O Pilar
Capitulo XV
-Emma,
acorde!
Ouvi
o som estridente daquela voz feminina e aguda. Pertencia a Senhora Sofia, minha
professora de Português. Como quem recebe um grande soco, eu pulei da cadeira e
sentei assustada. Sua voz havia entrado pelos meus ouvidos e obrigado aos meus
olhos se abrirem com dificuldade. O clarão de luz repentino os atingiu e eu me
senti zonza.
Aos
poucos consegui distinguir onde eu estava. A sala de aula de cor bege, o quadro
negro, os alunos... era minha escola. Olhei ao redor e percebi meus colegas
rindo divertidos enquanto o rosto da professora se transformava num misto de
raiva e apreensão.
-Emma,
como você se atreve a dormir em minha aula? Como pode usar o espaço de
literatura para cochilar?
Eu
estava confusa e não tinha respostas. Minha voz entrecortou-se enquanto tentava
raciocinar com o que avia acontecido. Num momento eu estava no templo de Abel e
no outro eu estava na aula. Abaixei os olhos e vi “O Pilar” aberto na minha
mesa. Quando a professora se afastou eu o peguei e tentei ler a ultima parte:
“Assim
Deusa descobriu que Eros a amava. Nas mãos dele se encontrava agora o seu
destino. O casal apaixonado saiu da sala e foi enfrentar Abel”.
As
demais paginas com o desfecho da história estavam arrancadas.
De
repente um sobressalto me veio. Foi tudo um sonho! Eu nunca tinha vivido aquela
historia. Não havia estado naquele mundo, não havia conversado com Sayas e
discutido com Fogo Branco. Lagrimas me vieram quando percebi que nunca havia
amado Endy. Nunca estive nos braços dele e nunca senti seu corpo no meu. Senti
uma pontada no peito e o pânico tomou conta de mim. Tudo havia sido uma ilusão,
mas meu coração pulsava como se houvesse sido real. Eu ainda sentia o ultimo
beijo dele. Seu rosto reapareceu em minha mente e eu percebi que eu o amava.
Deus
meu! O que seria de mim? Apaixonada por um personagem. Um simples ser criado na
imaginação de um autor. Um ser que eu jamais beijaria ou amaria. Viveria num
mundo de expectativa, talvez implorando a minha mente pra sonhar com ele nas
noites e amá-lo com minha alma. Somente na minha cama, dormindo é que eu
poderia tocar sua face,beijar seus lábios...
Uma
mão tocou meu ombro e eu me virei assustada. Era Ana, minha amiga de turma.
-Você
esta bem? – ela perguntou.
Senti
que ia chorar ali, na frente de toda a classe. Uma vontade enorme de procurar
os braços dela e desabafar com minha amiga, mas como eu contaria minha historia
pra ela? Eu tremia e não conseguia reagir, não conseguia responder a ela.
Agarrei “O Pilar” contra o peito e a olhei como se pedisse ajuda.
No
momento em que ela iria falar alguma coisa o sinal toca. Era o intervalo e ela
o aproveitou para agarrar meu braço e me tirar da sala de aula. Levou-me ate um
lugar isolado do pátio da escola e retornou a perguntar:
-O
que esta acontecendo? Me conte o que houve Emma?
-Ana...
O Pilar...
Mostrei
o livro para ela. Me olhando de uma maneira estranha ela pegou o livro.
-O
que tem este livro Emma?
Iria
falar quando uma garota da outra turma se aproximou.
-Você
é a Emma?- ela perguntou
-Sim-
balbuciei
O
que ela queria comigo? Eu nunca fui requisitada pelas demais turmas. Me dava
muito bem com a minha classe mas não passava de mais uma aluna para os outros
alunos das outras turmas.
-O
aluno novo pediu para eu te entregar- ela disse me dando um bilhete e se
retirou.
Ana
me observou com o papel na mão. Em silencio eu o abri.
“Então
isso é uma escola? Endy”.
Dessa
vez eu deixei as lagrimas correrem soltas.
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O
encontrei na saída da escola. Como ele estava diferente de calça jeans e
camiseta. Nem parecia o mesmo garoto que eu havia conhecido usando sempre roupa
escura. Mas o sorriso malicioso estava lá juntamente com os olhos castanhos
irrequietos. Endy/Eros me conduziu até uma praça. Nos não havíamos trocado uma
palavra até então, mas quando chegamos ao lugar desejado, eu o abracei. Ficamos
alguns minutos assim... quando nos afastamos ele ainda sorria.
-Como?
– Eu gaguejei.
-Eu
acertei tudo com Abel..
-Estou
percebendo.. me conte...
Nos
dois sorriamos agora. Demos as mãos e sentamos em um banco amarelo que ficava
no lado central.
-Não
sei explicar o porque, quando voltamos à sala de Abel você desapareceu em
frente aos meus olhos. Entrei em pânico e exigi que ele me contasse onde você
estava. Ele jurou que não sabia mas Sayas me disse que era provável que você
havia voltado para o seu mundo.
-Sim..eu
estava dormindo na sala. Como todo aquele tempo passou lá e aqui só alguns
minutos?
-Nossos
mundos têm tempos diferentes. Eu consegui acertar tudo e chegar aqui a dois
dias atrás. Tempo suficiente de me inscrever na sua escola e até de vê-la pegar
o livro hoje na Biblioteca.
Me
surpreendi com a confissão.
-Mas...
como você esta aqui?
Ele
me encarou.
-Fiz
uma troca com Abel!
-Que
troca?
-Bom,
quando você foi embora o poder da tatuagem de Fênix passou pra mim porque eu
era a pessoa mais próxima a você. Eu troquei este poder pelo Cristal E dei ele
a Sayas. Adivinhe! Ele agora é o rei daquele povo que foi trancafiado.
-Oh,
que bom. Eu fiquei tão triste ao perceber que eu nunca mais veria meu amigo e
que ele ficaria sozinho... bom, pelo menos agora eu sei que ele não ficará em
solidão pois terá todo aquele povo de amigos.
-Sim,
ele foi muito bem aceito! Mas de solidão ele não morrerá mesmo...
Estranhei
o comentário porque Endy sorriu mais malicioso ainda.
-Por
que diz isso?
-Ele
conheceu Lis. E os dois vão se casar.
Eu
gargalhei de felicidade! Que lindo! Meu amigo teria uma vida maravilhosa ao
lado daquela moça tão doce!
-Mas
e você? Como esta aqui? – insisti na pergunta.
Ele
desviou seus olhos dos meus e olhou o horizonte. Passou alguns segundos antes
de voltar a me olhar. Percebi que vinha algo serio, e me enchi de expectativa e
medo.
-Fiz
um acordo com os Deuses. Em troca de algo eles abriram uma passagem no tempo e
me deixaram vir para cá.
-Em
troca do que?
Ele
emudeceu novamente. Deus, porque não me respondia logo? Estava me deixando
nervosa.
-Fale
logo Endy!
-Da
minha imortalidade.
Eu
quase engasguei. Não podia acreditar que ele havia feito isso! Agora ele era um
mortal. Ele poderia morrer. Eu poderia perdê-lo...
-Mas...
– tentei falar mas ele me calou com um beijo.
-Não
diga nada Emma – me disse após separar nossas bocas- Você é humana e um dia vai
morrer. Eu sempre quis o direito de envelhecer ao lado da pessoa que amo. Agora
o reenvidiquei. Uma das coisas que mais me faziam ficar loucos quando eu te
conheci era que, eu te amava, mas um dia você iria morrer... e eu passaria toda
a eternidade apenas com recordações. Agora eu tenho a alegria de saber que eu
também vou morrer.
-Endy...
-Quero
viver meus dias com você... mesmo que forem poucos. Um dia ao seu lado equivale
a toda eternidade para mim.
Alisei
seu rosto amado. Sim, seriamos um casal comum. Teríamos filhos, veríamos os
crescer, veríamos nossos netos, e um dia morreríamos e poderíamos ficar para
sempre juntos, nem que fosse no sono da morte.
-E
sua mãe? – perguntei
-Ela
me ama. E sabe que sem você eu jamais poderia ser feliz.
Eu
percebi a importância da atitude que ele havia tomado.E jurei que faria tudo
para que ele nunca se arrependesse.
-Quero
que saiba que farei tudo pra te fazer feliz.
-Eu
sei Emma... e eu também!
-Eu
te amo Endy!
-Para
sempre?
-Para
sempre...
E
beijei seus lábios úmidos. Timidamente a principio, depois ternamente e
finalmente o beijo tornou-se ávido inflamado por nossas recordações prazerosas
dos momentos que havíamos vivido.
Aquele
beijo longo selou nossa promessa de uma vida feliz. De dois amantes que giravam
em um redemoinho de emoções onde nada existia, a não ser o amor.