O que pretendemos
estudar é a relação do rio com os homens, de que maneira este os influencia e
de que modo estes se apropriam dele.
Problema demasiado vasto e sujeito a diferentes abordagens e a inúmeras investigações, que interessa aqui delimitar, e dependente de condicionalismos inerentes ao investigador: as questões que ele inicialmente se propôs, "a espantosa realidade das coisas" que o levaram a pôr problemas, a sua formação teórica que lhe permite ou não interrogar, observar e descrever essa realidade e a propor explicações, o tempo disponível, útil e necessário para a consecução dessa investigação, a empatia conjugada com a necessária distanciação, e aparentemente contraditória com esta, o conhecimento prévio de parte dessa realidade.
Comecemos pelo rio. Escolhemos o rio Guadiana e a sua população porque os conhecíamos melhor e porque nos interessava mais. No início há mais uma motivação do que uma razão, um desejo de explicar aspectos de uma cultura de que até certo ponto fazemos parte. Existirá também aqui alguma contradição entre as motivações psicológicas e o racionalismo científico. Mas" a humanidade só levanta os problemas que é capaz de resolver"[1] . Diria o mesmo em relação aos estudos que poderemos efectuar.
De imediato põe-se aqui a questão de ultrapassar o senso comum, os dados imediatos do sensível pois "uma ciência, longe de reflectir os dados imediatos da experiência quotidiana, só se constitui com a condição de pô-los em questão e de romper com eles, a tal ponto que os seus resultados, uma vez adquiridos, parecem mais o contrário das evidências da prática quotidiana que o seu reflexo"[2]
Entremos em Mértola pela estrada que vem de Beja. A primeira sensação que temos é que a vila está "virada ao contrário", que não obedece à forma de povoamento da maioria das vilas alentejanas. Mas, se subirmos o Guadiana a partir da foz começamos a perceber alguma coisa, a descobrir uma relação antiga e especial com o rio: ruas, casas, armazéns, ruínas debruçadas para o Guadiana, construídas por pessoas que viviam com e do rio.
Das primeiras evidências passámos às interrogações: quem vive no rio como e porquê, quem são e por que continuam ou não aqui, quais são as suas formas de pensar e agir, em que medida o facto de se relacionarem com o rio os faz parecer diferentes e ao mesmo tempo iguais aos outros que vivem no mesmo concelho ?
Como delimitar o espaço utilizado por estas pessoas que vivem essencialmente num meio aquático, fluvial? Bastaria cingirmo-nos aos limites administrativos ou procurar um espaço mais vasto imposto pelo rio, pela economia, pela administração, pela cultura? Como estudar esta população sem lembrar que o rio enquanto navegável nos leva e nos traz até à foz, permite as trocas entre um interior rural e um litoral mais urbanizado, que se tornou uma fronteira mais ou menos fechada por vontade de quem manda? E o rio em si, com as suas cheias e correntes, influências de montante e jusante, forças historicamente pouco controladas pelo homem, que trazem consigo as espécies de que vivem estes homens, não os obrigariam a um olhar constante e a um ritmo de vida próprio?
O que os fez continuar: a família, o estado, a religião, os negócios? Até que ponto houve continuidade ou mudança, resistência cultural ou ruptura. Mudou apenas a civilização ou a cultura?
Perante esta panóplia de questões tentámos materializá-las incidindo essencialmente em alguns pontos. Começámos pelo primeiro sujeito, o Guadiana, delimitado ao Baixo Guadiana e ao concelho de Mértola, mas sem esquecer que este funciona como um sistema, com interdependências a jusante e a montante. Delimitámos também esta população ao concelho de Mértola, especialmente a vila de Mértola, embora esta comunidade tenha mantido relações com outras populações que viviam do rio, nomeadamente no transporte de pessoas e mercadorias. Chamámo-lhes marítimos, embora vivam do rio, porque assim eles se assumem e são assim considerados pelas autoridades administrativas, apesar de não utilizarem o mar e terem um modo de vida diferente das populações marítimas do litoral. Actualmente, no concelho de Mértola vivem apenas cerca de vinte pescadores e a maioria já só exerce esta profissão esporadicamente.
Estudámos esta área do Guadiana como via de comunicação, o transporte de pessoas e mercadorias, relacionando-as com a fronteira entre Portugal e Espanha.
Interessou-nos as pessoas pelo que faziam: o seu trabalho, as técnicas, a vida quotidiana, mas também o modo como aprenderam a trabalhar e o que os fez ou não continuar nesses trabalhos. Ao pretender saber quem eles eram ou são preocupámo-nos em estudar os nomes e apelidos e as relações de parentesco. Até porque " A família é uma espécie de sociedade completa cuja acção se estende tanto sobre a nossa actividade económica, como sobre a nossa actividade religiosa, política, científica etc.[3]". Terminámos com a religião, porque o estudo desta permite-nos perceber melhor a especificidade da sua cultura: "a religião, facto eminentemente colectivo, é a fonte de onde derivam todos os conceitos que constituem as categorias do entendimento, tais como as noções de espaço, tempo, género, causa, força, personalidade, etc., e por ela e com ela se faz a ciência[4]".
Partimos do princípio que "na sua perspectiva teórica e metodológica a Ciência Social é uma só"[5] Neste sentido procurámos uma abordagem interdisciplinar e sobretudo transdisciplinar. Assim, não nos interessaram questões como a delimitação de determinada ciência social e muito menos a questão do imperialismo de certa ciência, o que por vezes se torna mais um problema ideológico do que espistemológico. No fundo perspectivámos as contribuições dessas ciências de acordo com as questões que pretendíamos tratar, o que significa que utilizámos conceitos e metodologias nomeadamente da Sociologia, Antropologia Cultural, História e Geografia Humana.
O mesmo poderemos dizer em relação aos autores que utilizámos. Não nos interessou a sua ideologia ou filosofia da História, mas a operacionalização dos conceitos e o seu método.[6]"
Pretendemos partir do presente para um passado próximo que, pensamos, se explicarão mutuamente. Uma análise puramente sincrónica poderia dar-nos uma imagem da realidade actual, mas dificultaria a explicação dessa mesma situação. Como compreender os pescadores de hoje sem estudar o seu percurso de aprendizagem? Como compreender a existência destes "marítimos do rio", que continuam contra tantas adversidades a viver do rio, o que os faz parecer um pouco diferentes da restante população do concelho de Mértola?
Pareceu-nos que seria importante recuar um pouco no tempo. Mas em que tempo, se todas as sociedades têm história, não apenas as elites, mas também os outros que anonimamente construíam essa história? “Para tanto temos primeiro de conhecer tudo quanto pudermos sobre como funcionava o sistema antes das mudanças que são objecto da nossa investigação”[7].
Tentámos definir uma linha de base: os finais do século passado. Linha de base segundo a definição de Paul Mércier: “Tomamos como ponto de partida um período, caracterizado por um acontecimento ou uma série de acontecimentos históricos conhecidos, a partir dos quais os efeitos podem ser conhecidos desde o início da investigação” [8]. Por um lado, porque a memória de alguns informantes ainda é capaz de nos dar referências sobre pessoas que viveram nessa época, por outro lado encontrámos registos dos marítimos a partir de 1893. Procurámos também encontrar momentos de mudança e empregámos aqui o conceito de acidente histórico: “as inovações bruscas que aparecem numa cultura ou em consequência do contacto entre os povos[9] “.
No entanto pensamos que é preciso distinguir mudanças que são superficiais, em geral alterações produzidas pela introdução de novas técnicas, essencialmente civilizacionais, de mudanças culturais que, no fundo, raramente ocorrem. "Aceitamos na prática o que diz a teoria: a cultura (modo de pensar e agir) é imutável, as mudanças constatadas são de ordem civilizacional ou não afectam o fundamental. As inovações são o velho tornado novo; o novo só é aceite na condição de perpetuar o antigo"[10].
Efectuámos trabalho de terreno e com espírito terra a terra. A observação participante foi essencial. Começámos do presente para o passado, com entrevistas a informantes que viveram no rio, como "marítimos" ou pescadores, com as dificuldades inerentes à erosão da memória. Tentámos chegar à memória social, entendida como exterior ao indivíduo. Mas a memória põe-nos problemas de objectividade. Como escreveu Maurice Halbwachs: “o que nós vemos hoje toma lugar no quadro das nossas antigas recordações, inversamente estas recordações adaptam-se ao conjunto das nossas percepções actuais”[11]. Também inquirimos outras pessoas que não estando já directamente ligadas ao rio, passaram ali parte da sua vida, desde a infância até à aquisição de uma profissão e que pertencem a famílias com uma ligação ancestral com este meio. Estas pessoas ainda se apoiam na memória do grupo e continuam a sentir e a viver sob a influência de uma sociedade de que já se afastaram[12]. Instrumentos básicos foram o gravador, a máquina fotográfica, o caderno de apontamentos, o diário de campo.
Concomitantemente também utilizámos a informação escrita. Mas aqui confrontamo-nos com outras dificuldades. A maioria dos protagonistas eram analfabetos ou quase não utilizavam a escrita e nem estariam motivados para tal e, por isso, quase não deixaram registos escritos. Adivinha-se aqui o conflito entre uma memória e uma cultura orais, mais autênticas, e uma memória escrita a que o Estado, que se vai construindo, obriga e tem por objectivo principal controlar. Também consultámos a imprensa periódica local. Mas esta também refere um ponto de vista: a dos notáveis da terra e, se tivermos a em conta o número ínfimo de leitores, no fundo escrevem uns para os outros, mais opiniões que factos, embora se encontrem também informações de manifesto interesse. Utilizámos informações de arquivos nomeadamente do Arquivo da Capitania de Vila Real, todas as matrículas de marítimos de Mértola que aí constam, e Arquivo Distrital de Beja (alguns registos de baptismo e casamentos), Biblioteca Pública de Évora e Biblioteca Nacional de Lisboa. Também não menosprezámos os pequenos "arquivos" pessoais, onde por vezes se encontra uma carta, uma fotografia, um bilhete. Mas nem sempre os registos orais e escritos coincidem ou funcionam segundo os mesmos propósitos. Segundo Lévi- Strauss:
“(...) a escrita tem servido também para
perpetuar "verdades" ou mistificações através dos séculos, por
aqueles que detêm o poder . E os povos ou os indivíduos que antes não a
conheciam " ao aceder ao saber acumulado nas bibliotecas tornam-se
vulneráveis às mentiras que os documentos impressos propagam em proporção ainda
maior" .
Contrariamente à
propalada ideia da igualdade perante a lei que os liberais quiseram
estabelecer, o autor afirma que "a luta contra o analfabetismo confunde-se
com o reforço do controle dos cidadãos pelo Poder. Pois é necessário que todos
saibam ler para que este último possa dizer: ninguém pode ignorar a lei"
[13].
É preciso também notar que a escrita não era uma condição
essencial para o dia a dia destas pessoas[14].
Por isso torna-se difícil encontrar registos sobre as actividades dos
pescadores e outros marítimos feitas por eles próprios. Ainda hoje será difícil
encontrar registos escritos de contabilidade e os que eventualmente o possam
fazer, omitem dados. Nenhum pescador está interessado em escrever oficialmente
que pesca com algumas artes ilegais, que também vende eirozinhas (angulas) ou que trabalha, enquanto recebe
subsídio de desemprego ou está reformado. Possivelmente para conseguir obter
dados mais exactos sobre a situação económica dos actuais teríamos que possuir
uma intimidade e confiança inexcedíveis e com a condição de nunca divulgar
esses dados, o que punha um grave problema ao investigador em termos éticos, nomeadamente
a questão da violação da privacidade, numa comunidade em que o
interconhecimento ainda existe e onde um sinal de "quebra de
confiança" pode fechar portas a uma continuidade da investigação. Não
escolhemos esse caminho, nem pagámos a alguém para obter informações, embora
ouvíssemos falar de alguns casos recentemente ocorridos em Mértola (contados,
felizmente ainda, com alguma admiração pelos informantes).
Optámos por efectuar um estudo mais qualitativo que quantitativo, mas quando tivemos acesso a dados e séries tentámos quantificá-los e exprimi-los graficamente.
Deparámo-nos também com alguma memória oral reconstruída, isto é em que os informantes já contam o que esperam que o investigador goste, construindo respostas a questões já esperadas "le discours de parade, fait à l'étranger". É um risco que pode ser obviado, “que pode ser reduzido com a duração da investigação, o seu carácter não directivo, a intimidade adquirida, a confrontação eventual da mesma informação entre vários informantes, o nosso conhecimento, a nossa “impregnação” global no terreno e sobretudo, a longo prazo, a qualidade dos nossos informantes[15]”. A memória oral, no Alentejo em particular, também está influenciada por alguns discursos do poder local ou regional, especialmente pelo "mito da desgraça" e “heroicidade da vítima" o qual verificamos que tem uma base bem real.
As imagens foram também fundamentais. Socorremo-nos de algumas fotografias antigas e tirámos outras centenas. Aqui, a dificuldade foi escolher e inserir apenas aquilo que fosse pertinente e não meramente ilustrativo.
O essencial da recolha foi efectuada em 1997 e 2000. No entanto como já conhecíamos a área desde 1978, aproveitámos também informações, entretanto recolhidas com finalidades diferentes.
Conhecemos o rio desde Mérida até à foz, incluindo alguns afluentes. Percorremos em diferentes barcos o Guadiana desde próximo do Pulo do Lobo até Vila Real de S. António. Em Espanha visitámos várias localidades da margem esquerda (Castellejos, San Lúcar, Ayamonte etc.).
Na redacção do texto pretendemos respeitar a linguagem dos informantes que frequentemente não pronunciam as palavras segundo as regras do português padrão, porque se perderiam informações ao adaptar essa linguagem tão explícita e rica de significados.
O recurso à informática revelou-se imprescindível, tanto durante a recolha de informações como durante o seu tratamento e redacção final, nomeadamente os programas Word e Excel da Microsoft, Claris Works (base de dados), Adobe Photoshop e Family Tree Maker para tratamento da genealogia.
A nossa meta era contribuir para a antropologia de um rio e compreender a cultura daqueles que não puderam escrever a História. Procurámos dar um pequeno passo.
[1] Karl Marx, Contribuição para a Crítica da Economia Política, Lisboa, Editorial Estampa, 1975, p.29
[2] Louis Althusser , Marxismo, Ciência e Ideologia, S. Paulo, Ed. Sinal, 1967, pp. 23 e 24
[3] Émile Durkheim, Os Grupos Profissionais, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 39
[4] Durkheim, Émile, op. cit., p. 12
[5] Henri Mendras, Princípios de Sociologia, uma iniciação à Análise Sociológica, Zahar Editores, Rio de Janeiro,1975 p.10
[6] Como escreveu Robin Fox "For me, and I hope for the reader, part of the sheer enjoyment of this analysis lies in the reconciling of anthropological and historical materials and methods, in a way that illustrates their mutually supportive roles”, in Robin Fox, The Tory Islanders, a People of the Celtic Fringe, London, University of Notre Dame Press, 1994, page. Xxiii
[7] A. R. Radcliff-Brown e Daryll Forde, Sistemas Políticos Africanos de Parentesco e Casamento, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, 2ª ed, p.14
[8] « On
prend comme point de départ une période, caractérisée par un événement ou une
série d'événements historiques connus, dont les effets peuvent être suivis
jusqu'au moment de l'enquête. » Ce concept prend alors un sens précis par
rapport à l'aboutissement des recherches ainsi que par rapport à la
multiplicité des étapes parcourues,[...] »Paul Mercier, citado por João
Nazaré,
Prolégomenes a L'Ethnosociologie de La Musique, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian,
1984, pág 195 .
[9]
« Le concept d'׳accident historique׳, issu de
l'interaction qui s'établit entre la « tendance culturelle » et la multiplicité
de facteurs extérieurs à une culture qui la conditionnent, désigne «[...] les
innovations brusques apparaissant dans une culture ou résultant du contact des
peuples »in João Nazaré », op. cit. ,pág. 202
[10] Moisés Espírito Santo, Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa, Lisboa, Assírio e
Alvim, 1988, pág. XIV
[11] Maurice Halbwachs, La Mémoire
Collective, Paris, P.U.F., 1968
[12] “En effet je continue à subir l’influence
d’une société, alors même que je m’en suis éloigné », op. cit., p. 118
[13] Lévi-Strauss, Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70, 1981 p. 296 e 297
[14]
"si l'écriture nous est apparue il y a un instant comme une condition
du progrès, nous devons prendre garde que certains progrès essentiels, et
peut-être les progrès essentiels que l'humanité ait jamais accompli, l'ont été
sans son intervention", Lévi-Strauss in Georges Charbonnier, Entretiens avec Lévi-Strauss, Paris, Presses
Pocket, 1991 p 31
[15]
Jean-Claude Bouvier (dir. de ), Tradition
Orale et Identité Culturelle, Problèmes et Méthodes, Paris, C.N.R.S., 1980,
p. 57