O Pilar
Capitulo XIII
Por Josiane Veiga
Deslizei
as mãos pelo lençol tentando encontrar um corpo familiar. Nada achei. Abri os
olhos para constatar o que meu coração já sabia. Ele foi embora, saiu antes de
eu acordar, provavelmente para evitar as patéticas cenas de minhas lagrimas. O
que para mim havia sido uma noite de entrega mágica, para ele era apenas mais
uma vez. O golpe destes pensamentos me abateram, mas fiquei até agradecida pela
sua atitude. Meu resto de amor próprio acabaria se ele me visse chorar.
Segurei
o travesseiro onde ele havia repousado contra meu rosto e o cheirei tentando
captar o restante da presença dele que ainda se encontrava no quarto. Meus
olhos observaram a cama onde nós havíamos nos amado. Duas vezes. Durante a
madrugada ele acordou-me com beijos e instintivamente nossos corpos se
aproximaram...
Deus!
Jamais iria conseguir tirar aquele homem do meu coração! Eu percebi isso quando
ele me penetrou pela segunda vez. Eu soube que aquela entrega não poderia ser
com mais ninguém. Só com ele...
Lagrimas
quentes deslizaram por minha face. O que eu havia me tornado? Um ser de
sofrimento? Em algum momento durante minha estadia naquele mundo, a Emma doce e
alegre foi substituída por uma mulher triste e melancólica.
Uma
batida na porta me tirou daquele estado sombrio. Logo meu pulso se acelerou.
Seria ele? Talvez ele voltou para continuar a fazer o que havíamos feito
durante a noite e a madrugada. Eu não poderia aceitar! Mas meu corpo ansiava
por isso com uma urgência que extravasava todos os limites do aceitável.
Tentei-me ajeitar rapidamente e respirei fundo antes de permitir que quem quer
que fosse que estivesse batendo pudesse entrar.
Para
minha decepção não foi seu rosto que eu vi e sim o de uma bela jovem loira. Ela
entrou dentro do quarto sorrindo e tinha um ar de estrema doçura. Usava um
vestido longo rosa, os cabelos presos por um coque e andava com graça.
-Meu
senhor mandou-me trazer seu café da manhã.
Em
uma bandeja de ouro que ela trazia entre as mãos se encontrava uma variedade
enorme de frutas, queijos e sucos. Mas aquilo era algum tipo de brincadeira?
Endy por acaso achava que eu sentiria fome depois de saber que ele me usara e
jogara fora?
A
bela mulher colocou a bandeja sobre meu colo. Em seguida deu-me um pequeno sino.
-Se
precisar de algo é só tocar que eu virei imediatamente.
A
observei. Mais uma beldade que provavelmente preenchia a cama de Endy em noites
solitárias. Mas esta não parecia sentir ciúmes de mim como Layla.
-Como
se chama? – perguntei
-Lis.
Lis!
Que poético! Combinava com ela.
-Onde
esta Endy?- voltei a perguntar com medo da resposta.
Ela
franziu o cenho. Lógico! Ele havia me dito que este não era seu nome
verdadeiro! Senti-me tentada a investigar coisas sobre ele, mas tive receio
pois não queria colocar em maus lençóis a tão simpática moça.
-Digo...
onde esta seu senhor?
-Oh,
ele esta ocupado em uma reunião com sacerdotes. Mas ele deixou claro que eu
devia ficar a sua disposição.
Após
me alimentar, resolvi tomar um banho. Lis desceu para a cozinha levar a bandeja
e quando sai do banheiro já não a encontrei. Constrangida, dei-me conta que
havia esquecido de Sayas. Resolvi procurar meu leal amigo.
Paralisei
no corredor quando vi-me frente a frente com Layla. A mulher vinha em direção
oposta a minha com um olhar feroz. Usava uma espécie de colete que valorizava o
busto perfeito, uma saia que tinha uma fenda onde deixavam-se expostos as belas
pernas. Seu cabelo negro, solto, descia como uma cascata lúbrica pelos ombros e
seu rosto tinha uma maquiagem forte, a deixando mais madura. Mesmo com um
vestido tão lindo quanto aquele azul que eu estava usando, sentia-me
terrivelmente pequena perto dela.
-Ora
ora.. então a pequena humana encontra-se entre nós?
O
tom irônico dela era evidente.
-Endy
me trouxe.
Me
arrependi de ter respondido. Não lhe devia satisfação.
-E
então? Ele já conseguiu levá-la para a cama?
Ela
sabia! Seus olhos demonstravam isso. Me senti fraca ao imaginar o quanto eles
devem ter rido de mim. Brincado com meus sentimentos... me iludindo...
Meu
estado de choque deve ter sido muito claro, pois ela riu e continuou:
-Você
não achou mesmo que ele a trouxe para cá porque a ama não é? Apesar de estar
evidente que você esta apaixonada. Menina tola! Ele so sentiu desejo por
você... estranho isso... ele deve ter cansado do belo –falou deslizando as mãos
pela cintura- e deve ter sido tentando pelo feio e comum- disse olhando-me dos
pés a cabeça – mas agora provavelmente esse desejo acabou. Afinal, ele gosta de
mulheres experientes, que saibam o que fazer...e se não muito me enganei, até a
noite de ontem você era virgem, pura e boba...
Senti
uma enorme necessidade de me defender, mesmo sabendo que não devia reagir e
deixá-la falar o que quisesse.
-Não!
Ele não me trouxe a este castelo por este motivo. Estou aqui apenas esperando
Abel! Faremos um acordo para que eu possa ter o cristal.
Layla
soltou uma gargalhada.
-Não
posso acreditar que você seja tão ingênua...
-O
que quer dizer?
-Ele
mentiu pra você! Abel não fará acordo nenhum. Estive com ele ontem e ele esta
esperando você no templo dele. Se quiser tirar a pergunte ao seu amado. Quero
ver se ele vai ser capaz de mentir agora que você sabe a verdade.
Eu
não precisava perguntar. Eu sempre soube que Abel não faria acordo nenhum, mas
queria desesperadamente ficar próxima a Endy, então aceitei que ele me
mentisse. E eu via nos olhos de Layla agora que ela não blefava.
Mas
mesmo assim... aquilo tudo teve um efeito de um tapa em meu rosto. Sem
satisfações sai correndo dali a deixando rir as minhas custas. Cega pelas
lagrimas só parei quando choquei-me em um peito musculoso. Pelo cheiro, não
precisei levantar a cabeça para saber que era Sayas.
-Emma,
o que houve?
-Por favor Sayas... vamos embora!
Os
olhos dele se tornaram gelados.
-O
que aquele desgraçado fez com você?
O
abracei e chorei. Como poderia contar ao meu amigo o que Endy tinha me feito? E
como explicar que fui eu a maior responsável pela noite de amor.
-Não
quero pensar agora... só preciso que me tire daqui.
Mudo,
ele consentiu. Sem esperar mais saímos daquele lugar e usamos toda a
experiência dos anos de ladrão de Sayas para burlarmos a segurança que envolvia
o castelo. Castelo esse que eu havia enterrado meu coração.
Agora
mais cedo que nunca eu queria chegar ao oráculo. Queria ir embora daquele
lugar. Tentaria levar Sayas comigo e deixaria Endy escondido em um canto do meu
coração em que eu nunca notasse.
Continua...