Pe. José Vergílio da Silva, CSsR
"Sinais da Revelação de Deus"
Revelação e a Liberdade
       Começamos nossa reflexão sobre a liberdade , olhando um pouco para os textos do discípulos Tiago. Para este, a liberdade é a observância da Lei em Cristo (Tg 1,25; 2,12). Por outro lado, Paulo opõe a liberdade à Lei, considerada como condição de possibilidade de salvação si mesma (Gl 4,21-31). A liberdade cristã nos é apresentada como manifesto de liberdade. A Epístola aos gálatas condena o formalismo religioso; corresponde à aspiração moderna de autenticidade. Frente a essa problemática, recorremos a João, que parece nos satisfazer com suas palavras: "a verdade nos torna livres"(Jo 8,32). Assim, a condição da liberdade, isto é, de sermos livres, está na verdade, Ele mesmo deu testemunho da Verdade (Jo 5,33); eu sou o caminho a verdade e a vida (Jo 14, 6). Portanto, a liberdade é então, sinônimo de responsabilidade, fraternidade e cidadania cristã. "A liberdade cristã desabrocha no serviço mútuo, no clima do ágape descrito por Gl 5,22ss. Longe de encerrar o homem em sua suficiência, ela o entrega aos outros, como o Cristo que se entregou por amor" (Gl 2,20) .
       Neste sentido, a expressão "lei da liberdade" de Tiago significa a regra de comportamento da vivência cristã. Assim, "a liberdade cristã se caracteriza antes de tudo como vida filial (Gl 4,4-7); supõe portanto que seja rejeitada qualquer falsa concepção de Deus (idolatria, magia) para reconhecer em Deus o Pai de Jesus Cristo, aquele ao qual podemos dizer: Abba!
       O ponto de vista de teologia predomina sobre o ponto de vista moral; a luta contra as cobiças da carne não leva à conversão para Deus Pai, mas é a contemplação do amor paradoxal de Deus, revelado pela cruz do Cristo, que permite a luta de libertação da tirania do pecado" .
       Tiago, por sua vez, apresenta a coerência das normas éticas que os judeu-cristãos herdaram de seus pais, claro que atualizada em Cristo, como condição de possibilidade da vivência na comunidade do Reino. Por isso, a lei da caridade é a "lei régia" (Tg 2,8) . Claro que é sempre bom lembrar da posição contrária de Paulo em relação à lei farisaica. Sentia que a lei farisaica estava distanciada do sentido original, quando visava a volta do povo de Israel a Deus. Por esta razão, Paulo nega que a lei como sistema farisaico possa garantir tal convivência na comunidade cristã. Ela não produz, como está sendo encarada, liberdade, pelo contrário, mantém o povo na ignorância e submissão do farisaísmo.
       Paulo propõe o mandamento do amor como norma geral para a "fé que atua na caridade" (G l5, 6.13), fazendo como que ela produza os "frutos do Espírito" de Cristo em nós ( Gl 5,22-23 ), onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade ( 2Cor 3, 17 ); opostos ao egoísmo humano.
       Por outro lado, Paulo na carta aos Romanos estabelece um relação paradoxal, quando diz que "a lei do Espírito da vida te libertou da lei do pecado e da morte" ( Rm 8,3 ) . Acima de tudo, o interesse apaixonado de Paulo é a libertação da servidão sob o jugo da lei, mas, "ao invés, nos conduz à lei do Espírito pela qual o homem é libertado da escravidão a uma lei despersonalizada e despersonalizante . É para a liberdade que Cristo nos libertou ( Gl 5,1 ). Ainda mais, diz Paulo: "intrusos, esses falsos irmãos que se infiltraram para espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus" ( Gl 2,4 ). Para o apóstolo, esses eram homens que "honravam mais a lei escrita do que a Jesus, o Salvador. Viam Jesus meramente como um reforçador da lei, enquanto que para o apóstolo, a primeira coisa e a mais essencial era receber Jesus Cristo na fé, com gratidão, como o dom imerecido do Pai" . Sob o problemática da liberdade em Paulo, fica muito difícil precisar o que se justifica pela lei. Conclui-se que a lei só se compreende em Cristo. Ele é a Nova e Eterna Aliança. "O Antigo Testamento foi escrito num livro com aspersão de sangue ( Hb 9 ); assim, o Antigo Testamento é uma aliança na letra.
       O Novo Testamento, ao contrário, é um Aliança no Espírito Santo, pelo qual o amor é derramado nos nossos corações ( Rm 5 ). E, deste modo, o Espírito Santo, à medida que age em nós pelo amor, que é a plenitude da lei, ele é nova aliança" . Para o Santo de Aquino, a lei e os dogmas escritos em livros são apenas o aspecto secundário, que recebe força do aspecto aliança e através dela.
       "O que há de mais característico na lei da nova aliança, e que lhe dá total eficácia, é a graça do Espírito Santo, que é dada pela fé em Cristo, e assim a nova lei e fundamentalmente a graça do próprio Espírito Santo" .
       Assim, ser livre é agir segundo o Espírito Santo. Jesus se torna força viva na comunidade libertadora pelo Espírito Santo. Paulo diz que a salvação-libertação consiste na fé como adesão a Cristo e nas suas conseqüências práticas, a caridade e os frutos do Espírito.
       A liberdade cristã , por sua vez, não é libertinagem, e os frutos do Espírito se opõem às obras da carne ( Gl 5, 13-26 ). A visão cristã não é vaga; ao contrário, exige caridade prática, como refletimos antes, ( Gl 6, 1-6 ) e que se semeie a boa semente com vistas à colheita ( Gl 6, 7-10 ). Paulo, que ditara a carta, toma agora pessoalmente a pena e conclui com advertência aos judeus e protesto de que, para ele, Cristo é o centro de todas as coisas ( Gl 6, 11-18 ). Assim, o cristão livre é aquele que se deixa transformar inteiramente pelo Cristo morto e ressuscitado por ele. É a nova criatura (2cor 5, 15-17 ).
       Os textos aos Gálatas sobre a liberdade dos filhos de Deus (Gl 4,26-31) assemelham-se às declarações de Jesus, em Mateus 17, 25-26: "os filhos são livres", e João 8, 33-36: "se permaneceis na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"; e mais "quem é da verdade escuta a minha voz" ( Jo 18,37b). Portanto, é a lei do Cristo que liberta (Gl 6,2), isto é, onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade ( 2Cor 3,17). Isso quer dizer que o Espírito, a liberdade, a glória são a sustentação do elo da nossa filiação com Deus e, estes , por sua vez, são conceitos que mutuamente se implicam. Paulo não deixou de preconizar a grande liberdade do Espírito e da caridade; a caridade é liberdade e não escravidão, ela é fruto do Espírito ( Gl 5, 22ss), não submissão a uma lei; suas manifestações não se podem determinar e fixar nos artigos duma lei, pois ela é abertura pra o infinito do Amor de Deus que nos amou por primeiro. Por fim, "o Evangelho é a proclamação da liberdade e apelo à liberdade" .
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