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Comentário sobre a BIBLIOGRAFIA

Para o estudo do Evangelho dois livros constituirão o livro texto. Sobre eles estudaremos e sobre eles faremos as avaliações: A obra mais adequada entre nós para iniciara o estudo de Jo é: TUÑI VANCELLS, J. O., O testemunho do Evangelho de João, Petrópolis, Vozes, 1989. Obra aconselhada para estudantes sem restrições. Seu estilo é, ao mesmo tempo, simples e denso. Para a autoria e ambiente de João temos a obra traduzida para o português desde 1983 de: BROWN, R., A comunidade do discípulo amado, S. Paulo, Paulinas, 1983. que juntamente com o último número da revista de Estudos Bíblicos (n. 33) e da Ribla (n. 17) constituem quatro obras indispensáveis para quem quer aprofundar seus conhecimentos nos escritos joaninos. O Estudos Bíblicos acima citado apresenta uma recensão completa sobre Jo de Johan Konings, Literatura sobre o Evangelho de João em edição brasileira, que introduz as questões mais importantes da tradição joanina. Vale a pena ler. O livro de Brown nos ajudará a percorrer a história da comunidade no séc. I, num estudo profundo da eclesiologia e dos outros temas específicos do quarto evangelho. É desnecessário dizer que os Comentários serão de uso obrigatório para a analise e exegese dos textos. Há vários em português. Este tipo de literatura deve merecer nossa atenção e investimento ($) porque são obras que nos serão úteis toda a vida. Não é difícil imaginar o por quê. I.NOTAS PRELIMINARES a. O estudo da bíblia deve alargar nossa experiência espiritual: Bíblia e experiência são o binômio significativo. Sugerem dois planos: o objetivo e o subjetivo b. É necessário combinar o sentido objetivo da escritura, com o modo próprio de entendê-la na atualidade. NENHUM MÉTODO SUBSTITUI A LEITURA DO TEXTO BÍBLICO c. Os estudos bíblicos, particularmente nos últimos 100 anos (ou 50), aprofundaram a compreensão da bíblia e da tradição que procede dela dentro e fora da Igreja Católica. Os especialistas estudaram a bíblia em seu contexto original à luz do conhecimento mais amplo e profundo adquirido graças a investigação histórica. Hoje podemos saber mais precisamente o que significa ser cristão. A Igreja declarou formalmente que busca o apoio dos exegetas para amadurecer o juízo da Igreja" (DV 12). d. A investigação não é um ornamento supérfluo, mas um instrumento outorgado por Deus para ajudar a "Igreja peregrina" a formar uma idéia mais clara da sua função nos planos salvíficos de Deus.e. A Igreja peregrinante evoca o conceito de História Sagrada e vice/versa (Cf. "Índole escatológica da Ig. Peregrinante",cap VII da LG). Convite para a Igreja ter uma consciência mais explícita do que seja ela mesma em relação ao seu fundador e o seu passado. f. Em concreto, a forma suprema da vida cristã é o EVANGELHO (PC n.2): "Sendo a última norma da vida religiosa o seguimento de Cristo, segundo o EVANGELHO, este há de ser a Regra suprema para todos..." II. OBSERVAÇÕES:

1. A dimensão pessoal da meditação das escrituras. O fator pessoal (atualidade também) ocupa um lugar central para averiguar o sentido da Bíblia em geral e dos Evangelhos em particular.

2. O leitor deve aproximar-se da Escritura com a visão própria do seu tempo. A visão diferente de hoje não deve ser abandonada. Pois a Bíblia é um veículo para a comunicação da verdade religiosa e não da científica (DV 11). Deve-se buscar na B. um marco existencial para a visão científica do mundo de hoje.

3. A investigação bíblica moderna demonstrou com claridade crescente que cada um dos Evangelhos tem seu enfoque teológico específico. Os evangelistas, sob inspiração, se apoiam na tradição da pregação apostólica que está baseada por sua vez nos ditos e feitos de Jesus.

4. O mundo (de modo especial os M.C.S.) reclama hoje, cada vez mais o testemunho e a presença cristã. O estudo e a meditação dos Evangelhos deveriam ser um estímulo e guia maravilhoso para tal presença.

5. O mundo contemporâneo vive o início de uma profunda transformação na forma de possuir e transmitir os valores que governam a vida humana. As normas morais e sua transmissão estão profundamente arraigadas na Bíblia. FÉ E JUSTIÇA, Opção pelos pobres, como normas da vida cristã devem estabelecer uma conexão explícita com a Bíblia, última norma escrita, divinamente inspirada, para a vida humana.

6. "Sentir com a Igreja". Atenção especial aos chamamentos de renovação feitos pelo Vat.II. Dado a ênfase bíblica tão proeminente no Concílio, devemos estar conscientes da necessidade de ver na Bíblia um constante desafio à Igreja para que veja o que é e o que deve ser. "A Igreja sente hoje cada vez mais a necessidade de recorrer a Sagrada Escritura para ler nela o que a Igreja é e o que deve ser. (João Paulo II, Alocução do dia 17/5-1984, aos professores, funcionáreis e estudantes do P.I.B. - L'Osservatore Romano, 18/5-1984, pg. 6).

7. A Boa Nova é para ser comunicada e não só explicada. Resgatar o conceito bíblico de Comunhão= koinonia.

8. Quem acompanha a investigação bíblica moderna, métodos arqueológicos, teorias sobre a relação do texto com a história, etc.,pode cair na tentação ou criar uma atitude de superioridade inconsciente com relação ao texto como se este fosse o instrumento para o ensaio destas técnicas. Dada a hegemonia da ciência positiva, "falsamente neutra"(livre de valores) sobre a inteligência humana, (os exegetas não podem ignorar isto), é necessário que todo o que estuda a Bíblia procure fazer seu os valores fundados no valor supremo e a vida deve estar em consonância com este trabalho.

9. Traduzir o Evangelho para os dia de hoje (hermenêutica). O jogo dos contextos culturais, iluminado pela investigação histórica e pelo maior conhecimento das diferenças culturais deve estar presente no estudo exegético.

10. Não basta o significado textual. Devemos ter sempre presente a atualidade do sentido original em toda a exegese do texto. Relação da exegese com a vida do Povo de Deus. É preciso estar alerta a estas possibilidades. (Veja: "A exegese científica é necessária?" Alonso Schökel, Concilium, 1971. A exegese deve estender uma ponte para a pastoral, que na realidade só ela pode construir. O estudo da Bíblia nao é nada se não diz algo para o mundo de hoje.


Questões importantes para o estudo:

1. Que relações o Quarto Evangelho (QE) mantém com os sinóticos?

2. Como se deu o processo de composição do QE?

3. Em que ambiente cultural surgiu?

4. Pode-se afirmar que o QE é histórico? Em que sentido?

5. Que elementos nos permitem identificar o seu autor?

6. Qual sua finalidade? Teologia?

7. O QE reflete a situação da comunidade ou do Jesus Histórico?

8. Qual é a estrutura mais adequada para sua compreensão?

9. Como era a comunidade joanina?

10. Quais são os grupos sociológicos que aparecem no texto do QE?

11. Como se caracteriza o gnosticismo pagão?

12. O que é o sincretismo helenista?

13. O que é o judaísmo heterodoxo?

14. O que é o gnosticismo pré-cristão?

15. O que significa "alta" e "baixa" cristologias?

"Jesus operou ante os olhos de seus discípulos muitos outros sinais que não estão consignados neste livro. Estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais a vida em seu nome" (Jo 20, 30-31). O Evangelho de João

PREFÁCIO

O Evangelho joanino é o evangelho espiritual por excelência. Por isto não é fácil. É alimento sólido, não para lactantes. O resultado dos estudos dos últimos anos não consegue ainda eliminar o caráter passageiro parcial próprio de todos os estudos bíblicos. Apresentam, no entanto, precisões técnicas, esquemas e analises que facilitam a compreensão de temas e desenvolvimentos teológicos próprios deste evangelho. Naturalmente serão escassas, quase sempre as atualizações. Isto pode ser bastante desagradável, mas como os estudos bíblicos são feitos em situações precisas e contingentes, estas não podem ser irradiadas para destinatários diferentes de tempos diferentes como acontece com um estudo que recebe a forma escrita. O desafio da atualização será sempre deixado para os leitores e estudos finais. O evangelho de João utiliza o grego, mas expressa uma visão hebraica: isto nos obriga a fazer constantes referências ao A.T. e à literatura rabínica. As ligações não são fáceis de serem demonstradas com relação a cultura extra-judaica, helênica ou gnóstica. Ao contrário são até freqüentemente contestadas por muitos exegetas. O estudo não pode prescindir da leitura reiterada dos textos bíblicos. Somente depois o estudo pode ter sentido e pode controlar as conclusões e informações recebidas. Os estudos poderão ajudar na mais profunda compreensão na fé das mensagens do quarto evangelho, não desacreditando, porém, firmemente que a Palavra tem por si mesma uma eficácia própria, por si mesma fala a quem a escuta, mesmo na simplicidade, com abertura de coração. O estudo do evangelho de João certamente será um estímulo para a compreensão e vivência do atual desafio cristão.

Introdução O quarto evangelho foi denominado já por Clemente de Alexandria (cf. Eusebio, História Eclesiástica VII, 14,7), evangelho espiritual, pneumatikón. Porque ele é diferente dos outros três sinóticos: mais teológico, mais profundo, e também mais difícil. Devemos precisar logo que o atributo pneumatikón não deve ser entendido no sentido, hoje comum, de "despotenciado", abstrato, distante do real; na verdade ele significa "animado pelo Espírito Santo" e tal é toda a Escritura e de modo particular o é o evangelho de João que sabe conduzir um olhar profundo sobre o mistério de Cristo. Este evangelho está, mais do que os outros, encarnado na história do seu tempo e do seu ambiente: registra polêmicas, tensões, rupturas e apresenta uma mensagem quanto mais eversiva. A sua teologia narrativa fala de oprimidos, não de vencedores, é crítica com a sociedade contemporânea, é memória perigosa que não dá tréguas aos poderosos, não aceita a opressão, e contém uma proposta de libertação total para o homem. João, narra recordando, a sua história torna-se narração de histórias de libertação e torna-se prática da ação libertadora em todos os níveis. Não podemos nos aproximar de João com preconceitos, pensando ser um evangelho evasivo com relação ao mundo: se há um evangelho com um alcance de teologia política é exatamente este, porque o seu escopo é justamente narrar o cumprir-se das ações que levam à libertação. A narrativa joanina é aquela de um profeta, narrador competente, não simples narrador mas também ator envolvido numa história que mudou sua vida: narra com efeitos prático-críticos e cria alternativas que são sugeridas pela memória da libertação trazida por Cristo no hic et nunc do leitor que crê: agora muda tua vida, insiste Joao, agora tu ressuscitas, agora tu podes ser libertado.

Ambiente e pano de fundo cultural

O quarto evangelho é, conforme uma feliz definição de Paolo Ricca, um evangelho aberto: parece um texto em contato com diversos ambientes culturais. Sobre este ponto a discussão é ainda muito viva embora há muito tempo tenha sido superada a alternativa que opunha a escolha entre ambiente judaico e ambiente helenístico. O evangelho de João encontra suas raízes, os conteúdos, os símbolos no mundo judaico, mundo ao qual se dirige em primeiro lugar e lugar da tradição, mas também, ao mesmo tempo, não distante e alheio à linguagem do pensamento grego helenístico e da gnose. Examinaremos agora brevemente estes vários aspectos porque são inevitáveis no estudo as ligações com o A.T. e a teologia judaica. 1. AMBIENTE JUDAICO

O judaísmo apresenta-se no primeiro século como um fenômeno religioso e cultural extremamente variado e rico. Normalmente são usadas três línguas: no escritos é utilizado prevalentemente o hebraico, na Palestina se fala o aramaico e na diáspora o grego helenístico. O mundo da diáspora é um mundo culto e atingiu dimensões muito amplas: somente a sétima parte do povo hebreu calcula-se que habitava na Palestina. As correntes religiosas são muitas e possuem uma elaboração de escritos que nós conhecemos como Intertestamento e que sem dúvida nenhuma tiveram influência sobre a tradição joanina. O Antigo Testamento é muito familiar ao autor do quarto evangelho.Encontramos somente umas vinte citações explícitas, adaptadas ao contexto com liberdade, mas estas não são suficientes para dar-nos uma idéia da dependência que é enorme e essencial. Os textos mais citados sao os Salmos, Isaías, o Êxodo e Zacarias. Mas o fundo veterotestamentário éconfirmado pelas citações implícitas, pela linguagem enraizada no A.T., pelas tradições históricas e teológicas. Constantemente estabelece contatos com Moisés, com os grandes fatos do êxodo, com a figura do Messias, do Rei de Israel, do Servo de Javé, do profeta, do filho do homem, do pastor, figuras todas que remontam aos profetas. O Êxodo parece poder reger a estrutura de todo evangelho ao ponto de parecer que estamos diante de um midrash joanino do segundo livro do Pentateuco. Os escritos sapienciais possuem um lugar de destaque na inspiração: Provérbios, Sirácida, Sabedoria, Baruc encontram um eco muito claro e forte. O Logos que vem entre os homens e arma a sua tenda no meio deles, cumpre o mesmo itinerário da Sabedoria, que saída da boca de Deus é portanto Palavra, Logos (cf. Sr 24). A Sabedoria é irradiação da glória de Deus (Sb 7,25) como Jesus o é da glória do Pai; os sinais da salvação, a serpente de bronze, o maná (Sb 16) são aqueles do Logos no quarto evangelho. A Sabedoria apregoa um banquete (Pr 9,5 e Sr 24,18-21) como Jesus, etc... Os Targumin ou traduções livres, às vezes paráfrases do A.T. em aramaico, são outra fonte judaica essencial para compreender o desenvolvimento de alguns conceitos joaninos. Após a descoberta das ligações existentes entre o IV Evangelho e a literatura rabínica aparece muito enfraquecida a dependência helenística ou gnóstica: de fato João é um evangelho judaico por excelência. No Targum Neophiti estão presentes três importantes conceitos teológicos: - A Palavra (dabar = heb.) memra no Targum aramaico é um substituto de Deus e no Targum a Êx 12.42, que fala das quatro noites da história salvífica, está escrito: "A primeira noite foi quando o Senhor se revelou sobre a terra para criá-la: a terra estava deserta e vazia, as trevas estavam estendidas sobre o rosto do abismo. E o MEMRA (=Palavra) do Senhor era a luz e esta resplendeu. E a chamou primeira noite". João conservou no Prólogo um eco deste texto: "No princípio era a palavra... e a palavra era Deus: nele estava a luz e a luz resplendeu nas trevas" (Jo 1.1-3). - A shekinah (= presença de Deus), conforme o Targum, está no meio do seu povo, no santuário do deserto, segundo Êx 25,8 e 29,45. João utiliza este conceito, ou melhor, cria uma forma da expressão hebraica, para mostrar que a Palavra que se faz carne torna-se presença de Deus, shekinah no meio de nós. O verbo eskenosen que aparece no texto grego é formado pelas mesmas consoantes s, k, n, com as quais se escreve shekinah (Jo 1,14): "Habitarei no meio dos Israelitas e serei para eles seu Deus" (Êx 29,45). - A glória de Deus (kabod, heb.) jeqara, que no Targum aramaico indica como memra e shekinah o próprio Deus, está em paralelo com a "Palavra do Senhor", habita no meio do povo e é vista pelo povo morar no santuário: João insiste mais vezes sobre o "ver a glória de Jesus" (Jo 1,14; 2,11). Além destes conceitos há outras expressões típicas de João que não se encontram na língua grega e reproduzem formas do Targum; a expressão "desde o princípio" (8,44; 15,27) encontra-se nos Targumin sob as palavras Min ^serni; no Targum, além do mais, o verbo que significa "partir" e "morrer", selaq, significa também ser exaltado, elevado, ambivalência conservada na teologia de João e que sem esta ligação não poderia ser justificada. O Midrash e a literatura rabínica também nos ajudarão a compreender João. Localizam-se num período de tempo muito próximo ao de João. No Midrash sobre o Gênesis 28,12, está escrito: "Jacó sonhou e eis que uma escada estava fixada sobre a terra e a sua outra extremidade atingia a altura dos céus. Eis os anjos que o tinham acompanhado da casa de seu pai subiam para levar boas notícias aos anjos do alto, dizendo: 'vem e vê um homem justo cuja imagem foi esculpida sobre o trono da glória que vós desejais ver'. E eis que os anjos subiam e desciam e o observavam". Em Jo 1,51 Jesus diz que os discípulos verão os anjos descendo e subindo sobre o Filho do Homem. R. Eliezer ben Jose (150 d.C.) afirma: "Antes que o mundo fosse criado, foi escrita a Torah e colocada no seio de Deus", e depois cita Pr 8,30 "Eu estava ao seu lado como arquiteto"; Jo fala do Filho no seio do Pai. Frequentemente o midrash coloca entre as coisas pré-existentes àcriação do mundo a Torah e o nome do Messias. Frquentemente a Torah évista como filha de Deus "no seu colo". A Torah é chamada também de "precioso instrumento com o qual o mundo foi feito". No Pirqe Abot 3,19 e Gênesis Rabba, Rabi Hosâja afirma: "A Torah diz: por meio do primeiro princípio Deus criou o céu e a terra", e este primeiro princípio, conforme Pr 8,22, não é outra coisa que a Lei, a Torah. O Pirqe Abot 3,19 afirma: "Predileto é Israel porque a ele foi dado o instrumento precioso com o qual foi criado o mundo", isto é, a Torah. O tema do Messias em Jo também tem presente o Midrash trazendo dele três provas da sua messianidade: 1) Ninguém sabe de onde ele vem porque o Messias deve permanecer oculto do nascimento até o momento da sua manifestação. Este é o pensamento recorrente nos textos rabínicos; 2) Outra prova deve vir da realização de sinais: exatamente esta pergunta fazem os judeus a Jesus e a ela João dá uma resposta narrando muitos sinais; 3) Enfim, dizia-se que o Messias seria davídico e nascer em Belém segundo a profecia de Miquéias. Nos textos rabínicos isto recorre muitas vezes como também João o recorda (Jo 7,44). No Yalkut sobre Is 60,1 está escrito: "E Deus viu que a luz era boa. Estas palavras nos ensinam que o Santo, bendito seja Ele, previu os dias e as obras do Messias antes da criação do mundo: Ele ocultou o Messias e seus dias sob o trono da sua glória". Muitos outros textos poderiam ser citados; aparece bastante claro, no entanto, que João conhecia bem o pensamento rabínico e nele se inspirava, seja pela teologia, seja pela polêmica que havia contra ele. QUMRAN é um outro lugar cultural familiar ao IV evangelho. O dualismo luz - trevas, verdade - mentira, espírito da verdade -espírito de perversão, presentes na literatura e atingiu uma importância particular sobretudo nos escritos da comunidade do Mar Morto, são comuns a João. Existem muitos paralelos entre a "Regra da Comunidade" e o IV evangelho. As expressões "fazer a verdade", "filhos da luz", "caminhar nas trevas", "odiar a luz", "testemunhos da verdade", "luz da vida" comparecem em ambos os textos. As ligações não são apenas de caráter lingüístico ou literário: aparecem na figura de João, o Batista. Ele faz o papel dos monges de Qumran - preparar no deserto o caminho do Senhor - e fala de um duplice batismo: aquele de água que ele anuncia e aquele de fogo por meio do Espírito Santo, o Espírito da verdade, falada também no "Manual de Disciplina (1 QS IV, 20,23). Todo o ministério do Batista está, pois, localizado, segundo o IV evangelho, em Betânia, além do Jordão, viciníssimo a Qumran, a cerca de 30 Km de Jerusalém. Não se pode, portanto, excluir a hipótese das relações também diretas entre Qumran, o Batista e Jesus. A Apocalíptica também faz notar sua influência no IV evangelho. A escatologia não deixou muitos traços mas outras concepções teológicas são facilmente reconhecidas. A verdade como revelação, o dualismo ético, a salvação pelo juízo iminente de Deus, a própria preexistência do Messias, a idéia de que o Messias deve morrer pelas mãos dos ímpios, influencia João e os outros evangelhos (veja o Testamento dos Patriarcas, o Livro de Henoch, etc.) O ambiente, portanto para a localização de João é aquele teológico palestinense, inspirado pelo A.T., um pano de fundo que encontra na Bíblia o seu fundamento. A tradição joanina é, portanto, judaica e bíblico - veterotestamentária. 2. AMBIENTE REDACIONAL JUDEU - HELENÍSTICO

O judaísmo da diáspora desempenhou grande papel como mediador para a difusão do evangelho aos gentios. Os judeus da diáspora eram muito mais numerosos que os palestinenses (reduzidos a 1/7 da população hebraica no império romano). Procuravam no período intertestamentário apresentar sua fé aos pagãos: a missão israelítica estava em pleno desenvolvimento e muitos de seus símbolos e sinais como água, videira, luz, matrimônio sagrado, tornaram-se lugares teológicos comuns. A exegese dos rabinos na diáspora usava elementos da filosofia helênica. Em Filão da Alexandria (cidade com um importantíssimo centro judaico já a partir do III século a.C.), contemporâneo de Jesus, nós encontramos um grande esforço para tentar fundir a fé judaica e o pensamento grego. É a partir deste escritor que avançaram as hipóteses de ligação com o IV evangelho. Mas não obstante as semelhanças de temas como o logos, e de símbolos comuns como a escada de Jacó e a serpente de bronze, não há influência direta de Filão sobre o evangelista. Filão permanece especulativo, abstrato, e João, ao contrário, énarrativo, concreto, histórico. Substancialmente tanto Filão como o autor do evangelho dependem de correntes comuns judaicas. É possível que o contexto cultural de João deva colocar-se próximo ao tipo de judaísmo helenístico apresentado por Filão, mas a elaboração joanina é nitidamente original. A diferença mais marcante é que o evangelista vê o logos como encarnado e verdadeiro homem que viveu e morreu realmente: este logos é objeto de amor e de fé e também sujeito de amor. Não há nada disto em Filão. Quanto a uma eventual conexão com a filosofia popular helênica, sobretudo platônica e estóica, é difícil de crer. Somente a terminologia familiar ao mundo helenístico é usada por João para anunciar o evangelho aos pagãos: nada mais. Quanto ao hermetismo, este é posterior ao IV evangelho e portanto não pode ter influenciado João, no máximo é possível o contrário.

3. A GNOSE

É certo que tendências gnósticas estavam presentes no final do I século, mas é difícil sustentar que a gnose tenha influenciado diretamente o IV evangelho. João possivelmente teve presente, ao apresentar a mensagem, as exigências e sensibilidades gnósticas, mas também reagiu com força, oferecendo um quadro histórico, não sinótico, colocando ao centro do evangelho o tema do amor e não aquele do conhecimento (gnosis), e oferecendo assim uma solução cristã embora a linguagem possa parecer gnostizante. Às especulações gnósticas que suprimiam a humanidade de Cristo e atribuiam a salvação ao conhecimento dos segredos divinos, João apresenta a encarnação do Verbo e a salvação mediante a cruz do homem Jesus.

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