Quem se debruça atentamente sobre o texto do Gênesis para ler o mito
hebraico da criação do Homem, há de perceber a presença de duas
narrativas distintas.
No capítulo 1 do livro, IHWH cria, no "último dia da Criação", o
primeiro casal de humanos: homem e mulher são criados juntos, num
mesmo momento, da mesma maneira.
No capítulo 2, o homem é criado primeiro, enquanto a mulher só nasce
posteriormente, a partir de uma costela do macho.
Alguns estudiosos judeus tentaram
explicar a contradição sugerindo que o Gênesis mostra ter havido
duas criações: na primeira, IHWH criou os seres humanos em geral; na
segunda, criou um homem especial, seu predileto, do qual derivou a
"raça adâmica", ou seja, os hebreus.(1)
Mas os historiadores que pesquisam a chamada História Bíblica,
preferem identificar nessa incongruência a presença de duas fontes
diferentes, que se teriam amalgamado no Livro do Gênesis.
Essa é uma explicação razoável e muito se poderá dizer em seu favor.
Mas há outra possibilidade, não menos aceitável, que dispensa o
apelo a uma "segunda fonte".
2. MUTILAÇÃO DE UM MITO
Da mesma forma como um fato real pode vir a se converter em um mito,
por força de metamorfoses que a transmissão oral produz na história
original, o próprio Mito pode também ser vítima de mutilação,
mediante acréscimo, modificação ou supressão.
Encontramos um bom exemplo desse processo na lenda do Rei Artur.
Muito provavelmente, a saga desse herói deriva de um personagem
real, que teria vivido na Bretanha, nos obscuros anos de transição
entre o domínio romano e o estabelecimento dos reinos anglo-saxões.
Seus feitos foram fantasiados de tal modo, que acabaram se
convertendo em lenda.
Mas na lenda original, nascida em solo britânico, Artur é apenas um
guerreiro valoroso, que luta contra os saxões. Posteriormente, o
mito o converte em rei e acrescenta os "cavaleiros da Távola
Redonda", na fictícia cidade de Camelot.
Ao se tornar canto de jograis, a lenda se difunde e chega a França,
onde recebe um acréscimo romântico: o casamento de Artur e Guinivere,
e a paixão proibida entre a raínha e o bravo Lancelot. Em outro
momento, já em plena Idade Média, soma-se o componente místico:
Morgana, a fabulosa ilha de Avalon, a espada encantada (Excalibur) e
a busca do Santo Graal.
Soterrado por essa avalanche de sobrecapas mitológicas, o "Artur
histórico" se perdeu, de tal sorte que, hoje, é uma tarefa talvez
impossível (ainda que fascinante) tentar resgatá-lo.
3. INCOERÊNCIA
Diz o Gênesis em seu capítulo 1, que o Deus Eterno (IHWH), após ter
criado o céu, a terra, as estrelas, etc, cria os seres viventes: os
peixes, as aves e os animais, segundo a sua espécie. A todos eles dá
um comando: "Frutificai e multiplicai", o que implica em
acasalamento e reprodução. Infere-se, portanto, que esses seres
foram criados aos pares: macho e fêmea, de cada espécie.
Com o Homem não é diferente. No "dia sexto", ele é criado, à imagem
de Deus segundo a sua semelhança, cabendo-lhe frutificar,
multiplicar-se, encher a terra e subjugá-la. Neste ponto, o Gênesis
é explícito: "... à imagem de Deus o criou; macho e fêmea criou-os".
O primeiro capítulo do livro se encerra com IHWH vendo que era bom
tudo quanto havia feito. E até então, a narrativa apresenta-se
coerente.
A incoerência se instala no capítulo 2. Além de esclarecer que
"formou o Eterno Deus ao homem, pó da terra (2), e soprou em suas
narinas o alento da vida", Gênesis diz que, inicialmente, apenas o
macho humano é criado e colocado no Jardim do Éden, contrariando a
lógica contida no capítulo anterior. A fêmea só aparece na narrativa
quando IHWH se dá conta de que não é bom que esteja o homem só (3).
Então, fazendo-o cair em um sono pesado, toma-lhe uma de suas
costelas (Gn 2,21) e dela faz a mulher.
Mas essa incoerência pode ser apenas aparente, se admitirmos que
entre o primeiro e o segundo relato houve supressão de uma parte da
narrativa, que a tornava coerente.
Que parte era essa? O que ela continha?
3. PERGUNTAS INCÔMODAS
Quando IHWH criou Eva, da costela de Adão (3), e a levou ao homem,
este a recebeu dizendo:"Esta vez é osso dos meus ossos e carne da
minha carne" (Gn 2,23).
Esta vez ...? Por que "ESTA vez"?
Teria havido uma OUTRA vez?
Teria havido uma vez em que a mulher não era "osso dos meus ossos e
carne da mnha carne"?
Em outras palavras, teria havido uma mulher que não fora feita a
partir do homem?
Ora, se IHWH decidiu criar o homem só (apenas o macho da espécie),
por que resolveu, depois, dar-lhe uma companheira, contrariando seu
próprio designo original? (2)
Por que IHWH refletiu que "não é bom que o homem esteja só" (Gn
2,18), após tê-lo assim criado, se ao cabo dos 6 dias da Criação,
ele (IHWH) havia visto tudo quanto fizera "e eis que era muito bom"
(Gn 1,31) ?
Como seria possivel ao homem, sem a fêmea de sua espécie, cumprir a
ordem divina: "frutificai e multiplicai-vos" ?
Essa perguntas parecem ser irrespondíveis, salvo se nos
despreendermos do enfoque apriorístico que costumamos aplicar ao
estudo do Gênesis.
Vamos, pois, colocar a questão de outra forma, enfocando-a sob outro
prisma.
Podemos começar nos perguntando: E se, na verdade, IHWH jamais tenha
criado o homem só? E se jamais tenha pretendido que ele (o homem)
ficasse só?
É preciso observar que Gênesis 2,18 não diz que o homem ERA só; diz
que ele ESTAVA só.
O fato do homem estar só, não implica, necessariamente, que ele
tenha estado sempre só, pois sua solidão poderia ser circunstancial,
expressando uma condição de momento. Logo, poderia ter havido um
tempo, anterior àquele, em que o homem não estava só.
4. RESPOSTA CHOCANTE
Se antes ele não estava só, haveria o homem de ter tido uma
companheira.
Mas que companheira seria essa, se a primeira mulher só foi criada
depois, a partir da costela do homem, ou seja, osso de seus ossos e
carne de sua carne?
A resposta é óbvia.
A mulher (Eva) que IHWH criou, a partir da costela de Adão, não foi
a primeira companheira do homem.
Houve uma anterior a ela, e que foi, verdadeiramente, a primeira
mulher.
Uma mulher criada antes de Eva ? Quem?
Só pode ser aquela que foi criada junto com o homem, no dia sexto da
Criação, conforme descrito em Gênesis I: "Macho e fêmea os criou".
Essa mulher não era Eva. Era outra.
Por isso Adão, ao receber Eva, exclama: "Esta vez é osso dos meus
ossos e carne da minha carne". Isso porque a primeira mulher que
recebeu não era osso de seus ossos nem carne de sua carne. Não fora
criada a partir dele, mas do mesmo modo que ele, do "pó da terra".
O relato de Gênesis I é coerente. Todos os "seres viventes" são
criados aos pares (macho e fêmea), segundo sua espécie, até para que
se lhes tornasse possivel frutificar e multiplicar-se.
Por que com o ser humano haveria de ser diferente?
Assim, sendo homem e mulher criados juntos, infere-se que o homem
teve uma companheira desde o dia em que nasceu.
Por que, então, em Gênesis II, ele aparece só, sem achar "uma
companheira frente a ele"? (Gn II,20)
Que teria acontecido com a primeira mulher, criada junto com homem,
e que não era osso de seus ossos?
Teria morrido, deixando Adão viúvo e solitário?
A resposta é outra e mais chocante.
Adão ficou só porque sua mulher se foi.
O casal se separou.
Em suma, o primeiro casamento da História terminou em divórcio.
5. LILITH
Tanto o mito da Criação quanto as demais narrativas fabulosas
incluídas no Gênesis, guardam o traço inequívoco da rica tradição
sumeriana, que se irradiou por todo o mundo mesopotâmico (com as
devidas adaptações), enriquecendo as culturas que se desenvolveram
naquela região, inclusive a babilônica, de onde deve ter sido
absorvida pelos hebreus.
Portanto, é para a Suméria que devemos nos voltar, quando buscamos
as origens da lenda de Lilith (aliás "Lilu", aliás "Ardat Lili",
aliás "Lamaschtu"), um aspecto do culto à "Grande Deusa", cujas
raízes nos remetem a um tempo remoto, de predominância matriarcal.
Em sua versão hebraica, Lilith se converteu na primeira mulher de
Adão, criada junto com ele por IHWH, no sexto dia da Criação.
Roberto Sicuteri, autor da obra, "Lilith, a Lua Negra", é um dos que
afirmam ter sido à época da transposição da Versão Jeovística da
Bíblia para a versão Sacerdotal, que a lenda de Lilith foi expurgada
do Gênesis, deixando uma lacuna que tornou contraditórios os
capítulos I e II daquele livro. Ainda assim, sobraram alguns
vestígios no texto canônico, a exemplo do que se lê no Livro de
Isaias (Is 34:14).
Expulsa da Torah, a lenda de Lilith sobreviveu no Talmud, no
Alfabeto de Ben Sira, e na Cabalah, ainda que mutilada por um
progressivo processo de aviltamento da personagem. Na Idade Média,
ela se integrou ao imaginário cristão, por força da popularidade de
um texto hassídico, "Zohar - o livro do explendor" (século XIII),
tida com uma das mais importantes obras do esoterismo cabalístico.
6. CONFLITO CONJUGAL
Diferente da pacata Eva (que haveria de substituí-la), Lilith era
uma mulher voluntariosa e rebelde, que reinvidicava igualdade de
direitos em relação ao homem.
Quando o casal copulava, ela contestava o fato de ficar sempre por
baixo, suportando o peso do esposo. "Por que devo deitar-me embaixo
de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que devo ser
dominada por ti, se também fui feita de pó e por isso sou tua
igual"?
A essas questões, Adão respondia alegando haver uma "ordem" que não
podia ser transgredida, segundo a qual o macho deve dominar a fêmea,
para que se preserve o equilíbrio preestabelecido por Deus.(5)
Indignada com o "machismo" do marido, Lilith decidiu abandoná-lo,
retirando-se do Jardim do Éden e indo viver às margens do Mar
Vermelho. Inconformado, Adão denunciou o comportamento da esposa ao
Eterno, que destacou três anjos (Semangelaf, Sanvi e Sansanvi) para
trazê-la de volta. Mas Lilith se recusou a voltar, sendo amaldiçoada
pelos anjos: ela jamais teria filhos, pois todos os que concebesse
morreriam logo após o parto.
O mito de Lilith, em sua versão hebraica, é vigoroso e fascinante,
sendo razoavelmente possivel reconstituir as mutações progressivas
que sofreu ao longo do tempo, e que terminaram por converter a
primeira mulher criada por IHWH em uma figura diabólica (6)
7. RECONSTRUÍNDO O GÊNESIS
Com a inclusão da história de Lilith, desaparece a incoerência entre
os capítulos I e II do Livro do Gênesis, viabilizando a seguinte
leitura do mito da Criação:
- No sexto dia, IHWH cria o primeiro casal de humanos (Adão e Lilith):
"macho e fêmea os criou".
- Lilith não aceita ser dominada pelo marido e o abandona, deixando
o Éden.
- Inconformado, Adão queixa-se a IHWH, que manda três anjos no
encalço de Lilith, com ordens para trazê-la de volta.
- Lilith nega-se a voltar e é amaldiçoada pelos anjos.
- Solitário, Adão vaga pelo Éden sem achar "uma
companheira frente a ele".
- IHWH apieda-se de Adão e resolve dar-lhe outra esposa.
- Para garantir que a nova mulher (Eva) será submissa e dependente
do homem, IHWH fá-la nascer de uma costela de Adão.
- Ao receber sua segunda companheira, Adão mostra-se aliviado: "Esta
vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne".
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(1) Isso lembra uma história contada por indígenas norte-americanos.
Para criar o homem, Deus fez um boneco de barro úmido e o colocou em
uma pequena fogueira para cozinhar. Demorou demais para retirá-lo e
o boneco tisnou, dando origem à raça negra. Na segunda tentativa,
foi retirado muito depressa, ficando com uma cor pálida (a raça
branca). Só na terceira tentativa, o boneco adquiriu a cor perfeita:
a "vermelha", naturalmente.
(2) O primeiro homem recebeu o nome de Adam (Adão), derivado da
palavra hebraica "adamah" (pó, barro)
(3) O nome Eva (Havah) surge em Gn 3,20, e
Adão (Adam) em Gn 5,2.
(4) Na tentativa de conciliar as contradições entre Gênesis I e II,
há quem sustente que a frase "macho e fêmea os criou" significa que
o primeiro ser humano era hermafrodita, possuindo, por conseguinte,
ambos os sexos. E que o relato da criação de Eva, a partir da
costela de Adão, reflete, simbolicamente, a separação entre os dois
componentes (masculino e feminino) existentes no primeiro homem.
Ocorre que Gênesis I não usa a frase no singular (macho e fêmea o
criou), mas no plural (... os criou).
(5) Entre os árabes, por muito tempo, era inadmissível que, durante
o ato sexual, a mulher ficasse em outra posição que não fosse
embaixo do homem, atestando sua condição de inferioridade.
(6) Unido-se a um demônio (Samael), Lilith busca vingança contra
Adão. Disfarçada de serpente, induz Eva a comer do "fruto proibido",
provocando a ira de IHWH sobre o segundo casal. Na Europa Medieval,
ela se converte em "súcubo", que além de assediar os homens durante
o sono, vitima as mulheres grávidas, matando seus bebês no momento
do parto. Para conjurá-la, escrevia-se nas paredes do quarto da
gestante: "Adão e Eva, menos Lilith".
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