Pe. José Vergílio da Silva, CSsR
"Sinais da Revelação de Deus"
O que é o Céu ?


       O Céu pode ser compreendido como o espaço aberto desde ontem, no hoje e para o amanhã na perspectiva da Promessa de Deus revelada à humanidade. O referencial da realidade futura se alarga na extensão do juízo de Deus e do uso exclusivo da inteligência humana em relação a um vir a ser. Falar do que não veio, mas virá é um tanto arriscado porque estaríamos nos lançando do já para o ainda não de modo não totalmente livre. O ainda não se impõe para nós dentro da categoria da fé, que por sua vez, é graça de Deus revelada. Assim, a categoria da fé, que a colocamos no horizonte do céu, rompe qualquer possibilidade de precisarmos sua realidade espacial. O que podemos dizer, em relação ao céu, é sua designação, na categoria dimensional, como o lado superior, além, no conjunto do cosmo integrado à obra da criação revelada pelo Filho Jesus. No que diz respeito ao dogma de fé, é o lugar dos redimidos. Seria, então o céu o Reino da Glória do Senhor?
       Aqui nossa compreensão de céu está já equivalente a compreensão de uma criação renovada. Por isso, muita coisa não podemos acrescentar nesta categoria. Paulo escreve aos Coríntios nesta perspectiva: "Aquilo que o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu, nem jamais penetrou no coração do homem, isso Deus preparou para aqueles que o amam"(ICor 2, 9).
       Quando falamos de céu, logo nos deparamos com a dificuldade de localizá-lo na dimensão espacial. Por que ele mesmo, o céu, não é um "ponto" do cosmo, mas sim, ele todo. Sabemos no entanto, que se trata de uma dimensão espiritual ou até mesmo, se assim compreendemos melhor, uma realidade sobrenatural ou transcendental. Isso, por sua vez, enquanto realidade visível, venha ocorrer que se postule dualidade na compreensão de céu: criação e mistério. A criação já é por si, experiência e relação numa perspectiva ecológica, no sentido de apresentar nossa grande casa. A Criação está à vista, somos nós e todo o cosmo. Quanto ao mistério, este fica na frente, iluminando, inspirando o ser e o agir do Povo de Deus. O mistério é a matéria-prima da Revelação. Somente com o agir de Deus que o mistério passa a deixar ser mistério. Neste sentido, é a experiência de amor do humano com o divino que o mistério põem-se em vias da Revelação. Será então, tanto menos mistério quanto mais experiência e relação fizer a humanidade da onipresença amorosa de Deus. No entanto, "ao som da sétima trombeta o mistério de Deus estará consumado, conforme ele anunciou aos seus servos, os profetas" (Ap 10, 7).
       Desde o início , o céu era entendido como ente, como sendo o próprio Deus. À associação da categoria do céu e Deus parece comum e necessário até mesmo para que algo desta realidade possa ser dito. Assim, podemos dizer que "o céu é simplesmente sinônimo de Deus" . Ou ainda, o céu consiste na possibilidade de 'ver a essência divina'... A Promessa de Deus é: "bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus"(Mt 5, 8).
       Quando o povo de Israel começa a experimentar catástrofes em suas vidas, surge a esperança escatológica de uma renovação da situação em que vivem a partir da confiança nas promessas divinas reveladas pela boca dos ungidos de Deus. Então surge a esperança em um Messias, que renovará toda a situação, um verdadeiro libertador. Ele cumprirá as promessas de Deus. Israel vive na e da utopia. Isso porque, a partir da idéia e da experiência da Revelação de Deus sentiram a presença do pecado exteriorizado no mundo.
       É neste contexto que o Dêutero-Isaías anuncia propriamente a vinda do Reino (Is 46,5; 65,17), usando as categorias Salvador e novos céus e nova terra. É a visão profética na qual Jesus compreendeu sua tarefa de anunciar o reino. Por isso, Jesus anuncia que aquele esperado Reino de Deus, entendido como definitivo, já está próximo, está no meio de nós. Pois, "sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente, quando o Senhor vier, atingirá a perfeição" .
       É desejo de todos, homens e mulheres atingir o estado de perfeição. Jesus mesmo fez esse pedido . Esse desejo, por sua vez, só pode ser elucidado enquanto realidade presente, nesse tempo, no aqui e agora. Pois, participar do reino perfeito, - e aqui estamos falando do céu - já é uma realidade fundamental inerente à pessoa humana na dimensão existencial e, consequentemente na dimensão soteriológica no horizonte escatológico desejado por todos.
       O céu pode ser entendido como o 'lugar ' dos crentes, dos que colocam toda a confiança em Deus, que cumpriram com fidelidade os mandamentos do amor. Assim, o céu será o lugar definitivo e gloriosos dos eleitos do Pai. Pois aí é mesmo seu lugar, sua morada. É onde Ele julga toda a humanidade. É também de onde há de vir... Isto por que a Revelação tomou este horizonte no percurso da história. Deus se revela a partir do céu. Do céu é que vem, ou melhor, rezamos que venha o Teu Reino até nós.
       Deste referencial, o céu no horizonte da criação, colocamos nosso ponto de partida para dele falar, a fim de compreendê-lo. Sendo Deus mesmo que o cria, a Ele mesmo é que pertence todas as coisas (cf. Dt 10, 14). Deste modo nossa referência se concretiza no fato céu para de Deus ouvir seus desígnios e a Ele falar. Mas Ele, não é uma distância impossível a nós. Por amor, Ele já está no meio de nós. Sendo o céu sua 'obra prima' não estaria de modo algum apartado dela e dos que o invocam pela semelhança. Está, deste modo, bem junto de nós, em nossa boca, em nosso coração, para que possamos pôr toda a sua Palavra em prática (Dt 30, 11-14).
       Por último dizemos que:
       "o céu será dinamismo no descanso, tranqüilidade na atuação, paz na turbulência da novidade, crescimento sem perder nada do passado. Ali descansaremos e veremos. Veremos e amaremos. Amaremos e louvaremos. Eis a essência do fim sem fim. Pois que fim mais nosso que chegar ao reino que não terá fim ?" .

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