Pe. José Vergílio da Silva, CSsR
O Homem, o Estado e a Liberdade
1.3. A Igualdade Natural do Homem

       Por natureza os homens são iguais e livres e têm direitos iguais sob todas as coisas. No puro estado de natureza, antes de os homens se terem obrigados mutuamente por quaisquer contratos, era permitido a qualquer um fazer uso do que quisesse e apoderar-se de tudo o que pudesse, para seu uso e gozo. Ao afirmar que todos os homens têm direito a todas as coisas, podem dois querer a mesma coisa, por isso, vivem numa constante competição. No estado natural tudo é permitido, por isso, todos os homens são iguais, todos têm direito a tudo; nesse caso, a igualdade é um fator que leva à guerra de todos.
       No estado natural Hobbes postula duas espécies de igualdade entre os indivíduos: igualdade de capacidade e igualdade de expectativas de satisfazer suas necessidades.
       A igualdade de capacidade se evidencia na própria experiência, pois, todos são iguais quanto às faculdades do corpo e do espírito. Quando se analisa os homens de forma individual percebe-se que não são iguais quanto às capacidades. Alguns têm a mente mais viva, outros têm o corpo mais forte, enquanto que outros possuem o corpo mais fraco. Portanto, temos que admitir a igualdade dos indivíduos no estado natural, pois ninguém é tão forte que não possa temer os outros e ninguém é tão débil que não possa instituir perigo.
             "A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito que, embora por vezes se encontre um homem manifestadamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que o outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa também aspirar, tal como ele. Porque quanto à força corporal o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte, quer por secreta maquinação, quer aliando-se com outros que se encontrem ameaçados pelo mesmo perigo" .
       Para Hobbes a prudência é uma igualdade maior do que a igualdade de força; não é nativa, mas pode ser conseguida pela experiência num tempo igual que se oferece igualmente aos homens naquelas coisas a que igualmente se dedicam. O que pode tornar inaceitável essa igualdade é a concepção vaidosa de sabedoria que cada homem julga possuir em maior grau do que os outros.
             "Pois a natureza dos homens é tal que, embora sejam capazes de reconhecer em muitos outros maior inteligência, maior eloqüência ou maior saber, dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios; porque vêem sua própria sabedoria bem de perto, e a dos outros homens à distância" .
       Isto prova que os homens são iguais neste ponto; todos julgam ser mais sábios que os demais.
       Hobbes afirma que no estado de natureza todos os homens são iguais, de maneira tal que nenhum pode triunfar totalmente sobre o outro. Neste estado de igualdade o outro se torna uma ameaça à minha estabilidade, porque no momento em que duas pessoas desejam atingir o mesmo fim, entram em conflito, e uma tenta destruir a outra para despossá-la do fruto do seu trabalho e de sua liberdade.
             "Desta igualdade quanto à capacidade deriva a igualdade quanto à esperança de atingir-mos nossos fins. Portanto se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo que é impossível ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos. E no caminho para seu fim (que é principalmente sua própria conservação, e às vezes apenas seu deleite) esforçam-se por se destruir ou subjugar um ao outro. E disto se segue que, quando um invasor nada mais tem a recear do que o poder de um único outro homem, se alguém planta, semeia, constrói ou possui um lugar conveniente, é provavelmente de esperar que outros venham preparados com forças conjugadas, para despossá-lo e privá-lo não apenas do fruto do seu trabalho, mas também de sua vida e de sua liberdade. Por sua vez, o invasor ficará no mesmo perigo em relação aos outros" .
       Os indivíduos são iguais, pois são portadores de necessidades e, a primeira luta surge no momento de satisfazer os desejos.
       Em seu estado natural os homens igualam-se também nas paixões, esforçam-se para satisfazer seus desejos e afastar o que não convém, isto é, o indesejado. Na igualdade das paixões os homens são iguais, quando desejam as mesmas coisas tornam-se inimigos. Os homens também igualam-se na violência. A priori podemos postular a igualdade dos homens, de tal maneira que desta igualdade de direitos, provenientes do uso possível e indiscriminado da força deduz-se uma segunda igualização, por intermédio da qual todos abrem mão desta liberdade "brutal" em proveito de um poder que assegure a todos a conservação da vida. Todos são iguais no medo recíproco, na ameaça que paira sobre a cabeça de cada um, da morte violenta. Os homens igualam-se neste medo da morte.
       A situação de igualdade resulta na insegurança e na desconfiança, pois a natureza não oferece o equilíbrio para que todas as pessoas possam satisfazer igualmente seus desejos. Não sabendo os desejos que os outros aspiram alcançar, muitas vezes é mais razoável atacá-lo ou derrotá-lo para evitar um possível ataque, caindo, assim, num estado de guerra. Neste estado de insegurança, a vida e a liberdade estão sob constante ameaça. Ora, acertadamente a atitude mais sensata é a luta, a não ser que um poder forte, como o do Estado, reprima e controle os indivíduos.

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