apenas sabia duas ou três
palavras da linguagem indígena, e ela a mesma
coisa de inglês. Mas compreendeu perfeitamente o
que significavam o sorriso e os graciosos
gestos, e seguiu-a. Sentou-se numa esteira, e
ela ofereceu-lhe fatias de ananás. Nunca conheci
Vermelho pessoalmente, mas vi a rapariga três
anos depois de ele a ter encontrado; nessa
altura tinha ela dezenove anos. Não pode
calcular como era maravilhosa. Tinha a graça
apaixonada do hibiscus e a sua rica
coloração. Era bastante alta, delgada, com as
delicadas feições da sua raça, e grandes olhos
como lagos tranqüilos sob os palmeirais; o
cabelo negro e encaracolado, caía-lhe pelas
costas; e trazia uma grinalda de flores
perfumadas. As mãos eram lindas - tão pequenas,
tão maravilhosamente desenhadas, que faziam
parar o coração de quem para elas olhava. E
nessa época ria-se com facilidade. Um sorriso
tão delicioso que perturbava. A pele era como um
campo de trigo maduro num dia de verão. Meu
Deus, como posso eu descrevê-la? Era bela demais
para ser real.
E esses dois jovens - ela com dezesseis anos e
ele com vinte - apaixonaram-se à primeira vista.
Esse é o verdadeiro amor, não o amor resultante
de simpatia, ou de interesses comuns, ou de
afinidade intelectual, mas o amor puro e
simples. Esse é o amor que Adão sentiu por Eva
quando acordou e a viu no paraíso olhando-o com
olhos orvalhados. Esse é o amor que atrai os
animais uns para os outros, e os deuses. É esse
o amor que dá à vida o seu intenso significado.
Você nunca ouviu falar naquele sábio e cínico
duque francês que dizia que, entre dois amantes,
há sempre um que ama e outro que se deixa amar?
É uma amarga verdade, à qual quase todos nós
temos de nos resignar; mas, de vez em vez, há
dois que se amam e ao mesmo tempo se deixam
amar. Então podemos imaginar que o sol pára na
sua órbita - como parou quando Josué rezou ao
Deus de Israel.
«E mesmo agora, depois de todos estes anos,
quando penso nesses dois - tão jovens, tão
puros, tão simples - e em todo o seu amor, sinto
um baque no coração. Sinto o coração
rasgar-se-me, tal como quando em certas noites
vejo a lua cheia a refletir-se na lagoa, do alto
dum céu limpo de nuvens. Provoca sempre
sofrimento a contemplação da beleza perfeita.
«Eram como crianças. Ela era meiga, doce,
bondosa. Dele não sei nada, mas gosto de
imaginar que, então, ele era em tudo simples e
franco. É-me agradável imaginar que a sua alma
era tão correta quanto o seu corpo. Mas estou em
dizer que ele não tinha mais alma do que os
habitantes dos bosques e das florestas que
faziam flautas de cana e se banhavam nas
torrentes da montanha - quando o mundo ainda era
jovem, e se podiam ver pequenos faunos galopando
escarranchados no lombo dalgum centauro barbudo
através das clareiras. A alma é um objeto
incômodo, e quando o homem a criou perdeu o
Jardim do Éden.
«Ora, quando Vermelho chegou à ilha, esta fora
recentemente assolada por uma dessas epidemias
que os brancos trouxeram para os Mares do Sul, e
a terça parte dos habitantes morrera. Parece que
a rapariga perdera todos os seus parentes
próximos e vivia agora em casa duns primos
afastados. Nessa casa viviam duas velhotas,
curvadas e enrugadas, duas mulheres mais novas,
um homem e um rapaz. Durante uns dias ele viveu
lá. Mas talvez se sentisse demasiadamente perto
da praia, com a possibilidade de dar de cara com
algum branco que poderia revelar o seu
esconderijo; talvez os amantes não pudessem
suportar que a companhia dos outros os roubasse
por instante que fosse ao prazer de estarem
sozinhos. E assim, uma manhã partiram - os dois
sozinhos, - com as poucas coisas que pertenciam
à rapariga, e caminharam ao longo dum carreiro
relvado, por entre os coqueiros, até que
chegaram a este regato. Tiveram de atravessar a
ponte que você hoje atravessou, e a rapariga ria
alegremente porque ele tinha medo. Ela ajudou-o
até chegarem ao fim do primeiro tronco, mas aí
ele perdeu a coragem e teve de voltar atrás. Foi
obrigado a despir a roupa toda antes de se
arriscar, e ela levou-lha à cabeça.
Instalaram-se na cabana vazia que aqui estava.
Se ela tinha ou não direitos sobre essa cabana
(aqui nas ilhas a propriedade das terras é uma
questão complicada), ou se o dono dela morrera
na epidemia, é coisa que não sei. Mas fosse como
fosse ninguém os incomodou, e eles apossaram-se
dela. A mobília consistia unicamente nas duas
esteiras de palha em que dormiam, no fragmento
dum espelho, e em duas ou três tigelas. Isso
chega para montar casa nesta maravilhosa terra.
«Diz-se que as pessoas felizes não têm história,
e na verdade um amor feliz não a tem. Durante
todo o dia não faziam coisa alguma - e apesar
disso os dias pareciam-lhes curtos. A rapariga
tinha um nome indígena, mas Vermelho chamava-lhe
Sally. Num instante ele aprendeu a fácil língua
indígena, e costumava jazer horas seguidas na
esteira a ouvi-la falar-lhe alegremente. Ele era
um tipo calado; talvez o seu espírito fosse
preguiçoso. Fumava incessantemente os cigarros
que ela lhe fazia com tabaco indígena e folhas
de pântano, e observava-a enquanto ela fazia
esteiras de palha com os dedos ágeis.
Frequentemente apareciam indígenas, e contavam
longas histórias dos velhos tempos em que a ilha
era agitada pelas guerras das tribos. Às vezes
ia pescar para os recifes e voltava trazendo um
cesto cheio de peixes coloridos. Às
vezes ia à noite com uma lanterna pescar
lagostas. Havia frutos nos arredores da cabana,
e Sally assava-os para as suas frugais
refeições. Sabia fazer deliciosos pratos de
coco; e a árvore de pão que havia perto do
regato abastecia-os de pão. Em dia de festa
matavam um leitão e assavam-no sobre pedras
quentes. Banhavam-se no regato; e à noite iam
até à lagoa, onde passeavam numa canoa indígena.
O mar era azul-escuro, cor de vinho ao pôr do
sol, como o da Grécia homérica; mas na lagoa a
cor da água tinha infinitas variantes -
turquesa, ametista, esmeralda; - e o sol poente
transformava-a, durante um curto momento, em
ouro líquido. E havia também a cor do coral,
castanho, branco, cor de rosa, vermelho,
púrpura; e as formas que ele tomava eram
maravilhosas. Era como um jardim mágico, de que
os velozes peixes fossem borboletas. Era
estranhamente irreal. Entre os bancos de coral
havia lagos com fundo de areia branca onde, numa
água espantosamente límpida, era muito agradável
tomar banho. Depois, ao crepúsculo, frescos e
felizes, regressavam lentamente pelo carreiro de
erva macia, caminhando de mãos dadas, enquanto
os pássaros enchiam os coqueiros com a sua
algazarra. E depois a noite, com este enorme céu
salpicado de pontos dourados que parece ser
maior do que os céus da Europa, e a macia brisa
que atravessava suavemente a cabana aberta, a
longa noite também era curta. Ela tinha
dezesseis anos, ele mal tinha vinte. A aurora
rastejava por entre os pilares de madeira da
cabana e vinha contemplar essas encantadoras
crianças dormindo nos braços uma da outra. O sol
escondia-se atrás das grandes e velhas folhas
das palmeiras para os não incomodar, e depois,
com malícia brincalhona, dardejava um raio
dourado nos seus rostos, como a pata estendida
dum gato angora. Abriam os olhos sonolentos e
sorriam, em boas-vindas a um novo dia. As
semanas cresceram, meses, e um ano passou. E
eles pareciam amar-se tão... hesito em dizer
apaixonadamente, porque a paixão tem sempre em
si uma sombra de tristeza, uma ponta de amargura
ou de angústia;... mas tão completamente, tão
simples e naturalmente como nesse primeiro dia
do seu encontro, em que compreenderam terem um
deus dentro de si.
«Se alguém lhes tivesse perguntado, não tenho
dúvida de que responderiam ser impossível que o
seu amor morresse. Não sabemos nós que o
elemento essencial do amor é a crença na sua
eternidade? E contudo talvez houvesse já em
Vermelho uma pequena semente, desconhecida dele
próprio e não suspeitada pela rapariga, que com
o correr do tempo cresceria em enfado. Porque um
dia um dos indígenas da enseada disse-lhes que
um barco inglês de pesca da baleia estava
ancorado a alguma distância da costa.
«- Ah, - disse Vermelho, bem gostava de saber se
eles queriam trocar por uns cocos e umas bananas
uma libra ou duas de tabaco.
«Os cigarros de pândano que Sally lhe fazia com
mãos incansáveis eram fortes e bastante
agradáveis, mas deixavam-no insatisfeito; ansiou
subitamente por tabaco verdadeiro, áspero,
amargo, picante. Não fumava uma cachimbada havia
muitos meses. Nascia-lhe a água na boca só de
pensar nisso. Supor-se-ia que qualquer
pressentimento poderia ter levado Sally a
procurar dissuadi-lo, mas o amor possuía-a tão
completamente que acreditava não haver poder no
mundo capaz de o separar dela. Foram aos montes
próximos buscar laranjas bravas, ainda verdes,
mas doces e sumarentas, de que encheram um
grande cesto; colheram frutos das árvores ao
redor da cabana, e cocos, e frutos da árvore de
pão, e mangas; e transportaram-nas para a
enseada. Carregaram com eles a instável canoa; e
Vermelho e o rapaz indígena que trouxera a
notícia da chegada do navio embarcaram e remaram
em direção à linha dos recifes.
«Foi essa a última vez que ela o viu.
«No dia seguinte o rapaz indígena regressou
sozinho. Vinha banhado em lágrimas. Eis a
história que ele contou. Quando, depois de
remarem durante muito tempo, alcançaram o navio
e Vermelho chamou pelo capitão, um branco olhou
por cima da amurada e disse-lhes que subissem a
bordo. Levaram a fruta que haviam trazido e
empilharam-na no tombadilho. O branco e Vermelho
começaram a conversar e pareceram chegar a um
acordo. Um homem da tripulação desceu e voltou
trazendo tabaco. Vermelho imediatamente pegou
nalgum e acendeu o cachimbo. O rapaz imitava a
volúpia com que ele soprou uma grande nuvem de
fumo. Depois disseram-lhe qualquer coisa e ele
entrou na cabina. Olhando curiosamente pela
porta aberta, o rapaz viu-os tirarem para fora
uma garrafa e copos. Vermelho bebia e fumava.
Pareceram perguntar-lhe qualquer coisa, porque
ele abanou a cabeça e riu-se. O homem - o
primeiro que lhes falara - riu-se também e
tornou a encher o copo de Vermelho. Continuaram
a conversar e a beber; e a certa altura o rapaz,
cansado de observar um espetáculo que para ele
não tinha significado algum, deitou-se no
tombadilho e adormeceu. Foi acordado por um
pontapé; e, levantando-se dum salto, viu que o
navio saía lentamente da lagoa. Avistou Vermelho
sentado à mesa com a cabeça descansando
pesadamente nos braços, num sono profundo. Fez
um movimento na sua direção, com a intenção de o
acordar, mas uma rude mão agarrou-o por um
braço, e um homem, com cara feroz e palavras que
ele não compreendeu, apontou-lhe a amurada.
Gritou pelo Vermelho mas sem resultado, nadou
até à canoa que andava por ali à deriva e
empurrou-a até aos recifes. Aí subiu para ela e,
sempre a soluçar, remou em direção à praia.
«O que acontecera era evidente. O barco da pesca
da baleia lutava com falta de homens - por
deserção ou por doença - e quando Vermelho
subira a bordo, o capitão perguntara-lhe se se
queria engajar. Perante a sua recusa,
embriagara-o e raptara-o.
«Sally quase enlouqueceu de dor. Durante três
dias gritou e chorou. Os indígenas fizeram o que
puderam para a consolar, mas ela não se
conformava. Recusou-se a comer. E então,
exausta, caiu numa apatia taciturna. Passava
longos dias na enseada, olhando a lagoa, na vã
esperança de que Vermelho conseguisse de
qualquer maneira escapar. Ficava sentada na
areia, durante horas e horas, com as lágrimas a
correrem-lhe pela cara, e à noite
arrastava-se penosamente até à cabana à beira do
regato onde fora feliz. Os parentes com quem
vivia antes de Vermelho chegar à ilha queriam
que ela fosse viver com eles, mas ela não
acedeu; estava convencida de que Vermelho
voltaria, e queria que ele a encontrasse onde a
tinha deixado. Quatro meses mais tarde deu à luz
uma criança morta, e a velha que viera ajudá-la
no parto ficou com ela na cabana. Toda a alegria
se fora da sua vida. Se a sua angústia com o
tempo se tornou menos intolerável, foi
substituída por uma melancolia permanente.
Ninguém imaginaria que nesse povo, cujas
emoções, embora violentas, são passageiras, se
encontraria uma mulher capaz duma paixão tão
duradoura. Nunca perdeu a profunda convicção de
que, mais tarde ou mais cedo, Vermelho voltaria.
Estava sempre à espera dele; sempre que alguém
atravessava esta pontezinha de troncos de
coqueiro ela corria a ver quem era. Podia ser
que fosse ele, finalmente.
Neilson parou de falar e soltou um ligeiro
suspiro.
- E depois o que foi feito dela? - perguntou o
capitão.
Neilson sorriu amargamente.
- Oh, três anos depois juntou-se com outro
branco.
O capitão soltou uma larga gargalhada cínica.
- É geralmente o que lhes acontece, - disse ele.
O sueco dardejou-lhe um olhar de ódio. Não sabia
porque é que esse homem grosseiro e obeso lhe
causava uma repulsa tão grande. Mas os seus
pensamentos tomaram outra direção e o espírito
encheu-se-lhe de recordações do passado. Voltou
vinte e cinco anos atrás. Fora quando pela
primeira vez viera a esta ilha, cansado das
bebedeiras e do jogo e da grosseira sensualidade
de Ápia, doente, procurando resignar-se à perda
da carreira que lhe enchera a cabeça de
pensamentos ambiciosos. Pusera de parte
resolutamente todos os desejos de criar um
grande nome e tratara de se contentar com os
escassos meses de vida hesitante que eram tudo
com que podia contar. Morava em casa de um
comerciante mestiço que tinha uma loja a poucas
milhas, numa pequena aldeia indígena, na costa;
e um dia, vagueando sem objetivo pelos carreiros
relvados por entre os coqueiros, deparara-se-lhe
a cabana em que Sally vivia. A beleza do sítio
enchera-o de um bem estar tão grande que quase
era doloroso; e depois vira Sally. Era a mais
bela criatura que jamais vira e a tristeza
naqueles olhos escuros e magníficos afetou-o
estranhamente. Os kanakas eram uma raça de
feições simpáticas, e a beleza não era rara
entre eles, mas era uma beleza de animais bem
conformados. Era vazia. Mas aqueles olhos
trágicos eram negros de mistério, e neles
pressentia-se a amarga complexidade da obscura
alma humana. O comerciante contou-lhe a história
dela, que o comoveu.
«E acha que ele voltará?», perguntara-lhe
Neilson.
«Não. O contrato de fretamento do navio durará
ainda alguns anos, e por essa altura já ele se
terá esquecido dela. Calculo como deve ter
ficado furioso quando acordou e descobriu que
fora raptado, e não me admirava nada que tivesse
querido jogar à pancada. Mas teve de sorrir
amarelo e agüentar, e aposto que um mês depois
já achava que nada melhor lhe poderia ter
sucedido do que sair daquela ilha».
Mas Neilson não conseguiu esquecer a história.
Talvez por estar doente e fraco, a radiosa saúde
de Vermelho não lhe largava a imaginação. Homem
feio, de aparência insignificante, apreciava
grandemente a beleza nos outros. Nunca amara
apaixonadamente e, com certeza, nunca fora
apaixonadamente amado. A atração mútua dessas
jovens criaturas dava-lhe um singular prazer.
Tinha a inefável beleza do Absoluto. Foi outra
vez à pequena cabana junto do regato. Tinha
grande facilidade em aprender línguas e um
cérebro ágil, habituado a trabalhar, e já
dedicara muito tempo ao estudo do idioma local.
Por força dos velhos hábitos estava a reunir
material para um trabalho sobre o idioma
samoano. A velhota que vivia na cabana com Sally
convidou-o a entrar e a sentar-se. Ofereceu-lhe
kava para beber e cigarros. Ela estava
contente por ter alguém com quem conversar, e
enquanto ela falava ele olhava Sally. Fazia-lhe
lembrar a Psique do Museu de Nápoles. Aquelas
feições tinham a mesma nítida pureza de linhas;
e, embora tivesse tido um filho, conservava um
aspecto virginal.
Só ao fim de duas ou três visitas conseguiu
fazê-la falar. E mesmo isso foi para lhe
perguntar se não vira em Ápia um homem chamado
Vermelho. Tinham passado dois anos desde o seu
desaparecimento, mas era evidente que ainda
pensava nele incessantemente.
Neilson não levou muito tempo a perceber que
estava apaixonado por ela. Era apenas com
intervenção da sua força de vontade que
conseguia não ir todos os dias ao regato; quando
não estava ao pé de Sally, estavam-no os seus
pensamentos. A princípio, considerando-se
condenado, apenas desejava vê-la, e
ocasionalmente ouvi-la falar; e este amor
dava-lhe uma felicidade maravilhosa. A sua
pureza exaltava-o. Nada queria de Sally a não
ser a oportunidade de tecer à volta da sua
graciosa pessoa uma rede de belas fantasias. Mas
o ar puro, a temperatura moderada, e repouso, a
comida simples, começaram a ter um efeito
inesperado sobre a sua saúde. A temperatura já
não atingia tão alarmantes alturas de noite,
tossia menos frequentemente e começou a criar
peso; passaram-se seis meses sem uma hemoptise;
e subitamente entreviu a possibilidade de viver.
Tinha estudado a sua doença cuidadosamente, e
começou a ter esperança de, com grandes
cuidados, poder deter-lhe a marcha. Regozijou-se
ao olhar outra vez o futuro. Fez planos. Era
evidente que não voltaria nunca a ter uma vida
ativa, mas podia viver nas ilhas; e o pequeno
rendimento que tinha, magro em qualquer outro
sítio, seria suficiente para viver bem aí.
Poderia cultivar coqueiros; seria uma ocupação;
e mandaria vir os seus livros e um piano. Mas o
seu espírito viu imediatamente que, debaixo de
todos estes planos, estava a tentar esconder de
si próprio o desejo que o obcecava.
Queria Sally. Amava não só a sua beleza mas a
alma sombria que adivinhava por trás daqueles
olhos sofredores. Embriagá-la-ia com a sua
paixão. Conseguiria por fim fazê-la esquecer. E
num êxtase de rendição, imaginava-se a
compartilhar com ela a felicidade que imaginara
nunca mais ter e que tão miraculosamente
alcançara.
Pediu-lhe que fosse viver com ele. Ela recusou.
Já esperava isso e não desanimou, porque tinha a
certeza de que, mais tarde ou mais cedo, ela
cederia. O amor dele era irresistível. Contou à
velhota os seus desejos, e descobriu com certa
surpresa que ela e os vizinhos, sabedores há
muito tempo, aconselhavam fortemente Sally a
aceitar a proposta. Afinal de contas, todo
indígena gosta de viver com um branco; e Neilson
era um branco rico, comparado com o que era
habitual na ilha. O comerciante em casa de quem
Neilson vivia foi falar com Sally e disse-lhe
que não fosse idiota; uma oportunidade dessas
não tornaria a aparecer-lhe, e depois de tanto
tempo ela certamente não ia acreditar que
Vermelho voltasse. A resistência da rapariga
apenas aumentava o desejo de Neilson e o que
fora um amor puríssimo em breve se transformou
numa paixão desvairada. Estava decidido a
servir-se de todos os meios para conseguir o que
queria. Não dava tréguas a Sally. Por fim,
vencida pela persistência dele e pela persuasão
- ora implorativa, ora zangada - de toda a gente
à sua volta, ela consentiu. Mas quando no dia
seguinte, exultante, ele a foi visitar, viu que
durante a noite ela queimara completamente a
cabana onde ela e Vermelho tinham vivido. A
velhota correu ao seu encontro, cheia de queixas
zangadas contra Sally; mas ele afastou-a; isso
não tinha importância; construiriam um
bungalow no sítio onde estivera a cabana.
Uma casa européia seria realmente mais
conveniente se queria mandar vir um piano e
grande número de livros.
E assim se construiu a pequena casa de madeira
onde vivia há muitos anos; e Sally tornou-se
mulher dele. Mas depois das primeiras (e poucas)
semanas de encantamento durante as quais ele se
satisfizera com o que ela lhe dava, sentira-se
pouco feliz. Ela cedera por cansaço, mas só
cedera naquilo que para ela tinha pouco valor. A
alma que ele obscuramente entrevira
escapava-lhe. Sabia que ela o não amava. Ainda
amava Vermelho, e continuava à espera dele.
Neilson sabia que, não obstante o seu amor, a
sua ternura, a sua simpatia, a sua generosidade,
ela o deixaria sem um momento de hesitação a um
sinal de Vermelho. E que nem pensaria na sua
dor. A angústia apossou-se dele; tentou forçar
aquela impenetrável outra parte de Sally que
sombriamente lhe resistia. O amor tornou-se-lhe
amargo. Tentou comove-la com bondade, mas o
coração dela continuou tão duro como antes;
fingiu indiferença mas Sally nem deu por tal. Às
vezes perdia a paciência e insultava-a, ela
chorava silenciosamente. Muitas vezes pensava
que se enganava a seu respeito - aquela alma não
passava de simples invenção dele - e que não
podia entrar no santuário do seu coração porque
tal santuário não existia. O amor tornou-se-lhe
uma prisão da qual ansiava escapar; mas nem
sequer tinha força de abrir a porta - bastaria
fazer isso - e sair para o ar livre. Era uma
tortura. Por fim cansou-se e perdeu as
esperanças. O fogo apagou-se; e quando via o
olhar dela pousar por um instante na delgada
ponte, já não era a raiva que lhe enchia o
peito, mas a impaciência. E agora viviam há
muitos anos ligados pelos laços de hábito e da
conveniência, e era com um sorriso que pensava
na sua antiga paixão. Ela estava uma velha,
porque as mulheres nas ilhas envelhecem
rapidamente; e, embora já lhe não tivesse amor,
tolerava-a. Deixava-o em paz. A ele bastavam-lhe
o piano e os livros.
Aqueles pensamentos provocaram-lhe o desejo de
falar.
- Quando agora olho para trás e reflito nesse
breve e ardente amor de Vermelho e Sally, penso
que talvez devam agradecer-lhe ao implacável
destino que os separou quando o seu amor parecia
estar no auge. Sofreram, mas tiveram um
sofrimento belo. Foram poupados à verdadeira
tragédia do amor.
- Não percebo muito bem o que quer dizer - disse
o capitão.
- A tragédia do amor não é a morte ou a
separação. Quanto tempo acha você que demoraria
um deles a ficar farto do outro? Oh, é
horrivelmente amargo olhar para uma mulher que
amamos com todo o coração, com toda a alma, -
tanto, que sentíamos não nos podermos separar
nunca dela, - e compreender que se nunca mais a
víssemos não teríamos desgosto nenhum. A
tragédia do amor é a indiferença.
Mas enquanto falava sucedeu-lhe uma coisa
extraordinária. Conquanto se tivesse dirigido ao
capitão, não falava para ele; pusera os
pensamentos em palavras para si próprio; e, com
os olhos fixos no homem em sua frente, não o
vira. Mas, de repente, uma imagem apresentou-se
aos seus olhos, não a do homem que via, mas dum
outro homem. Era como se estivesse a olhar para
um daqueles espelhos curvos, que alteram as
figuras, fazendo-as extraordinariamente altas ou
ultrajosamente atarracadas. Mas aqui sucedia
precisamente o contrário; e, no homem gordo e
feio, entreviu o vago aspecto dum rapaz.
Examinou-o, com um olhar rápido e perscrutador.
Porque o teria trazido a este sítio uma viagem
de acaso? Um súbito baque no coração fê-lo ficar
com a respiração suspensa. Uma suspeita absurda
apoderou-se dele. O que lhe ocorrera era
impossível - e contudo podia ser verdadeiro.
- Como é que você se chama? - perguntou
brutamente.
O rosto do capitão encheu-se de pequeninas rugas
e ele soltou uma gargalhada sabida.
- Já há tanto tempo que não ouço o meu nome, que
quase me esqueci dele. Mas há trinta anos que
sou conhecido aqui nas ilhas por Vermelho.
O seu corpo balofo tremia num riso baixo, quase
silencioso. Era um espetáculo obsceno. Neilson
estremeceu. Vermelho estava divertidíssimo, e
lágrimas escorriam-lhe dos olhos raiados de
sangue pela cara abaixo.
Neilson ficou suspenso - porque
nesse momento uma mulher entrou na sala. Era uma
mulher indígena de aspecto um tanto impotente,
forte sem ser corpulenta, escura, porque os
indígenas escurecem com a idade, de cabelo
grisalho. Trazia vestida uma Mother Hubbard
[1]
preta, que deixava adivinhar, por baixo do pano
fino, os seios pesados. Tinha chegado o momento.
Fez uma observação a Neilson a respeito de
qualquer assunto doméstico, e ele respondeu.
Perguntou a si mesmo se a voz lhe soaria tão
pouco natural como a ele próprio parecia. Ela
deitou um olhar indiferente ao homem sentado ao
pé da janela, e saiu da sala. O momento tinha
chegado - e passado.
Neilson não pôde falar por instantes. Estava
estranhamente abalado. Depois:
- Teria imenso prazer em que ficasse para jantar
comigo. Terá é de se sujeitar ao que houver.
- Creio que não posso, - disse Vermelho. - Tenho
de ir à procura desse tipo Gray. Entrego-lhe a
mercadoria e depois vou-me embora. Quero estar
amanhã em Ápia.
- Vou mandar-lhe um garoto para lhe ensinar o
caminho.
- Ótimo.
Vermelho ergueu-se com custo da cadeira,
enquanto o sueco chamava um dos rapazes que
trabalhava na plantação. Disse-lhe para onde o
capitão queria ir, e o rapaz começou atravessar
a ponte. Vermelho preparou-se para o seguir.
- Não caia. - disse o sueco.
Neilson viu-o fazer a travessia; e, já o outro
desaparecera por entre os coqueiros, ainda
olhava. Depois deixou-se cair pesadamente na
cadeira. Era então esse o homem que o impedira
de ser feliz? Era esse o homem que Sally amara
durante todos esses anos e por quem esperara tão
desesperadamente? Era uma coisa grotesca.
Apoderou-se dele uma fúria repentina;
apetecia-lhe levantar-se e partir tudo à sua
volta. Fora ludibriado. Eles tinham-se visto um
ao outro, finalmente, e não se tinham
reconhecido. Começou a rir, sem alegria; o riso
aumentou-lhe até se tornar histérico. Os deuses
haviam-lhe pregado uma partida cruel. E agora
estava velho.
Então Sally entrou para lhe dizer que o jantar
estava pronto. Sentou-se em frente dela e tentou
comer. Perguntava-se o que diria se lhe contasse
que o homem gordo e velho sentado na cadeira era
o amante de quem se recordava ainda com o
apaixonado abandono da sua juventude. Alguns
anos atrás, quando a odiava por o tornar tão
infeliz, teria sentido prazer em fazê-lo. Nessa
altura queria feri-la como ela o feria, porque o
seu ódio apenas era amor. Mas agora tanto lhe
fazia. Encolheu os ombros, com indiferença.
- Que queria aquele homem? - perguntou ela.
Não lhe respondeu logo. Ela também estava velha,
uma indígena velha e gorda. Ele pensava: como
pudera tê-la amado tão loucamente? Espalhara aos
seus pés todos os tesouros da sua alma, e ela
não lhes ligara nenhuma. Desperdício - que
desperdício! E agora, quando a olhava, apenas
sentia desprezo. A paciência acabara-se-lhe.
Respondeu à sua pergunta:
- É o capitão de uma escuna. Veio de Ápia.
- Sim?
- Trouxe-me notícias de casa. O meu irmão mais
velho está muito doente e tenho de lá ir.
- Demoras-te muito?
Ele encolheu os ombros.
Notas:
1 - Bata curta e larga usada pelas
indígenas dos Mares do Sul.
FIM
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