O Pilar
Capitulo X
Por Josiane Veiga
As
pedras pontiagudas do penhasco que eu escalava, eram uma das dificuldades
daquela viagem. Mas não era a pior. Meu coração era o que mais doía. Não podia acreditar que tudo aquilo havia
acontecido comigo. Porque eu??? Levantei os olhos ao céu procurando por algo
que me desse uma explicação. Porque Endy foi tão canalha?... Porque ele me
abandonou sozinha?... De certa forma eu sabia que não era só isso que doía..e
sim o fato de que eu realmente gostava dele. Vê-lo partindo com outra, atirando
meu coração ao léu foi seu pior ato para comigo.
Lembrei-me
do beijo. Como eu gostaria de arrancar o gosto dele da minha boca. Mas não
conseguia... estava nas minhas células..em cada parte de mim...
Com
dificuldades cheguei ao topo daquela montanha. Agora era só seguir reto ao sul.
Sempre ao sul me dizia Fogo Branco.... aquele tigre...como eu sentia sua
falta... e de Sayas então. Naquele ultimo dia em que viajei sozinha percebi o
quanto companhia faz falta..e o quanto eu gostaria de tê-los comigo... não ter
com quem conversar e desabafar. De certa forma eu sabia que se Sayas estivesse
lá eu poderia tirar toda aquela angustia do coração e ele ouviria com aquele
olhar suave e compreensivo.
Além
de solidão, eu sentia muito medo neste ultimo dia...andava pelas sombras, com
medo de tudo, mas nas ultimas horas de certa forma, um conformismo de tudo se
instalou em mim, e eu passei a aceitar a traição, a solidão e a tristeza. E o
medo foi embora também.
Duas
horas mais ou menos após a subida da montanha, eu consegui chegar a um local
plano. Peguei a água que eu havia guardado em uma garrafa e comecei a beber... desmotivada me aproximei de uma arvore. A sombra
era deliciosa e eu não tinha mais animo pra nada. Pq não dormir então? Dormir e
esquecer tudo que aconteceu...talvez se eu dormisse, quando acordasse, estaria
em casa e perceberia que tudo não havia passado de um pesadelo.
Me
sentei com as costas no tronco e fechei os olhos. Tentei descansar e traçar os
meus objetivos, existia uma chance de eu sair desta historia, e era chegar ao
oráculo de Abel. E eu conseguiria isso. De qualquer maneira!
-Emma...
Com
o susto, saltei de onde estava. Meus olhos não acreditaram no que viram...
machucado e esgotado estava Sayas a minha frente. Meus braços o envolveram em
um abraço e sem dizer nada o trouxe para mim. Ele descansou a cabeça em meu
peito e relaxou. Alguns minutos se passaram quando eu comecei a sair do torpor
em que me encontrava. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu perguntei:
-Amigo,
o que aconteceu com você??
Ele
sorriu.
-Talvez
eu não devesse ter confiado no Endy afinal... quando voltamos do rio, Fogo
Branco e eu, tinha uma mulher lá, ela conversou com Fogo Branco e o tigre
sumiu...quanto a mim, me bateu tanto e me teletransportou pra um lugar afastado
dali. Consegui voltar. E imaginei que você estaria sozinha....
-Vai
me vender a Abel? – Eu perguntei sorrindo. Já sabia a resposta.
-Não
Emma. Vou te ajudar a voltar pra casa.
-Você
disse que imaginou que eu estaria sozinha.
-Layla,
a mulher do rio, me contou que era amante de Endy.
Por
que ele me disse aquilo? Meu coração chorou, mas meus olhos se tornaram frios.
-Mas
eu não acredito nela Emma.
-Não
me importa amigo. Ele realmente foi com ela. Me deixou sozinha. Se não fosse
você aparecer eu teria que ficar sozinha no meio deste mundo que eu não
conheço. Jamais vou o perdoar pelo que ele me fez.
Sayas
colocou os dedos sobre meus lábios e sorriu. Era estranho o que eu sentia por
ele. Ele não me fazia ferver como Endy, mas me dava paz. Nunca tive um amigo
homem. Os meninos nunca se aproximavam muito de mim..me achavam estranha e pela
primeira vez eu sabia que tinha um
alguém em quem confiar.
-Vai
anoitecer... –ele suspirou
-É,
eu sei.. vamos procurar um bom lugar pra descansarmos?- eu perguntei assim que
ele fez menção de se levantar do meu colo.
-Vamos
sim. Eu to cansado.
Logo
percebi que Sayas não poderia fazer nada. Ele estava muito ferido. O fiz
sentar-se e fui catar lenha pra fazer uma fogueira. Ficaríamos ali mesmo. Andei ao redor e também recolhi algumas
frutas. Seria nossa janta. Quando me aproximei do nosso acampamento improvisado
percebi que Sayas já dormia.
Com
pouca habilidade consegui fazer a fogueira. Comi uma fruta e me deitei do lado
de Sayas. O abracei e deixei que nossos corpos nos esquentássemos.
Minha
mente me transportou de volta pra casa. Pensei em Ana e na sua paixão por
livros. Em minha família. Será que minha mãe estaria preocupada? O que será que
eles pensavam por causa do meu sumiço? Me imaginei a alguns dias atrás. Na
escola, com meus colegas. O quanto eu havia amadurecido eu nunca iria saber.
Mas o fato que da garota irresponsável restava pouco. Talvez apenas os olhos
irrequietos.
O
sono veio tarde, mas mesmo assim, quando Sayas me acordou na manhã seguinte, eu
estava recomposta. De certa forma, a presença dele me encheu de esperança e a
dor da traição de Endy amenizou.
-Você
esta bem?
Nós
já estávamos caminhando a algumas horas e eu sentia tanto temor pelo meu amigo.
Ele não reclamava, mas eu via pela contração em seu rosto que ele estava
sofrendo por causa dos ferimentos.
-Deixe-me
ver seus ferimentos, Sayas?
Ele
quis reclamar, mas eu já o havia empurrado ao chão. Ajoelhei-me do seu lado e
puxei sua camisa para cima. No seu tórax havia um ferimento no mínimo grave.
Com água eu lavei e rasgando um pedaço do vestido fiz uma bandagem.
-Estou
preocupada com você Sayas ...- murmurei...
-É
a primeira vez em toda a minha vida que alguém se preocupa comigo...- ele
sorriu- não fique assim... eu já sofri coisas piores. E sobrevivi..
-E...como
vai ser quando eu voltar pra casa? Você vai ficar aqui sozinho.
Ele
sorriu e alisou minha face.
-Eu
sinto... como se você fosse minha família Emma. Uma irmã...
-Sinto
o mesmo. Se eu conseguir voltar pra casa... gostaria que você viesse comigo.
Ele
me puxou e nós nos abraçamos naquele lugar. Eu já chorava e senti que ele
estava emocionado também. Mas Sayas jamais choraria. Não fazia parte da sua
personalidade.
-Nunca
vi cena tão emocionante em toda a minha vida.
Aquelas
palavras me tiraram de um estado de torpor. Irônicas, frias.. palavras que só
podiam ser ditas por uma única pessoa. Eu não sentia coragem de olhar pro dono
da voz, então foi Sayas que me afastou
e levantando-se com dificuldade respondeu a pessoa que havia destruído meu
coração.
-Eu
sabia que você ia voltar, Endy.
Continua...