

Juventude
Socialista Núcleo da Freguesia de Louriceira
Liberdade e Democracia
No ano em que comemoramos os 25 anos do 25
de Abril de 1974, eu, um jovem de 23 anos, que não viveu o Estado Novo, nem a
descolonizarão, nem o conflito entre a esquerda e a direita (ambas sob as suas
diversas formas), não foi ao comício da Alameda, não assistiu aos desvarios
"socialistas " dos SUV ou dos soldados do COPCON (gadelhudos e sempre
em pé de guerra) e muito menos aos tiros do 25 de Novembro, resolvi escrever
sobre aquilo que entendo por liberdade e democracia.
Se não estou em erro, um sistema democrático
é aquele em que todos nós temos uma palavra a dizer sobre a política e a
sociedade, todos temos a oportunidade de participar na vida política e, acima
de tudo, todos temos o dever de exercer os nossos direitos. Pois
é, isto parece um contra-senso que muita gente não compreende. Afinal, a
democracia é um direito ou um dever?
Todos nós temos consciência de que num
sistema democrático todos temos o direito de dizer o que pensamos, de pensar o
que dizemos, e aliás, até temos o direito de pensar, ponto final! Mas pouca
gente, infelizmente, reconhece que deve ser responsável pelo que pensa e pelo
que diz. Igualmente, pouca gente reconhece a importância de, pura e
simplesmente, pensar e dizer, e também de actuar, apesar de essa ser uma das
bases da liberdade e da democracia.
Então temos aqui um problema de
responsabilidade, que é a participação (ou falta dela) dos cidadãos na vida
política da sua sociedade. Os problemas de que a sociedade padece devem ser
discutidos, sem complexos e sem meias palavras, mas frequentemente não o são.
Igualmente, as pessoas tendem a alhear-se da vida política, apesar de ela tão
directamente lhes dizer respeito. Ao cidadão cabe o papel de, em 1º lugar,
questionar os políticos e a sua actuação e, em 2º lugar, propor soluções para
os problemas. Mas poucos de nós fazem isso.
Quando me falam dos políticos, da sua
inactividade e da sua politiquice, eu por vezes pergunto "então e tu,
fazes alguma coisa para resolver esse problema, para mudar as coisas? Estarias
disposto a fazer política?", e a resposta é invariavelmente negativa. Ora
como poderemos então resolver os nossos problemas se ninguém está disposto a
trabalhar para a sua resolução?
Se as pessoas não se querem responsabilizar,
então como querem ter direitos? Por exemplo, quando atingimos a maioridade,
passamos a ter o direito ao voto, a pertencer a partidos políticos, a ir jogar
ao casino, a poder guiar um carro, etc. . São direitos interessantes, e muito
importantes. Mas ao mesmo tempo, passamos a ter mais responsabilidades cívicas,
legais e políticas. Podemos ser presos, podemos ser chamados a defender a
Pátria, passamos a ter o dever de votar, e assim por diante. Com a democracia é
o mesmo. Para termos mais liberdade, ou seja, mais direitos, temos de termais
responsabilidades, e acima de tudo, assumi-las. É complicado, é duro, mas é
assim. Caso contrário, como poderemos ser merecedores?
Actualmente, os jovens elementos da nossa
sociedade olham para a Liberdade e a Democracia como dados adquiridos, com os
quais não se precisam de preocuparem demasia. Só se preocupam quando sentem os
seus direitos em risco, nomeadamente quando lhes afecta a "paródia".
Poucos, no entanto, estão dispostos a sacrifícios para conservar essa
liberdade.
Quando ouço dizer de pessoas, infelizmente
muitos deles jovens, que "não pedi o direito ao voto, estou-me a cagar
para isso, a política é tudo a mesma merda!", não evito deixar de pensar
nas pessoas que estiveram em Peniche e no Tarrafal, nos deportados e exilados,
em todos os que foram perseguidos pela PIDE, e que sofreram para que, agora,
aqueles jovens pudessem dizer isso. Se bem que a vida no Estado Novo não fosse
tão má como por vezes se pinta, e só alguns fossem efectivamente perturbados
pela PIDE, o facto é que a maioria da população nem sequer pensava em política,
deixava que a sua vida e a vida do país fosse dirigida por alguns
"iluminados", que exerciam o seu poder de uma forma paternalista,
"poupando" aos cidadãos as "chatices do poder".
Pessoalmente, eu sou daqueles que gostam de
se preocupar com isso, e não gosto desses "iluminados" que pretendem
pensar por mim. Acho que todos nós temos a capacidade de pensar e actuar sobre
os problemas que todos nós vivemos, e nunca um cidadão se pode furtar a
participar na vida da sociedade.
Como posso falar eu de Democracia quando não
tenho voz nem participação activa na vida nacional, quando não tenho capacidade
de me fazer ouvir? E agora que a tenho, depois do 25 de Abril, que desculpa
tenho eu para não actuar, para não falar, que tipo de liberdade e democracia
mereço eu se não luto por ela?
É que essa coisa de Democracia tem muito que
se lhe diga, exige trabalho, esforço, consome tempo e energias, mas tem um
resultado prático, muito saboroso: mais Liberdade!
António
Abreu*
* Pseudónimo
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