História da Filosofia no Brasil
Positivismo
IV - O POSITIVISMO
É um movimento que busca o valor das ciências particulares contra as posições metafísicas idealistas de Fichte e Hegel, ressaltando a experiências opondo-se ao apriorismo romântico.
O positivismo na Europa prop"s um método para a investigação, considerando a experiência como o único critério da verdade.
"Seus pontos em comum são:
a) Reformular e buscar a verdade nos fatos positivos;
b) Considerar a experiência como única fonte do saber e critério último de certeza;
c) Acordo e quase identidade entre conhecimento filosófico e conhecimento científico;
d) Atitude agnóstica ou negativa diante dos problemas da metafísica, que ultrapassavam os limites da experiência, pertencendo assim ao âmbito da fantasia;
e) Concepção mecanicista da natureza e, conseqüentemente, determinismo dos fatos naturais e humanos;
f) Unidade do real, não obstante alguns positivistas afirmarem a diversidade da matéria com relação ao espírito;
g) Gênese, explicações e justificações dos valores espirituais segundo a evolução biológica as leis da psicologia" (46).
O critério único de verdade passou a ser a ciência fatual, em fen"menos e tudo o que podesse ser considerado positivo. Não admitindo qualquer coisa que fosse apriori
Difunde-se no Brasil na segunda metade do século XIX na Escola Militar do Rio de Janeiro, onde h um clima cientificista e anticlerical.
Um exemplo é o que é expresso por Perreira Barreto (1840-1923) vê por exemplo na monarquia brasileira e na Igreja instituições arcaicas que dificultam o progresso. Dai surge a necessidade da criação de um Estado racional.
Questiona-se hoje se os positivistas tiveram ou não uma real participação na campanha republicana. O certo é que muitas de suas idéias, como a ditadura republicana, que não possibilitava a participação do povo inculto, é presente aos militares proclamadores da república. Medidas autorit rias tomadas pelo Estado, vem ao encontro das idéias de Miguel Lemos e Teixeira Mendes.
No Brasil, o positivismo tomou um car ter mais pr tico do que filosófico, mas seus adeptos não foram participantes diretos dos governos republicanos.
4.1 - Caracterização geral do positivismo de Augusto Comte
4.1.1 - O contexto
Com a revolução industrial do século XVIII a burguesia ascendeu ao poder fundando uma união entre saber e técnica. Provocando uma mudança crucial muito grande na história da humanidade.
Surge o cientificismo onde, "a ciência é considerada o único conhecimento possível e o método das ciências na natureza o único v lido, devendo, portanto, ser estendido a todos os campos da indagação humana (47).
Seu pensamento só se torna efetivamente compreensível sobre o pano de fundo da sociedade francesa da primeira metade do século XIX. E especialmente a revolução burguesa de 1789.
Sua filosofia aparece na onda contra-revolucion ria e ultra-conservadora pós revolução francesa. É por isso que em sua obra, temos conceitos ligados à ordem e a estabilidade social, como tradição, autoridade, hierarquia, coesão, ajuste, norma, ritual, etc.
"O século XIX (...) considera a natureza humana como base da própria lei natural, cuja única realidade é a liberdade do homem. É um período de triunfo do cientificismo, que reconhece uma só natureza material, que engloba e explica o mundo dos valores e o mundo dos fatos" (48).
É um período do liberalismo, onde o desenvolvimento moral cultural, econ"mico e político da sociedade só seria alcançado pelo livre desenvolvimento do espírito e das faculdades do indivíduo. Porém, esta visão também passa por transformações.
É no sentido de conciliar posições e reafirmar outras que o positivismo surge
"como um método e uma doutrina. Como Método embasado na certeza rigorosa dos fatos da experiência como fundamento da construção teórica; como Doutrina apresentando-se como revelação da própria ciência, ou seja, não apenas regra por meio da qual a ciência chega a descobrir e prever (isto é, saber para prever e agir), mas conteúdo natural de ordem geral que ela mostra junto com os fatos particulares, como car ter universal da realidade, como significado geral da mecânica e da dinâmica do universo" (49).
A questão toda estava na observação, e daí a descoberta dos mecanismo do mundo, ao invés de invent -lo. E esta é afirmação b sica de Comte onde a ciência é a sistematização do bom senso e o bom senso afirma que somos meros espectadores dos fen"menos exteriores e que nada podemos fazer fora das leis que regem estes fen"menos.
"O positivismo é portanto uma filosofia determinista que professa, de um lado, o experimentalismo sistem tico e, de outro considera anti-científico todo o estudo das causas finais. Assim, admite que o espírito humano é capaz de atingir verdades positivas ou da ordem experimental, mas não resolve as questões metafísica, não verificadas pela observação e pela experiência (50).
Poderíamos dizer então, "que o positivismo é um dogmatismo físico e um ceticismo metafísico. É um dogmatismo físico, pois afirma a objetividade do mundo físico; e é um ceticismo metafísico, porque não quer pronunciar-se a cerca da existência da natureza dos objetivos metafísico" (51).
O positivismo é um pensamento nitidamente impulsionado pela vontade de estar à altura de seu tempo. É um movimento otimista decorrente da crença no progresso tecnológico, com esta, busca tornar o homem consciente de seu destino histórico, profundamente comprometido coma vocação tecno-científica do mundo moderno.
4.1.2 - Vida e Obra de Comte:
Augusto Comte ou Isidore Auguste Marie Xavier Comte (19-01-1798 à 05-09-1857) nasceu em Montepelier - França de família católica e monarquista - Em 1814 vai a Paris como aluno da Escola politécnica, com grande formação matem tica e ciências (é admitido antes da idade legal). Sai em 1816 quando expulso devido as idéias ultrademocr tica. 1817 conhece H. Saint Simon (1760-1825) do qual torna-se secret rio até 1824 quando se separam por divergências.
Saint Simon, o inspirou na idéia de criação de uma ciência social e de uma política científica.
Em 1825 casa-se com Caroline Massin da qual separa-se 17 anos após.
Aos 47 anos (1894) conhece Clotilde de Vaux, mulher que exerceu sob seu pensamento e estilo de sua obra uma not vel influência. Apaixonou-se por ela, amando-a platonicamente até a morte prematura desta. Sua obra, restante passa a ter uma marca significativa deste amor chegando a um sentido "messiânico e religioso". Assim supõe realizar sua missão de regeneração da humanidade.
Segundo comte porém o predecessor de seu pensamento fora Condoncet (1743 -1794). Deste, Comte, tira a idéia de progresso como sendo uma lei da história da humanidade, crença na efic cia das ciências da natureza e a possibilidade de criação de uma ciência da sociedade.
Influenciado pelo progresso continuo das ciências concebe a filosofia um novo papel. Que é: "O que é possível conhecer são unicamente os fen"menos e as suas relações, não a sua essência, as suas causas íntimas, quer eficientes quer finais. Estas permanecem impenetr veis, desconhecidas"(52).
Sua obra, surge como uma tentativa de síntese dos conhecimentos de seu tempo, cujo programa fundamental era unificar o humanismo e a ciência. Um humanismo fundado na ciência, uma ciência capaz de redescobrir e reavaliar a eficiência humana, conferindo-lhe um significado de valor universal.
4.1.3 - Definição e Fundamento do Positivismo
"O positivismo, de acordo com Augusto Comte, não é uma corrente filosófica entre outras, mas a que acompanha promove a estrutura o último est gio que a humanidade teria atingido, fundado e condicionado pela ciência"(53).
Para ele filosofia tem uma mesma conotação aristotélica: sistema geral do conhecimento humano.
"O termo positivo significando o REAL, por oposição ao quimérico (fant stico, utópico, etc), o ÚTIL em oposição ao vago. O termo significa ainda, o contr rio de negativo e indica a tendência de substituir sempre o absoluto pelo relativo. Finalmente, traduz a proposta de organização oral e intelectual da sociedade" (54).
Pode ainda significar exclusão ao negativo e a contradição firmando apenas o positivo que são os dados do sentidos.
"O método usado é o histórico genético indutivo, ou seja, observação dos fatos, advindo-lhes por indução as leis da coexistência e da sucessão, deduzindo dessas leis, por via da conseqüência e correlação, fatos novos que escapavam da observação direta, mas que a experiência verificou. Além deste usa também o que chama de método subjetivo, que resulta da combinação lógica dos sentimentos das imagens e dos sinais (55).
Chega a conclusão sobre a impossibilidade de se ter noções absolutas, deixando de lado questões como a origem e o destino do universo e as causas íntimas dos fen"menos.
Sua doutrina divide-se em duas partes:
1) GERAL - que são as teorias dos três Estados e a classificação hier rquica dos conhecimentos humanos.
2) ESPECIAL - quando é considerada sob 4 aspectos : psicológico, ontológicos, sociológicos e religioso.
"Aspecto psicologico, (...) faz parte da biologia, (...) ele reputa a alma (espírito) como um conjunto de funções cerebrais. O aspecto ontológico: Comte nega as causas eficientes e finais, o infinito e o absoluto, para reconhecer apenas o relativo, o sensível o fenomenal, o útil, tudo é relativo, e isso é a única coisa absoluta. (...) E os aspectos sociológico e o religioso, que partem desde a divisão dos poderes sociais e material, intelectual e moral, exercidos por pessoas de classes distintas, até a adoração do Grande Ser, a Humanidade, concebida como o conjunto de todas as almas fortes e eternas, que viveram no passado e que nascerão no futuro" (56).
4.1.4 - A Lei dos Três Estados:
A lei fundamental de Comte é que os espíritos dos indivíduos assim como a espécie humana e as próprias ciências descrevem um movimento histórico que atravessa um estado teológico ou fictício, um estado metafísico ou abstrato chegando ao último que é o estado positivo onde o espírito humano encontra a ciência. Ou seja o espírito humano emprega 3 métodos do filosofar, o segundo tem um tarefa provocar a ponte entre o 1@ e o 3@ que é o Estado fixo e definitivo.
Na verdades lei dos três Estados nada mais é do que um desenvolvimento da idéia das três fases de Saint Simon que distingue a fase teológica, metafísica e positiva. Por isso muitos estudioso não atribuem a Comte como sendo o fundador da sociologia, mas a Saint Simon.
1) O ESTADO TEOLÓGICO: (Curso de Filosofia Positiva)
O Espírito humano essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres. A causa 1@ e final de todos os efeitos (...) apresenta os fen"menos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitr ria explica todas as anomalias aparentes do universo. Este Estado também tem fases. O 1@ fetichismo, o 2@ politeísmo e o 3@ monoteísmo.
2) O ESTADO METAFÍSICO
É uma modificação geral do 1@ onde os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstratas personificadas) Inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fen"menos observados, cuja explicação consiste então em determinar para cada um uma entidade correspondente.
3) O ESTADO CIENTÍFICO (positivo)
Como não é possível ter noções absolutas, por isso, não procura a origem e o destino do universo, como também reconhecer as causas íntimas dos fen"menos, para preocupar-se unicamente em descobrir graças ao uso bem combinado de raciocínios e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invari veis de sucessão de similitude.
Quando chegar a esta 3 fase não haver mais progresso no sentido da lei dos três estados,
"A ciência e a sociedade ainda são passíveis de evolução, isto é, de aperfeiçoamento e de aprofundamento daquilo que o 3@ est gio representa. Assim no caso da ciência, embora pode ainda ocorrer um certo progresso, por exemplo, no que se refere a maior universalidade das leis e da redução do seu número, pois é próprio do progresso científico a tendência para a generalidade a simplicidade" (57).
No caso da sociedade instaurar-se a estrutura sócio-política que promovam e beneficiem o progresso científico, onde a sociologia indicar os parâmetros da organização social. Esta revolução se constata de maneira sensível, considerando o desenvolvimento da inteligência individual, cada um de nós contempla sua própria história e lembra que na infância estava no est gio teológico, na adolescência o est gio metafísico e o físico em sua virilidade.
É no 3 est gio que se observa o espírito científico ou positivo onde se observa os fatos, se limita a raciocinar sobre eles e a procurar suas relações invari veis, que dizer, suas leis.
No estado positivo corresponde maturidade do espírito humano, o primitivo explica a queda dos corpos pela ações dos deuses.. Porém, para Comte os conhecimentos reais repousam sobre fatos observados (o que seria um retorno ao empirismo do século XVII).
No positivismo a razão tem o papel de descobrir as relações constantes e necess rias entre os fen"meno ou leis invari veis. Surge daí o determinismo pelo qual o reino das ciências é o reino da necessidade onde a necessidade significa o que tem de ser e não pode deixar de ser. Nesse sentido necess rio opõem-se a contingente. Portanto na questão da necessidade não h liberdade (por isso ordem e progresso para que e como?).
O papel da filosofia seria de sistematizar a ciência. Porém, Morente afirma que o positivismo suicida a filosofia.
Para Comte a filosofia deve apresentar um corpo próprio de saber. Deve conter muito mais um sentido e uma orientação e atuar como coordenadora do sistema geral do conhecimento. Conhecimento este que j se encontra diante de nós como fato inquestion vel. A filosofia portanto não tem de se ocupar da reivindicação do saber mas sim de sua classificação e ordenação. E a filosofia torna-se uma enciclopédia pela sua organização e hierarquização.
4.1.5 - A influência empirista no pensamento positivista.
O empirismo parte do princípio de que o conhecimento deve certificar-se de sua validade a partir da observação sistem tica como a primeira condição para um especulação científica. "Os homens, diz Comte, devem limitar (...) seus esforços ao domínio, que agora progride rapidamente, da verdadeira observação, única base possível de conhecimento verdadeiramente acessível sabiamente adaptadas as nossas necessidade reais (58).
Porém o verdadeira espírito positivo não é o empirismo, mas baseia-se mais nas escolas racionalistas, onde a ciência ocorre quando se conhecem os fen"menos por suas relações constantes e de sucessão - isto é pelas leis - advindo daí a possibilidade de previsão racional. É pelas leis dos fen"menos que se constitui a ciência. Os fatos fornecem apenas materiais. A ciência faz previsão racional e este é o principal car ter do espírito positivo.
A utilidade do conhecimento se traduz na previsão e controle do fen"meno para a construção da sociedade positiva, pois todos os estudos dos fen"menos, devem permanecer relativos organização e a nossa situação.
4.1.6 - A classificação das ciências e a sociologia
Para ele ciência é a forma de conhecimento que:
a) Se caracteriza pela certeza sensível de uma observação sistem tica e pela certeza metodológica que garante o acesso adequado aos fen"menos observados;
b) Relaciona os fen"menos observados.
A ciência só se constitui no terceiro estado. Só constitui ciência aquilo que se pode experimentar, o que trata de fatos e suas leis.
As ciências se classificam da mais simples e abstrata que é a matem tica, a mais complexa e concreta, que é a sociológica.
"A filosofia positiva se encontra, pois, naturalmente dividida em 5 ciências fundamentais, cuja sucessão é determinada pela subordinação necess ria e invari vel, fundada, independentemente de toda opinião hipotética, na simples comparação aprofundada dos fen"menos correspondentes: a astronomia, a física, a química a fisiologia e enfim a física social" (59).
A matem tica para ele não é o coroamento da ciência, mas o berço, pois fornece a todos a lógica geral.
Comte se considera o fundador da sociologia ou física social, que é copiada de modelos da biologia aplicada a sociologia como um organismo social
É a física social o mais alto est gio das ciências. Tem como objetivo estabelecer uma base racional e científica para uma reforma intelectual e moral da sociedade pela insaturação do espírito positivo na organização das estruturas sociais e política.
O indivíduo encontra-se submetido à consciência coletiva; Por isso tem pouca possibilidade de intervenção nos fatos sociais. A ordem da sociedade é permanente, à imagem da invari vel ordem natural.
A sociologia de Comte gira em torno de núcleos permanentes, como a propriedade, a família, o trabalho, a p tria, a religião. Excluindo a preocupação com a teoria do Estado e com a economia política.
É este seu interesse pela ordem que revela sua visão conservadora, pois a idéia de ordem, esta ligada a de hierarquia (onde ordem, significa arranjo e mando) e toda a teoria comtiana leva a concepção deste saber acabado.
A história não é um vir a ser, uma seqüência congelada de estado definitivos, e a evolução é a realização do embrion rio j existente.
A sociologia torna-se a mais importante de todas as ciências, pois significa o ponto de partida da moral, da política e da religião. Moral, política e religião positiva.
A sociologia compreende-se em duas partes: a) Est tica social, que estuda a harmonia prevalecente entre as diversas condições da existência e estabelece a ordem social; b) A dinâmica social, que investiga o desenvolvimento ordenado da sociedade (a lei dos três estado) e estabelece as leis do progresso.
"física social (é) a ciência que tem como projeto próprio o estudo dos fen"menos e coisas, considerados como o mesmo espírito que os fen"menos astron"micos, físicos, químicos e fisiológicos, isto é como submetidos as leis naturais invari veis, cuja descoberta é o objetivo especial das sua investigações. Assim, propõe-se explicar diretamente, coma m xima precisão possível, o grande fen"menos do desenvolvimento da espécie humana, visto sob todas as suas partes essenciais (60).
4.1.7 - A ordem e o progresso
Vimos no ponto 4.1.6 que é tarefa da sociologia estabelecer a lei do progresso. E especialmente a parte da sociologia, que estuda a dinâmica social, pois: "o estudo dinâmico da vida coletiva da humanidade constitui necessariamente a teoria do progresso social que afastando-se de qualquer vão pensamento de perfectibilidade absoluta e ilimitada, deve naturalmente reduzir-se a simples noção de desenvolvimento fundamental"(61).
A ordem e o progresso tal qual Comte pensa, é uma forma de superação das duas principais correntes políticas de seu tempo. A conservadora que argumenta, que os problemas existentes imanam da destruição da ordem anterior, assim a medieval supera a antiga e sucessivamente. A outra corrente é a do progresso que surge de uma critica ao iluminismo, que consideravam os problemas advindos do fato de que a ordem anterior não havia sido completamente destruída e que a revolução deveria continuar.
Para ele, h um desenvolvimento histórico da sociedade, um progresso da evolução humana (a lei dos três estados). Um progresso que não subsiste sem a ordem ou que busca alterar só elementos est ticos da sociedade, ou seja, sem ordem não h progresso, que não é senão o desenvolvimento da própria ordem.
Ordem e progresso se completam. O que ele faz é uma síntese dessas duas idéias, visando restaurar uma unidade social. É por isso que uma de suas idéias chaves é: "Amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim".
No fundo, progresso representa um pensamento do século XVIII e XIX, como sendo uma lei da história da humanidade onde pela ciência, se adquire conhecimento, que aperfeiçoam os meios técnicos e com esta, mais riquezas, mais felicidade, mais segurança. Por isso o progresso traz a idéia de que o presente é melhor do que o passado e o futuro, melhor que o presente. Porém, em Comte a idéia de progresso não se separa da de ordem. E que o progresso nada mais é do que o desenvolvimento da própria ordem.
A ordem e o progresso são a fonte de todo o sistema político. É um princípio conservador, pois a ordem é uma estratificação, fruto de uma concepção organizada. O progresso é um adinâmica bem delimitada, com o objetivo de afastar os riscos de convulsão e desordem.
Não é uma ordem de retrocessão, mas uma adaptação as condições políticas e sociais resultados do progresso técnico e industrial. Neste sentido o poder deve estar na mão dos que impulsionam a ciência e a tecnologia.
4.1.8 A Moral Positiva
Após o encontro com Clotilde de Vaux, os enfoques dados por Comte mudaram. O afeto passa a ter espaço em suas reflexões. É uma reformulação da moral e do intelectual da sociedade, como uma nova fé ocidental e com sacerdócios definitivos ou seja:
"A ciência real devia chegar primeiramente a sã filosofia, capaz de fundar a verdadeira religião (...). É nesse contexto que ele far o anúncio oficial da moral, que viria completar a sociologia em sua escala das ciências (...)". Logo, a moral tem o papel complementar a sociologia, onde "prevalece o ponto de vista moral, como sendo o mais complexo e o mais especial (...) Eis como a moral, concebida como a nossa ciência principal, institui em primeiro lugar a sociologia, cujos fen"menos são ao mesmo tempo os mais positivos" (Catecismo positivista).(62).
A m xima da moral de Comte é a "exaltação do sentimento e do altruísmo (viver para outrem) ou a negação dos direitos em favor dos deveres, ou ainda a crítica a liberdade de consciência. Deveria atuar na organização da nova sociedade tanto no aspecto político quanto no econ"mico" (63).
A moral deveria despertar politicamente nos súditos sentimentos de obediência e sujeição e, nos governantes, responsabilidade no exercício da autoridade. Economicamente, deveria tornar os ricos perfeitos administradores de seus bens e os pobres dependentes satisfeitos com sua posição social. Onde ambas as classes colaboram para a prosperidade, grandeza e realização da humanidade. Logo, economia e política, não se separam da moral.
Não se reconhece nenhum direito além do de cumprir o dever, e, assim, nega categoricamente a própria existência enquanto tal. São deveres para todos, pois tende uma ordem sempre social, não pode comportar nenhuma noção de direito, constantemente fundada na individualidade.
O homem individual não existe, mas somente como membro de grupos, desde o familiar (cédula base por excelência) até a política.
Liberdade e consciência não existem, pois a consciência, não determina sozinha o modo de existência pr tica, como não bastam as condições materiais da vida para definir a consciência.
O povo não é nem soberano, pois a ditadura se exercita num despotismo espiritual e temporal, pois adota princípio da força como fundamento do governo.
Ao matar a individualidade, Comte, não quer nada mais do que fazer surgir uma fraternidade universal. O bem público portanto, é saber se est ou não de acordo com fraternidade.
"A moral comtiana se funda no império do instinto, que nos inclina para os outros, e que se chama altruísmo (termo criado por Comte"(64).
Littré, Spencer e Stuart Mill aceitam esta moral, mas diferente ao modo porque explicam a formação do altruísmo.
4.1.9 - a Religião Positiva:
Comte parte da idéia de que a humanidade é o GRANDE SER, constituído por antepassado como Moisés, Buda, Confúcio, Maomé que são venerados em ritos sociais.
A religião é parte da preocupação do autor no sentido, de querer a reforma moral e intelectual da humanidade, objetivando a reorganização de toda a sociedade. É por isso, o objetivo desta religião é ordenar cada natureza individual religando com todas as individualidades.
Tem por modelo, o catolicismo romano, na teoria sacramental, com a apresentação, iniciação, admissão, destinação, maturidade, retiro, incorporação e especialmente um culto a Virgem Maria.
Formula um novo calend rio, cujos meses recebem nomes de grande figuras da história do pensamento, como Moisés, Descartes, etc. Onde cada dia com obras de autores consagrados como Dante, Schakespeare, Adam Smith, etc em que os adeptos deveriam adorar.
A humanidade, tem a grande veneração, pois guarda como o homem uma solidariedade de destino, pois para sobreviver cada um precisa do outro. "Significa a comunhão de todos os homens, no tempo e no espaço, e encarna: o conjunto dos seres humanos, passados, futuros e presentes" (65). É um culto de pessoas que cooperaram com a humanidade a fim de ter existência comum.
O centro religioso positivista é o GRANDE SER ou seja, o motor imediato de cada existência individual ou coletiva, que inspira a fórmula m xima do positivismo: "O amor por princípio, a ordem por base o progresso por fim". Que se desdobra, numa moral: o viver para outrem, ou subordinação do indivíduo à família, esta a p tria e, a p tria a humanidade e a outra est tica; ordem e progresso, onde cada coisa deve estar em seu devido lugar para perfeita orientação ética da vida social.
"A humanidade - o GRANDE SER - é muito mais do que uma simples abstração, de forma vazia e inerte, é uma realidade, pois representa a comunhão de todos os homens em uma contínua solidariedade no tempo e no espaço" (66).
As mulheres tem na religião um papel privilegiado, pois são a intercessora privilegiada entre os homens e a humanidade divinizadora, sendo Clotilde, a virgem - mãe (foto no 14 p. 58).
A classe mais importante na religião são os sacerdotes que não são teólogos, mas sociólogos.
H dois tipos de cultos, um direcionado à mulher e outro a humanidade.
A oração é uma obra de arte, pela sua originalidade poética.
O dogma essencial: H coisas que o homem pode conhecer e h outras que jamais conhecer . O que é possível conhecer são unicamente os fen"menos e as suas relações, não a sua essência, as suas causas íntimas, quer eficientes, quer finais. É impossível alcançar noções absolutas, pois tudo é relativo, conclusão tirada pelo método experimental, pois alguns fatos se tornam inacessíveis a aí entra-se na metafísica.
Deus se torna desnecess rio, pois a humanidade preenche este anseio. É nela que existe a comunhão de todos e uma continuidade e solidariedade no tempo. É o amor ao próximo do cristianismo, revestido de uma concepção altruísta e sem Deus. Porém, não é um devotamento ao outro mas a um fim superior, a qualquer individualidade.
Não deixa de ser estranho constatar a criação de uma religião, pois o conjunto do comtismo considera o positivismo, como sendo a última fase da evolução iniciada no est gio teológico, que é para ele o est gio mais arcaico e infantil da humanidade.
Como j nos referimos acima, os grandes expoentes da religião positivista no Brasil são Miguel Lemos e Teixeira Mendes.
"Teixeira Mendes, foi apontado como o único individuo, no mundo, a realizar plenamente, em todos os atos de sua vida pública ou privada, o complicado e austero código ético-jurídico do positivismo, encarnando perfeitamente o tipo ideal do homem sonhado por Comte" (67).
Os grande idealizadores e fundadores da religião positiva no Brasil, foram pessoas muito simples, vivendo em situação de pobreza.
A grande pergunta que fica é se o culto ao GRANDE SER: "é uma racionalização do sagrado ou uma socialização do racional?"
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