Mértola foi sempre marcada pelo Guadiana, um rio que atravessa centenas de quilómetros na Península Ibérica e que aqui tem uma feição especial: depois de passar gargantas estreitas torna-se mais largo e fundo e as suas águas doces misturam-se com as salgadas e alteram-se com o ritmo das marés, a mais de meia centena de quilómetros do mar . É um rio de características mediterrâneas, com uma forte estiagem e um Inverno com torrentes caudalosas, enxurradas que ainda surpreendem o Homem que teima em “civilizá-lo”.
Essas características específicas do Baixo Guadiana permitiram a navegabilidade e a entrada de espécies que foram desde sempre um recurso fundamental para os que aqui vivem e que os distingue das populações vizinhas, embora se integrem na cultura do Sul do país, do Alentejo.
O rio traçou a História: permitiu a circulação de pessoas, ideias, comportamentos e mercadorias. Revelou-se sobretudo uma porta de entrada que ligou milenarmente o Sul de Portugal às civilizações mediterrâneas: longos caminhos por terra e sobretudo pelo mar, desde o Oriente, Norte de África e Sul da Europa. Sedimentaram-se culturas, frequentemente em conflito, e que nos deixaram vestígios materiais pré-romanos (ainda pouco estudados), romanos, islâmicos, estes sobretudo nas suas versões norte-africana/andaluza.
As riqueza da região, o minério, o trigo, o carvão, a pastorícia forneciam a “moeda de troca” para os bens em falta, desde alimentos até bens sumptuários, quase sempre com déficit para a região. No caso das minas, exploradas desde a Antiguidade, os lucros auferidos teriam seguido o caminho de Roma, para a Época Contemporânea a espoliação dos recursos pelo capitalismo inglês, guiou-se pelo lucro máximo e quando este diminuiu, levou-se tudo o que podia e deixou-se em troca os escombros, a poluição e os desempregados, ressalvando ainda os direitos sobre a terra.
Houve épocas de dinamismo económico e de atracção de populações, de nacionais e estrangeiros. A segunda metade do século XIX foi um período de expansão que se atenua após a Grande Guerra e que, apesar de alguns períodos de recrudescimento, decai definitivamente após a segunda guerra mundial. Os anos 50 e sobretudo os anos 60 são décadas de autêntico êxodo, acompanhando a tendência do país rural e da região, mas aqui de uma forma intensa. Essa tendência ainda não parou, o concelho vai-se desertificando em termos populacionais e torna-se cada vez mais envelhecido.
Mértola insere-se numa região rural, com uma economia especializada, produção de cereais (hoje menos), quase em monocultura, e derivados da pastorícia. Mas, como porto fluvial e quase marítimo, como sede de um concelho onde não há mais centros urbanos, com os recursos do rio, criou-se aqui uma população que vive tradicionalmente do comércio e serviços e da pesca. As dificuldades nas comunicações terrestres, semelhantes às do resto do país, onde quase não se construíam estradas desde o tempo dos romanos, com os inerentes obstáculos naturais, a serra algarvia e os vaus principalmente, a banditagem produzida por um exército permanente de excluídos socialmente, tornavam o rio como a via mais rápida, mais barata e mais segura. Litoral e interior trocavam entre si, o que significa, em termos concretos, o Algarve (uma ligação especial a Vila Real de S. António) e Lisboa a partir daqui, mas também a Andaluzia, e, por outro, a zona de Beja e a margem esquerda do Guadiana (Serpa, Moura, Barrancos...).
Este meio essencial vai perdendo importância paulatinamente. Primeiro o comboio, que em parte também revitaliza o tráfego no rio e aproxima de Beja, e as estradas e as pontes que morosamente se vão construindo. Foi uma das últimas carreiras fluviais do país que foi definhando após a segunda guerra mundial. A construção de estrada para o Algarve, finalmente posta em serviço em 1949, marca a mudança.
O rio nem sempre foi uma barreira para com o estado vizinho. Se antes da construção dos estados ibéricos ele era um elo de comunicação com que é hoje a Andaluzia, e essa relação terá continuado até à Restauração, os países viram-se de costas um para outro , tornando-se Portugal num país de “ilhéus”[1] . O rio torna-se fronteira, fortemente guardada, situação que se agrava com as ditaduras ibéricas do século XX, apesar do Pacto Ibérico.
Mas “eppur se muove”, os habitantes de cá e de lá contactam entre si, fazem contrabando, sobretudo de objectos utilitários, animais e alimentos, pequenos negócios em que se arriscava a vida. Também há alguns que vão para lá trabalhar, outros vêm para cá, há casamentos, há demonstrações de solidariedade perante a miséria e a prepotência dos estados; outros evadem-se à procura de uma vida melhor ou na recusa de combater uma guerra colonial que se arrasta sem solução, ou “simplesmente” na luta pela democracia.
O rio permitiu a existência de pescadores até aos nossos dias. Homens e mulheres profundamente conhecedores das correntes, dos ventos e marés, das profundidades e das margens a quem deram nomes, guardaram uma memória colectiva que se transmitia oralmente, pois raros sabiam ler e escrever. Memória essa que se vai fragmentando pelo abandono do modo de vida, mas que se revivifica quanto inquirida ou confrontada, mesmo depois de anos passados noutro local e noutra profissão.
Esta comunidade não era totalmente sedentária. O rio era aproveitado desde a foz até ao Pulo do Lobo, essa sim uma barreira para as espécies e para os barcos. O movimento das águas, marés e torrentes, a época do ano, a hora do dia, levava a que se pescasse num ou outro lado do rio. O pescador movia-se conforme o sável ou a lampreia e levava o barco, as artes e a família. As artes e as embarcações são também o resultado da adaptação à actividade, diferentes conforme o peixe ou o lugar: o “conto” para o sável, o tresmalho para o muge, a rede “coelheira” para as eirozinhas (prática proibida e condenada por alguns profissionais) e até formas passivas de pesca, como o caneiro, aproveitando os açudes. O pescador usa o rio como o camponês usa a terra e só não o respeita (e com mágoa) quando primeiro está a sua sobrevivência.
Aprende-se esse conhecimento desde tenra idade, com os pais, os irmãos e todos os membros da comunidade, aprende-se a trabalhar imitando, construindo brinquedos que têm como modelo o que os adultos fazem, coisas que não se compram nas lojas nem se ensinam nas escola. Esta era um mundo à parte da profissão , de onde se fugia facilmente para aprender o que era preciso e dava gosto (e o estado contemporizava, quiçá para manter a estrutura social). A inovação é algo de estranho, mas adaptam-se as técnicas a situações concretas. As tecnologias penetram neste mundo artesanal: hoje compra-se um motor, amanhã um barco de fibra ou de ferro.
Os nomes das pessoas revelam também uma cultura. É a primeira coisa que têm além do leite materno, é uma transmissão de um património e uma identificação, uma associação com a família; no nome e no apelido recordam-se os ascendentes e sobretudo a paternidade, embora a influência feminina também se revele. Poderá até não haver apelido, mas há um nome que provém do pai ou do avô e que se transmite ao longo de várias gerações. O uso de sobrenomes também evolui: à medida que o Estado penetra na vida dos cidadãos e os laços de parentesco se tornam menos importantes aumenta o número de apelidos do indivíduo. Ao contrário das sociedades do Norte da Europa, onde o normal é o indivíduo ter um nome próprio ou dois e um apelido paterno, aqui recorre-se à filiação paterna e materna recorrendo a um modelo de origem aristocrática, mas que revela a ligação também à família materna.
As alcunhas funcionam quase sempre como a melhor identificação do indivíduo numa sociedade de interconhecimento, onde a vida privada é do conhecimento geral. Apelidam-se as pessoas por um facto concreto, geralmente um incidente na infância ou por alguma atitude menos consentânea com os comportamentos admitidos socialmente. A marca pode até passar de pais para filhos e ser esquecida a sua origem, mas o indivíduo sujeita-se a aceitá-la.
Os laços de parentesco eram fundamentais nesta comunidade. Funções que são hoje em dia, melhor ou pior asseguradas pelo Estado, competiam à família. A família nuclear seria o normal, mas com ligações estreitas com outros parentes. Uma das consequência é a tendência para a endogamia, que se manifesta pelo facto de cada indivíduo ser parente de quase todos, no reconhecimento de que a maioria são “primos” e na solidariedade no dia a dia, mais visível durante as cheias. Relaciona-se a família nuclear com o número de pessoas necessárias para a equipagem de um barco, duas pessoas, marido e mulher ou um camarada, parente próximo. Mas em barcos maiores, para o transporte de pessoas e mercadorias, a empresa familiar necessita do concurso de todos os parentes próximos.
As práticas religiosas em Mértola revelam, através dos tempos, fortes indícios de heterodoxia e resistência aos poderes eclesiásticos instituídos. Santos que identificavam a população, como S. Barão, eremita e asceta, cuja memória se filia em tradições possivelmente anteriores ao cristianismo, irmandades de santos e Senhoras que marcam um território, Senhoras que se relacionam com um culto lunar, manifestações religiosas que celebram a morte do jovem deus e o triunfo da mãe, santos protectores das águas, do rio e sobretudo dos homens que vivem dele.
O conflito com a religião institucional passa mesmo pela religião muçulmana que, aliás, perdura nos seus símbolos e espaços, num judaísmo atribuído, capelas erigidas e não autorizadas e hoje em dia com uma desconfiança em relação aos agentes da hierarquia católica que também suspeitam da “crendice” popular. O afastamento em relação à religião institucional e também em relação popular manifesta-se hoje na fraca afluência aos cultos, e em relação aos santos e Senhora(s), na fraca resistência às proibições e no aparecimento, quase escondido, de outras formas de cristianismo.
Não se trata apenas da influência “positivista” ou “modernizadora” que terá sido exercida por alguns notáveis locais, ainda menos pelo Partido Comunista, de ideologia ateia, mas cujos membros locais até participam numa procissão. O facto é que a sociedade e a economia mudaram e os últimos 20 anos aceleraram a desintegração da sociedade num processo entrópico.
Mas a cultura é persistente. A festa do Senhor dos Passos mantém-se viva e é o tempo do reencontro. A protecção antigamente invocada aos santos ou ao manto da Virgem da Misericórdia solicita-se hoje à Câmara Municipal. A noção de trabalho ainda não chegou ao “tempo é dinheiro”. A nostalgia do rio reacende-se, apesar da poluição, um problema novo e antigo.