Pe. José Vergílio da Silva, CSsR
História da Filosofia no Brasil
Autenticidade Filosófica

1.1 A questão da autenticidade da filosofia no Brasil.
       Desde que se originaram as reflexões filosóficas no Brasil se interrogou pela questão do que seria um autêntico filosofar brasileiro ou no Brasil. Esta mesma pergunta se d com a filosofia latino-americana ou a filosofia hispano-americana. Da resolução dessa questão surge a própria definição e o específico de nosso filosofar. Fundamentalmente surgem duas correntes ou dois grupos de pensadores. Por um lado aqueles que pensam que fazer uma filosofia no Brasil, seria pensar os mesmos problemas da filosofia universal. Outros incluem o próprio pensar brasileiro no contexto da filosofia ocidental, ou seja, não haveria uma especificidade de nosso filosofar, ele não estaria isento do pensamento desenvolvido em qualquer outro lugar, só que pensamento com a peculiaridade de nossa realidade. Dentro deste grupo, podemos identificar um subgrupo se assim pudéssemos denominar, que seria daqueles que aceitando o princípio da não diferenciação, admitem a possibilidade de pensar os problemas universais, porém dentro do contexto e com as características do contexto em que nos encontramos. Por outro, encontramos o segundo grupo que é expressivo, mas que tem menor expressão entre os pensadores ou filósofos no Brasil, que seria aqueles que afirmam que o pensar filosófico brasileiro, é pensar as características e as peculiaridades de nossa realidade, ou seja, a autêntica filosofia brasileira, seria aquela que esta voltada as nossas especificidades e delas ou a partir delas é que se deve tirar os elementos de sua reflexão, como também a mesma deveria voltar à ela.
       A questão da autenticidade ou não, da filosofia no Brasil é um dos grandes desafios colocados aos pensadores nacionais. H aspectos positivos em ambos os grupos, porém, h muitas vezes uma dificuldade muito grande de di logo entre os dois grandes grupos. H pensadores que chegam a afirmar a filosofia no Brasil, como sendo uma "filosofia menor". Que nossos pensadores preocupam-se com "temas irrelevantes" para a filosofia universal e como tal o que aqui se pensa como filosofia, não seria filosofia. Por outra à acusação aos filósofos acima, se acirrou após o surgimento da filosofia latino-americana. Quando se passou a firmar a expressão alienação para designar os mesmos pensadores.
       Parece-nos que nem tanto um, nem tanto o outro. Se por um lado o nosso filosofar não pode estar desligado do pensamento universal, pois, também não estamos isentos da realidade universal, nada nos impede de podermos pensar as nossas especificidades com um valor realmente nosso. O que não podemos fazer é deixar de refletir. A reflexão deve ser emergente e urgente, apesar de termos perdido muito tempo no Brasil, especialmente com o regime de exceção instaurado em 1964. Devemo fazer uma reflexão sobre a realidade específica, ou não, o ocorre é que o filósofo não pode deixar de conhecer e estudar a problem tica universal. É com ela e a partir dela que temos condições de ter uma história da reflexão da humanidade, bem como também, termos elementos e métodos para pensar a nossa realidade. Os filósofos nacionais ou latinos-americanos, ainda não conseguiram métodos de filosofar diferentes dos elaborados pela filosofia universal. Como também não podemos pensar os problemas propostos pela filosofia universal, sem levar em conta a realidade que nos circunda.
       É tarefa da filosofia buscar uma reflexão que não exclua a realidade humana como um todo, bem como o pensar da realidade humana, é o específico da preocupação filosófica. Posteriormente veremos um capítulo, mais detalhado sobre esta realidade da autenticidade filosófica brasileira e latino-americana. 1.2- Caracterização e metodologia da filosofia no Brasil.
       No segundo reinado, os projetos de aprimoramento cultural refletiam os interesses do imperador. Por esse motivo, intelectuais interessados na difusão da filosofia procuravam fazer ver ao monarca a importância da reflexão sobre a brasilidade. Projeto que era bem mais amplo que a filosofia envolvendo outros aspectos da cultura brasileira. Esta visão poderia ser sintetizada pela afirmação de Gonçalves Magalhães "convém que o governo ao menos uma vez lance os olhos sobre a mocidade, que faça ensinar nas escolas uma moral pura, uma filosofia sã e nutre o sentimento de amor divino" (06).
       A filosofia brasileira, nos últimos 150 anos é a coexistência de perspectivas filosóficas divergentes e, no seio destas, múltiplos pontos de vista, e desses é que surgem ecletismo, positivismo, etc.
       O ecletismo espiritualista, além de preservar a ciência defendia a tese hegeliana, segundo a qual existe continuidade real no pensamento. O ecletismo também ganhou notoriedade no debate da segunda metade do século XIX na questão da fundamentação moral, em termos modernos e não apenas restauradores da filosofia escol stica. Na república, reascende a tradição pombalina inspirada no positivismo de Comte, acarretando-se um desprezo pela filosofia, mesmo nos centros de grande reflexão (como a Escola de Recife). Nos anos 20 de nosso século, emerge o interesse pelo pensamento filosófico nacional, especialmente com a Sociedade Brasileira de Filosofia, que buscou congregar todas as tendências.
       Em 1929, Alcides Bezerra afirma que muitas vezes somos incapazes de especular filosoficamente, o que é uma injustiça, o que ocorre é que não se teve tais motivos e por isso não florecemos filosoficamente. Alguns nomes despontam e que teriam chegado a relevo universal pela pujança se seus espíritos tais como: Tobias Barreto, Silvio Romero e Farias Brito.
       O maior impulso foi dado no pós guerra, com a criação da Instituto Brasileiro de Filosofia (1949). A instituição buscou congregar os pensadores das mais diversas tendências, inaugurando uma pr tica não discriminatória que dura por mais de quatro decênios e criando o h bito de condução de debate filosófico no ambiente de integral serenidade" (07).
       A polêmica abre espaço para temas e problemas suscitados. "Miguel Reale, elaborou um método para o exame do pensamento brasileiro de comprovada efic cia. Consiste:
       1) Identificar o problema (ou os problemas) que tinha pela frente o pensador, prescindindo da busca de delineações das correntes;
       2) Abandonar o confronto de interpretações e, portanto, o cotejo das idéias do pensador estudado com outros possíveis, para eleger entre uma ou outra;
       3) ocupar-se preferentemente da identificação dos elos e derivações que permite apreender as linhas de continuidade real de nossa meditação. Com semelhante espírito. alguns estudiosos conseguiram preencher lacunas, promover reedição de textos e estabelecer novas hipóteses de trabalho (08).
       Aparecem os pensadores da Escola de Recife, que seria uma projeção do evolucionismo, classificando-se o movimento positivista em ortodoxo e dissidente, que era a cisão francesa conhecida universalmente. Tobias Barreto critica o positivismo com base em Harckel, mas só conseguindo a real refutação com a fórmula kantiana de que "o homem não se esgota nas coisas eficientes, tomadas por base no determinismo do tipo físico, porquanto propõe objetivos a atingir e elabora o requerido plano de ação, erigindo desse modo o mundo das causas finais, o mundo da cultura, que não se deixa explicar pelo casualismo mecânico" (09). Inaugura-se um novo ponto de vista acerca da pessoa humana, chamado de culturalismo. O tema como leitmotiv é a pessoa humana.
       A 1a. corrente filosófica no Brasil o espiritualismo eclético, tinha todos os elementos para uma an lise da filosofia do Brasil e provavelmente o fez, só que não se tem conseguido localiza-la. Esta corrente tinha como centro o curso do colégio Pedro II. Tinha a suposição de que o sistema de Cousin era v lido e de certa forma refletida as inquietações de seu tempo. Porém, não era uma mera aceitação. Tinham divergências com seu mestre, além da transitoriedade dos sistemas e da perenidade dos problemas. Publicaram a revista "Minerva brasiliense".
       A partir da corrente eclética, concluiu-se que "a filosofia em nosso país, fora das instituições religiosas, começa valorizando a contribuição nacional e dispondo-se a participar do debate que se tratava na Europa. Acreditava-se que o espírito humano jamais chegaria a uma situação de plenitude e simultaneamente apostavam na possibilidade infinita de seu aprimoramento. Entendiam que a filosofia estava vinculada a um determinado tempo histórico. Os ecléticos não pretendiam apagar o ambiente empirista que se formaram.
       A partir de 1870 voltam as reformas empreendidas por Pombal, acreditando que o progresso é incompatível com a tradição. Concebiam a cultura como sendo constituída de compartimentos estanques e não como obra de seculos e inacabada. Esse posicionamento fez com que a filosofia perde-se sua especificidade. Embora isto não fosse unanimidade, havia alguns pensadores que buscavam a autonomia do saber filosófico, tais como Clóvis Bevilaqua. Obras gerais só foram produzidas por Sílvio Romero, Leonel Franca e João Cruz Costa. Sílvio Romero intervinha no debate histórico como propagandista de doutrinas que pretendia contrapor ao espiritualismo. E isto se expressou ao tentar demolir a monarquia. Com o descrédito ao ecletismo, buscando reconstituir os fundamentos do saber e da ética privilegiando o momento em que se inseriam. A herança de Sílvio Romero foi assumida por Leonel Franca e Cruz Costa, que confundem a contemporaneidade do saber filosófico com os limites estreitos de seus próprio momentos, negando a validade do passado e, não conseguindo por isso vislumbrar nenhuma conexão interna na meditação brasileira muito menos de suas peculiaridades.
       Esta meditação chamada de restauração escol stica não tinha muito compromisso filosófico, mas engajamento político. Por isso o Brasil despontou no mundo com reflexões tomista, vindo a desaparecer posteriormente direcionando-se ao marxismo. Antonio Paim, criticando Leonel Franca, afirmando, a sua falta de seriedade, reduzindo inclusive seu texto de panfleto apaixonado (10). Crítica da qual Paim tem inteira razão, pois o livro quer ser "abrangente" "profundo" (grifo nosso), pensa conseguir num texto de pouco mais de 100 p ginas "tudo" o que se fez e pensou. Além, de ao final de cada autor e livro, analisado, colocar um posicionamento superficial e conforme afirma Paim apaixonado, pois banalisa e descarateriza os livros e autores, com "extrema" facilidade. A obra vale ser lida, como exemplo do que não se pode, nem se deve fazer em filosofia.
       Outro autor importante da reflexão filosófica no Brasil é Cruz Costa que parte da suposição geral de que o saber est pronto e acabado, cumprindo tão somente dele nos apossar-mos (11). Sua grande contribuição, esta na tese de que o progresso verdadeiro da mentalidade d -se com a ascensão do positivismo.
       "O positivismo (...) (é uma doutrina importada, mas que é um) jogo intelectual das elites eruditas, mero ornamento da inteligência curiosa. É certo porém que exista uma relação mais profunda entre esta doutrina e o conjunto das contraditórias condições que deram origem à vida nacional e que a impelem. Nele h traços que revelam a sua perfeita adequação às condições de nossa formação, às realidades profundas de nosso espírito". (12).
       Hélio Jaguaribe porém, afirma que a filosofia no Brasil não tem nada de originalidade (A Filosofia no Brasil - RJ - 1957), como também afirma ser pouco autêntica e isto se d porque não temos tido uma crise profunda que suscitasse a pergunta filosófica. Sílvio Romero alega uma falta de conexão lógica na meditação filosófica brasileira - o autor faz tal afirmativa e expõe a fislosofia no Brasil como se antes dele nada existisse e que tudo estivesse começando a partir dele. Tal vício de não reconhecer um pensador anterior também incorreu a Escola de Recife, que muito devia ao ecletismo, mas não se preocuparam em esclarecer e expor suas origens. Miguel reale porém não chegou a contextar essas situações. Ressalta proém para os momentos obscuros e mal estudados em nossa filosofia, como é o caso do pensamento de Silvestre Pinheiro Ferreira. Reale também ofereceu an lise de figuras e temas de nossa filosofia. Aponta a novidade da Escola de Recife, denominada de culturalismo. Seus estudos, incluem ainda filosofias nacionais, tais como Pedro Lessa, Rey Barbosa, João Mendes Jr, Vicente Ferreira da Silva e outros.

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