As opções tomadas no programa de Historia do Ensino Secundário procuram ir ao encontro das expectativas sociais respeitantes às competências e atitudes que devem ser desenvolvidas neste nível de ensino, tendo em conta nomeadamente as finalidades consignadas na Lei de Bases do Sistema Educativo e o Perfil Terminal do Aluno. A essas expectativas juntou-se a consideração do estádio de desenvolvimento psicológico dos alunos que integram esta fase de escolaridade, definindo-se assim, entre as metas e as potencialidades, o campo de exigências a que a Historia terá de dar resposta [1].

Reconhece-se que os jovens no Ensino Secundário se encontram numa fase avançada de construção das estruturas formais da inteligência e da sua identidade pessoal e que aspiram a uma inserção na sociedade, desenhando projectos de intervenção e antevendo o desempenho de papeis determinados. São capacidades e disposições que o plano curricular global se propõe estimular, desenvolver e consolidar, para que os jovens possam atingir a autonomia intelectual e cívica, integrando-se na vida activa ou prosseguindo estudos no ensino superior e, quer num quer noutro caso, assumindo as responsabilidades da cidadania.

A História, para alem de conferir as competências requeridas para um eventual prosseguimento de estudos, como lhe cumpre enquanto disciplina da componente de formação específica do currículo, pode contribuir de forma directa e decisiva para que o aluno desenvolva esse processo de construção pessoal socialmente perspectivado, desde que se opere uma selecção do campo sobre que incidem as aprendizagens e se adoptem metodologias adequadas. Crê-se que as opções que presidiram a elaboração do programa satisfazem este quadro de intenções.

A principal finalidade que no programa se prossegue é levar os alunos a descobrirem na historia referências e sentido para se encontrarem a si próprios. Propõe-se-lhes um jogo de reflexos entre o passado e o presente que os conduzirá não só a estabelecerem analogias, semelhanças e diferenças, entre o eu e o(s) outro(s) de diversos tempos e lugares, como a procurarem o sentido das permanências e mudanças finalizados na compreensão da realidade presente.

Para a consecução dessa finalidade e dos objectivos que se desdobra, elegeu-se, em primeiro lugar, um determinado campo de saber e de reflexão. Privilegiou-se a história geral, na medida em que fornece quadros básicos indispensáveis à compreensão do processo evolutivo das sociedades, mas concedeu-se igualmente um lugar importante à realidade portuguesa, procurando inseri-la no contexto geral, explorando em paralelo as suas particularidades específicas e possibilitando ainda o reforço do seu estudo através de trabalhos de projecto. Do passado antigo e medieval, seleccionaram-se apenas as raízes mais relevantes de modo a facilitar o equacionamento da civilização europeia, focando-se, por último, numa perspectiva mundial, os grandes movimentos contemporâneos. Contemplou-se preferencialmente o estudo das estruturas, por representarem planos estáveis na dinâmica histórica, embora se tenha dado também atenção a processos conjunturais e a momentos de ruptura significativos, a fim de facultar a intelecção dos mecanismos de mudança. E procurou-se proporcionar, sobretudo, uma reflexão sobre a pluralidade de dimensões e objectos da história, articulando em simultaneidade, não apenas o económico, o social e o político-institucional, mas também o cultural e o mental, e introduzindo alguns dos novos registos antropológicos que enriquecem hoje o terreno da história.

A estrutura temática que se adoptou na organização dos conteúdos favoreceu a conciliação destas escolhas. Com efeito, tornou possível destacar as matérias que se julgam fundamentais e operar, como se tornava imperativo, extensos cortes na sequência evolutiva, o que não significa que não se tivesse procurado preservar os núcleos essenciais do processo civilizacional. Permitiu ainda contemplar vastas unidades de síntese, onde se perspectivam, em inter-relação, diferentes componentes da textura social. Desta maneira, os temas não aparecem definidos como etapas temporais do devir histórico mas como complexos estruturais ou processos evolutivos, razão pela qual se verificam muitas vezes, entre eles, sobreposições cronológicas, implicando inclusivamente a análise, em contextos distintos, dos mesmos fenómenos.

Embora, através da selecção e da organização de conteúdos, se tenha aberto um terreno que propicia ao aluno a construção de eixos de referência da sua identidade e da sua relação com o mundo, julga-se que grande parte das finalidades formativas visadas passarão essencialmente pelo desenvolvimento de determinadas competências e atitudes na abordagem das realidades sociais.

A este respeito, pretende-se, antes de mais, que os alunos sejam constantemente incitados a estabelecer nexos entre o conhecimento e a experiência. O levantamento de problemas reais, de experiências vividas em situação concreta e actual, será o ponto de partida para a pesquisa e a compreensão do passado e esta reflectir-se-à no modo como irão posicionar-se e intervir na dinâmica social do seu tempo. Sublinhe-se, no entanto, que tal processo deverá revestir neste nível de ensino um maior grau de complexidade do que nos níveis precedentes. Implicará o domínio de atitudes e de práticas científicas e a clarificação de um sistema pessoal de valores.

Julga-se possível exigir que concorram nessa atitude científica um largo conjunto de disposições: um olhar crítico e problematizante sobre os dados sociais; o domínio de conceitos e outros instrumentos operatórios da história e das restantes ciências humanas; hábitos de exigência e de rigor, adquiridos no ensaio de metodologias de investigação; e o reconhecimento da relatividade e da constante (re)construção do saber histórico. Para que o aluno se mova neste terreno de rigor e de conceptualidade não se crê, porém, necessário confrontá-lo com o estudo teórico de questões de método e de epistemologia. É na prática concreta da análise e da pesquisa que irá emergindo, de forma integrada, a problematização do sentido e do fazer da história. Espera-se ainda que essa prática suscite, de par com a preocupação de positividade, a descoberta do real prazer da história.

Não menos importante, na perspectiva educacional em que o programa necessariamente se situa, é conseguir que o exercício da reflexão histórica por parte do aluno venha a convergir no apuramento da sua sensibilidade, na dinamização das suas capacidades criativas e na definição de um conjunto de valores éticos, nomeadamente cívicos e políticos. Não se pretende produzir artífices da historia, mas utiliza-la como instrumento na construção de uma autonomia pessoal, esclarecida e solidaria.

Pelo peso que deste modo se confere ao desenvolvimento de atitudes intelectuais e morais, considera-se que a componente mais fecunda e decisiva do programa reside nas propostas de metodologia pedagógica. Orienta-as precisamente a intenção de estimular a liberdade de iniciativa dos alunos, mas apetrechando-os com uma disciplina mental e com ferramentas eficazes de trabalho.

O professor saberá, por certo, contemplar essas duas vertentes. De resto, não obstante o conjunto assaz minucioso de propostas de desenvolvimento dos conteúdos temáticos e de sugestões de estratégias e actividades que se incluem como suporte possível do trabalho do professor, a este caberá sempre um largo campo de decisão e de invenção, para poder criar com os seus alunos as situações de aprendizagem que melhor correspondam aos objectivos definidos.

FINALIDADES

Promover a capacidade de interpretação crítica e fundamentada do mundo actual, através da compreensão do funcionamento estrutural e da dinâmica evolutiva das sociedades.

Proporcionar a aquisição de atitudes e competências metodológicas que permitam o questionamento cientifico das realidades sociais do passado e do presente.

Estimular a produção e o consumo de bens culturais, pelo enriquecimento da capacidade de reflexão, da sensibilidade e do juízo crítico, no contacto com a diversidade de manifestações históricas da cultura.

Favorecer a afirmação da autonomia pessoal e a clarificação de um sistema de valores próprio nas áreas sócio-política e cultural.

Desenvolver a consciência da cidadania, na sua dimensão nacional e universal, de modo a incentivar uma intervenção responsável na vida social e política.

 

OBJECTIVOS GERAIS

DOMÍNIO DOS CONHECIMENTOS

1. Reconhecer a especificidade da Historia no conjunto das ciências sociais

1.1. Identificar o conhecimento histórico como um estudo cientificamente conduzido da evolução das sociedades.

1.2. Reconhecer a pluralidade dos contributos das ciências sociais para a construção do objecto da Historia na sua dimensão integradora e totalizante.

1.3. Reconhecer os factores que condicionam a relatividade do conhecimento histórico.

1.4. Interpretar o diálogo passado-presente como um processo de contribuições recíprocas para a compreensão das diferentes épocas.

1.5. Reconhecer a complementaridade das perspectivas diacrónica e sincrónica na análise histórica.

2. Compreender a complexidade e as inter-relações do campo histórico

2.1. Distinguir os diversos planos estruturais e as suas interacções.

2.2. Identificar a multiplicidade de factores que desencadeiam os eventos e os processos conjunturais.

2.3. Reconhecer a importância da dialéctica indivíduo sociedade.

3. Compreender a dinâmica histórica como um processo de continuidades e mudanças

3.1. Articular os diferentes níveis da realidade histórica - eventos, conjunturas, estruturas- com as temporalidades em que se situam -tempo breve, ciclos, longa duração.

3.2. Distinguir as mudanças reversíveis - ciclos conjunturais - das mudanças irreversíveis revolução/ruptura.

3.3. Identificar os factores de mudança e os factores de inércia que condicionam os diferentes ritmos de evolução.

DOMINIO DAS APTIDÕES/CAPACIDADES

1. Realizar operações e utilizar instrumentos específicos de metodologia da Historia

1.1. Seleccionar fontes primarias e secundarias avaliando a sua relevância e credibilidade.

1.2. Interpretar o conteúdo de documentos históricos de índole diversa, utilizando técnicas adequadas.

1.3. Formular hipóteses explicativas dos factos históricos.

1.4. Verificar a existência de regularidades e desvios, de semelhanças e diferenças significativas, em series de dados ou entre situações históricas.

1.5. Aplicar os conceitos e outros instrumentos de análise das ciências sociais na construção dos conhecimentos históricos.

1.6. Construir sínteses estruturadas a partir dos resultados da pesquisa.

2. Desenvolver capacidades de comunicação e de expressão criativa

2.1. Utilizar correctamente o vocabulário especifico da disciplina.

2.2. Desenvolver a capacidade de exposição oral e escrita, estruturando logicamente o discurso.

2.3. Desenvolver as capacidades de crítica e argumentação em situações de diálogo ou de debate.

2.4. Exprimir de forma pessoal sentimentos, reflexões e opiniões, recorrendo a diferentes meios criativos.

3. Desenvolver hábitos de organização do trabalho intelectual (efectuado individualmente ou em grupo).

3.1. Elaborar planos de trabalho, definindo tarefas e estabelecendo prioridades.

3.2. Consultar e citar metodicamente referências bibliográficas.

3.3. Elaborar fichas de leitura, dossiers temáticos ou outros instrumentos de recolha organizada da informação.

3.4. Utilizar meios informáticos para consulta, organização e processamento de dados.

DOMÍNIO DAS ATITUDES/VALORES

1. Desenvolver valores pessoais e atitudes de autonomia.

1.1. Desenvolver hábitos de questionamento e problematização face ao saber adquirido ou a novas situações.

1.2. Desenvolver atitudes de curiosidade intelectual e de pesquisa, orientadas para áreas socioculturais definidas segundo o seu interesse pessoal.

1.3. Assumir opiniões, de natureza intelectual e moral, fundamentadas num sistema coerente de valores.

1.4. Desenvolver a capacidade de autocrítica, aceitando o confronto das suas posições com o real ou com as opiniões de terceiros.

1.5. Desenvolver atitudes de receptividade e flexibilidade susceptíveis de proporcionar a sua adaptação ao devir social e  mudança técnico-cultural.

1.6. Aprofundar a sensibilidade estética, iniciando-se na apreciação crítica das obras de arte e definindo progressivamente um c›digo de gostos pessoal.

2. Desenvolver atitudes de solidariedade e de intervenção social

2.1. Manifestar compreensão pela pluralidade de pontos de vista, mantendo a consistência das suas próprias opções.

2.2. Participar em trabalhos de equipa ou de grupo, assumindo iniciativas e estimulando a intervenção dos colegas.

2.3. Posicionar-se solidariamente face aos problemas sociais do mundo actual, empenhando-se no debate e na procura de alternativas para a sua solução.

2.4. Desenvolver a consciência dos direitos e deveres democráticos, afirmando-se através da intervenção na vida colectiva.

2.5. Desenvolver uma consciência crítica dos problemas e valores nacionais, relativizando-os em função da evolução histórica e do contexto europeu e mundial.

 

 

 

 

 



[1] Frases a negrito são da nossa responsabilidade.

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