2.3.1 Plano do terceiro evangelho Lucas segue a sequência de Marcos, acrescentando textos que os estudiosos denominaram de �pequena interpolação� (6,20-8,3) e �grande interpolação� (9,51-18,14). Lucas Marcos
Prólogo 1,1-2,52 -
A. Na Galiléia 3,1-9,50: * 3,1-6,19 1,1-3,9 (mais 3,20-35) * 6,20-8,3 * 8,4-9,50 4,1-9,50 (menos 6,45-8,26)
B. Em direção a Jerusalém 9,51-19,27: * 9,51-18,14 * 18,15-19,27 10,13-10,52
C. Em Jerusalém 19,28-24,53 11,1-16,8(20) Na assim chamada �grande interpolação�, por três vezes Lc diz que Jesus está a caminho de Jerusalém: 9,51-53; 13,22; 17,11. Mas com toda certeza pode-se afirmar que a sua preocupação não é meramente geográfica; ele omite dados geográficos que não são fornecidos por Marcos: Cafarnaum: cfr. Lc 5,17 e Mc 2,1; Lc 9,46 e Mc 9,33; Mar da Galiléia: cfr. Lc 5,27 e Mc 2,13; Lc 6,17 e Mc 3,7; Lc 8,4 e Mc 4,1; Galiléia: Lc 9,43b e Mc 9,30; Decápole: Lc 8,39 e Mc 5,20. Lucas não costuma definir o local onde acontecem os fatos que narra, preocupação presente em Marcos: Cesaréia de Filipe: Mc 8,27 e Lc 9,22 Ao retomar o seu caminho: Mc 10,17 e Lc 18,18 No templo: Mc 12,35 e Lc 20,41 Diante do tesouro do templo: Mc 12,41 e Lc 21,1 Sentado no Monte das Oliveiras: Mc 13,3 e Lc 21,5-7 No Getsêmani: Mc 14,32 e Lc 22,40. Lucas concentra sua narração sobre um lugar em especial: Jerusalém. O itinerário de Jesus foi modificado e simplificado: a viagem à periferia da Galiléia (Mc 6,45-8,26) foi omitida; os nomes de Cesaréia de Filipe (Mc 8,27), da Galiléia (Mc 9,30) foram omitidos; o encontro na Galiléia estabelecido por Jesus (Mc 14,28) e lembrado pelo anjo (Mc 16,7) foi transformado em Lc 24,6s: �Lembrai-vos do que vos disse na Galiléia...�. Mas em Jerusalém começa (1,5) e termina (24,52s) o evangelho de Lc. Longe de tratar-se de uma preocupação geográfica o que vemos em Lc é um escopo preciso. A parte central do evangelho nada mais é que uma �subida a Jerusalém�: Lc 9,51-19,27. O evangelho de Lc (como o de Mc e o de Mt) não é uma biografia no sentido moderno do termo. Por ter distribuído bem a matéria de que dispunha ele é sem dúvida um �histórico�, mas é sobretudo um �servo da palavra�, um evangelista. A sua arte foi a de orquestrar dados tradicionais, dando-lhes relevo, sem desviar-se da perspectiva comum.
2.3.2 O evangelho da salvação
Em Lc são vários os temas fortes: misericórdia de Deus, Maria, ricos e pobres... Mas um tema em especial recebe seu brilho na obra de Lucas: a salvação. No terceiro evangelho encontramos uma concepção nova de salvação (soteriologia), no fundo da qual temos a figura de Jesus (Cristologia) e a realidade da Igreja (eclesiologia). O verbo �salvar� (sozw) é uma predileção lucana. O termo �salvador� (sothr), ausente nos sinóticos e presente em Jo 4,42, é aplicado por Luca a Deus (1,47) e a Cristo (2,11). �Salvação� (sotheria) ocorre em 1,69.71.77; 2,30; 3,6; 19,9.
Atraso da parusia e salvação no tempo
Lc se opõe à pressa escatológica presente nas primeiras comunidades cristãs como podemos perceber nas cartas de Paulo. Ele respinge afirmações audaciosas (21,8; cf. também todo o cap. 21). Trechos apocalípticos tradicionais são por Lucas historicizados: em Lc 21,20-24 vemos como o �abomínio da desolação� presente em Mc 13,14 e em Mt 24,15 se transforma em exército. Com a tradição sinótica ele afirma que �o Senhor tarda a vir� (Lc 12,45=Mt 24,48); mas afasta-se dos sinóticos quando insiste sobre o fato de que a salvação já é presente. Vemos esta idéia da salvação presente em Lc nos seguintes passos: - 11,20 (Mt 12,28) com a tradição dos exorcismos; - 16,16 (Mt 11,12) indicando as portas abertas do Reino; - 17,21: somente Lc (�o Reino está entre vós�). Também com o uso lucano da palavra �hoje�: - o hoje do perdão de Deus: 19,9 - o hoje da salvação acontecendo: 5,26 - nas promessas messiânicas se realizando hoje: 4,21 - no hoje divino anunciado pelos anjos: 2,11 - na promessa de Jesus ao bom ladrão: 23,43.
Sinais da salvação �hoje�
O primeiro sinal claro da atualidade da salvação no evangelho de Lc é o Espírito Santo, o qual atua em Jesus (4,18), se exprime em Jesus (10,21) e é um dom do Pai (11,13; confrontar com Mt 7,11). Outro sinal é o clima de liturgia que perpassa o evangelho de Lc como fruto de uma atmosfera de salvação escatologica já presente: - o evangelho todo parece um grande hino: do início (cc. 1 e 2) ao fim (24,52), passando pelas liturgias pós-milagres (5,26; 7,16; 13,17; 17,15.18): povo e pessoas curadas se unem em oração litúrgica. - a oração de Jesus, frequentemente surpreso com o Pai: 3,21; 6,12; 9,18; 9,28-29; 10,21; 11,1); também o discípulo vai encontrar na oração a sua força: 18,1. Esta insistência sobre a salvação não parece ser criada artificialmente por Lucas mas é o fruto de um desenvolvimento eclesial, de uma mentalidade nova que as comunidades dos tempos de Lucas estão experienciando: a presença do Espírito testemunhada nas cartas de Paulo e nos Atos dos Apóstolos, o difundir-se da boa nova, os martírios (cf. a apresentação do martírio de Estêvão como uma apoteose escatológica em At 7), tudo isto produziu uma visão nova da economia salvadora de Deus.
2.3.3 A delicadeza de Lc
Um aspecto certamente marcante no terceiro evangelista é o modo singular com o qual ele afronta algumas situações comuns aos outros evangelistas. Nota-se em Lc uma delicadeza que nele parece ser reflexo da bondade de Jesus e também uma clara preocupação pedagógica; esta nota caracteriza um estilo inconfundível.
*** Os sentimentos fortes de Jesus que encontramos em Mc são redimensionados por Lc: Jesus não se encoleriza: Mc 1,41.43 = Lc 5,13 Mc 3,5 = Lc 6,10 Não é tomado de compaixão: Mc 6,34 = Lc 9,11 Não é violento com Pedro: Mc 8,33 Não expulsa os vendedores do Templo: Mc 11,15-17 = Lc 19,45s Não acaricia os meninos: Mc 9,36 = Lc 9,47s Mc 10,16 Não se comove humanamente: Mc 10,21 = Lc 18,22 Não se indigna: Mc 10,14 Não se abate com medo: Mc 14,33s = Lc 22,40.
*** Os apóstolos são poupados: Mc 4,13 = Lc 8,11 Mc 4,38.40 = Lc 8,24s Mc 14,26-31 = Lc 22,31-34.
*** Cenas violentas são adocicadas ou ignoradas: as frases muito duras: Mc 4,12; 9,43-48; 14,21 o assassinato de João: Mc 6,17-29 o beijo de Judas: Mc 14,45 = Lc 22,48 as cenas dos tapas (Mc 14,65; mas cfr. Lc 23,11), da flagelação, da coroação de espinhos. *** Interessante observar as omissões: Mc 4,12 e Lc 8,12c: Lc não cita parte de Isaías; Mt 12,48: falta em Lc a vivacidade da pergunta: �quem é minha mãe?� Lc 4,35: o demônio sai sem fazer mal algum; 7,4s: a bondade do centurião dá força à narração.