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Sinceridade
Ho
mem que pensas e que dizes o quepensas!
Se queres que entre os homens e entre
as causas
Tuas idéias vivam pelo mundo
Crê bem nelas primeiro, sofre-as bem,
Faze com que eles vivam na tua alma,
Na mais sincera intimidade do teu Ser!
Há idéias que na vida cultivamos,
Pela volúpia inútil de pensar,
Pela simples beleza, pela graça
Floral, pelo prazer que elas nos dão...
Por esse estado de ilusão chinesa
Em que nos adormecem a consciência:
Aquarelas efêmeras do espírito,
Paisagem meigas de imaginação,
Idéias lindas que não criam nada!
Elas passam, radiantes, coloridas,
Na flutuação superficial do Pensamento;
Sim, são plantas aquáticas , nelumbos
De ouro equatorial, ninféias encantadas
Pela prata dos luares sedativos,
Leve vegetação de tintas luminosas,
Sonhos das águas tremulas que passam
_ Raízes a boiar no espelho das
correntes, _
Com músicas de cores pelas plumas,
Vaidades femininas pelas palmas,
Mas sem um grão de vida, sem um
fruto,
Nessa esterilidade deslumbrante....
As idéias que criam, as idéias
Vivas que elevam religiões e impérios,
Gênios e heróis e mártires e santos;
As idéias orgânicas e eternas
Que dão nomes aos séculos, destinos
Ás raças, glória aos homens, força à
Vida,
Que nutrem almas e orientam povos,
Fecundam gerações e geram deuses
E que semeiam civilizações,
Essas terão que vir de nossa fonte
humana,
Deitando profundíssimas raízes
No generoso espírito em que nasçam:
Terão que ser humanas quer dizer,
Ser a nossa energia e a nossa fé,
Ser sementes recônditas, ser dores,
Sentimentos, paixões e quase instintos.
Ser vozes dos abismos transcendentes
Da consciência profunda... ser nós
mesmos
Porque as árvores mais fecundas são
aquelas
Que mais fundas estão nas entranhas
do solo
E mais fazem sofrer o coração da
Terra....
Raul de Leoni 1895-1926