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Em 15
de agosto de 858, o papa João VII foi acometido de violentas
dores no ventre.
Eram dores de parto.
Só então se soube
que o soberano pontífice
era, na realidade, uma mulher.

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Roma, 17 de julho do ano da graça de 855. Leão IV, papa
havia oito anos, entregava a alma a Deus. Para substituí-lo no
trono de São Pedro, os cardeais escolheram um clérigo tão
piedoso quanto sábio, um certo João, o Inglês, assim chamado
por causa da origem de sua família. O acontecimento era
importante: por um lado, um estrangeiro tornava-se papa, o que
não era habitual; por outro, havia sido escolhido por
unanimidade, o que era ainda mais raro.
João VIII,
monge do mosteiro de São Martinho, em Roma, era pouco
conhecido. Tendo chegado à Cidade Eterna alguns anos antes,
havia se destacado pela grande discrição e pela aura de uma
vida dedicada aos estudos e à fé. E então, quando no século IX
o papado ficou entregue às mãos das poderosas famílias
romanas, ele tinha a vantagem de não pertencer a nenhum clã,
de não tomar o partido de nenhum dos lados. Sua vida exemplar
e o que dele se sabia o apresentavam mais como um intelectual
devoto do que como um político.
João VIII era um
intelectual. No mosteiro de São Martinho, reunia em torno de
sua cátedra um auditório cada vez mais importante. Sua
eloqüência, seu amor pela teologia e pelas ciências, tanto as
sagradas quanto as profanas, o tinham levado a discussões
públicas com os maiores eruditos da época. Ele nunca fora pego
de surpresa, ou vencido. Ganhou o título de sábio dos sábios.
Sua fama ultrapassou, assim, os muros do mosteiro.
Mas
tão logo foi eleito, o quase santo não correspondeu às
esperanças nele depositadas. O povo de Roma decepcionou-se. De
que servia um santo no trono de Pedro, se ninguém podia se
aproximar dele, ou mesmo vê-lo?
Na verdade, João VIII
se tornou ainda mais discreto do que já era anteriormente.
Passou-se um ano, e depois outro, sem sair do Vaticano. No
entanto, ele não era inativo: ergueu igrejas e altares, compôs
prefácios para as missas e instituiu a quaresma; devolveu o
cetro e a coroa imperial a Luís II, filho do velho imperador
Lotário, que havia se retirado para um convento. Tudo isso sem
nunca aparecer em público.
Mas no início do ano 858 sua
presença se fez necessária. Calamidades naturais abateram-se
sobre as cidades e os campos. O rio italiano Tibre
transbordou, houve um tremor de terra e nuvens de gafanhotos
destruíram a colheita. A análise que a mentalidade da época
fazia das catástrofes naturais era de analogia com as pragas
do Egito. O pontífice, aquele que "fazia a ponte" entre a
humanidade e Deus, precisava intervir.
Em desespero de
causa, João VIII, convocado pelos cardeais, aceitou conduzir a
procissão das Súplicas - destinada a fazer chover -, que devia
acontecer no dia da Ascensão.
Na manhã desse dia, os
sinos dobravam, e toda a população estava reunida para a
festa, ao longo do itinerário previsto, que levava do Vaticano
à igreja de São João de Latrão. Mesmo antes que o cortejo
partisse do palácio pontifical, o entusiasmo estava no
auge.
Enquanto milhares de vozes encobriam os salmos e
as súplicas pronunciadas pelo papa, o cortejo cumpria as
principais etapas, pelas ruas de Roma. O sol, elevando-se no
céu, fazia-se mais e mais ardente, e as primeiras fileiras da
multidão e dos cardeais começaram a notar que o rosto do papa
se alterava, de quando em quando. Em seguida, uma careta de
dor contínua marcou sua face. A preocupação tomou conta dos
cardeais. Mais ainda porque o papa deixou de cantar e gemia
surdamente. Os membros da Cúria se perguntavam se não seria
melhor interromper a cerimônia.
Mas não houve tempo de
responder. Subitamente, o papa soltou um grito, caiu da mula
que o carregava, seguro somente por dois cardeais que estavam
a seu lado. O sumo pontífice se dobrou sobre si mesmo,
apertando o ventre e desmaiando. A multidão foi sacudida pela
surpresa, os gritos e o choro substituíram os cantos
religiosos. João VIII foi levado para o interior da igreja de
São Clemente.
Lá dentro, ao mesmo tempo que se tentava
descobrir a razão daquela dor no baixo ventre, ao se erguer as
vestes do papa uma horrível revelação saltou aos olhos dos que
ali estavam: o papa era uma mulher! Aterrorizados, todos
fizeram o sinal da cruz. A cólera começou então a substituir o
estupor. Mas o escândalo não terminava ali. O papa João VIII
estava dando à luz, conspurcando as roupas de cerimônia e o
local sagrado da igreja.
A inacreditável notícia se
espalhou. Rapidamente ficou difícil conter a multidão, que
tentava massacrar ali mesmo aquela que havia ousado desprezar
o cargo mais importante da cristandade. Finalmente sabia-se
quem era a responsável pelas calamidades enviadas pelo Senhor.
João VIII, a papisa, morreu de dores de parto. A criança, uma
menina, nasceu morta.
A
lenda da papisa Joana
Embora seja
contestada, até hoje, pela Igreja Católica, a história de uma
mulher que teria governado a Igreja, durante dois ou três anos,
continua a dividir a opinião dos estudiosos, que divergem quanto
à sua veracidade. Verdade ou lenda, ela circulou pela Europa
durante séculos, podendo ser encontrada em
diversos textos da Idade Média.
Uns localizam sua origem no final do século IX, mas outros situam o
papado
de Joana até dois séculos e meio antes, depois da morte de Leão IV,
coincidindo com uma época de crise e confusão na diocese de Roma.
Segundo um cronista do século XIII, Joana ocupou o cargo entre o Papa Leão IV e o Papa Benedito III (anos de
850
e 1100).
Versões
A história da papisa possui versões diferentes. À luz de uma delas, Joana
teria
sido uma jovem de Constantinopla, que se fez passar
por homem porque desejava estudar e isso era proibido às
mulheres. Extremamente culta, conseguiu formar-se filosofia e
teologia. Tendo se disfarçado de monge, apresentou-se em Roma, onde
surpreendeu
os doutores da Igreja com sua sabedoria. Admitida no seio da Igreja,
tornou-se Papa após a morte de Leão VIII, escolhendo o nome de João VIII.
Pouco antes, tornara-se amante de um oficial da Guarda Suíça, de
quem
ficou grávida.
A
versão de Martinho de Opava diz que ela nasceu em Mainz, na Alemanha,
e que, já adulta, conheceu um monge, por quem se
apaixonou. O casal foi viver na Grécia, onde passaram três anos.
Como o monge fosse chamado a Roma e
desejando ela acompanhá-lo, resolver roupas masculinas,
passando-se
por um monge chamado Johannes Angelicus, e ingressando no
mosteiro
de São Martinho.
Sua inteligência e seu saber a tornaram conhecida e respeitada,
sendo nomeada cardeal e, após a morte de Leão IV (855),
escolhida para sucedê-lo.
Quando Joana engravidou, as vestes folgadas dos Papas
ajudaram-na a esconder sua condição mas, para seu azar, ela
sentiu as dores do parto durante uma procissão, numa rua
estreita, entre o Coliseu e a Igreja de São Clemente, dando à
luz no meio da multidão.
As várias versões coincidem em um posto: ao descobrir a verdade, a
multidão reagiu furiosamente, linchando a papisa e a criança
recém-nascida.
"Habemus Papam"
Essa história seria a origem de um rito, não confirmado pelo
Vaticano,
de apalpar os órgãos genitais do Papa eleito para evitar que outra
mulher voltasse a ocupar o trono de Pedro.
Segundo este costume, pedia-se ao Papa eleito que se sentasse em uma
cadeira furada, chamada de "stercoraria" (que provêm de "stercus",
esterco), permitindo que um eclesiástico "verificasse" sua
masculinidade e, após a confirmação, seria proclamada a frase: "Duos habet et bene pendentes" (Tem dois e bem pendentes). Obtida a
confirmação, o camerlengo proclamava o famoso ditado "Habemus
Papam!"
(Temos Papa).
As fontes
Nos debates sobre a Papisa Joana são evocados 11 fontes escritas
entre os anos 886 e 1279. Parte destes textos foi redigida pelo
dominicano João de Mailly, por volta de 1250. Outra parte pelo
também dominicano, Martinho Polono, falecido em 1279. Os relatos
encontrados em documentos mais antigos são devidos a
interpolações posteriores ao século XIII.
O que dizem as fontes? Vejamos o que escreveu o dominicano João
de Mailly:
"Em Roma, uma mulher simulou o sexo masculino. E, muito
inteligente como era, veio a ser notário da Cúria pontífícia,
Cardeal e Papa. Um belo dia, tendo montado a cavalo, foi
acometida de dores de parto. A justiça de Roma, então, a
condenou a ser amarrada pelos pés ao rabo de um cavalo, que a
arrastou meia-légua de distância, enquanto o povo a apedrejava.
Foi sepultada no mesmo lugar em que morreu."
Mailly coloca o episódio logo após o pontificado do Papa Vítor
III (+ 1087). Mas Estêvão de Bourbon diz que ocorreu por volta
de 1100, após a morte de Urbano II, enquanto o cronista de
Erfurt retrocede até 915, depois de Sérgio III. Martinho Polono
situa o fato após o pontificado de Leão IV (em 855). Um
interpolador, coloca a eleição da Papisa em 705!
Nos séculos XIV e XV a estória era aceita como verídica..
No domo de Sena, por exemplo, em 1400, foram erguidos os bustos
dos Papas, entre os quais o da Papisa Joana.
No Concílio de Constança (1414-1418), um herege citou a Papisa
sem sofrer contestação alguma.
Houve autores medievais, como Godofredo de Courlon (1295) e o
dominicano Roberto de Uzes (1296), protestaram contra a história
da papisa, mas somente a partir de meados do século XVI a Igreja
passou a sustentar o caráter lendário da mesma.
A refutação foi cabalmente empreendida por Florimundo de Romand,
que escreveu "Erreur populaire de la papesse Jeanne", editado em
Paris (1558).
Refutação
Em sua obra, Romand apresenta esses argumentos para refutar a
história da Papisa:
a) As incertezas das diversas versões, principalmente ao
assinalarem a data do pretenso episódio.
b) O fato de que até meados do século XIII tal estória ser
totalmente ignorada pelos cronistas medievais.
c) A série de Papas, como hoje é conhecida, não admite
interrupção entre Leão IV e Bento III (século IX), como tampouco
a comporta entre os Pontífices dos século X/XI. Leão IV morreu
em 17/07/855 e Bento III foi eleito antes do fim de julho de
855. Portanto, é impossível intercalar o pontificado da pretensa
Papisa, que teria durado em torno de 2 anos e meio.
Quanto a cadeira estercorária, Romand explica que, uma vez
eleito o Papa, os Cardeais e o povo iam à basílica. O Papa se
sentava numa cadeira de mármore colocada sob o pórtico da
Igreja. Os dois Cardeais mais antigos o sustentavam pelos braços
e o levantavam, ao canto da antífona: "Levantas da terra o
indigente e do esterco ergues o pobre" (Sl 112,7).
Em conseqüência, tal cadeira se chamava "estercorária", conforme
sugerido pelo canto.
A cadeira não possuía assento perfurado.
Tarot
Misteriosamente, a história de Joana ficou imortalizada num Arcano do Tarot,
a segunda lâmina, "a Papisa", carta que representa a sabedoria, o
conhecimento, a intuição e a chave dos grandes mistérios.
Fonte de pesquisa
LACHATRE, Maurice. OS CRIMES DOS PAPAS - Mistérios e Iniqüidades da
Corte de Roma. São Paulo: Madras Editora Ltda, 2005.
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