In Memoriam
Esta hora é tempo de reflexão, memória e justiça.
Começamos pelo espanto, seguimos pela indignação, clamamos pela justiça, pedimos castigo à moda antiga, choramos o tempo perdido, o que poderia ter sido feito e não foi, refugiamo-nos na frustração do pensar que já nada se pode fazer, que o sistema favorece os que prevaricam, que a lei é “teoria”, palavras assobiadas, perdidas.
Culpamos alguém: o que praticou o acto, talvez os pais que não o educaram, a escola que não interveio, as autoridades permissivas, a sociedade; por vezes culpamo-nos a nós próprios.
E depois... passam dias, meses, anos.
Nem nos lembramos deste irreal quotidiano: que já morreram mais portugueses na estrada que soldados americanos no Iraque durante o mesmo período; que houve mais mortos e estropiados em acidentes rodoviários do que ao longo de uma guerra colonial ao longo de 13 anos em Angola, Moçambique e Guiné.
Todos os anos morrem jovens aqui, em Évora, aqui em Lisboa, aqui no Porto.
Todos os anos morrem, ficam feridos jovens à noite, depois de momentos de euforia com shots, ecstasy etc. , corridas alucinantes, numa pressa de gozar a vida, de explodir os sentimentos, de viver o momento a qualquer preço.
Há quem pague a factura deste modo de viver de instintos, deste egoísmo alimentado desde a infância, deste vazio de ideias: -- quase sempre alguém que teve o azar de passar naquele momento; quase sempre alguém que nada tinha a ver com os furores; quase sempre alguém que apenas queria viver a vida ... e que a perdeu por um momento de irreflexão do outro!
Que da indignação nasça a reflexão, que da tristeza surja a necessidade de fazer justiça séria, com investigação, com provas, com tempo útil. Que as testemunhas não se acobardem como tantas vezes acontece. Que todos os que saibam algum facto, algum pormenor digam-no no local próprio e não apenas ao vizinho.
Há povos que acreditam que um homem só morre quando esquecemos o nome. Creio que têm razão.
Hoje é tempo de chorar; Amanhã é tempo de não esquecer.
João Simas