APOSTILA DO CURSO DE NOÇÕES BÁSICAS SOBRE CRIAÇÃO DE RÃS

   João Simões Paiva Neto, Andréa Galvão César Pimenta, e Cláudia Maris Ferreira

 Histórico

 A história da Ranicultura no Brasil teve início com Tom Cyrril Harrison, que na década de 30, trouxe do Canadá para o nosso país, os primeiros 300 animais da espécie Rana catesbeiana Shaw, 1802, popularmente conhecida como rã-touro. O primeiro ranário comercial implantado no Brasil foi o Ranário Aurora, situado nas proximidades da rodovia Presidente Dutra, no estado do Rio de Janeiro.

Os primeiros ranários comerciais brasileiros foram construídos a partir de 1975, geralmente de forma empírica. Os tanques de criação e engorda eram chamados de tanques múltiplos (VIZOTTO, 1975), onde se ofereciam diversos tipos de alimento, que invariavelmente recaiam em bofes e restos de carcaças em decomposição para a atração de insetos (dípteros) e produção de larvas. Essa rotina causou um impacto negativo nos ranários, pois o aspecto e o cheiro eram tremendamente desagradáveis.

            Sucederam-se a essa estrutura os sistemas e engorda conhecidos como tanque-ilha (Fontanello et al., 1984), confinamento (Ribeiro et al., 1984); anfigranja (Lima & Agostinho, 1986); gaiolas (Fontanello et al., 1988); ranabox (Aguiar, 1990); climatizado (Fontanello et al., 1993) e inundado (Malzoni et al., 1995). Entre essa gama de opções estruturais para construção de ranários os produtores brasileiros muitas vezes acrescentaram detalhes ou mesclaram sistemas, de onde surgiu o que se costuma denominar sistemas híbridos (Melo, 19  ).

            Ao longo desses anos a ranicultura brasileira passou por diversas fases com oscilação do número de produtores e alternância entre tecnologias de criação. Hoje o Brasil conta com aproximadamente 600 ranários implantados, 15 indústrias de abate e processamento (7 com SIF e SIE e 8 com processos em andamento), 6 associações estaduais de ranicultores, 4 cooperativas (LIMA et al., 1999) e uma associação de pesquisadores (ABETRA).

  Biologia da rã

    A rã é um anfíbio da ordem Anura, família Ranidae, tendo como característica principal à presença de membranas interdigitais (semelhantes a pés de pato) nos membros posteriores. Como todo anfíbio, sua temperatura e metabolismo variam de acordo com a temperatura do ambiente, caracterizando-as como ectotermas (sangue frio).

Ao contrário de outros anuros, essa rã é especialmente dependente da água, quer seja para se reproduzir, realizar o equilíbrio hídrico, defender-se ou para eliminar excretas e peles antigas. É conhecida como rã-touro (Bullfrog), pois o macho na época da reprodução emite um coaxar potente muito parecido com o mugido de um boi.

É considerada um animal exótico, pois é originário do Norte dos EUA e Sudeste do Canadá (BURY & WHELAN, 1985), onde vivem em temperaturas abaixo de 0ºC durante vários meses do ano. Quando esses animais foram introduzidos no Brasil, adaptaram-se perfeitamente as nossas condições climáticas, o que os privilegiaram em seu aspecto de reprodução e engorda, passando a atingir peso de abate e maturidade sexual rapidamente (7 meses e 1 ano, respectivamente).

As rãs nacionais (Leptodactilideos - rã pimenta, rã manteiga, rã paulisstinnha), diferem da rã-touro, pela ausência de membranas interdigitais nos membros posteriores, hábitos, coloração e vocalização entre outras características. Apresentam uma prolificidade (no  de ovos) e precocidade (crescimento) inferior a R. catesbeiana.

Existem várias diferenças visíveis entre as rãs, pererecas e sapos, Tabela 1.

 Tabela 1 - Principais diferenças entre rãs, sapos e pererecas*

 

RÃS

SAPOS

PERERECAS

Gênero 

Rana

Bufo

Hyla

Tamanho

Pequeno a grande

Médio

Pequeno

Cor

Verde a marrom

Marrom

Diversas

Corpo

Esguio e liso

Troncudo e rugoso

Frágil

Veneno

Sem

Com glândulas

Geralmente sem**

Patas

Longas e musculosas

Pequenas

Longas com ventosas

Desova

Espalhada

Em cordão

Em espuma

Dependência da água

Total

Só para reprodução

Parcial

* Características geralmente mais comuns

**Existem algumas espécies (dendrobatídeos) na Amazônia que possuem veneno difuso espalhado pela pele.

As rãs apresentam pele úmida e glandular; dois pares de extremidades para andar ou nadar; duas narinas; olhos freqüentemente com pálpebras móveis; boca geralmente com dentes finos; língua freqüentemente protátil; esqueleto de grande extensão óssea; crânio com dois côndilos occiptais; coração com três câmaras (2 aurículas e 1 ventrículo); encéfalo com 10 pares de nervos craniânos; fecundação externa ou interna; maioria ovípara; ovos com algum vitélo e encerrados em cápsulas gelatinosas.

 Como diferenciação entre machos e fêmeas, temos principalmente:  

MACHOS                                                              FÊMEAS

Região gular amarelada.                                  Região gular esbranquiçada.

Pavilhão auditivo tem o dobro do                      Pavilhão auditivo tem o mesmo

Tamanho do globo ocular.                                tamanho do globo ocular.

Coaxam na época da reprodução.                    Não coaxam.

Membros anteriores mais fortes.                      Membros anteriores menores.

Apresentam calos sexuais.                               Não apresentam calos sexuais.

 

Elas vivem a primeira parte de sua vida somente dentro da água doce. Nessa fase recebem a denominação de girinos. A seguir passam por um processo denominado metamorfose, onde sofrem transformações fisiológicas e anatômicas. Somente quando terminam esse processo é que passam a viver também na terra. As rãs recém metamorfoseadas recebem o nome de imagos.

Os girinos são onívoros, e possuem respiração cutânea (pele), bucofaríngea e principalmente branquial. As rãs são carnívoras e caçadoras e têm respiração bucofaríngea, pulmonar e cutânea.

Pré-requisitos para instalação

     Para uma criação ser bem sucedida além das práticas adequadas de manejo é necessário atentar para alguns fatores essenciais:

·      O futuro criador necessita de informações de boa procedência e de fonte idônea, que o torne apto a realizar um bom planejamento de suas instalações.

·      O terreno deve ser suficiente para a construção planejada e deve ter água boa e com a vazão adequada para atender os requisitos do projeto. De preferência deve ter uma certa declividade e se possível a água deve ser captada por gravidade, economizando-se assim gastos com encanamentos e eletricidade com bombas.

·      A água ideal é a de nascentes (minas). Águas de poços artesianos ou semi-artesianos são boas, mas deve-se levar em consideração os gastos relativos a sua construção. Águas de ribeirões, rios, riachos e represas são merecedoras de atenção, pois podem receber descargas de agrotóxicos, fertilizantes e/ou fossas (coliformes fecais) que causarão mortalidade ao futuro plantel. Em qualquer uma das situações sempre antes de inicar um projeto de aquicultura deve-se fazer uma análise física e química da água de abastecimento e um exame bacteriológico.

·      As rãs são extremamente dependentes da temperatura ambiente, portanto desenvolvem-se melhor em regiões mais quentes.

·      É necessário ter disponibilidade de mão de obra em tempo integral (2a a 2a ).

·      A condição financeira deve ser adequada ao tamanho do projeto.

·       Outros aspectos importantes são a proximidade com os centros consumidores e as facilidades das vias de acesso.

 Como as rãs têm diversas etapas de desenvolvimento, existem ranicultores que se dedicam a uma ou outra etapa, optando por não realizar o ciclo completo. Assim, podemos assumir que existem produtores que apenas criam girinos para vendas externas ou os que compram imagos e apenas fazem a engorda. Alguns trabalham de forma "artesanal", e poucos têm recursos para incluir um abatedouro em suas instalações. Para ser rentável comercialmente (seguindo-se os preços médios praticados no mercado atualmente) um ranário deve ter em média de 500 a 700 m2. Com esse tamanho ele estaria apto a produzir aproximadamente 200 Kg de carne por mês.

Um ranário completo apresenta-se dividido basicamente nos setores de: Reprodução, Desenvolvimento Embrionário, Girinagem, Metamorfose e Engorda.

  Setor de Reprodução

     O setor de Reprodução é a área do ranário onde devem permanecer durante as épocas mais quentes do ano os animais reprodutores (matrizes).

Para a escolha de um bom reprodutor, deve-se observar algumas características como peso corporal dos animais (acima de 250 g), idade não superior a 3 anos e ausência de machucados externos.

No sistema de reprodução coletivo as desovas na região subtropical ocorrem entre a primavera e verão e em regiões mais quentes do país ela pode ocorrer durante o ano todo. A desova da R. catesbeiana tem em média cerca de 5000 ovos, sendo que uma mesma fêmea conforme sua idade e peso pode vir a atingir 20.000 ovos por postura. Contudo, para efeito de planejamento de um ranário, consideramos 3000 ovos um número viável em cada desova.

Esse setor deve simular as condições que as rãs encontram na natureza, mas sem prejuízos aos índices zootécnicos desejáveis. Ele é composto de um tanque principal com uma ilha central onde é feita a alimentação e, tanques de postura medindo 1,00 x 1,00 x 0,15 m chamados de "moteizinhos". Esses tanques de postura são procurados pelos machos na época da reprodução, que os defendem como território de acasalamento. Nessa ocasião os machos começaram a cantar para atrair a atenção das fêmeas e disputam os territórios escolhidos defendendo-os muitas vezes até a morte. A cópula acontece dentro da água e geralmente à noite. Os óvulos são colocados sobre a água e o esperma depositado sobre eles ocorrendo então uma fecundação externa.

Deve-se aguardar um "tempo de segurança" de aproximadamente 2:00 horas antes do recolhimento das desovas. Os ovos são recolhidos com apetrechos simples como baldes e recipientes de plástico e também com puçás. Devem ser depositados delicadamente no balde para o transporte ao próximo setor.

As dimensões do Setor de Reprodução irão depender da produção pretendida pelo criador. O tamanho mínimo sugerido é de 35 a 40 m2. A quantidade de água do tanque principal deverá estar entre 20 a 30% da área total do Setor de Reprodução (sem contar a água dos tanques de postura) e sua profundidade não deverá ser superior a 0,40 m. Sugere-se sua construção em alvenaria entremeada com grama. Esse setor deve ser construído longe de encostas ou locais que possam provocar sombreamento.

A temperatura, fotoperíodo e iluminação são fatores que influem diretamente na performance dos animais no setor de Reprodução.

Na ocasião do povoamento do setor pelos reprodutores, deveremos observar os seguintes procedimentos: densidade dos animais deve ser de 3 rãs/m2 ; a proporção entre machos e fêmeas deverá ser de 1:1 ou 2:1 ou seja um macho para uma fêmea ou duas fêmeas para um macho.

O abastecimento de água dos tanques ocorre em fluxo contínuo. Nos tanques de postura, as entradas e saídas devem ser independentes e sugere-se evitar a intercomunicação entre eles para que não ocorram contaminações por doenças ou outros fatores prejudiciais.

Por último alertamos para o fato da rã ser um animal tímido, que sempre foge ou se esconde ao menor sinal de perigo. Então, é muito importante evitar situações de “stress” para o animal, principalmente na época de reprodução. O “stress” pode causar “abortos” e ser o fator gerador de diversos tipos de doenças. Assim, aconselha-se evitar barulho em excesso, troca constante de tratadores, limpeza excessiva ou qualquer outra situação estressante.

 Setor de Desenvolvimento Embrionário

     Após a ocorrência das desovas e seu recolhimento, devemos transportá-las para o setor de Eclosão ou Desenvolvimento Embrionário, onde deverão permanecer até que os ovos eclodam.

Esse setor pode ser construído sob um galpão com cobertura de telhas de amianto, ao contrário das outras estruturas que devem estar sob estufa agrícola. Isso se explica pelo fato de que na estufa as temperaturas oscilam de forma muito brusca, ao passo que fora dela, em coberturas comuns, as temperaturas oscilam naturalmente sem mudanças bruscas, o que é prejudicial para as desovas.

Os tanques desse setor, são idênticos aos tanques de postura, ou seja, medindo 1,00 x 1,00 x 0,15 m e tanques maiores com 0,40 m de profundidade que são os chamados tanques de "start de crescimento ".

Utilizamos também nesse setor, estruturas chamadas incubadoras que são quadros de madeira com telas de nylon, que são colocados dentro dos tanques de eclosão, com a função de manter as desovas na superfície para melhor oxigenação. A desova deve ser despejada cuidadosamente no tanque de eclosão, sobre a incubadora e permanecer assim durante 5 a 7 dias (dependendo da temperatura da água). Quando após a eclosão as larvas atingirem o estágio de nado livre, movimentando-se ativamente pelo tanque, deve-se retirar a incubadora. A partir desse momento, podemos começar a fornecer alimento (ração) na forma farelada, em quantidades mínimas. O girino nessa fase é onívoro, mas ainda pode estar se alimentando de reservas nutritivas do ovo, por isso é natural que eles se alimentem pouco.

Após esse período os animais devem ser transferidos para o tanque de "start" onde permanecerão por no mínimo 15 dias até que fiquem mais fortes e possam ser transferidos para o setor de Girinagem. Nessa ocasião deve-se realizar uma contagem dos animais através de amostragens para ter-se um idéia do número de animais e poder-se calcular a quantidade de alimento a ser fornecida.

  Setor de Estocagem

     Após o tempo de permanência no setor de Eclosão ou Desenvolvimento Embrionário, a seqüência lógica é colocar os animais tanques de girinagem para seu crescimento e metamorfose. Contudo, é comum o criador produzir mais girinos do que seus tanques possam comportar, ou ainda, que passe a época propícia e não tenha sido possível metamorfosear uma grande parcela de seus girinos. Assim, uma das opções do criador é a venda do excesso de girinos ou realizar a estocagem desses animais impedindo sua metamorfose. Isso é possível controlando a temperatura da água, a densidade e a alimentação.

Para controlar a temperatura é necessário construir esse setor fora das estufas, para que a temperatura oscile como a do ambiente, ele pode inclusive estar ao ar livre, apenas com proteção no teto contra chuvas e ataques de predadores (por exemplo libélulas).

A época mais fria do ano é a melhor para se fazer a estocagem, pois pode-se mais facilmente mantê-los em baixas temperatura, na faixa de 16 a 23 °C. A quantidade de alimento a ser oferecida é de 1% a 2% do peso vivo dos animais por dia. A densidade para estocagem é de até 20 girinos/litro de água, conforme o tamanho do animal. Se os girinos estiverem muito grandes, essa densidade deve ser diminuída. A critério do produtor, conforme sua necessidade, os animais podem ser transferidos para o setor de girinagem e metamorfose para completarem seu ciclo.

Pode-se utilizar nesse setor caixas d'água, tanques circulares, retangulares ou quadrados, com profundidade não superior a 0,50 m e excelente oxigenação. Os parâmetros que devem orientar essa decisão são as condições adequadas de manejo e o custo e toxicidade do material a ser empregado.

  

Setor de Girinagem e Metamorfose

     O setor de Girinagem e Metamorfose é uma estrutura constituída de tanques com um  grande espelho d'água e de pouca profundidade cujo objetivo é receber os girinos para seu desenvolvimento e transformação em imagos.

As dimensões desse tanque variam muito de ranário para ranário. O importante é que a profundidade não ultrapasse 0,40 m, pois tanques muito profundos comprometem o aquecimento da água e podem interferir na quantidade de oxigênio. A com água desse tanque é denominada Girinagem, onde o animal estará se movimentando e se alimentando. Em um dos lados do tanque posiciona-se uma rampa seguida de uma canaleta que, constituí-se na parte denominada Metamorfose. Essa canaleta deverá ter uma porção de água (0,02 m) para hidratar a pele do imago e quando necessário um pequeno abrigo, já com ração sólida misturada com o devido indutor biológico (larva de mosca) para que o animal vá se adaptando a esse tipo de alimento.

Nos tanques de girinagem precisaremos de água abundante, entrando de forma vigorosa de modo a facilitar sua oxigenação, e uma saída suficiente para uma boa renovação. A água deve ser de boa qualidade, livre de poluentes e de predadores que costumam vir por canos, como por exemplo, peixes, caramujos, larvas de libélulas e esse possível livre também de algas e lama.

A densidade para povoamento desses tanques é de 1 girino para cada litro de água devido a sua necessidade de espaço.

O tempo de permanência dos animais nesse setor será de aproximadamente três meses durante a primavera e verão. A alimentação oferecida pode ser constituída de ração farelada com 40% de proteína de origem animal e vegetal e granulometria inferior a 0,42 mm.

O girino nessa fase sofrerá mudanças fisiológicas e anatômicas muito complexas. Mudará o regime alimentar, de onívoro para carnívoro e apresentará mudanças fisiológicas que envolvem uma queda de resistência. Devido a essas modificações o animal a medida que se aproxima da metamorfose diminui o consumo de alimento. Em virtude disso, temos uma quantidade certa de alimento a ser fornecido durante os três meses de permanência no setor. No primeiro mês recomenda-se fornecer 10% do peso vivo do animal por dia; no 2º mês 5% e no 3º mês 2% de seu peso vivo por dia. Essa quantidade deve ser dividida em 2 a 4 porções a serem ofertas ao longo do dia vezes ao dia. Mesmo com esse manejo muitas vezes chega-se a atingir uma perda de 20% dos animais durante essa fase.

Espera-se que ao longo dos 3 meses os animais estejam transformados em imagos e prontos para serem transportados ao setor de engorda.   

Pré-engorda ou Seleção Fenotípica

     Como já mencionado após a metamorfose as rãs mudam seu hábito alimentar tornando-se carnívoras, caçadoras e canibais. Em outras palavras, os imagos apresentam um apetite voraz e a menos que se façam triagens (separação por tamanho) as perdas podem ser grandes.

O setor de Pré-engorda ou Seleção Fenotípica abrange um período de 30 dias, no qual os imagos (rãs recém metamorfoseadas) “aprendem a comer”. Nessa fase eles apresentam um crescimento exponencial, passando de 4 a 5 g para 20 a 30 g. O principal objetivo desse setor além do condicionamento é realizar a seleção dos animais que apresentam potencial de crescimento, ou seja, os com maior precocidade. Isso será evidenciado nos primeiros 30 dias de engorda. Durante esse período o manejo indicado é o seguido pelo processo de seleção natural, prevalecendo os mais fortes e eliminando-se os mais fracos. Desse modo, os animais mais fortes sobreviveram e os mais fracos sucumbirão, quer seja por canibalismo ou outros fatores adjacentes. Animais que em condições de engorda comum não apresentariam um crescimento ideal, aqui serão eliminados, e animais que se apresentem vistosos e com bom crescimento, poderão até mesmo ser aproveitados para a renovação do plantel de reprodutores. A densidade recomendada para a esse setor é de 100 rãs/m2.A taxa de canibalismo, mortes e animais que não se desenvolvem adequadamente,  esperada para essa fase é de 30%. As rãs com peso médio em torno de 20 a 30 g devem então ser transferidas para o setor de Engorda propriamente dita, onde permanecerão durante mais 3 meses com uma triagem por mês.

 

Setor de Engorda

         O Setor de Engorda como o próprio nome indica é destinado a obter o crescimento e a engorda dos animais que serão abatidos pelo criador.

No início da ranicultura no Brasil (década de 70) foram propostos para Engorda dos animais os chamados tanques múltiplos conforme mencionado anteriormente. Posteriormente surgiu um tipo de tanque de engorda denominado Tanque-Ilha, (FONTANELLO et al., 1984). Sua característica básica é a escavação na terra do tanque com uma ilha central. Inicialmente eles tinham um tamanho médio de 50m2 e podiam ser construídos em grupos. Na ocasião utilizava-se ainda alimentação a base de restos orgânicos que eram depositados no centro da ilha.

A partir de 1984 começou a ser divulgado um sistema denominado Confinamento (Ribeiro et al., 1984). Seus tanques caracterizam-se por serem menores (aproximadamente 10 m2), cobertos e construídos em alvenaria. Esse sistema é utilizado até os dias atuais e compõe a estrutura de grandes ranários brasileiros.

Posteriormente desenvolveu-se o sistema Anfigranja (Lima & Agostinho, 1986), que alterou a disposição de abrigos, cochos e piscinas nas instalações de engorda. Sua estrutura original é toda em alvenaria disposta sob um galpão coberto com telhas de amianto. Esse sistema também é usual do até hoje em dia.

O sistema de engorda de rãs em Gaiolas (Fontanello et al., 19880) foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Pesca (IP) na tentativa de diminuir o canibalismo e aumentar a produtividade por área (sistema em andares). Contudo, ele não se tornou um sistema comercial e suas pesquisas foram abandonadas quando do surgimento de um outro sistema muito similar que possuía os mesmos princípios, mas foi desenvolvido pela empresa privada, o sistema Ranabox (Aguiar, 1990).

O sistema Ranabox tem como princípio a criação de rãs em andares e desde sua colocação no mercado em meados de 1990, passou por inúmeras adaptações que tentam adequá-lo aos sistemas implantados em alvenaria.

            Em 1993 os pesquisadores do Instituto de Pesca de São Paulo com a intenção de verificar a rentabilidade dos sistemas de engorda em vigor (Tanque-Ilha, Confinamento, Anfigranja e Gaiolas), acabaram entre outras descobertas por quantificar a performance das rãs quando criadas sob estufas agrícolas. Surgiu então o sistema Climatizado (Fontanello et al., 1993) que preconiza a utilização de plástico de PVC, polietileno ou lona para cobertura das estufas sob as quais serão construídos os diversos setores do ranário com exceção do setor de Estocagem de girinos. Atualmente cerca de 90% dos ranários brasileiros na região subtropical utilizam o sistema de estufas agrícolas seguindo as recomendações do IP.

            A medida que os sistemas vão sendo propostos e os criadores têm acesso a essa tecnologia, surgem uma série de adaptações feitas por eles. Muitas vezes essas mesclas fogem as idealizações preconizadas por seus autores e dessa forma, os mesmos não podem garantir os índices propostos em seus trabalhos originais. Resolveu-se denominar esses sistemas empíricos mais que apresentam princípios básicos de sistemas existentes de sistemas Híbridos (Melo, 19   ).

A partir de 1995 a mais recente novidade em termos de engorda de rãs é um sistema denominado sistema Inundado, originalmente criado em Taiwan. Ele foi trazido para o Brasil por criadores argentinos e atualmente é uma forte tendência dentro das criações comerciais. Ele apresenta-se totalmente preenchido por água, eliminando a presença de abrigos e cochos. Os animais que, permanecem com a água até a “cintura” (0,05 m), capturam o alimento que é jogado a lanço na água do tanque. A densidade utilizada pelos ranicultores está em torno de 100 rãs/m2.

        O sistema de baias inundadas ainda é recente em nosso país e muito pouco pesquisado. Existem ainda muitos dados a serem levantados, como por exemplo sabermos a taxa de renovação de água diária do sistema, o cronograma exato de limpeza, a densidade ideal para povoamento dos tanques, conversão alimentar, entre outros fatores.

Após os 3 meses de engorda, o peso esperado para realizar o abate será de 170 a 200 g. Esse peso de abate foi determinado para as condições brasileiras conforme a conversão alimentar atingida pelo animal e pela procura feita pelo mercado consumidor.

   

Manejo Alimentar.

             O objetivo no Ranário, é eliminar os fatores  estressantes, que na natureza levam a rã a demorar para crescer como por exemplo: predadores, competição por alimento, espaço, etc. Desse modo pode-se direcionar toda a energia do animal  para a engorda e/ou a reprodução, através de manejo adequado e o uso de alimento balanceado e nutritivo. Assim consegue-se animais aptos a abate na faixa de 170 a 200 gramas de peso rapidamente.

Na natureza os anuros ( rãs, sapos e pererecas) alimentam-se principalmente de insetos, crustáceos, vermes, moluscos e pequenos invertebrados. No passado restos de animais em decomposição , bofes e carcaças foram muito utilizados, bem como minhocas, ovos, alevinos, camarões, porém com o desenvolvimento de novas técnicas, cairam em desuso. 

A alimentação da rã em cativeiro, em sistemas semi-secos,  atualmente é  feita  com ração peletizada para rãs e imagos  e farelada para girinos, sendo que para rãs e imagos é faz-se  o uso de coxos vibratórios  e Mosca domestica como  indutor biológico ( para dar movimento a ração).

O uso de larvas de mosca  é amplamente utilizado, devido a seu baixo custo e facilidade de manipulação. Trata-se de uma técnica elaborada por Pesquisadores  e não desenvolvida empiricamente por Ranicultores como o Coxo vibratório, que embora seja considerado bom, não é amplamente aceito devido a difícil adaptação de uns ou outros, não atendendo completamente as expectativas dos Ranicultores em geral. Seus criadores não tiveram o interesse em desenvolvê-lo, e sim resolver seus problemas locais  com alimentação. A partir dos primeiros iniciou-se sua comercialização sem maiores parâmetros técnicos. Basicamente trata-se de uma placa metálica ligada a uma fonte geradora de impulsos vibratórios que induzem a placa a vibrar a ração ( sobre a placa ). É ligado a um timer que regula o tempo de vibração e os intervalos entre essas vibrações. 

 É importante conhecer as características organolépticas da ração antes mesmo de adquiri-las. O nível protéico de 40% de proteína bruta é o recomendado para a criação de rãs já que se trata de animal carnívoro. A flutuabilidade ou não, deve ser verificada, caso pretenda-se trabalhar com baias inundadas. Os imagos necessitam de rações com tamanhos pequenos de péletes e se for o caso, mesmo assim, pode ser necessário moer ou quebrá-lo mais um pouco.

Os preços de ração no mercado variam muito, as empresas que as comercializam podem oferecer ou não o transporte dependendo da localização do ranário e da quantidade de ração adquirida. A qualidade do produto, sua marca e porque não, o aconselhamento com quem já conhece ou usou o produto, concorrem para se obter a melhor relação custo-benefício, temos que nos adaptar da melhor forma possível.

Após os cuidados com a escolha do produto, deve-se acondicioná-lo da melhor forma possível. O local escolhido não deve ser muito úmido e deve ser bem ventilado. Os sacos de ração devem ser empilhados longe do chão, sobre um estrado de madeira por exemplo e não deve ser mais do que oito sacos empilhados. Deve-se sempre verificar se os prazos de validade não estão vencidos, e quando for utilizar o produto, observar sua textura e cor, bem como evitar a presença de animais estranhos (gato, cachorro, rato, baratas, etc), que com sua urina e fezes, podem estragar a ração.

O cuidado com o acondicionamento é essencial na ranicultura, pois diversas doenças podem ser evitadas com uma ração em boas condições. Devemos trabalhar sempre com o ditado: "A prevenção é sempre o melhor remédio".

Manejo Sanitário

 A qualidade e limpeza da água usada em criações de organismos aquáticos, é um dos fatores essenciais para o sucesso dessas criações. Na Ranicultura, não é diferente. Anfíbios, tais como a rã-touro têm necessidade de água com qualidade física e química específica. Parâmetros como pH, alcalinidade, condutividade, dureza, amônia, nitrito, nitrato, fósforo, cloretos, ferro e principalmente oxigênio, devem ser medidos antes de iniciar uma criação.

As rãs deixam seus excretas na água, além de restos de pele, oriundos de trocas constantes. Por isso é imperativo a constante renovação da água e limpeza dos tanques e baias escovando principalmente os cantos, onde ocorre maior incrustação de sujidades. Esses cuidados são necessários, pois quando uma doença se instala, a mortalidade é certa, sendo então importante a prevenção e a profilaxia desses tanques.

Se mesmo assim acontecer alguma ocorrência incomum, todo cuidado é necessário. Recomenda-se como medida inicial suspender a alimentação e proceder ao isolamento dos animais em uma baia ou tanque para efetuar quarentena desses indivíduos sob suspeita de doenças, ou para restabelecimento de animais em tratamento.

Os cuidados que podem ser tomados para se evitar doenças são simples. Salmouras e aplicação de outras substâncias profiláticas são usuais. Para lavagem dos tanques e baias, usa-se desinfetantes comuns como cândida, cloro diluído e biocidas, além de bastante água. Pode-se fazer também uso de fogo para limpar os tanques de possíveis contaminantes que resistam a lavagem. Para isso usamos maçaricos direcionando a chama nos cantos do tanque de maneira  que obtenhamos 100 ºC  na chama.

Outros cuidados recomendados  são relativos é a construção das instalações, evitando pinturas tóxicas e beiradas que possam causar lesões aos animais.

A observação das rãs e girinos é um indicativo de sua saúde. Devem estar sempre ativos e com aspecto saudável. Rãs e girinos apáticos podem indicar que algo não vai bem, devendo ser investigado. Falta de apetite, manchas na pele, inchaços corpos disformes, pequenas lesões são indicativos de início de doenças ou doenças manifestadas, sendo necessário separá-los, tratá-los e dar a devida assepsia em seus respectivos tanques e baias.

  

 

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