Recortes pós-modernos sobre o pós-modernismo

João Vicente Kurtz
Novembro de 2005

Sob certa óptica, é possível analisar a História como um conflito de ideologias adversas, em eterna disputa pelo poder (que pode ser substituído, em determinadas áreas, como uma situação em que tal ideologia seja considerada referência). Tal subversão pode ser encontrada em áreas como a política (vide a tomada do poder pelos militares brasileiros, em 1964, e as lutas pela recuperação dos direitos políticos que a sucedeu) e a literatura (ao se observar os diversos preceitos literários ao longo do tempo).

Essa antítese também se apresenta na cultura, onde o modernismo é caracterizado pelo teórico da literatura egípcio Ihab Hassan pela centralização, hierarquia, arte como trabalho concluído. Por outro lado, o mesmo pensador define, no livro The Dismemberment of Orpheus: Toward a Postmodern Literature, o pós-modernismo da seguinte forma: dispersão, anarquia, arte como processo interminado.

Pós-modernismo, antes de tudo, é uma falácia, um clichê. Nas palavras de Douglas Kellner: “Durante uma viagem que fizemos na primavera de 1993 à Inglaterra (...) descobrimos um artigo no jornal The Guardian intitulado ‘O político pós-moderno’ e descobrimos que o artigo se referia a outro velho e aborrecido conservador que não tinha motivo discernível nenhum para ser pós-moderno” (p. 65). Isso se dá porque essa condição, como já foi frisado, é dispersiva.

Remete-se, assim, ao clássico pensamento de Nietzsche: “Deus está morto”. Deus, nesse caso, é a metonímia para as estruturas de poder exercidas pela Igreja Católica durante a Idade Média, contestadas pela Reforma Protestante e refutada pelo Iluminismo, do qual o pensador alemão fazia parte. A figura divina atuava como centro do mundo. O pós-modernismo repete o genocídio nietzschiano, mata a busca pelo propósito, pela estética, pelo mito, objetivos do modernismo. O que sobra é um vazio.

A era pós-moderna, convém ressaltar, está totalmente subjugada às lógicas do capitalismo. No caso, às lógicas de consumo, que bombardeiam as massas com objetos enaltecidos pela publicidade. Assim diz Ernst Bloch: “as promessas dos anúncios e da cultura de consumo costumam ser falsas e, em geral, criam falsas necessidades” (apud Rüdiger, p.93). . As pessoas, contaminadas por esse fetichismo, procuram construir sua individualidade sem perceber que, agindo por estes termos, homogeneízam a sociedade. Aponta Francisco Rüdiger: “O capitalismo engendra elementos que objetivamente assumem a forma de ilusões e que são elaboradas esteticamente das mais variadas formas” (p. 30).

O processo narrativo descentralizado é claramente observável na televisão, onde o romance de folhetim, elevado à potência máxima na forma de telenovela, é desconstruído e reconstruído de forma não-contínua, ou seja, dividido em capítulos diários. Ao mesmo tempo, a sociedade é aconselhada a continuar imersa nessa fantasia buscando-a em outras mídias, como a internet.

Esse ambiente, recheado por blogs e páginas pessoais, é a apoteose da pluralidade, seja ela mórfica - relativa à técnica (expressa em textos, fotos, áudio ou vídeos) - ou semântica - relativa ao conteúdo. É nesse ponto que entram as teorias relativas à cibercultura.

Importante teórico pós-moderno, Jean Baudrillard retoma o conceito platônico de simulacro. Este, segundo o filósofo grego, se aplica a uma representação de um objeto que não existe. Baudrillard o aplica sob a perspectiva semiótica, na qual a cópia se distancia do original de tal forma que não é mais reconhecida como tal, passando a sustentar-se sozinha.

O pensador divide a era do simulacro em três estágios. No primeiro, a representação se dá de forma concreta, como uma pintura barroca ou o Davi de Michelangelo. A segunda se dá com a Revolução Indústrial. Agora, os meios de reprodução mecânica criam réplicas idênticas entre si. A própria arte é abocanhada por esse processo, regulado pela lógica mercadológica. É nesse momento histórico que, na primeira metade do século XX, surge na Alemanha a Escola de Frankfurt.

Fortemente inspirados pelo ideal marxista, os pensadores frankfurtianos não tardaram a ver o capitalismo como um sistema aglutinador. E é de sua análise que surge o conceito de Indústria Cultural, ou seja, “produzir ou adaptar obras de arte segundo um padrão de gosto bem-sucedido e desenvolver as técnicas para colocá-las no mercado” (Rüdiger, p.18).

Na óptica da teoria crítica, o capitalismo, tal qual os Borgs de Star Trek, assimila as manifestações culturais que lhe são favoráveis (que trarão lucro), descartando aquilo considerado ultrapassado. Esse mecanismo é satirizado de forma tipicamente pós-moderna pelo espetáculo Tangos e Tragédias, que apresenta o hipotético país Sbórnia, onde existe uma lixeira onde se deposita todo o lixo cultural de outras nações, excluídas pela lógica de mercado.

Curioso perceber que a Indústria Cultural às vezes é confundida com próprio capitalismo (embora seja apenas parte deste). A banda das Velhas Virgens, em faixa de um cd ao vivo, crítica o sistema por ser ignorada pela mídia, ignorando que, em outro contexto (como o socialismo), a própria manifestação cultural várias vezes é reprimida. Também é notável que o mercado veicule ideais opostos ao capitalismo, como a venda de livros sobre comunismo, inimigo histórico do capitalismo (e existe uma Guerra Fria inteira para comprovar).

Walter Benjamim refletiu sobre a reprodução industrial e sintetizou o conceito de aura da obra de arte e concluiu que o êxtase se perde quando as pessoas se expõem às cópias. Hoje em dia, não se é preciso viajar até a Europa para ver a Monalisa ou um Rembrandt, basta apenas procurá-los na web. Por outro lado, uma pessoa que conheça cópias estas obras dificilmente sentirá o mesmo prazer que outra que apenas tenha ouvido falar delas, fossem ambas vê-las ao mesmo tempo. O imaginário variável, por assim dizer, é destruído, tendo em seu lugar uma imagem fixa e fria, que não admite relações com o interlocutor, já está terminada.

O terceiro estágio do simulacro de Baudrillard é a era do hiperreal, pós-moderno por natureza. Aqui, o simulacro se distância de seu original de forma extrema, passando a ser mais real que o real. E, se antes o simulacro era físico (no primeiro estágio), ou industrial (no segundo), aqui se trabalha com o conceito de cópia de idéias. Nos meios digitais, cada pedaço de arquivo, ao ser copiado, torna-se simulacro de si mesmo. A cópia é perfeita em todos os seus aspectos, e diferenciá-la da original é impossível. O fator principal, que seriam as trilhas de código binário escritas no disco rígido, é tão distante e abstrato que não faria sentido nenhum buscá-lo.

No que tange a cibercultura, vê-se que esta ciência engloba as análises e reflexões sobre tudo o que é multimídia. E nesse ponto se encaixam desde as novelas da Globo (com sites próprias), uma cola escolar (“visite nosso site”) até as próprias pessoas, que criam novas formas de se relacionarem e interagirem nesse novo meio.

A digitalização (ou a ciberculturização, forçando um pouco) é um processo cada vez mais comum, podendo ser identificado na crescente convergência das mídias. Um telefone celular é, cada vez mais, um aparelho multimídia, dotado de tantas funções a mais - mensagens de texto, vídeos, internet, etc - que a capacidade de fazer e receber ligações se transforma em mero detalhe técnico. Ao mesmo passo em que tem-se monitores que também são televisões e televisões que funcionam como interfaces com a internet (tv digital).

A pós-modernidade, desta forma, surge como a grande colcha de retalhos cultural. Por não ter um centro ideal, uma utopia una a ser encontrada, ela admite todas as manifestações culturais, com a única condição que elas tenham mercado disponível para trazer lucro. O consumo, no fundo, é a única lógica cultural existente. Não existe diferença entre um anarquista e um biólogo quando estes vão a uma livraria e compram um livro sobre estes assuntos e pagam o mesmo preço. A sociedade pós-moderna cria diversos grupos pretensamente distintos, mas que se legitimam pelas mesmas normas morais.

A vida em uma sociedade plural, tal qual a pós-moderna, assume valorações amplas que, em uma sociedade capitalista ideal (na qual a lógica de mercado crie oportunidades realmente iguais para todos), se estendem por um amplo espectro de opções. Pode-se criar o que bem se entende, pois é tudo legitimado pela cultura. Esse mundo ambíguo, simultaneamente singular e plural, pode ser aproveitado de diversas formas. Basta saber explorar.

Referências bibliográficas
KELNER, Douglas. A cultura da mídia. EDUSC, 2001
POWEL, Jim. Postmodernism for begginers. Writers and readers, 1998
RÜDIGER, Francisco. Comunicação e teoria crítica da sociedade, 2ª edição. Edipucrs, 2002

Nota: Esse texto possui alguns problemas em relação à bibliografia, que deverão ser corrigidos o mais breve possível.

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