OS EVANGELHOS SINÓTICOS
1 ESTUDO DO EVANGELHO DE MARCOS 2.1.1 O estilo literário do evangelista Marcos
Evangelho curto, mas... muito lindo, muito estudado. Por quê?
Dois modos para se afrontar o estudo de Mc: (a) leitura atenta aos aspectos gramaticais; (b) deixar-se guiar pelo narrador Marcos. O ponto (a) significa acolher a originalidade de Mc mas ficar nisto seria não entender a sua mensagem. É necessário aceitar o vocabulário pouco refinado e pouco variado, as repetições que um estilista eliminaria, para assistir a uma representação real de Jesus através dos particulares e das anotações do Autor.
Vocabulário pobre
* São 1.300 vocábulos, 11.000 palavras; 60 nomes próprios, 80 hapax (palavras que só aparecem uma vez em toda a Bíblia). * Só uma palavra para sublinhar o �olhar circular� de Jesus, seja quando ele está calmo como quando ele está brabo: peribleyaw (3,5.34; 5,32; 10,23; 11,11): só o contexto pode esclarecer. Mas em dois casos a perspectiva muda: 10,21.27. O mesmo com proskalew: Pilatos chama o centurião: 15,44 Jesus chama os discípulos: 3,13; 6,7; 8,1 Jesus chama, para explicar o ensinamento: 3,23 chama a multidão, os discípulos: 8,34; 10,42, 12,43.
Realismo na narração
Marcos... viu bem! * Usa palavras da �gíria� da época, que Lucas evita: a palavra usada para descrever a cama (2,11), o bairro (1,38); * Mas tem variedade de termos: 11 palavras para indicar casa e as suas partes 10 palavras para as roupas 9 palavras para os alimentos * E os diminutivos? São característicos de Marcos: 5,41 (comparar com Mt 9,24); 14,47: a ponta da orelha 3,9: a pequena barca * Aramaismos (expressões e modo de falar da palestina, do judaismo): 3,17; 5,41; 7,11; 7,34; 10,46; 14,36; 15,34. Marcos transcreve em grego palavras latinas: 12,42; 15,16 (seus leitores eram latinos e não conheciam bem o grego?)
Marcos, porém, é um bom narrador: Lendo-o tem-se a impressão de estar acompanhando um bom contador de histórias. Eis porque: * a mesma frase em pessoas diferentes para sublinhar uma idéia: �perdão dos pecados� em 2,5.7.9.10. É arte narratória deixar o ouvinte/leitor lembrar o que já foi dito; * negações reforçadas (em Lc isto ocorre 8x, em Mt 3x): 1,44; 2,2; 3,20.27; 5,3.37; 6,5; 7,12; 9,8; 11,14; 12,14.34; 14,25.60.61; 15,4.5; 16,8.
Vivacidade da narração
* Marcos não usa o Aoristo (tempo passado, para uso clássico em narração) mas o tempo presente. São 150 casos no evangelho! * Mistura os tempos: 6,7-9 (�E chama, e começou, e dava, e ordenou e: não levem duas túnicas�!) Gramaticalmente... péssimo; mas não parece que Jesus está falando, agindo, naturalmente? * Plural impessoal: trata-se de uma 3ª p. do plural (eles) que se pode, em grego, entender como se fosse a 1ª p. do plural (nós): 1,21 (Entrou-se em Cafarnaum); veja também 1,29s; 5,1s.38; 6,53s; 8,22; 0,14s; 10,32-46; 11,1.12.15.19-21.27; 14,18.22.26s.32. Note-se que depois do verbo inicial na 3ª p. do plural o verbo seguinte encontra-se na 1ª p. do singular (o que significa que não se quer enfatizar o plural no primeiro caso).
Narração... ingênua!
Marcos não desenvolve suas narrações como um narrador sistemático, que é dono de um estilo ou mesmo dono da situação; ele vai contando assim, sem muito método e acrescentando detalhes quando deles se lembra. * São muitas e de vários tipos as precisações: - afirmação vaga: 1,28 - sua fama... em toda parte, isto é... 1,32 - noite, depois do por do sol... - lugar: 1,38.45; - tempo: 1,35; 16,2; - os últimos tempos: 2,20; 10,30; 13,29; - de uma idéia ou pensamento: 1,42. * Particulares de Marcos: - 5,42: a idade da filha de Jairo no fim da história; - 5,6.15; 10,17: correr, ajoelhar-se, gestos vistos só por Marcos; - 12,41 comparado a Lc 21,1. �Estes são dados que não acrescentam valor moral à história mas que são lembranças que ficaram na memória� (Lagrange). Em síntese, Marcos não é um narrador com estilo; parece ingênuo. Mas é fiel; junto com detalhes de particular lembrança ele tem também esquemas fixos, recebidos de alguém. Por isto, Marcos tem dupla origem: + testemunhas: viu ou alguém lhe contou com precisão; + comunidade: teve acesso a documentos conhecidos por outros e os seguiu (note-se os casos nos quais sua narração concorda com Mt ou com Lc). 2.1.2 A Cristologia em Marcos
Mais do que os outros evangelistas Mc dá a entender que não se pode crer, compreender o mistério da identidade de Jesus fora da sua crucifixão e morte na cruz. Mas ele não apresenta de modo sistemático a figura de Jesus como a vemos nos manuais de teologia. Temos dois modos para analisar a cristologia de Marcos: (a) títulos com os quais ele identifica Jesus em sua obra; (b) narração cristológica: Jesus como a figura central da narração de Marcos.
(a) Títulos de Jesus no evangelho de Mc: Cristo/Messias: 1,1; 8,29; 14,61; 15,32. Filho de Deus: 1,1.11; 3,11; 5,7; 9,7; 14,61; 15,39. Filho do Homem: 2,10.28; 8,31.38; 9,9.12.31; 10,33.34.45; 13,26.27; 14,21.41.62. Rabbi: 9,5; 10,51; 11,21; 14,45. Mestre: 4,38; 5,35; 9,17.38; 10,17.20.35; 12,14.19.32; 13,1; 14,14. Rei: 15.2.9.12.18.26.32. Santo de Deus: 1,24. Noivo: 2,19. Profeta: 6,4.15; 8,28. Filho de Deus: 10,47-48. Aquele que vem: 11,9. Pastor: 14,27. O mais forte: 1,7.
(b) Mas há quem ache que estudar a Cristologia em Marcos é mais do que estudar os títulos. Trata-se de analisar a arte narrativa: Jesus é a figura central do evangelho de Mc. Mc quer apresentá-lo aos leitores e o faz mediante uma história. É uma narração cristológica! A este propósito a discussão foi levantada ainda no início deste século por Wilhelm Wrede (The Messianic Secret, livro escrito em l901 e traduzido para o inglês em 1971). Wrede fala que o Evangelho de Mc é uma afirmação teológica sobre a vida de Jesus mais do que uma descrição objetiva de sua vida. Para suportar sua tese ele fala do Segredo Messiânico. Consiste na ordem de silenciar os demônios: 1,25.34; 3,12; as pessoas que ele cura: 1,43-45; 5,43; 7,36; 8,26; os discípulos: 8,30; 9,9; >>> a estes ele ordena de não falar da sua autoridade messiânica.
Além disto, Marcos * sublinha o fato de que o Reino de Deus só é dado a conhecer aos íntimos (4,10-13) * e várias situações nas quais os discípulos não entendem: 4,13.40,41; 6,50-52; 7,18; 8,16-21; 9,5-6.19; 10,24; 14,37-41) Os discípulos, não obstante as preleções públicas ou particulares, continuam ignorantes! Para Wrede, o �Segredo Messiânico� não deriva do Jesus histórico mas da Igreja primitiva e foi desenvolvido por Mc porque Jesus não foi reconhecido como Messias durante a sua vida. Ele diz que o �Segredo Messiânico� foi um conceito de transição que surgiu depois da ressurreição de Jesus, quando a Igreja se deu conta de que ele era o Messias. Reconhecendo isto, a Igreja concluiu que deve ter havido evidências disto durante a vida de Jesus; como não se lembravam de nada, concluiram que Jesus manteve sua messianidade em segredo até sua ressurreição. O problema que esta tese (seja ela boa ou má, isto se torna secundário do ponto de vista da história da interpretação) levantou é o seguinte: em Mc as pessoas não se dão conta facilmente da identidade de Jesus; só os demônios, seres sobrenaturais o conseguem. >>> Foi invenção de Mc? Foi herança que ele recebeu de sua comunidade? É a chave do seu evangelho?
É necessário ter presente que Jesus ordena aos seus de silenciar na primeira parte do Evangelho de Marcos; trata-se de uma perspectiva puramente de Marcos pois os dados não tem paralelos em Mt (Mt 9,30 é próprio) ou em Lc. Além disto se deve notar que a obrigação de manter silêncio não é mantida. Na segunda parte do Evangelho de Marcos, desde a profissão de fé de Pedro (8,29), Jesus deixa transparecer o mistério de sua pessoa. Primeiro limita o silêncio ao período anterior à pasqua (Mc 9,9); depois permite que o aclamem Filho de Davi (10,47-52; 11,9) e fala abertamente do Messias (9,41; 12,35-37; 13,21; 14,61-62; 15,2.9.32). A maior parte destes textos são exclusivos de Marcos e caracterizam sua perspectiva. Foi por não ver esta insistência na segunda parte do evangelho que Wrede falou que o �Segredo Messiânico� foi invenção da Igreja primitiva. Na realidade o Evangelho de Marcos, redigido numa perspectiva pascal, quer levar o leitor à fé na ressurreição; neste sentido coloca o leitor num contexto anterior à fé pascal para conduzí-lo até à fé no Filho de Deus. Desde o momento em que um grupo de discípulos reconheceu nele o Cristo, Jesus se pôs a revelar o caminho do Filho do Homem que deve chegar à glória através da cruz (8,31; 9,12.31; 10,33.45). Podemos dizer, então, que a boa nova de Marcos é a revelação progressiva do mistério de Jesus.
1.3 Autor, destinatários, data
O Autor do Evangelho de Marcos
A tradição o atribui a Marcos.
Testemunhos fora do NT A este propósito temos o testemunho de Pápias, bispo de Hierápolis, na Frígia (atual Turquia). Irineu (nascido em 115) diz que Pápias é um �homem antigo�, �companheiro de Policarpo�. Em outra ocasião na qual Irineu usa o termo �homem antigo� ele se refere a uma pessoa de 40 a 45 anos; quanto a Policarpo, ele foi bispo lá pelo ano 100 d.C. Podemos concluir, portanto, que Pápias nasceu pelos anos 70 d.C. e escreveu o texto que nos interessa pelo ano 100 d.C. Eis o que Pápias dizia: �E eis o que dizia o Presbítero: Marcos, que se tornara o intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, embora desordenadamente, tudo quanto recordava do que fora dito ou feito pelo Senhor Jesus; mais tarde, porém, como já disse, ele acompanhou Pedro. Este ministrava seus ensinamentos conforme as necessidades, mas sem fazer uma síntese das palavras do Senhor. Assim sendo, Marcos não cometeu erro algum ao escrever de acordo com suas lembranças. Só teve realmente um desígnio: o de nada omitir do que ouvira e não se enganar em ponto algum do que contava.� (J. Auneau em Vv.Aa., Evangelhos Sinóticos, 116) Três afirmações importantes podemos colher deste testemunho. - Marcos foi �intérprete de Pedro�, diz o Presbítero. Pápias acrescenta que ele segui Pedro e decorou seus ensinamentos. - Marcos foi �fiel ao escrever�, diz o Presbítero. Pápias acrescenta que a fidelidade era a preocupação tanto de Pedro como de Marcos. - Marcos, diz ainda o Presbítero, �não escreveu em ordem os acontecimentos�; Pápias acrescenta que isto era caracaterístico de Pedro também, não só de Marcos.
Testemunho sobre �Marcos� no NT 1Pd 5,13: Marcos, �meu filho�. At 12,12 Marcos com Paulo: At 12,15; 13,5 At 13,13: Marcos vai embora. At 15,37-39: Paulo se separa de Barnabé por causa de Marcos. Pode-se conjeturar que Marcos teve, inicialmente, um contato com Pedro, posteriormente esteve com Paulo e enfim com Pedro outra vez? Pode ser!
Destinatários de Marcos
Aos cristãos de origem judaica que não viviam na Palestina. De fato, em Marcos não se fala do relacionamento lei-Aliança (cf. Mt 5,17-19); temos pouco material sobre os ataques de Jesus contra os escribas (cf. Mc 12,38-40). Temos, ao invés, explicações sobre os costumes judaicos, que só têm sentido se forem dadas a quem não os conhecia: Mc 7,3s; 14,12; 15,42; encontramos precisações geográficas, que servem a quem não conhece a Palestina: 1,5; 5,1; 11,1; temos os latinismos: 12,42; 15,16 (poderia afirmar-se que Marcos compôs o seu evangelho em Roma?)
Data do Evangelho de Marcos
Ele foi escrito antes do ano 70 d.C.: não se fala da destruição de Jerusalém nem em 13,10 nem em outros pontos do evangelho. A opinião mais aceita é a de que Mc foi escrito entre 65 e 70.