A conquista do Everest

Dia 29 de maio de 1953, onze e meia da manhã. O neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay (foto) pisam o topo do Everest, a 8 850 metros de altitude. Passam apenas 15 minutos lá e entram para a história do alpinismo. Aos 84 anos, Hillary é hoje um ativista pela preservação do Himalaia. Conseguiu recursos para a criação de um parque nacional em torno do Everest e de escolas e hospitais na região. Norgay morreu em 1986.
Foram 32 anos de tentativas até a conquista da montanha. A primeira expedição registrada ao Everest foi de militares britânicos em 1921. Utilizava-se a Rota Norte da montanha, cuja entrada fica no Tibete. Em 1950, a China fechou o país e começaram as explorações pelo sudeste, saindo do Nepal. O sonho ficou mais próximo em 1952, quando Tenzing Norgay integrou uma expedição suíça que demarcou a Rota Sudeste e chegou a 151 metros do topo. Foi essa rota que guiou Hillary e o mesmo Norgay à glória no ano seguinte.
Além da ilustre escalada de 1953, pelo menos outras quatro merecem o status de pioneiras no Everest. Uma foi a conquista pela Rota Oeste, em 1963, pelos americanos Tom Hornbein e Willi Unsoeld. Eles chegaram ao topo no fim da tarde e tiveram que descer pela Rota Sudeste durante a noite. Acabaram pernoitando a 8 500 metros de altitude, sob condições extremas, que custaram a Unsoeld nove dedos dos pés.
Em 1975, a Rota Sudoeste foi vencida pelos ingleses Doug Scott e Dougal Haston. Em 1980, o italiano Rein-hold Messner escalou pela face norte, sozinho e sem oxigênio, numa das maiores façanhas da história do alpinismo. Por fim, em 1983, a inexplorada face leste - conhecida como Kangshung - foi vencida pelos americanos Lou Reichardt, Carlos Buhler e Kim Momb.
Quase nenhuma dessas aventuras seria possível sem os sherpas, o povo que mora aos pés do Everest. Acostumados com a altitude elevada, eles sofrem pouco com a falta de oxigênio e dormem ao ar livre na montanha. Com o tempo, muitos passaram de carregadores a alpinistas ousados, como Ang Rita, que em 1996 chegou ao cume do Everest pela décima vez sem oxigênio; e Babu Chiri, que em 1999 passou 21 horas no topo.
As grandes façanhas na alta montanha estão sempre relacionadas à resistência ao ar rarefeito. "O Everest não é uma montanha tecnicamente difícil, a maior parte dela se faz caminhando", diz o alpinista brasileiro José Luiz Pauletto. Mas é preciso agüentar o frio, o vento, a comida racionada, a falta de oxigênio - a 8 mil metros há um terço do oxigênio que existe ao nível do mar - e ter muita paciência. Costuma-se ficar semanas nos acampamentos esperando a "janela" de tempo bom. Então é preciso partir à noite e chegar ao cume de manhã. Tudo para descer rápido e durante o dia, já que grande parte dos acidentes fatais acontece na volta, quando o cansaço, a lentidão dos reflexos e o risco de congelamento são maiores.
Até hoje, cerca de 10 mil pessoas tentaram subir o Everest. Aproximadamente 1 200 conseguiram e 175 morreram, mas está cada vez mais fácil chegar lá. As expedições comerciais, que custam de US$ 30 mil a US$ 70 mil, oferecem carregadores, cozinheiros, equipamentos de resgate e localização, boa previsão do tempo, cordas já fixas pelo caminho e cilindros de oxigênio. O resultado é que o Everest recebe hoje 27 mil turistas por ano. Entre 1994 e 1999, foram deixadas para trás pelos aventureiros 9 toneladas de cordas, ferragens e cilindros de oxigênio. O problema só não é mais grave porque os sherpas organizam regularmente expedições de limpeza para coletar e vender as garrafas de oxigênio vazias.
Para muita gente, a popularização das expedições comerciais ao Everest é condenável, já que o mérito estaria em escalar sem oxigênio suplementar ou carregadores, como Reinhold Messner. Os alpinistas Paulo e Helena Coelho, por exemplo, já foram cinco vezes ao Everest e podem ser os primeiros brasileiros a conquistá-lo sem cilindros. "Para nós, o oxigênio é um doping, uma forma de rebaixar a montanha diante de nós", diz Paulo. Já os próprios Hillary e Norgay chegaram ao cume com oxigênio artificial, numa expedição apoiada por 350 carregadores.
O apicultor neozelandês Edmund Hillary era apenas um praticante do alpinismo, mas se viu catapultado repentinamente à glória quando, há 50 anos, tornou-se o primeiro homem a chegar ao topo do Everest, ao lado do sherpa nepalês Tenzing Norgay.Hillary continuou sendo um homem simples, quase chateado com sua fama mundial, como prova o fato de que as únicas imagens da façanha são as fotos que mostram seu companheiro de aventura no cume da maior montanha do mundo, de 8.848 metros.
"Senti satisfação, mas não de forma exaltada, quando cheguei ao topo do mundo", disse ele. Hillary declarou diversas vezes que sua ação em favor dos povos e da conservação do Himalaia lhe pareciam mais importantes do que a recordação de suas façanhas pessoais.
Segundo filho de Gertrude e Percy Hillary, Edmund nasceu no dia 20 de julho de 1919 em Auckland. Ele se define como um "jovem pobre do campo", que começou a praticar o montanhismo aos 12 anos, nos picos e geleiras da Nova Zelândia. Durante a Segunda Guerra Mundial ele esteve na Aeronáutica, e em 1946 começou a se dedicar à criação de abelhas com seu irmão.
Porém, outros caminhos o aguardavam. Seu tipo físico - 1,90 metro e capacidade pulmonar de 7 litros, contra 5 litros dos seres humanos comuns -permitiu que se alistasse em 1951 na primeira expedição neozelandesa ao Himalaia. Depois, foi selecionado como integrante de uma equipe de reconhecimento do Everest, liderada pelo coronel britânico John Hunt.
No dia 29 de maio de 1953, pela manhã, a expedição estava no acampamento IX, a 8,5 mil metros de altitude. Hillary e Tenzing Norgay iniciaram então a a conquista do último trecho, equipados com tubos de oxigênio. Às 11h30 alcançaram o topo do mundo e entraram para a história.