Vegilio


ESTUDO DO EVANGELHO DE MATEUS

Cada evangelista se preocupou em tratar dos temas que interessavm as suas audiências e representavam as esperanças das mesmas. Determinar, portanto, a comunidade de Mt é prioridade, ainda mais no seu caso que é bastante específico se comparado com a situação dos demais sinóticos.

2.2.1 Mt e o judaismo farisaico

O evangelho de Mateus foi escrito como uma contestação ao judaismo farisaico (W. D. Davies). O que aconteceu depois dos eventos da revolta judaica anterior ao ano 70 e a consequente destruição de Jerusalém por parte dos romanos?

> O maior grupo sobrevivente ao holocausto foram os Fariseus, que antes da revolta não passavam de um dos vários partidos políticos judaicos da época; > Capitaneados pelo Rabi Johannan ben Zakkai eles se refugiaram em Jamnia (Jabne) perto da costa mediterrânea; > Aí nasceu o chamado Judaismo Rabínico; reformas como a inserção das �12 bênçãos� na Tefillah (oração sinagogal) - surgida em 85 -, assim como muitas outras, são fruto deste repensamento das instituições judaicas posterior ao ano 70. > Neste processo de renovação, os judeus se tornaram mais exigentes: quem não fosse de estrita observâncias não poderia mais fazer parte do judaismo. Este era o caso dos judeu-cristãos; pensa-se, portanto, que antes dos episódios do ano 70 os cristãos frequentavam a sinagoga normalmente; depois de Jamnia eles tiveram que se organizar de outro modo. W.D. Davies diz que o evangelho de Mateus (especialmente o sermão da montanha) foi um resposta ao movimento judaico que se formou em Jamnia pelo Rabi Johannan ben Zakkai.

Tudo isto tem fundamentação no evangelho de Mateus? Sim. Esta divisão judeus versus judeu-cristãos aparece em toda a obra de Mateus. - judeus atacam a ressurreição de Jesus: Mt 28,15; - Mt fala das �sinagogas deles�: 4,23; 9,35; 10,17; 12,9; 13,54; - os Fariseus são o grupo mais hostil ao Jesus de Mt: 5,20; 16,11-12 e especialmente 23,1-36 (note-se que estes são textos exclusivos de Mt). Mt também faz alusão clara aos interesses temáticos do grupo de Jamnia: - a queda de Jerusalém: 22,7; - a infidelidade da cidade de Jerusalém: 23,37; 16,21; 21,10.

Se as observações de W.D. Davies e de outros estudiosos a este respeito podem ser discutidas, o que é consenso hoje entre os estudiosos é o fato de que Mt escreveu seu evangelho durante o período crítico posterior à queda de Jerusalém e contemporâneo à formação do rabinismo judaico.

2.2.2 Mt e o judaismo farisaico

Tradicionalmente se afirmou que Mt foi um judeu-cristão; vozes discordantes com esta linha o identificavam como um convertido, escriba do partido dos fariseus. Atualmente existe uma outra corrente que vê raízes judeu-cristãs na comunidade à qual Mt pertencia; mas Mt mesmo era um de origem pagã. Isto porque se nota no seu evangelho alguns erros só explicáveis em quem não conhecia bem o ambiente judaico: * Mt mistura indevidamente os fariseus e os saduceus; em 16.6.12 ele coloca num mesmo patamar os dois patidos como se a �doutrina�deles fosse a mesma; e não era; Mc 8,15, ao falar da mesma coisa, se refere ao fermento �dos fariseus e de Herodes�; * Mt 21,7 (contra Mc 11,1-10) diz que Jesus montou sobre um jumento... e uma jumenta! Ao que parece Mt, por não conhecer bem o hebraico, não entendeu que em Zc 9,9 não se fala de dois animais, mas de um; e resolveu aplicar literalmente o texto do AT. A maioria dos estudiosos, atualmente, ainda pensa em Mt como um judeu-cristão.

2.2.3 Onde? Quando? Quem?

A tradição afirma que o evangelho de Mateus foi escrito na Palestina, é o mais antigo dos evangelhos e o autor é o apóstolo Mateus. Atualmente as posições sobre estes pontos são outras.

Onde? O evangelho foi escrito fora da Palestina. O lugar mais indicado é Antioquia da Síria, onde havia uma população de judeus e de gentios, os quais falavam grego; tratava-se de uma comunidade próspera e urbana. >> Quanto à língua grega, note-se que Mt tem um estilo e uma literatura de boa qualidade, bem melhor que o grego de Marcos; não pode ser tradução do hebraico ou do aramaico como já se disse. Por outro lado o tom judaico de suas afirmações sugere que sua comunidade era composta de judeus que falavam grego. >> Comunidade próspera: * Ao invés de �pobres� (Lc 6,20) Mt fala em �pobres em espírito�: 5,3; * Ao dinheiro em Mc (6,8), Mt acrescenta ouro, prata... (10,9); * As �minas� (Lc 19,11-27) se tornam �talentos� em Mt (25,14-30), os quais são 20 vezes mais valorizados que as minas; * José de Arimatéia, que é um �membro do Sinédrio� para Mc (15,43) e para Lc (23,50-51), torna-se um �homem rico, discípulo de Jesus� em Mt (25,57); Mateus, de resto, fala mais vezes em ouro e prata do que Mc e Lc juntos. >> Que se tratava de uma comunidade urbana, nota-se que Mt fala em 26 vezes em �cidade� e somente 4 vezes em �vila� (Mc: 8 vezes em �cidade� e 7 vezes em �vila�).

Quando?

Lá pelos anos 85 a 90, uns 20 anos após a destruição de Jerusalém, à qual Mt alude claramente em 22,7.

Quem?

Não foi Mateus: * O evangelho de Mt depende muito de Mc e, portanto, não testemunho tudo pessoalmente; * A teologia e a perspectiva de Mt é a da �segunda geração� cristã; * Se o evangelho foi escrito entre 85 e 90, o apóstolo Mateus já devia ter falecido.

Em síntese, que diremos do evangelho de Mateus? Sua comunidade sugere uma igreja em transição: de uma igreja predominantemente judeu-cristã para uma igreja gentia; de uma igreja com raízes na Palestina para uma igreja conm raízes no Império Romano. >>> Em Mt encontramos uma igreja em busca de uma identidade e de uma continuidade sem rupturas: eis o objetivo do seu evangelho.

2.2.4 A estrutura temática do evangelho de Mt

Os discursos Cinco vezes a mesma frase se repete em Mateus: 7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1. As cinco frases são uma evidente conclusão de cinco discursos de grande respiro colocados por Mateus dentro do esquema do seu evangelho: cc. 5-7, c. 10, c. 13, c. 18 e cc. 24-25.

As narrações

Em Mateus encontramos composições bem organizadas entre um grande discurso e outro. Exemplo: os anúncios do destino do Filho do Homem são seguidos por um fato e por um ensinamento aos discípulos: 16,21-28; 17,22-18,4; 20,17-28. Enquanto os discursos são tomados por Mt de uma fonte e posteriormente desenvolvidos e aumentados, com as narrações notamos o contrário: Mt abrevia o que encontra em Mc: * palavras a menos em Mt (ex.: no episódio da cura do paralítico temos 212 palavras em Lc, 196 em Mc e somente 126 em Mt); * em Mt não encontramos nomes próprios nem notas de coloração dos episódios (o travesseiro sobrer o qual Jesus dormia na barca, o dinheiro gasto em vão pela hemorroíssa, a cor verde da grama na multiplicação dos pães); * Mt não explica o que os outros evangelistas explicam (�vendo a fé deles...� Mc 9,2); * o estilo de Mt é pouco �visual� e mais narrativo: tempo passado (aoristo) em vez do presente histórico de Mc.

Além disto, o estilo de Mt é solene, quase diríamos litúrgico: veja-se a cura da sogra de Pedro (Mt 8,14-15; Mc 1,29-31; Lc 4,38-39); a narração de Mt é eclesiástica: Jesus sozinho, pega na mão da sogra de Pedro, a febre se vai e ela se põe a servir somente a ele. A narração de Mt é breve, eliminando todos os elementos anedóticos e acessórios para dar ao texto um tom solene. Mt é mais explícito, mais refinado: comparar Mt 21,24 e Mc 11,29 (melhor comparar o texto grego). É bom lembrar, a propósito, o que diz Lagrange: �Mt é tão superior a Mc pela lucidez da composição quanto é inferior a ele com relação à vida�.

Quiasmo

Mt organiza melhor os textos do que qualquer outro evangelista; Mt 8-9, a coleção de milagres, ou Mt 23-25, sobre o juízo final, mostram-no claramente. Mas quem quer ver em Mt uma estrutura literariamente mais complicada ainda: o quiasmo, uma figura de estilo que, cruzando os membros de uma frase, visa realçar um paralelismo. Veja-se Mt 13,53-58:

A (53b) partiu dali B (54a) dirigindo-se para sua pátria C (54b) de onde lhe vem esta sabedoria...? D (55-56a) Não é ele o filho do carpinteiro/mãe/irmãos/irmãs C� (56b-57a) De onde então lhe vêm todas estas coisas...? B� (57b) exceto em sua pátria A� (58) e não fez ali. Faz-se necessário olhar para sistemas deste tipo com muito cuidado; muitas vezes eles representam uma camisa de força colocada sobre o texto obrigando-o a dizer o que na realidade não diz. Para além de aceitarmos ou não a perspectiva reclamada por F. Ellis, resta o fato certamente evidente que o evangelista Mt montou uma obra com critérios literários tão lúcidos que se presta para análises deste tipo.

Hosted by www.Geocities.ws

1