O Homem, o Estado e a Liberdade
2.3. Da Sucessão do Soberano
O monarca eletivo, com poder vitalício, terá poder de indicar que seu sucessor não será mais eletivo, mas hereditário. Se não tiver este direito terá que ter alguém ou uma assembléia que indique o sucessor, caso contrário o Estado se dissolve e morre. Sabe-se, também, que quem tem o poder de indicar o sucessor antes mesmo da morte do monarca a soberania já lhe pertencia. Ninguém tem o direito de dar aquilo que não tem o direito de possuir. O rei, cujo poder é limitado, não é superior àqueles que tem o poder de limitá-lo. Quem não é superior não será soberano. Daí a soberania está na assembléia que tem o poder de limitá-lo. Deste modo o governo não é uma monarquia, mas uma democracia ou aristocracia.
Para Hobbes, não existe forma perfeita de governo em que a decisão da sucessão não se encontre nas mãos do próprio soberano.
Os maiores problemas quanto à sucessão surgem quando não está claro quem deve designar o sucessor. Quanto a este problema de quem deve determinar o direito de herança, deve-se admitir que cabe a quem está no poder, ou esse direito volta à multidão dissolvida. A multidão fica incapaz de proceder à eleição de um novo monarca, pois cada um tem o mesmo direito de submeter-se a quem achar mais capaz, protegendo-o com sua própria espada. Isto volta à confusão e à condição de guerra de todos contra todos. Portanto, torna-se evidente que pela instituição de uma monarquia a escolha do sucessor é sempre deixada a juízo e vontade do possuidor do atual poder.
Quando o atual monarca designar o seu sucessor, deve estar expresso por palavras num testamento, ou outros sinais considerados válidos para tal.
O soberano deve declarar seu testamento ou palavras ainda em vida. A palavra "herdeiro" significa qualquer um que o monarca deseja designar como sucessor seu. A pessoa designada pelo monarca, logo após a morte deste, será investida do direito de ser monarca.
Quando há ausência de palavras ou testamento expresso, deve-se guiar-se por sinais naturais da vontade, ou costume. Seja qual for o costume que um homem tenha a possibilidade de controlar através de uma palavra e não o faz, está perante um sinal natural de que ele quer que esse costume seja aplicado.
Caso não tenha costume e nem testamento, segue-se primeiro que a vontade do monarca é pela monarquia. Em seguida, que seu filho, homem ou mulher, seja preferido a qualquer outro, pois, por natureza, os homens beneficiam seus filhos, e dentre desses, o do sexo masculino, visto que, por natureza, os homens são mais capazes do que as mulheres para ações que envolvem força e perigo. Quando não tiver filhos, será o irmão ou parente mais próximo.
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