CONTOS E CRÔNICAS
SINA
Águas de Março.
Dilúvio equatorial engolindo a várzea. Na imensa e imersa paisagem líquida o
homem agiganta-se na luta pela sobrevivência. Tudo se torna difícil sob o domínio
absoluto das águas. A caça, vasqueira. O peixe e o
camarão sumiram como por encanto. O açaí, em início de safra, mal começou a pretar. A fome ronda as cabanas erguidas sobre estacas às
margens dos rios. Rios prenhes de solidão e de incertezas onde a esperança
passa de bubuia à procura da tábua da salvação.
Em silêncio um casco desliza igarapé
acima. Mãos ágeis manejam o remo enquanto olhos atentos varrem as copas dos açaizeiros em
busca dos frutos da redenção. A safra promete ser generosa: árvores carregadas
de cachos; uns verdes, outros na floração, mal saídos das fofóias.
Os poucos que vão amadurecendo são disputados por periquitos e araçaris.
Venâncio, nascido e moldado sob o jugo
dessa realidade, mantém estreita relação com o meio. Conhece, como a palma da
própria mão, cada curva de rio, cada enseada, cada igarapé, cada barranco, cada
árvore. Nutre particular afeição pelos açaizeiros e trata-os como extensão de
sua família. Daí não ter aderido à exploração palmito, responsável pela
dizimação de açaizais inteiros. Não atinava como um palmo de talo salobro,
vendido por míseros centavos, pudesse valer mais que todo o açaí produzido
durante anos a fio por uma única árvore. Não atinava.
Estanca o casco bruscamente e apura o
olhar entre a folhagem: um grande cacho, ainda não totalmente preto, parece
sorrir-lhe do alto. Encalha o casco na ribanceira e caminha, afoito, rumo à
touceira de açaizeiros a poucos passos da margem do igarapé. Para subir
providencia uma peconha entrelaçando folhas de açaizeiro e, em seguida, aplica
golpes de terçado no chavascal que envolve a
touceira, ação preventiva conta a presença de cobras e
outros animais peçonhentos que costumam aninhar-se nesses locais. Ajeita a
peconha nos pés, enfia o cabo do terçado no cós do calção, abraça-se à árvore e
começa subir. Já a conhece de outras safras; a cada ano vai ficando mais alta e
flexível, enquanto ele, mais pesado e lento. Vencido mais da metade do percurso
o açaizeiro começa a vergar perigosamente. Uma rajada de vento faz a árvore inclinar-se
ainda mais, obrigando-o a recuar estrategicamente. O cacho de açaí, a poucos
metros, acena-lhe, desafiador. Precisa dele para garantir o pirão das crianças.
Pensa nelas. Um menino e duas meninas. Pensa na companheira grávida, em véspera
de parto, e ganha forças para continuar. A ventania amaina. Recomeça a
escalada, vence mais uns metros. Nova refrega, novo recuo. A altura é
considerável. Olha para baixo e vê o igarapé como uma boiúna gigantesca
serpenteando entre o matagal. Seus pés doem pressionados pela peconha e suas
pernas, antes firmes, agora já tremem um pouco. Lembra do irmão mais velho,
morto ao cair de um açaizeiro nas mesmas circunstâncias. Pensa em desistir. No
meio da safra não se arriscaria tanto. Agora a situação é outra: ir até o fim
ou voltar para casa de mãos abanando. Apega-se a Nossa Senhora de Nazaré e
vence, com rápidas braçadas, os últimos metros que o separam de seu objetivo. O
arco atrás de si denuncia o limite máximo de resistência da árvore. Rápido e
preciso retira o facão do cós do calção e golpeia a extremidade da munheca do
cacho, arrancando-o da haste com a mão esquerda. Como um raio escorrega até o
meio da árvore que, livre do peso, volta à posição original. Trêmulo, suando
frio, respira aliviado. O coração ainda bate forte mas
já não há o que temer. Desce, agora sem pressa, até tocar o chão. Livra-se da
peconha e firma o peso do corpo no chavascal. Sente
algo mover-se sob seus pés. Sente a picada. Um a dor fina, lancinante, indescritível percorre-lhe o corpo,
do calcanhar à nuca. Rodopia sobre si mesmo e projeta-se ao solo sobre o cacho
de açaí...
O Sol ainda vai alto, mas os olhos de
Venâncio, repentinamente anoitecidos, já não carecem de luz. Já não podem ver o
rio, a mata, a jararaca esgueirando-se sorrateiramente entre a folhagem, nem a
revoada de periquitos e araçaris que vieram
prestar-lhe a última homenagem.
ENCAVERNADO
Chove sobre a
cidade. Chuva densa, impiedosa. Chuva que exerce sobre
mim o estranho poder de conduzir-me às brenhas de mim mesmo qual animal acuado
à procura da toca. Troglodita indefeso em busca do ventre pétreo da caverna...
Mergulho em meus comigos
a cismar sobre o destino da Terra e do Homem – esse construtor de estradas para
lugar nenhum. Mas quando a antevisão do caos me deixa apavorado e triste,
transponho os muros do real e vou colher, no pomar dos sonhos, os pomos
dourados da poesia.
Os poetas somos, em nosso ofício, criaturas solitárias por razões
que bem não atino. Talvez pela necessidade de estarmos a sós com a palavra no
momento mágico da concepção da poesia, para que nenhum mortal possa testemunhar
a dor ou a alegria estampadas em nossas faces na hora do parto do poema.
Chove. Cerco-me de palavras para tentar esquecer que
neste momento o planeta é oferecido em holocausto aos deuses do progresso e
que, em nome de Deus e da Justiça, homens sacrificam-se mutuamente, como se
possível fosse conceber guerras justas e santas!...
Tento desesperadamente convencer-me de
que a poesia está acima do bem e do mal, acima dos homens, de suas leis,
crenças e ideologias. Digo a mim mesmo que os poetas somos seres privilegiados,
que não devemos, por isso, deixar que a voz das armas fale mais alto aos nossos
ouvidos que a voz do vento, que a voz do mar, que a voz do nosso coração. Mas é
impossível enganar-se a si mesmo quando se tem o peito dilacerado por uma bala
ou por uma lâmina de baioneta que, sem pedir licença, invadem nossos lares via
satélite. Impossível não escutar as trombetas do Apocalipse anunciando que mais
cordeiros serão imolados para saciar a sede de modernos e sádicos vampiros.
A chuva faz-me regredir no tempo e
voltar à caverna, jardim de infância da humanidade onde o homem rabiscou a
primeira flor, domou a primeira fera, articulou a primeira palavra, fabricou a primeira
arma e, seguramente, organizou a primeira batalha contra seus semelhantes...
Os ruídos da chuva misturam-se ao som
do televisor que exibe imagens de um conflito qualquer. Imagens cruéis,
animalescas. Fatos que fazem com que eu me sinta, verdadeiramente, um
troglodita cercado de feras e condenado aos limites de minha própria caverna.
Humana e trágica caverna a se fechar, cada vez mais, em torno de meus medos,
meus delírios, minhas convicções...
E é assim que vejo a alegoria platônica
da caverna realizar-se em mim. Atualizar-se com o regresso do homem ao seu
primitivo útero de pedra. Mas, ao contrário do mito, já não há boas novas para
anunciar. Apenas a triste constatação de que o homem moderno, a despeito de sua
avançada tecnologia que lhe permite destruir seus semelhante e o meio em que
vive com o auxílio do átomo, não conseguiu ser um pouco melhor que seus
ancestrais que já faziam o mesmo com paus e pedras. É triste admitir que em
plena era da informática as armas continuem a falar mais alto que as palavras e
que estas sirvam de instrumento para promover a discórdia entre os povos, para
inverter e perverter valores, para transformar a liberdade numa “calça velha,
azul e desbotada...”
A chuva passou, mas eu continuo
entrincheirado entre palavras. Afundo e confundo-me nelas para proteger-me das
garras do ódio, para resistir às leis das armas. Com elas fabrico,
quixotescamente, meu escudo e minha lança para investir contra os moinhos da
insensibilidade humana.
Os poetas somos criaturas solitárias a
esgrimir com o verbo. E precisamos, urgentemente, de paz para continuar
semeando amor e poesia nos canteiros do mundo, nos pomares da vida, nos
corações dos homens.
METAMORFOSE
(Conto vencedor do 1º
Concurso CATA de Literatura, promovido pela Fundação Valdemiro
Gomes, em 1988)
A noite envolve a
floresta em seu sudário. Pouco a pouco a Lua liberta-se das copas das árvores
para espiar o rio deslizar em silêncio entre jarandubas.
De repente um punhal de fogo rasga a mortalha da noite e o estampido de um foguete quebra o
silêncio. Em poucos segundos novos fachos de luz varrem o céu e o troar ecoa nas
lonjuras insondáveis assustando a vida notívaga das redondezas e, ao mesmo
tempo, avisando os moradores das cercanias que no velho barracão de madeira e
palha, debruçado sobre o rio, a festa do Santo Padroeiro estás começando. Após
a ladainha, haverá arrasta-pé no salão de paxiúba-batida
sob a luz de velhos candeeiros a querosene.
A Lua vai alta quando cessam os últimos
“orai pro nóbis” nas bocas dos rezadores. A parte
profana vai começar. A cuíra é geral. Num canto da
sala, à ilharga do oratório enfeitado de fitas onde alguns cotos de velas ainda
ardem nos castiçais de bronze, Dico Pimenta arranca
as primeiras notas da velha clarineta herdada do avô, com quem aprendera os
primeiros acordes. Presença garantida nas festas do lugarejo,
sempre acompanhado pela viola fiel do Neco Libório.
Mas nessa noite há um certo quê de
intranqüilidade rondando o ambiente. Se no rosto de cada caboclo a preocupação
transparece, no semblante de cada ribeirinha há um furtivo ar de ânsia e de
espera. Mas, afinal, o que será que semeia tanta preocupação nas almas dos
homens e inunda de ansiedade os corações das mulheres?
Ninguém sabe explicar com segurança. Tudo começou quando um rapaz começou a
freqüentar as festas, saído sabe Deus de que brenhas. Ninguém o conhecia na
localidade ou, pelo menos, cruzara seu caminho durante o dia. A verdade é que
todas as vezes que havia festas por aquelas bandas lá estava ele envergando elegante
terno de linho branco a rodopiar no salão, arrancando suspiros inconfessáveis
das moças interioranas e crivando de inveja e ódio os espíritos dos jovens
caboclos. E não era para menos: o garboso mancebo, além do alinhado fato branco
e do inseparável chapéu de abas largas a sombrear-lhe a face enigmática,
ostentava, ainda, um belo relógio de pulso folheado a ouro, um reluzente par de
negros sapatos e um vistoso cinturão de pele de cobra com dois rubis encravados
na fivela. Jamais alguém o ouvira pronunciar uma só palavra. Um olhar sedutor
acompanhado de um leve gesto com a cabeça na direção de uma dama era o bastante
para que ela, alma em fogo e o coração em brasa, se lançasse
perdidamente em seus braços. E como dançava!... Onde aprendera a dançar daquela
maneira ninguém sabia. Nem mesmo a superfície irregular do soalho de paxiúba era capaz de obstruir a elegância de seus passos.
Quando menos se esperava, desaparecia sem deixar vestígios, levando consigo,
sabe Deus como, a moça com quem dançava minutos antes,
deixando, em seu lugar, o medo e a tristeza plantada nos rostos dos amigos e
parentes da infeliz. A festa findava ali. No dia seguinte, após fatigável
busca, a vítima era localizada num trecho qualquer das margens do rio, olhar
mortiço a fitar o vazio, trazendo, agora, a germinar no ventre, a semente
indesejável de um amor maldito.
Os mais velhos aceitavam o fato como
obra do destino, algo terrível e fatal contra o qual não tinham como lutar. Já
os mais jovens não se conformavam ante a situação de terem suas irmãs,
namoradas e até noivas infelicitadas por esse ente maligno do qual nem sequer o nome sabiam.
O grão da revolta há muito tempo
semeado e regado na alma dos nativos, germinou e ganhou corpo com tanta
intensidade que nessa noite um grupo deles planejou acabar com aquele estado de
coisas, caso o
diabólico rapaz de branco ousasse aparecer na festa.
Indiferente ao destino da humanidade, a
Lua singra os mares celeste derramando sua luz sobre
seres brutos e mortais. É preamar. O rio interrompe seu fluxo por uns instantes
como a recobrar forças para reiniciar sua perene jornada em direção ao mar. De
repente, como se fora o próprio luar materializado, uma figura humana em trajes
resplandecentes surge no terreiro. Passos lentos e firmes transpõe o batente da
porta do barracão. Não há surpresa. Apenas indignação e raiva no olhar dos
homens contrastando com a indissimulável alegria bordada no olhar das moças.
Após o impacto emocional do primeiro
instante a festa prossegue, embalada ao som da velha clarineta do Dico Pimenta, acrescida, agora, de mais um cavalheiro que,
indiferente a tudo, volteia pelo salão mal iluminado,
ora com uma, ora com outra dama que completamente mundiadas
disputam-lhe a posse.
A festa vai rasgando a madrugada quando
o estalido seco de uma bofetada dá início à briga premeditada pelo grupo de
rapazes com o intuito de nela envolver o intruso dançarino. O furdunço é total. As mulheres, apavoradas, correm em busca
de abrigo. O cerco se fecha em volta do misterioso rapaz de branco que num
salto felino livra-se da dama e, com movimentos incrivelmente ágeis, vai
escapando das peixeiras ávidas de sangue. A cena insólita tende ao
sobrenatural. Facas relampeiam em busca do corpo do fantástico ser e nada
encontram. O cansaço e o medo apoderam-se dos ribeirinhos. Em dado momento o
moço mergulha no mar de facas em direção ao soalho para recuperar o chapéu
perdido na contenda. Ao levantar-se uma mancha vermelha macula a lapela
esquerda do terno branco. Mortalmente ferido, consegue, num derradeiro esforço,
lançar-se porta a fora em direção ao rio. Novas e
violentas facadas o prostram, definitivamente, a poucos passos da ribanceira.
O barracão, outrora festivo, se veste
de silêncio. Somente o rio murmura entre barrancos sob o jugo da maré vazante.
O povo, ainda sem entender direito o que aconteceu, vai formando um circo ao
redor do corpo agonizante que, em dado momento, com um pavoroso grunido estremece devolvendo à fria atmosfera seu último
suspiro. Nesse instante, com o terror desenhado nos rostos, os presentes
testemunham uma estranha e aterradora metamorfose: aquilo que antes pareceram,
aos olhos de todos, um par de negros sapatos a deslizar faceiros pelo salão,
retoma a forma original de dois acaris; do belo relógio de pulso, que tanta
inveja despertava nos corações dos jovens caboclos, nada mais resta além de um
pequeno caranguejo e o cinturão de pele de cobra com rubis na fivela,
revela-se, agora, uma temível jararaca-do-barranco.
Finalmente, rostos banhados de luar e pânico, aquela gente simples do interior
da Amazônia vê o inseparável chapéu de abas largas do rapaz de branco
transformar-se, ante seus olhos, numa arraia que agora debate-se
indefesa ao lado do corpo inerte e exangue de um formidável boto tucuxi.
“VERÁS QUE UM FILHO
TEU NÃO FOGE À LUTA!”
Sete de Setembro de 1999. A exemplo de
anos anteriores eu participava da “Marcha dos Excluídos”, ato público a nível
nacional organizado por setores da Igreja, partidos de esquerda e segmentos da sociedade
organizada para denunciar os crônicos problemas do Brasil, de Cabral aos dias
atuais.
Como de costume eu distribuía corações
de papel contendo trovas contextuais, entre os manifestantes e o público em
geral, como as que seguem:
Acobertando
bandidos,
vai a Justiça, em verdade,
aumentando a impunidade
e a procissão de excluídos!
*
Existe,
em nossa República,
gente mal-intencionada
fazendo na vida pública
o mesmo que na privada!
*
Brasil,
país onde abunda
a impunidade e seus traumas:
o povo toma na bunda
e o governo bate palmas!
Entramos no rabo do último pelotão do
exército que participava da “parada militar” e seguimos pela avenida Serzedelo Correa rumo à Presidente Vargas, onde a polícia
militar já estava postada com “ordens superiores” de não deixar ninguém passar.
Os organizadores do ato ainda tentaram dialogar com os “donos da rua” sem
sucesso. A partir daí, já com os ânimos exaltados, os manifestantes forçaram a
barra gritando palavras de ordem contra a repressão, mas foram recebidos pelos
milicos com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Instalou-se o caos:
gritos, correria, tosses e sufocamentos provocados
pelo gás de efeito (i)moral. Muita gente ferida,
inclusive este valente escriba, atingido por estilhaços de bombas nos braços e
barriga.
Tentando proteger minha estimada
carcaça, entrincheirei-me detrás de um carro esperando a refrega passar,
enquanto o locutor do carro-som dos manifestantes pedia, desesperadamente,
calma de ambas as partes. No espaço vazio que se formou entre os manifestantes
e a polícia, uma grande faixa de pano jazia sobre o asfalto, abandonada por
seus condutores, onde se lia, ironicamente, em letras garrafais:
“BRASIL, VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA.!”
Home Histórias
do Arco da Velha Eventos Culturais
Poesia
& Cia Ltda A
Turma do Park Links
Trovas Fábulas Histórias Caboclas
E-mail
Contos
e crônicas Obras Publicadas Biografia