O Pilar

Capitulo XI

Por Josiane Veiga

 

 

Todo o meu corpo tremeu ao som da voz dele. Uma voz melodiosa... firme e quente. A mesma voz que me dirigia com atenção agora me era repugnante. Ou nem tanto... Oh, Deus... que turbilhão de emoções se coloca no meu coração. Eu tento odiá-lo! Ele merece esse ódio.. mas no fundo sei que não consigo...Maldito sejas tu Endy, que faz isso comigo!

 

Levantei os olhos e o encarei. Sayas se mantinha em minha frente como um escudo protetor, mas eu sabia que meu amigo não podia me proteger da ameaça que representava aquele homem. Ele havia se tornado de bandido a herói... e mais tarde voltou a ser bandido. Tudo simples, se Endy não tivesse roubado meu coração quando fez isso.

 

Não! Movi a cabeça tentando segurar as minhas lágrimas. Ele não roubou o meu coração! Eu não podia amá-lo. Era loucura! Como eu poderia amar alguém como ele. Frio, insensível... mesquinho e arrogante. Mas ao mesmo tempo meu corpo inteiro respondia a frieza dele como jamais havia respondido a ninguém. Nem ao menos a doçura de Sayas.  

 

Endy parecia abatido, mas eu me recusei a ter pena dele. Abatido? Devia ter passado a noite toda nos braços daquela morena... e eu ainda pensava em sua saúde. Burra!!!

 

De repente os olhos castanhos dele se chocaram com os meus. Eu desviei o olhar rápido.

 

-Você chorou Emma??  - ele perguntou como se não soubesse a resposta.

 

Segurei o impulso de lhe dar uma resposta malcriada. O que poderia dizer a ele? Que sim..quem eu havia chorado porque ele me abandonou após ter me beijado??? Que eu havia chorado porque queria desesperadamente que ele me amasse???

 

-O que queria? Você a deixou sozinha no meio deste mundo, que para ela é totalmente desconhecido...- falou Sayas.

 

Olhei meu amigo. Ele me deu uma olhada de canto e eu senti que ele me sorria com os olhos. Sim! Ele sabia! Ele sabia que eu estava apaixonada! E ele me defendeu. Meu coração se encheu de carinho por Sayas, tinha vontade de lhe cobri-lo de beijos. Mas eu senti que os dois entrariam em conflito. Sayas não perdoaria Endy pelo que ele fez.

 

-Eu vim em paz Sayas...- disse Endy como se predissesse um confronto entre eles.

 

-Não queremos a sua paz- gritou Sayas com raiva.

 

O esforço do grito fez com que Sayas tivesse uma contração de dor.

 

-O que houve com você?- Endy perguntou com os olhos arregalados.

 

-Você fala como se não soubesse, seu mesquinho desgraçado! – gritei

 

Enfim...eu reagi. Agora sim eu sentia a raiva esquentando meu sangue. Estava voltando ao normal e defenderia com a minha vida meu amigo. Meus olhos novamente se confrontaram com Endy e minha cabeça começou a doer... mas eu sentia uma força enorme em mim.

 

“Você tem belos olhos Emma”... a frase que ele havia dito a tanto tempo atrás soou em meus ouvidos e meus olhos se encheram de lágrimas. E lá mesmo, naquele lugar perdido no mundo eu chorei. Eu precisava chorar... desesperadamente.

 

Um silêncio pesado tomou conta do ar. E os dois homens praticamente nem respiravam respeitando meus soluços. Ficamos assim algum tempo...

 

Quando meu estado se tranqüilizou, o silencia ainda predominava no ambiente. Mas Endy logo resolveu falar:

 

-Abel tem uma proposta pra você Emma.

 

Então ele voltou por este motivo. Como eu o odiava. Eu queria matá-lo, mas meu semblante não resplandeceu nada.

 

-Que tipo de proposta?

 

-Ele lhe dará o cristal que abrirá as portas da fortaleza em que o seu povo esta trancafiado.

 

-E o que eu terei que fazer para que isso aconteça?

 

Seu rosto endureceu. Naquele momento, se eu já não confiava nele...Passei a desconfiar mais.

 

-Nada.

 

-Como assim nada?- perguntou Sayas desconfiado.

 

-Ele não quer nada. Vai dar a chave por livre vontade. Ele deixou claro que se cansou destas brigas entre humanos e deuses. Alem disso, ele estava olhando as suas aventuras Emma e gostou de você.

 

-Você acha que vai enganar quem com essas palavras? –disse Sayas

 

-Olha, eu não sei o motivo que ele resolveu dar o Cristal a Emma. Mas o fato é que ela devia aproveitar isso e pegá-lo logo.

 

Nem eu nem Sayas acreditávamos nas palavras dele. Mas não tínhamos muitas escolhas.

 

-O que eu devo fazer?

 

Endy deixou um sorriso aparecer em seus lábios. Ele sabia que eu tinha aceitado seu pedido e pareceu mais aliviado.

 

-Vocês vão ao castelo de minha mãe. Vamos ficar. Abel esta num ritual e só estará disponível aqui a alguns dias.

 

-Castelo da sua mãe???

 

Eu estava boba. Quem era a mãe dele? Eu não imaginava que ele tinha uma família. Mas me lembrei que durante uma de nossas lutas alguém falou que ele tinha mãe. Sayas também devia saber quem era Endy.

 

-Quem é você Endy? O que você é?

 

Seus olhos voltaram a endurecer.

 

-Já disse que isso não importa. Eu voltei pra te ajudar. Não esta satisfeita?

 

Não..eu não estava. Eu queria entender o que estava acontecendo. Como uma pessoa impulsiva, meu desejo era gritar com ele. Me jogar contra ele e obrigá-lo a falar tudo. Mas segurei meus impulsos. Ele me oferecia a oportunidade de voltar pra casa. Eu tinha que aproveitar!

 

-Nós iremos com você Endy.

 

Sayas me olhou surpreso. Minha decisão estava tomada.

 

Eu iria enfrentar Endy. E no seu território. E eu iria vencer.

 

Continua...

 

 

 

 

 

 

 

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